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domingo, 11 de março de 2018

DOS DIREITOS HUMANOS DAS MULHERES. ALIÁS, DOS DIREITOS HUMANOS.

ANABELA BRÁS PINTO
Tanto feito. Tanto ainda por fazer. Falo de direitos humanos. Falo de mulheres. Aliás, falo de todas as pessoas a quem são limitados, violados ou negados os seus direitos.

Sou Presidente da Direção de uma Associação de Direitos Humanos. Chama-se Conceitos do Mundo. Porque é que fazemos sentido como associação e porque é que faz sentido a nossa ação e intervenção? Porque uma grande parte das pessoas não sabe os seus direitos humanos. Não sabe que os tem, que são seus, estão proclamados universalmente, são indivisíveis e interrelacionados e não sabe como se podem fazer valer deles.

Sim, não sabem.

Começa com as nossas crianças. Começa por não terem voz. Não terem voz na família, na escola, na comunidade.

Ontem numa formação humanista, falava com a Andreia, uma educadora de infância que trabalha numa organização muito especial. Ela contava-me que, numa consulta médica com o seu filho, quando uma das enfermeiras lhe perguntava “o que é que a criança tem?” ela voltou-se para o filho e questionou “respondes tu ou queres que eu responda?”. E é mesmo assim. Dar voz. As nossas crianças devem ter uma voz ativa no que a elas diz respeito.

Negamos esse direito, de ter uma voz, liberdade de expressão, às nossas crianças e principalmente às nossas meninas. Em substituição damos convenções obsoletas: “olha como estás sentada. Uma menina não se senta assim.”, “uma menina não diz isso”, “uma menina não faz isso” e por aí adiante. Confundimos orientação vocacional com construções sociais e muitas vezes trocamos desenvolvimento emocional por convenções.

Castramos as crianças da sua curiosidade, criatividade e em vez de lhes darmos o mundo, tiramos direitos fundamentais, como o direito a ser criança.

Tanta vez ouvi em tantas salas de aula onde vou contar “Estórias Interculturais e Humanas”: “porta-te bem”, “não fales”, quando o que mais quero e espero numa criança é que ela fale, questione e seja livre.

E crescemos assim, limitadas e limitados nos nossos direitos e a braços só com deveres e obrigações. Crescemos muitas vezes sem missão, visão e sem ambição estruturada e real.

Generalizo com a consciência de que estamos a mudar e que as novas mães e os novos pais já concedem uma boa brecha de liberdade aos seus filhos e filhas.

Assim, dos direitos humanos das mulheres ou aliás, dos direitos humanos, fica a consciência de que para reconhecermos os direitos do outro, há que respeitar intrinsecamente a sua identidade, valores e crenças, cultura e origem.

Como costumo dizer, direitos humanos tem toda a relação possível com o desenvolvimento pessoal: precisamos de nos sentir, perceber, respeitar, aceitar como pessoas para aceitar, respeitar, perceber e sentir o outro. Os direitos do outro. As suas visões. As suas opções. As suas orientações.

Como vai o seu desenvolvimento pessoal?

A MULHER COMO O ELO MAIS FRACO. ATÉ QUANDO?

LÚCIA LOURENÇO GONÇALVES
E na semana em que, um pouco por todo o mundo, se celebrou mais um Dia Internacional da Mulher, o tema tornou-se de certa forma obrigatório.

E neste sentido, se falarmos de zonas do mundo onde a mulher ainda é completamente marginalizada, onde ainda não tem voz, sendo inclusivamente tratada como um ser inferior, a celebração deste dia faz todo o sentido! Aliás, tenho esperança que ajude a derrubar muros e construir pontes, ferramentas que ajudem estas mulheres oprimidas pela sociedade em que estão inseridas a tornarem-se “visíveis” e aceites como seres humanos livres e capazes, como no resto do mundo já o são.

Entretanto, e passando para a nossa realidade europeia, se é certo que esta homenagem é justa, afinal é quase incompreensível que em pleno século XXI, ainda haja tamanha discrepância no tratamento entre homens e mulheres, também o é algumas dessas situações serem provocadas por mulheres. Aliás, é do conhecimento geral que as mulheres são as piores inimigas umas das outras, sendo inclusivamente as que mais prejudicam quem as rodeias, quando acham ser uma ameaça à sua ascensão! 

Também no que respeita ao mercado de trabalho, é inadmissível que em algumas entrevistas haja questões distintas para pessoas do sexo masculino ou feminino. Mais concretamente, quando as mulheres são questionadas se têm ou pretendem vir a ter filhos. Na minha opinião, esta questão denota uma enorme falta de consideração não só pela condição de mulher, mas também pela maternidade em si.

Sim, é certo que uma gravidez por tudo o que implica em termos de cuidados médicos, traduz-se em algum absentismo ao trabalho… Mas e então? Porque não são os homens questionados da mesma forma? Claro, estes não passarão nove meses carregando um filho no ventre com tudo o que isso implica, mas numa época em que, felizmente, cada vez mais homens primam pela diferença, colaborando e envolvendo-se a 100% na educação dos seus filhos também estes, após o seu nascimento, se vêm envolvidos no absentismo ao trabalho. E tristemente, muitas das vezes, essa questão é colocada em empresas que têm na linha da frente… mulheres! Qual é o problema afinal? Claro que não é difícil perceber que a causa será a possível quebra de rendimento da empresa durante esse período. Mas será assim tão significativo? Depois, também aqui se vê o quanto a união não faz parte do universo feminino, afinal e neste caso concreto, elas próprias criam as regras e as discrepâncias de tratamento. Algo que espelha o quanto a sociedade ainda precisa evoluir de forma a equiparar os sexos!

Esta realidade faz-me ver os jantares comemorativos, a publicidade em torno de uma data, como apenas um data, afinal, na hora da verdade são as próprias mulheres que se colocam abaixo da fasquia. Não sendo anti comemorações, para mim, dia da mulher é todos os dias, tal como o é para todos os seres humanos em geral, ou pelo menos deveria ser.

E se querem igualdade na verdadeira aceção da palavra, comecem por viver unidas no dia-a-dia. Protegendo-se mutuamente de uma sociedade onde a diferença de género ainda marca o futuro!

sexta-feira, 9 de março de 2018

AINDA O DIA INTERNACIONAL DA MULHER

JOSÉ CASTRO
Este foi um tema sugerido que acatei com o todo o prazer e que passo a analisar.

Referir por mera curiosidade que o dia de ontem, 8 de março, para além de ser o Dia Internacional da Mulher é igualmente o Dia Mundial do Rim.

Infelizmente a maioria dos Dias Mundiais, Internacionais ou Nacionais resultam de situações negativas da sociedade, que se pretendem sanar. Este é um deles!

Há milhares de anos que as mulheres são descriminadas pelo simples motivo de serem mulheres. Contudo, sempre houve sociedades em que a igualdade de género e até a supremacia por parte da mulher eram práticas comuns, sendo por vezes veneradas e até ligadas ao Divino e ao Sagrado.

A nossa cultura ainda é dominada pelo machismo consciente e inconsciente (resquícios do Direito Romano). Não são apenas as diferenças salariais e os excessos de trabalho doméstico a ter em conta, mas igualmente a linguagem não inclusiva que vulgarmente utilizamos e que subliminarmente mantém e promove a descriminação. (http://www.impic.pt/impic/assets/misc/img/informacao_institucional/igualdade_genero/GuiaOrientador_IgualdadeGenero-Out2011.pdf).

Há pois que admirar todas aquelas mulheres que deram a Vida a lutar pelos seus legítimos direitos e pela eliminação de quaisquer tipos de violência, seja psicológica ou física (doméstica, clitoridectomia).

É inadmissível como em pleno século XXI, Portugal e a “nossa” Europa, ainda esteja tão atrasada em algo que nos parece tão natural e normal! Nesse sentido sou totalmente Feminista!

Vamos complicar um pouquinho mais…

Curiosamente, ao continuar a falar somente de homem ou mulher poderemos incorrer em algum equívoco! Interessa apenas referir a Identidade de Género? Ou apenas o Sexo Biológico? E a Expressão de Género? E a Orientação Sexual?

Será que uma mulher heterossexual é descriminada de igual forma que uma mulher que seja homossexual? E uma mulher cisgénera bissexual de uma que seja transgénera assexual? Ou já nos esquecemos da simbologia dos triângulos rosa e negros invertidos?

Como estão as nossas organizações empresariais, desportivas, de ensino/educação, religiosas/espirituais para aceitar esta diversidade? Como estão afinal os nossos “mapas mentais,” provavelmente repletos de “preconceitos” para aceitar o outro como ele é! Afinal aquilo que (aparentemente) era preto e branco é uma palete de muitas cores…

Assim, quero finalmente, extrapolar o sentido da palavra mulher aqui empregue, a todos os Seres Humanos, que independentemente da identidade, sexo, expressão e orientação sexual, foram e são descriminados e dominados por outros seres humanos. É preciso uma mudança de consciência, quebrar preconceitos para surgir um Ser Humano, verdadeiramente humanizado na sua capacidade de Amar e de promover um mundo mais Ético, para todos os Seres (humanos e não humanos).

quinta-feira, 8 de março de 2018

ELAS...

ANABELA BORGES
Uma vez, fui convidada a participar numa conferência à luz do aprazível título: E L A S – EMPREENDEDORISMO NO FEMININO. Levantou-se um pequeno alarido, um burburinho próprio de quando se fala em especificidades. Neste caso, terá sido o termo ‘feminino’ a causa do alarido. Era essa a especificidade. E, neste caso – infelizmente, digo eu – o alarido levantou-se mais no feminino do que no masculino: que não, que não fazia sentido, nos dias que correm, falar-se de ‘empreendedorismo no feminino’, que coisa e que tal, até que alguém, também no feminino, ripostou que falar de ‘empreendedorismo no feminino’ lhe parecia uma questão machista.

Eu achei bem que se levantasse o debate muito antes de ter acontecido a própria conferência. Deu-se, então, o caso de o debate ter nascido antes da causa que o daria à luz (a conferência). Era um debate prematuro, mas com força para vingar. Eu achei bem. Debater é saudável.

E foi graças a essa liberdade de expressão de os debates nascerem a qualquer instante, que eu pude reflectir melhor sobre a questão que me levaria a dar o meu humilde testemunho na dita conferência. E pude pensar, embora não tendo chegado a resposta nenhuma em concreto, sobre o que poderia levar mulheres a acharem que não fazia sentido falar-se de empreendedorismo no feminino. 

A conferência correu muito bem e o debate que se seguiu também, com uma plateia perfeitamente equilibrada no que respeita aos géneros, masculino e feminino. 

‘ELAS’ surgia como um acrónimo interessante e bem conseguido: “E-empreendem; L-lideram; A-agem; S-sentem”.

E, de facto, foi uma tarde interessante de partilha e de afectos, porque, sobretudo, ‘elas agem’; ‘elas sentem’.



Sou mãe, esposa; também sou, obviamente, dona de casa; sou professora de Português; sou autora. Tenho publicados para cima de uma dúzia de contos e alguma poesia. Comecei a publicar em 2011. Guardo o que escrevo, desde que me sei ser dez reis de gente a gostar de escrever. Tenho sempre novas obras prontas para serem publicadas. Sou, constantemente, solicitada para participar em actividades relacionadas com a leitura e a escrita. E mantenho a publicação de um texto de opinião (quinzenalmente), neste espaço da revista online ‘Bird Magazine’.

Fui criada num seio familiar feminino empreendedor. Mas, acima de tudo, fui habituada a fazer pela vida. Sempre me foi dito que as coisas não caíam do céu, que era preciso trabalho, era preciso ir à procura das coisas.

Eu não sei se sou empreendedora. Mas quando tenho uma ideia em mente gosto de concretizá-la. E é isso o empreendedorismo: pôr em prática, concretizar, realizar. Se eu tenho algum empreendedorismo, é disso tão simplesmente que estou a falar. Nunca fui de baixar os braços, de desistir das coisas que me fazem sentido. Raramente deixo a meio uma tarefa ou projecto que iniciei. Não passo para os outros o que me compete fazer.

Mas como não? Eu pergunto: como não?

Com uma mãe doméstica, que tinha na costura o seu ofício e trabalhava dia e noite para ajudar ao sustento da casa, com seis filhos?



Eu costumo dizer que o meu dia tem exactamente 24 horas, nem mais nem menos um minuto, porque perguntam-me muitas vezes como é que consigo dar cumprimento a tantas tarefas. E costumo acrescentar como resposta: “há muitas coisas que eu não faço”. Há, sem dúvida, muitas coisas (que não vou estar aqui a enumerar) que eu não faço, coisas comuns, saídas, convívios e afins.



Quando se fala em Dia Internacional da Mulher, eu não o vejo como uma celebração da mulher (enquanto género), muito menos (como muitos, infelizmente, o entendem) como guerra de sexos. Sei que é assim que o mundo ocidental, na generalidade, o celebra e entende. Mas e o resto do mundo? E a vizinha aqui do lado?

O empreendedorismo é, certamente, um caminho mais árduo no feminino. Atravessemos as ténues cortinas da História, olhemos para os fios do tempo que tecem as sendas dos séculos. Passemos os olhos pela Literatura. Vejamos como o papel da mulher em acções empreendedoras está implícito, e, ainda assim, tantas vezes silenciado, desvalorizado, negado, passado para segundo plano. Vejamos o carácter empreendedor das personagens femininas de Agustina – as sibilas –, mulheres que fazem girar o mundo a partir do seu humilde meio, a partir do seu lar, do seu quintal.

Eu própria tenho como personagens centrais dos meus contos mulheres: mulheres rudes, mulheres sensíveis, mulheres sofridas, mulheres que se impõem, mulheres que gerem casas e negócios. Mulheres empreendedoras, capazes de levantar o dedo indicador quando é necessário.



É inegável que o caminho de uma mulher na área do empreendedorismo é muito mais trabalhoso: à mulher são pedidas outras responsabilidades; a sociedade olha-a, à partida, com desconfianças e descrenças. A mulher tem mais a provar para convencer, porque assim lhe é exigido. A mulher tem mais portas fechadas para abrir.

E isto é assim no mundo inteiro. É assim, com situações muito mais gravosas em determinadas partes do mundo (onde a expressão ‘empreendedorismo no feminino’ é tão-somente desconhecida), que nem lembra aqui ao diabo evocar. Que é das crianças noivas islâmicas? Que é das mulheres que não podem votar? Das que não podem tirar a carta de condução? Das que são prisioneiras, escravas na própria casa? Que é das mulheres sírias que são forçadas a pagar ajuda humanitária com favores sexuais? Que é das vozes femininas caladas por vidas inteiras?

Que comece agora o debate!

NO DIA DA MULHER

ALINA SOUSA VAZ
Na comemoração do dia Internacional da mulher, os textos afloram-se sobre a importância desta na sociedade! E se de ano para ano o conteúdo é sempre tido como debate, é porque, apesar de muitas mudanças e evoluções ao longo dos tempos, a questão ainda é preponderante de reflexão.

Falar sobre os direitos e objetivos da Mulher não é colocar o debate na esfera do femismo (ideologia de superioridade da mulher sobre o homem), mas na esfera do feminismo (conjunto de movimentos políticos, sociais, ideológicos e filosóficos que têm como objetivo comum os direitos baseados em normas de igualdade de género).

Muitos julgam que este debate não se coloca, pois, nos tempos modernos em que vivemos, a mulher ocupa já lugares de grande destaque. Contudo, os estudos revelam que, apesar desta evolução ser visível aos olhos de todos, ela, ainda, não é efetiva de igual modo entre homens e mulheres.

Quando me interpelam, de forma curiosa, sobre a minha participação, enquanto mulher, nas últimas eleições autárquicas, eu própria me interrogo o porquê de tal curiosidade, quando em nenhum momento vi que tive um papel mais ou menos preponderante do que um outro companheiro homem que tivesse sido ativo na sua ação. Eu aceitei um projeto, sem em nenhum momento pensar que estivesse a ser convidada pela “lei da Paridade” ou das “quotas voluntárias dos partidos”, adotadas por 23 dos 28 países da União Europeia, inclusive por Portugal (Lei Orgânica nº 3/2006. de 21 de agosto, implementada no ciclo eleitoral de 2009) que promoviam a igualdade de género na política, e que, por sua vez, contribuíram muito, como todos sabemos, para o aumento do número de mulheres neste âmbito.

Sem dúvida, e há estudos que o comprovam, que a sub-representação das mulheres na política é um fenómeno universal, no entanto, na minha opinião, acredito que será uma questão de duas, três gerações, para que as mulheres estejam em maior número na esfera política. A influência cultural ainda não as conduz, é certo, mas não tardará serão elas as mais interessadas em fazer parte de um processo neste âmbito. Não, por se julgarem mais competentes do que os homens, mas, porque, para além das suas habilitações, trazerem a este meio características inerentes da sua condição de mulher que tanto fazem falta a esta democracia que todos debatemos e defendemos.

Muitos são os fatores que tornam difícil a mudança, se Portugal, por volta de 2009 se situava em 42º lugar, com apenas 21,3% mulheres no Parlamento, hoje, a Lei da Paridade situa a nação em 29º lugar (34,8%), estando entre os 30 países mais paritários do mundo, em 193 países.

Hoje, a forma de fazer política continua muito igual àquela que se fazia no passado e mesmo com a implementação da lei, ainda não são percetíveis mudanças claras nas estratégias e na forma de fazer política. Para isto mudar, a mulher tem que ser mais participativa e ativa, fazer, também, lobbying (clubes de mulheres) para que haja cooperação entre elas e uma maior rede de relações de poder.

A mulher não deve ficar à espera do seu lugar deve, se assim o desejar, continuar a lutar por ele!

IGUALDADE NA DIFERENÇA

LUÍSA VAZ
Quis o calendário que esta minha crónica saísse no Dia Internacional da Mulher e dada a sua importância, considerei que deveria ser o tema escolhido.

Dado que sou mais versada em História e Política, foi nesse segmento que optei por fazer a minha abordagem sem desprimor de todas as outras em que as Mulheres se enquadram. Olhando para o panorama político, não podemos deixar de pensar em Indira Gandhi ou em Margaret Thatcher, por exemplo que no seu tempo e pela importância das lutas que travaram nas suas sociedades, mereceram sem sombra de dúvida, o seu lugar na História dando uma nova dimensão ao papel social, cultural e político da Mulher que ainda hoje servirá de inspiração a muitas.

Se olharmos para os cenários da Primeira e Segunda guerras mundiais, vemos como esses eventos mudaram a forma de as Mulheres se posicionarem, a forma como multidisciplinaram o seu tempo e as suas competências e a forma como o seu papel foi essencial para o apoio de toda a máquina de guerra. Lembremo-nos que esta assentava na indústria e uma vez que a maioria dos trabalhadores eram homens e estavam a combater, foram as Mulheres quem teve que avançar para fazer os países funcionarem e continuarem a produzir. 

Também na Saúde, foi visível um aumento das Mulheres enfermeiras e mesmo médicas nos hospitais e no cuidado dos feridos.

O fim do século XIX e todo o século XX foram tempos de afirmação para a Mulher, foram tempos em que ela abraçou novos estudos, o aumento de Mulheres nas Universidades teve uma subida exponencial o que levou a que se iniciassem em novas carreiras profissionais até aí impensáveis e a Mulher deixou – pelo menos a americana e a europeia – o seu papel tradicional de esposa e mãe, de cuidadora da família passando a ser vista como alguém capaz de investir numa profissão com todos os dilemas que isso possa trazer.

Também não nos podemos esquecer dos Movimentos que nasceram pela mão de Mulheres pelo Direito ao Voto ou nas lutas fabris. No caso do que ficou internacionalmente conhecido pelo Movimento das Sufragistas, que começa em 1893 na Nova Zelândia, tem na americana, Susan B. Anthony, a sua maior expressão.

E é a partir deste momento que temos que começar a pensar. Um Movimento que se iniciou no Hemisfério Sul no fim do século XIX encontra ainda barreiras em países como a Arábia Saudita que tem ao longo do tempo, embora de forma controlada dado direitos às Mulheres ou regiões como o Iémen ou outros onde isso é só uma miragem.

No entanto, é preciso alguma cautela quando lemos sobre este assunto pois a tendência para dar corpo a Teorias como a da Igualdade de Género ou mesmo de sexo tende a encontrar eco nestas alturas em que as Mulheres são confrontadas com a História.

É por demais evidente que eu concordo com a Igualdade na Dignidade do Tratamento e das Oportunidades mas sempre tendo presente que por um lado, géneros têm a música, a arquitectura e a literatura – no que toca a sexo, há dois: o feminino e o masculino e cada um deve ser respeitado na sua identidade e singularidade - e por outro, as Mulheres não se devem sentir culpadas por defenderem a sua feminilidade ou as características que as distinguem dos homens ao invés de optarem por copiar os seus comportamentos ou os seus padrões sociais.

O Dia Internacional da Mulher deve ser celebrado em todo o seu esplendor para relembrar às que já têm Direitos que estes não são adquiridos mas foram conquistados com lutas e em tempos difíceis e muito particulares mas acima de tudo, para que se possa lutar por todas aquelas – e são muitas, infelizmente – que não têm acesso ao mais básico da Dignidade Humana sendo tratadas como objectos com o fim único de entretenimento.

Por todas estas razões e porque não me sinto ofendida com actos de cavalheirismo ou por pedir ajuda a um homem sempre que considero apropriado e por não me sentir inferiorizada por geneticamente não conseguir concluir as mesmas tarefas, defendo e defenderei sempre a Igualdade mas na Diferença porque é na conjugação do masculino e do feminino – do Ying e do Yang- que se sustenta a sociedade humana e querer alterar essa realidade transformando-a num paradigma obsoleto é querer impor uma realidade andrógena e robotizada que nos desproverá da nossa essência e da nossa beleza.

Atrevam-se por isso a ser Diferentes e Únicas sem medo de julgamentos de quem disso tem medo e insiste em que sejamos todos iguais porque não somos. Somos diferentes e devemos ter disso orgulho e não medo, devemos saber incutir no outro respeito por nós e não abrir a porta à unicidade.

Feliz Dia Internacional da Mulher.

quarta-feira, 7 de março de 2018

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

PAULO SANTOS SILVA
Costuma-se dizer, que não se deve meter a “foice em seara alheia”. Ainda para mais, quando falamos de um homem que pretende falar de mulheres. No entanto, e porque a data é demasiado importante, eu vou arriscar a fazê-lo…

Comemora-se amanhã o Dia Internacional da Mulher.

A data foi instituída oficialmente no dia 8 de março, pasme-se, apenas nos anos 70 e na sequência da ONU ter designado o ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher. Pretende-se prestar homenagem nesta data a todas as mulheres, bem como lembrar as conquistas sociais, políticas e económicas das mulheres, independente da sua nacionalidade, etnia, língua, cultura, economia ou política.

A data foi escolhida como forma de homenagear as mulheres operárias têxteis russas que neste dia se manifestaram fazendo uma greve contra a fome, o Czar Nicolau II e contra a participação do país na Primeira Guerra Mundial. Os protestos foram brutalmente reprimidos, tendo de alguma forma precipitado o início da Revolução de 1917. Assim e desde a Revolução de Outubro, este dia era comemorado como o dia da “heroica mulher trabalhadora” tendo sido adotado a partir do ano de 1945 pelos países do chamado “bloco comunista”. A comemoração deste dia nesses países, foi transformada num momento de propaganda partidária, uma vez que de alguma forma se celebrava o papel da mulher, mas dentro dos padrões em que ele estava instituído naquela sociedade e não naquele que deveria ser – a igualdade de género a todos os níveis. Talvez por isso, estas comemorações tenham sido a determinado momento um pouco ridicularizadas. Há, no entanto, países que ainda hoje comemoram este dia fazendo dele feriado - a Rússia, a Bielorrússia, a Macedónia, a Moldávia e a Ucrânia.

A primeira celebração deu-se a 28 de fevereiro de 1909 nos Estados Unidos, tendo sido seguida de manifestações e marchas em outros países europeus nos anos seguintes, nomeadamente durante a semana de comemorações da Comuna de Paris (o primeiro governo operário da história, fundado em 1871 na capital francesa por ocasião da resistência popular ante a invasão por parte do Reino da Prússia), que ocorriam no final de março. As manifestações uniam o movimento socialista (que lutava por igualdade de direitos económicos, sociais e trabalhistas) ao movimento sufragista (que lutava por igualdade de direitos políticos). Estas comemorações foram frequentes nas décadas de 10 e 20, tendo posteriormente caído no esquecimento e sido recuperadas apenas na década de 60, através dos vários movimentos feministas.

A grande questão é, será que ainda hoje numa sociedade que se diz evoluída e moderna, ainda faz sentido comemorar data? A resposta é óbvia. Sim. Primeiro, porque a evolução e a modernidade ainda não chegaram a todos os países do mundo, o que faz com que ainda se cometam um sem número de atrocidades contra as mulheres. Em segundo lugar, porque mesmo nos países que se dizem desenvolvidos ainda falta mudar muitas mentalidades para que o papel da mulher seja reconhecido na totalidade, com as diferenças inerentes às caraterísticas de género, mas respeitando os verdadeiros princípios da igualdade de oportunidades e igualdade de tratamento.

Talvez, assim, um dia seja possível abandonar (por exemplo) as quotas que mais não fazem do que “obrigar” a que a igualdade de género seja uma realidade, quando apenas o mérito e a competência deveriam valer no reconhecimento pessoal e profissional de uma pessoa.

sábado, 3 de março de 2018

IGUALDADE DE GÉNERO COMEÇA EM CASA

TIAGO CORAIS E A SUA ESPOSA, ANDREIA VASCONCELOS
Para a semana, dia 8 de Março celebra-se o dia Internacional da Mulher e coincidência ou não a minha mulher vai estar fora a trabalho e pela primeira vez terei que durante 4 dias, não só fazer todas as tarefas da casa como tomar conta da minha filha. Por isso, dedico este artigo a todas as Mulheres que lutaram e lutam ainda para que Igualdade de Género seja uma realidade.

É inacreditável como há mais ou menos 100 anos a mulher não votava, a sua grande maioria não trabalhava, o seu lugar era a cuidar do lar e era dependente financeiramente do homem. Segundo a lei eram inferiores aos homens e como ser humano, sinto-me envergonhado por durante tempo de mais esta injustiça e irracionalidade ter persistido e aceite pelo status quo.

Hoje, a realidade mudou muito e temos mulheres a liderar países influentes e poderosos, a liderar nas empresas mais bem sucedidas e a liderar organizações mundiais. A serem uma referência não só para outras mulheres como também para muitos homens. Mas, apesar de todas as conquistas alcançadas ainda hoje a desigualdade entre Mulheres relativamente aos Homens é gritante, como demonstra o Índice de Igualdade de Género 2017.

O Índice de Igualdade de Género é uma ferramenta útil e robusta que ajuda a União Europeia a medir o impacto das políticas implementadas de igualdade entre géneros. Este Índice mede a evolução num período de 10 anos de 8 parâmetros de Igualdade de Género:

1- Poder.

2- Saúde.

3- Violência.

4- Trabalho.

5- Rendimento.

6- Conhecimento.

7- Ocupação do tempo.

8- Desigualdades cruzadas: educação, tipologia da família, deficiências, idade e país de origem.


O relatório elaborado pelo Instituto Europeu para a Igualdade de Género (European Institute for Gender Equality – EIGE, http://eige.europa.eu/rdc/eige-publications/gender-equality-index-2017-measuring-gender-equality-european-union-2005-2015-report), sobre Igualdade de Género 2017 (que recomendo a sua leitura atenta) ressalta que apesar de todos os esforços e de melhorias, ainda existe um longo caminho.

O resultado médio do índice de igualdade de género nos 28 países que formam a União Europeia é de 66,2 e nos últimos 10 anos apenas subiu 4 pontos. O país onde existe mais igualdade entre as Mulheres e os Homens é a Suécia com uma média 82,6 pontos. O País que teve o maior progresso da década foi a Itália que aumentou 12, 9 pontos, mas mesmo assim está abaixo da média da União Europeia, ou seja abaixo dos 66,2 pontos.


HOMENS PORTUGUESES NO GRUPO DOS QUE MENOS FAZEM TRABALHO DOMÉSTICO

Um dos indicadores mais vergonhosos para os homens é mesmo em casa, segundo este relatório apenas 34% dos Homens Europeus fazem trabalho doméstico, comparativamente com 79% das Mulheres. Pior, nos últimos 10 anos não é evidenciada qualquer melhoria nesta área. Infelizmente os Homens Portugueses em conjunto com Italianos, Búlgaros e Gregos são os que menos ajudam em casa. Apenas 40% das Mulheres ocupam o seu tempo em actividades sociais, em contraponto com 60% dos Homens. Há por isso que DESENVOLVER ESTRATÉGIAS QUE PROMOVAM A IGUALDADE EM CASA. 


SER MÃE PENALIZA-A FINANCEIRA, MAS SER PAI IMPULSA OS SEUS RENDIMENTO

Infelizmente os dados evidenciam que na UE ainda existe uma grande diferença salarial entre os Homens e Mulheres, apesar dessa diferença na última década ter-se esbatido significamente. Em 2006 uma Mulher em média ganhava menos 39% do que o Homem e em 2014 essa diferença passou para os 20%. Um dado interessante é que a diferença salarial média entre mulheres solteiras e homens solteiros é de 14%, mas se compararmos os dois sexos com o estado civil de casados a diferença cresce para os 30%. Casados e com filhos a diferença é 38%. Já entre mãe solteira e pai solteiro a diferença é de 40%. Aparentemente ser mãe é penalizador financeiramente e ser pai impulsa os seus rendimentos, sem percebermos se existe ou não uma relação directa, ou é apenas uma coincidência.


MULHER DUPLAMENTE PENALIZADA NA REFORMA

Outro aspecto que é duplamente penalizador para a Mulher é a pensão de reforma. Na maioria dos Estados membros da UE, a pensão de reforma está baseada no salário e nos anos de contribuição. Como não só o salário é superior nos Homens, também o tempo de trabalho das Mulheres é em média mais curto 5 anos, muitas vezes por causa de abdicarem das suas carreiras para educar os seus filhos. Assim sendo, em 2012 a média das pensões de reforma dos Homens eram 38% superiores às das Mulheres e infelizmente essa diferença aumentou para 40% em 2014. Por exemplo na Alemanha já em 2012 esta diferença era de 45%. Há por isso, aqui que alterar as regras para pelo menos GARANTIR QUE A MULHER AO SE SACRIFICAR PELA CASA E PELOS FILHOS NÃO SEJA PENALIZADA NA REFORMA.


QUOTAS CONTRIBUEM PARA A IGUALDADE DE GÉNERO

Confesso que não fui um grande entusiasta da “Lei de Paridade”, implementada em 2006 que obrigou os partidos a colocarem pelo menos 33% de ambos os sexos nas listas quer para a Assembleia da República, para o Parlamento Europeu e para os órgãos autárquicos. No entanto não há dúvidas que passados 12 anos esta medida permitiu que o Parlamento Português tenha 35% de deputadas e apesar de ainda estarmos longe dos 47% de mulheres no Parlamento Sueco, somos o 8º país com a maior representatividade percentual de deputadas. Assim sendo, só podemos concluir que a “Lei de Paridade” cumpriu a sua missão.


No Reino Unido, com círculos uninominais é mais difícil desenvolver uma lei como a Portuguesa para promover maior Igualdade de Género no Parlamento Britânico, mas no Partido Trabalhista Britânico existem círculos eleitorais em que apenas as Mulheres se podem candidatar. No interior do Partido definem em muitos dos cargos a obrigatoriedade de a Mulher estar representada pelo menos 50%. Em Oxford, o Partido Trabalhista desafia as Mulheres para assumirem as lideranças. No Parlamento são representados pela deputada Annelise Dodds, a Presidente do Partido, a líder e vice-líder da Câmara de Oxford são Mulheres. Desta forma existem 45% deputadas Trabalhistas enquanto apenas 21% de deputadas Conservadoras. Sendo por isso, muito encorajador seguir as medidas implementadas pelo Partido Trabalhista em todo o Reino Unido.


Outro bom exemplo de implementação de quotas femininas é nas empresas. Em 2007 a Noruega definiu em lei a obrigatoriedade de pelo menos 40% dos seus directores serem mulheres ou as empresas poderiam ser dissolvidas. Os resultados falam por si, o rácio de mulheres nos Conselhos de Administração passou de 6% em 2002 para 42% em 2016. A Bélgica, França e Itália nos 5 anos seguintes seguiram o exemplo da Noruega e definiram quotas de 30% a 40% nos lugares cimeiros das empresas. Caso as empresas não cumpram sofrem sanções que poderão ser multas, dissolução das empresas, ou mesmo a proibição de pagamento ao directores existentes. Já a Alemanha, Espanha e Holanda implementaram leis mais pedagógicas e preferem a definição mas sem sanções. O Reino Unido também optou pela definição de directrizes que estabeleçam quotas femininas na gestão das empresas mas apenas como recomendação.


Na União Europeia o rácio de Mulheres nos Conselhos de Administração passou de 10% para 22% de 2005 a 2015, infelizmente Portugal nesta área tem muito que melhorar é o 7º a contar do fim com pouco mais 10% das Mulheres a integrarem os Conselhos de Administração.


É notório o esforço da União Europeia para catalisar a Igualdade de Género, mas existe uma grande contradição nas suas instituições. Quer o Presidente da Comissão Europeia, o Presidente do Conselho Europeu, como o Presidente do Parlamento são Homens. O Banco Central Europeu nunca teve uma Presidente e apenas conta com 10% de membros femininos no Conselho de Administração. Há por isso, que colocar regras que obriguem por exemplo se o Presidente da Comissão Europeia é um Homem, o Presidente do Conselho Europeu seja uma Mulher. No Parlamento devem alternar os mandatos em que apenas Homens ou Mulheres se podem candidatar. No Banco Central também se deveria colocar a rotatividade entre Homens e Mulheres na Presidência e quotas no Conselho de Administração. Para que o esforço da União Europeia em prol de uma sociedade mais IGUALITÁRIA ENTRE MULHERES E HOMENS seja mais efectivo será importante que comecem pelas suas instituições. A LIDERANÇA É FEITA PELO EXEMPLO.

Definitivamente as quotas contribuem para uma mudança na atitude e no debate político sobre a igualdade de género e devem ser alargadas a mais sectores da Sociedade. No entanto, as quotas por si só não resolvem todos os problemas de desigualdade de género, como observamos ao analisarmos o Índice de Igualdade de Género. É preciso nas escolas, nas empresas e na “rua” promover a Igualdade de Género. Mas principalmente é EM CASA QUE SE EDUCA PARA A IGUALDADE DE GÉNERO.

Quando há dois meses a minha mulher abordou a situação de por causa do trabalho teria que durante 4 dias se ausentar do Reino Unido (local onde vivemos) e apesar de os seus colegas de trabalho compreenderem que não pudesse os acompanhar na deslocação fora do Reino Unido, a minha mulher gostaria de ir. Eu incentivei-a a ir e disse-lhe que é uma questão de coordenação. Tenho a noção que se fosse no meu caso eu não perguntaria, mas apenas informava. É lógico que sou da opinião que o trabalho não deve estar acima da família e da educação dos filhos, mas se houver boa vontade das partes, uma boa coordenação em casa e familiar as carreiras de cada um não são prejudicadas.


Tenho uma filha e quero que ela viva num MUNDO ONDE A IGUALDADE DE GÉNERO SEJA UMA REALIDADE. Irei incentivá-la a que ela tenha a ASPIRAÇÃO de alcançar os seus sonhos, que não seja prejudicada pelo seu sexo e principalmente que seja RESPEITADA POR SER MULHER.

TEOREMA DO SOUTIEN

JORGE NUNO
Há dias assim! Quantas vezes já acordámos a trautear uma canção e já depois de almoço a canção ainda teima em persistir na cabeça, os lábios a mexer e uns sons a sair, mesmo que em tímida surdina? Mas não, desta vez eu acordei com algo estranho: “Teorema do Soutien”. Como não me tem saído da cabeça e como não tenho por hábito rejeitar ideias que surgem do “nada”, mesmo que à partida pareçam estúpidas, achei por bem fazer com que desse título a esta minha crónica, claramente ainda sem saber o que fazer com o título.

Em boa hora aceitei o convite e desafio, do editor da BIRD Magazine, para escrever crónicas quinzenais. Escrever por “obrigação” e com regularidade, parece algo estranho, mas para quem gosta do que faz tudo flui com normalidade e qualquer obstáculo é facilmente ultrapassado. A verdade é que a primeira crónica que escrevi, para esta revista on-line, foi publicada em 3 de janeiro de 2015 e totalizaram 73 crónicas até agora! Nunca me faltou motivação, nem temática. Fazendo uma retrospetiva, deparei-me com títulos algo estranhos, insólitos ou, simplesmente, apelativos… o que pode motivar a uma leitura do conteúdo, já que é aguçada a curiosidade. Entre muitos outros, lembro-me de: “A cigarra alegre e a formiga preguiçosa”; “A morte, o insólito e a prostituição”; “Quando a raposa guarda o galinheiro”; “Vacas que riem… vacas felizes”; “As minhas cuecas Channo”; “O Pai Natal escondeu o Menino Jesus”… Normalmente, parto para a escrita sem me preocupar com o título, ou até mesmo sem a ideia-chave da mensagem, que vai aparecendo à medida que se vai caminhando. Desta vez, antes de ligar a ignição para arrancar, já tinha título! 

Neste caso, começo por dizer que não sou especialista em soutiens, não irei falar dos enormes peitos da auxiliar de ação educativa da escola, nem irei dar destaque ao encerramento da fábrica da conceituada marca de roupa interior feminina – Triumph –, embora nesta última parte houvesse muito que abordar, que passaria por palavras como “desemprego”, “crime económico”… Sim, já que o secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos, considerou tratar-se de “um crime económico, preparado premeditadamente pela Triumph Internacional, no sentido de fechar a fábrica, passando por uma fase intermédia, que foi entregar por um ano a produção à Gramax”; ou então a entrega, no Conselho de Ministros, de uma peça de lingerie pelos trabalhadores da mesma fábrica, com uma dirigente do sindicato dos têxteis do sul afirmar: “Nós levámos um cinto de ligas para simbolizar a ida do senhor ministro da Economia [Caldeira Cabral] à empresa, quando apadrinhou todo este processo, a passagem da Triumph para a TGI – Gramax”. Como está expresso, foi um “cinto de ligas” e não um “soutien”, o que obrigaria a mudar o título de “O Teorema do Soutien”, para “O Teorema do Cinto de Ligas”, que deixaria de fazer sentido, face ao ocorrido neste meu acordar.

Lembrei-me que talvez o Diogo Piçarra tenha acordado a trautear uma canção que não existia, tal como eu com “O Teorema do Soutien”. Como é um compositor e cantor que está na berra, com muito sucesso, terá entendido, naquele dia do ano de 2016, que valeria a pena desenvolver a ideia e transformar o seu trautear numa verdadeira canção, digna desse nome, guardá-la e apresentá-la na altura certa, o que aconteceu no Festival da Canção – agora revitalizado com a surpreendente vitória de Salvador Sobral na Eurovisão. E valeu mesmo a pena, pois Diogo Piçarra teve a pontuação máxima do júri e dos espectadores, na segunda semifinal, e seria uma das canções favoritas à vitória final. Dois dias depois, senti o estrondo enorme da uma “bomba” ao ouvir falar da sua desistência deste festival, após pairar no ar a ideia de plágio. Tive conhecimento que o maestro António Vitorino de Almeida se apressou a ouvir as duas canções – “Canção do Fim” e “Abre os Meus Olhos” – e a afirmar que a canção levada ao Festival “não é um plágio, mas igual”, argumentando ainda que “a música é muito simples, é elementar e nestes casos é mais fácil acontecer plágios. Mas felicito o músico por nunca ter ouvido um cântico da IURD”. A Igreja Universal do Reino de Deus, numa nota enviada à agência Lusa, também se apressou a esclarecer que “não detém qualquer direito sobre a música [‘Abre os Meus Olhos’] que tem sido comparada com a ‘Canção do Fim’ e que Diogo Piçarra não tem qualquer ligação à IURD”. Li também que o cântico da IURD é plágio de uma terceira canção, indicando qual.

Fixando-me nestas duas, ouvi a versão pelo pastor Walter, no vol II de “Cânticos do Reino” e novamente a “Canção do Fim”, pelo Diogo Piçarra, e a estrutura musical é a mesma, com uma letra diferente. Fui à página do Facebook do Diogo Piçarra e li que decidiu terminar a sua participação no Festival da Canção. Atentamente, apreciei o que escreveu:

– “Não quero deixar de dizer o orgulho que poderia ser representar o meu país num concurso como a Eurovisão, mas já não faz sentido nenhum sequer tentar ganhar essa oportunidade. A minha carreira e vida não depende disto (…)”;

– “A simplicidade tem destas coisas e só quem não cria arte estará nesta posição. Faz parte da vida de um compositor e é algo que todos nós iremos ’sofrer’ a vida toda (…);

– “A minha consciência está tranquila na medida em que eu próprio sou quem está mais surpreendido no meio disto tudo: nasci em 1990, não sou crente nem religioso, e agora descobrir que uma música evangélica de 1979 da Igreja Universal do Reino de Deus se assemelha a algo que tu criaste, é algo espantoso e no mínimo irónico (…)”.

Mais tarde, numa entrevista na TV, gostei da sua postura, do seu ar sereno, a mostrar elevação.

Para não vir também a ser acusado de plágio, fui pesquisar “Teorema do Soutien”, no Google, e encontrei coisas dispersas, ora relacionado com “Teorema” ora com “Soutien”, mas não a junção dos dois. Intimamente, esperava que alguém já tivesse descoberto esse teorema, o que me levaria a dizer que “já não faz sentido nenhum ganhar a oportunidade de criar o teorema” e punha um ponto final no assunto. Assim, estou à vontade para prosseguir com a minha investigação, quem sabe… relacionando tamanho e peso dos seios com a elasticidade do material, para chegar a conclusões mais profundas relacionadas com a própria vida. Até lá.

quinta-feira, 1 de março de 2018

PORTUGUESES, OS MELHORES DE TODOS

ARTUR COIMBRA
1. Nós, os portugueses, somos um povo muito especial, marcado historicamente pela alegria e pelo fado, pelas descobertas e pelo fim do império, altura em que os aventureiros ficaram desempregados. Marca-nos a grandeza e a atrofia, o dar novos mundos ao mundo e a clausura entre as quatro paredes deste “jardim à beira mar plantado”, a guitarra e o folclore.

Somos um povo de contrastes, se calhar como os outros povos, mas seguramente mais que os outros povos.

Um povo incapaz de chegar a horas ao emprego, à reunião ou ao espectáculo.

Um povo que demonstra uma falta de civismo na estrada e até na rua, de bradar aos céus.

Um povo categoricamente bairrista e que tem uma personalidade colectiva imensamente forte, que lhe permite suportar, resignado, ditaduras, crises económicas, falências do Estado e dos particulares, intervenções externas.

Um povo que cai e logo se levanta, um autêntico “zé sempre em pé”, que é o orgulho colectivo.

Um povo com a sua forte idiossincrasia, uma alma imensa, de filantropia, de humanitarismo, de solidariedade.

Um povo adorável e hospitaleiro, que trata os estrangeiros como nenhum outro, que procura sempre entender e ajudar quem nos visita, ao contrário do que os portugueses passam (autênticas “passas do Algarve”) quando atravessam a fronteira.

Um povo muito especial que se miscigenou por esse mundo além e que é produto de fortes culturas que por aqui foram sendo espalhadas ao longo dos séculos (celtas, romanos, suevos, árabes, judeus, para referir algumas).

Um povo de antes quebrar que torcer e que tem na saudade a sua marca distintiva e emblemática, que povo nenhum no mundo consegue apreender e experienciar!

Um povo que ocupa um pequeno rectângulo no canto ocidental da Europa mas que se espalhou pelo planeta, deixando marcas culturais ainda hoje patentes em tantos lugares; que traficou escravos e foi lavando a alma com boas acções e obras da misericórdia para garantir um lugar no céu.

Um povo ainda hoje espalhado por esse mundo além, numa diáspora que identifica a nossa história e que é patente na presença de 5 milhões de portugueses e de luso-descendentes dispersos pelos cinco continentes.



2. Um povo assim, assente num pequeno país, não cabe no seu território nem no seu passado e lança-se claramente para o futuro.

Um exíguo país, nem sempre com a auto-estima levantada ao nível merecido, tem dado ao mundo homens e mulheres de imenso olhar, de talentoso valor e de incrível capacidade de criar, lutar, investigar, dar-se aos outros, às artes, às ciências, ao desporto, à política, orgulhando quem aqui permanece, sem coragem para assumir a aventura e partir para o desconhecido.

E nem falo dos imorredouros descobridores que a história universal legou, mas de portugueses que mais recentemente se foram impondo em diferentes universos.

Um pequeno país que deu e continua a dar políticos de relevância europeia e mundial, apesar de nem sempre consensuais no seu próprio reino.

Por exemplo, António Guterres que, depois de ter exercido o cargo de Alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados (2005-2015), foi eleito Secretário-Geral das Nações Unidas, desde 1 de Janeiro de 2017.

Ou Durão Barroso, que foi presidente da Comissão Europeia (2004-2014).

Ou Vítor Constâncio, vice-presidente do Banco Central Europeu em fim de comissão (2010-2018).

No campo desportivo, por exemplo, Portugal sagrou-se campeão da Europa de futebol em 2016 e de futsal já este ano. Feitos inéditos no seu historial, autêntica epopeia colectiva de um povo em transe.

E tem o melhor jogador do mundo em cada uma dessas modalidades (os mágicos Ronaldo e Ricardinho).

Pelo meio, em 2017, venceu pela primeira vez o Festival da Eurovisão com uma canção bem improvável interpretada pelo Salvador Sobral. Fantástico!

Portugal dá cartas no automobilismo, nas motos, no ciclismo, no atletismo e em tantas outras modalidades.

Voltando à música, depois de Amália, o mundo rende-se a Mariza, autêntica embaixatriz da alma lusíada nos palcos das grandes cidades europeias e transatlânticas.

Na literatura tem um Prémio Nobel, José Saramago.

Portugal tem ainda uma plêiade de fabulosos investigadores, académicos e cientistas, um pouco por todo o mundo, que enriquecem a ciência e a medicina com o seu trabalho e as suas fantásticas descobertas. É seu paradigma o professor António Damásio, que trabalha nos Estados Unidos.

É claro que internamente, temos gente da melhor em tantos sectores de actividade, que nos orgulham e tornam mais ricos e felizes.

Não fora a escassa auto-estima que temos (certamente vinda do fado e da saudade…), poderíamos afirmar convictamente que somos os melhores dos melhores do mundo.






Mas é que somos mesmo, caia o Carmo ou a Trindade!

sábado, 24 de fevereiro de 2018

PORTUGAL NA LISTA NEGRA DOS MAUS TRATOS A IDOSOS

ANTONIETA DIAS
Numa lista de 53 países europeus, da OMS, Portugal está no grupo dos cinco piores no tratamento aos mais velhos: 39% dos idosos são vítimas de violência.

A Organização Mundial de Saúde(OMS), que analisa, no Relatório de Prevenção contra os Maus Tratos a Idosos, as agressões nos últimos cinco anos contra os mais velhos, num Universo de 53 países europeus, é clara: “Portugal tem um sério problema no que respeita aos maus tratos contra idosos.”

E o cenário é negro: quase 40% dos nossos idosos são vítimas de abusos. Desta lista negra fazem parte apenas mais quatro países: Sérvia, Áustria, Israel e República da Macedónia.

Por dia, na Europa, quatro milhões de idosos são vítimas de humilhações, quer físicas, quer psicológicas.

Bofetadas, murros, socos, queimaduras no corpo e cortes propositados são algumas das agressões mais comuns praticadas contra a terceira idade. DN Portugal, 10 de Julho de 2011.”

A Segurança Social estima que sejam já 25 mil os idosos em risco e sem apoio, num universo de quase 400 mil pessoas com mais de 65 anos que vivem sozinhas em Portugal, referiu numa notícia o Diário de Notícias. 

Uma publicação do DN de 2011.12.12 12, refere: "São números preocupantes", disse à agência Lusa Pedro Mota Soares, à margem do seminário "Sociedade Civil e Envelhecimento - Desafios do Envelhecimento Ativo e da Solidariedade entre Gerações", que decorre em Lisboa.

O ministro adiantou que, com o Censos 2011, já se conhece a dimensão do envelhecimento: "Cerca de 20 por cento da sociedade portuguesa tem 65 anos ou mais". 

"Sabemos das situações de risco e, por isso mesmo, queremos agir de uma forma muito determinada e este Ano Europeu do Envelhecimento Activo também terá de acautelar todo o fenómeno que hoje existe dos idosos que estão colocados em situações de risco", afirmou.

Nesse sentido, adiantou, tem sido feito um trabalho mais direto com as instituições sociais, com os serviços da Segurança Social para se conseguir fazer a sinalização desses casos e "garantir protecção às pessoas dentro das instituições".

“Em 2010.10.01, a Linha do Cidadão Idoso da Provedoria da Justiça publica que recebeu nesse ano 1930 chamadas, das quais 176 sobre maus-tratos físicos e psicológicos.

Segundo uma nota da Provedoria, a propósito do dia Internacional do Idoso, entre 1 de Janeiro e 22 de Setembro, a Linha do Cidadão Idoso recebeu 1930 chamadas, 176 das quais relacionados com maus-tratos físicos e psicológicos. 


Comparativamente ao ano anterior, a Linha já recebeu quase o mesmo número de chamadas do que as 1982 registadas em 2009. 

Nas chamadas recebidas, foram denunciados 79 casos de abandono e recebidas 160 chamadas relacionadas com assuntos de saúde. 

Os dados indicam que 194 chamadas eram pedidos de ajuda para tratar de questões de apoio domiciliário, 109 sobre lares, 47 sobre complementos de dependência e solidários e 44 sobre pensões.”

“O Relatório europeu sobre prevenção de maus-tratos a pessoas idosas” é o título da publicação divulgada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) – Europa. 

O documento destaca os factores biológicos, sociais, culturais, económicos e ambientais que influenciam o risco de ser vítima ou autor de maus-tratos a pessoas idosas, bem como os factores que podem ajudar a prevenir estas situações. 

O relatório propõe ainda um conjunto de acções para os Estados-Membros, organismos internacionais, organizações não-governamentais, investigadores, profissionais e outras partes interessadas poderem reforçar a resposta política e dedicar os recursos adequados ao problema. 

Os maus-tratos a pessoas mais velhas são generalizados a toda a Região Europeia da OMS, onde se estima que pelo menos quatro milhões de idosos são alvo de maus-tratos por ano e que mais de 2.500 morrem todos os anos. A maior parte dos países da região europeia tem uma população envelhecida, o que se traduz num número crescente de pessoas em risco.”

Em 2011 as Nações Unidas colocaram Portugal na lista negra dos países que pior tratam os idosos, com cerca de 39% por cento dos mais velhos vítimas de violência. Estes dados foram publicado em 2011.07.2013, por Regiões TV RTV.

Os dados da Segurança Social estimam que sejam 25.000 idosos em risco, em Portugal, sendo necessário investir na sua vigilância, pois vivem sozinhos sem qualquer tipo de apoio.

O censo de 2011, revela que 20 % da população portuguesa, aproximadamente 400.0000 pessoas tem mais de 65 anos, pelo que existe uma necessidade de sinalizar os casos problemáticos e aumentar o apoio domiciliário.

Em 2011 as denúncias de maus-tratos subiram 120 %.

Uma notícia da TV Regiões 31.01.2012, revela que foram encontrados 10 idosos mortos em casa numa semana.

Mais de metade dos idosos portugueses vivem sozinhos. Em 2011 o INE contabilizou 2,023 milhões de idosos, vivendo 60% sozinhos ou apenas na companhia de outros idosos.

Este indicadores denunciam que em Portugal o número de idosos em situações de risco é muito preocupante.

Considera-se mau-trato, qualquer forma de tratamento físico e / emocional, não acidental e inadequado, resultante de disfunções e / ou carências nas relações interpessoais, num contexto de uma relação de dependência (física, emocional e / ou psicológica), confiança ou poder, podendo manifestar-se por comportamentos ativos (físicos, emocionais ou sexuais), ou passivos (omissão ou negligência nos cuidados e / ou afetos).

Os maus tratos podem resultar de omissão ou de ação. No caso em apreço, designa-se por negligência, todo o comportamento regular de omissão, relativamente aos cuidados a ter com uma pessoa dependente, não lhe proporcionando a satisfação das suas necessidades de cuidados básicos de higiene, alimentação, segurança, afeto e saúde (no contexto dos recursos disponíveis pela família e cuidadores), o qual resulta um dano na sua saúde e / ou desenvolvimento (físico, mental, emocional, moral ou social), podendo ser voluntário (com a intenção de causar dano) ou involuntário (resultante, em geral, da incompetência dos responsáveis para assegurar os cuidados necessários e adequados (físicos, carência de higienização, alimentação e / ou hábitos horários inadequados, vestuário desadequado, vitaminopatias, cárie dentária, infeções leves recorrentes ou persistentes).

Existem indicadores (sinais) de negligência, que se manifestam por doença crónica que não mereceu tratamento médico, dos quais destacamos os hematomas ou outras lesões inexplicadas, acidentes por ausência de supervisão de situações perigosas, atraso nas aquisições sociais, comportamentos anti-sociais, tendência à fantasia, falta persistente dos cuidadores, relacionamento pobre intra – familiar, condutas para chamar a atenção dos adulto, etc.

Existem sinais nas vítimas de maus tratos que nos alertam para uma vigilância mais apertada, que se traduzem na presença de lesões com diferentes tempos de evolução, que surgem em locais pouco comuns aos traumatismos de tipo acidental, dispersas por diferentes áreas corporais, nas quais podemos salientar como exemplos, as marcas de mordeduras, intoxicações, doenças recorrentes inexplicáveis, lesões desenhando marcas de objetos, alopécia traumática, sequelas de traumatismo antigo de que não é conhecida a história, outras lesões de diagnóstico médico mais complexo (hematoma subdural, hemorragia retiniana).

Outros sinais podem servir como alerta para nos ajudar a diagnosticar situações de maus-tratos, como por exemplo a recusa ou mudanças nas explicações do processo de produção da lesão, a inadequação do intervalo de tempo entre a ocorrência e a procura de cuidados médicos, a história de lesões repetidas, a inadequação da explicação dada pelos cuidadores sobre o mecanismo de produção da lesão.

Importa, ainda referir que para além dos maus-tratos físicos, existem os maus tratos emocionais, que se revelam por perturbações cognitivas, perturbações da memória, baixa auto-estima, sentimentos de inferioridade, alterações da concentração e da memória, perturbações afetivas, medos, sentimentos de vergonha e culpa, timidez, afastamento dos amigos e familiares, hostilidade, falta de confiança, agressividade, manifestações de raiva contra as pessoas, relações sociais passivas, escassas, conflituosas e ausência de resposta perante estímulos sociais, fugas de casa ou relutância em regressar a casa, alterações do foro psiquiátrico, depressão, ansiedade, mudanças súbitas de comportamento e humor, neuroses graves (fobias, manias), alterações da personalidade, psicoses, comportamentos obsessivo-compulsivo, agitação, falta de integração entre o pensamento e a linguagem, as quais se traduzem como manifestações de reação individual aos maus-tratos psicológicos. 

Tendo em conta o progresso da medicina que levou a um aumento da esperança e qualidade de vida. Estudos recentes revelam que a violência contra idosos está a aumentar em Portugal (dados da Associação Portuguesa de Apoio a Vítima indicam um aumento de 20,4 % no total de idosos vitimas de crime, em 2006 para 2007).

Contudo, não nos podemos esquecer que o idoso tem direitos jurídicos, que têm que ser preservados e a persistência de conflitualidade numa fase avançada do ciclo de vida familiar, podendo suceder uma certa reprodutibilidade do padrão de violência, implicam uma vigilância apertada para evitar a violência praticada sobre os mais velhos em contexto institucional.

Como recomendações importantes destinadas a minimizar o número crescente de maus –tratos, preconiza-se: 

1- Implementação de medidas legislativas de proteção dos idosos vítimas de abusos.

2-Registo informático de todas as denúncias e intervenção imediata de medidas de proteção.

3-Campanhas de sensibilização dos idosos sobre a necessidade de planificarem a doença e a reforma.

4-Implementação de programas integrados de prevenção primária e secundária, identificando situações e fatores de risco.

5-Prevenção terciária destinada a minimizar os efeitos da violência contra os idosos.

6- Organização de programas de apoio aos idosos e aos cuidadores.

7-Criação de um sistema de gestão de informação integrada destinada a agir atempadamente às situações de maus tratos nos idosos.

8-Investir na implementação de instituições que disponibilizem vagas para alojamento temporário ou eventualmente definitivo de idosos em risco.

E, por fim criar cursos de formação de profissionais com competências técnicas, destinadas a proteger os idosos vítimas de maus tratos.

Em suma, sofrer em silêncio é um drama vivenciado pelos idosos vítimas de maus-tratos que temos que abolir o mais rapidamente possível, protegendo as vítimas e penalizando os agressores.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

FALEMOS EM DESACORDÊS


(Num tempo em que o Acordo Ortográfico de 1990 volta à discussão à Assembleia da República, vale a pena reforçar a ideia dos imensos estragos que temos provocado na língua portuguesa)


ANABELA BORGES
“A língua é um organismo vivo”, a professora explicava. E os alunos, naquele ponto, ficavam logo muito atentos.

E perguntavam, “Como assim, ‘vivo’? Como um animal?”.

“Sim”, respondeu a professora, “como qualquer ser vivo”.

“Uma língua nasce, cresce, modifica-se, envelhece”, continuava a professora, logo interrompida pelo aluno incrédulo sentado ao fundo da sala (aquele que punha sempre tudo em causa, mesmo quando se tratava do mais logicamente entendido por todos), “E morre?”.

“Morre.”, respondeu outro, sentado na fila lateral.

“Como o Latim!”, disseram alguns quantos em coro.

A professora sorriu, orgulhosa. Não raro, recorria ao Latim para explicar a origem de muitas das palavras. Os alunos sabiam que o Latim era uma língua morta. Mas ali falava-se da língua viva. A língua em movimento, praticada por mais de 240 milhões de falantes em todo o mundo; a quarta língua mais falada e segunda em reuniões de negócios, logo depois do Inglês. Estes dados relativos à Língua Portuguesa, todos recentes, eram apresentados pela professora com recurso a fontes, para que os alunos vissem da sua veracidade. E perguntava, “É, ou não, de termos orgulho na nossa língua e de a tratarmos bem?”, os alunos respondiam “Sim!”, ainda um tanto estonteados pela força dos números.



Daí para a frente, não foi difícil explicar os ‘processos de formação de palavras’, nem foi nada difícil para a professora dizer que era contra ‘acordos ortográficos’. Porque não há forma de uniformizar uma língua falada por cerca de 240 milhões de pessoas. O Português, nas suas variantes – europeia, africana e brasileira –, possui inúmeras pronúncias, sotaques, variedades linguísticas e um vocabulário riquíssimo, de uma riqueza impossível de quantificar. Cada país de Língua Portuguesa tem as suas especificidades. Vejamos:

Se não fosse a riqueza de vocabulário do mundo da lusofonia, a professora nunca poderia dizer “Estou cá com uma (a)zoeira na cabeça”, e nem poderia sequer queixar-se que tudo se devia ao banzé feito pelos alunos. Não poderia dizer que a sua mãe estava a ver a xepa, que era como lá por casa designavam a telenovela. E em vez da mochila que os jovens tanto prezam, talvez continuássemos a chamar alforge ao saco de levar os livros para a escola (um exagero certamente aqui, mas “mochila” não diríamos, que a palavra não é originariamente nossa). Nem poderíamos utilizar a palavra canoapara designar a curiosa embarcação que habitualmente se vê a sulcar o rio Tâmega. Ou dizer que comemos pipocas quando fritamos o milho.



“Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação”, escreveu Vergílio Ferreira. A língua portuguesa conjuga, em muitos aspectos, o sabor salgado e o cheiro da maresia. O caminho essencial, esse desconhecido que foi traçado com vigor e convicção: o mar. E o mar trouxe-nos muitas palavras.

Além das palavras do mundo lusófono, outras palavras estrangeiras, faladas um pouco por todo o mundo, vão entrando na nossa língua e fazendo parte do nosso vocabulário oficial. São os empréstimos. Os alunos não tiveram qualquer dificuldade em dar exemplos à professora: “croissant”; “paparazzi”; “boom”; “shopping”; e uma parafernália de expressões ligada ao mundo das tecnologias – “motherboard”; “backup”; memória RAM; “e-mail”. Ah, sem dúvida, os alunos são barra nisto! É como se tivessem nascido com um “chip” instalado, com todo um roteiro de palavras orientadas para o mundo das TIC (acrónimo para Tecnologias da Informação e Comunicação). E para explicar que eles, os jovens, têm bué de influência nas transformações da língua, a professora explicou também os processos de truncação. E explicou-lhes assim, “Vocês gostam de poupar nas palavras: cortam uma palavra a meio, ficam com metade e deitam a outra metade fora”. Mais uma vez, os alunos foram rápidos a dar exemplos, “Prof’; Net’; Face’; Insta’…”. E depois ficaram muito admirados quando a professora lembrou que “foto” é uma truncação de “fotografia” e “metro” de “metropolitano”. E quando acrescentou que ‘s’tor’ era uma espécie de truncação da gíria estudantil que significava “senhor doutor”, foi o pasmo geral, uma surpresa total, pois os alunos desconheciam tal significado do vocábulo que usam de forma tão recorrente. Habituam-se de tal modo à linguagem corrente, que acabam por esquecer o vocábulo original. Mas isso é o preço a pagar pela evolução natural da língua. E esse foi o pretexto para a professora explicar algumas palavras amalgamadas, que, por força do uso, por pragmatismo, por rapidez de comunicação (por vezes, por pura preguiça), se transformaram em vocábulos cuja origem se vai perdendo, como “telefone móvel” para telemóvel, ou “informação automática” para informática. 

Tudo isto faz parte de um processo lento, estranhado e saboreado pelos falantes. É a evolução da língua. A língua perde e ganha novos vocábulos, e nós afeiçoamo-nos mais a uns do que a outros. E procuramos selecionar os que mais nos aprazem na prática da comunicação.



Lá mais para o final da aula, um aluno perguntou à professora, “E a palavra ‘s’tor’ como se escreve?”.

Boa pergunta! Isso foi logo o que a professora pensou, “Boa pergunta!”. E respondeu: essa palavra ainda não entrou oficialmente no vocabulário. E, desde já, vos digo: se entrar, será um problema para os linguístas conjugarem esta palavra com o Acordo Ortográfico (1990), pois iremos nós retirar um ‘c’ a sector e o professor passará a ser um ‘setor’?



Porque isto são mais de 800 anos de língua portuguesa, organismo vivo, sempre em evolução. E a evolução faz-se caminhando, não é com golpes de espada de desacordês.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

VIVER A VIDA ATÉ À DESPEDIDA

MOREIRA DA SILVA

Nos tempos acelerados e conturbados em que vivemos, a falta de tempo é a justificação para a ostracização de muitas pessoas que deram à família, à comunidade, ao país, ao mundo, quase tudo que tinham para dar. Muitas dessas pessoas que estão vulneráveis e quase a deixar o seu legado à vida, só lhes restam a saudade em que as suas lágrimas se afogam numa espécie de rio que nasce da solidão e desagua no mar revolto da tristeza.

Nesta época de consumismo exacerbado e desprovido de afetos, em que as pessoas metem os filhos nos colégios, os pais em lares e depois compram um animal de estimação para lhes fazer companhia e receber ternura é urgente repensar a complexidade da vida nas suas múltiplas dimensões. Tendo sempre como foco principal o ser humano e a família como realidade natural inserida na mutação da sociedade,

As alterações sociais e demográficas têm sido uma constante nas últimas décadas, originando uma vida bem diferente daquela em que viveram os nossos antepassados não muito distantes, que viviam à velocidade do “carro de bois”. Hoje vive-se à velocidade da luz e o tempo escapa-se por entre os dedos originando uma sensação de envelhecimento muito rápido.

A frieza e a marginalização a que são votados os mais idosos fazem com que se sintam sem gosto pela vida, com o passado a se aproximar cada vez mais da sua mente vem naturalmente o saudosismo exagerado, mas querem desesperadamente que o seu necessário desaparecer seja lento e pintado de amor, principalmente pela sua sementeira e pela sementeira da sua sementeira. Quando estão sozinhos perante o silêncio aparecem mágoas tão dolorosas que lhes esventram a alma e os convidam a desistir de sonhar.

Muitas vezes até parece que os idosos estão a viver nas nuvens afastados de tudo e de todos, mas na realidade estão a apreciar o que se passa cá em baixo. Quando as sombras invadem as suas vidas, os idosos passam o tempo a massajar o seu coração dilacerado pela saudade, a limpar as lágrimas que se soltaram sem a sua autorização, a combater a tristeza que conhecem bem as suas entranhas, a adaptar-se a um novo espaço físico e social, a tentar viver intensamente, a viver a vida até à despedida.

Mesmo em agonia e se arrastando na vida, com um longo e pesado penar, o idoso sente que já não tem forças para tentar mudar o que devia ser mudado e fica a ver o seu corpo a definhar, a desvanecer. Mesmo assim quer agarrar com todo o direito, com a pouca energia física que ainda tem e com muita determinação, o momento presente da sua existência, que durará enquanto por cá andar.

A velhice até pode ser uma valente chatice, pois são trocadas as ilusões pelas recordações, mas deve ser bem aproveitada porque é a última oportunidade que os idosos têm para viver a vida. Que bem merecem!          

sábado, 17 de fevereiro de 2018

INTELIGIBILIDADE… OU NÃO!

JORGE NUNO
Isaac Newton[1] terá dito: “Se eu vi mais além que os outros, é porque me pus em pé em cima dos ombros de um gigante”. Esta frase, por si só, pressupõe que a pessoa [que a proferiu] seria alguém com uma grande dose de humildade e a denotar muito altruísmo, como se tratasse de uma forma generosa de reconhecer os importantes contributos e, assim, homenagear os que o precederam. Na verdade, Newton foi um grande vulto nas ciências, considerado mesmo o pai da ciência moderna, tendo deixado um importante legado nos âmbitos da física e matemática, mas também nas áreas da astronomia, alquimia, filosofia, mecânica, química e teologia. Mas sobre essa frase, Clifford M. Will[2] terá afirmado que Newton estaria a insultar um seu rival, de nome Robert Hooke[3], que era corcunda, deixando no ar a ideia que é preciso ter cuidado quando se tira alguma conclusão do que as pessoas dizem”.

Winston Churchill[4], após ter sido nomeado primeiro-ministro do Reino Unido, em 10 de maio de 1940 – que coincidiu com a data em que Adolf Hitler ordenou a ofensiva do exército alemão na Bélgica e Holanda –, revelou ter sido importante uma mobilização do povo britânico com base em discursos elaborados com todo o cuidado nos seus conteúdos. Tal, ajudou não só à referida mobilização, mas também contribuiu para assegurar uma difícil vitória, bem patente na frase que se eternizou – “Sangue, suor e lágrimas”. Deixou escrito na sua autobiografia “My Early Life”: “Quanto mais forte for a nossa imaginação, mais variegado é o nosso universo. Quando se deixa de sonhar, o universo deixa de existir”.

O conceito de inteligibilidade, que deu título a este texto, pretende referir: “qualidade de inteligível, do que se pode entender, compreender, depreender; condição do que pode entendido pela inteligência; característica do que é evidente, claro”. Se no primeiro parágrafo, a frase pode ter sido proferida por Newton com um significado bem diferente daquele que lhe atribuímos, podemos sentirmo-nos constrangidos por termos sido enganados pela nossa perceção e, também, pelo facto de cair por terra o caráter deste vulto da ciência ao gozar com a deficiência física de um parceiro do mesmo ramo; em boa verdade, deverá haver algum cuidado quando se tira alguma conclusão do que se ouve dizer. Quando se trata de um político, então “fica-se logo com o pé atrás”! No caso de Churchill, é evidente que estávamos perante um conservador, mas numa época em que o conceito de estadista era um privilégio vivido por muito poucos, a exigir um enorme rigor; medir bem o alcance das palavras proferidas e fazer-se entender q. b. para mobilizar uma nação a viver momentos difíceis, é coisa rara, mesmo com exagero linguístico, de difícil interpretação, quanto ao universo acabar quando se deixa de sonhar.

Salvaguardando as devidas distâncias com os dois casos citados, surgiu no ecrã da TV a frase: “Querem matar-me e os sportinguistas são responsáveis”, tendo como fundo uma imagem de Bruno de Carvalho no auditório Artur Agostinho, em Alvalade. Certamente, eu teria mais com que me preocupar, mas a frase ficou insistentemente na minha cabeça, a ponto de querer ver o conteúdo completo e em que condições e ambiente foi dita, para fazer a minha “leitura” e poder tirar as minhas conclusões. Depreendia-se, de imediato, que a frase seria do polémico presidente do Sporting Clube de Portugal. Vim a saber que se tratava de uma “sessão de esclarecimento” para jornalistas e outros convidados “sportingados”. A dado passo, pode ouvir-se: “No dia em que sair do Sporting, saio. Não sou politiqueiro, não preciso de aclamações. Sou muito altruísta, mas no mínimo tenho de sentir gratidão. A partir do momento que não sentir, não venho outra vez, porque afinal significa que não tenho a mais-valia para o Sporting que julgava que tinha. Vou dizer uma frase que disse numa Assembleia Geral. Com os sportinguistas atrás, farei tudo, levarei o Sporting ao céu. Não tenho dúvidas. Sem os sportinguistas atrás, matam-me. Neste momento estão quase a matar-me e a culpa sinceramente está a ser dos sportinguistas, porque eu preciso de militância e disse que não ia passar um segundo mandato igual ao primeiro. Efetivamente militância continua a ser pouca”. A frase simplificada que surgiu no ecrã confunde e arrasa o protagonista. Depois de se saber o contexto, até se pode compreender a intenção com que as coisas são ditas, não por ter pedido as alterações estatutárias propostas com o mínimo de 75% dos votos dos associados (que é a percentagem necessária), mas para forçar a militância que faça atingir os cerca de 86% (percentagem com que foi eleito) e que é exigido por si, como mínimo, para aprovação da continuidade do mandato dos órgãos sociais.

Winston Churchill foi muito contestado, a ponto dos conservadores perderem as eleições em 1945. Mas durante o período crítico da guerra soube afirmar-se e conduzir estrategicamente uma nação, com envolvimento da população, que durante aquele período sofreu muito os efeitos nefastos de uma guerra que não desejava.

Enquanto no universo sportinguista, com muitos sonhadores a visualizar o título de campeão nacional de futebol masculino, que esperam desde 2000, o presidente da direção está longe de saber adequar o seu discurso aos vários públicos e tem estado a abrir várias frentes de guerra, que acaba por prejudicar a estabilidade necessária a um clube vencedor. Talvez se compreenda agora a frase: se os sportinguistas deixarem de sonhar, o universo sportinguista deixa de existir.


[1] Britânico, viveu entre 1643 e 1727.
[2] Canadiano (n. 1946), físico e matemático, professor de física na Universidade de St. Louis, Missouri, E.U.A.
[3] Britânico, viveu entre 1635 e 1703, tendo-se revelado um grande cientista experimental, além de dar contributos nos âmbitos da geologia, química, arquitetura, matemática, filosofia, meteorologia e astronomia.
[4] Estadista britânico, viveu entre 1874 e 1965.