quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

FALEMOS EM DESACORDÊS


(Num tempo em que o Acordo Ortográfico de 1990 volta à discussão à Assembleia da República, vale a pena reforçar a ideia dos imensos estragos que temos provocado na língua portuguesa)


ANABELA BORGES
“A língua é um organismo vivo”, a professora explicava. E os alunos, naquele ponto, ficavam logo muito atentos.

E perguntavam, “Como assim, ‘vivo’? Como um animal?”.

“Sim”, respondeu a professora, “como qualquer ser vivo”.

“Uma língua nasce, cresce, modifica-se, envelhece”, continuava a professora, logo interrompida pelo aluno incrédulo sentado ao fundo da sala (aquele que punha sempre tudo em causa, mesmo quando se tratava do mais logicamente entendido por todos), “E morre?”.

“Morre.”, respondeu outro, sentado na fila lateral.

“Como o Latim!”, disseram alguns quantos em coro.

A professora sorriu, orgulhosa. Não raro, recorria ao Latim para explicar a origem de muitas das palavras. Os alunos sabiam que o Latim era uma língua morta. Mas ali falava-se da língua viva. A língua em movimento, praticada por mais de 240 milhões de falantes em todo o mundo; a quarta língua mais falada e segunda em reuniões de negócios, logo depois do Inglês. Estes dados relativos à Língua Portuguesa, todos recentes, eram apresentados pela professora com recurso a fontes, para que os alunos vissem da sua veracidade. E perguntava, “É, ou não, de termos orgulho na nossa língua e de a tratarmos bem?”, os alunos respondiam “Sim!”, ainda um tanto estonteados pela força dos números.



Daí para a frente, não foi difícil explicar os ‘processos de formação de palavras’, nem foi nada difícil para a professora dizer que era contra ‘acordos ortográficos’. Porque não há forma de uniformizar uma língua falada por cerca de 240 milhões de pessoas. O Português, nas suas variantes – europeia, africana e brasileira –, possui inúmeras pronúncias, sotaques, variedades linguísticas e um vocabulário riquíssimo, de uma riqueza impossível de quantificar. Cada país de Língua Portuguesa tem as suas especificidades. Vejamos:

Se não fosse a riqueza de vocabulário do mundo da lusofonia, a professora nunca poderia dizer “Estou cá com uma (a)zoeira na cabeça”, e nem poderia sequer queixar-se que tudo se devia ao banzé feito pelos alunos. Não poderia dizer que a sua mãe estava a ver a xepa, que era como lá por casa designavam a telenovela. E em vez da mochila que os jovens tanto prezam, talvez continuássemos a chamar alforge ao saco de levar os livros para a escola (um exagero certamente aqui, mas “mochila” não diríamos, que a palavra não é originariamente nossa). Nem poderíamos utilizar a palavra canoapara designar a curiosa embarcação que habitualmente se vê a sulcar o rio Tâmega. Ou dizer que comemos pipocas quando fritamos o milho.



“Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação”, escreveu Vergílio Ferreira. A língua portuguesa conjuga, em muitos aspectos, o sabor salgado e o cheiro da maresia. O caminho essencial, esse desconhecido que foi traçado com vigor e convicção: o mar. E o mar trouxe-nos muitas palavras.

Além das palavras do mundo lusófono, outras palavras estrangeiras, faladas um pouco por todo o mundo, vão entrando na nossa língua e fazendo parte do nosso vocabulário oficial. São os empréstimos. Os alunos não tiveram qualquer dificuldade em dar exemplos à professora: “croissant”; “paparazzi”; “boom”; “shopping”; e uma parafernália de expressões ligada ao mundo das tecnologias – “motherboard”; “backup”; memória RAM; “e-mail”. Ah, sem dúvida, os alunos são barra nisto! É como se tivessem nascido com um “chip” instalado, com todo um roteiro de palavras orientadas para o mundo das TIC (acrónimo para Tecnologias da Informação e Comunicação). E para explicar que eles, os jovens, têm bué de influência nas transformações da língua, a professora explicou também os processos de truncação. E explicou-lhes assim, “Vocês gostam de poupar nas palavras: cortam uma palavra a meio, ficam com metade e deitam a outra metade fora”. Mais uma vez, os alunos foram rápidos a dar exemplos, “Prof’; Net’; Face’; Insta’…”. E depois ficaram muito admirados quando a professora lembrou que “foto” é uma truncação de “fotografia” e “metro” de “metropolitano”. E quando acrescentou que ‘s’tor’ era uma espécie de truncação da gíria estudantil que significava “senhor doutor”, foi o pasmo geral, uma surpresa total, pois os alunos desconheciam tal significado do vocábulo que usam de forma tão recorrente. Habituam-se de tal modo à linguagem corrente, que acabam por esquecer o vocábulo original. Mas isso é o preço a pagar pela evolução natural da língua. E esse foi o pretexto para a professora explicar algumas palavras amalgamadas, que, por força do uso, por pragmatismo, por rapidez de comunicação (por vezes, por pura preguiça), se transformaram em vocábulos cuja origem se vai perdendo, como “telefone móvel” para telemóvel, ou “informação automática” para informática. 

Tudo isto faz parte de um processo lento, estranhado e saboreado pelos falantes. É a evolução da língua. A língua perde e ganha novos vocábulos, e nós afeiçoamo-nos mais a uns do que a outros. E procuramos selecionar os que mais nos aprazem na prática da comunicação.



Lá mais para o final da aula, um aluno perguntou à professora, “E a palavra ‘s’tor’ como se escreve?”.

Boa pergunta! Isso foi logo o que a professora pensou, “Boa pergunta!”. E respondeu: essa palavra ainda não entrou oficialmente no vocabulário. E, desde já, vos digo: se entrar, será um problema para os linguístas conjugarem esta palavra com o Acordo Ortográfico (1990), pois iremos nós retirar um ‘c’ a sector e o professor passará a ser um ‘setor’?



Porque isto são mais de 800 anos de língua portuguesa, organismo vivo, sempre em evolução. E a evolução faz-se caminhando, não é com golpes de espada de desacordês.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

MARGOT FONTEYN

PAULO SANTOS SILVA
Faz hoje 27 anos que faleceu um dos maiores expoentes da Dança, na vertente do Ballet Clássico – Margot Fonteyn.

Tendo nascido como Margaret Evelyn Hookam, a 18 de maio de 1919, esta filha de pai inglês e mãe irlandesa (descendente de brasileiros), transformou o apelido da família da mãe (Fontes) no Fonteyn que associado à uma alteração do Margaret num mais “afrancesado” Margot, lhe deram um nome artístico que ainda hoje é conhecido.

A jovem Margot entrou para a famosa Sadler’s Wells em 1931, onde pelas sábias mãos de Ninette de Valois e de Frederik Ashton rapidamente evoluiu ao ponto de apenas 4 anos depois com apenas 16 anos se ter tornado na sua primeira bailarina. 

Estava, pois, na forja a companhia que se viria a designar de Royal Ballet e que viria a ser sediada na Royal Opera House, no mítico Convent Garden. O Royal Ballet foi a primeira companhia de Ballet do Reino Unido e é, ainda hoje, a mais importante.

A primeira digressão aos Estados Unidos (mais propriamente a Nova York) realizada em 1949, foi um sucesso para o qual muito contribuiu a parceria Ashton e Fonteyn, sendo que Margot funcionava para o coreógrafo como uma espécie de musa inspiradora. Exemplificativo dessa feliz parceria é Ondine, de 1958.

A primeira visita do Royal Ballet à Rússia, onde se encontravam expoentes do Ballet Clásico como o Bolshoi, data de 1961. É após esta visita que se forma um dos pas-de-deux mais famosos (senão mesmo O mais famoso…) da história do Ballet – Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev. Apesar de Nureyev ser 20 anos mais novo, isso não impediu que a dupla fosse absolutamente idolatrada até 1979, ano em que Margot abandonou os palcos.

No que diz respeito à vida pessoal, Margot casou-se em 1955 com o diplomata panamiano Roberto Arias, filho de um antigo presidente do mesmo país. Roberto foi atingido a tiro por um colega de partido, em 1964, por suspeitar que este mantinha um relacionamento com a sua mulher, tendo ficado paralítico. Depois de se retirar dos palcos, dedicou-se ao marido tendo vivido até a morte dele em 1989, na sua fazenda do Panamá.

Margot Fonteyn foi a grande diva do Ballet Clássico do Século XX. É por isso que ainda em vida, ela e Nureyev foram homenageados com a mais inteira justiça, o que não deixa de ser curioso uma vez que vivemos numa sociedade que tantas e tantas vezes, apenas atribui a grandeza que as pessoas merecem quando elas desaparecem.

Margot Fonteyn, faz parte do imaginário de todos aqueles que estudaram ou simplesmente apreciam o Ballet Clássico. Afinal de contas, foi durante 37 anos a Presidente da Royal Academy of Dance, instituição respeitadíssima do mundo da Dança e que se encontra espalhada pelo mundo inteiro!...

Delicie-se, pois, com Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev numa interpretação do bailado Romeu e Julieta!!!

IMPORTÂNCIA E DILEMAS DOS DIREITOS HUMANOS

RUI MANUEL SANTOS
As violações dos Direitos Humanos estão entre as principais causas dos problemas que a sociedade mundial enfrenta actualmente. Estes incluem a pobreza, a violência, a degradação ambiental, as desigualdades económicas, a corrupção e, em geral, a falta do estado de direito.

Os direitos humanos, na forma de um sistema de acordos reconhecidos internacionalmente, surgiram de forma consolidada após a Segunda Guerra Mundial, mais concretamente a partir de 26 de Junho de 1945, com a assinatura da Carta das Nações Unidas. Três anos depois, o primeiro instrumento internacional de direitos humanos foi adoptado pela Assembleia Geral das Nações Unidas a 10 de Dezembro de 1948: a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Desde então, outros instrumentos legais de protecção ao ser humano foram desenvolvidos e acordados pela comunidade internacional.

A ideia de que as pessoas têm direitos perde-se no tempo. Em muitas culturas antigas existiam algumas leis para regular o comportamento das pessoas com o intuito de lhes ser proporcionada uma vida social harmoniosa, dentro de códigos de conduta e prática, embora estes tenham de ser entendidos no contexto histórico específico. Entre esses documentos históricos está o Código de Hammurabi (Iraque, 2000 a.C.), assim como as leis do Faraó do Antigo Egipto (2000 a.C.) ou a Carta de Cyrus (Irão, 570 a.C.). Bem mais recentes são, por exemplo: a Magna Carta inglesa (1215) e a Carta dos Direitos (1689); a Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789); a Declaração de Independência, Constituição e Declaração de Direitos dos Estados Unidos (1791); Convenções de Genebra (1864 e 1929).

Mas afinal o que são os direitos humanos? Pode-se afirmar que são reivindicações que não dependem da garantia de ninguém. Os direitos humanos baseiam-se em afirmações sobre os valores humanos universais que garantem a dignidade humana. A sua garantia recai sobre convenções, acordos e mecanismos de direito nacional e internacional. Os Direitos Humanos cobrem uma grande diversidade de questões interligadas intrinsecamente. Sendo assim, o que é um problema de direitos humanos? Em princípio, qualquer questão que diga respeito à violação de direitos ou integridade/dignidade humana. Como os direitos humanos são inter-relacionados, geralmente uma violação de um direito humano implica uma violação de um outro direito. Esse processo bastante complexo pode apresentar vários dilemas. Um dos exemplos habituais de tais dilemas refere-se às tradições culturais. Por exemplo, a prática de casamentos combinados pelas famílias, ou a mutilação genital feminina, faz pensar se tais valores culturais devem prevalecer sobre a universalidade dos direitos humanos. Outra questão que ganhou muita atenção nos últimos anos é a restrição de certas liberdades, como o direito de proteger os indivíduos da detenção arbitrária e da prisão, como é no caso do Reino Unido, a fim de combater a ameaça do terrorismo. É certamente uma questão importante para a segurança. No entanto, deverá ser possível deter ou prender pessoas sem qualquer acusação ou julgamento, simplesmente com base numa «suspeita»? Uma questão semelhante diz respeito ao direito à associação e à liberdade de expressão dos grupos neonazis, o que pode representar uma ameaça para a população local judaica e outras minorias. É possível impedir a expressão de grupos que promovam a destruição de um povo inteiro? Ou é inaceitável restringir a liberdade de opinião?

Todas estas questões aqui apresentadas, devido à sua complexidade, não apresentam respostas simples, mas exigem muitos debates e argumentações. A discussão pluralista, juntamente com o facto dos direitos humanos não se basearem numa ideologia dogmática, faz com que o debate sobre os direitos humanos seja um processo contínuo no tempo. Considerando o facto de que os direitos humanos são universais e válidos para todos, os direitos humanos são inatos para todos os seres humanos.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

A DEPRESSÃO E O SUICÍDIO

REGINA SARDOEIRA
Disseram - me que ela estava deprimida e que por isso se suicidou. E eu fiquei a pensar, tentando compreender, mais uma vez, que impulso poderoso é esse que leva alguém a terminar com a vida. Poderoso, sim, porque aceder voluntariamente à morte exige força. Força negativa, dir-me-ão, ou cobardia, também há quem diga; e no entanto eu afirmo que usar seja que instrumento for e pôr termo à vida é um acto que não está ao alcance de qualquer um.

A depressão tem, efectivamente, esta componente trágica: o indivíduo sente - se desvalorizado, de si para si mesmo, não encontra prazer nos gestos comuns do quotidiano, o amanhã é tenebroso ou vazio, qualquer acto comum (levantar - se de manhã, tomar banho, vestir - se, comer, sair...) revela - se extraordinariamente penoso para o doente com depressão. Porque, de facto, é de uma doença que se trata.

O nosso cérebro tem um poder imenso, lidera todo o comportamento, dá instruções a todo o corpo (que, por sua vez, comunica com ele) e nele são sintetizados os neurotransmissores, de entre os quais destacarei a serotonina .

O comportamento humano depende da quantidade de luz que o corpo recebe por dia. Desta maneira, durante as estações menos soalheiras (Outono e Inverno) surge um aumento da depressão, da falta de capacidade para usufruir o prazer. Quando chega a Primavera e o Verão, a serotonina é condicionada pela luz que se recebe do organismo, o que leva a um aumento progressivo do bem-estar e da felicidade, produto das concentrações deste neurotransmissor no cérebro. Pode-se dizer que a serotonina, além de ser a hormona do humor, é a "hormona do prazer". Por exemplo, para que se produza a ejaculação orgásmica, o hipotálamo liberta oxitocina através da hipófise (hormona que segrega na neuro-hipófise e que também é responsável pelas contrações no parto). Depois da ejaculação, a quantidade de serotonina no cérebro aumenta exponencialmente, o que provoca um estado de prazer e tranquilidade. Depois do prazer é produzido um mecanismo de retroalimentação que reabsorve a serotonina. Este mecanismo estimula a libertação de hormonas como a somatrofina (hormona do crescimento) e a prolactina (hormona que tem ação sobre as glândulas mamárias atuando no seu crescimento e na formação de leite) e inibe a secreção das hormonas luteinizantes (LH) e das hormonas folículo-estimulantes (FSH), que estão encarregadas de estimular a síntese de AMP cíclico, que por sua vez estimula a biossíntese de esteroides sexuais. Este mecanismo de retroalimentação não seria possível se não existisse absorção de serotonina pela hipófise. 

Este é um assunto complexo e não irei muito mais longe na análise científica; creio, no entanto, poder afirmar que a serotonina representa um papel fundamental no que diz respeito à capacidade humana de sentir prazer e que o seu deficit gera os sinais da depressão: essa profunda tristeza, esse desgosto de viver, essa incapacidade de respirar fundo e caminhar em frente - muito simplesmente porque, para o deprimido, já não há caminho. 

A depressão surge; e muitas vezes não encontramos uma explicação para tal. Um desgosto, uma tragédia, uma perda são capazes de mergulhar a pessoa na depressão; mas ela pode ser constitucional ou genética. Perceber a causa da depressão, enfrentá - la, resolver o problema seriam as soluções para o deprimido. Porém, o seu vazio é de tal modo profundo que ele não é capaz, por si só, de discernir uma causa e, ainda que suspeite dela, não tem ânimo para enfrentá-la, pelo que, à partida, nada pode resolver.

Aqueles que o rodeiam, escassamente percebem que lidam com um doente, que precisam de estar atentos, tornando - se os motores para a busca de ajuda. Não tenhamos ilusões : a depressão não é uma "mania", uma "esquisitice" , o deprimido não fica apático, isolado, de mau humor, pouco sociável etc. porque quer castigar o mundo à sua volta, chamar a atenção, ou ser intratável. Ele fica assim porque o seu cérebro não faz a síntese das substâncias que lhe restituiriam o ânimo e, se não se dispuser a tomar medidas, procurando o médico, dificilmente irá superar a crise.

O médico irá receitar - lhe antidepressivos, ou seja, substâncias químicas capazes de reporem os níveis de serotonina, promovendo, gradualmente, o retorno da normalidade. Mas o médico também lhe dirá, pelo menos, mais duas coisas: que essas pílulas mágicas ajudam a química do cérebro e de todo o organismo, melhorando o humor e ainda que terá, nesse momento em que recuperar a energia, de procurar as causas do estado depressivo e abatê - las. Não é um processo simples ou linear, nem se compara a outras enfermidades para as quais um certo medicamento, uma certa cirurgia resolverão de vez o problema. 

A depressão entra muito fundo em todo o organismo visto que a condição necessária e suficiente para alguém estar vivo depende de actos de vontade, de desejo, de procura; e o deprimido perdeu - os. 
O médico (e também os folhetos dos antidepressivos ) alertará o doente, falando -lhe do perigo de poder querer suicidar-se e, muitas vezes, hospitaliza-o para debelar o risco. Mas, ainda assim, esse desejo de morrer, esse sentimento profundo de que ninguém precisa dele, de que está sozinho no mundo e de que nada tem valor podem ter uma força irresistível. 

A depressão atinge de forma trágica este nosso tempo. Vivemos um quotidiano quantas vezes insatisfatório, injusto, acelerado, em que as perdas são maiores que os ganhos. Fugimos de nós mesmos e do nosso deserto, alienamo - nos de muitos modos :com bebida, comida, drogas. Um dia, face a face com a nossa própria imagem, não somos capazes de nos aguentar, desistimos de nós mesmos : é não há pai, mãe, filhos ou amigos, ou tarefas, ou dinheiro ou seja o que for que nos demovam da autodestruição. Porque o suicídio não é somente aquele gesto definitivo com que nos ferimos, mortalmente, de uma vez por todas, o suicídio pode ser lento, pode ser prepertado hora a hora, dia a dia, no vício, na bebedeira, nas fugas de todo o género à normalidade do viver.

Creio firmemente que aquele que se suicida, num certo momento, é porventura mais digno do que aquele que finge viver e no entanto está a destruir -se pouco a pouco : o primeiro enfrentou a derrota de si próprio e terminou com ela, o segundo vai-a ostentando num lamentável espectáculo. 

Logo, de certo modo, todos os homens são suicidas, todos os homens praticam em si a autodestruição, preferindo, escolhendo aquilo que os prejudica. São suicidas mesmo no modo como tratam a terra, o seu único habitáculo, tornando - a, progressivamente, um lugar inóspito; são suicidas porque criaram um universo de relações enviezadas, de onde a verdadeira sociabilidade se ausentou; são suicidas no modo como dirigem o quotidiano, feita carga insuportável para a qual têm que procurar um desvio.

Não admira, pois, que a depressão seja a doença mais comum do nosso tempo e que nele despontem, para geral consternação, os outros suicidas, mais raros, mas mais autênticos : os que decidem sair do mundo através de um acto violento (para eles e para quem os rodeia) e escolhem o meio de a si próprios se aniquilarem, de uma vez.

FAZER-SE DISTINGUIR SEM SE FAZER NOTAR

TÂNIA AMADO
A elegância é um dom pessoal que vai além do bom gosto, do saber vestir, da educação, do uso correcto dos talheres ou do guardanapo. Vem das regras de etiqueta da vida. Ser responsável e admirável, mas ao mesmo tempo leve. Apesar da falta de educação ultrapassar a deselegância, é necessário ser educado, polido e gentil para ser elegante.

É provável detectar a elegância nas pessoas que elogiam mais do que criticam, em quem evita assuntos constrangedores do que em quem gosta de humilhar, nas pessoas pontuais (respeitam o tempo dos outros e o seu próprio também) ou em quem faz algo por alguém sem ninguém dar conta ou muda de estilo apenas para se adaptar, em quem não fala de dinheiro em conversas informais ou fica em silêncio mediante a rejeição, pratica o contacto do olhar durante uma conversa por ser atento ao outro.

É tão importante agir sem agredir, ter encantamento na voz ainda que esteja a chamar à atenção (ou fazer silencio, que também comunica), como saber posicionar-se no seu jeito de pensar - não viver de intrigas, mentiras ou correr atrás do que lhe faz mal; reconhecer erros, corrigi-los, pedir desculpas e manter a calma em situações caóticas. Saber dizer não, sem ser rude (a não ser que a situação já o seja. Neste caso, reposicione-se no que acredita.). 

Ser elegante é também ser simples, espontâneo, bom observador e ouvinte, empático, mas acima de tudo: é ter bom senso e respeito.

Há características que chegam da referência da vida, criação e evolução pessoal. É uma questão de interior, autenticidade e mede-se também pela forma como trata o outro (e não só de si). É uma pena quando se confunde a elegância, ou humildade, com fragilidade. É uma arte que se aprende com o exemplo, mas é irreproduzível.

Apesar dos livros serem excelentes professores, é fundamental procurar ter generosidade, saber reconhecer algo de bom naquilo que não gosta, saber que todos somos alunos e professores respeitando as duas velhas máximas: “não faças aos outros o que não gostas que te façam a ti” e “o limite da tua liberdade termina quando começa a liberdade do outro”.

ACEFALIA

MIGUEL GOMES
Num mundo globalizado, em Estados de Direito democrático um governante de um qualquer país, dirigente de uma qualquer instituição, pretender "disciplinar" as redes sociais e os seus eleitores, vigiando ou censurando tudo o que se publica e diz em jornais ou televisões, cedo ou tarde, é caminho para o abismo, por mais votado que tenha sido pelos eleitores ou associados. Basta aumentar o custo de vida, o desemprego, no caso de governantes, ou a coletividade não vencer títulos, tratando-se de líderes de instituições desportivas ou outras. Ninguém resiste à "turba enfurecida" quando percebe que o líder não cumpre o que prometeu. Isto só é possível em sociedades ocidentais, onde proliferam democracias adultas. Em ditaduras, o que eu referi é impossível, porque impera o autoritarismo, a censura, a intolerância e processos sumários por delito de opinião. Qualquer semelhança entre o meu comentário e a atualidade de qualquer país ou instituição é pura coincidência.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

ONCE UPON A TIME

CAROLINA CORDEIRO
Books were and still are the choice, instead of a tv show or even a movie. 

Most of the time I would rather imagine, picture it in my head and not have someone telling me the story. Sometimes, I am surprised and the surprise is even bigger when it’s a horror movie. I don’t like them. I never choose them and I would rather do anything else but watch that kind of episode, feature film or whatever shape it is in. However, I am a friend and a friend of mine wanted to buy a ticket to see a horror movie. I went along. 

It was ridiculous. It was much more a fantasy movie than a horror one. Or my opinion of horror movies is quite different from the rest… The point is, even though it was not a horror movie, per se, the story line stuck with me. Didn’t think much of it back then, since in 1999 I was such a young girl. Nevertheless, the story accompanied me and now I’m living it. 

How funny it is when you see yourself in a character of something that you don’t like nor chose, willingly. Life has a weird way of putting you to the test, to the tests, through numerous tests, one after the other, with no way to escape nor flee from it, no matter how much you want it. Life is such an unwritten story.

The phone sounds differently, the house smells to something not usual, the days go by with no script. That might be good for you, even for me, in a certain way, but at this point not knowing things is all but a blessing. There’s no story line, no music nor a book that lends you a helping hand to whatever fate will come towards me, from now on. There’s nothing left to hope except hoping for it to be quick. 

If you’re wondering which is the movie I am in, check The Haunting and Nell’s journey. Could easily call it my own.

SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE - UM PAÍS DE OPORTUNIDADES

FILIPE LOURENÇO
Falar de São Tomé e Príncipe é falar de Portugalidade, de origens e de cultura...
Ao longo dos quase 6 anos de viagens que já fiz a São Tomé, totalizando atualmente cerca de 50, foram inúmeras as experiências vividas com este povo fantástico, humilde e afável. A esta hora em que escrevo esta crónica, encontro-me precisamente em São Tome, país com o qual me identifico e onde sempre encontrei uma magia que vai além fronteiras. A primeira vez que aterrei em São Tomé, foi para iniciar uma caminhada de internacionalização de uma das empresas das quais sou administrador, a PROCIFISC, uma empresa de engenharia e consultoria que ao longo destes 6 anos desbravou terreno e consolidou gerações, culturas e uma posição neste mercado. O caminho que a minha empresa fez, muitas outras empresas o fizeram e continuam a fazer em São Tomé, que pese embora seja um país CPLP de pequena dimensão, não deixa de ter oportunidades enormes por ser um "diamante em bruto" neste Golfo da Guiné, zona estratégica para ser uma plataforma de negócios nesta zona de África.
As "gentes" de São Tomé são um espelho da necessidade de interação com o povo e empresas portuguesas, pois existe uma ligação umbilical entre São Tomé e Portugal muito especial.
Fazer negócios em São Tomé entre empresas portuguesas e São Tomenses é uma realidade e uma necessidade do próprio mercado. São Tomé precisa de facto de Portugal como Portugal precisa de São Tomé.
Em São Tomé, existe um clima de relaxamento nos negócios que por um lado os faz acontecer mais lentamente, daí a expressão São Tomense "Leve Leve", mas por outro lado abre um campo de visão para os planear e para os fazer acontecer que não consegui em mais nenhum país por onde já passei.
Sempre que venho a São Tomé, mais do que tratar dos assuntos do dia a dia das minhas empresas, paro, penso e planeio e de seguida tudo vai acontecer...
Leva-me muitas vezes inclusivamente a questionar se o ritmo frenético a que geralmente ando, fará sentido quando no ritmo "Leve Leve", até faço acontecer tudo com outros resultados muitas vezes...

Em jeito de conclusão, e até em jeito de recomendação, vir a São Tomé é e pode ser uma oportunidade para mudar muita coisa na sua vida pessoal e empresarial, porque São Tomé é de facto um país de oportunidades...