quinta-feira, 26 de maio de 2016

DIA MUNDIAL DA EUCARISTIA

PE. JOÃO TEIXEIRA 
1. Num tempo em que há dias mundiais para quase tudo, podemos dizer que o Corpo de Deus é uma espécie de Dia Mundial da Eucaristia. Pela sua natureza, uma festa como esta não deve ser episódica, meramente circunstancial. 

2. Uma festa como esta não pode ser o evento de um dia, mas o grande acontecimento de cada dia. De facto, que maior festa pode haver do que ser visitado por Deus, do que ser abraçado por Deus, do que ser interpelado por Deus, do que alimentado por Deus? 

3. Na Eucaristia, é Deus quem nos visita, é Deus quem nos abraça, é Deus quem nos fala, é Deus quem nos alimenta. Como entender, então, que tantos desperdicem tanto? 

4. Verdadeiramente, a celebração da instituição — ou «invenção» — da Eucaristia ocorre em Quinta-Feira Santa. Sucede que, apesar da importância singularíssima desta data, a circunstância de ser véspera do dia da morte do Senhor inibe-nos de manifestar todo o nosso contentamento por este dom incomparável. 

5. Daí a necessidade de uma festa que nos permita agradecer as maravilhas da Eucaristia. E daí também a vontade de testemunhar publicamente, pelos caminhos das nossas terras, que só Jesus é a força capaz de transformar a humanidade, conduzindo-a para a justiça, a felicidade e a paz. 

6. Terá sido em 1247 que se celebrou, pela primeira vez, o Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. Foi em Liège e por insistência de uma religiosa: a Irmã Juliana de Mont-Cornillon. 

7. Mais tarde, em 1264, na sequência de um milagre eucarístico ocorrido em Bolsena, o Papa Urbano IV estendeu a toda a Igreja esta festa através da bula «Transiturus». Embora, nessa altura, ainda não haja ainda qualquer alusão à procissão com o Santíssimo, é sabido que esta depressa se introduziu nos hábitos eclesiais e na alma crente do povo. 

8. A procissão eucarística é, pois, uma sequência — e um transbordamento — da Eucaristia. Nós vamos, pelos caminhos da nossa vida, até à Eucaristia. E a Eucaristia, pelos mesmos caminhos da nossa vida, vem até nós. 

9. A Eucaristia não se limita à celebração. A Eucaristia parte do tempo para o templo e volta do templo para o tempo. 

10. Quando termina a Missa, há-de começar a Missão. O Pão que nos alimenta na Missa é o Pão que nos alenta na Missão.

E NÃO SE SAUDARAM NA PAZ DE CRISTO (parte III)

ANABELA BORGES
Da união de Lisinha com Gustinho resultaram três filhos e um nado morto, todos nascidos de partos naturais, “Naturais é uma maneira de dizer. Só eu é que sei que de naturais pouco tiveram”. Durante os sete anos que Lisinha levou a parir, os partos eram, por força das circunstâncias, naturais, sem intervenção médica ou assistência hospitalar, pelo menos por aquelas bandas. Assim, as crianças foram-lhe nascendo, estando Lisinha, algumas das vezes, entregue a si própria e à sua sorte, o que poderia ser representativo de algum perigo, nos momentos em que a dor e a exaustão tudo fazem esquecer, levando à loucura e ao delírio, pondo em risco aquela vida que, chegada a sua vez, anseia por se apresentar ao mundo.

Um perdeu-o Lisinha, nem sabia que estava prenha, na guarita de madeira, no buraco que lhe servia de retrete, depois de uma grande dor de barriga, quando foi fazer as necessidades. Era um nado morto. Mas não percebeu logo. Desmaiou. Esvaiu-se em sangue e febre, durante mais de uma semana, valendo-lhe os extremosos cuidados da Secândida, erva após erva, emplastro atrás de emplastro. Já no seu estado de normal lucidez, Lisinha não teve dúvidas de que, mais uma vez, havia ali mão do maldito. Lembrava-se bem de ter perseguido, pelas traseiras do quintal, o cheiro de um entrecosto assado, vindo da casa do Manelzinho dos Campos, precisamente onde vivia a Secândida, e de como ficara desconsolada, quando espreitou e, pela porta entreaberta, a viu comer, deliciada, o entrecosto suculento, pela volta do meio-dia, enquanto o Manelzinho não chegava da lida do campo, para comer, somiticamente, a sopa com uma enxúndia, uma batata e um olho de couve. A Lisinha ficara-lhe o entrecosto na ideia, no desejo de o comer. Agora não tinha dúvidas. Fora essa maldição que lhe provocara o aborto. O seu negócio com a loja estava ainda no início, e Lisinha fazia sacrifícios, para que não houvesse desperdícios, e tinha, nessa altura, já uma boca de criança para alimentar. E o seu Gustinho não era nenhum mãos-largas. Não comeu o entrecosto, que, se sobrava alguma carne da taberna, metia-se pela boca do filho e do Gustinho. E ela dizia que comessem, que já tinha comido, “Comei, que eu já comi”. E pronto.

Lisinha perdia-se nos seus pensamentos, dando graças por aquela mulher-menina [Secândida] viver a seu lado, uma boa vizinha, uma alma padecente e piedosa. Ainda assim, para Lisinha, o parto mais feliz fora o primeiro, fosse pela novidade, fosse por ter desfrutado plenamente dos tributos de ser mulher, fosse pela alegria do seu Gustinho, que esperava, ansiosamente, que daquelas ancas largas de potro saísse um belo filho. Lisinha gozou de boa saúde. Andou tão bem, que o rapaz quase se esquecia de nascer. Pelas contas de Lisinha, já tinham passado as luas todas. O povo acabou por concluir que o menino tivera o tempo de gestação de um burro. Para ele nascer, mandou-se vir a Secândida e mais duas vizinhas. A boca do corpo não abria. Deitaram-na numa manta de farrapos e embalaram-na, para um lado e para o outro. Nada. Então, untaram-lhe a boca do corpo com azeite e fizeram-lhe defumadouros, Lisinha, exausta, sentada em cima do caldeiro com água a ferver, para começar a fazer a dilatação, num longo cerimonial dirigido pelas mãos habilidosas da Secândida, “Nada, pelo menos por ora”. E quando teve de ser, lá veio ao mundo um forte rapagão, ligeiramente cabeçudo e com a pele meia roxa pelo tempo a mais passado na barriga. Toninho era o mais feliz dos filhos de Lisinha, ou, pelo menos, assim parecia. Trazia sempre um sorriso nos lábios, assobiava constantemente e era muito trabalhador. Diziam que era um simples. E era. Não deu para os estudos, ficando praticamente analfabeto como a mãe. Casou com a filha da leiteira, ajudava a mãe na loja e ficou a morar no quinteiro, num anexo construído para o efeito.

Com o nascimento da filha de Lisinha, por mais inesperado que parecesse, não houve sinais de maleficência, pelo menos de forma aparente, que ela tivesse dado conta. Pelo contrário, na véspera do nascimento da menina, apareceu-lhe um anjo, muito branco, muito brilhante, com os braços abertos, à cabeceira da cama. Lisinha sorriu-lhe timidamente, espavorida com a aparição e embriagada pelo padecimento. Mas o querubim não lhe falou. Esteve ali durante uns instantes e foi embora, encavalitado numa luz. Lisinha nunca percebera aquilo, apenas via que a filha era uma criança normal, crescera saudável, esperta e vaidosa como a mãe, mas de postura mais altiva e pouco afável. A maldição, porém, viria mais tarde, nos anos de vida em que Lisinha se vê, agora, destinada a aturar a filha, “Mãe, agasalhe-se”, “Mãe, telefone-me, para eu saber que está bem”, “Mãe, tomou os remédios”, que suplício. A filha bem queria que Lisinha fosse viver com ela. Moravam a uma distância considerável e, com a mãe por perto, sempre ficaria mais sossegada. Com a falência das fábricas, o Toninho e a mulher abriram o seu próprio negócio – já não dava para viver da loja e da taberna, nos arredores de uma cidade que crescia, ávida de movimento, aberta ao comércio e aos turistas –, cresceram-lhes os filhos, o local de trabalho, o orçamento e a casa para morar. E Lisinha ficou sozinha naquele casarão, frio, desgastado pelo tempo, preenchido de sombras de fileiras de pessoas que por ali passaram, durante anos a fio. Mas logo fincou pé e desenganou a filha, “Daqui ninguém me tira”. E, agora, diariamente, a filha passava uma aflição para que nada faltasse à mãe. Tinha uma boa reputação no seu meio e nunca se perdoaria se alguma coisa lhe acontecesse, não viesse depois o povo dizer, “ A filha tinha uma boa casa, nunca precisou de trabalhar, que o marido sempre ganhou para ela, bem podia ter tomado conta da mãe”. 

Apesar de tudo, o parto mais fácil, aquele em que Lisinha não deu por nada, fora há quarenta anos, quando lhe nasceu aquele peito de pássaro – e por aqui se irá concluir que, por ter sido fácil, não seria, por força da razão, abençoado. Era uma manhã como outra qualquer. Lisinha andava a pensar os animais, nas cortes, quando o largou ali mesmo, no meio do estrume. Foi uma enorme surpresa para Lisinha. Pelas suas contas, ainda faltariam duas luas. Berrou por auxílio. Ampararam Lisinha, ainda não refeita do susto, enquanto revirava os olhos, em direcção às traves, a avistar, um lume fugidio, um fuminho de agoiro. Isso afiançou ela, mas ninguém pôde comprová-lo. Levaram a criança para casa. Mas o menino era frágil, não se podia mexer-lhe muito, quebravam-se-lhe aqueles os ossos de pássaro. Por isso, nem foi possível dar-lhe banho, até ele ganhar consistência, ficando o pobre desamparado na alcofa, fedorento, com um ar remelado, e cheio de crostas do estrume que não se podia esfregar. De facto, o Nelo não era um menino como outro qualquer. Nem nunca viria a ser. Tudo nele, com excepção do nascimento, foi tardio. Mal cresceu, mal chegou a andar, não dizia uma palavra, mais que um grunhido, não tinha fome. Muitas vezes, o filho da Carminha costureira, com os seus três aninhos, um menino robusto e destemido, quando andava por ali a brincar, ia mamar nos peitos de Lisinha, a matar a sede com o leite que o Nelo não queria para si. E, às vezes, na vertigem do sono das noites quentes de verão, uma cobra vinha mamar o leite, quente e espesso, que lhe escorria dos peitos fartos. Lisinha não tinha a certeza se chegou alguma vez a vê-la, mas sabia que era assim. Bem tentava, durante o dia, escorraçar o desprezível animal, que rastejava por entre as ervas do quintal, mas parecia que gozava com ela, desaparecendo num hábil rabear. Enquanto bebia o leite, a bicha metia o rabo na boca do menino, para o manter entretido, o que o deixava ainda menos predisposto a alimentar-se, enjoado de mamar, enganado pelo abjecto que a mãe, desgraçadamente, não conseguia controlar. O menino trazia um sopro dentro dele, um sopro danoso e maléfico. Lisinha soube-o desde o dia em que o deitara ao mundo. Era azul, franzino e apático. Até a moleirinha do menino tardava em fechar, e Lisinha parecia que via lá para dentro os horrores que não queria ver, um óculo aberto para a eternidade. Lisinha bem correu com ele, de médico em médico, de benzedura em benzedura, não poupando esforços para livrar o seu menino do mal que a ele vinha amarrado. Mas nada. O menino começou a andar, pelo seu pé, tremeliquento, por volta dos quatro anos, aos onze, curvado, com uma muleta, e aos quinze, reduzido a metade, numa cadeira de rodas. E era vê-lo definhar de dia para dia, hora após hora, até que os médicos apostaram na derradeira tentativa de o segurar à vida. O rapaz morreu, com vinte e dois anos, na sala de operações, uma alma, um pássaro leve e azul que subiu aos céus. Um fuminho.

Lisinha definhou. Deitou contas ao destino, ou ao que quer que fosse que a deixava viver assim fadada pelo mal, e também ela desejou morrer, “Todo o mal do mundo, toda a dor, mas não há dor maior do que perder um filho”. Não há. 

Tristes recordações traz agora Lisinha, “Não há maior dor”, nesta tarde de outono, em que meio mundo está preocupado com a peçonha, que por aí anda e andará, e sempre andou, “Lembraram-se agora”. Lisinha vai ligeira, pela berma do caminho. Vai à cabeleireira, que isto é preciso cuidar do cabelo, para se sentir bem. O seu cabelo sempre fora preto, “Não há-de agora pôr-se branco”. Veste de preto, eterna viúva, eterna mãe que perdeu o filho, as saias a bater no joelho – abaixo não, que baixa já ela é –, as blusas com um detalhe, laço, pequeno folho, pinta branca quase invisível, os casacos de algodão, e os sapatos ortopédicos. E pretos. Tudo é preto, ressalvando-se o ouro, o grosso cordão herdado da mãe, onde pende um medalhão que mandara fazer, com o retrato do seu finado filho, o seu menino suspenso, parado no tempo, anjo-da-guarda.

CÁRIE DENTÁRIA: NÃO CONTAGIE OS SEUS FILHOS

SÍLVIA TEIXEIRA
A cárie dentária é uma doença infecto-contagiosa e, por isso, transmissível de pessoa para pessoa.

As bactérias que se encontram na boca transformam os restos de alguns alimentos em ácidos, que danificam o esmalte dos dentes causando cavidades, denominadas cáries dentárias.

Se os pais padecem de cáries podem transmitir essas bactérias aos seus filhos.

A boca dos recém-nascidos é estéril ou seja não tem bactérias, no entanto, principalmente entre os 6 meses e os 4 anos as crianças estão mais susceptíveis a contrair a doença pois nesta fase entram em contato com mais bactérias, o sistema imunitário não está totalmente amadurecido e os dentes não se encontram totalmente calcificados.

Estudos indicam que se conseguirmos manter uma criança sem contato com as bactérias da cárie até ela completar 9 anos, as hipóteses de nunca ter uma cárie na vida são de 90%.

Os meios de transmissão mais comuns de pais para filhos são os beijos nos lábios, a partilha de talheres, biberões ou chupetas.

Para evitar contagiar os seus filhos é recomendável:

· Que as crianças tenham os seus próprios talheres e que o adulto utilize uma colher diferente mesmo que seja só para provar os alimentos ou testar a sua temperatura;

· Não soprar os alimentos para os arrefecer pois assim enviamos pequenas gotículas de saliva;

· Não provar os líquidos diretamente do biberão;

· Não introduzir na boca a sua chupeta mesmo que seja para a “limpar” quando cai ao chão;

· Não beijar nos lábios;

· Manter uma correta higiene bucal e cuidados dentários em toda a família.

E, não se esqueça, que ao cuidar da sua saúde oral está também a prevenir o aparecimento de cáries nos seus filhos.

ORIENTAÇÕES COMPETITIVAS

GONÇALO NOVAIS
Nesta viagem pelo mundo fascinante da motivação, não deixo de sublinhar três aspectos que, presentes nos artigos anteriores, ajudam a introduzir o tema deste artigo:

a) A motivação é SEMPRE um processo – não existe forma alternativa de a trabalhar adequadamente;

b) Para que o processo motivacional tenha qualidade, é necessário ter presente quais os objectivos de realização de todos os envolvidos no processo;

c) Normalmente os indivíduos apresentam uma propensão ou tendência para se sentirem mais mobilizados no sentido da prossecução de tipos específicos de objectivos, havendo os que se mobilizam mais em prol de objectivos de resultado, e outros de objectivos de performance.

Peguemos no ponto c) e juntemos-lhe uma observação que fiz no artigo anterior, na qual refiro que “, o treinador tem autoridade para tomar decisões, nomeadamente no sentido de implementar um processo motivacional que julgue mais adequado às características e necessidades formativas e pedagógicas dos seus desportistas.”. O que aqui quero transmitir, ao juntar estes dois pontos, é que o treinador, como líder técnico, tem a responsabilidade de definir um determinado processo motivacional que, embora nunca desfasado do conhecimento dos objectivos de realização dos desportistas e demais envolvidos no processo, possa não corresponder necessariamente ao tipo de objectivos que mais mobilizam os mesmos.

Dito de uma forma mais prática para exemplificar o que aqui acabei de escrever, imagine-se um treinador que principia uma época desportiva tendo à sua disposição uma equipa cuja esmagadora maioria dos jogadores define como o principal objectivo de realização para a temporada a conquista do título de campeão da competição em que a equipa está envolvida. No entanto, após a primeira semana de trabalho, o treinador percebe que esses mesmos jogadores, e a equipa no seu todo, apresentam graves lacunas na capacidade de pôr em prática os princípios ofensivos e defensivos específicos da modalidade praticada pela equipa em questão. E agora eu pergunto: será que o treinador, como responsável pela condução do processo, não deve ter uma decisão a tomar no sentido de definir prioridades e objectivos mais adequados à necessidade formativa desta sua equipa? Será que o treinador deve incentivar a conquista de títulos sem que veja na sua equipa o desenvolvimento de características e competências necessárias para tal? Será que não deve exercer uma certa autoridade no sentido de ajustar os objectivos de realização dos seus jogadores e equipa às possibilidades e necessidades da mesma?

Aquilo que eu penso é que SIM, o treinador DEVE fazer valer a sua autoridade no sentido de, como responsável pela condução do processo desportivo, intervir na definição do rumo do processo motivacional em função das necessidades que ele perceba na equipa ou nos atletas sob a sua liderança. Isto não invalida, DE MANEIRA NENHUMA, que possamos admitir que, afinal de contas, os objectivos de realização das pessoas que lideramos num processo de trabalho sejam negligenciáveis, bem pelo contrário. Desconhecer e negligenciar os objectivos de realização daqueles que lideramos constitui o primeiro passo para a falta de qualidade do nosso processo motivacional, que emergirá rapidamente mal os resultados e o rendimento desportivo não sejam os desejados.

No entanto, antes de tomar qualquer decisão sobre o processo motivacional que se está a desenvolver, há que conhecer vários factores associados a este processo, como sejam os objectivos de realização, as percepções de competência, os envolvimentos motivacionais e um outro factor, a abordar neste artigo, ao qual se dá o nome de orientação competitiva.

O que é a orientação competitiva?

É nada mais nada menos do que uma predisposição para abordar situações de natureza competitiva com um tipo específico de envolvimento, seja com o ego, seja com a tarefa.

As orientações competitivas caracterizam-se pela sua relativa durabilidade e estabilidade, mas também pelo facto de serem passíveis de ser trabalhadas e modificadas em função das exigências do contexto. Embora possam ser trabalhadas, é necessário reter que as orientações competitivas não se alteram de um momento para o outro, sendo parte importante da forma como o desportista estrutura o desenvolvimento da sua prática desportiva.

Existem dois tipos de orientação competitiva, que são a orientação para a tarefa(orientação competitiva está canalizada para o aperfeiçoamento da qualidade da execução da tarefa ou conjunto de tarefas) e a orientação para o ego (orientação competitiva canalizada para a obtenção de resultados e performances de qualidade superior relativamente aos demais praticantes), podendo haver muitos casos nos quais características de ambos os tipos estejam presentes em simultâneo.

As orientações competitivas trazem consigo numerosas implicações em vários aspectos, que podemos analisar separadamente para cada uma das orientações.

Eis as implicações da orientação para a tarefa:

● PERCEPÇÃO DE COMPETÊNCIA- tendência para conceber a competitividade baseada numa percepção de competência auto-referenciada; prioridade é a expressão de mestria na execução das tarefas propostas; maior conhecimento em torno das potencialidades e limitações que apresenta.

● CRENÇAS SOBRE AS CAUSAS DO SUCESSO- crença de que o esforço e o trabalho árduo são fundamentais na obtenção de sucesso, percepção especialmente importante nos estádios iniciais de desenvolvimento desportivo, no qual o esforço e a persistência no trabalho realizado podem conduzir à melhoria da performance; valorização da cooperação e trabalho árduo como bases sustentadoras do sucesso e da competência apresentada.

● OBJECTIVOS DA PRÁTICA- associados à crença de que os objectivos da prática são a promoção da auto-estima, integração social, mestria na prática de uma modalidade específica, encorajamento da implementação de um estilo de vida fisicamente activo e saudável, e estimulação de valores pró-sociais como a responsabilidade social, cooperação, e o respeito pelas normas e regras sociais implementadas.

● AFECTOS E INTERESSE INTRÍNSECO- mais experienciação de sentimentos como o divertimento, satisfação com a prática e vontade de continuar envolvido com a prática; fontes de satisfação são a expressão de mestria e o compromisso e o envolvimento com a modalidade em si.

●ANSIEDADE- menor probabilidade de surgimento de ansiedade pré-competitiva, ansiedade cognitiva e/ou somática, menor preocupação com aspectos irrelevantes no âmbito da tarefa a executar, menos probabilidade de abandonar a prática, e menos receio do erro ou da crítica externa; orientação associada a uma maior capacidade de manutenção da concentração e de utilização de estratégias de coping efectivas, em contexto de alta competição.

● ESFORÇO E PERFORMANCE- mais esforço dispendido na melhoria da qualidade da execução nas tarefas, sendo que tal esforço corresponderá a uma maior persistência no alcance de um nível de competitividade cada vez mais aproximado de níveis de excelência; recolha de informação e instrução considerada relevante no sentido de ajudar a melhorar a qualidade de execução.

●FUNCIONAMENTO MORAL- melhor funcionamento moral ao nível de aspectos específicos como o julgamento moral de diversas situações, o «fair-play», o respeito pelas normas e valores éticos e morais instituídos; menos agressividade; de notar o maior respeito e cumprimento das regras.

Já as implicações da orientação para o ego:

● PERCEPÇÃO DE COMPETÊNCIA- estes atletas orientados para o ego sentem-se competentes quando se comparam favoravelmente em relação aos outros atletas da mesma modalidade, o que faz oscilar a sua percepção de competência, pois os resultados dos outros também oscilam; menor capacidade para perceber o sucesso e a sua competência, pois essa varia com os resultados obtidos; o dispêndio de esforço é variável, podendo ser alto quando o atleta está fortemente empenhado em superar os opositores e obter bons resultados, ou baixo quando o atleta não se percebe a si próprio como capaz de alcançar os objectivos de realização previamente definidos.

● CRENÇAS SOBRE AS CAUSAS DO SUCESSO- a perspectiva destes atletas está associada à crença de que o sucesso é alcançado através da expressão de um alto nível de qualidade e de utilização de estratégias "sujas", ilícitas, como "engraxar" o treinador ou tentar impressioná-lo, através da expressão de comportamentos que visem tentar chamar a atenção do treinador.

● OBJECTIVOS DA PRÁTICA- os atletas querem obter por intermédio do desporto estatuto social, popularidade, mobilidade social (alargamento de horizontes pessoais e profissionais), mentalidade competitiva, e superioridade em termos de qualidade relativamente aos outros.

● AFECTOS E INTERESSE INTRÍNSECO- menos frequência na vivenciação de sentimentos como o prazer e o divertimento na prática das modalidades; fontes de satisfação são a demonstração de superioridade e sucesso no sentido normativo do termo e a capacidade de ajudar atletas e treinadores na resolução de certos problemas práticos; menos experienciação de afectos considerados positivos como a satisfação, o divertimento, a felicidade e o bem-estar subjectivo e psicológico.

● ANSIEDADE- atletas orientados para o ego podem vivenciar maiores ou menores níveis de ansiedade cognitiva e somática consoante a existência de valores maiores ou menores de percepção de competência (quanto maior a percepção de competência, menores índices de ansiedade cognitiva e somática); a orientação para o ego está positivamente relacionada com maiores índices de ansiedade-estado e ansiedade-traço, com ansiedade cognitiva manifestada sob a forma de preocupação, com níveis de actividade fisiológica superiores aos recomendáveis, e com perdas de concentração durante a competição.

● ESFORÇO E PERFORMANCE- estabelecem uma diferenciação entre esforço e performance, sendo que regulam o esforço dispendido na execução das tarefas mediante os resultados obtidos, dispendendo apenas o esforço necessário para ganhar jogos. Contudo, no caso de estes atletas apresentarem uma P.C. Baixa, a regulação dos níveis de esforço dispendido é pouco relevante, pois os atletas têm medo da respectiva exposição a situações competitivas; as oscilações de esforço e persistência face aos desafios e obstáculos, aliada à falta de estabilidade de aspectos emocionais e motivacionais ligados à performance desportiva dos atletas, condiciona negativamente a qualidade e a evolução qualitativa da performance desportiva dos atletas, que por norma é inferior à apresentada pelos atletas orientados para a tarefa.

● FUNCIONAMENTO MORAL- menos «fair-play»; maior agressividade; pior funcionamento moral; menos respeito pelas normas e convenções, bem como pelos agentes do jogo; comportamentos desadaptativos mais frequentes em indivíduos do sexo masculino; não é a cultura competitiva que está na origem destes comportamentos mais desadaptativos, mas sim a própria forma de o atleta se envolver com o contexto competitivo no qual se integra.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

MIXÓRDIA DE TEMÁTICAS - EM VERSÃO SÉRIA

PAULO SANTOS SILVA
Ponto prévio – peço desculpa ao Ricardo Araújo Pereira pela “usurpação” do título da crónica. Começo esta crónica, por dizer-lhe que já não me lembrava de um dia em que houvesse tantos assuntos interessantes e/ou importantes sobre os quais escrever. 

Poderia escrever sobre o Dia Internacional das Crianças Desaparecidas. 

Neste dia que hoje se comemora, é inevitável não nos lembrarmos da luta incansável e dolorosa que a mãe do Rui Pedro tem travado ao longo destes longos (passe a redundância…) 18 anos para saber o que verdadeiramente aconteceu ao seu filho. Se for vivo, terá hoje 29 anos. A justiça condenou o seu alegado raptor a cumprir uma pena de 3 anos de cadeia, decisão que viria a ser confirmada na última instância de recurso – o Tribunal Constitucional. No entanto, as perguntas continuam sem resposta. Onde está o Rui Pedro? O que aconteceu? Será que algum dia estas perguntas virão a ter resposta?

Poderia escrever sobre o movimento Defesa da Escola Ponto. 

Qual escola? A que foi perdendo alunos para as escolas privadas que surgiam como verdadeiros impérios ao seu lado? A que perdeu professores para o desemprego? A que separou pais e filhos quando alguns desses professores tiveram de concorrer para escolas a centenas de quilómetros de casa, para não perderem o seu vínculo laboral ou, pior do que isso, o seu emprego? A Escola, a verdadeira Escola, não é amarela. É amarela, é azul, é verde, é de todas as cores. Liberdade de escolha, sim. À “minha” custa, não. É que não sei se sabem, mas entre muitas outras coisas, ainda tenho dois Bancos para pagar… A propósito, diz-se que será hoje que a Deloitte entregará o estudo encomendado pelo Banco de Portugal, estudo esse que tinha como finalidade avaliar se a resolução do Banco Espírito Santo foi melhor para os credores do que a liquidação. A ver vamos as conclusões.

Poderia escrever sobre o desaparecimento de um dos mais marcantes sacerdotes da Igreja Católica que até hoje conheci – o Monsenhor Alexandrino Brochado. 

Natural da freguesia de S. Pedro da Raimonda (Paços de Ferreira) onde nasceu há 95 anos, foi ordenado presbítero em 1944. Foi secretário particular do Bispo do Porto D. Agostinho de Jesus e Sousa, entre 1943 e 1952. Após a nomeação do novo Bispo do Porto, o emblemático D. António Ferreira Gomes, foi-lhe confiada em 1953 a Reitoria da Capela das Almas, em plena Rua de Santa Catarina no coração da cidade do Porto. Ao longo desta caminhada marcante, lecionou a disciplina de Religião e Moral no Liceu Alexandre Herculano e presidiu à Caritas Diocesana do Porto. Homem de cultura, foi também escritor. De entre as várias obras que publicou, destacaria “O Porto e as suas Igrejas Azulejadas”, sem dúvida, uma obra de referência para os amantes desta arte tão portuguesa. Tive o privilégio de o conhecer e com ele privar, num dos momentos mais importantes da vida de uma pessoa – a adolescência e a juventude. Fui testemunha do seu espírito jovem, que teimava e resistia ao avançar da idade física. Não deixa de ser curioso, que só ao saber do seu desaparecimento, me tenha dado conta da idade que já tinha. Para mim, o Padre Brochado não envelhecia. Não fazia anos. Estava sempre lá, na “sua” Missa do Meio-dia, a disfrutar da música que o grupo de jovens Triângulo Verde lhe oferecia com tanto amor e paixão, aguardando por todos os que o queriam cumprimentar na Sacristia, no final. Recordações, são mais que muitas. As homílias, com citações do escritor francês Georges Bernanos, entre outros. A recorrente frase que tantas vezes fazia questão de recordar: “Quando vim para a Capelas das Almas, ela era conhecida por ser a igreja das teias de aranha, dos ratos e das beatas. Já consegui acabar com as teias de aranha e com os ratos…”. Pelo Bem que praticou, por aquilo que foi e que tanto nos marcou, pelo exemplo que sempre será como Homem de Igreja (e tantos poderiam aprender com ele!...), estou certo que mais dia, menos dia, será alvo de uma mais do que merecida homenagem por parte da cidade que o acolheu – a Mui Nobre Leal e Invicta, Cidade do Porto.

ESTÁDIOS E CIDADES DO EUROPEU – PARIS

Breve descrição da cidade
CRÓNICA DE GONÇALO NOVAIS
Lutécia foi o primeiro nome dado à actual capital francesa, que foi baptizada de Paris apenas após o estabelecimento de uma tribo celta na região, no séc. III a. C.

A sua elevação a capital ocorreu em 508, por iniciativa de Clóvis, rei dos francos, após o colapso do Império Romano. E foi a partir daí que a cidade se tornou o centro administrativo de uma das nações mais poderosas a nível europeu, o que fez com que naturalmente muitas das ideias progressistas e períodos de agitação intelectual e difusão de numerosas correntes de pensamento conducentes a algumas das revoluções políticas e socioculturais de maior impacto na história da Humanidade tivessem em Paris um natural centro difusor.

Ainda hoje a ditar e definir “modas” no referente à gastronomia, vestuário ou às artes, Paris apresenta um imenso e inigualável património arquitectónico que atesta bem a sua importância histórica, intelectual e artística, como a Torre Eifell, a Basílica do Sagrado Coração de Paris, o Museu do Louvre ou o Jardim das Tulherias, isto para não falar do bairro histórico de Marais (onde se podem encontrar imensos cafés, restaurantes e cervejarias), da Boulevard Haussmann e das Galerias Lafayette (pontos de paragem obrigatórios para compras), havendo ainda a possibilidade de realização de cruzeiros pelo rio Sena. Não chega um pequeno artigo para descrever os imensos motivos de interesse oferecidos pela capital francesa.

Apesar do recente domínio do Paris Saint-Germain no campeonato francês de futebol, são no entanto outras modalidades desportivas que mais colocam em destaque a cidade, nomeadamente através do prestigiadíssimo torneio Roland Garros, um dos quatro Grand Slams do calendário anual do ténis internacional, ou da última etapa do mais do que credenciado Tour de France no ciclismo.

O estádio


NOME: Parque dos Príncipes

LOTAÇÃO: 45.000 espectadores

INAUGURAÇÃO: Maio de 1972

CLUBE UTILIZADOR: Paris Saint-Germain FC


Jogos do Euro 2016 em Paris

Fase de grupos

12/06/2016, 14h00: Turquia - Croácia

15/06/2016, 17h00: Roménia - Suíça

18/06/2016, 20h00: Portugal - Áustria

21/06/2016, 17h00: Irlanda do Norte – Alemanha

Oitavos-de-final

25/06/2016, 17h: Jogo a designar

Nota: Este artigo foi realizado graças à informação facultada publicamente pela UEFA, no seu site oficial.
Foto estádio - UEFA
Foto cidade - en.parisinfo.com

BASES HISTÓRICAS DA FISIOTERAPIA

LIANE SANTOS 
Quais são as bases históricas da Fisioterapia?
A fisioterapia englobou, desde sempre, três elementos que constituem o seu suporte enquanto profissão:
  • Massagem
  • Ginástica Médica
  • Electricidade Médica

Visto isto, irei falar de cada uma destas bases históricas.

MASSAGEM: Elemento mais antigo na profissão de um fisioterapeuta!

O uso das mãos é essencial para a fisioterapia!
  • Palpar e explorar as condições dos tecidos;
  • Sentir o alinhamento, tensão, pressão dos tecidos;
  • Meio terapêutico – o toque, o contacto sensorial expresso pelo contacto humano;

A massagem foi uma base importante para o desenvolvimento de técnicas manipulativas, de mobilização e alongamentos.
  • Fisioterapia é uma profissão que usa o contacto humano para obter respostas sensoriais, como meio terapêutico e cura;
  • Utilização dos conhecimentos e técnicas manuais para a observação e manipulação dos tecidos

USAMOS AS MÃOS, LOGO SOMOS TERAPEUTAS MANUAIS

GINÁSTICA MÉDICA
Através desta base, os fisioterapeutas especializaram-se no movimento humano, normal ou fora dos padrões normais, utilizando também aqui as mãos e desenvolvendo saberes de observação e análise, bem como, de correcção.

Os fisioterapeutas tocam nos utentes, lidam com a biomecânica e a partir dai:
  • Trabalham na reeducação postural;
  •  Lidam com a força, fraqueza, controle neuromuscular, equilíbrio utilizando sempre o feedback manual;
  •  Lidam com rigidez, mobilidade, função, actividades da vida diária, doenças e prevenção e educação para a saúde;
  • A compreensão das bases académicas da ginástica médica significa compreensão da biomecânica, da fisiologia, da performance, e da teoria do exercício e do ensino.
  • Mesmo aqui as mãos são a principal arma, sendo preferenciais relativamente aos meios mecânicos.

A fisioterapia especializou-se nos problemas de função e mobilidade, nas bases físicas e fisiológicas de lidar e prevenir a lesão.

ELECTRICIDADE MÉDICA E TRATAMENTOS SIMILARES:
  •  Atribuiu a capacidade de lidar com alterações celulares e tecidulares, de actuar em termos circulatórios, neuromusculares, entre outros.

  • Utilização de agentes físicos que interferem com a actividade celular e função, bem como, nas mudanças de percepção da dor.


MODELO DA FISIOTERAPIA:
·         1º anel – Três bases da fisioterapia;
·         2º anel – Saberes e as técnicas que foram desenvolvidas a partir do núcleo;
·         3º anel – Bases académicas (anatomia, fisiologia, biofísica, biomecânica, etc.) e princípios filosóficos da nossa actuação.
·         4º anel – Campo de exercício da nossa profissão para resolução de problemas.


Algumas áreas de intervenção da fisioterapia



FRANÇA, UM ANO PARA MUDAR

RUI SANTOS
A 12 meses das eleições presidenciais, François Hollande é, de acordo com o barómetro Ifop, o chefe de Estado francês mais impopular de todos os presidentes da V República francesa. Só 14% dos franceses têm opinião positiva sobre o seu trabalho à frente dos destinos de França. Embora a popularidade de Hollande tenha subido após os atentados em Paris ocorridos em Novembro de 2015, o primeiro trimestre de 2016 foi terrível para o executivo. O projecto de lei referente a alterações na legislação laboral apresentado em Março originou uma forte contestação por parte dos trabalhadores, em geral, e dos sindicatos, em particular. Não obstante estes indicadores, tudo indica que o candidato da área política socialista será Hollande. Manuel Valls, Jean-Luc Mélenchon ou Emmanuel Macron estão atentos mas não parece provável que afrontem Hollande. De acordo com as várias sondagens realizadas até ao momento, não é provável que qualquer um dos candidatos que se perfilam possa ser eleito à primeira volta, tal como não é garantido que Hollande possa aceder à segunda volta das eleições presidenciais de 2017.

Alain Juppé, o presidente da câmara de Bordéus, é o candidato do partido Os Republicanos, de direita, que aparece melhor colocado para passar à segunda volta. As sondagens do Ipsos e do Ifop dão-lhe, respectivamente, 51% e 63% de opiniões positivas. Estes resultados indicam que Juppé poderá ser o candidato favorito da direita, uma vez que Nicolas Sarkozy recolhe entre 29% a 32% de opiniões favoráveis.

Do lado da extrema-direita, Marine Le Pen aspira passar à segunda volta e disputar a presidência com o candidato apoiado pela esquerda. A não ser que aconteça algo inesperado, a sua presença na segunda ronda eleitoral é um dado praticamente adquirido.

François Hollande, eleito em Maio de 2012, foi visto por muitos como aquele que iria devolver o socialismo ao espaço político europeu e afastar a chamada «terceira via», do britânico Tony Blair, da prática socialista. Falhou redondamente. O seu governo não conseguiu afirmar o Partido Socialista francês como o grande opositor da Frente Nacional e arrisca-se a deixar que os franceses optem, na segunda volta das eleições, entre um candidato de direita e outro de extrema-direita. Curiosamente, essa poderia ser a melhor solução para impedir uma vitória de Marine Le Pen. Toda a esquerda se uniria em torno do Juppé para impedir a chegada à presidência da Frente Nacional. Caso Hollande dispute a segunda volta, Marine Le Pen é apontada por alguns estudos de opinião como a vencedora das presidenciais de 2017.

Uma França governada por Marine Le Pen seria um péssimo sinal para os restantes países europeus. Marine já provou que consegue atrair muito do eleitorado que tradicionalmente votava à esquerda dos socialistas franceses, como aconteceu na Bretanha, e que não tem problemas em apoiar partidos de outros países colocados no lado oposto da Frente Nacional, como foi o caso do apoio dado aos gregos do Syriza na sua luta contra as políticas europeias. Onde existir o voto de protesto a Frente Nacional está lá a apoiar. Ao tomar para si causas habitualmente pertencentes à esquerda, como é o caso do desemprego ou da oposição à política da União Europeia, a Frente Nacional tem esvaziado por completo a área política à esquerda do Partido socialista francês. Ou seja, chama a si praticamente todo o voto de protesto. Depois da extrema-direita ter chegado ao poder na Hungria e na Polónia, e quase na Áustria, a Europa democrática não pode continuar impávida a assistir a toda esta alteração no xadrez político.

François Hollande ao procurar alterar a legislação laboral – com o argumento que vai promover o crescimento da economia e o emprego – só está a dar um tiro, não no pé mas no coração. É um suicídio político. A alteração à lei actual retira direitos aos trabalhadores e facilita os despedimentos. Hollande devia pensar que quando um trabalhador é despedido, não é este que é afectado pela sua nova condição. É muitas vezes uma família que está em causa, o rendimento que lhe confere alguma expectativa de realização social. Quando essa expectativa é posta em causa, a coesão social dificilmente existe. Promover a convulsão social só beneficia Marine Le Pen, a candidata que representa o anti-sistema, e as suas ideias xenófobas e anti-Europa. Além do mais, está por provar que a flexibilização do direito laboral, só por si, contribua para o crescimento económico de um país. Num mundo globalizado, com uma elevada interdependência entre os países e entre os grandes blocos económicos, muitos outros factores devem ser tomados em conta como por exemplo, os acordos internacionais de comércio – veja-se o impacto que a entrada da China teve na Organização Mundial do Comércio –, o preço da energia/combustíveis, o rendimento disponível dos consumidores, políticas cambiais, etc.

Os últimos anos têm mostrado que na Europa é importante, para o funcionamento democrático dos países, a existência de pelo menos dois partidos que ocupem o centro do espectro político. Quando só um existe, o risco de se cair em regimes autoritários, sejam eles de esquerda ou de direita, é bastante elevado. Por enquanto, a vitória numas eleições presidenciais francesas por parte da direita radical parece difícil. No entanto, já se considera como normal a Frente Nacional passar à segunda volta do plebiscito. Até quando é que a França vai conseguir deter o avanço da extrema-direita?

Espero que Hollande tenha consciência das implicações da sua política e que acima de tudo contribua para a continuação do lema da República Francesa – Liberdade, Igualdade e Fraternidade – e não para o crescimento do extremismo político no seu país.