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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

É COMO SE FOSSE CARNAVAL!

ARTUR COIMBRA
O Carnaval é uma época bem delimitada do ano, normalmente por Fevereiro, altura em que acontece a subversão do quotidiano, em que o mundo fica de pernas para o ar, em que o grotesco e o absurdo irrompem nas recriações festivas. Os homens vestem-se de mulheres e as mulheres de homens, devidamente mascarados, como convém, porque tudo é permitido, sem peias nem regras sociais. Tudo se pode dizer e tudo pode ser dito por essa ocasião, em que os excessos da carne atingem o clímax antes de entrarmos na penitência quaresmal, de tal forma que é consagrada a expressão “no Carnaval ninguém leva a mal”.

E só nesse contexto se pode entender as orientações do cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, que defendeu o dever de a Igreja propor a vida em continência, isto é, sem relações sexuais, aos recasados cujos anteriores matrimónios não possam ser declarados nulos.

É uma posição que ninguém defende nem é susceptível de defesa, porquanto dois seres humanos que se juntam ou recasam são livres de assumirem a sua sexualidade, que decorre naturalmente do amor que legitimamente os une.

Como refere o padre Lino Maia, presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade, “Não competirá ao confessor nem ao guia espiritual, e creio que muito menos aos bispos, imiscuir-se nessa questão.”

Por seu turno, o teólogo Anselmo Borges adverte justamente que “Não faz sentido admitir que estão casados, por um lado, e pedir-lhes que não tenham vida sexual, por outro. É contra a natureza humana”.

É claro que a Igreja não deve continuar a “infantilizar a consciência das pessoas”, sendo por estas e por outras que cada vez perde mais prestígio e se assiste a uma crescente descristianização dos indivíduos e das sociedades. Puramente ridículo!

Como apenas por ser Carnaval se justifica a deliberação dos deputados no Parlamento, por unanimidade, admitindo que osanimais de companhia podem, a partir de Maio próximo, acompanhar os donos a restaurantes devidamente sinalizados. 

Os animais terão de estar presos, "com trela curta", e "não podem circular livremente", estando vedada a sua presença na zona de serviços ou onde existam alimentos.

É claro que estamos também no reino do absurdo e do indefensável. Nem é uma questão de não gostar de animais, dos quais genericamente todos gostamos.

Simplesmente, os animais transportam cheiros, muitas vezes doenças, seguramente vão ladrar, para mais se forem permitidos vários no mesmo espaço. E há até questões de segurança, com raças perigosas…

Há que ter o sentido do ridículo e das proporções, o que parece não estar a acontecer neste país.

Enquanto se legisla para admitir cães nos restaurantes, há estabelecimentos de restauração e hotelaria que limitam ou proíbem a entrada de crianças.

E a mesma sociedade que protege os animais e que só falta dormir com eles na cama, despreza, agride, insulta, espanca e maltrata os idosos e os mais vulneráveis e indefesos.

É como se fosse Carnaval todo o ano, com a inversão dos valores e o triunfo claro da sua negação!!!

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

ORIGEM E SIGNIFICADO DA IMPOSIÇÃO DAS CINZAS

JOÃO TEIXEIRA
1. A imposição das cinzas recorda que a nossa vida na terra é passageira e que a nossa vida definitiva está na eternidade, com Deus.
A Quaresma começa com a Quarta-feira de Cinzas e é um tempo de oração, penitência e jejum como preparação para a celebração da Páscoa. São quarenta dias que a Igreja propõe para a nossa conversão.

2. O uso das cinzas com este significado penitencial tem a sua origem no Antigo Testamento.
Aqui, as cinzas simbolizam dor, morte e penitência.

3. Por exemplo, no livro de Ester, Mardoqueu veste-se de saco e cobre-se de cinzas quando sabe do decreto do Rei Assuero I da Pérsia, que condenou à morte todos os judeus do seu império. (Est 4,1).
Job também se veste de saco e cobre-se de cinzas (Job 42,6).

4. Daniel, ao profetizar a captura de Jerusalém pela Babilónia, escreveu: «Voltei-me para o Senhor Deus a fim de Lhe dirigir uma oração de súplica, jejuando e impondo-me o cilício e a cinza» (Dan 9,3).
Por sua vez, Jeremias, dirigindo-se ao povo, apela: «Meu povo, veste-te de saco, luto e lamento, e revolve-te sobre as cinzas»(Jer 6, 26).

5. No século V antes de Cristo, logo depois da pregação de Jonas, o povo de Nínive proclamou um jejum a todos e se vestiram de saco, inclusive o Rei, que se levantou do seu trono e sentou-se sobre cinzas (Jn 3,5-6).
Estes exemplos, retirados do Antigo Testamento, demonstram a prática estabelecida de usar cinzas como símbolo de arrependimento.

6. Entretanto, o próprio Jesus faz referência ao uso das cinzas.
A respeito dos povos que se recusavam-se a arrepender-se dos seus pecados, apesar de terem visto os milagres e escutado a Boa Nova, Jesus afirmou: «Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque se tivessem sido feitos em Tiro e em Sidónia os milagres que foram feitos no vosso meio, há muito tempo elas se teriam arrependido sob o cilício e as cinzas» (Mt 11,21).

7. A Igreja, desde os primeiros tempos, continuou a prática do uso das cinzas com o mesmo simbolismo. No seu livro «De Poenitentia», Tertuliano prescreveu que um penitente deveria «viver sem alegria vestido com um tecido de saco rude e coberto de cinzas».
O famoso historiador Eusébio relata, na sua obra «A História da Igreja», que um apóstata chamado Natalis apresentou-se vestido de saco e coberto de cinzas diante do Papa Zeferino, para lhe pedir perdão.

8. Sabe-se que, na antiguidade cristã, existiu uma prática que consistia no sacerdote impor as cinzas a todos aqueles que deviam fazer penitência pública. As cinzas eram colocadas quando o penitente saía do Confessionário.
Com efeito, nos primeiros séculos da Igreja, os fiéis que tinham cometido faltas graves, de notoriedade pública, deviam submeter-se a uma penitência pública.

9. No início da Quaresma, os cristãos que tivessem praticado escândalos públicos recebiam as cinzas sobre a sua cabeça. Também podiam receber um cilício, um cinto de lã áspera ou eriçado com pontas de arame, e que se trazia cingido aos rins.
Enquanto o coro entoava salmos penitenciais, eram acompanhados até à porta da igreja.

10. Até Quinta-feira Santa, não podiam participar nas celebrações, permanecendo no adro em sinal de penitência.
Só na Quinta-feira Santa depunham os sinais de penitência e podiam entrar de novo na igreja mediante absolvição sacramental.

11. No período medieval, por volta do século VIII, as pessoas que estavam para morrer eram deitadas no chão sobre um tecido de saco coberto de cinzas.
O sacerdote benzia o moribundo com água benta dizendo-lhe: «Recorda-te que és pó e em pó te converterás». Depois de aspergir o moribundo com água benta, o sacerdote perguntava: «Estás de acordo com o tecido de saco e as cinzas como testemunho da tua penitência diante do Senhor no dia do Juízo?» O moribundo então respondia: «Sim, estou de acordo».

12. Em todos estes exemplos, nota-se que o simbolismo do tecido de saco e das cinzas servia para representar os sentimentos de aflição e arrependimento, bem como a intenção de fazer penitência pelos pecados cometidos.
Com o passar dos tempos o uso das cinzas foi adoptado como sinal do início da Quaresma.

13. O ritual para a Quarta-feira de Cinzas já era parte do Sacramental Gregoriano.
As primeiras edições deste sacramental datam do século VII.

14. Hoje em dia, as penitências públicas não seriam compreendidas nem aceites. E, afinal, de forma pública ou de forma privada (mas com repercussão comunitária), todos somos pecadores.
Por isso, as cinzas são colocadas em todos.

15. A cerimónia da bênção e imposição das cinzas, tal como a conhecemos actualmente, é um vestígio da antiga penitência pública, extensiva a todos.
Aliás, começou a ser obrigatória para toda a comunidade cristã a partir do século X.

16. A liturgia actual conserva os elementos tradicionais: imposição das cinzas e jejum.
As cinzas são feitas com os ramos das palmeiras que foram usadas na procissão de Ramos do ano anterior, que se guardam e se queimam para esse efeito.

17. A fórmula de bênção das cinzas faz menção da condição pecadora de quem as vai receber.
Basicamente, as cinzas simbolizam: 1) a situação pecadora do homem, a oração e a súplica ardente para que Deus o ajude; 2) a ressurreição, já que o homem está destinado a participar no triunfo de Cristo.

18. O sacerdote abençoa as cinzas e coloca-as na fronte de cada fiel traçando com elas o Sinal da Cruz.
Nessa altura, diz : «Lembra-te, homem, que és pó da terra e à terra hás-de voltar»(cf. Gén 3, 19) ou então «Arrependei-vos e acreditai no Evangelho»(Mc 1, 15).´

19. Começamos, assim, a Quaresma examinando o nosso passado e tomando consciência do nosso pecado.
Só assim poderemos voltar os nossos corações para Jesus, que sofreu, morreu e ressuscitou para nossa salvação.

20. Este tempo serve para renovar as promessas do nosso Baptismo e para nos reaproximarmos de Deus pelo Sacramento da Reconciliação, que os antigos denominavam «Baptismo laborioso».
Deste modo, estaremos a preparar condignamente a celebração da Páscoa de Jesus, incorporando em nós uma vida genuinamente pascal, ou seja, transformada.

sábado, 20 de janeiro de 2018

ETERNAS PERSEGUIÇÕES RELIGIOSAS?

JORGE NUNO
Todos nós, se aprofundarmos a essência de cada religião, verificamos que a maioria dos seus “fundamentos” podem ser aceites, pois falam em amor, humildade, fraternidade, tolerância, respeito, fé, humanidade… isso mesmo, dando pistas para que o homem se torne mais humano e, paradoxalmente, poder fazer a sua ascensão e aproximar-se da “divindade”! Mas não deixa de ser curioso: nas mais antigas religiões conhecidas, já se ouvia falar em deuses mitológicos que perseguiam outros deuses; os relatos veem-nos da antiga Grécia, Egipto e também da Babilónia. E o que espanta é como religiões de amor acabam em expressões de ódio, que fomentam e levam à prática autênticos genocídios; foi verdade antes do surgimento do cristianismo, manteve-se ao longo de séculos, sendo ainda mais evidente nos dias de hoje, com todo o mediatismo dos meios de comunicação e passagem de informação em tempo real.

Já em meados do séc. XVII, Blaise Pascal terá dito: “Os homens nunca praticam o mal de modo tão completo e animado como quando o fazem a partir da convicção religiosa”.

Não deixa de ser estranho que a fé – que era suposto unir –, mantenha numerosos grupos separados, muitas vezes alienados e dispostos a manter vivo o seu fundamentalismo, capaz de aniquilar os que não têm a mesma visão ideológica ou professam uma “fé” que não a sua. A disputa pelo poder e controlo de supostas religiões, conduz ao controlo de vastas regiões e de outros interesses, como se se tratasse de jogos geopolíticos estratégicos. No maior fanatismo, há sempre quem se sinta honrado em morrer como mártir, e pior é quando se pretender arrastar consigo o maior número de “infiéis”.

À sua maneira, cada confissão religiosa pretende enaltecer os seus mártires, mesmo que à distância de mais de dois milhares de anos muitos dos relatos possam ter sido adulterados, pela passagem de boca em boca, e transformados em convenientes mitos. No entanto, em muitas dessas estórias, parece haver alguma consistência na forma ou processos correntes de execução, à época, dos “traidores” ou inimigos a abater.

Dentro do cristianismo, em cada dia 20 de janeiro comemora-se o dia de São Fabiano e de São Sebastião. O primeiro é mais desconhecido; o segundo é uma figura mais popular, reconhecida como mártir, sendo mostrada a imagem de um jovem, seminu, amarrado a um tronco de árvore e com flechas a trespassá-lo. Tratava-se de um soldado romano, que chegou a integrar a guarda pretoriana, a qual protegia o próprio imperador Diocleciano. Consta que esse imperador fez-lhe um julgamento sumário, considerando Sebastião um traidor, por ajudar cristãos, condenou-o à morte, com flechas, e depois atirado ao rio. Sebastião terá sido encontrado por Irene (mais tarde considerada Santa Irene), mas como não estaria morto, esta cuidou dele até Sebastião ousar apresentar-se novamente perante o imperador. Com nova ordem de Diocleciano, foi espancado até à morte e o seu corpo atirado para um esgoto, em Roma. Luciana (mais tarde considerada Santa Luciana), recolheu e limpou o corpo, fazendo com que fosse sepultado nas catacumbas, em Roma. Há dúvidas quanto ao ano da sua morte, mas aponta-se a data de 286 d. C.

Recuando ao ano de 250 d. C., terá sido num dia 20 de janeiro que o imperador Décio iniciou uma perseguição generalizada aos cristãos, a começar em Roma pela aniquilação do papa Fabiano. Sobre este, consta que não pertencendo ao clero e numa altura em que se procurava ultrapassar o impasse na escolha de um novo papa, surgiu uma pomba branca sobre a cabeça de Fabiano, o que levou à unanimidade na sua escolha para suceder ao papa Antero, um sinal entendido como se se tratasse de “ordem sagrada”. Pela sua morte violenta, também foi considerado mártir e levado para as catacumbas de São Calisto, em Roma.

Cerca de 90 anos após a morte de São Sebastião, foi a vez dos cristãos passarem de perseguidos a perseguidores. Estava-se no tempo do imperador Teodósio I[1], em que este, um ano após o exercício do cargo, instituiu o “credo niceno”, através do Édito de Tessalónica. O cristianismo teria a exclusividade em todo o império – como religião de estado –, passando a haver tolerância “zero” a quem não fosse cristão. Deste modo, à força, foram abolidas práticas politeístas e fechados templos pagãos, comuns em várias partes do vasto território. Esse Édito dizia: “Queremos que todos os povos governados pela administração da nossa clemência professem a religião que o divino apóstolo Pedro deu aos romanos, que até hoje foi pregada como a pregou ele próprio (…). Isto é, segundo a doutrina católica e a doutrina evangélica cremos na divindade única do Pai, do Filho e do Espírito Santo sob o conceito de igual majestade e da piedosa Trindade. Ordenamos que tenham o nome de cristãos católicos que sigam esta norma, enquanto os demais os julgamos dementes e loucos sobre os quais pesará a infâmia da heresia. Os seus locais de reunião não receberão o nome de igrejas e serão objeto, primeiro da vingança divina, e depois serão castigados pela nossa própria iniciativa que adoptaremos segundo a vontade celestial”. Só em Tessalónica terão morrido mais de 6000 pessoas, por via do referido Édito. 

Serão eternas as perseguições religiosas? Segundo a perspetiva de Diana Cooper[2], “Os computadores vão usar frequências mais rápidas e levar informação de luz, possibilitando uma comunicação global instantânea e facilitando a compreensão entre culturas e os países. A tecnologia será contrabalançada pela ligação próxima com a natureza. (…) Por toda a parte, as mulheres estão a começar a assumir o seu poder. Elas estão a reconhecer a sua própria luz. Ao mesmo tempo, algumas religiões vão abrir-se para a espiritualidade, o que vai suavizar o dogma. Isto permitirá às pessoas que se unam, que se enalteçam e que respeitem as culturas umas das outras”.

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[1] Exerceu de 379 a 395 d. C., sendo o último imperador a governar todo o espaço do império romano, tanto a Oriente como a Ocidente.

[2] In “2032 - A Nova idade de Ouro, sendo autora de 20 livros na área da espiritualidade, traduzidos em mais de 30 línguas.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

IMACULADA CONCEIÇÃO, RAINHA DE PORTUGAL

As Nações sobrevivem à erosão do tempo e permanecem vivas na história dos povos se prosseguirem na fecundidade que lhes vem da sua espiritualidade e da sua cultura. A diluição espiritual e cultural de um povo significará inevitavelmente a perca da sua identidade e a sua fusão num hoje sem futuro.

A História de Portugal regista dois momentos altos na recuperação da sua independência: a Revolução 1383-1385 e a Restauração de 1640.

Na Revolução de 1383-1385 salienta-se o cerco de Lisboa, que durou cerca de cinco meses e terminou em princípios de setembro de 1384, acentuando-se durante o assédio, o significado da vitória alcançada por D. Nuno Alvares Pereira em Atoleiros a 6 de abril de 1384 e a eleição do Mestre de Aviz para Rei de Portugal, curiosamente a 6 de abril de 1385. Em 15 de agosto travou-se a Batalha de Aljubarrota, sob a chefia de D. Nuno Alvares Pereira, símbolo da vitória e da consolidação do processo revolucionário de 1383-1385.

No movimento da restauração destaca-se a coroação de D. João IV como Rei de Portugal, a 15 de dezembro de 1640, no Terreiro do Paço em Lisboa.

A Solenidade da Imaculada Conceição liga estes dois acontecimentos decisivos na História da independência de Portugal e no contexto das Nações Europeias. Segundo secular tradição foi o condestável D. Nuno Alvares Pereira quem fundou a Igreja de Nossa Senhora do Castelo em Vila Viçosa e quem ofereceu a imagem da Virgem Padroeira, adquirida na Inglaterra. Este gesto do Contestável reconhece que a mística que levou Portugal à vitória veio da devoção de um povo a Nossa Senhora da Conceição.

Aliás, já desde o berço, já aquando da conquista de Lisboa por D. Afonso Henriques, havia sido celebrado um pontifical de ação de graças, em Lisboa, em honra da Imaculada Conceição.

A espiritualidade que brotava da devoção a Nossa Senhora da Conceição foi novamente sublinhada no gesto que D. João IV assumiu ao coroar a Imagem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa como Rainha de Portugal nas cortes de 1646.

Esta espiritualidade imaculista foi igualmente assumida por todos os intelectuais, que na prestigiada Universidade de Coimbra defenderam o dogma da Imaculada Conceição sob a forma de um juramento solene.

De tal modo a Imaculada Conceição caracteriza a espiritualidade dos portugueses, que durante séculos o dia 8 de dezembro foi celebrado como "Dia da Mãe" e João Paulo II incluiu no seu inesquecível roteiro da Visita Pastoral de 1982 dois Santuários que unem o Norte e o Sul de Portugal: Vila Viçosa no Alentejo e o Sameiro no Minho.

O dia 8 de dezembro transcende o "Dia Santo" dos Católicos e engloba indubitavelmente a comemoração da Independência de Portugal, que o dia 1 de dezembro retoma. O feriado do dia 8 de dezembro é religioso, mas é também celebrativo da cultura, da tradição e da espiritualidade da alma e da identidade do povo português.

Não menos importante, e em âmbito religioso e litúrgico, o tema da Imaculada Conceição da Virgem Maria é já abundantemente abordado pelos Padres da Igreja. Será o Oriente cristão o primeiro a celebrá-la. Festividade que chega à Europa Ocidental e ao continente europeu pelas mãos das cruzadas Inglesas nos séc. XI e XII. Vivamente celebrada pelos franciscanos a partir de 1263, será o também franciscano Sixto IV, Papa, que a inscreverá no calendário litúrgico romano em 1477.

De facto, o debate e a celebração desta festividade em toda a Europa é acompanhada pela história do próprio Portugal. Coimbra, como já vimos, tem um importante papel em todo este processo.

Em 8 de dezembro de 1854, viverá a Igreja o auge de toda esta riqueza teológica e celebrativa. Através da bula "Ineffabilis Deus", Pio IX, após consultar os bispos do mundo, definirá solenemente o dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria.

Não estamos diante de uma simples festa cristã ou de capricho religioso. O dogma resulta de tudo quanto a Igreja viveu até aqui e vive hoje em toda a sua plenitude. Faz parte da identidade da Igreja. Isso mesmo o prova o texto proclamado por Pio IX que apoia a sua argumentação nos Padres e Doutores da Igreja e na sua forma de interpretar a Sagrada Escritura. Ele, de facto, reconhece que este dogma faz parte, depois de muitos séculos, do ensinamento ordinário da Igreja.

Portugal, segundo Nuno Alvares Pereira, ou melhor, São Nuno de Santa Maria, e D. João IV isso mesmo o demonstram, não só como resultado da sua própria fé mas como expressão de um povo deveras agradecido pela sua Independência e Liberdade.

A Conceição Imaculada da Virgem é um dogma de fé segundo o qual Maria é considerada a primeira redimida pela Páscoa de Cristo.
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P. Francisco Couto
Reitor do Santuário de Vila Viçosa, professor do Instituto Superior de Teologia de Évora
P. Senra Coelho, professor do Instituto Superior de Teologia de Évora, Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa 
In Agência Ecclesia
Publicado em 06.12.2015

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

REGRESSO À CIDADE DOS MORTOS

ARTUR COIMBRA
Tal como as folhas se desprendem, como lágrimas, das árvores do Outono, visitámos, neste 1º de Novembro, com os olhos húmidos, os cemitérios onde repousam os nossos ente-queridos. Para muitos, a visita à “cidade dos mortos” (que, em rigor, deveria efectuar-se no dia seguinte dedicado aos Fiéis Defuntos) é um ritual semanal ou quinzenal. Ou até com periodicidade bem mais frequente. Para alindar as sepulturas com as flores da época; para acender as velas rubras da lembrança, compradas na loja dos chineses, que são bem mais em conta; para rezar – quem se estriba nas crenças religiosas – em memória dos pais, dos avós, dos irmãos, dos filhos que foram povoar, antes de nós, o reino das estrelas.

Para outros, a ida ao também chamado “campo santo” acontece apenas uma vez em cada ano, tal como a Páscoa ou o Natal. São as visitas minimalistas de quem considera que o lugar dos que já partiram é no mais quente do coração de cada um; ou fá-lo apenas para cumprir calendário, para que a imagem social não saia beliscada, ao sabor do abandono das obrigações familiares que o senso comum impõe. Ou pura e simplesmente, nem liga a tais manigâncias, e vai porque os outros vão.

Neste dia, nada há que sobreleve a recordação pungente dos familiares e amigos que reconstroem a memória de nós mesmos. É o seu dia anual. Pelo menos esse. Aquele em que vestimos a alma das cores escuras da dor e da mágoa. O dia de trazer o nosso pai de volta ao quotidiano, recordar os passeios que dávamos aos domingos, as idas à feira semanal da vila, apreçar o gado e beber um café, a alegria dos filhos quando ele regressava de França, pelo frio Dezembro, coberto de chocolates e caramelos para a nossa gulodice infantil.

Lembrar a querida mãe, que era a força e o afecto, a gestora da casa e dos filhos, pai e mãe ao mesmo tempo, “viúva” de um vivo ausente em terras gaulesas…

Para cada um de nós, os heróis nunca morrem… E os nossos pais, eternamente sem idade, são imperecíveis, perpétuos. Pelo menos, nos corações dos que os amam como se não houvesse medida…

O 1º de Novembro ou o Dia de Fiéis Defuntos é o dia de chorar os mortos, é claro, porque é da nossa condição cultural, escrever em lágrimas o nosso amor; mas também o de bendizer a felicidade de os termos tido entre nós, para enriquecer as nossas vidas, para dar sentido ao nosso crescimento, para consolidar a nossa humanidade. Daí a oceânica saudade que nos legaram…

Foi com esse sentimento de perda mas também de grata consolação, e de redenção, que encaminhei os meus passos para a cidade dos mortos, onde me esperavam, no seu silêncio eterno, os meus pais e outros familiares que teimam em não morrer no meu pobre coração!...

É a forma de continuarem vivos, no meu meio, dentro de mim, a dar-me a força que me impele à vida!



domingo, 8 de outubro de 2017

ATÉ AO LAVAR DOS CESTOS É VINDIMA

Até ao lavar dos cestos é vindima e a imagem da vinha continua a estar no centro da Palavra de Deus. Neste 27.º Domingo Comum, a vinha representa-nos a todos nós, que somos membros do Povo de Deus.Passado o tempo das vindimas, deixemos então Deus espremer a nossa vida, para vermos, com verdade, os frutos que damos. Pois é «pelos frutos» (Mt 7,15)que os discípulos de Jesus são conhecidos.

Homilia no XXVII Domingo Comum A 2017

POR AMARO GONÇALO
Para quem sabe da poda, o tempo festivo das vindimas já lá vai! Mas enquanto os primeiros dias do outono nos dão a saborear os frutos da colheita e o vinho doce na mesa, com o mês de outubro é tempo de arregaçar as mangas, de começar a cuidar da vinha nos vários campos da missão: na paróquia, nas escolas, nas empresas, nas autarquias. Permitam-me, então, nesta ordem de trabalhos, colocar três pontos de reflexão ou, se quiserem, de inflexão!

1.Primeiro, vamos ao trabalho! E façamo-lo, movidos pelo amor de Deus, à Sua imagem e semelhança, com todo o esmero e cuidado! Deus, que nos criou assim, com amor infinito, e com o mesmo desvelo cuida do Seu povo, também chora como uma videira quando, em vez de uvas doces, colhe uvas azedas, em vez do vinho bom do amor encontra o vinagre da ira e da soberba.

Perguntemo-nos, então, e desde já: a nossa vida cristã não é, por vezes, mais vinagre do que vinho bom? Não é mais conflito do que comunhão? Porque é que, em vez de servidores da alegria do Evangelho, nos tornamos tão rapidamente evangelizadores “com cara de vinagre” (EG 85)?

2.Mas a parábola do Evangelho direciona-nos numa segunda interpelação: ali os frutos são bons, não há uvas azedas! Mas os vinhateiros querem negar ao Senhor da vinha os Seus frutos. Em vez de cuidadores, tornam-se usurpadores! Em vez de guardadores do sonho de Deus e servidores da Sua vinha, tornam-se os donos disto tudo, os reis e senhores da quinta! E chegam mesmo a matar o Filho, Seu enviado, porque não querem responder diante de Alguém.

Como isto é tão atual no campo de sangue em que se transformou a vinha do nosso mundo! Queremos construir um mundo sem Deus para nos tornarmos os senhores absolutos e fazermos dele tudo o que nos apetece! Mas, deste modo, a vinha transforma-se rapidamente num terreno inculto, devastado pelos javalis da selva (cf. Sl 79,14).

Perguntemo-nos, também: quantas vezes, nós próprios, a quem foi confiada a implantação do Reino de Deus, em vez de cuidarmos desta Casa Comum, como jardineiros e guardadores, nos tornamos os seus usurários e destruidores?!

3.Mas escutai, queridos irmãos e irmãs: estes javalis também penetram a Igreja e devastam a vinha predileta do Senhor! Quantas vezes, no âmbito da nossa paróquia, e até no pequeno espaço do nosso grupo pastoral, nos comportamos como donos e senhores da quinta, dominadores dos outros?! Meu pai disse-me uma vez e nunca mais o esqueci: “Meu filho, lembra-te: a Igreja não é tua. Tu é que és da Igreja”. É bom recordar isto todos os dias!

Perguntemo-nos, por isso:movidos pelo amor de Deus, queremos ser os guardadores do sonho de Deus, para a Sua vinha? Ou vamos frustrar o Seu sonho a tal ponto “que nos seja retirado o Reino e dado a um Povo que produza os seus frutos” (Mt 21,43)?

Irmãos e irmãs: que a nossa última palavra não seja de ameaça, mas de esperança, porque o Filho de Deus, rejeitado, transformou a violência da Sua morte numa força de Vida e de Ressurreição. E, no Seu Sangue, dá-nos agora a beber o vinho novo da salvação. Duas coisas nos bastam então, para darmos fruto: permanecer unidos a Cristo, como o ramo à videira. E guardarmos o Seu sonho, como “humildes trabalhadores da vinha do Senhor” (Bento XVI)!

sábado, 16 de setembro de 2017

7.º DIA DA MORTE DE DOM ANTÓNIO FRANCISCO, BISPO DO PORTO

CRÓNICA DO PE. AMARO GONÇALO
1. Tivemos o nosso 11 de setembro! Não caíram torres gémeas, não houve sismos, nenhum furacão deu à costa! Não houve nenhum ataque terrorista. Mas a cabeça do ministério apostólico da nossa diocese caía por terra! A morte súbita do nosso bispo, Dom António Francisco, abala profundamente a sua amada diocese do Porto; deixa em choque a Igreja em Portugal, com réplicas de lágrimas, por Lamego, Braga, Aveiro e pelo país inteiro. Na verdade, um abalo imenso estremece o coração de uma enorme multidão, de homens e mulheres, que foram alguma vez acariciados pela sua quase infinita bondade, de todos aqueles a quem reconhecia o rosto e chamava pelo nome, por quem se interessava, de perto e em concreto. Um ataque fulminante traía o coração do nosso bom pastor, que nos amou tanto, “tanto que o coração não aguentou mais” (Dom António Taipa)! 
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A notícia chega mais veloz que um relâmpago e provoca um turbilhão de emoções, de recordações, de gratidões, como se todos e cada um tivessem uma bela história de vida e de amizade, uma palavra, uma carícia, um gesto de atenção concreta e de bondade, para contar e agradecer, acerca deste grandioso Bispo do Porto, um bispo sábio e bondoso, que se despedira da sua Diocese, em Fátima, num largo abraço, para assim nos confiar à Mãe do Senhor, como Jesus ao discípulo amado. 
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Foi aliás esse o evangelho proclamado na belíssima celebração, em que nos deixara uma espécie de testamento pastoral: “Igreja do Porto: Vive esta hora, que te chama, guiada pelas mãos de Maria, a ir ao encontro de Cristo e a partir de Cristo a anunciar com renovado vigor e acrescido encanto a beleza da fé e a alegria do Evangelho. Viver em Igreja esta paixão evangelizadora é a nossa missão. A vossa e a minha missão”!
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2. Neste domingo, que é também o do 7.º dia da sua morte, a vida bela, o mesmo é dizer, a vida santa do nosso querido bispo, resume-se nas palavras lapidares do Apóstolo Paulo: “se vivemos, vivemos para o Senhor, se morremos para o Senhor. Quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14,7-8). Ele viveu como Pastor que conhece, guarda e dá a vida por cada uma das suas ovelhas, sem se poupar. Viveu para o Senhor, porque viveu d’Ele e viveu n’Ele, para nós. E assim morreu, dando tudo, dando-se todo! Morreu assim, não para desaparecer, não para deixar ficar apenas na retina dos nossos olhos o seu sorriso, ou a sua bondade, na memória eterna dos nossos corações. Morreu para o Senhor, para que, no Senhor, a sua vida consumida por nós, seja consumada por Ele, e se torne vida plena, definitiva, coroada de honra e de glória. 
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3. “Se vivemos, vivemos para o Senhor, se morremos para o Senhor. Quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14,7-8). 
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Irmãos e irmãs: o Senhor é a origem e a meta, o princípio e o fim da nossa Vida! D’Ele vimos: é d’Ele que recebemos esta Vida. Para Ele vamos e n’Ele morremos, porque só n’Ele a nossa vida se realiza e finaliza. E, entretanto, como disse o mesmo Apóstolo, é o mesmo Senhor a fonte e o sustento, o alento e o alimento do nosso viver, pois “é n’Ele que nos movemos, somos e existimos” (At.17,28). Sim, é n’Ele que nos movemos!
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4. “Movidos pelo amor de Deus” (2 Cor 5,4): eis o lema deste ano pastoral 2017/2018, que não vamos deixar ficar no papel, mas que queremos assumir e cumprir, com renovado entusiasmo, dando corpo e vida ao plano diocesano de pastoral, [para o qual tanto trabalhei, com outros colegas, ao lado do nosso bispo, que ficava ora na retaguarda, ora adiante, mas sempre por perto, de olhos visionários. Fui muitas vezes o seu lápis e a sua folha, o confidente e o amanuense dos belos sonhos que Deus lhe inspirava, para a esta Igreja do Porto. Não sei como o hei de agradecer] . 
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5. Escutemos e vivamos, pois, o testamento pastoral do nosso bispo, em Fátima, como um desafio irrenunciável: «vamos partir daqui movidos pelo amor de Deus, para que cresça, no Porto, [e na nossa Paróquia], “uma Igreja bela, verdadeira casa de família, sensível, fraterna, acolhedora e sempre a caminho, mãe comovida com as dores e alegrias dos seus filhos e filhas, cada vez menos em casa, cada mais fora de casa, a quem deve fazer chegar e saber envolver, na mais simples e comovente notícia do amor de Deus” (cf. CEP, Carta Pastoral, 16.7.2010). Como disse de modo extraordinariamente belo e sucinto [aqui], em Fátima, o Papa Francisco: “o rosto jovem e belo da Igreja que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor (Plano Diocesano de Pastoral 2017/2018, pág. 45)». 
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Foi assim que ficou a Igreja do Porto: pobre de meios, porque nos sentimos órfãos de um pai amoroso, de um mediador atento, de um pastor tão bom. Mas rica de amor, pela sua imensa bondade, cujo perfume se derrama agora por toda a parte. Ele partiu. E nós ficamos, com Ele, junto de Deus, a interceder por nós, para que levemos por diante os seus belos sonhos, agora e sempre “movidos pelo amor de Deus”.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

NUNCA ESTARÁ LONGE QUEM DE TODOS ESTEVE (TÃO) PERTO

CRÓNICA DE JOÃO TEIXEIRA
1. À hora em que menos se pensa (cf. Mt 24, 44), eis que vem a ordem para partir. 
Ninguém pensava que o senhor D. António Francisco dos Santos partisse tão cedo. Nós, em Lamego, até esperávamos que ele chegasse nesta quarta-feira.

2. No passado sábado, tinha reunido uma multidão no Santuário de Fátima. 
Esta quarta-feira iria, com certeza, congregar muita gente no Santuário de Nossa Senhora dos Remédios. 

3. Nestas horas, é difícil evitar lugares comuns, ainda que estejamos perante um homem notavelmente incomum. 
Mas o senhor D. António era mesmo um homem bom, que gostava de estar com as pessoas, levando-lhes a contagiante bondade de Deus. 

4. Recordo uma quadra (de António Aleixo) que ele nos mandou comentar no primeiro teste de Filosofia que nos deu, há 37 anos.
«Eu não tenho vistas largas/Nem grande sabedoria/Mas dão-me as horas amargas/Lições de Filosofia».

5. Como é amarga esta hora! E que lições nos são dadas por esta amarga hora! 
Não são só lições de Filosofia. São impagáveis lições que a vida dá à própria Filosofia. Para Montaigne, «filosofar é aprender a morrer». E, segundo Zubiri, «viver é estar perante a morte».

6. Nós, muitas vezes, evitamos estar diante da morte. Mas a morte não evita estar diante de nós. E, um dia, acaba por nos levar.
Ficamos «desarmados» pelo torpor e pelo espanto. O espanto é o início de toda a aprendizagem. Foi o que ensinou Karl Jaspers num livro que o senhor D. António nos recomendou.

7. O espanto paralisa-nos em horas como esta. 
Apesar de a morte andar sempre próxima, nós insistimos em imaginá-la distante. Só que ela teima em vir. E começa por levar os melhores, como se a eternidade tivesse pressa em desfrutar da sua companhia.

8. O senhor D. António era uma pessoa de bem em graus de excelência. 
Aonde chegava, parecia que sempre lá tinha estado, tal era a empatia que gerava.
Nas mãos de Deus se entregou desde o início da sua missão. Nas mãos de Deus se entregou até ao fim da sua vida. 

9. Ainda esperávamos muito dele. Mas o que ele nos deixou é (mais que) suficiente para imortalizar a sua passagem pelo mundo. 
O senhor D. António deixou muito de si. O senhor D. António leva seguramente muito de nós.

10. Sentimos a sua falta. Continuaremos a sentir a sua presença. 
Nunca estará longe quem de todos esteve (tão) perto!

domingo, 10 de setembro de 2017

FÁTIMA: LOCAL DE FÉ OU SIMPLES TURISMO?

LÚCIA LOURENÇO GONÇALVES
Pois é, como a grande maioria dos portugueses cresci a ouvir falar nos milagres de Fátima. E passados todos estes anos, a dúvida persiste. O que há de verdade em Fátima? Não sei! No entanto, há anos estive no Santuário como peregrina. E senti-me bem!

A vontade de tentar perceber o que sentia num local que me suscitava alguma curiosidade e muitos porquês, sobrepôs-se a tudo. E, tenho que admitir, vivi momentos especiais nesse dia. Não descarto a ideia de ser o próprio ambiente a operar esse “milagre”, mas a verdade é que senti uma leveza e uma paz raramente sentidas ao longo da minha vida.

Este ano e a passar férias nas redondezas, a passagem pelo local foi natural e sem qualquer planeamento, aliás ocorreu por puro acaso. Como tal, não deu para interiorizar o silêncio que se vive, também não aconteceu nada de extraordinário, a não ser dar-me conta da quantidade de pessoas que visitam o local durante o mês de agosto.

Daí a minha questão: fé, ou simples turismo? Porém, seja qual for a razão que leva as pessoas a passarem por lá, pouco importa. O sentido está nas razões de cada um.

Cada pessoa vive a sua passagem por aquele local onde se respira paz, à sua maneira, segundo os seus motivos, e todos eles são válidos e não devem ser contestados.

Se cada pessoa é única, também as suas motivações e / ou convicções o são. Afinal, vivemos num país livre e cada um professa a ideologia que mais se adequa a si mesmo(a), ou aos ensinamentos que lhe foram transmitidos

sexta-feira, 19 de maio de 2017

O DIA EM QUE JOÃO PAULO II VISITOU BRAGA

JOAQUIM DA SILVA GOMES
O nosso país vive, por estes dias, momentos de grande emoção religiosa, fruto da visita que o Papa Francisco acabou de efetuar a Portugal, no âmbito do centenário das Aparições de Nossa Senhora de Fátima e da canonização de Francisco e Jacinta. 

Muitos gostariam que Sua Santidade tivesse visitado Braga nesta sua vinda a Portugal, e se o fizesse seria, provavelmente, um momento inesquecível como foi a visita de João Paulo II. Por ter sido tão impressionante a sua vinda a Braga, torna-se oportuno recordar alguns dos principais momentos da sua passagem pela Roma portuguesa. 

A visita de João Paulo II ocorreu num contexto social e político de grande tensão no mundo. Vivia-se ainda a Guerra Fria com grande intensidade e a postura de abertura e tolerância que João Paulo II incutiu no mundo, a partir de Roma, contribuiu para o despertar das liberdades, reprimidas no mundo de Leste. 

Quando no dia 13 de maio de 1981 João Paulo II sofreu um ataque do turco Ali Agca, na Praça de São Pedro, em Roma, entendeu que a sobrevivência a esse atentado ficou a dever-se a uma proteção de Nossa Senhora de Fátima. Nesse sentido, no ano seguinte efetuou uma visita a Portugal de quatro dias, que se iniciou a 12 de maio de 1982. Foi precisamente no último dia dessa visita, um sábado, dia 15, que João Paulo II veio a Braga. Passam agora 35 anos! 

Não é fácil, em tão pouco espaço, recordar uma viagem tão emocionante como foi a de João Paulo II à nossa região. 

O helicóptero seria o meio de transporte que lhe estava destinado de Coimbra para Braga mas, devido ao mau tempo que se verificou, isso não foi possível. Como alternativa, o Papa deslocou-se num comboio especial, composto por cinco carruagens, entre as quais uma em forma de salão, para que o Papa tivesse mais conforto. Para prevenir eventuais atentados, ou atos de sabotagem na linha férrea, seguia à frente desse comboio uma locomotiva a gasóleo, com cerca de vinte minutos de avanço. 

Quando, no Santuário do Sameiro, se soube que o Papa viria de comboio para Braga, milhares de pessoas deslocaram-se para o trajecto que liga a estação dos caminhos de ferro ao Santuário do Sameiro, esperando nos passeios e bermas das estradas para o saudarem entusiasticamente.

Se a viagem tivesse sido realizada em helicóptero, a chegada a Braga de João Paulo II estava prevista para as 11.00 h. e o almoço no Sameiro seria às 13.15 h.. No entanto, o mau tempo alterou este plano inicial e a chegada à estação de Braga só aconteceu às 14.39 h. Aí o esperavam o Arcebispo de Braga e centenas de fiéis. De seguida, João Paulo II entrou num autocarro e seguiu pela rua do Caires, pela Rodovia, e daí até ao Santuário do Sameiro onde foi recebido pelo Governador Civil e pelo Presidente da Câmara Municipal de Braga, que lhe entregou a medalha de ouro da cidade. 

O almoço que estava preparado no Centro Apostólico Paulo VI era composto por caldo verde, vitela assada e ainda o vinho verde, iguarias tradicionais do Minho. A acompanhar este almoço estariam, para além da sua comitiva, muitos Bispos e Sacerdotes portugueses. Contudo, João Paulo II não almoçou nesse local, fazendo-o às 12.30 horas no comboio especial. 

A chegada de João Paulo II ao Santuário do Sameiro ocorreu às 15.16 horas e, antes de sair do autocarro que o transportara, o Papa consultou o relógio para confirmar a hora a que tinha chegado. De seguida, dirigiu-se a pé para a Basílica, numa chuva de pétalas, na maioria brancas, atiradas por uma multidão de fiéis emocionados por estarem a pouca distância do Papa dos Pobres, como era então conhecido. 

De seguida, o Papa João Paulo II percorreu, num jipe aberto, a distância da Basílica do Sameiro até ao altar onde decorreu a eucaristia. Na celebração, o Arcebispo D. Eurico Dias Nogueira referiu-se à história de Braga e da sua Igreja, lembrando ao Papa que neste Santuário é venerada há mais de cem anos a Imaculada Conceição da Santíssima Virgem. 

A cerimónia religiosa realizada no Sameiro, presidida por João Paulo II, foi acompanhada por 3500 elementos integrantes de vários grupos corais da diocese de Braga. O tema da homilia proferida por João Paulo II, e que durou 38 minutos, centrou-se nos valores da família cristã. A celebração eucarística durou 1h e 55 minutos! De referir ainda que a leitura da celebração foi efectuada por Teresa Costa Macedo, Secretária de Estado da Família no Governo liderado por Pinto Balsemão. 

Não havendo certezas quanto ao número de fiéis que se encontravam no Santuário do Sameiro, estima-se que esse tivesse variado entre os 400 e 500 mil! Muitos deles tinham-se deslocado para o Sameiro na sexta-feira, dia 14 de maio, e aguentaram aí toda a noite e dia 15 de maio, ao frio, à chuva e mal alimentados. Centenas foram socorridas, devido a problemas de dores musculares, fadiga extenuante e hipoglicemia. Nos altifalantes do Santuário, os avisos eram permanentes relativos a pessoas desaparecidas, nomeadamente crianças, e ainda furtos que ocorriam com frequência.

O país de origem de João Paulo II, a Polónia, vivia em 1982 uma situação social e económica difícil. Neste contexto, várias instituições de Braga uniram esforços e, no dia em que João Paulo II esteve em Braga, um grupo de crianças bracarenses, vestidas com trajes tradicionais da Polónia, ofereceu a Sua Santidade cerca de 2 200 contos, destinadas às crianças desfavorecidas desse país. 
João Paulo II saiu de Braga às 18.20 horas, num helicóptero, que o transportou ao Porto. Foi aí que proferiu as suas últimas palavras, em solo português: “Disseram-me que em Portugal, nos meios rurais, as portas estão sempre abertas. Eu encontrei abertas as portas dos corações. Fazei de conta que entrei e que cumprimentei cada um de vós…”.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

PEREGRINANDO

MARIA AMORIM
Escrever sobre uma peregrinação não é muito fácil, porque conseguir transmitir toda a envolvência emocional, que leva a que o peregrino consiga chegar a bom porto, é uma tarefa um pouco complicada.

Tive o privilégio de acompanhar, como voluntária do grupo de enfermagem, um grupo de cerca de 380 peregrinos. Um grupo muito grande, com pessoas de diferentes faixas etárias, com preparação física muito diversa, com profissões muito variadas, ou seja um grupo muito heterogéneo, mas que tinha em comum o objetivo de fazer o caminho até Fátima a pé.

Saímos no dia 5 de Maio e chegamos no dia 11. Foram todos fazendo o percurso até Entre-os-Rios, individualmente ou em grupos, e a partir desse ponto, no dia 5 de Maio por volta das 5 e meia da manhã o grupo iniciou a sua peregrinação até Fátima. Todos levando consigo a sua devoção à Virgem Maria.

É muito comum ouvir questionar esta ida a pé a Fátima, porque só quem já passou por momentos de grande aflição, de imensa dor, sabe o quão consoladora pode ser a
Fé, o quanto pode apaziguar um coração que chora, e evidentemente que quem não tem Fé nunca poderá entender porque e como se faz uma promessa como esta.

Ouvi também alguém dizer que é como um chantagem... Tu fazes-me o que eu quero e eu vou a pé ter contigo a Fátima... Ora, ninguém chantageia a Virgem Maria, pede-se em oração como se pede a uma mãe que nos ama, que
nos conceda uma graça, e depois, vai-se com um sentimento de profunda gratidão, fazer o caminho até Ela. E, esta força da Fé é o motor que ajuda o peregrino no caminho. Outros há que vão sem terem feito promessas, vão simplesmente porque são gratos, pela vida que têm, pela família, ou simplesmente fazem-no como um caminho de limpeza espiritual.

É um caminho que começa todas as madrugadas por volta da 5 e meia ou 6 da manhã, quer chova ou
faça sol, o grupo avança em conjunto, sob o olhar atento dos guias que orientam o caminho. O grupo de Enfermagem segue numa carrinha que vai parando ao longo do percurso permitindo observar os peregrinos, ver como eles caminham e prestar assistência sempre que solicitados, um dos enfermeiros faz o percurso na ambulância com um bombeiro que conduz e o apoia. Além disso dão uma mão
à equipa da água, que vai distribuindo água, fruta e bolachas ao longo do caminho. Por volta das 7 e meia, oito horas é servido o pequeno almoço, por uma equipa que todos os dias se preocupa em servir café, leite ou chá, pão com marmelada, queijo ou fiambre a quem àquela hora já esta faminto. Nestas pausas, a equipa de enfermagem está sempre disponível para tratar pés ou pernas cansadas, e, quase todos os dias depois do primeiro são bastantes os clientes, pois as bolhas dos pés apertam e incomodam o caminhar. E, depois, continua a caminhada, e eu, como Enfermeira, não consigo deixar de observar como caminham, e com os meus colegas vamos observando...Este logo precisa de um cuidado especial, senão não vai conseguir continuar... respondemos aos chamados, porque alguém se sentiu mal, seja pela dor ou porque já esta a desanimar. Enfrentam chuva e vento ou sol, e caminham sempre em frente.

Terminada a jornada, são acolhidos por todo os voluntários da cozinha e dos diversos grupos, com palmas emocionadas para lhes darem os parabéns por uma jornada cumprida, e quase sempre a chegada é regada com lágrimas de emoção. O almoço está pronto e é prontamente servido, após o que vão tomar banho e podem descansar.

Aqui começa o meu trabalho (começa? Mas eu já estou a pé desde as 4 da madrugada!), este é o trabalho que é mesmo meu, e dos meus colegas de profissão, montado o nosso staminé, como nós dizemos, começamos os cuidados a quem precisa, e os peregrinos vão chegando, com bolhas nos pés, que nós vamos furando, com dores nas pernas que procuramos aliviar, com massagens e muita conversa. E, vamos ouvindo as histórias do que os trouxe até aqui, muitas sofridas, misturadas com lágrimas, e sabemos que por muita dor que possam sentir pela caminhada, pior foi a dor que sentiram e que os trouxe até aqui. O sentimento de gratidão pelo que ultrapassaram é que os vai fazer chegar até Fátima, os nossos cuidados também, mas só esses nunca seriam suficientes...

Essa troca de confidências, essas conversas são a verdadeira riqueza que partilhamos,permite-nos crescer em Amor pelos outros, e enche-nos de um sentimento difícil de fazer entender.

Os dias vão passando, vão-se criando laços, no meio do desânimo, das lágrimas que procuramos aliviar, procurando dar força e alegria aos caminheiros. O nosso cansaço não é nada perto do deles, e é o deles que temos de aliviar, porque eles têm de chegar.

E, quando chegamos a Fátima, perto da Mãe, a emoção é imensa, e nenhum sentimento se iguala ao sentimento de gratidão que eu sinto nessa chegada, a esse sentimento de dever cumprido, à partilha de emoções que unem todo o grupo.


Regresso sempre com o sentimento de que foi um atestar de energia positiva que me retempera, e este ano de um modo especial, por ter estado tão próxima do nosso Papa Francisco, que irradia paz.

Para terminar, nada melhor que citar a Madre Teresa de Calcutá que diz : As mãos que ajudam são mais sagradas que os lábios que rezam... Poder pôr as minhas mãos ao serviço dos outros é a minha melhor oração.

domingo, 14 de maio de 2017

ISTO É A FÉ

MIGUEL GOMES
Eram as palavras como tenazes folhas de oliveira, as sombras lânguidas paredes que circunscreviam os montes onde o teu sol, como luz que eras, se permitia descolorir para que todos os outros, como nós, cegos, orassem sem saberem versicular. 

Pergunto-me se ponderavas tudo caminhar para isto.

Seria, Cristo?

Sobra-me, enquanto arrumo o que sou, as montanhas ao longe, cercadas por um mar agitado que nunca as banhou. 

Não tenho medo de morrer, mas tenho um medo irracional de não viver.

Sobram-me as estradas sinuosas que, obrigatoriamente, calcorreiam quem não sabe voar. 

Sobra-me a consoada e o anuncio, festivo, de que a neve é azul e o céu, esse, é da cor que eu quiser, porque tenho como parceiro este estranho homem, comido pelo tempo, abrigado sob um alpendre tolhido de fumo, acompanhado de dois santinhos, que irei saber, quando voltar atrás e o ler como quem acorda, serem nossa senhora e o menino jesus. 

Garrincha, na falta de primaveras, é o meu conforto e a certeza profunda, enraizada, do tronco que sou.

É com o vento frio e um calor no ventre, que me dedico a admirar a legumeirada que se banha na corrente quente da sopa na tigela. 

Uma divisão. 

Um colchão. 

Um caderno e um lápis na mão. 

A catadupa dos invernos que fugiram ao verão. 

Há vento, a granel, para quem goste dos sussurros. 

Não me falta o enfeite de um Natal, assim a modos de presépio, com musgo a fazer de reis magos e um menino Jesus que nascerá. Plim! O microondas, perdão, o fogão a lenha, esgravata um grunhido e avisa-me que a caldaria está pronta. 

Os cavacos esbaforidos passam a mão pela fronte limpando o suor, contentes, realizados, deixando-se depois cair de costas para as brasas onde, sabem, serão consumidos, ascendendo a um céu de fuligem, para choverem novamente aos meus olhos, que os levam onde nunca eles agora cavacos, ontem árvores, amanhã cinzas, sonharam, tal como eu, ir.

Assombrado, percorro os caminhos que traço, sem grande cautela, há na vida espaço para nós, eu e ela, a vida. 

O calor transpira-se em mim, hoje sou rio. 

Rio. Levo-me em levada e vou comigo cheio de nada, de bolso prenhe da mão fechada, os nós dos dedos vincados, as rugas anoitecem e acordam-se como os cerrados, ancorados. Felizes os que se portam em porto, rabelizados na maré de uma existência escoada num Cristo Rei, de pé, aguardando pacientemente a vinda de si mesmo. 



Isto é a fé.

sábado, 13 de maio de 2017

NO CENTENÁRIO DAS APARIÇÕES

JORGE NUNO
Há, sobejamente, produção literária que chegue sobre as aparições na Cova da Iria. Mas a tentação de escrever é enorme, até porque a temática dá visibilidade e “vende”, como se vende tudo o que se relacione com o evento, tornando-o um excelente negócio. Há os que escrevem, em vários géneros e estilos, para desmistificar e até apontar o “fenómeno” como uma fraude e outros que, de uma forma apaixonada, valorizam a fé e apontam o local como o “Altar do Mundo”.

Na atualidade, não tenho condições, nem vontade, para investigar e procurar aquilo que seria a minha “verdade” e depois escrever sobre o assunto. Não quero ser mais um a escrever e acabar por não dizer nada. Negócio com a escrita não faço, daí estar mais à vontade para o fazer, sem quaisquer contrapartidas financeiras nem outras motivações, inclusive religiosas. Há a noção que escrever uma crónica é diferir a notícia. É sob a forma de crónica que o farei, adoçando-a (ou talvez a azedando) com um pouco do meu sentir, sem o intuito de querer influenciar a crença, ou não crença, de cada pessoa que vier a ler este texto.

Lembro-me que ao longo das minhas duas décadas de vida sempre pairou no ar a ideia de fraude, vindo de várias fontes. Procurei documentar-me e ler sobre o assunto; foram várias a obras e, na primeira, calhou-me em “sorte” o livro “Fátima Desmascarada” de João Ilharco, que tem como subtítulo “A verdade histórica acerca de Fátima documentada com provas”. O livro enumera uma enormidade de contradições, induzindo o leitor a que tudo não passou de uma trapaça. Chega a ser referido que António Santos – conhecido como o “abóbora” – pai de Lúcia, uma das três crianças que dizem ter avistado e falado com Nossa Senhora ou Senhora do Rosário, mencionou o seguinte ao filho de Artur Oliveira Santos, administrador do concelho, que em agosto de 1917 terá interrogado as crianças: “O senhor administrador não acredite na minha filha, que ela é uma intrujona”. A seguir, foi a obra de Urbano Duarte, diretor do Correio de Correia, que intitulou “Desmascarado o autor de Fátima Desmascarada”, como resultado de troca de opiniões entre ambos. Depois surgiu o livro “Fátima Nunca Mais”, do padre Mário Oliveira, como resultado do escândalo gerado pela resposta “Não”, que deu num debate, ao perguntarem-lhe: “Acredita nas aparições de Fátima?”. E mais se seguiram… até que, por uns tempos, resolvi abrandar com este tipo de pesquisas, que me faziam despender tempo e energias. Em ano de comemoração do centenário, o mercado literário reanima-se e destaco apenas duas obras saídas recentemente: “Fátima - Milagre, Ilusão ou Fraude”, de Len Port, jornalista (cético) da Irlanda do Norte, em que a editora Guerra & Paz / Clube do livro SIC, apresenta-o como “um livro intenso e polémico, destinado a informar e provocar mentes abertas e curiosas. “A Senhora de Maio – Todas as perguntas sobre Fátima”, de António Marujo, com o prémio Jornalista Europeu de Religião do Ano (1995 e 2006), o qual foi atribuído pela Conferência de Igrejas Europeias, e de Rui Paulo da Cruz; uma das muitas perguntas formuladas nesta obra é “Fátima é fruto da imaginação de três crianças e da imposição do Clero ou revela uma forte experiência espiritual?”

Pelos meus treze anos também tive uma forte experiência, que poderia ter sido fatal, mas que se revelou “mística” e, seguramente, contribuiu para aguçar a minha curiosidade e promover o meu desenvolvimento espiritual. Como criança, não podia passar por “intrujão”, pois só depois de casado é que fiz algumas revelações do facto (e a poucas pessoas, com quem tinha intimidade). Também não estou a imaginar o meu pai a desculpar-se do filho, por ser “intrujão”, embora a época e a pressão exercida fossem diferentes.

Tenho seguido o velho ditado: “Presunção e água benta, cada qual toma a que quer”. Felizmente, tenho amigos em todos os quadrantes, alguns opostos, e tenho a tendência a respeitar as suas opiniões; e longe de mim querer mudá-las. Mas um deles, que se diz ateu, deixou escapar que lhe apareceu a avó, já falecida. Se um adulto, pessoa em que não há razões para deixar de acreditar, ainda mais por se dizer ateu, refere ter visto a avó já noutro plano, então parece fácil de aceitar que qualquer outra entidade se possa manifestar, das mais variadas formas, e por que não a mãe de Jesus de Nazaré, admitindo que a Senhora do Rosário avistada pelas crianças seria ela?

Certo é que Fátima tornou-se “obrigatório” nos circuitos turísticos na zona centro, de que beneficia a região. Certo é que multidões de peregrinos, apesar do meu tempo, acorreram ao local, a pé e por outras vias, provenientes de Portugal e outras partes do mundo. Certo é que é escandalosa a especulação do comércio, em torno de Fátima, nesta ocasião, desde preços proibitivos para uma simples dormida, até um babete de criança, com qualquer alusão ao Papa. Certo é que o Papa Francisco programou uma visita rápida a Fátima, para celebrar a comemoração do centenário das aparições e canonizar Francisco e Jacinta, o que obrigou a mais uma “revolução” na prática da Igreja Católica, tornando-as as únicas crianças, não-mártires, a ser declaradas “santas”. Certo é que, com essa visita, o governo de Portugal deu tolerância de ponto aos funcionários públicos no dia em que o Papa Francisco chegou a Portugal, o que gerou muita polémica entre deputados do maior partido que sustenta o governo, argumentando a “imaturidade do regime” e por não mostrar a laicidade, que diz ter. Certo é que o Papa Francisco, pela ousadia de querer mudar o status quo, chegando a dar pedradas no charco com expressões como “É melhor ser ateu do que um católico hipócrita” ou “Os ateus que seguem a sua consciência são bem-vindos no céu” (que o Vaticano se apressou a desmentir a ideia), ele próprio terá consciência de que o quererão matar. Certo é que, com base numa notícia do jornal “Sol”, datada de 21 de dezembro de 2016, a visita do Papa Francisco a Portugal obrigaria a um investimento de cerca de 100 milhões de euros em infraestruturas das forças de segurança do país, tendo a ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, referido que essa verba seria “oriunda da venda de património que reverterá, exclusivamente, para a requalificação das infraestruturas”. Certo é que Papa Francisco dirigiu-se ao “querido povo português”, em português, num vídeo de 4 minutos, e diz vir a Portugal como peregrino ao Santuário de Fátima, “na esperança e na paz”, para rezar por todos “sem excluir ninguém” [não o fazendo, portanto, na qualidade de chefe de estado].

Bem-vindo, Papa Francisco – homem que admiro, particularmente pela sua coragem!

sexta-feira, 12 de maio de 2017

ORAÇÃO DO PAPA NA CAPELINHA DAS APARIÇÕES



«Salve Rainha, bem-aventurada Virgem de Fátima, 

Senhora do Coração Imaculado, 

qual refúgio e caminho que conduz a Deus!



Peregrino da Luz que das tuas mãos nos vem, 

dou graças a Deus Pai que, em todo o tempo e lugar, 

atua na história humana; 

peregrino da Paz que neste lugar anuncias, 

louvo a Cristo, nossa paz, 

e para o mundo peço a concórdia entre os povos; 

peregrino da Esperança que o Espírito alenta, 

quero-me profeta e mensageiro para a todos lavar os pés, 

na mesma mesa que nos une.



Salve Mãe de Misericórdia, 

Senhora da veste branca!



Neste lugar onde há cem anos a todos mostraste 

os desígnios da misericórdia do nosso Deus, 

olho a tua veste de luz e, como bispo vestido de branco, 

lembro todos os que, vestidos da alvura batismal, 

querem viver em Deus e rezam os mistérios de Cristo 

para alcançar a paz.


Salve, vida e doçura, salve esperança nossa, 

ó Virgem Peregrina, ó Rainha Universal!


No mais íntimo do teu ser, 

no teu Imaculado Coração, 

vê as alegrias do ser humano 

quando peregrina para a Pátria Celeste.



No mais íntimo do teu ser, 

no teu Imaculado Coração, 

vê as dores da família humana 

que geme e chora neste vale de lágrimas.



No mais íntimo do teu ser, 

no teu Imaculado Coração, 

adorna-nos do fulgor de todas as joias da tua coroa 

e faz-nos peregrinos como peregrina foste tu.



Com o teu sorriso virginal robustece 

a alegria da Igreja de Cristo.



Com o teu olhar de doçura 

fortalece a esperança dos filhos de Deus. 

Com as mãos orantes que elevas ao Senhor 

a todos une numa só família humana.


Ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria, 

Rainha do Rosário de Fátima!



Faz-nos seguir o exemplo dos Bem-aventurados Francisco e Jacinta, 

e de todos os que se entregam à mensagem do Evangelho.



Percorreremos, assim, todas as rotas, 

seremos peregrinos de todos os caminhos, 

derrubaremos todos os muros e venceremos todas as fronteiras, 

saindo em direção de todas as periferias, 

aí revelando a justiça e a paz de Deus.


Seremos, na alegria do Evangelho, 

a Igreja vestida de branco, 

da alvura branqueada no sangue do Cordeiro 

derramado ainda em todas as guerras 

que destroem o mundo em que vivemos. 



E assim seremos, como tu, 

imagem da coluna luminosa 

que alumia os caminhos do mundo, 

a todos mostrando que Deus existe, 

que Deus está, que Deus habita no meio do Seu povo, 

ontem, hoje e por toda a eternidade.





(Oração jubilar de consagração)



Salve, Mãe do Senhor, Virgem Maria, Rainha do Rosário de Fátima!



Bendita entre todas as mulheres, 

és a imagem da Igreja vestida da luz pascal, 

és a honra do nosso povo, és o triunfo sobre a marca do mal.


Profecia do amor misericordioso do Pai, 

Mestra do Anúncio da Boa-Nova do Filho, 

Sinal do Fogo ardente do Espírito Santo, 

ensina-nos, neste vale de alegrias e dores, 

as verdades eternas que o Pai revele aos pequeninos.



Mostra-nos a força do teu manto protetor. 

No teu Imaculado Coração, 

sê o refúgio dos pecadores 

e o caminho que conduz até Deus.



Unido aos meus irmãos, 

na Fé, na Esperança e no Amor, 

a ti me entrego.



Unido aos meus irmãos, 

por ti, a Deus me consagro, 

ó Virgem do Rosário de Fátima.



E, enfim, envolvido na luz que das tuas mãos nos vem, 

darei glória ao Senhor pelos séculos dos séculos. 



Ámen».