Mostrar mensagens com a etiqueta Life & Style. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Life & Style. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 15 de março de 2018

EU, JÚNIOR E O MEU PAI

SÓNIA MAIO
Desde que sou adolescente, e até aos dias de hoje, que o meu pai me trata carinhosamente por Júnior.
“- Olá Júnior!”
“- Bom dia, Júnior.”
“- O que é que andas a fazer Júnior?”
Estranho é ouvi-lo dizer o meu nome, Sónia.
O nome que escolheu para mim e que utiliza de forma moderada.
Por norma, usa-o quando precisa de alguma coisa ou o assunto é sério.
Um assunto sério é, por exemplo, precisar de ajuda para configurar os canais da televisão que por vezes aparecem desconfigurados sem que ninguém saiba porquê…
“- Oh Sónia, vem cá ajudar-me com os canais da televisão!”

Quando o motivo do chamamento é grave oiço claramente o meu primeiro e segundo nome.

Paro. Tremo. Penso. Encaminho-me na sua direção. Aguardo que me diga o que pretende e só depois, de olhos muito abertos, me lembro que já sou adulta.

Momento instantâneo que passa rapidamente.

Cresci, envelheci e o tempo passou por mim mas só por fora. Por dentro, permaneço praticamente igual.

Olho para ele e volto a ter oito anos. Sou pequena, criança, volto à infância.
Entre muitas outras coisas, a ele devo a paixão por documentários sobre história, o seu tema preferido, e o meu encantador aspeto físico, herança que à nascença me deixou.
Sou muito parecida com ele.
O meu cabelo escuro, os meus olhos castanhos e a minha pele morena, a ele os devo.

O orgulho que sinto da pessoa que sou é o reflexo do que os seus olhos me devolvem.

Conseguiu alcançar um dos maiores feitos de um ser humano: dar vida a outro ser humano!
Quando vou lá a casa e ele não está, ao chegar, costuma saudar-me com um “- Estás cá hoje?”.
Ainda que eu lá tenho ido a casa ontem, anteontem e ele saiba perfeitamente que amanhã volto.
Parece sempre surpreendido.
Como se nunca estivesse à espera de me encontrar.

“- Vim lanchar.” – digo quase sempre.

“- Mas por que é que estás descalça? Olha que te constipas.” – questiona ao olhar bem para mim.

Não respondo e desato à gargalhada.

A resposta parece-me óbvia: vim lanchar descalça porque tal acontecimento torna o meu mundo praticamente perfeito!
Às vezes não vou. Não estou. Por vezes…
Alegre, ao ver-me, sorri sem cessar.
Já não moramos juntos mas estou quase sempre lá.
Em casa.
Quando me vou embora e me despeço costuma dizer-me:
“- Porta-te bem, Júnior!”
“- Eu porto-me sempre bem.” – respondo.
Olho para ele, sorrio, viro costas, abro a porta da rua e obedeço.

Dias há em que insiste em levar-me a casa porque já é de noite.

Argumento que não tenho medo da escuridão mas não me dá ouvidos.

Digo que não é necessário, mas sem sucesso.

Segura-me pelo braço e duas ruas depois despede-se com um “- Estás entregue. Até amanhã.”

Tempos houve em que em vez de me segurar pelo braço me esperava ao fundo da rua da escola para me ver sair do portão e então de mão dada levar-me para casa.

Continua a perguntar-me como correu a escola e se as aulas decorreram bem.

Às vezes parece que o tempo não passou.
Por tudo isto, para mim, o dia de hoje não é mais importante que o de ontem.
Ontem foi uma bênção, hoje um privilégio e amanhã tenho a esperança que tudo se repita.
Amanhã volto.
Voltarei sempre.
A casa.

quarta-feira, 14 de março de 2018

COLOCAR-SE NO LUGAR DO OUTRO

RAQUEL EVANGELINA
A importância de se colocar no lugar do outro é algo que urge nos dias de hoje. Olhamos imenso para o nosso umbigo e fazemos apenas o que achamos conveniente para nós. Mas há determinadas alturas em que as coisas não correm como gostaríamos e perguntamos porque é que uma pessoa nos faz isto ou aquilo. Nesses momentos gostaríamos que elas se pudessem colocar no nosso lugar e percebessem o quão alguma atitude nos está a magoar.

Mas como pedir a alguém que faça algo que nós não fazemos? A dor do outro é menor que a nossa porque não nos dói. Apenas quando nos atinge é que vemos que realmente dói e muito. E que se calhar isto que agora nos faz sentir injustiçados por estar a acontecer connosco infligimos a outras pessoas sem nos preocuparmos com os efeitos colaterais.

Não digo que tenhamos que dizer que sim a tudo. Pela nossa sanidade mental é preciso também saber dizer não e parar de rebaixarmo-nos para agradar tudo e todos por vezes prejudicando-nos a vida e a dos que nos rodeiam. Mas há que pensar sempre nos efeitos colaterais que podem acontecer a uma pessoa desencadeados por uma ação nossa. Pensar se gostaríamos que nos fizessem o mesmo. Temos que “calçar os sapatos” do outro para perceber se dói ou não.

Temos que ser sensíveis ao que não nos afeta diretamente. Será que se fosse eu a adolescente grávida gostaria que me chamassem nomes feios? Será que se fosse eu a miúda gordinha e desajeitada também não choraria em casa com a minha auto-estima baixa por dizerem que sou horrível? Por vezes não medimos o que dizemos, o que fazemos. Fazemos e pronto. Desde que nos safemos, ou não nos prejudique, os outros que se desenrasquem. O problema é deles. Não, não é. Nem pode ser. Não temos que pensar que somos superiores e que o que eles passam não é da nossa conta.

Temos que dar atenção ao outro. Perceber porque é que alguém reclama da mesma situação connosco. Tentar ver que se calhar o que achamos correto da nossa parte se nos colocarmos no lugar dele não é tão correto assim. Encontrar uma maneira de não nos prejudicar mas de pelo menos melhorar a posição da outra pessoa. Um dos grandes desafios da sociedade contemporânea é esse. Ver com os olhos do outro, perceber que nem sempre temos razão. Só descendo do nosso pedestal e sendo sensível se conseguirá derrubar barreiras e construir pontes.

terça-feira, 6 de março de 2018

MARÇO 8 SÍMBOLOS DE LUTA

TÂNIA AMADO
Depois de amanhã é o dia internacional da mulher e continuo a preferir que fosse o dia em que se dá voz à luta contra e a qualquer forma de preconceito, seja ele: cultural, sexual, racial ou económico. 

As mulheres sempre tiveram um forte impacto no mundo dos negócios, até mesmo na época que não faziam parte deles.

Quem cuida da família a tempo inteiro terá menos impacto do que quem cuida dos negócios?

(e não, não sou disponível em largar a minha profissão.)

Acredito que os géneros são excelentes aliados em qualquer um dos mundos. Em Portugal, em quatro décadas, atingimos cada vez mais esta consciência.

Infelizmente, o mesmo já não acontece noutras culturas, visto ainda existirem mulheres que para saírem à rua precisam de pedir autorização aos maridos.

Sentiu um arrepio na espinha?

Os comportamentos dizem muito das pessoas e, por isso, gosto de observar a forma como as pessoas se tratam quando, por exemplo: apanham uma falha, fazem o pedido num restaurante, falam de uma pessoa ausente, discordam ou se desvinculam de alguém.

É nestes momentos que a expressão “o mundo está a ficar impar” faz-me todo o sentido.

Parece-me que se confia pouco no próximo (ou será de si próprio?) e a regra do “ser inocente até que se prove o contrário” passou a ser interpretada ao contrário, porquê?

Será que isto acontece porque a informação corre depressa? Porque se vive mais no imediatismo? Porque a critica pode ser sinal de conhecimento? 

A desigualdade de oportunidades, por causa do género, traz-nos a missão de em conjunto fazermos com que um dia deixe de fazer sentido celebrar o dia 8 de Março.

Veja-se, por exemplo, as estatísticas que o colega Tiago Corais partilhou na sua crónica do dia 3. Fiquei um bocadinho triste em conhecer aqueles números e, simultaneamente, contente por perceber que não se enquadram no meu universo mais pessoal.

Mas também já assisti homens a envergonharem outros por usufruírem da baixa de paternidade, a mulheres pressionadas para não usufruírem do tempo de amamentação, de pressão sobre estudantes trabalhadores para não usufruírem do estatuto, de homens a serem maltratados por terem o menor ordenado em casa ou de pessoas humilhadas por não terem um curso superior. E por o terem também.

Por esta falta de respeito e confiança nas relações humanas é que são criados os dias do trabalhador, da mulher, do neto, do avô, da mãe, do pai… (apesar de eu não ser adepta deles).

Os meus olhos preferem pousar em pessoas que fazem questão de presenciarem a peça de teatro dos filhos, nos que se revezam para cuidar deles, nos que cozinham e se divertem com isso, nas mulheres que não jogam com o poder da dependência, em homens que não se fazem valer por trazerem o maior ordenado ou em pessoas que procuram realização coordenando o melhor de ambos os mundos.

Para estas pessoas todos os dias são bons dias para um respeitoso debate intelectual e juntas terminarem mais um dia inesquecível.

Independentemente do género é preciso ser-se útil, fazer-se integro, educando jovens, aconselhando adultos e cuidando dos mais vividos. Este é o direito que todos adquirimos ao nascer.

E porquê?

Porque é sendo autêntico e humano que é possível criar sociedades vitoriosas e valiosas ao todo.

Esta consciência, e amor à humanidade, em nada se confunde com falta de exigência. Mas tende a motivar a singularidade e a união da diferença para que o todo seja coerente provocando maior responsabilidade nos resultados.




Falarmos dos problemas das mulheres é falar de muitos, muitos, temas.

A mulher de hoje não se inspira em ser alguém melhor, mas uma mulher real.

segunda-feira, 5 de março de 2018

FAMILY

CAROLINA CORDEIRO
Whenever I ask my students to come up with advantages for the technology and internet, they always state the same thing: be aware of what is new in the world and connect with relatives that are far away. I always say that they should be a little bit more creative because that is a too-much-common-sense idea and it does not happen as much as they suppose. Little did I know that it would happen to me. 

Internet is a very useful tool, for the good and for the bad. It’s as various as the person who uses it. I use it as much as any other person. Maybe I use it less than the majority, but daily, nonetheless. I use it for school and news since TV as lost its appeal, a long time ago. In recent years, I have used (and still use) Facebook to promote my books and keep in touch with the cultural happenings of my islands. I also use it to connect with some students and I will use it to little else. Never did I though that I would connect with family and be one of those cases that my students so commonly pointed out as an advantage of technology and internet. 

From both sides of my family I have a lot of uncles, aunts and 2nd, 3rd generation cousins. However, for different reasons, my family was never a very social one and I, being from the youngest generation, little to nothing did/do I remember about my cousins from a generation older than mine, specially if they are away from the islands, site I was an infant. But, internet kicked in, Facebook happened and, in one week time, I am able ‘speak’ to them and know about my family, much more than I ever did. 

The act of reconnecting is somehow a strange feeling. A very good feeling, don’t get me wrong! Nevertheless, it is a strange one. My parents were always people who would, willingly, tell me and my sisters and brother, stories from the past — from our families’ past. And those moments were and still are priceless. And now, I have other ways of knowing about my heritage. 

Sharing stories and information about one’s past just by a keyboard gives me, at this point of my life, an amazing feeling of belonging; a feeling of not being alone in the world regardless of the real distance between us. I guess, one way or the other, at a point where the world is going crazy over the notion of being closed in and letting everybody out; at a point where people, all over the place, are struggling to stand up to all the mad and absurd gaps created by some stupid and ignorant people — a gap between us and the other who are from a different gender, nationality, creed and even opinion — getting together with one’s long “lost” family is an eye opening. 

I can’t promise a daily conversation but I can promise to say hi, as much as I can and to try to straighten our bonds as close as possible, and I promise to share the feeling of family that my parents were so adamant to teach me and my siblings. I always felt that a bit of me was missing. Now I know why. Now I don’t feel it as strongly as I used to. 



It’s my turn, it’s my time to make the younger generations know that they have a bigger and more diverse family than they though and by it they are so much better than they were, yesterday.

quinta-feira, 1 de março de 2018

ALENTEJO – AMOR DE UMA VIDA

SÓNIA MAIO
Adoro o Alentejo.

É provavelmente o meu local preferido, todo ele, qualquer lugar que dele faça parte.

As minhas melhores memórias de infância situam-se lá.

Enquanto adulta, faço questão de voltar, sempre, uma e outra vez, se possível, diversas vezes.

O ano passado tive a oportunidade de me deslocar a Beja, ao Hotel Rural Clube de Campo Vila Galé, por indicação de um familiar que já lá tinha estado e que tinha adorado a experiência.

Após uma breve pesquisa online achei por bem aí passar também as minhas férias e assim foi.

À semelhança do ano anterior, neste verão também lá despendi alguns dias para retemperar forças após um longo ano de trabalho.

Considero esta estadia a continuação da primeira, pelo que, as palavras que se seguem não farão qualquer distinção entre a minha primeira permanência e a segunda.

Ao chegarmos somos logo bem recebidos, primeiro pela paisagem deslumbrante das vinhas e das árvores de fruto, depois pelo edifício que é lindo e muito característico da zona e, por último, pela simpatia familiar com que ao balcão da receção somos acarinhados com um “Sejam bem-vindos!” e “Fizeram boa viagem até aqui?”.

Feito o check-in, é tempo de nos deslocarmos ao quarto, onde encontramos um espaço acolhedor e perfumado com uma temperatura bastante agradável que contrasta com o muito calor que se faz sentir na rua por esta altura.

O hotel dispõe de uma oferta muito variada e bastante apelativa de atividades que se podem fazer de forma a ocupar o tempo.

Caso não se queira permanecer na zona da piscina exterior, que é bastante convidativa, temos a opção de nos aconchegarmos a ouvir música ou a ler um bom livro nos sofás que se encontram no alpendre da zona de restauração.

Foi o que fiz numa das tardes. Ao ouvir música passei pelas brasas, ali mesmo, ao sabor daquele calor que nos envolve e sossega.

E que bem que me soube dormir ao ar livre!

Uma das coisas de que mais gostei foi o à vontade com que qualquer hóspede se pode deslocar pelos caminhos da herdade fazendo passeios a pé ao sabor lento da paisagem que se perde de vista e da barragem do Roxo cujo vislumbre nos tranquiliza.

Aliás, os empregados do hotel incentivam-nos a fazê-lo e a provarmos as peras que podemos colher nós mesmos. Comidas acabadinhas de apanhar, com um céu azul salpicado de nuvens de algodão sobre as nossas cabeças e um chão de terra vermelha sob os nossos pés, adquirem outro paladar.

Adoro este contacto tão próximo com a natureza. Relaxa-nos a mente e o corpo.

Aqui tudo parece adquirir um ritmo próprio, mais lento, vagaroso, apaziguador.

As horas da refeição são uma tentação para os sentidos.

Inúmeros pratos fazem as delícias dos nossos olhos e do nosso estômago.

É impossível pensar em manter uma dieta rigorosa rodeados de tão apetitosas iguarias, sendo que, para mim, provar um bocadinho de cada prato, faz também parte da experiência que é estar neste lugar.

A dieta virá depois.

Agora, o imperativo é matar saudades dos sabores de infância.

E que recordações saborosas por lá encontrei.

A atenção que cada um dos empregados da restauração nos dispensa é um mimo que trago no coração.

Sempre amáveis e atenciosos, saúdam-nos quando nos veem dentro e fora dos edifícios.

Perguntam-nos se passámos bem a noite e se estamos a gostar.

Aproximam-se das mesas com um sorriso e dão-nos sempre um novo conselho.

Do que mais gostei foi “Agora sente-se ali fora nos sofás e veja o pôr do sol.”

E vi.

Lindo.

Colorido.

Gigante.

Como forma de ocupar o pouco tempo que por lá permaneci, fiz um passeio de jipe e um passeio de moto 4.

Ambos os instrutores se revelaram bastante simpáticos e descontraídos como se mais do que clientes fôssemos conhecidos de longa data.

Gosto desta forma como nos fazem desfrutar ainda mais das experiências já por si prazerosas.

Toca-me particularmente o contraste entre o caminho áspero de terra batida, a imensidão a perder de vista da paisagem e o sorriso afável por entre palavras de instrução e informação relativamente à herdade, à barragem e aos caminhos percorridos.

Sem dúvida que estes dois momentos de descanso, separados por um ano de intervalo, se repetirão mais vezes nos tempos que hão de vir.

O tempo aí passado, mais do que lazer, foi um reencontro de amigos que antes não se conheciam, mas que na despedida desejaram “Uma boa viagem de regresso a casa.” e “Até à próxima.”

No que a mim me diz respeito espero que esteja para breve o meu regresso.

Faltam apenas trezentos e sessenta e cinco dias, mais hora menos hora, para estarmos todos juntos novamente.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

MARCHA DO AMOR


Numa época em que partilho publicações feitas no facebook, há um ou dois anos, retirei uma das mais belas recordações que guardei no baú das memórias.

Foi um autêntico desafio desfilar, como madrinha, na marcha do amor!

O convívio, a animação, a partilha e o amor são lembranças inesquecíveis. que agora partilho convosco.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

É TROLHA, MAS LÊ

LUÍS VENDEIRINHO
Sobre os degraus do escadote, pedestal insuspeito, o Martins ia falando de como cruzara o oceano, desde Terras de Vera Cruz, para enfim vir a usar da trincha, da lixa e da espátula, entre outros utensílios, a cuidar das paredes donde, eu mesmo, nunca ousei evadir-me. Os amigos não carecem que lhes coloquemos o título de “senhor”, e será por esta razão que não o uso neste pretexto: será o Martins, desde agora, e ponto final. O facto de ter agora o meu cárcere como novo, bem estucado, os rodapés como novos, o chão fruto da arte em o fazer realçar a beleza da madeira original, será de menor importância. Gostei de ouvi-lo, ao operário, enquanto me fazia seu íntimo acerca da sua fé, não da fezada, mas do credo e profissão de cristandade, como se essa sua identidade pudesse ser, ao mesmo tempo, prémio e consolo para a sua sorte de homem de trabalho, desses que lavam as mãos no fim do serviço e levam a roupa para ser cuidada no recato do lar. Por falar em lar, quando o Martins me cumprimentou por virtude de comparecer na apresentação do meu romance, cerimónia parca de presenças, com ele vinha a sua mulher, ambos trajados como eu uso fazer apenas em ocasiões especiais. O meu convite também fora especial: senti que, se alguém era digno dele, uma dessas pessoas chama-se o senhor Martins, “senhor” por direito próprio. Ainda não conversei com ele desde essa data, para mim lapidar, apenas imagino o meu livro entre as suas mãos, bebendo cada página sentado numa qualquer cadeira da sua casa, mergulhado em muitos mistérios que eu mesmo já havia inventado durante o acto sublime da redacção. Quando me colocam a questão sobre os motivos que me levam a escrever, a resposta essencial estará presa aos leitores que, como esse pintor revelado, fazem jus à arte, à deles e à dos que acrescentam aos seus sonhos das horas vagas. Longe de mim a ideia de misturar água com azeite, que não sou hábil em coisas domésticas, nem presumo ser o pincel manejado como uma simples caneta. Acontece é ser a função social do trabalho um conceito pouco respeitado, inquinado por preconceitos, pela sobranceria e servilismo dos que usam desses atributos. Pela minha parte, confesso ter-me seduzido a história que o Martins contou, ao evocar um dia em que, numa sala de espera de consultório, lia o seu livro. Um médico, ao cruzar o espaço, deve ter notado esse gesto particular da leitura e dirigiu-se ao Martins: “E vossemecê, o que é que faz?” – “Eu sou trolha.” – Então o médico dirigiu-se aos presentes e rematou: “Estão a ver? É trolha, mas lê.”

FAMÍLIA, PORTO DE ABRIGO

LÚCIA LOURENÇO GONÇALVES
Tenho a sorte de ter nascido numa família numerosa e que, mesmo após a perda dos nossos pais, continuarmos a valorizar os momentos que conseguimos estar juntos.

Claro que por força da vida de cada um, estes encontros se vão espaçando, até porque também as “nossas crias” vão ganhando asas… Mas ainda assim, conseguimos ao longo de cada ano que passa, manter esse espírito de família. Momentos perfeitos, cujo legado, claramente, nos foi deixado pelos nossos pais que vibravam de felicidade sempre que conseguiam reunir-nos no mesmo dia, à mesma mesa.

Tendo crescido rodeada deste sentimento de união e partilha de momentos únicos, sinto alguma dificuldade em perceber as famílias que vivem distantes, cada um apenas por si, esquecendo-se que têm a mesma origem, os mesmos genes, o mesmo passado comum, no qual partilharam a mesma casa, o mesmo amor dos pais.

É certo que tive pais que mesmo depois de termos “voado do ninho”, se mantiveram vigilantes e atentos aos nossos passos e sempre que ao “ninho” regressávamos a felicidade deles era demonstrada nos gestos mais pequenos, nos olhares mais ternos, nas palavras mais doces… O que faz com a saudade desses momentos seja enorme. Visto por outro prisma, é ainda este legado que faz de nós aquilo que somos. Uma família cujo elo se mantém inquebrável!

De modo que faço os possíveis por passar essa mensagem para os meus filhos, na esperança que da mesma forma, e quando cada um seguir o seu próprio percurso, se mantenham unidos, e sintam a felicidade de fazerem parte de uma mesma família.

Claro que da geração deles, já não fazem parte famílias numerosas, porém com vários primos da mesma idade com quem desde sempre partilharam momentos simples, mas importantes no que respeita a elos familiares, terão, caso todos o pretendam continuar este legado de amor!

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

FAZER-SE DISTINGUIR SEM SE FAZER NOTAR

TÂNIA AMADO
A elegância é um dom pessoal que vai além do bom gosto, do saber vestir, da educação, do uso correcto dos talheres ou do guardanapo. Vem das regras de etiqueta da vida. Ser responsável e admirável, mas ao mesmo tempo leve. Apesar da falta de educação ultrapassar a deselegância, é necessário ser educado, polido e gentil para ser elegante.

É provável detectar a elegância nas pessoas que elogiam mais do que criticam, em quem evita assuntos constrangedores do que em quem gosta de humilhar, nas pessoas pontuais (respeitam o tempo dos outros e o seu próprio também) ou em quem faz algo por alguém sem ninguém dar conta ou muda de estilo apenas para se adaptar, em quem não fala de dinheiro em conversas informais ou fica em silêncio mediante a rejeição, pratica o contacto do olhar durante uma conversa por ser atento ao outro.

É tão importante agir sem agredir, ter encantamento na voz ainda que esteja a chamar à atenção (ou fazer silencio, que também comunica), como saber posicionar-se no seu jeito de pensar - não viver de intrigas, mentiras ou correr atrás do que lhe faz mal; reconhecer erros, corrigi-los, pedir desculpas e manter a calma em situações caóticas. Saber dizer não, sem ser rude (a não ser que a situação já o seja. Neste caso, reposicione-se no que acredita.). 

Ser elegante é também ser simples, espontâneo, bom observador e ouvinte, empático, mas acima de tudo: é ter bom senso e respeito.

Há características que chegam da referência da vida, criação e evolução pessoal. É uma questão de interior, autenticidade e mede-se também pela forma como trata o outro (e não só de si). É uma pena quando se confunde a elegância, ou humildade, com fragilidade. É uma arte que se aprende com o exemplo, mas é irreproduzível.

Apesar dos livros serem excelentes professores, é fundamental procurar ter generosidade, saber reconhecer algo de bom naquilo que não gosta, saber que todos somos alunos e professores respeitando as duas velhas máximas: “não faças aos outros o que não gostas que te façam a ti” e “o limite da tua liberdade termina quando começa a liberdade do outro”.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

ONCE UPON A TIME

CAROLINA CORDEIRO
Books were and still are the choice, instead of a tv show or even a movie. 

Most of the time I would rather imagine, picture it in my head and not have someone telling me the story. Sometimes, I am surprised and the surprise is even bigger when it’s a horror movie. I don’t like them. I never choose them and I would rather do anything else but watch that kind of episode, feature film or whatever shape it is in. However, I am a friend and a friend of mine wanted to buy a ticket to see a horror movie. I went along. 

It was ridiculous. It was much more a fantasy movie than a horror one. Or my opinion of horror movies is quite different from the rest… The point is, even though it was not a horror movie, per se, the story line stuck with me. Didn’t think much of it back then, since in 1999 I was such a young girl. Nevertheless, the story accompanied me and now I’m living it. 

How funny it is when you see yourself in a character of something that you don’t like nor chose, willingly. Life has a weird way of putting you to the test, to the tests, through numerous tests, one after the other, with no way to escape nor flee from it, no matter how much you want it. Life is such an unwritten story.

The phone sounds differently, the house smells to something not usual, the days go by with no script. That might be good for you, even for me, in a certain way, but at this point not knowing things is all but a blessing. There’s no story line, no music nor a book that lends you a helping hand to whatever fate will come towards me, from now on. There’s nothing left to hope except hoping for it to be quick. 

If you’re wondering which is the movie I am in, check The Haunting and Nell’s journey. Could easily call it my own.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

A ERA DOS AFETOS VIRTUAIS

RAQUEL EVANGELINA
Vivemos numa sociedade cada vez mais dependente do mundo virtual e das redes sociais. Contra mim falo que sou adepta destas andanças portanto a carapuça também me serve. Sendo a minha área de formação a Comunicação até vejo com bons olhos estas ferramentas. São ótimas para a propagação da informação e para estarmos em contacto com quem temos do outro lado do mudo. Facilitou imenso o mundo da comunicação. E é um meio muito útil desde que seja utilizado com cabeça. (Como praticamente tudo nesta vida).

O grande contra destas redes é que apesar de facilitar a comunicação a quem está distante forma abismos a quem está lado a lado. Quantas e quantas vezes vamos a cafés e vemos grupos de amigos todos reunidos cada um a olhar para o seu telemóvel. Casais que não falam e ficam ali duas horas cada um no seu telemóvel. È que nem sequer mostram um ao outro o que estão a ver. Eu também uso o meu telemóvel quando estou no café com os amigos. Mas normalmente é para mostrar uma foto que tirei ou uma publicação que vi. Não estou lá toda a vida no telemóvel. Para isso deixava-me estar em casa.

Infelizmente vivemos para os likes. Queremos mostrar que temos a vida perfeita e a nossa felicidade é um pouco medida na quantidade de likes que recebemos. Se metemos uma foto e tem poucos likes somos feias. Até podemos ser super bonitas mas sentimo-nos as pessoas mais feias do mundo. Se em compensação metemos uma foto meias despidas e até nem somos lá muito bonitas, cuidado, que é só chover likes e “linda” nos comentários. E ficamos com a sensação que somos a melhor do pedaço mesmo que lá no fundo saibamos que tapadinhas nem metade dos likes tínhamos. Outra coisa que me faz confusão é quando todos estão lá para nós. Mas o lá resume-se ao facebook porque depois quando realmente precisas dessas pessoas quase nenhuma aparece.

Adianta de alguma coisa ter 500 likes numa foto e imensos comentários de rapazes a dizer que és linda e não sei quê e depois não teres um à tua beira que quando acordas de manhã super despenteada e cheia de olheiras te olha como se realmente fosses a tipa mais gira à face da terra? Adianta ter montes de mensagens de apoio de pessoas quando depois se precisares e chamares ninguém vem? Ninguém vive de afetos virtuais. O amor até pode alimentar mas não o virtual. Tudo bem que devas partilhar, publicar, comentar e “likar” o que quiseres e bem te apetecer. Eu também partilho imensa coisa, umas mais sérias outras nem tanto. Mas lembra-te que 500 likes não substitui um abraço. Não te adianta publicares algo a identificar uma pessoa e a bradar ao céu o quanto a adoras se depois nem te dignas a sair de casa para estar com ela. Ou estás sempre a adiar o café. E mais importante, caso não adies o café pousa o telemóvel. E dá atenção. Não há detalhe mais bonito que podes dar a uma pessoa que a atenção.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

O MUNDO É De quem...

TÂNIA AMADO
A nossa maior capacidade é a de falhar. Podemos prometer isto até à morte: vamos falhar na maior parte das coisas novas a que nos sujeitamos.
Sim, a sorte é o nome que o "amigo" dá ao esforço que ele não faz - à mudança que não se sujeita. Ao desafio que não quer abraçar.

- eu faço isto muito bem. 
- sempre!? 
- isso não existe...

A mudança não depende de mais ninguém, senão de nós próprios. Depende apenas do quanto nos aguentamos na superficialidade da felicidade. Por esta ordem de grandeza, o "tens que mudar" bem pode vir a significar "tens que começar a falhar noutras coisas".

Existem pessoas que no meio de uma crise vão abaixo, outras que se mantêm e outras que se superam. Isso quer dizer que a crise nada tem a ver com sorte, mas sim com o esforço e os alicerces que vamos construindo.

Todos nós sabemos ser calmos em situações tranquilas, bons vendedores numa economia alta, bons professores quando a turma não oferece resistência ou bons jogadores quando jogamos sozinhos.

Apesar de não acreditar que alguma ideia possa ser totalmente linear: são os tempos difíceis que separam os mais capazes dos outros - e não os tempos mais equilibrados. Assim como, também, são as pessoas difíceis que desencadeiam a evolução e não as que não contrariam ninguém (não estou a dizer para passarem a vida a infernizar a vida dos outros, ok?). 

A vida é simples porque faz questão de separar quem vem ao mundo para entrar nas maratonas às escuras da de quem vem em mero turismo.

A maior recompensa deste esforço bem pode ser chegar ao fim de joelhos esfolados, nariz partido e um olho negro, mas feliz. Muito feliz. Estrondosamente feliz, por ser capaz de resistir à comodidade se colar à sorte.

O mundo não é dos perfeitos, mas de quem mais se sujeita a falhar melhor.

Bom Ano 2018 para vocês, e viva à mudança!

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

O AMOR NÃO É O DIA 14

RAQUEL EVANGELINA
Da próxima vez que a minha crónica sair será, em princípio, mesmo na mouche no dia dos namorados. E para não estragar o dia com o meu romantismo exagerado (já vos disse que sou irónica?) despacho já este assunto hoje. O que significa o dia para mim? Nada. Absolutamente nada. Podem achar que isto é conversa de solteirona ressabiada mas não é. Podia ser mas não, não é. Eu explico o porquê de não me dizer nada. Gosto de receber presentes? Gosto. Gosto de dar presentes? Também. Aliás confesso que até me dá um certo gozo a ver a cara da pessoa quando é surpreendida com algo que não estava à espera. E isto vale para namorados, amigos e familiares. Gosto bastante de pensar no que oferecer, de preferência algo diferente e de ver a reação da pessoa que não estava nada à espera. Agora é obrigatório ser no dia 14? Não. Não é muito melhor receber algo inesperado num dia que supostamente não tem nada de especial para ser comemorado? Uma mulher não se sente mais valorizada quando num dia qualquer tem um presente à espera que a faz ver que a pessoa se lembrou dela sem ser num dia que a televisão, as ruas e toda a gente nos lembra que somos “obrigados” a oferecer algo? Peço desculpa a todas aquelas pessoas lamechas que neste dia só vêm corações. Não tenho nada contra elas… Juro! Mas para mim o amor não é isso.

O amor não é o urso de peluche com aquele coração enorme a dizer “I love you”. O amor não é ir jantar fora naquele dia porque toda a gente vai e também temos que ir. O amor não é declarações lamechas em textos de metro e meio nas redes sociais com foto fofinha e depois andar a mandar mensagens ao jeitoso ou à jeitosa que temos como amigos virtuais a ver se quer tomar café connosco. O amor não é o consumismo exagerado que nos entra pelos olhos dentro nas próximas duas semanas na publicidade da TV e nas montras das lojas. O amor é outra coisa.

O amor é estar juntos quando tudo corre bem mas principalmente quando as coisas correm mal. É olhar para uma pessoa, perceber os defeitos dela e mesmo assim não a querer trocar por alguém que, aparentemente, nos parece melhor. É querer muito abraçar alguém e no minuto seguinte só apetecer dar-lhe uma bofetada porque nos irritou. (Vá isto pode ser agravado por eu ser de um signo bipolar). É ficarmos contentes e orgulhosos com as vitórias da pessoa e tentar dar ânimo quando as derrotas o desanimarem. É saber que um “Fica bem” e um “Cuida-te” vale mais que todos os corações a dizer I love you que são oferecidos. (Aliás alguém me explica em que tipo de decoração numa casa de uma pessoa adulta é que aquilo fica bem?). E acima de tudo o amor não é algo que se é manifestado a 14 de Fevereiro. Se querem manifestar nesse dia óptimo. Mas é para continuar ao longo dos tempos. Não é dar um presente nesse dia, ir jantar fora e depois andar a faltar ao respeito, desprezar e não mimar ao longo dos outros 364 dias.

Acreditem que não tenho nada contra o dia. A sério que não. Tenho é contra a ideia de que neste dia é que deve ser tudo dito, que se deve parecer bonito e o resto dos dias que se lixe. Já passei dia dos namorados solteira, já passei dia dos namorados a namorar. As vezes que fui jantar fora foi com amigas. O que até tem a sua piada porque quando somos só duas passamos por casal. Qual a diferença? Nenhuma. Nunca recebi rosas nesse dia, fora desse dia já. Até gosto de flores mas são presentes que não duram. É irónico no dia do amor receber algo que passado uns tempos murcha não? È que se nos dá para interpretar o presente como a metáfora do sentimento da pessoa deprimimos…

Agora a sério. Amem, amem muito. Querem oferecer rosas, ofereçam. Querem fazer textos de metro e meio e propagar ao mundo o quanto gostam de alguém façam. Querem oferecer ursos pirosos mas extremamente românticos ofereçam. Mas façam disso um ato recorrente. Não façam disso apenas a celebração do São Valentim. E se não há cara-metade para celebrar o amor não se preocupem. Há amigos, há família e acima de há aquele amor bastante importante… o amor próprio! Portanto celebrem o amor. É importante que ele seja celebrado. Mas façam-no sempre.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

O SOM DA ALEGRIA

ELISABETE SALRETA
Pela ponta do pé sentia a vibração das cordas retesadas até à exaustão.

Com os olhos fechados, cega para o mundo, tentava que o bater do seu coração seguisse o compasso da música.

Só então soltava-se e deixava o seu corpo voar pela sala, naqueles braços que a seguravam e nem a pareciam tocar.

Aquele tempo tinha a duração de um compasso, e era nesse tempo que a história tinha lugar.

Esticava os dedos do pé a sentir o chão e a deixar que a vibração subisse pela sua perna, devorasse o seu corpo milímetro a milímetro, numa obsessão escrava.

Sim, era escrava daquele ritmo. Era a sua fome, a sua cede e transformava-se no ar que necessitava de respirar.

E o ritmo continuava tomando conta de tudo, transformando o tempo na sucessão de notas que perfazem a música.

Deitava a cabeça para trás e sentia o vento que lhe levantava os cabelos, misturando o seu perfume com o ar.

Já não se agarrava, pois confiava cegamente no seu par. Tinha as pernas presas como se fosse um abraço. Chegava para se sentir segura.

Quando já estava tonta de tanto rodopio, manifestava a sua vontade de sair da pista. Mas a música voltava e a dança continuava.

Depois fugia, cambaleando, desnorteada com o volteio. Descansava, alisava o vestido, e voltava o olhar vazio no sentido da música. Pensava voltar, mas sem forças, dava apenas um passo, sem que o par notasse e a voltasse a levar aos céus, ao som daquela música e a voltar a voar.

Mia dança ao colo da sua amiga, seguindo a música apoiada nos seus braços.

Outras vezes, sozinha, deambula pela casa sem ter destino, acompanhando a música que se espalha. Percebe-se o ritmo de que gosta mais. Cada um dos meninos gosta de um ritmo diferente e demonstram prazer ao escuta-los. São todos diferentes, mas nenhum é indiferente ao ritmo, à vibração a que chamamos música.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

NO FACEBOOK

RITA TEIXEIRA
Não! Fazer o resto da caminhada, no tribunal da vida, é deveras doloroso para manter aquela força de vontade, aquela garra, que me caracterizaram como vencedora, nas batalhas contra a doença. Neste tribunal, sou uma pessoa com pouca credibilidade e, como tal, não tenho nenhuma hipótese de defesa. Nestes julgamentos sou caracterizada como alguém mesquinho, sem consideração pelos outros e uma fraude. Optei por não publicar mais nada. Assim o decidi, assim o fiz. Destaco alguns comentários , que revelam o quanto difere a minha personalidade e a de quem me conhece tão bem.

"Por favor Rita não deixes de escrever os teus mágnificos textos bem como a tua história de vida,não mudes agarra que existe em ti,és um grande exemplo para todos nós.Não deixes de ser a mulher guerreira, lutadora e Grande escritora que és bjos gosto muito de ti"
"Rita. Please don't give up. You are one of most loving person in a very hard position. I love to read what you are written in fb. ( hope you understand my bad english.)💖💖💖"
"Rita, só tens que continuar a ser quem és, pois agora que também eu, não estou bem de saúde, preciso de ler o que escreves, por isso não me faltes agora."

"Rita! As agruras da vida, por vezes, levam as pessoas ao desespero e a dizerem coisas que verdadeiramente não sentem. Tua vida é difícil e a dos que convivem diariamente contigo também. Estou seguro que os afectos se vão impor e tudo passará. Nós precisamos de ti no face! O teu exemplo de vida, de luta, de superação, bem como dos que te acompanham, faz falta a esta sociedade desumanizada.É uma forma de nos sentirmos perto de ti, atenuando um pouco os remorsos pela pouca atenção que te damos. Desistir, nunca! Bjos"
Rita Teixeira
"Ritinha, não sei quais os motivos para tomar uma medida tão drástica, mas por favor não nos prive das suas elogiosas e alentadoras mensagens. O Carnaval está próximo e não será completo sem a sua a sua importante presença. "Abraceijos"

domingo, 28 de janeiro de 2018

O AUTOCARRO DAS DEZANOVE

LUÍS VENDEIRINHO
Éramos seis, à luz mortiça do candeeiro. O sem-abrigo, com o esqueleto embrulhado na pele macilenta e enrugada, vasculhava nos sacos algum tesouro. Dos quatro garotos, um deles, o mais franzino, via a vida por trás de uns óculos redondos, e ia-se deixando embalar na brincadeira dos amigos. O mais encorpado de obesidade, loirito, respondia aos pontapés dos demais na mesma moeda, e aos insultos, enquanto disputavam um telemóvel: “faz um directo no Instagram”, dizia um deles. Não me pareceu que a palavra escola fizesse parte do léxico de qualquer um deles. Quando se abriu a porta do autocarro, fui a única alma a empunhar o passe, eu que não aderira nem ao Instagram, nem à delinquência precoce na minha infância, abrigado no livre arbítrio com que fui abençoado. O caixa-de-óculos, se tivesse sorte, pensei eu, talvez pudesse vir a trocar as voltas à sorte, talvez virasse cientista ou mangas-de-alpaca. Os demais contagiaram-me uma tristeza que me foi envolvendo ao longo do caminho. Entrou um cego noutra paragem, uma mãe que dizia palavrões enquanto conversava com a filha, entraram muitos velhos, mulheres rudes que iam trabalhar nas limpezas, imigrantes, gente aliciada pelos publicitários, pelos candidatos da política, escumalha que ria sobre as anedotas que a miséria humana inventa. E dei comigo a matutar na utilidade da liberdade e da democracia, se fazia sentido a minha honestidade como cidadão, até que o meu lugar foi invadido pelo bafo de um peido anónimo. Foi quando, na minha solidão, olhei pela janela e vi o néon de uma sex shop, a estátua mal iluminada na praça, e o luar que vinha a despontar sobre a cumeeira. O autocarro das dezanove lançava, pelo escape, a culpa pelo aquecimento global, levava à boleia mistérios que eu resolvia na minha ignorância, era o palco onde a realidade se aplaudia e vaiava, o sítio ambulante que ludibriava mapas, era o sem-abrigo, os meninos que, sem o saberem, já iam a tribunal, os sonhos do cego, a fome das mulheres, o céu dos imigrantes, a malícia dos poderosos. Até que chegou o momento de eu os abandonar, prisioneiro daqueles escassos dez minutos, e saí. Na volta do resto do meu caminho, ainda olhei o cimo da rua, mas o autocarro já tinha dobrado a esquina. Gostei do cientista, possa a vida assim fazê-lo, como me soube bem provar um naco desse manjar chamado fome, da intimidade com um pedaço do povo.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

RETALHOS DE UMA VIDA

RAUL TOMÉ
Quantos "eus" tenho em mim, não sei… nem sei se algum dia saberei. Sou demasiada gente conhecida, desconhecida, viva, morta, apaixonada, perdida.

Sou apenas pedaços, fragmentos de passados e de presentes sem futuro, porque a rasgados sonhos, já nem sequer me aventuro.

Sou um caleidoscópio de mágoas, de sorrisos, de paixões avassaladoras, de abandonos destruidores, de pessoas inspiradoras e, em cada dia, um pouco menos do que era e um pouco mais do que me semearam. 

Nesta cada vez mais desfragmentada existência, vou-me desfazendo do que era e tapando as fendas com o que me dão. E esta peça tosca em que me transformei, simboliza aquilo que um dia fui, e hoje, nesta figura disforme, desconexa nos contornos e nas cores, pouco me resta para esculpir.

Pois que não sou, a dada altura, mais do que a lava que o vulcão expeliu das suas incandescentes vísceras, que se libertou e se transformou numa montanha disforme, fria e sombria. Sou a lava e sou o gelo numa só pessoa, que os outros, só dão por mim, quando o meu corpo queima e as peles alheias se contraem.

E há na agonia dilacerante um grito de dor, reclamando por mais uma peça que cai e que se perde, sempre que um sentimento se destrói.
Aguça-se o engenho e de martelo em punho há quem tente encaixar à força o que não me pertence e, de palavra em palavra, faz-se a injustiça e da revolta acende-se o dia em que a vítima vira ré.

Naquilo que sou, cada um de vós semeou a sua parte, mas quando chega o dia da colheita, divide-se por todos, que de amor sem mágoa só vivem os tolos.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

HÁ DIAS ASSIM

RAQUEL EVANGELINA
Há dias que nos deixam sem rumo. Dias daqueles que estamos completamente desorientados porque perdemos o Norte, o nosso Norte. Dias em que achas que por muito esforço que faças, por muito que batalhes nada dá certo, nada te corre a favor. Todos temos dias assim. Não me parece que alguém seja feliz em pleno e todos os dias. Todos falhamos assim como também nos falham a nós. Todos por vezes duvidamos das nossas capacidades e assumimos que de facto nunca seremos capazes, nunca alcançaremos, nunca teremos o valor suficiente. Sim há dias que gostávamos de ter outra vez 3 anos para nos aninharmos no colo de alguém sem que essa pessoa nos questionasse o porquê de o estarmos a fazer. E ali ficávamos em segurança num abraço que nos diz que um dia tudo melhora. Sim há dias de cão. Dias em que dizes que está tudo bem mas não, não está… E se te olharem diretamente nos olhos ou os desvias ou te entregas completamente ao choro. Sim, não é só a ti que acontece. Acontece a mim, acontece aos teus amigos, à pessoa que passa por ti na rua, acontece até aquele que aparentemente tem tudo. Nunca ninguém tem tudo.

Mas o bom destes dias é o não durar para sempre. E mostram sempre que, se conseguiste passar por eles, és capaz de passar por tudo. Às vezes não é mau perder o Norte. Acabamos por encontrar algo muito melhor, nós próprios. Não é mau não alcançar o que queremos. Nem sempre o que queremos é o melhor para nós. E a vida, neste caso, tem sempre a ousadia de no futuro nos fazer entender que de facto não alcançar algo foi para o nosso bem. Há dias assim. E mesmo isso tem algo de positivo porque se não passássemos por esses dias nunca veríamos a sorte que temos quando tudo corre bem.

Sim, há dias assim. E se estás num desses dias não precisas de ter vergonha. Se queres chorar, chora… Não há uma única pessoa no mundo que nunca tenha chorado. Se queres largar, larga. Se queres berrar, berra. Nunca traves nada, nem a lágrima nem o que te sufoca. Não reclamar, não deitar para fora só faz mal a ti. Mas entende que por maior que seja o sufoco um dia passa.

Sim, há dias assim. Mas também há dias em que tens que travar o riso, em que és tão feliz que não sabes se vives ou se sonhas. E um dia desses compensa todos os outros em que parece que te tiram o chão. Sim, há dias maus mas tem sempre esperança que também há dias bons. E esses estão à tua espera já ali. Ao virar da esquina…

DESISTIR NUNCA É OPÇÃO

MÁRCIA PINTO
A vida é um jogo constante em que por vezes ganhamos e outros somos derrotados. No entanto, só se levanta quem não desiste de lutar, quem compreende que ser derrotado numa batalha não é o mesmo que perder a guerra.

Por vezes, temos momentos difíceis e sentimos vontade de desistir, deixar tudo, afastarmo-nos dos amigos, desaparecer, nem que seja só por uns dias... Outras vezes, queremos acreditar que tudo vai correr bem e projetamos nas pessoas essa ideia, mas na verdade não passa de uma "mascara" pois, sabemos que o resultado não será alcançado assim tão facilmente. Quando nos damos conta deste conflito interno, questionamos a nossa existência.

Assim, devemos pensar que todos à nossa volta já pensaram em desistir em algum momento menos positivo das suas vidas, mas continuaram! Há sempre alguém com quem podemos contar e sabemos que o mais importante nesses momentos é acreditar em nós próprios, assumir-mos os nossos conflitos e admitir que estamos em crise é um passo muito importante para sairmos dessa fase mais confusa. Não vale desistir!

Neste sentido, devemos ser honestos com nós mesmos e assumir que precisamos de ajuda, nem que seja de alguém para ouvir as nossas angústias. Contudo, é necessário escolher com muito cuidado essa pessoa porque ser um bom ouvinte não é para todos!

Desta forma, temos que lutar para não sermos mais um derrotado nesta vida, aquela típica pessoa que se lamenta pelas noites mal dormidas, pelos sonhos abandonados e pelo fracasso das metas a que se tinha proposto. Nem aquele que acredita que a vida foi demasiado injusta consigo, aquela pessoa que pensa que o sol brilha apenas para os sortudos.

O caminho para conquistar a vitória poderá ser árduo e exigir sabedoria, perseverança e fé. Deste modo, não vale a pena nos lamentarmos pelas dificuldades que surgem na nossa caminhada ou pelas derrotas. É preciso levantar a cabeça e ir à luta hoje, amanhã e sempre, até conseguirmos alcançar os nossos objetivos.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

QUEM SOU EU?

RITA TEIXEIRA
Uma vítima de uma doença rara e fatal: Esclerose Lateral Amiotrófica. 

Uma fortaleza que declarou guerra à doença, por mais um tempo de vida, mesmo sabendo que ela será a vencedora na batalha final. 

Uma teimosa que insiste em fazer tudo por tudo para ultrapassar os obstáculos, que encontro ao longo da caminhada da minha vida. 

Uma valente porque, dentro da minha fragilidade, quedo me nas encruzilhadas da vida, mas não desisto e volto a reerguer me, porque desconheço a palavra "desistência". 

Uma prisioneira num corpo imprestavel, totalmente dependente de outros, impedindo me de ter uma vida para além das quatro paredes da.casa, excepto as saídas para a clínica de fisioterapia. 

Uma sonhadora que sonha com o simples e viável, que se torna impossível e, mais tarde, vira uma utopia. 

Uma sincera que acredita que as relações devem assentar na verdade, na confiança e na reciprocidade, sendo fiel aos meus amigos e familiares. 

Uma hipócrita que esconde "certas verdades", para ter alguma paz, evitando recriminações, julgamentos. 

Uma crente que Deus está e estará sempre a meu lado, nos bons e maus momentos. Acredito que em certas situações, Ele dá sinais da sua presença que não permitem que eu desista de sorrir para a vida.