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terça-feira, 13 de março de 2018

O SISTEMA DE ENSINO: UMA REFLEXÃO

REGINA SARDOEIRA
O sistema de ensino é o fundamento da vida de um país. Pouco importa que haja muito turismo, enorme beleza paisagística, pessoas fora do comum, monumentos, praias...se falhar esse pilar da sociedade, tudo o resto carecerá de sentido.
O "sistema de ensino" é uma expressão utilizada para designar um vasto e importante conjunto de sectores, de meios, de pessoas, de literatura, etc.; e é de tal modo abrangente que diz respeito a todas as pessoas, envolve praticamente todas as idades é, em suma, um perfeito micro-cosmos da macro - sociedade em que qualquer um habita. Na prática, o funcionamento do sistema de ensino reproduz o funcionamento de todas as restantes instituições sociais e é reproduzido por elas; pelo que, sociedade e ensino constituem uma relação dialéctica e a sua plenitude depende de um são equilíbrio entre eles.
Quando utilizo a palavra "ensino" pretendo referir-me a um conjunto vasto de situações, de actos, de personagens. Especificamente, o ensino apoia - se em necessidades civilizacionais criadas pelos homens, no tempo, necessidades consideradas secundárias, pois decorrem da cultura, e a sua falta não põe em risco a sobrevivência. Mas - sabemo-lo - o homem é muito mais do que um primata superior, refém de necessidades básicas, evoluiu no tempo e no espaço, criou culturas e transformou - se com elas. Hoje, o mundo que para si criou exige - lhe competências que decerto não estavam inscritas no ADN original da espécie; e é por essa razão que a necessidade de ir à escola, adquirir o que falta ao humano incipiente de 5/6 anos de idade, se transformou num percurso necessário e numa obrigação civilizacional.
"Ir à escola" - eis o que devem fazer todas as crianças, adolescentes, jovens e adultos se desejam ser pessoas do seu tempo, perceber o mundo em que vivem e dar o seu contributo. 
Nesta frase estão contidos, de forma sintética, os objectivos de todo e qualquer sistema de ensino, e são eles: ser um homem /mulher do seu tempo, perceber o mundo em que vive e tornar -se parte activa do seu meio. Para consegui -lo, o sistema de ensino precisa de estar adequado ao tempo, pois este é o denominador comum da síntese. Uma escola, um corpo docente, um conjunto de currículos desfasados da realidade actual, em ordem à projecção no futuro, não faz qualquer sentido.
Não me parece que, no tempo de hoje, uma criança de 5/6 anos esteja muito predisposta para lidar com os livros e logo com a leitura e a escrita. Vejo a infância absolutamente refém da tecnologia audiovisual, vejo - os a aprender as palavras, os conceitos, os hábitos, as relações sociais através de instrumentos como a televisão, o computador, o tablet , o telemóvel, com os quais lidam perfeitamente, desenvolvendo perícias que, de modo nenhum serão compatíveis com o acto de pegar num lápis e aprender a desenhar as palavras ou de aprenderem o gozo e o prodígio de as conseguirem reconhecer nas páginas dos livros, lendo.
A questão que levanto é a seguinte: deverá a escola dar continuidade aos instrumentos que a criança já manipula habilmente quando chega ao primeiro ano do ensino básico, introduzindo as demais práticas escolares a partir daí ou deverá romper com eles, apresentando - lhe os livros, os cadernos, os lápis como instrumentos preferenciais para a sua aprendizagem? 
Levar a criança a treinar as mãos na tarefa de segurar um lápis de modo correcto e aprender, treinando todos os dias, a desenhar as letras e a formar com elas palavras e frases é, sem dúvida, uma actividade exigente desencadeadora de estimulação de áreas cerebrais importantes, úteis na definição do que significa ser humano. Atrofiar a perícia desenvolvida ao longo de milhares de anos que teve início na libertação da mão da locomoção e progressiva e cada vez mais especializada utilização dos dedos em tarefas pormenorizadas não será um atentado àquilo que fez do homem aquilo que é hoje, estabelecendo a comunicação entre a mão e o cérebro? 
Afigura - se que a criança deve continuar a aprender a escrever e a ler, sendo utilizados nessas aprendizagens os recursos simples de todos os tempos: cadernos, lápis, livros. Mas não creio que a escola deva cortar cerce com os instrumentos tecnológicos de que eles trazem já conhecimento e perícia. Estabelecer a conexão entre a prática ancestral de um saber fazer centrado no livro e a recente aquisição de processos tecnológicos, capazes de estimular áreas cerebrais antes incipientes, pode ser o segredo de desenvolvimento do humano e a sua afirmação para além das máquinas. Pode ser que, daqui a algumas décadas, os livros, tal como ainda os conhecemos, tenham ficado obsoletos e não representem já um papel predominante nos locais de aprendizagem. Há todo um conjunto de estudos que apontam nessa direcção. Mas eu creio firmemente que o sistema de ensino deve manter esse recurso inestimável, pugnar para que o livro, impresso com tinta e em papel, prossiga na sua função. Não pode, contudo, resumir-se aos livros a busca pelo saber. 
Quando assim me exprimo, não tenho em vista somente os recursos audiovisuais e tecnológicos que, aliás, há muito fazem parte dos apetrechos de qualquer escola. Refiro - me a tudo o que, existindo, materialmente, fora do edifício, circundando o espaço físico da construção, onde se sucedem salas de aulas, corredores, gabinetes, recreios, bibliotecas, diz respeito intrínseco à aprendizagem. 
"Ser homem do seu tempo" obriga a sair das salas de aula para investigar o que exista ao redor. Não basta projectar filmes ou documentários, mostrando o que ocorre pelo mundo e permanecer na sala de aula, é necessário sair, caminhar em direcção aos sítios onde a vida se desenrola e de onde vem e para onde vai o aprendiz. Ele deve assistir à vida, sendo parte dela e não observando - a, passivamente, encerrado numa redoma. Decerto deixarão de ser importantes todos esses edifícios onde as crianças assistem a aulas, mais ou menos entediadas, e, tarde ou cedo, a sala de aula deverá ser substituída por uma espécie de laboratórios vivos onde elas aprendem a perceber quem são, observando, experimentando, diversificando práticas. 
Aprenderão a continuidade entre elas próprias e o resto do mundo, não somente porque o leram ou viram representado mas sim porque estiveram nele, participativamente. A seguir poderão fixar experiências, escrevendo-as, porque adquiriram essa competência, desenhando - as porque a mão encontrou esse caminho, inventando novos mundos porque a imaginação cumpriu o seu desígnio. 
Falo, pois, de uma escola aberta ao exterior, sem muros ou paredes isoladores da vida que pulsa lá fora e deve ser a força motriz de todo o ensino. Desse modo, as crianças apreenderão o mundo em que vivem e de que reconhecem fazer parte, terão direito à participação nele de um modo efectivo, não terão necessidade de esperar anos até poderem ocupar um lugar no mundo: porque a escola, abrindo-as ao tempo e ao espaço, lhes outorgou bem cedo essa possibilidade. 
Ao longo do tempo, nesta pesquisa e investigação práticas do que é o mundo, o seu mundo, a criança e o jovem estarão cada vez mais capazes de entender qual vai ser, aí, seu papel e descobri-lo -ão com extrema facilidade: porque desde cedo mantiveram o contacto com ele. 
Pode parecer utópica esta caracterização sumária do que deve ser a escola e de como deverá orientar - se o sistema de ensino. Apesar disso, e embora possa levar muito tempo até que todos se convençam da premência de mudar o sistema, esta abordagem é uma meta possível. E creio firmemente que muitos dos problemas de que se queixam os professores, as famílias e outros agentes sociais ligados à escola, cessariam inevitavelmente. 
Há indisciplina, é um facto, e tem de haver. Uma sala de aula é um espaço inóspito e apertado, as crianças sentem as suas energias bloqueadas, demasiados estímulos externos lhes solicitam a atenção e o desejo. Abram - lhes as portas, deixem-nos aplicar as forças anímicas em actividades que elas possam sentir como suas - e não haverá mais indisciplina. Também há desinteresse pelas matérias e as crianças mostram o tédio em muitas atitudes e respiram de alívio quando a aula termina. Impliquem - nas a sério nos actos de aprendizagem, dêem -lhes tarefas e façam -nas desenvolver temas que lhes digam, essencialmente, respeito - e o tédio dará lugar ao entusiasmo. 
Sei de tudo isto porque o fiz, durante muito tempo - até o sistema que nos governa decidir aniquilar o livre pensamento e apertar uma mordaça a professores e alunos. Não sei até que ponto eles sentiram esta opressão e o esvaziamento progressivo da tarefa recíproca que envolve a díade, docente/discente. Quando comecei a perceber que o modo como fui impelida a tratar a disciplina suprema do pensamento, da crítica, da autonomia, da preparação para a vivência na sociedade, no mundo - falo da Filosofia - a esvaziou totalmente do seu poder, percebi também que estes meus alunos de agora podem sair de uma aula minha alienados. E ainda que, se acaso lhes perguntarem o que estiveram a tratar na aula, eles não tenham nenhuma resposta a dar.
Tenho, pois, as duas experiências : estive para além do meu tempo e pude trazer a Filosofia à vida, fazendo com que as minhas lições tivessem o poder de perdurar na direcção seguida por muitos alunos. Entretanto o tempo recuou e obrigou - me a ser a professora que não sou; e é por isso que entendo os alunos na sua indisciplina, no seu tédio e desinteresse e sei como seria possível salvá - los, salvando, eventualmente, o mundo dos homens.

terça-feira, 6 de março de 2018

VIAGEM

REGINA SARDOEIRA
Se eu, mulher que sou, pudesse andar sem destino e encontrar aconchegos por entre pedras e dunas e não ter quaisquer companheiros de jornada ou, se acaso os tivesse, ver neles um pequeno porto entre dois oceanos e seguir adiante… se eu pudesse… mas quem diz que não posso? Eu seguirei em frente, está na hora, e que ninguém se arraste atrás de mim e, principalmente, que não me arraste eu atrás de ninguém! Não fui feita, eu, mulher que sou, para arroubos melancólicos, não resisto por muito tempo ao travo pungente das lágrimas, sou dada ao riso e à dança… quem for da minha raça reconhecer-me-á e poderá encontrar-me, se quiser, mas quem não for jamais entenderá o chamamento urgente, jamais conseguirá deixar de rastejar, e qualquer píncaro lhe causará pavor! Eu sei - eu, mulher que sou! 

Dói confrontarmo-nos com a própria inexorabilidade de estarmos a sós connosco mesmos… mas esses pequenos compromissos a dois, essas pequenas misérias do quotidiano rastejante, que posso eu ter a ver com semelhantes resquícios de existência? Por isso, aqui e agora declaro que a solidão é a companhia do meu ser e que só a ela quero e amo! Se houver alguém que soletre assim o seu nome – S-O-L-I-D-Ã-O – e que possa despir-se de todas as roupagens para se dar como um deus, então esse será o meu par da jornada… Os outros, que soletram outras designações, que vivem empalhados nas suas próprias múmias, que jamais souberam o significado da ascensão por entre nevoeiros, tempestades e sóis escaldantes, esses, que fiquem nas tendas que lhes têm servido de abrigo e que, ingenuamente, acreditam ter dotado de alicerces! Não, aqui declaro, não me deixarei humilhar por falsos deuses, que não sabem que são deuses e muito menos que se tornaram falsos, neste caminho que os verteu em homens… Porque o homem não passa de uma mistificação de deus, um ludíbrio de si mesmo, um desapontamento… Não, não os quero ao meu lado, a semelhantes fantasmas que tudo têm em si mas que, alienadamente, o deram a deus ou ao diabo… Que bem e que mal? Fora com essa moral invertida, abaixo com esses valores que quanto mais se negam mais se incrustam na pele de quem os nega… Precisarei, eu, mulher , por acaso, de roupagem? Precisarei eu, mulher, por acaso, de negar a roupagem?

Eu sabia que na origem da minha inquietação estava, não a dúvida, mas sim a certeza, este saber, urdido no divino, de que não posso dar atenção a um hálito doce, a uma pele quente, a um amplexo vibrante que tudo isso é humano, demasiado humano, demasiado próximo do símio de que quisemos todos fugir para nos elevarmos nas alturas do pensamento, mas onde vamos todos cair quando um brilhozinho nos encandeia a lucidez da caminhada!

Ah, agradeço-vos, agradeço-vos do fundo do meu coração humano, terdes feito com que se abrissem as comportas de mim… mas nada mais podeis fazer, porque não estais prontos para vós mesmos e não vos vejo seguir o caminho que a vós mesmos poderia levar… 

Além disso, que sei eu? Eu, mulher que sou? Ainda que chegásseis lá, ao vosso cume, ainda que percebêsseis que a caminhada é para cima e não esse mergulho espantoso nos eternos abismos de um conformismo auto complacente, quem sabe se seríeis capazes de ver as vossas próprias estrelas abaixo de vós, desmaiadas no mar da vossa grandeza?

Vislumbrei-vos, percebi-vos e amei-vos. Mas quereis vós estas pedras preciosas que brilham no cerne de vós, ou preferis os diamantes falsos da rotina onde vos enleais em compromissos estéreis? Estéreis, todos eles, nem um tem a substância que lhes inventais para fugir do fogo sagrado que para vós ergui! Nem um! Negastes a única senda capaz de vos erguer dos pântanos de vós mesmos, negaste-a subtilmente, sem saberdes tão pouco que a estáveis negando… Quem achais vós que eu sou? Como admitistes que eu ia ficar, na sombra, à espera que despertásseis?

Aqui me encontrastes e aqui tereis que vir de novo se quiserdes perceber o que não deu certo… e, sem dúvida, mesmo assim não lograreis entender, pensareis sempre: mas que foi que fizemos, de que somos acusados...porque todos se julgam inocentes e puros, todos pensam sempre que fizeram tudo o que estava ao seu alcance… certos de que têm apenas um alcance limitado, certos de que qualquer meio esforço já é todo o esforço que são capazes de fazer… onde estais vós agora, vós que me procuráveis obsessivamente, onde estais, então , onde está a vossa voz, a vossa imagem, a vossa palavra? Não os vejo! Imperativos fátuos regem a vossa existência, objectivos que credes supremos comandam o vosso dia e nunca ireis descobrir onde, afinal, falhastes!

Nem interessa que o descubrais, que importa isso? Nascestes para o humano, agrada-vos tudo o que é terreno, viveis soterrados nas folhas mortas de vários Outonos que deixastes consolidar em vós sem dardes hipótese ao esplendor diurno do sol estival!

Vivei! Vivei esses Outonos, enrolai-vos em sucessivos mantos de poeira e trevas, confundi as vossas metas pequeninas com objectivos… eu não posso esperar outra eternidade, não posso continuar a flutuar no vazio numa espera que nada me promete! E como podia prometer?

Adeus, adeus, adeus! Digo-vos adeus e largo-vos de mim porque vos amo e nenhuma meia-luz se compadece de semelhante esplendor… Como podeis dar-me este silêncio, mandardes-me um beijo e fechardes-vos a mim sem mais palavras, e pensardes que é assim que deve ser? Para lá do bem e do mal… vós?

Esses, são os deuses, esses, são os eleitos, que criaram o seu bem e o seu mal para neles caber todo o valor possível… TODO O VALOR… TODO!


Se não podeis dar-vos todo, não inventeis slogans, dizei-o! 


«Ó Zaratustra, louco do terno coração, sempre embriagado de confiança! Mas sempre assim foste, sempre te aproximaste familiarmente das coisas terríveis.


Quiseste acariciar todos os monstros. Bastava um hálito quente, um pouco de pelagem macia ao redor das garras – e logo estavas pronto a amar o monstro, a atraí-lo a ti com as tuas carícias. 


O amor é o perigo dos mais solitários, o amor de todos os viventes, desde que vivam. Por certo é motivo de riso ver até que ponto sou eu louco e modesto em amor.»


Friedrich Wilhelm Nietzsche, Assim Falava Zaratustra

domingo, 4 de março de 2018

SOU AQUILO QUE SOU

MOREIRA DA SILVA
Sou uma pessoa que caminha, e às vezes vagueia neste mundo cheio de injustiças e tiranias que fazem dilacerar o coração, seguindo os meus princípios, as minhas crenças, os meus valores, os meus ideais, mesmo que isso vá contra a corrente das pessoas que caminham a meu lado. Sou um livro aberto que pode ser lido à vontade, porém com algumas páginas arrancadas e outras em branco para serem preenchidas, por isso às vezes só possa ser compreendido nas entrelinhas das quimeras que povoam em mim.

Sou uma pessoa que cresci no regaço dos afetos, evoluí de mão dada com a esperança e amadureci nas asas do tempo, para me transformar naquilo que sou hoje, naquilo que de melhor eu me dei. Sou aquilo que sou e não o que outros quiseram que eu fosse, e fui me desenvolvendo na prática do saber, no que me fui concebendo, caindo, aprendendo a levantar, para reforçar aquilo que é o meu ser.

Sou uma pessoa que tem dias imensos, do tamanho da minha vida, com muitos momentos que são irrepetíveis, inenarráveis, embora também tenha outros que quero, propositadamente, varrê-los da minha memória. Sou uma pessoa que está infinitamente grata à vida e às pessoas encantadoras que passaram pela minha vida e me emprestaram tanta alegria e paixão.

Sou muito mais do que as minhas simples palavras, pois sou aquilo que ainda penso ser, e não aquilo que os outros querem que eu seja ou aquilo que pensam que sou. As veias que me correm no corpo são as minhas veias e o meu coração, que tem o tamanho do mundo está pintado com as cores do amor e inundado de paixão pelas coisas, pelas pessoas, pela vida.

Sou um puro exemplo do não conformismo, a mera recusa de dobrar o joelho ante o costume e mesmo nos meus pesadelos rastejo incansavelmente tentando encontrar a coluna vertebral. Sou um ser humano, um livre-pensador que tem gana em golpear o intelecto de alguns figurões que flutuam na espuma da ignorância, sabem tudo sobre nada e são amantes do politicamente correto, que mais não é do que o melhor disfarce para a imbecilidade intelectual.

Sou uma pessoa que tem momentos bons e menos bons, momentos árduos, com altos e baixos, alegres e tristes. Sou uma pessoa que teve perdas, mas também teve ganhos, por isso é que sei dar a mão a quem precisa e a respeitar a individualidade de cada um.

Sou uma pessoa que a lei da vida ensinou a seguir em frente com a cabeça erguida, a coluna vertebral bem direita, às vezes com algum pudor, mas sempre com dignidade, modéstia, amizade, moderação, diligência, dedicação, justiça, educação e amor aos outros e à vida. Sou uma pessoa que sabe que as melhores coisas da vida não podem ser vistas nem tocadas, mas sentidas pelo coração e que a tarefa de viver é dura, mas fascinante!

quinta-feira, 1 de março de 2018

NADA INTERESSA...

RAUL TOMÉ
O teu clube ganhou. A vitória foi suada. Um golo no último minuto, duvidoso. Durante uma semana terás tempo para debater o assunto. Os clubes rivais encarregar-se-ão de dissecar o assunto até à exaustão, imagem atrás de imagem, discussão atrás de discussão, durante horas e em vários canais de televisão. Nas redes sociais discutes, enervas-te, perdes amigos. Estava ou não fora de jogo?

Na casa ao lado, uma família passa fome, ele desempregado, ela com o ordenado mínimo, dois filhos para criar, 4 bocas para comer, que se empanturram de fome e de ar.
Mas isso agora, já não te interessa!

O teu partido perdeu as eleições. A oposição venceu. Trocaram-se insultos, contaram-se verdades, inverdades e mentiras. Difamações, julgamentos públicos e insinuações. Vale tudo para derrubar o opositor. E assim vives, de quatro em quatro anos, sempre ao ataque. Quer estejas à esquerda ou a direita, quer os teus governem ou sejam governados. Vives na falha do outro, de visão toldada, defendendo a tua dama, mesmo que a desonestidade que lhe apontam, não se resuma apenas, a especulação ou má fama.

Na casa ao lado, os gritos do costume, o arrastar de móveis do costume, as bofetadas do costume e as nódoas negras do costume, tatuadas naquele corpo que um dia foi de mulher.
Mas isso agora, já não te interessa!

O teu patrão comprou um carro novo com o suor do teu trabalho.
O teu colega transporta no bolso um telemóvel topo de gama comprado, dizes tu, a crédito.
O teu vizinho tem um emprego de sonho e ganha bem, porque os bons empregos só se arranjam à custa da cunha.
O teu primo vai gozar umas férias paradisíacas, porque a sorte, essa, nunca bate à tua porta.
E perdes tantas e tantas vezes o teu tempo a falar no que o outro tem, conseguiu ou conquistou sem saberes com que suores e sofrimentos, e isso porque apenas vês e invejas do lado de fora.

Na casa ao lado, uma criança não foi à escola mas não faz mal porque não é teu filho que esse, com a graça de Deus, até tira boas notas.
Mas isso… isso agora já não te interessa.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

A BACTÉRIA E O HUMANO

REGINA SARDOEIRA
Gostava de ter guardado o sol desta tarde. 
Do mesmo modo que guardo imagens, para depois revisitar, numa evocação de carácter visual, pudesse eu armazenar o calor intenso que me abrasou por umas horas e soltá -lo depois, quando o frio regressar e a estrela -mãe estiver arredada dos meus sentidos. 
Daqui a algum tempo, passada esta irrupção diurna da Primavera, o frio estará comigo de novo - e sentir-me - ei injustiçada. 
Percebi que tenho necessidade do sol a jorros (já o percebi há muito!), pois nestes dias álacres, de horizontes límpidos e abóbada azul, tenho vontade de sair do casulo e ir à procura de mim, na senda da luz. O resto do tempo projecta - me para dentro, das paredes e do íntimo, deixo - me submergir em hibernação, envolvendo - me em mim, querendo dormir e despertar somente quando a luz fizer os meus olhos abrirem - se - e a pele e todos os sentidos. 
Se estes sentimentos me acometem é na medida exacta da minha natureza. O meu corpo, em repouso, é de uma mornidão vizinha dos 37 graus : a sua harmonia e conforto dependem de atmosferas desta calidez - um pouco abaixo. Sinto que 25 graus convêm à homeostasia das minhas células e que abaixo de 10 graus oscilo para regiões de desequilíbrio; e também sinto que, muito além dos 37 graus que me são estruturais, se dá a ruptura harmónica do organismo. 
Sou assim e, com alguns cambiantes, todos o somos. Necessitamos de condições adequadas ao nosso conforto, funcionamos à semelhança de uma máquina cujo equilíbrio funcional depende do combustível certo, da manutenção adequada, do trabalho para que foi programada. Nem mais, nem menos. 
Se escassear o alimento, se não pudermos beber, se formos acometidos por qualquer dor, o organismo exige o impulso homeostático pelo qual procuramos o alimento, a água, a panaceia. 
Essencialmente, é deste modo que nos definimos . Tudo o resto que foi acrescentado à nossa humanidade, a saber, a consciência, o raciocínio, a imaginação, e seus correlatos, a ciência, a arte, a poesia, perdem sentido e são remetidos para segundo plano, caso o organismo não seja capaz de realizar a homeostasia. 
António Damásio, no seu último livro, "A Estranha Ordem das Coisas (Temas e Debates, Círculo Leitores, Novembro 2017), prosseguindo a sua incansável investigação sobre a consciência, fala deste modo acerca das bactérias :
" Na sua orientação desprovida de mente para a sobrevivência, elas juntam - se a outras que se esforçam por alcançar o mesmo objectivo. Ao seguir a mesma regra implícita, a resposta do grupo aos ataques gerais consiste em buscar automaticamente força nos números, seguindo o equivalente ao princípio do menor esforço. Seguem à risca os imperativos homeostáticos."(pág 37)
Lendo esta análise sobre essa forma rudimentar de vida que é a das bactérias, percebi o que nos liga, sendo nós mais complexos, a tais organismos. De repente, quase comecei a supor que, enquanto organismos, teríamos bem mais sucesso, sem a consciência, o pensamento, o raciocínio. 
E Damásio prossegue:
" Os princípios morais e as leis obedecem às mesmas regras essenciais, mas não só. Os princípios morais e as leis resultam de análises intelectuais das condições enfrentadas pelos seres humanos e da gestão de poder por parte do grupo que inventa e promulga essas leis. Baseiam-se no sentimento, no conhecimento e no raciocínio, e são processados num espaço mental através do uso da linguagem." (pág 37)
Eis aqui os quatro factores que nos distinguem das bactérias : o sentimento (em primeiro lugar), o conhecimento, o raciocínio e a linguagem.
Pelo sentimento que nos faz experimentar carências, desequilíbrios, dores, fomos capazes de inventar, por exemplo, a medicina; o conhecimento e o raciocínio permitem - nos compreender e procurar o que nos favorece, eliminando o que provoca danos; a linguagem possibilita a comunicação e o acto de fixar pelas palavras o resultado das aprendizagens.
Porém, os avanços científicos recentes provam que também as bactérias fazem coisas inteligentes.
"Quando as bactérias detectam 《desertores》no grupo, ou seja, quando certos membros não ajudam no esforço da defesa, elas isolam - nas, mesmo que estejam genomicamente relacionadas e que façam parte da mesma família. As bactérias não colaboram com bactérias da 《familia》que não ajudem o grupo, ou seja, rejeitam as bactérias vira-casacas que não colaboram. Não obstante, as batoteiras acedem aos recursos energéticos e à defesa que o resto do grupo providencia a grande custo, pelo menos durante algum tempo." (Obra citada, pág 36) 
Assim, no nível bacteriano, já estão contidos os alicerces da nossa espécie, pelo que, conclui António Damásio, "(...) o inconsciente humano remonta realmente a formas de vida anteriores, de modo muito mais profundo e vasto do que Freud ou Jung alguma vez sonharam." (Obra citada, pág 39)
Eis porque o sol moderado, o céu azul, a temperatura morna convêm ao meu organismo, harmonizando, em equilíbrio, os mecanismos do meu corpo. Estando homeostaticamente segura posso então ( porque sou humana) lançar -me para universos emocionais, intelectuais, artísticos, esquecer a minha condição semelhante à das bactérias, até que novo desequilíbrio (um golpe de frio, um indício de fome ou de sede, uma dor de cabeça ) me lancem na corrida homeostática, tornando secundárias a inteligência, o raciocínio e a criatividade.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

A DEPRESSÃO E O SUICÍDIO

REGINA SARDOEIRA
Disseram - me que ela estava deprimida e que por isso se suicidou. E eu fiquei a pensar, tentando compreender, mais uma vez, que impulso poderoso é esse que leva alguém a terminar com a vida. Poderoso, sim, porque aceder voluntariamente à morte exige força. Força negativa, dir-me-ão, ou cobardia, também há quem diga; e no entanto eu afirmo que usar seja que instrumento for e pôr termo à vida é um acto que não está ao alcance de qualquer um.

A depressão tem, efectivamente, esta componente trágica: o indivíduo sente - se desvalorizado, de si para si mesmo, não encontra prazer nos gestos comuns do quotidiano, o amanhã é tenebroso ou vazio, qualquer acto comum (levantar - se de manhã, tomar banho, vestir - se, comer, sair...) revela - se extraordinariamente penoso para o doente com depressão. Porque, de facto, é de uma doença que se trata.

O nosso cérebro tem um poder imenso, lidera todo o comportamento, dá instruções a todo o corpo (que, por sua vez, comunica com ele) e nele são sintetizados os neurotransmissores, de entre os quais destacarei a serotonina .

O comportamento humano depende da quantidade de luz que o corpo recebe por dia. Desta maneira, durante as estações menos soalheiras (Outono e Inverno) surge um aumento da depressão, da falta de capacidade para usufruir o prazer. Quando chega a Primavera e o Verão, a serotonina é condicionada pela luz que se recebe do organismo, o que leva a um aumento progressivo do bem-estar e da felicidade, produto das concentrações deste neurotransmissor no cérebro. Pode-se dizer que a serotonina, além de ser a hormona do humor, é a "hormona do prazer". Por exemplo, para que se produza a ejaculação orgásmica, o hipotálamo liberta oxitocina através da hipófise (hormona que segrega na neuro-hipófise e que também é responsável pelas contrações no parto). Depois da ejaculação, a quantidade de serotonina no cérebro aumenta exponencialmente, o que provoca um estado de prazer e tranquilidade. Depois do prazer é produzido um mecanismo de retroalimentação que reabsorve a serotonina. Este mecanismo estimula a libertação de hormonas como a somatrofina (hormona do crescimento) e a prolactina (hormona que tem ação sobre as glândulas mamárias atuando no seu crescimento e na formação de leite) e inibe a secreção das hormonas luteinizantes (LH) e das hormonas folículo-estimulantes (FSH), que estão encarregadas de estimular a síntese de AMP cíclico, que por sua vez estimula a biossíntese de esteroides sexuais. Este mecanismo de retroalimentação não seria possível se não existisse absorção de serotonina pela hipófise. 

Este é um assunto complexo e não irei muito mais longe na análise científica; creio, no entanto, poder afirmar que a serotonina representa um papel fundamental no que diz respeito à capacidade humana de sentir prazer e que o seu deficit gera os sinais da depressão: essa profunda tristeza, esse desgosto de viver, essa incapacidade de respirar fundo e caminhar em frente - muito simplesmente porque, para o deprimido, já não há caminho. 

A depressão surge; e muitas vezes não encontramos uma explicação para tal. Um desgosto, uma tragédia, uma perda são capazes de mergulhar a pessoa na depressão; mas ela pode ser constitucional ou genética. Perceber a causa da depressão, enfrentá - la, resolver o problema seriam as soluções para o deprimido. Porém, o seu vazio é de tal modo profundo que ele não é capaz, por si só, de discernir uma causa e, ainda que suspeite dela, não tem ânimo para enfrentá-la, pelo que, à partida, nada pode resolver.

Aqueles que o rodeiam, escassamente percebem que lidam com um doente, que precisam de estar atentos, tornando - se os motores para a busca de ajuda. Não tenhamos ilusões : a depressão não é uma "mania", uma "esquisitice" , o deprimido não fica apático, isolado, de mau humor, pouco sociável etc. porque quer castigar o mundo à sua volta, chamar a atenção, ou ser intratável. Ele fica assim porque o seu cérebro não faz a síntese das substâncias que lhe restituiriam o ânimo e, se não se dispuser a tomar medidas, procurando o médico, dificilmente irá superar a crise.

O médico irá receitar - lhe antidepressivos, ou seja, substâncias químicas capazes de reporem os níveis de serotonina, promovendo, gradualmente, o retorno da normalidade. Mas o médico também lhe dirá, pelo menos, mais duas coisas: que essas pílulas mágicas ajudam a química do cérebro e de todo o organismo, melhorando o humor e ainda que terá, nesse momento em que recuperar a energia, de procurar as causas do estado depressivo e abatê - las. Não é um processo simples ou linear, nem se compara a outras enfermidades para as quais um certo medicamento, uma certa cirurgia resolverão de vez o problema. 

A depressão entra muito fundo em todo o organismo visto que a condição necessária e suficiente para alguém estar vivo depende de actos de vontade, de desejo, de procura; e o deprimido perdeu - os. 
O médico (e também os folhetos dos antidepressivos ) alertará o doente, falando -lhe do perigo de poder querer suicidar-se e, muitas vezes, hospitaliza-o para debelar o risco. Mas, ainda assim, esse desejo de morrer, esse sentimento profundo de que ninguém precisa dele, de que está sozinho no mundo e de que nada tem valor podem ter uma força irresistível. 

A depressão atinge de forma trágica este nosso tempo. Vivemos um quotidiano quantas vezes insatisfatório, injusto, acelerado, em que as perdas são maiores que os ganhos. Fugimos de nós mesmos e do nosso deserto, alienamo - nos de muitos modos :com bebida, comida, drogas. Um dia, face a face com a nossa própria imagem, não somos capazes de nos aguentar, desistimos de nós mesmos : é não há pai, mãe, filhos ou amigos, ou tarefas, ou dinheiro ou seja o que for que nos demovam da autodestruição. Porque o suicídio não é somente aquele gesto definitivo com que nos ferimos, mortalmente, de uma vez por todas, o suicídio pode ser lento, pode ser prepertado hora a hora, dia a dia, no vício, na bebedeira, nas fugas de todo o género à normalidade do viver.

Creio firmemente que aquele que se suicida, num certo momento, é porventura mais digno do que aquele que finge viver e no entanto está a destruir -se pouco a pouco : o primeiro enfrentou a derrota de si próprio e terminou com ela, o segundo vai-a ostentando num lamentável espectáculo. 

Logo, de certo modo, todos os homens são suicidas, todos os homens praticam em si a autodestruição, preferindo, escolhendo aquilo que os prejudica. São suicidas mesmo no modo como tratam a terra, o seu único habitáculo, tornando - a, progressivamente, um lugar inóspito; são suicidas porque criaram um universo de relações enviezadas, de onde a verdadeira sociabilidade se ausentou; são suicidas no modo como dirigem o quotidiano, feita carga insuportável para a qual têm que procurar um desvio.

Não admira, pois, que a depressão seja a doença mais comum do nosso tempo e que nele despontem, para geral consternação, os outros suicidas, mais raros, mas mais autênticos : os que decidem sair do mundo através de um acto violento (para eles e para quem os rodeia) e escolhem o meio de a si próprios se aniquilarem, de uma vez.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

O MUNDO MATA

RAUL TOMÉ
Ensinaram-me que a religião uniria os povos, que através dela aprenderiamos a perdoar e a amar o próximo. Que o homem que se entregasse a Deus e à oração estaria mais perto da perfeição e do paraíso. 
Mas a religião cria distâncias intermináveis entre as pessoas. Atentados à bomba, decapitações, jovens dizimados em escolas, violações, são a realidade com que nos deparamos todos os dias e impera o ódio por todos aqueles que discordem da crença que cada um tem enraizada nas massas desvitalizadas onde antes existiam o cérebro e coração.
E, na escuridão dos dias divinos, percebi que a religião mata.

Ensinaram-me que a salvação do mundo se baseava no amor e que ele seria a resposta a todas as nossas tormentas. Que o amor era a força vital que salvaria toda a humanidade.
Mas depois chegam as desconfianças, o ciúme, a traição, as histórias mal resolvidas, a incapacidade de aceitar o abandono. E, no coração onde antes repousava o amor, acorda o ódio purulento e devastador que transforma em pesadelo, os sonhos de outrora, diabolizando, hoje, aqueles que mais amámos ontem.
E, nas antigas cartas de amor perfumadas, percebi que o amor mata.

Ensinaram-me que deveríamos ter ambição. Que o dinheiro não traria felicidade, mas que ajudaria. Que com ele poderíamos viajar, comprar conforto, saúde, lazer e prazer. 
E acabamos por empregar esforço e tempo na esperança de alcançarmos a quantia que nos permita viver sossegadamente. E dissimuladamente, aparecem a ganância, a ambição desmesurada, a exploração do outro, a desumanização. Concomitantemente, chegam os esquemas, os negócios ilícitos, a corrupção e o desespero. E, quando se perde o que um dia se teve, torna-se impraticável viver na vergonha que uma vida modesta pode provocar a quem já tudo teve.
E, por entre brilho das parcas moedas que trago no bolso, percebi que o dinheiro mata.

Ensinaram-me que a família seria sempre o nosso porto de abrigo. Que com ela que poderíamos contar, em todos os momentos, quando a vida exultasse a nossa existência ou quando os mares tempestuosos nos virassem o barco. Que ela seria o bote de salvação que não encontraríamos em mais ninguém.
Mas criam-se oceanos de mal-entendidos, discutem-se as heranças impossíveis de partilhar, os terrenos e os imóveis que não se podem dividir irmãmente e tudo porque uns assumem ter mais direitos do que os outros. Da discórdia nasce a vingança e da vingança nasce um rancor que se torna eterno.
E, por entre partilhas e ninharias, percebi que a família mata.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

A VERDADE É UM PARADOXO

REGINA SARDOEIRA
A verdade muda. Não há um caminho único, uma única certeza. Cada homem é um abismo e cada abismo contém, a par da multidão das certezas, a multidão das incertezas. Correr atrás da verdade é o mesmo que vogar em círculo ao redor de um centro; e se o círculo se alarga com o tempo, nem por isso deixa de ser, apesar de tudo, círculo. Ora, apesar da noção de círculo arrastar atrás de si, inevitavelmente, a noção de centro, a verdade é que não existe um centro e talvez que tudo na vida, afinal, se caracterize pela ausência de centros ou pela sua multiplicidade infinita. A verdade muda – ficou dito. Mas enquanto não muda, no torvelinho atroador da ambição humana, ela permanece como alvo da procura. Acima de tudo, o vício heurístico de uma humanidade sedenta de certezas opõe-se às divagações, absolutamente necessárias quando nos agita uma réstia de fulgor imagético! E contudo, pobre daquele (ou muito rico em função da perspectiva individual, que esta questão da pobreza ou da riqueza nunca deixou de ser extraordinariamente relativa) pobre ou rico, portanto, de quem não assume o sonho e o separa, à força de trincheiras, da implacabilidade do mundo real. Eis o que o homem para si próprio construiu: um mundo real, com todo o peso alienatório que o termo "real " implica, separado por trincheiras do mundo, dito ilusório, do sonho. E sempre que a imaginação, incauta ou diligente, ultrapassa a barreira proibida, logo desce a vergasta e a obriga a respeitar os seus limites. A imaginação converte-se, deste modo, num precioso alvo a conquistar. Mas de que forma? Agora as brumas do sol interior são as leis sociais com que o mundo espartilha o pensamento…mas não haverá um outro espartilho, radicado no cerne do próprio indivíduo, comprimindo por dentro, o que por fora foi sendo gradualmente comprimido? Sim, por demais conhecemos esse outro liame interior. Ele arrasta, arrasta para o fundo a consciência, numa vertigem de descida abissal, penetra cada vez mais em baixo zonas íntimas onde a penumbra é cortada, a espaços, pela luz mais que potente do pensamento onírico. E não há nada a fazer. Nós tentamos, num esforço supremo, deter a avalanche que tudo empurra para o caos primitivo, tentamos a ordem do mundo interior, tentamos a ordem da lei colectiva. Mas o caminho irrevogável é o abismo, sabemo-lo. Esta sabedoria, que em nós é um lema de vida, não é pessimismo fundamental, antes conhecimento dialéctico da força irremissível que sempre dissolve a afirmação no seu contrário, e isto vem sendo afirmado ao longo de gerações dos mais sábios de entre todos, não são ideias novas, estas, subitamente apanhadas na corrente do pensar. A despeito disso, continuamos a ver o homem cheio de espanto e confusão quando o terramoto abala e torna em frágeis carcaças a razão da sua vida. Pois quê?! Então ele não sabia já que é tremor e caos a estabilidade em que se apoia? Sabe e sabia-o desde sempre; sabe-o nas profundidades mais recônditas de si mesmo, sabe-o porque a prática o confirma, violentamente, de vez em quando; sabe-o porque a teoria diariamente lho demonstra. Mas na sua cegueira pusilânime recusa-se a fazer dessa noção o verdadeiro ponto de partida. O homem é de natureza cobarde.


E agora eis que surge a inevitável pergunta: se é terreno incerto aquele em que o homem se apoia não será absolutamente vã toda a construção e absolutamente estéril qualquer busca de equilíbrio?


Somos nós – os que tomamos consciência da inconsciência em que o mundo se atola – que forçaremos à resposta essa questão dentre todas insolúvel! Paradoxo dos paradoxos! Pasmai, homens positivos, pasmai ó tecnocratas, pasmai ó competências institucionalizadas, ó obreiros da perfeição! Pasmai ante o paradoxo e ante quem vos afirma o paradoxo como essência e contra-essência do já feito e do devir! E, depois de terdes pasmado, continuai, hirtos, nos cadeirões estofados da vossa consciência, continuai o trabalho interrompido, olhai a cifra incompleta e, acima de tudo, vede bem o nó da gravata! A propósito: já almoçastes? Então cuidado, não vá o paradoxo interromper a vossa digestão e apressar o desenlace! É bem verdade que os paradoxos são indigestos, é bem certo que a vida é uma tremendíssima indigestão (ainda que para vós ela deslize sem nenhum fragor de tempestade.) Para vós?! Mas quem sois vós? Ah, não o pergunteis ainda, é muito cedo, estão encerrados os taipais das lojas da definição e vão abrir… sei lá, talvez não abram nunca!


Reparem: há demasiados narcóticos, demasiados mecanismos de esquecimento, muito ópio flutua à superfície viscosa dos oceanos da cultura. Não, nada de drogas! Este livro é um anti-livro, justamente por causa disso, quer sair do circuito e afirmar-se, fora dele: mas talvez não o consiga nunca! Pois como pode afirmar-se um anti-livro que, sob todos os aspectos, partilha com os seus contrários forma e conteúdo? Pois bem, deixemos isso, para já, resolvê-lo-emos depois. Faz ainda parte do paradoxo a afirmação do que é, afinal a sua própria negação.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

ENSIMESMAMENTO

REGINA SARDOEIRA
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Este soneto de Florbela Espanca tem, sem sombra de dúvida, todos os ingredientes adequados à beleza, à fantasia, à musicalidade, e são de tal ordem estes predicados que inspiraram e deram corpo a uma das mais belas canções da música portuguesa – Perdidamente, dos Trovante (ver e ouvir o vídeo inserido exactamente acima!). E, no entanto, o poema perde a sua grandiosidade ao atrofiar-se tristemente no terceto final! Reparem: Florbela Espanca enuncia o sujeito poético na sua universalidade e fá-lo, soberanamente, em 11 versos, através dos quais, literalmente canta o vigor e a alma da fome única de quem sente e, pelo sentimento, se transmuda. Mas depois, na chave do soneto, confina tudo ao seu próprio eu, atrofia o estro vibrante, o "ser maior e mais alto do que os homens, o condensar o mundo num só grito, o ter fome e sede de infinito, o esplendor de mil desejos" e por aí adiante, amordaça toda esta grandeza no seu "amar perdidamente", em que faz de outro eu "ser alma e sangue e vida em mim" e na urgência de o cantar para ser ouvido por toda a gente! O sujeito poético dilata-se, aparentemente, durante a maior parte do soneto e, quando esperávamos que ele se abrisse a uma odisseia mil vezes superior à que foi cantada, eis que Florbela Espanca mergulha no solipsismo, de onde afinal não tinha saído antes, mas para cuja ilusão nos projectou.


É claro que Florbela Espanca teria que suicidar-se, porque, a ser assim, tal como se enuncia, escrevendo, tinha que sofrer profundos desequilíbrios psicológicos: e o suicídio pode ser a porta de saída da loucura. Ela nunca abandonou o ensimesmamento, nunca soltou as amarras de si para si própria, em direcção ao Outro, todo o seu mundo é reflectido em si, apenas em si. E eis a dor, a melancolia, as trevas, a intensa e alucinante peregrinação por abismos tornados delirantes no seio de um narcisismo sem apelo. Se acaso ela houvesse um dia descoberto verdadeiramente o Outro e, através dele, todos os outros, sem dúvida aceitaria continuar viva, sem dúvida teria escrito outra chave para este soneto, apesar de tudo musicalmente magnífico!

Meus dias de rapaz, de adolescente, 
Abrem a boca a bocejar, sombrios: 
Deslizam vagarosos, como os Rios, 
Sucedem-se uns aos outros, igualmente.

Nunca desperto de manhã, contente. 
Pálido sempre com os lábios frios, 
Ora, desfiando os meus rosários pios… 
Fora melhor dormir, eternamente!


Mas não ter eu aspirações vivazes, 
E não ter como têm os mais rapazes, 
Olhos boiados em sol, lábio vermelho!


Quero viver, eu sinto-o, mas não posso: 
E não sei, sendo assim enquanto moço, 
O que serei, então, depois de velho.


António Nobre, eis outro decadente, capaz de expandir em beleza a força da sua dor e cativar-nos por ela, mas caindo, também ele, nas linhas deste soneto, na omnipotência de um eu que não lhe permite viver. Observem que tudo neste poema é mera técnica, mero jogo de palavras, nada acrescenta, nada nos diz, em nada levanta o eu para lá da misantropia. Morreu muito jovem (33 anos), vítima de tuberculose, essa, que imolava os fracos e os punha cansados e famintos, cadáveres ainda vivos, soltando suspiros e cuspindo sangue! Este soneto traz a marca da doença e o estigma da fragilidade. Destino? Herança? Acaso? Talvez que se António Nobre pudesse ter ressuscitado da melancolia decadente e fatalista dos seus versos e erguido a ser em pose triunfante, a tuberculose não o houvesse derrotado e ele pudesse redimir a vida!

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busca anelante
O palácio encantado da Ventura!


Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura…
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!


Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado…
Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!


Abrem-se as portas d’ouro, com fragor…
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão – e nada mais!


Outro suicida, este Antero de Quental, aqui narrado por ele mesmo como o que bate vãmente às portas do ideal, aquele que, armado em cavaleiro andante, quer tomar de assalto para si próprio o Palácio Encantado da Ventura! E quer abrir a golpes as portas d’ouro do palácio gritando Eu sou o Vagabundo, o Deserdado… mas como podem não ser repletas de silêncio e de escuridão as portas dos palácios dos vagabundos, dos deserdados? Para lá do seu génio, para lá da limpidez da sua voz e do ritmo magnífico dos seus versos, a nota é o desalento, o emparedamento no eu, a incapacidade de transformar-se em Nós e aderir ao Todo. E que pode restar a tais seres senão, muito simplesmente, dar o tiro redentor na cabeça esvaída, ausentando-se de uma vida que não puderam viver em pleno?

O amor é uma companhia. 
Já não sei andar só pelos caminhos, 
Porque já não posso andar só. 
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa 
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo. 
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo. 
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas. 
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela. 
Todo eu sou qualquer força que me abandona. 
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.


Alberto Caeiro também foi um ensimesmado e também morreu de tuberculose! E aqui, neste poema de amor, vemos como a fraqueza do eu se redime na amada e como tudo se esvai de modo desolador quando ela está ausente: "Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas. Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela." É terrível amar assim, é terrível ser/existir apenas através de um outro eu, a ele se apegar e dele viver ou nele se consumir! Bem sei que Alberto Caeiro é um fantasma de Fernando Pessoa, bem sei que ele se multiplicou infinitamente e este pobre desgraçadinho que plange pelos caminhos do seu triste mundo não teve sequer um corpo. Mas agora pensem: se Fernando Pessoa o criou como um outro de si, não haveria nele também um Alberto Caeiro pobrezinho e abandonando, amando e plangendo, por nada ser sem aquela que ama? E afinal também ele – o criador do fantasma – morreu na miséria de si!


Homens! A poesia é um instrumento, uma arma, um poderoso meio de transmissão de sentimentos do sujeito poético para o mundo!


Homens! O mundo está prenhe de terror, de raiva, de violência e de ódio!


Homens! O mundo já chora e geme, individual e colectivamente, por dores muito concretas que nenhuma redenção parece ter poder para sanar.


Escrevei, homens, escrevei, poetas, lançai para o mundo a voz e a palavra! Mas, se acaso for de dor o vosso canto e se acaso for apenas vosso e se de nada valer para redimir a dor universal do homem sitiado, guardai-a, ensimesmai-vos mais um pouco na magia dolente da vossa própria melancolia e só saiais da vossa toca quando fordes capaz de trazer gritos verdadeiros de catarse, em que o eu subjectivo e lamuriante seja a afirmação suprema do Ser e o sim à vida! ( E eu sei perfeitamente que Florbela Espanca e António Nobre e Antero de Quental e Alberto Caeiro são grandes nomes da literatura portuguesa e deles recebemos herança e neles nos revemos enquanto expressão sublime da língua que nos estrutura…mas não choremos por eles e com eles, porque o choro atrasa a tarefa de erguer os ombros e encarar de frente o prodígio extraordinário de sermos os porta-voz inflamados do futuro!)

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

SUPER NANNY (S)

REGINA SARDOEIRA
Vivemos um tempo fértil para a abordagem de um número ilimitado de temas: o problema é a liberdade sem limites outorgada a qualquer um. Exactamente. A liberdade pode ser um problema.

Todos podem falar, escrever, comentar, dar opiniões, apresentar - se como testemunho; em princípio, essa prolixidade não seria perniciosa e, obter contributos vários sobre assuntos candentes, tenderia a enriquecer o mundo. Mas quando tudo se mistura e nenhuma conclusão válida é possível extrair da rede intrincada das perspectivas - que não da dialéctica - e parece mesmo que o confronto ou a posição A ou B ou ainda a C são levadas ao cume e as demais desprezadas ( ou o compromisso ), instala - se uma espécie de caos, a tender para o vazio.

Vejamos o tão propalado tema do desocultamento da privacidade familiar, no contexto do qual os pais abrem as portas a uma especialista em educação e a uma equipa de filmagem, para televisão, com o objectivo de patentear aos espectadores os respectivos problemas. Tais problemas dizem respeito ao que, em princípio, é tido como privado já que incide sobre o método educativo usado pelos pais com os filhos, expondo, (alegadamente ) sem filtros, o que ocorre no dia a dia, portas adentro.
Vi, por acidente, um pequeno excerto de um desses programas. Obviamente que considerei absurdo tudo aquilo a que assisti. Obviamente que me pareceu um despropósito filmar as birras - apresentadas como autênticas - de uma criança de tenra idade. Obviamente que os conselhos e instruções da especialista me soaram inoportunos e decerto inoperantes. 

Aparentemente, os pais acederam a entrar nesse programa, permitindo a exposição de si próprios e da sua família, tendo como objectivo resolver o seu problema, em concreto, e, através de espectáculo - porque um programa de televisão é sempre espectáculo -, mostrar a outras famílias, em idêntica situação, como resolver os seus dramas. 

A primeira questão que me ocorreu foi a seguinte : que contrapartida monetária recebem esses agregados familiares para, desse modo, "venderem" a sua intimidade? Efectivamente, eles possibilitaram a realização de um espectáculo, a ser exibido por um canal de televisão; e esse espectáculo tornou-se um produto - comercializável, portanto. Alguém acredita que, elevados à categoria de actores, esses pais e essas mães abdicaram do respectivo cachet? Que abriram as portas das suas casas, mostrando todo o seu interior e todos os seus hábitos, expondo - se e aos seus filhos, nas suas fraquezas, sem daí retirarem dividendos? 

Podem garantir-me que sim, que eles estavam animados de pura boa vontade e nenhum constrangimento, na medida em que queriam ajudar o mundo, elevando - o, pouco lhes importando servir de cobaias. Tenho muita dificuldade em acreditar nestes sentimentos e, a menos que a capacidade manipuladora dos órgãos de comunicação social e dos especialistas seja extremamente eficaz, custa - me crer que cedam, sem exigir contrapartidas - se elas não forem já um pré -requisito.
A exploração da imagem dos filhos pelos pais é um fenómeno clássico. 

Lembrei-me, a propósito, do pequeno actor Macaulay Culkin ( "Sozinho em casa" 1 e 2) cujo sucesso, quando era criança, se apagou bruscamente, no início da adolescência. Dizem que abusou de drogas e de outros vícios, perdeu a beleza da primeira infância e retirou-se dos filmes. Mas parece que a história teve ainda outros contornos (segundo o próprio ): o pai obrigou - o a entrar nos filmes, apropriou - se do seu cachet milionário, o filho teve que levar a cabo um litígio para tomar posse da fortuna...enfim, todos os problemas decorrentes da apropriação da imagem do filho em proveito próprio, com consequências mais ou menos trágicas para o jovem, tão promissor quando era criança. (Esta é uma perspectiva sobre o caso, colhida em informações avulsas, cuja veracidade absoluta não tenho como provar.).

Logo, estes pais que deste modo abusam dos filhos, com a agravante de mostrarem deles um lado muito desfavorável, têm, sem dúvida, em vista uma recompensa. Não acredito que os mova, tal como afirmam, apenas o amor pelos filhos ou a necessidade de resolver problemas para que se sentem incapazes, muito menos a generosidade de servir de exemplo para outras famílias. 

Se vivessemos numa sociedade perfeita, decerto uns casos poderiam contribuir para ajudar na resolução de outros idênticos e patenteá-los traria um benefício comum. Mas estas crianças e estes adultos, assim sinalizados, fazem parte de um colectivo onde as misérias expostas servem para gáudio daqueles que as observam . Estes pais e estes filhos ficam marcados com sinal negativo - e para sempre.

Não avaliei as supostas qualidades pedagógicas do programa; mas não me parece necessário. Por muito que queiram garantir que as cenas gravadas fazem parte da vida real daquelas pessoas e que a presença de estranhos no meio familiar não prejudicará o fluir autêntico da dinâmica habitual, é por demais evidente que não é assim que funciona. As crianças tenderão a alterar o comportamento, em função das câmaras e de um estranho que lhes fala; e os próprios adultos o farão. 

Paradoxalmente, há pedagogia neste tipo de programas: porque a pedagogia, basicamente definida como sendo todo o processo de educação, pode estar presente em qualquer lado.

Vejamos. 
Uma criança que observa os defeitos dos seus pais, pode aprender com eles, tanto ou mais do que com as virtudes e conselhos. Vendo que, nesta ou naquela situação, o pai ou a mãe procedem mal, ela pode fixar esse comportamento e evitá -lo cuidadosamente. Conheci uma rapariga cujo pai teve a vida marcada pelo alcoolismo e ela, desde muito jovem, prescindiu de beber qualquer bebida alcoólica, como indicação, dada a si própria, de não seguir o caminho do pai.
Um jovem, compreendendo que o seu professor é incompetente, que não dá as lições de modo compreensível, pode exigir dele, com perguntas contínuas e dúvidas persistentes, que se esforce ou se demita. Esse jovem está a exercer pedagogia em si e no professor e, eventualmente, na escola toda.
E assim por diante. 

Suponhamos, então, que essa especialista - a "Super Nanny ", título e modelo importados, como tantos outros - não passa de uma fraude (ela ganha, também, o seu cachet) e que grande parte dos conselhos e orientações que dá às famílias, não surte qualquer efeito. O espectador, assistindo ao programa, com sentido crítico, pode guardar - se de os seguir ou enveredar por outros caminhos, caso esteja a pô-los em prática por conta própria. 

Logo, este programa que, aparentemente, exterioriza problemas familiares de relação e comportamento entre pais e filhos terá sem dúvida uma vertente pedagógica - se nos dispusermos a abrir - nos para ela .
O problema da exposição mediática e não consentida, expressamente, pelas crianças em causa é outra das questões equacionadas pelos detractores deste programa. Dizem que as crianças têm direito à preservação da imagem, não podendo, segundo a lei, ser alvo de devassa. Os pais não são donos dos filhos, eles são indivíduos autónomos, dotados de personalidade e com direito ao respeito.
Contudo, e em primeiro lugar, se os filhos não são pertença dos pais, por que razão são eles que autorizam ou não autorizam toda a sua actividade civil, quer se trate de uma viagem, de uma visita de estudo, da publicação de uma fotografia ou mesmo da utilização do seu nome, para efeitos úteis? Permitir ou não que o filho tenha esta ou aquela actividade, mesmo que seja da sua vontade ou interesse, não será a manifestação de uma pertença efectiva em tudo semelhante à propriedade? 
Logo, as crianças e jovens até atingirem a maioridade civil, são, de facto, propriedade dos pais e apenas o bom senso paterno poderá preservar a sua imagem e garantir que não corram riscos. E só o fazem até um certo ponto, já que as crianças não crescem numa redoma, são enviadas para o mundo em tenra idade e aí submetidas a múltiplas influências. 

Logo que evoco os pruridos exarados em múltiplos comentários negativos em relação ao citado espectáculo televisivo, por utilização indevida da imagem das crianças, transformadas em cobaias, penso que uma enorme hipocrisia subjaz a tanta revolta. Esses, que assim criticam violentamente um modelo que escolhe patentear dificuldades educativas, exibindo sem máscaras as crianças e os pais, no seu quotidiano, são os mesmos que publicam no Facebook, por exemplo, fotografias e vídeos dos seus filhos: ou porque acabaram de nascer, ou deram o primeiro passo, ou pronunciaram a primeira frase, ou cantam e dançam com virtuosismo, ou tocam piano...e há aquela mãe que não hesitou em engalanar a sua filha de tenra idade e mandá - la fotografar em múltiplas poses...e logo, logo conquistou o título de "a menina mais bonita do mundo "!

Podem retorquir : mas afinal, os pais fazem isso para realçar as qualidades dos filhos e por isso eles devem estar - lhes gratos, mais tarde! Neste caso...é o contrário que acontece.
Mas, pensemos : o assunto será, deste modo, linear?

Se fosse, o pequeno actor Macaulay Culkin, bonito e inteligente, que ainda entra nas nossas casas por alturas do Natal, jamais teria razão para lutar com o próprio pai que o transformou em lenda! E as pequenas raparigas que, nos anos 50/60 do século passado, vindas das aldeias, após completarem a escola primária, "servir" para casas abastadas a troco de um magro salário que entregavam aos pais na totalidade, jamais teriam qualquer hipótese de tornar-se mulheres equilibradas e bem sucedidas na vida!

A questão é complexa e, por isso mesmo, não pode ou não deve ser tratada de modo ligeiro.

O programa em questão foi cancelado por ordem do tribunal. Imagino que este facto tenha provocado, igualmente, reacções contraditórias. Considero esta decisão irrelevante quando são mantidos e exibidos, prolixa e diariamente, conteúdos televisivos aberrantes, manipuladores, francamente anti - pedagógicos a todas as horas do dia. Falo de telenovelas, programas de entretenimento, concursos, reality-shows, (pseudo) debates, praticamente todo o conteúdo da programação, incluindo a publicidade. Esses programas são vistos por toda a família e, muitas vezes, em família. A maior parte deles deveria igualmente ser cancelada, a bem da saúde mental da sociedade em geral e das crianças em particular. 

De modo nenhum me ocorre defender o agora cancelado programa "Super Nanny": até a sua designação me repugna, aquele "Super " como se a especialista tivesse poderes sobre - humanos e a palavra "Nanny ", importada do inglês. Mas toda a especulação em torno do formato e a onda de comentários expressos que fui lendo, nauseada, aqui e ali, me patentearam a hipocrisia social dos pais, que são contra, mas permitem que os seus filhos adoptem, em público, os comportamentos mais lamentáveis, perante a sua passividade, dos falsos moralistas que criticam aqueles pais em concreto por exporem os filhos e depois publicam as fotografias dos seus em redes sociais por onde circula toda a gente, a ignorância ou a pactuação relativamente aos exemplos colhidos pelos filhos e por eles próprios na imensa abjecção que hora a hora é a oferta televisiva nacional e internacional.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

AS FRANJAS DO DESESPERO

REGINA SARDOEIRA
O desespero envia-nos para lá do sofrimento, a angústia amarra-nos ao paradoxo de viver e nesta dupla encenação subjectiva se vai tecendo a trama do ser humano: humano, porque assim o designamos nós, a meio caminho entre a divindade e a besta ou entre a besta e a divindade, que a ordem dos termos não é arbitrária. Pelo desespero, damo-nos conta da necessidade de ascese e, no percurso escatológico, forçamos a subida dos lodaçais miseráveis dos pequenos nadas até aos prodígios onde a clareza se expande e o arco-íris rasga o acervo plúmbeo do vestuário cerúleo. A angústia permanece na esfera prodigiosa e recôndita da consciência lúcida que nos segreda a premência da missão e, em simultâneo, nos faz temer não sermos os escolhidos; a angústia agarra-nos no segredo dos acordares em noites de sombra, para nos fazer duvidar da nossa magnificência reconhecida na apoteose que o olho solar engendra. O desespero e a esperança, aparentes antónimos, são contudo o reverso dialéctico um do outro, já que é nas sendas mais sombrias do negrume ou do arrepio, ou do suor frio urdido no medo, que bruscamente a vontade se arvora na soberania da esperança. A angústia é o reflexo da centelha divina, a subtil tomada de consciência da irmanação com o supremo ente, quer ele tenha uma espécie de corporeidade transhumana, quer se amalgame ao todo e se assuma em panteísmo absoluto. Sedentos da supremacia divina e contudo presos às esferas falazes de uma condição orientada para uma certa finitude, cremo-nos investidos de uma missão, à semelhança da que foi outorgada a profetas, a messias e a anjos e, no entanto, há uma linha de demarcação que não ousamos ultrapassar, ou porque não nos chegue a força de apenas humanos, ou porque não tenhamos fé suficiente para alçarmos a nossa figura nos ares. Contudo, toda a fé é paradoxo, toda a crença, absurdo e escândalo, pois nos envia para regiões de que apenas suspeitamos, ou porque a elas acedemos por uma crença desprovida de razoabilidade, ou porque o inconsciente, tornado espírito, nos revela insondáveis regiões de que nada sabemos, mas para que tendemos numa escalada sem fim. E é então que o iluminado grita imerso no circuito de sombra que toda a luz invariavelmente produz: Serei eu o escolhido? Será minha esta missão? Encontrar-me-ei na plenitude deste reino, soberano de mim, soberano do mundo e no mundo e mesmo para além dele ou, pelo contrário, nada haverá por detrás do vigor esplendoroso da luz que apela ao meu caminhar decidido e possante?
Assim vive o ser consciente, saído da bestialidade, quando a coluna erecta lhe retirou os olhos do solo e o expôs, triunfante e vulnerável, à vastidão de todos os mundos, estes, que pisamos com passos de matéria, e os outros, a que nos alcandoramos, pendurados em poderosos eflúvios de uma espiritualidade energética que não ousamos ou não podemos prender. 
Porém, nem todos são humanos deste modo, já que a maior parte se queda no conformismo auto-complacente e ousa apenas perseguir pequenas metas, crentes, todos esses, de que o mundo está aí para compromissos medianos, humílimas realizações, miseráveis empreendimentos a que, no entanto, ousa chamar nomes grandiosos. Esses, bípedes de coluna erecta e contudo rastejantes, nada entendem do desespero e da angústia dos que planam acima deles e contudo lhes parecem soterrados em lamaçais – pois nos lamaçais ergueram as suas casas e neles acham que deve viver o foragido das nuvens e dos picos altaneiros. Blasonam, impiedosos e contudo ridículos, pois lhes agradaria dominar o ser das alturas e fazê-lo enlamear-se com eles no atoleiro dos seus princípios vãos; não hesitam em chamar-lhe louco, pois não poderão entender nunca que essa loucura, ainda que supostamente pejada do visco com que o olhar se lhes nublou e que, por isso, encontram em tudo, é incompatível com os lugares-comuns do comedimento térreo. Pudessem eles, essses seres da mediana condição, lançar os olhos para o alto de si e perceber que o único lugar que lhes convém (se acaso se cruzaram com os predestinados nas horas de descida, que também lhes acontecem após voos delirantes em que se tornam os esfarrapados da grandeza, decerto débeis, decerto aluados) é deixá-los ser quem são e fazer por eles a parte que o tempo não lhes permite e contudo o mundo lhes exige! Mas não podem! Era necessário que os tingisse um pingo, ao menos, de grandeza e que fossem, ao menos, um pouco leves para entenderem o carácter diáfano desses que se apressam a insultar, apenas porque não têm, da ordem da vida, idênticas definições.
Talvez o equilíbrio pudesse ser restabelecido nessa espécie de osmose em que o etéreo e o terreno se completassem em harmonia! Mas nunca pode o ser terreno pretender que o celestial se lhe submeta, pois é dele o céu e as nuvens e o esplendor de todos os matizes e nimbar-se deles, mesmo não os entendendo, seria sempre condição de crescimento para o bípede profano de pés assentes no húmus que o prende.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

CRÓNICA DA FALTA DE ASSUNTO

ARTUR COIMBRA
Como bem sabe quem escreve, na área mais subjectiva do discurso poético ou nas diversificadas manifestações da prosa, nem sempre as musas, a disponibilidade ou a criatividade brotam na ponta da caneta ou nas teclas do computador.

Há dias e dias, como em tudo.

Dias em que a inspiração jorra torrencialmente, como as tempestades de Inverno, e os assuntos se atropelam e multiplicam à velocidade da luz.

Outros, em que o autor se senta frente à aridez desértica do papel em branco e nada ocorre de interessante ou susceptível de ser aproveitado para levar aos leitores. É como se a mais extrema secura atacasse e deixasse maninhos o coração e a alma de quem escreve, vazios, inaproveitáveis e sem préstimo.

Falemos da desgraça do cronista que abanca na secretária para redigir umas linhas para publicação mas a falta de assunto desaba impiedosamente sobre ele e não consegue articular duas ideias seguidas que jeito tenham.

O desassossego toma conta do cronista quando o tempo aperta e nada sai. É a angústia. O pânico. O terror.

Olha para o lado, fecha os olhos, à espera de um lampejo redentor… e nada. Vou escrever sobre quê, que tenha interesse para os leitores mas também para mim, que sou o escriba mas também o primeiro leitor?

Vai ao frigorífico, abre uma cerveja e ocorre-lhe Pessoa, na sua celebérrima piada fotográfica, “em flagrante delitro”…

Volta a alapar-se, e nada. A brancura do papel permanece imaculada, como se os deuses tivessem abandonado o cronista à sua sorte. Miseravelmente sem assunto, logo, sem existência. Porque cronista sem assunto e sem crónica, é algo que não tem sentido. É da área do absurdo. A identidade do cronista é a crónica que escreve e publica, num blogue, numa rede social, num jornal.

Volta ao frigorífico e tira um chocolate, que vai partindo e repartindo pelos dentes, remoendo, maquinalmente, para ganhar tempo, sempre em busca de assunto para a sua escrita.

Há dias assim, como dias assado. Ou frito ou cozido. Tenta rir-se de si mesmo e das suas piadas sem qualquer relevância óbvia, até porque está sozinho, consigo mesmo e com a impotência para alinhavar um tema de interesse.

Sim. Falar de quê?

De política? Não interessa nem ao Menino Jesus e nestes dias de Janeiro, com os Reis já festejados, é assunto absolutamente requentado.

De futebol? Ainda interessa menos, numa época em que o futebol já não é desporto mas apenas gananciosa indústria de lazer ou central de interesses financeiros para entreter as paixões e estimular as emoções mais primárias.

Falar do dia-a-dia? Do escândalo das adopções da IURD, que tanto foi silenciado e agora vem à luz do dia? De mais trágicas mortes em Tondela, terra tão martirizada pelos incêndios de Outubro? Das três mulheres que já foram assassinadas em Portugal no espaço de 15 dias, desde o início do ano, num inferno de violência que não há meio de parar?

Da educação que falta e da saúde que escasseia para os mais pobres?

De algum livro que tenha lido, quando o que escasseia é mesmo o tempo para ler, com prazer?

Bom, o melhor é não escrever nada quando nada se tem a dizer. Serve para a poesia e para a prosa, qualquer que ela seja.

Serve obviamente para a crónica.

Ou a angústia do cronista derrotado pela falta de assunto!

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

SÓ SEI QUE NADA SEI

REGINA SARDOEIRA
A frase só sei que nada sei ou sei uma coisa: que nada sei (originalmente do latim: "ipse se nihil scire id unum sciat", uma possível paráfrase de um texto grego antigo; também citado como "scio me nihil scire" ou "scio me nescire"; posteriormente retrotraduzido para o grego como "[ἓν οἶδα ὅτι] οὐδὲν οἶδα", [hèn oîda hóti] oudèn oîda), por vezes chamado de paradoxo socrático, é uma frase muito conhecida derivada da narrativa de Platão sobre o filósofo Sócrates.

A frase também está relacionado com a resposta que se supõe Sócrates ter recebido da sacerdotisa (pítia), no Oráculo de Delfos, em resposta à questão "qual é o homem mais sábio da Grécia?". E significa, jusramente, que quanto mais aprendemos, mais temos para descobrir.

Apesar de frequentemente atribuída ao Sócrates de Platão, nos tempos antigos e modernos, a frase não ocorre, tal como é dita e repetida, em nenhuma das obras de Platão.Dois proeminentes académicos estudiosos de Platão argumentaram recentemente que a frase não deve ser atribuída ao Sócrates de Platão.

No entanto, Platão relata, em sua Apologia de Sócrates, que:

[…] οὗτος μὲν οἴεταί τι εἰδέναι οὐκ εἰδώς, ἐγὼ δέ, ὥσπερ οὖν οὐκ οἶδα, οὐδὲ οἴομαι
[aquele homem acredita saber alguma coisa, sem sabê-la, enquanto eu, como não sei nada, também estou certo de não saber.]
A imprecisão da paráfrase como "só sei que nada sei"deriva do facto de o autor não estar a dizer que nada sabe, mas sim que não pode saber nada com absoluta certeza, mas pode sentir-se confiante acerca de certas coisas, nomeadamente em saber que não sabe.

Há vários Sócrates sendo que o de Platão é, decerto, o mais citado. O pequeno texto grego reproduzido acima, e retirado da Apologia de Sócrates, é a conclusão de um périplo que o filósofo grego terá levado a cabo pelas ruas e praças de Atenas depois de a pítia do templo de Delfos ter garantido, por mais do que uma vez, ser Sócrates o homem mais sábio da Grécia. 
Após um exercício intenso de questionamento aos cidadãos atenienses, tidos como sendo os mais sábios, Sócrates concluiu: "Sou, com efeito o mais sábio entre os meus concidadãos, porque eu sei que não sei e estes, não só erram inúmeras vezes, crendo estar certos, como tão pouco reconhecem a ignorância".

Não podemos ter a certeza se as coisas se passaram exactamente como escreve Platão. Muito menos dar credibilidade total a todos quantos têm interpretado a vida e a morte de um filósofo que não deixou obra escrita. Porém, seja como for, esta frase tão repetida, com propósito e a despropósito, "Só sei que nada sei", incarna, de facto, uma lição valiosa. 

Passaram muitos séculos desde o século IV a.C. 

Somos detentores, hoje, de catadupas de informação e a elas acedemos velozmente e logo nos expomos perante os outros, afirmando saber. Nunca ouvi e li tantos disparates, tantas opiniões, tantos comentários a propósito de tudo. 

Por mim, continuo, infatigavelmente, a demandar conhecimento e a negar dúbias certezas. E cada vez mais entendo a sabedoria do ateniense Sócrates - ou a douta - ignorância de quem sabe, apenas, que não sabe.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

2018: O ANO REDONDO

REGINA SARDOEIRA
Furtivo, o tempo leva - nos daqui para ali, e nem devia chamar -lhe tempo, porque é na nossa consciência que tudo se produz : o tempo, o espaço, o passado, o presente, o futuro...Mas, escravos que somos do calendário, dizemos que já passou um ano e que, hoje mesmo, é o segundo dia de outro que ostenta o número redondo de 2018. É redondo, não é? E como o círculo é a figura perfeita, em que as pontas se unem e o fim é princípio, podemos dizer que tudo é idêntico. Mas, dado que existe movimento, o de rotação e o de translação, diremos que, afinal, tudo mudou um pouco de lugar , e na imensidão do cosmos uma parcela ínfima (ou gigantesca, quem sabe?) alterou os ritmos e estamos hoje em outro dimensão qualquer .

Furtivo e insondável, o tempo transfere - nos daqui para ali; e por vezes damos connosco suspensos numa espécie de eternidade - porque a infinitude não pode medir -se e nenhum cronómetro é capaz de marcar todos os intervalos contidos no segundo, mesmo que lhes chamemos microssegundos, nanossegundos. ..ou outras microscópicas ou nanomicroscópicas designações. Outras vezes, o fluir torrencial apanha - nos de chofre;e percebemos que os anos passam por nós, qual cavalgada furiosa, e corremos ao espelho a espreitar a ruga insidiosa, o esgar desconhecido, as novas cãs a despontar na fronte.

Quantas ilusões e desilusões vamos somando aos dias do calendário e às horas do relógio, com a sua plêiade de minutos, segundos, etc., esquecidos de outras dimensões espácio-temporais, onde também existimos! Por mim, vivo o tempo de todos, onde absorvo muitos tiquetaques; e depois fecho os olhos e já não sei se é dia ou noite, tarde ou cedo, verão ou inverno.

Que importa, digam-me? Que urgências são essas que nos levam ao desespero, que corridas tresloucadas valem o desgaste das nossas vidas? 

Dizem que só temos esta; e então é preciso agarrrá-la com vigor, ultrapassar quem tomou a dianteira, lutar com quem quer tomar o nosso posto, competir por lugares cimeiros na orgânica do mundo, ser finalmente bom e alcançar o sucesso.

Em nada disto acredito. 

Creio firmemente que vivemos em múltiplas e paralelas dimensões, descarto toda e qualquer corrida, não me importa isso a que chamais sucesso e ser bom nem sempre significa mesmo...ser bom!

Por isso não tenho muito para dizer neste dia do ano redondo, a não ser o que já disse e soa, decerto, obscuro, e tudo o resto que também disse e fiz, para cumprir a tradição ancestral que o calendário marca.