sexta-feira, 24 de novembro de 2017

CONTINUANDO A EXPLORAR O COACHING...

JOSÉ CASTRO
Na sequência da crónica anterior, retomo a pertinência do Coaching na sua Vida. Em primeiro lugar, devo distinguir o Coaching de qualquer outra prática, seja Terapia, Psicologia, Mentoria, Consultoria, etc. Todas elas têm razão de ser e muitas vezes são complementadas com Sessões de Coaching.

Mas o Coaching apresenta algumas especificidades, tais como:

· Está centrado no presente e futuro, ou seja, nos objetivos a concretizar pelo Coachee (cliente).

· Não dá “soluções” mágicas, nem conselhos, nem faz julgamentos!

· É uma prática pró-ativa, antecipando-se à superação de “eventuais” desafios.

· Provoca no Coachee reflexões profundas, que podem originar mudanças de paradigmas.


Por outro lado, o Profissional do Coaching, o Coach:

· Não polui o “mapa mental” do Coachee com o seu “mapa mental.”

· Respeita a “essência” do Coachee!

· Não ensina, facilita a autodescoberta.

· Eduz do Coachee respostas para os dilemas que quer superar.

· Incentiva o Coachee a concretizar objetivos intermédios, até ao objetivo final.

· Promove no Coachee a sua autonomia e seu bem-estar.

· (…)

Perante o descrito, pode o leitor imaginar (melhor seria que experienciasse) que o ambiente vivido numa Sessão de Coaching, é extremamente profundo, emocionalmente intenso e poderosamente libertador! Entra-se num espaço-tempo diferente!

O Coach tem o dever e a responsabilidade de criar um ambiente psicológico propício, de elevada empatia, de escuta profunda (global), confiança, respeito, lealdade, integridade, profissionalismo e ética! O Coach respeita na íntegra a totalidade do Ser que tem na sua frente, com o seu passado, as suas experiências, as suas emoções, os (falsos) fracassos e sucessos da sua vida pessoal, familiar e profissional. O Coachee é que é o centro da atenção! Quantas vezes o silêncio do Coachee tem um significado mais profundo do que todas as palavras já proferidas! Quantas lágrimas já rolaram, quantos sorrisos já surgiram, todo o corpo “grita” silenciosamente o que vai na sua essência (linguagem corporal), que (a maioria da vezes) é abafado pelo tom da sua voz (cheia de filtros!).

Facilitar que o Coachee aceda à sua essência, sem medos, remorosos, culpas, vergonhas; promover o “renascimento” de um novo Ser; potenciar no Coachee a busca do Sentido e Propósito de sua Vida; eduzir dele os seus objetivos (que sempre teve), seus sonhos (dos conscientes), é a verdadeira Arte e Ciência do Coach! Levar o Coachee a esta autoconsciência e autogestão e permitir que ele transmute “os grãos de areia” limitadores e se supere continuamente, é o desafio mais sublime do Coach!

Mas o Coachee não se iluda! Ao Coach cabe ajudá-lo a preparar o “caminho”, mas é ao leitor, potencial Coachee, que o tem de percorrer, com entusiasmo, compromisso, determinação e disciplina! Se chegar ao fim do caminho é o objetivo, é ao longo deste que ocorrem todas as “transformações” que nos dão a certeza que afinal estamos Vivos e não apenas existimos!

NOVAS REGRAS BANCÁRIAS A PARTIR DE 2018

JOÃO RAMOS
Na primeira metade de 2018, os bancos sofrerão um “rombo” na sua rentabilidade contabilística, em virtude das alterações impostas pelo novo standart de contabilidade internacional, que abrange mais de 120 países, incluindo Portugal. No novo sistema, os bancos deverão contabilizar as perdas esperadas e não as efetivamente incorridas, como ocorria no passado. O IFRS 9 classifica os empréstimos em três fases: Quando o empréstimo é contraído – primeira fase- o banco deve reservar provisões para os próximos 12 meses de empréstimo. Se, por algum motivo (exemplo desvalorização de um imóvel) ocorre um aumento do risco de incumprimento – fase 2- então o banco será obrigado a assegurar provisões que cubram a totalidade do empréstimo. Caso se confirme o incumprimento, entram entra-se na fase 3, com a instituição bancária a registar as perdas no seu relatório e contas. Nas regras acuais, os bancos contabilizam apenas a rentabilidade dos créditos de maior risco, sob a forma de juro superiores, embora não apresentem as provisões necessárias, para a sua cobertura, o que aumenta os riscos de perdas elevadas e instabilidade financeira. Na prática, em média, os bancos da União Europeia terão de aumentar as suas provisões, na ordem dos 13%, estimando-se que os seus rácios de capital baixem cerca de 0,45 p.p., embora existam instituições com “tombos” ainda maiores, segundo a Autoridade Bancária Europeia. Apesar da aplicação se estender por um período de 5 anos, as agências de rating, temem que o aumento das provisões acima do necessário retire financiamento à economia e agudize as recessões. Para lá desta questão que importa sobremaneira a Portugal, pela baixa capitalização empresarial, as novas regras poderão voltar a exigir novas recapitalizações, em instituições bancárias, como a CGD ou o Novo Banco (que seriam dadas com aval do Estado). A redução da rentabilidade também constituiria um novo fator de desinteresse para os potenciais interessados, o que reduziria ainda mais a margem de manobra das instituições e obrigaria a nova intervenção do Estado. Esta é uma situação que deveria alertar o governo e banco de Portugal para as eventuais necessidades que o nosso sistema financeiro possa vir a apresentar, no futuro.

A LENTE AUMENTATIVA DO CIÚME

“Os ciumentos sempre olham para tudo com óculos de aumento, os quais engrandecem as coisas pequenas, agigantam os anões, e fazem com que as suspeitas pareçam verdades.” Miguel de Cervantes

LUÍS PINHEIRO
Antes de começar a explorar este tema, quero desde já estipular que o ciúme é uma emoção como qualquer outra, pertence é ao ser humano, e em termos evolucionista tem o propósito de dar resposta a uma situação de ameaça, real ou não, de perder uma relação ou posição num relacionamento significativo.

O ciúme é considerado por vários autores uma espécie de medo, que está inteiramente relacionado com o desejo de conservar algum tipo de conquista. Poderá ser considerado normativo o ciúme, quando o mesmo é passageiro, ou seja, quando a pessoa vive essa experiência mas não fica focada nessa ideia. Outra dimensão que limita o ciúme normal é fato dele ter sido provocado por uma situação específica e real. Este ciúme surge do desejo de manter o relacionamento e não pelo sentimento de traição ou de possessão sobre o outro.

São essas duas barreiras que separam o ciúme normativo do patológico, ou seja, o ciúme patológico começa a aparecer quando os pensamentos que lhe têm por base são irrealistas ou infundados. Existe um universo de razões que pode levar a este tipo de ciúme contudo tende a ter como origem o sentimento de inferioridade e insegurança, onde o indivíduo se sente desprezado e descartado pelo outro sem se ter baseado em fatos concretos.

Num extremo o ciúme patológico pode estar associado ao desenvolvimento de um distúrbio de personalidade conhecido por “Perturbação de personalidade Paranoide”, onde a desconfiança e a suspeição face aos outros são características centrais que interferem com o seu modo de pensar, sentir e naturalmente de agir. Neste sentido tende a interpretar as intenções e ações dos outros como ameaçadoras, sendo difícil adotar outras explicações alternativas para os seus comportamentos.

Tende a ser bastante comum, que pessoas com ciúme patológico apresentem uma compulsão por verificar constantemente as suas dúvidas chegando ao ponto de invadir a privacidade da outra pessoa com o intuito de validarem os seus pensamentos disfuncionais. A monitorização do parceira/o nas redes sociais, o controlo pelas chamadas e mensagens do telemóvel, o remexer nos pertences da/o parceira/o tendem a ser comportamentos bastante presente no quotidiano destas pessoas. Estes comportamentos tem apenas o prepósito de alivar os sentimentos de dúvida e de insegurança provocados pelos pensamentos disfuncionais que por sua vez leva a criação de esquema que mantem o próprio comportamento.

Depois de toda esta informação negativa que explorei é importante salientar que este comportamento tem solução. Mas para isso a pessoa deve aceitar e reconhecer que o seu sofrimento advém de um distúrbio mental, e consequentemente necessita de um tratamento psicoterapêutico e em alguns casos psicofarmacológico. É neste momento que a/o parceira/o tem um papel chave, em perceber o funcionamento desta psicopatologia e ajudar a ultrapassar os esquemas de pensamento desadaptado.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

FANTASMAS DE NOVEMBRO

ANABELA BORGES
Chegando o mês de Novembro, só penso em coisas tristes.
Começa com os Finados. Depois, são os dias, que, num repente, ficam pequenos, frios e cinzentos. Até parece que a transformação se dá como num passe de magia: de um dia para o outro, sem aviso, passa-se do doce tempo outonal para os rigores do Inverno.
Excepto este ano, que vai demasiado seco e soalheiro para a época, de tal modo que eu ando espantada por chegar a este ponto sem ter usado gola alta, e isso sim, é um feito sem precedentes na minha vida.
De qualquer modo, em termos de relógio biológico o Novembro está lá. É mais fraquinho, mas está lá.
O frio e a diminuição de luz custam-me muito. Custa-me na alma, já referi que fico triste, e custa-me no corpo, que fico tolhida do frio e cheia de dores nas articulações.
Nem sei dizer se esse doer é mais forte para a alma ou para o corpo. Mas lá que fico psicologicamente afectada, lá isso fico.

Afecta-me sobretudo a falta de luz. Não é a falta da luz própria da noite, se é que me faço entender. Não, que eu até aprecio esse encanto especial que tem a noite, esse mistério que nos envolve em silêncio, esse segredo, esse abismo. Não. Refiro-me à falta de luz dos dias. Os dias de Novembro não costumam ter luz. E isso faz-me falta como o pão para a boca. Costumam passar-se dias e dias e dias de penumbra. E eu só vejo os meus fantasmas de Novembro. É necessário manter as luzes das casas acesas durante o dia. O ar enche-se de uma aragem cortante. E os pássaros vão transformando os seus piares em medos e anseios, até se calarem de vez.
Ah, como é bela, ao olhar, a bruma que se espalha sobre o rio, sobre a serra! Mas quão inconveniente ao corpo e à condução do automóvel. Tudo pode ser belo em Novembro, quando observado pela janela…
Se pudesse, baixava uma lei: proibia-me de sair para trabalhar em dias de frio e sem luz.
Resolveria assim grande parte dos meus problemas, já que, chegando o bom tempo, a minha produtividade aumenta muito, e assim poderia trabalhar em dobro para compensar. 

São cinco da tarde, a “hora dos mágicos cansaços”*. O trânsito circula com a dificuldade de fim de tarde.
A música grita pop na rádio, mas estou aqui sem ouvir a música, sem me concentrar nela. Não fosse isso e já teria mudado de estação. Desligo.
Sou de estar concentrada em pensamentos nenhuns de fim de tarde. Sou de estar em espera, absorvida pelo tempo.
Automóveis sobem e descem a rua, e por vezes param, em fila.
No ar, solta-se ainda uma ou outra ave frivolenta. A tarde pinta-se de cinza. Baixa a claridade. É fosca, a tarde.
As luzes dos automóveis vão-se acendendo. As luzes da cidade também. E com elas acende-se a nostalgia. Acende-se um cansaço antigo, compenetrado.
Não tardará que todo o movimento rouco da cidade esmoreça até não passar de um bramido. Não tardará que as pessoas recolham do dia, embora ainda mais tardiamente que os pássaros, que esses, nos seus afazeres, são mais precavidos que os homens, e não lhes são favoráveis escuridões ou aragens frias.

*Verso de Florbela Espanca.

ELOGIO AO PENSAMENTO

LUÍSA VAZ
A grande vantagem das crónicas é que podem ser um relato, podem servir para contar uma história ou uma estória, podem versar a nossa especialização, a nossa formação profissional ou podem ser simplesmente um emaranhado de linhas com palavras aparentemente soltas que à partida só façam sentido para o seu autor mas que possam vir a ser descobertas pelo leitor mais cedo ou mais tarde.

E hoje não me apetece falar nem escrever sobre Política - essa minha paixão eterna que tem estado de uma forma muito activa muito presente na minha vida nos últimos meses. Voltei à política activa, às campanhas, aos programas e tudo isso me preenche mas hoje, tal como o Governo em funções, quero ser mais abstracta que concreta.

Quero pensar o geral e chegar ao particular, ou o nada para chegar a algum lado. Porque posso, será? Porque me apetece? Porque a Filosofia também faz parte da vida? Porque devemos parar para questionar ou simplesmente porque nem tudo tem que ser baseado na “vida real”? Porque a nossa única inspiração não deve ser essa ou porque acho que tenho o direito a divagar através da escrita de vez em quando? E tenho e é bom por isso vaguemos apenas através da palavra escrita, deixemos que os dedos pressionem as teclas e as palavras surjam e vão formando frases que vão formando parágrafos e por consequência, texto.

Vamos corrigindo os erros que o sublinhado vermelho tão rapidamente indica que estão lá porque não há nada pior que um texto com erros, com gralhas ainda pode ser perdoado mas erros não, isso é mau demais e o respeito por nós mesmos e pelos nossos putativos leitores exige-nos pelo menos isso.

Chego a meio do texto. A minha mente vagueia pelo caso da jovem americana que está em prisão perpétua porque foi vendida como escrava e quem a comprou abusou dela de todas as formas e feitios possíveis até ao dia em que ela pegou numa das armas que ele tinha em casa e o matou sendo a paga que a sociedade dá a esta jovem, que à época tinha 16 anos e uma vida de humilhação e dor, é uma sentença perpétua. Justiça, há? É possível que alguém não considere que esta jovem precisava era de conforto e acompanhamento psicológico? Penso nas inúmeras denúncias de assédio sexual que têm surgido e pergunto-me se está tudo doido? Se as pessoas não sabem viver com o poder e se o desejam apenas para subjugar o Outro?

Penso no empenho das pessoas nas suas relações pessoais, nos casos de sucesso, de insucesso e nos altos e baixos. Nas lutas quotidianas seja por estabilidade emocional ou profissional ou outra ou ambas e até que ponto as pessoas estão dispostas a ir para a conseguirem.

Penso no estado do país e em como uns são claramente beneficiados em função de outros cujo papel é sustentarem essas benesses sem nada mais do que impostos receberem em troca.

Penso na forma como nos tentam manipular com as taxas do Sal ou a transferência do Infarmed para o Porto por uma razão meramente eleitoralista e que só vai causar transtorno e chatice.

Penso na chuva e no quão bom é que finalmente caia embora ainda um pouco a medo mas é melhor assim.
Penso…simplesmente penso e eu quero acreditar que isso continua a ser uma das maiores virtudes do Ser Humano e que há muitos que se esquecem que têm essa capacidade por ser mais fácil viver na ilusão de que tudo é fácil e simples.
Penso porque é o que sei fazer melhor e desta vez foi este o resultado Inusitado, inesperado mas espero que sirva para vos lembrar que o grande milagre da Vida é que sejamos capazes de pensar pela nossa cabeça e sermos os únicos responsáveis pelas nossas decisões e atitudes.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

J´AI MENTI

Virginie Madeira  (Auteur),‎ Brigitte Vital-Durand  (Auteur)
Elle est absente à son histoire comme elle avait autrefois été absente au procès de son père : dans un livre-témoignage, Virginie Madeira, qui a aujourd'hui 21 ans, raconte sans la moindre trace de colère ou même d'émotion comment elle a menti, à 14 ans, en accusant son père de l'avoir violée pendant plusieurs années. Le ton est froid, les phrases lapidaires : "Je savais que mon père était en prison mais je ne le savais pas. Je n'arrivais pas à l'imaginer. C'est compliqué à comprendre mais je n'arrivais pas à me rendre compte que mon père était en prison ; pour moi, on ne met pas les gens en prison s'ils n'ont rien fait." 

Un jour du printemps 1999, pour que son amie Mélanie "s'intéresse à elle", Virginie Madeira lui raconte sous le sceau du secret que son père a "abusé" d'elle. "...
Il faudra plusieurs années pour que Virginie Madeira se décide à avouer son mensonge. Un jour d'été, en 2002, un an après la condamnation de son père, elle s'assoit sur le lit de sa mère qui se repose. "Tu sais, ce n'est pas vrai tout ça, lui dit-elle simplement. - Oui, je l'ai toujours su... Je suis contente que tu aies le courage de m'en parler, répond sa mère. - Je crois qu'il faut faire sortir papa", conclut Virginie Madeira...

Ce livre laisse une étrange impression d'absence, de carence, de silence. Jamais Virginie Madeira ne trouve le moindre fil qui lui permettrait de comprendre ces longues années d'indifférence au sort de son père et au monde qui l'entoure... (Anne Chemin - Le Monde du 21 septembre 2006)

Virginie Madeira avait 14 ans quand elle a raconté à l'une de ses copines de classe que son père avait «abusé» d'elle, comme on disait dans les feuilletons américains qu'elle regardait goulûment à la télévision. Aujourd'hui, sept ans plus tard, elle publie un livre - coécrit avec la journaliste Brigitte Vital-Durand - pour crier publiquement : J'ai menti (Stock). Mensonge, son enfance déchirée depuis l'âge de 6 ans par les mains paternelles. Mensonges, les caresses et les viols pendant que la mère travaillait ou dormait. Mensonges, les «déclarations» extirpées de sa bouche immature par la directrice du collège, les enquêteurs et le juge d'instruction. Mensonges, les accusations confirmées devant la cour d'assises. Et lui, le père, qui vient de passer plus de six ans en prison et reste privé de ses droits civils, attend que la justice lui rende son honneur. Encore stupéfait de ce qui lui est arrivé, Antonio Madeira répète et répète encore : «Ma fille n'était qu'une gamine. Avant de croire les enfants, il faut mener des recherches approfondies.» Sa femme le coupe : «Ils ont cru bien faire.» Il s'incline devant l'évidence : «Ils ont cru bien faire.»...

Elle explique maintenant que, du début à la fin de cette histoire, ado placide, elle était totalement passive, dans un état second, «une sorte de bulle, comme dans un film». Tout le monde à l'époque lui dit que son histoire est vraie, même les experts, qui ont décelé un hymen endommagé. Elle reviendra au réel en retrouvant enfin sa maison, le 25 juin 2002. Au début de l'été, elle va voir sa mère dans sa chambre : «Tu sais, ce n'est pas vrai, tout ça.» La mère évoque les examens gynéco : «Il y a eu quelqu'un ?» Virginie dit que non, elle ne comprend pas. «Il faut faire sortir papa.»...

Question d'honneur. Pour le reste, les quelques amis, la maison de 300 mètres carrés, l'entreprise, la réputation, «on a tout perdu», soupire Antonio Madeira. Mince et sec, il secoue le front. Encore une fois, les mots lui manquent. Sa femme prend le relais : «Tu te souviens, tu citais ce proverbe portugais. La vérité, c'est comme l'huile qu'on jette dans l'eau, elle finit toujours par remonter.» Ils n'en veulent pas à leur fille : «Elle était si jeune, dit sa mère. On a juste du chagrin.» La nuit est tombée. Une fois de plus, sa mère supplie : «On t'a travaillée pour que tu ne changes pas d'avis ou tu as perdu la tête ?» Virginie dit qu'elle ne sait pas. Sa mère pleure : «Elle ne sait pas, elle ne sait pas !» La fille la regarde avec tendresse. Son livre explique que la justice ne doit pas se laisser aveugler par les certitudes. (Jacqueline Remy - L'Express du 21 septembre 2006) --Ce texte fait référence à l'éditionBroché.

"PARA ENSINAR HÁ UMA FORMALIDADE A CUMPRIR - SABER"

PAULO SANTOS SILVA
Há 172 anos atrás, mais precisamente no dia 25 de novembro de 1845, nascia numa casa da Praça do Almada na cidade da Póvoa do Varzim, um dos maiores vultos da literatura portuguesa – José Maria de Eça de Queirós. Filho de um magistrado nascido no Rio de Janeiro e de uma portuguesa nascida em Monção, o romancista terá visto os seus pais casarem quando já tinha 4 anos, uma vez que a avó materna não teria dado o seu consentimento para o enlace. Assim, os pais de Eça apenas casaram seis dias após o falecimento da avó. 

Devido a algumas contingências de uma infância atribulada, Eça de Queirós foi entregue aos cuidados de uma ama, até ser internado no Colégio da Lapa no Porto, de onde saiu aos dezasseis anos para cursar Direito na Universidade de Coimbra. O seu pai, magistrado formado nesta Universidade, foi o Juiz Instrutor do processo de Camilo Castelo Branco, tendo também passado pela Relação, pelo Supremo Tribunal de Justiça e presidido ao Tribunal de Comércio. Além de deputado, fidalgo cavaleiro da Casa Real, par do Reino e do Conselho de Sua Majestade, foi ainda escritor e poeta. 

Entre os vários amigos que fez em Coimbra, destaca-se o grande Antero de Quental. É nesta época que os seus primeiros escritos são publicados na Gazeta de Portugal, tendo sido mais tarde publicados postumamente na obra intitulada Prosas Bárbaras. 

Terminada a licenciatura em Direito, foi tempo de rumar a Lisboa onde exerceu a advocacia e o jornalismo, tendo chegado a diretor de diversas publicações. Entre 1869 e 1870, fez uma viagem de seis semanas a terras do Oriente, tendo assistido à inauguração do Canal do Suez. Desta viagem resultaram muitas notas que viria a aproveitar em obras tão emblemáticas como O Mistério da Estrada de Sintra e A Relíquia. 

Regressado desta viagem, ingressou na Administração Pública tendo sido Administrado do Concelho de Leiria. Foi nesta cidade e neste período que escreveu aquela que é considerada a sua primeira novela realista e sem dúvida das mais polémicas – O Crime do Padre Amaro. Bastaram apenas três anos para ingressar na carreira diplomática, tendo exercido as funções de Cônsul de Portugal em países tão diversos como Cuba, Inglaterra e França.

Terão sido os anos passados em Newcastle e Bristol na Inglaterra, os mais produtivos em termos literários. Foi neste período que surgem obras como Os Maias e A Capital. Esta obra, escrita numa prosa hábil e realista, relata a história da ambição social, profissional e pessoal da personagem principal, Artur Corvelo, que é acompanhada ao longo do seu amadurecimento emocional e consequente resignação à triste realidade. Viria a ser terminada pelo seu filho e publicada postumamente, em 1925. Manteve, também, a sua atividade jornalística, ainda que de forma esporádica, através da rubrica “Cartas de Inglaterra”, publicada nas colunas do Diário de Notícias. A sua última obra, A Ilustre Casa de Ramires, foi publicada em 1900, ano em que faleceu na sua casa de Neuilly-sur-Seine, perto de Paris, onde exercia funções diplomáticas como Cônsul, desde 1888.

Teve direito a honras de Funeral de Estado, tendo sido sepultado no Cemitério dos Prazeres em Lisboa, de onde foi mais tarde transladado para o Cemitério de Santa Cruz do Douro, em Baião. 

Juntamente com Ramalho Ortigão, assinou em 1871 as célebres Farpas. Estas publicações mensais, foram uma notável crítica à sociedade da época. Através de textos onde se utilizava a crítica e a ironia, satirizava-se com muito humor à mistura, a imprensa e o jornalismo partidário ou banal. Também a Regeneração, e todas as suas repercussões, não só a nível político mas também económico, cultural, social e até moral; a religião e a fé católica; a mentalidade vigente, com a segregação do papel social da mulher; a literatura romântica, falsa e hipócrita não escapavam à acutilância dos autores. As Farpas foram um novo e inovador conceito de jornalismo - o jornalismo de ideias, de crítica social e cultural. 

Eça de Queirós, publicou as suas “Farpas” em 1890, numa compilação à qual deu o título de Uma Campanha Alegre. Ao revisitar o conteúdo da escrita de Eça de Queirós, somos confrontados com uma quase assustadora atualidade. Se tem dúvidas, deixo-lhe alguns exemplos:

“Em Portugal a emigração não é, como em toda a parte, a transbordação de uma população que sobra; mas a fuga de uma população que sofre.” in Uma Campanha Alegre (As Farpas) 

“Hoje que tanto se fala em crise, quem não vê que, por toda a Europa, uma crise financeira está minando as nacionalidades? É disso que há-de vir a dissolução. Quando os meios faltarem e um dia se perderem as fortunas nacionais, o regime estabelecido cairá para deixar o campo livre ao novo mundo económico.” in Distrito de Évora

Ao ler estes escritos, diria que Eça de Queirós faria 170 anos hoje, se fosse vivo?...

A CIDADANIA E OS CRÍTICOS DO MULTICULTURALISMO

RUI SANTOS
Com o estabelecimento de indivíduos etnicamente diferentes nos países de acolhimento, os governos viram-se confrontados com uma série de novas questões, de novos problemas até então não colocados pela sociedade. Algumas dessas recentes situações prendiam-se com o conceito de cidadania, como por exemplo, quem é cidadão, o que significa ser cidadão e como é que se pode aceder à cidadania.Stephen Castles e Mark J. Miller têm opiniões claras sobre este assunto: «In principle the nation-state only permits a single membership, but immigrants and their descendants have a relationship to more than one state. They may be citizens of two states, or they may be a citizen of one state but live in another. These situations may lead to ‘transnational consciousness’ or ‘divided loyalties’ and undermine the cultural homogeneity which is the nationalist ideal (Castles e Miller 2009: 44).

Vasco Graça Moura defende que o conceito de cidadania implica um conjunto de representações e comportamentos. As representações referem-se à pertença do cidadão a uma comunidade política estruturada de determinada forma, dotada de um sistema de valores e com uma identidade proveniente da consciência coletiva. Estabelece-se um conjunto de direitos e de deveres, isto é, uma ligação jurídico-política. Os comportamentos pressupõem a existência de uma visão do mundo, uma visão da comunidade a que se pertence, uma participação social de acordo com as regras jurídico-políticas vigentes (Moura 2013: 19).

Por parte dos imigrantes, as prioridades não se colocam na mesma ordem que os governos as põem. Se estes dão maior enfâse à abordagem conceptual de cidadão e cidadania, os imigrantes têm outra ordem hierárquica nas suas preocupações, como referem Castles e Miller: «The first concern for immigrants, however, is not the exact content of citizenship, but how they can obtain it, in order to achieve a legal status formally equal to that of other residents» (Castles e Miller 2009: 44).

Frequentemente as perspetivas multiculturais são criticadas por se apoiarem em essencialismo, que as identidades consideram como algo fixo e imutável; daí que uma concepção semelhante argumente que todas as identidades merecem respeito, que os seus modos de vida são legítimos e tem direito a ser valorizados e reconhecidos. Não se deve esquecer que há estilos de vida e comunidades que mantém tradições e rituais que atentam profundamente contra os direitos tão básicos como os direitos humanos e que se perpetuam e consolidam porque não se costumam sujeitar a análises e debates em situações de igualdade e liberdade.

O modelo multicultural é posto em causa por vários pensadores. Uma das críticas de que é alvo diz respeito ao conceito de sociedade multicultural. Como afirma Stephen Castles: «O termo sociedade multicultural é frequentemente utilizado como sinónimo de “sociedade multicultural multiétnica”, ou seja, uma sociedade em que convivem lado a lado grupos que possuem diferentes línguas e culturas. Nestes termos, a grande maioria das sociedades do mundo actual é multicultural (apesar de umas o serem mais que outras). No entanto, este facto nada nos diz acerca das atitudes das populações face a outros grupos, ou das políticas públicas direccionadas às minorias. Uma sociedade multicultural entendida neste sentido pode ser atravessada por relações intergrupais altamente conflituosas, como a África do Sul durante o regime do apartheid.» (Castles 2005: 133). O mesmo autor adverte que o conceito de “multiculturalismo” pode ser subvertido em algo que não esteja presente nas intenções que levaram à criação daquele modelo de integração. O caso dos Estados Unidos da América, onde as relações entre os diferentes grupos étnicos não são consideradas como fazendo parte das atribuições do Estado, é um exemplo disso mesmo, no entender de Castles: «Os apoiantes americanos do multiculturalismo defendem a inclusão, na história, na educação e na cultura nacionais, do papel desempenhado pelos americanos nativos, pelos afro-americanos, por outras minorias e pelas mulheres. Mas esta visão do multiculturalismo também é utilizada frequentemente pelos seus opositores. O multiculturalismo é assim rejeitado porque, argumenta-se, legitima o separatismo, o relativismo cultural e mesmo o fundamentalismo, sendo assim considerado como ameaça à modernidade, ao secularismo e à igualdade sexual. Os analistas desta veia sustentam que o multiculturalismo produzirá provavelmente uma sociedade segmentada e conflituosa.» (Castles 2005: 134).

Quem também refere que o multiculturalismo encontra muitas vezes dificuldade na sua implementação e concretização é Will Kymlicka, que considera existir um conjunto de fatores que podem, ou não, contribuir para o seu sucesso:

a) Relações étnicas – O multiculturalismo funciona melhor se as relações entre o estado e as minorias forem vistas como uma questão social e não de segurança. Se o estado entende os imigrantes como uma ameaça à sua segurança, o apoio ao modelo multicultural diminui, assim como as oportunidades dadas às minorias para apresentarem os seus problemas.

b) Direitos Humanos – A adopção do modelo multicultural pressupõe que os Direitos Humanos são adoptados por todas as comunidades étnicas e religiosas. Grande parte das reações contra o multiculturalismo devem-se ao receio, por parte dos ocidentais, em relação aos muçulmanos devido à sua falta de vontade em abraçarem normas mais liberais e democratas.

c) Controlo de fronteiras – O multiculturalismo é mais controverso quando existe o medo por parte dos cidadãos da perda de controlo sobre as suas fronteiras – quando países enfrentam vagas inesperadas de imigração ilegal ou de asilo político – do que quando os cidadãos sentem que a entrada no país é mais controlada.

d) Diversidade dos grupos de imigrantes – O modelo multicultural funciona melhor quando as comunidades minoritárias são distintas em termos de proveniência, religião, etc. Quando se não verifica isso, as relações entre as comunidades tendem a polarizarem-se.

e) Contribuição económica – O apoio ao multiculturalismo está relacionado com a percepção que a maioria tem relativamente às minorias. Quanto mais estas contribuem para a sociedade em termos económicos, maior será o apoio (Kymlicka 2012: 2).

De acordo com os críticos, as políticas multiculturais originam novas formas de exclusão social. Os esforços para incorporar institucionalmente grupos étnicos podem levar à formação de elites constituídas por líderes étnicos que podem não representar as suas comunidades. Além disso, o próprio reconhecimento das comunidades étnicas pode ser difícil devido à enfâse dada às diferenças culturais entre os diversos grupos étnicos. Também a heterogeneidade de diferentes comunidades étnicas não é muitas vezes tida em conta. As identidades étnicas são, no pensar dos críticos do multiculturalismo, incorporadas de forma a irem ao encontro das expectativas da cultura dominante.


Leitura de apoio:

Castles, Stephen (2005): Globalização, Transnacionalismo e Novos Fluxos Migratórios. Lisboa: Fim de Século.

Castles, Stephen, e Miller, Mark J. (2009): The Age of Migration. Basingstoke: Palgrave Macmillan.

Kymlicka, Will (2012): Multiculturalism: success, failure, and the future. Washington DC: Migration Policy Institute

Moura, Vasco Graça (2013): A Identidade Cultural Europeia. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos.