segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A CONHECER

CATARINA RITO

Sir Arthur, Fluo, Isidro Paiva Joalharia, Xio Limited Edition, WestMister e Fora Sunglasses são marcas portuguesas que no mercado nacional nos últimos cinco anos, que captam a atenção de quem aprecia design e ideias originais em áreas como a ótica, joalharia, calçado e acessórios


A última década é rica em ideias criativas, numa franca aposta no design e na exploração de matérias primas comuns ou fora do comum. Nem todas têm a capacidade de terem espaços comerciais próprios, mas conseguem expor em lojas multimarca, em sites ou em iniciativas de foro cultural espalhados pelo país. Vale a pena conhecer e comprar, quer pela originalidade, pela qualidade quer pelo simples facto de serem projectos 100% portugueses. Aqui ficam algumas sugestões das muitas que existem e que merecem destaque.



Fora Sunglasses
A marca de óculos Fora Sunglasses é produzida integralmente em Portugal, numa das poucas fabricas especializada nesta área. “Um sonho de juventude que acabou por tomar forma. Poucas pessoas sabem que o nosso país foi, há muitos anos, um produtor com forte tradição nesta área, no entanto as circunstâncias do mercado acabaram por fazer morrer grande parte das fábricas existentes, restando apenas duas ou três. Nós trabalhamos com uma delas”, explica Miguel Barral, fundador e atual detentor da marca Fora Sunglasses, que em Julho passado abriu a primeira loja monomarca em Lisboa (Avenida Alvares Cabral). Revivalista, os modelos são feitos manualmente em edições limitadas para evitar a “massificação do produto e oferecer ao cliente a peça perfeita para usar todo o ano”.

Fluo

Com nove meses de vida, a Fluo, marca de acessórios, surgiu da vontade de Ana Salgado e Pedro Baptista, que escolheram “imprimir irreverência ao mercado nacional de acessórios, através da mistura de materiais, texturas e padrões inesperados recorrendo à colaboração de artistas nacionais e internacionais de diferentes áreas”. A loja online (www.fluobags.com) está disponível a partir de Setembro com a apresentação da primeira coleção. No entanto, os fundadores têm exposto em diferentes pontos de venda uma coleção limitada, para dar a conhecer o projecto aos clientes. Para ficar a conhecer melhor visite a 39 A Concept Store (Rua Alexandre Herculano), Stock the Nature (Galerias Entretanto) e Chiado Factory (Rua da Misericórdia). O nome Fluo “tem origem num dos elementos transversal a todas as carteiras que é o fecho fluorescente”.

Isidro Paiva Joalharia
“Desde muito cedo que sinto vontade de expressar o que me rodeia, o que me inspira. Em 2015, dei a conhecer a minha primeira coleção de vestuário unissexo e este ano a linha de joalharia de autor. Um passo de cada vez, onde procuro dar uma abordagem única a todas as peças que faço”, frisa Isidro Paiva, designer de moda de autor que este ano decidiu criar uma linha de joalharia homónima. As peças são integralmente feitas à mão e estão à venda na loja La Bohême (Rua Casal Ribeiro, Lisboa). Este jovem alentejano tem uma linguagem conceptual muito ajustada às novas abordagens estéticas de inspiração urbana e tem desenvolvido coleções que primam pela unicidade da ideia conjugada com cortes ajustáveis a todos os corpos e estilos.  

Sir Arthur


A marca de calçado e acessórios masculino, Sir Arthur, nasce da longa experiência na indústria de Artur Casimiro. Um projecto que prima pela excelência dos materiais, do fabrico e do design, que pretende ir ao encontro de todos os homens urbanos que “sabem o que querem calçar”. Ainda sem espaço próprio, a Sir Arthur está à venda no atelier da designer Roselyn Silva, no Edifício Castilho em Lisboa. “Trabalho há muitos anos nesta área e lido com muitas marcas de grande qualidade. Senti que tinha chegado o momento de me aventurar e assim surge a Sir Arthur, com duas linhas: calçado e acessórios. A receptividade tem sido fantástica”, salienta este empresário que está gradualmente a dar a conhecer a marca dentro e fora de Portugal, “sem pressa para haver uma base sólida e consistente”. 





Xio Limited Edition
A Xio Limited Edition é uma marca de acessórios para mulher fundada por uma designer gráfica e uma terapeuta. “Começou por ser um escape mas em muito pouco tempo percebemos que havia uma oportunidade no mercado de apresentar uma marca que aliasse a moda com as artes plástica. Todas as edições são limitadas e têm um tema trabalhado por reconhecidos nomes nacionais e internacionais”. Surgiram em meados do ano passado e já estão à venda na Loja do Museu de Serralves, algumas galerias de Norte a Sul de Portugal e na loja La Bohême, “um espaço que dá valor ao trabalho de autor em português”, diz Joana Matos ao site delas.pt.


WestMister

A experiência no sector têxtil de Luis Campos e Vanessa Marques levou-os a criar a WestMister durante 2015, uma marca de underwear pensada exclusivamente para o público masculino. “O know-how adquirido ao longo de uma década a trabalhar na industria têxtil deu-nos a oportunidade de idealizar um projecto que também expressasse a qualidade nacional num sector que capta a atenção de um público que gosta de se vestir e usar produtos de excelente qualidade. E se esses produtos forem de origem portuguesa… perfeito”, explica Luis Campos ao site delas.pt. ‘The Finest Socks’ é a linha de apresentação da marca, que está à venda de diferentes espaços comerciais de Norte a Sul do país, sendo que em Lisboa está no atelier Paulo Battista Alfaiate, Venâncio Tailor e Loja das Meias; e no Porto no The Feeting Room, Dayly-day, Prassa, paradigma Stores, Me Allegro e La Punta Foz.


domingo, 2 de outubro de 2016

AS ILHAS MORREM DE PÉ

MIGUEL GOMES
Sento-me no banco de madeira, corrido, dos bons, em que o meu peso colocado num extremo não alavanca a outra extremidade para o ar, fazendo dele um baloiço em que a única criança sou eu. Há um quê de escutismo na construção, umas mãos habilidosas ou ávidas de o serem procuraram entrelaçar cordas, pregos e madeira, nalgo a que comparo com uma tenda de índio ou, apesar da imperfeição, das minhas antigas cabanas construídas à força de inocência e de muitos ramos de mimosas, fetos e, perdoe-nos o proprietário, algumas molhadas de palha seca. Escolho este banco porque, a esta hora, é o único onde a sobra projectada pelos ramos dos sobreiros descansa do calor que assola na invulgar quente tarde de um Outono que, por este ritmo, só chegará na Primavera. Pouso os antebraços na mesa, tento perceber de que madeira se trata, mas falta-me o olhar resinoso que conhece os veios (parabéns Pai). Gosto do atrito, o caderno parece apreciar quando o abro com cuidado e lhe afago as folhas ainda imaculadas, uma espécie de solo poroso por onde se precipitam os espaços entre as letras desaparecendo a tinta e ficando aflorados, tão só e apenas, os caracteres que precisam ser lidos por mim. 

Apesar de longe do litoral, aqui sob a sombra de um pé de laranja lima feito de sobreiro, ouço o marulhar do vento a cavalgar pequenas cristas de espuma e o ribombar seco da força com que a água mineralizada bate nas paredes da ilha onde vivo. 

Há um círculo verde, erva não cortada, onde subsistem restos dos traços da passagem de humanos despreocupados, imagens aterradoras amassadas ao redor de maços de cigarros, tampas de plástico de garrafas, invólucros vazios de chicletes, restos de guardanapos, fios multicoloridos de apertar sacos de pão de forma e outros lixos lixizados que não consigo perceber a que não essencialidade pertenceram. Parecem olhar-me tristes, ali ao alcance do caixote do lixo vazio. Dou por mim a pensar que não só as pessoas cheiram mal dos pensamentos, como fazem com que a sua passagem por este planeta seja assinalada com o teor de lixo que deixam para trás por onde quer que passem. Ergue-se no interior do círculo uma circunferência de pedras, com uma pedra no centro da circunferência onde está gravado um símbolo celta que é, por sua vez, um círculo com raios em semi-círculo e que me hipnotizam na razão de pi (π).

Ainda coloco a caneta entre o polegar, indicador e médio, mas a visão do símbolo celta começa a desviar-me a atenção. Paro quando algo me cai no ombro e escorrega pelas costas. Sacudo-me na repulsa de pensar ser um insecto que, coitado, saberá menos da minha existência que eu da importância dele. Outra batida e, agora, o estampido tímido na mesa. Solto-me da espiral torpe a que começo a habituar-me e vejo que o que caiu não foi qualquer bicho, mas uma letra. Um “S”. 

Um “S” está deitado na mesa de madeira, como pequeno insecto indefeso de costas, a espernear sem perceber porque o céu está aos seus pés e o solo nas costas. Com a ponta da caneta volto-o e ele trepa para a esfera azul por onde se esvai a tinta indefesa. Fito-o por momentos e depois coloco-o na folha amarelada do caderno, ainda em branco, ou em vazio, para que nesta amálgama colorida não pareça o caderno padecer de uma enfermidade cutânea. Sobre a folha, o “S” parece familiarizar-se com o local onde está e, sem que o empurre, solta-se da esfera e vai alojar-se no canto superior esquerdo da folha. Um novo toque no ombro, nova letra sobre o tampo de madeira, um “e”. Faço o mesmo que fiz com o “S” e rio-me ao vê-lo correr folha acima para se encostar ao “S”. Agora um “n”, um “t”, um “o”, um “-“, um “m”, novo “e”. 

Ainda as sombras se deslocam devagar, ainda o mar arrulha nas ameias da minha ilha, ainda a sonoridade celta orbita o meu mundo, ainda o canavial ao fundo se desloca à vontade da maré que o vento traz pelo ar, já eu vejo que o dia se foi desfiando rápido, certeiro e embaraçando noutros dias como se mãos cuidadosas do cesteiro tecessem os vimes espessos que são as vinte e quatro horas que nos tiquetaqueiam. 

Acordo como quem não dormiu, sinto novo toque no ombro e quando me preparo para adivinhar qual a letra que tinha caído desta vez, vejo que a acompanhar parte do meu braço estava um ramo forte e vigoroso do sobreiro. Acomodou-se ao meu ombro, ao meu pescoço e, na cumplicidade das árvores frondosas, olhou-me e afastando e juntando folhas aqui e ali, formou um sorriso com a claridade que o Sol emanava. 

Vejo as horas, levanto-me sobressaltado, atrasado para o que quer que tenha que ser feito depressa e antes de fechar o caderno não contenho o sorriso ao ver as primeiras palavras que vejo agora não ter escrito: “Sento-me no banco de madeira”.

Hei-de nascer de pé, como as árvores, nas ilhas.

OUTONO…DOCES LEMBRANÇAS!

LÚCIA GONÇALVES
E eis que, lentamente, o outono vai chegando…

Os dias vão amanhecendo menos risonhos e terminam já com aquele friozinho gostoso que lembra o cheiro a castanha assada e...a infância!

As árvores despem-se da folhagem colorida pelo envelhecimento e transformam, o meio envolvente, num autêntico tapete macio e escorregadio. Gosto do outono, apesar da sua conotação mais tristonha.

Nas aldeias começam as colheitas próprias da estação, entre elas as vindimas. As uvas gradas e doces, uma delícia de serem colhidas e comidas diretamente das videiras.

Hoje em dia é uma atividade monótona, executada apenas pelas populações idosas que por lá permanecem. Perdeu-se o movimento e alegria de antigamente, em que as mulheres enchiam os cestos que, os homens carregavam para o lagar.

As crianças, após o regresso da escola, eram incumbidas de apanhar os bagos que iam caindo por entre os dedos das vindimadeiras… Nos ouvidos a frase todos os anos repetida: “fulaninho de tal fizera, com os vagos, várias pipas de vinho, no ano anterior…”.

Santa inocência! Sim, claro que faziam, mas com a soma de todos os bagos. Claro!

As mãos pegajosas e doces… Quão doces eram as vozes que ninavam as canções que entoavam campos fora…

À noite, os homens lavavam os pés, arregaçavam as calças e, de braço entrelaçado, pisavam as uvas lentamente, camada a camada. E nem um duro dia de trabalho esmorecia a boa disposição noturna, riam e brincavam como só o consegue quem está tranquilo na vida.

E porque a tarefa atrasava o jantar, que as gentes da aldeia chamavam de ceia, a meio faziam uma pausa para petiscarem alguma coisa: por norma nozes e pão, acompanhadas de um bom bagaço. E claro, à saída do lagar, a prova do vinho doce não podia faltar!

Na cozinha, as mulheres preparavam uma refeição melhorada e as crianças cirandavam por ali, felizes com a quebra da rotina.

Ah o outono… que inundava de expetativa os rostos de toda a gente, afinal trazia a reboque, a época em que todas as famílias se juntavam, apenas pelo simples e grande prazer de estarem juntas…O natal!

O BURNOUT NOS CUIDADORES FAMILIARES

CARLA SOUSA
O processo de envelhecimento 

“Tenho 65 anos, fui emigrante em França e na Alemanha e cá em Portugal trabalhei em várias zonas. Sempre gostei da vida! Reformei-me há sete anos e pensei que ia continuar a ter uma vida bonita, mas enganei-me...há sete anos que não tenho descanso... a minha esposa teve uma trombose e está acamada. Ela berra toda a noite, passo a minha vida lá fora, naquela mesa de pedra, a ver os outros a passar e sempre à espera que chegue o domingo, para ir dar uma volta. Vivo com a minha filha mais nova, os outros filhos estão casados e têm os seus empregos e as suas casas. Quando as empregadas do Apoio Domiciliário chegam, aproveito para ir a Barcelos. Nunca pensei acabar os meus dias assim (choro). Vou morrer em casa, à porta! Dantes um maço de cigarros dava para dois dias, agora... Nunca tomei remédios na minha vida e estou a tomar agora. Nunca sofri de nada e agora estou preso de pés e mãos...”
(Entrevista n.º 6: indivíduo do sexo masculino, 65 anos) 

(Barbosa, F. & Matos, A. (2008). Cuidadores familiares idosos: Uma nova realidade, um novo desafio para as políticas sociais. Configurações [Online], 4, posto online no dia 12 de Fevereiro 2012. URL : http://configuracoes.revues.org/491. doi: 10.4000/configuracoes.491)

Cada vez mais constatamos que na nossa sociedade existe um intenso movimento no sentido de adiar ou de tentar evitar o processo de envelhecimento.

O ageism, ou preconceito da idade, é um processo de marginalização onde os interesses e as necessidades dos idosos recebem menos atenção do que os das pessoas mais jovens.

A forma mais comum de discriminação cultural tem sido o estigma do “descartável”, “passado” ou “peso sociais. “Nos dicionários emocionais da população, velhice é sinónimo de decadência, perda e de perda de dignidade.” (Charazac, 2004)

Envelhecer é uma experiência que pode suscitar medos: medo da solidão, da morte, de doenças, da dependência física e psicológica, de perder espaço nos diversos papéis conquistados (afetivo, familiar, profissional, social). Costuma-se a associar a idade ao conhecimento e sabedoria. Envelhecer significa tornar-se num ser maduro, experiente, mas conservar esta maturidade nem sempre é fácil. O envelhecimento afeta o funcionamento físico e a saúde. Os sistemas e os órgãos deterioram-se, tornando-se mais susceptíveis a problemas. 

No entanto, ao processo de envelhecimento também estão associadas doenças neurodegenerativas – demências.

É bastante comum ouvir-se familiares dizerem do seu idoso que está “cheché” sem que percebam que pode estar doente e deve ser avaliado por um profissional da saúde. Isto tem contribuído para um desgaste e burnout dos cuidadores que se tornam bastante vulneráveis a perturbações psiquiátricas, como a depressão. É importante o diagnóstico precoce pois pode favorecer o próprio paciente e os seus cuidadores a compreenderem e a lidarem de forma adequada com a doença. 

Cuidar de um idoso exige tempo, energia, capacidade, disponibilidade e afetividade. 

Segundo Karsch (1998) um dos factores determinantes para o familiar se tornar cuidador é a obrigação e ou dever que tem para com o idoso. Os cuidadores atribuem a sua vontade e o seu compromisso de cuidar ao desejo de retribuir os cuidados recebidos na infância e ao pânico, medo de poder sentir culpabilidade.

Os cuidadores familiares são normalmente familiares diretos, como o cônjuge, filho/a, nora, neto/a, qualquer membro da família, que voluntariamente assume a tarefa de cuidar do seu familiar.

A Síndrome de Burnout nos cuidadores familiares não é raro, é muito mais comum do que pensamos.

Como identificá-lo? O cuidador pode sentir fadiga, palpitação, aumento da ansiedade, dor de cabeça e tensão muscular; depressão; apatia; tédio; declínio no desempenho do trabalho; hipertensão; insónia; irritabilidade; aumento no hábito de beber e fumar; desinvestimento afetivo e emocional na tarefa de cuidar; aumento no consumo alimentar; tensão familiar e com amigos. Sente-se exausto física e emocionalmente.

O quotidiano do cuidador familiar do idoso com dependência ou demência pode provocar, por vezes, comportamento agressivo de ambas as partes. A sensação de exigências excessivas, as constantes repetições e queixas por parte do idoso cuidado pode levar ao desenvolvimento desta síndrome.

As formas de análise e de averiguação deste desgaste são diversas, pois os sintomas poderão ser diferentes de indivíduo para individuo. 

A demência bate à porta e vem de maneira silenciosa…

Reforçando a ideia de que os cuidadores devem ter o apoio necessário para exercer sua tarefa de forma adequada. 

Usando-se estratégias de coping adequadas pode reduzir-se e prevenir-se o stress. 

É importante que o cuidador se cuide e deixe-se cuidar.

AS DELÍCIAS DA MATERNIDADE

LUÍS ARAÚJO
A maternidade é um acontecimento único que encerra momentos únicos de beleza e que, apesar de praticada já há alguns anos permanece como algo de nebuloso para a totalidade dos homens.

Se algum homem algum dia disser, ainda que remotamente, que compreende tal fenómeno está claramente a mentir e devia ser violentamente flagelado na praça pública pelo menos até o Sporting voltar a ser campeão.

Ora, sendo eu homem, escapam-me por completo e absoluto todas e quaisquer nuances relacionadas com algo tão puro e bonito, fruto do amor incondicional entre duas pessoas (ou de àquela hora não se ter encontrado nenhuma farmácia aberta) por isso não compreendo a necessidade de partilha com o resto da humanidade, que inexoravelmente afecta todos os recém papás e mamas, especialmente por essa partilha ser maioritariamente feita através do berreiro ininterrupto do rebento em restaurantes, hotéis, aviões e em todo e qualquer sitio para o qual não se devia levar uma criança de tenra idade.

Choca a minha alta sensibilidade que se ande para ai a exibir as crianças com o mesmo afã e entusiasmo com que se mostra o carro novo, o último modelo da apple, ou a novel amante que se mandou vir directamente do Nordeste brasileiro.

Não me interpretem mal, eu adoro crianças, mas de preferência já com 18 anos feitos e o liceu completo.

Há uns anos atrás um amigo meu, fumador compulsivo, nicotinodependente em ultimo grau e um caso de estudo para a ciência por ter nos pulmões alcatrão suficiente para se colocarem pelo menos 5 kms de tapete novo na autoestrada e ainda assim ter conseguido chegar aos 30 anos sem nenhum cancro, dizia, a propósito da proibição de fumar nos restaurantes, "eu, com o cigarro, incomodo a mesa que esta ao meu lado, uma criança a chorar incomoda o restaurante inteiro".

De facto, com a maternidade deveria existir uma consciencialização para os babados progenitores, de que as escolhas de restauração se devem restringir àquela cadeia que tem um enorme M amarelo à porta, o único transporte público aceitável é o monovolume (invariavelmente Renault ou Citroen) e a hotelaria que deviam ser autorizados a frequentar é a casa do Sr. António que alugaram no Algarve e que fica na 16a linha do mar.

A própria expressão "babados progenitores" deveria dar uma dica a estas pessoas, pois, apesar de se fantasiar que o "babados" diz respeito ao orgulho de serem pais, na realidade é uma descrição factual ao modo como se apresentam em público, com a roupa cheia de baba e algum ranho do estafermo do crianço.

Por razões que me escapam completamente, é raro o pai (ou mae) que tem consciência de que o dia em que entrou na maternidade é o último dia da sua vida, e assim, continuam alegremente, lutando contra todas as evidências, a tentarem viver como se fossem pessoas normais.

Ora, eu bem tento evitar o contacto com este tipo de pessoas, janto em restaurantes caros e de comidas exóticas, só pernoito em hotéis para maiores de 18 anos e nunca jamais em tempo algum coloco o pé num transporte publico.

Mas, como no melhor pano cai a nódoa, fui recentemente apanhado num dos meus poucos deslizes, aconteceu numa travessia transatlântica em que um pai achou por bem submeter o estafermo da criança a uma viagem de 11 horas sem escala dentro de um caixão com asas, o que, sem nenhuma surpresa resultou em estrepitoso berreiro, durante um número absurdo de horas, tão intenso que atravessava toda a classe turística e ainda tinha força para vir abanar a minha taça de champanhe na primeira classe e que deu ímpetos a 340 pessoas de cortarem os pulsos com uma faca de manteiga.

Ahhhhhh, as delícias da maternidade...

sábado, 1 de outubro de 2016

A ESCOLA FECHOU

CRÓNICA DE MÓNICA AUGUSTO
Há dez anos a escola da aldeia fechou...

À semelhança de muitas outras espalhadas pelo país, a escola fechou e com elas ficaram também fechadas as memórias de tantas gerações. Foi, e continua a ser, no imaginário de todos, um local mágico, de saberes, de construção, de convívio, onde todos os naturais da terra começaram a desenhar os seus percursos, as suas personalidades. Não há quem não tenha uma história para contar, um episódio para recordar.

Antes, muito antes do encerramento em massa das escolas “primárias”, por cá, devido a acentuada quebra demográfica, já se falava da possibilidade de fechar a escola. Sempre que o assunto surgia a população insurgia-se. Em tempos idos organizavam-se manifestações na tentativa de travar o processo que acabou por se concretizar. Aconteceu há dez anos e, então, a população resignou-se, afinal, nos últimos anos restavam apenas duas alunas... de facto não poderia ter sido de outra forma...

Em tempos idos a escola teve tantos alunos que eram suficientes para “formar duas equipas de futebol” (sem contar com as meninas), ultimamente não era assim! A população que tanto se indignava, em tempos idos, com a mera possibilidade de encerramento, resignou-se face às evidências.

Em tempos idos a escola era muito mais do que um estabelecimento de ensino, do que um edifício, era o símbolo cultural, o símbolo da autonomia, o orgulho da população. Ficar sem a escola significava a perda de identidade e, de alguma forma um tanto inexplicável, a submissão à povoação para onde o ensino seria deslocalizado. Os detentores do saber eram os detentores do poder!

Tudo mudou, as crianças de todas as aldeias convergem para o grande Centro Escolar da sede do concelho onde contam com melhores condições, infraestruturas, possibilidade de convívio, de troca de ideias. Mas tal como a escola, também a aldeia ficou vazia...

Para as gerações anteriores a escola mantém o seu simbolismo, muito mais do que um edifício, é o local onde se depositam as melhores recordações, dos melhores anos, do início das nossas vidas, dos nossos percursos que ali começaram a ser traçados.

Muitas destas construções, tão semelhantes entre si, fruto de uma época, estão vetados ao abandono. Outros, fruto de iniciativas públicas ou privadas, foram conhecendo uma nova vida, foram reabilitadas e adquiriram novas funções. É sempre com tristeza que olhamos aquelas que ficaram abandonadas e que de dia para dia se vão deteriorando. Não é fácil encontrar uma nova vida para estes edifícios outrora fervilhantes. Contudo, se olharmos à volta podemos encontrar soluções que minimizem a degradação e possibilitem a conservação da memória coletiva. Por vezes soluções simples que não obrigam a grandes esforços ou investimentos: em todas as aldeias encontramos associações, grupos de jovens, comissões de festas, etc, interessados em zelar pelo espaço em troca da obtenção de um local para as suas reuniões e eventos. 

Foi assim que, passados dez anos voltamos à escola! Reabrimos os portões, passamos pelo pátio e entramos na sala de aula agora vazia, mas “com o mesmo cheiro”. Voltamos a sentir-nos crianças, as memórias em catadupa, recordamos tantas aventuras, conseguimos visualizar a disposição dos objetos agora ausentes. Em grupo inicia-se a limpeza e o espaço retorna à vida. As janelas abertas, por si só, chamam a atenção de quem passa, entra e se comove! Várias gerações voltaram à escola, sinais dos tempos: usam-se os telemóveis para registar o momento do regresso, ocupando os mesmos lugares de há tantos e tantos anos atrás, escreve-se no quadro: o local, a data, do outro lado o alfabeto, tudo parece igual! Alguns destes intervenientes não viam o interior da sua escola há mais de 30 anos, mas as suas memórias continuavam frescas, outros dos presentes foram “apenas” as últimas alunas daquela escola... O encontro de gerações volta a fazer-se naquele local e assim vai continuar. O espaço fica ao serviço dos jovens e dos menos jovens que dele queiram usufruir, muitos planos estão já no horizonte, muitas ideias, muitos eventos ali vão ter lugar. Dez anos depois do encerramento, sem grande logística ou investimento, a escola reabre e revive, basta o esforço e empenho de uma comunidade. Independentemente da posse efetiva, e escola retorna ao seu proprietário afetivo: “o povo”, zeloso e dinâmico, não deixará que a nossa escola feche novamente.

RESTAURANTE «CRUZEIRO» EM TERRAS DE CÂNHAMO

CRÓNICA DE ANTÓNIO REIS
PÃO TRANSMONTANO 
Há documentos que nos levam até à idade Média e provam que todo o Vale da Vilariça, terras de aluvião (um depósito de sedimentos clásticos formado por sistema fluvial nas margens da drenagem, incluindo as planícies de inundação e as áreas deltaicas, com material mais fino extravasado dos canais nas cheias…). O Vale da Vilariça era totalmente plantado e arborizado por plantações de cânhamo, que no estado adulto eram colhidas e transformadas em cabos para as Naus que partiam nos descobrimentos. Hoje mesmo, há uma empresa espanhola que pretende instalar no Vale da Vilariça uma plantação de canabis para transformação medicinal, igual à actividade que já exerce em Espanha. Mas, a legislação portuguesa ainda não prevê a cultura desta espécie herbívora, o que prejudica a economia nacional, em especial de regiões que se encontram desertificadas.

A montante do Vale da Vilariça, bem no centro da aldeia da Junqueira, concelho de Torre de Moncorvo, encontramos o restaurante “cruzeiro”, nome que se praz com a edificação de um cruzeiro mesmo em frente ao estabelecimento. O espaço é acolhedor com capacidade para acolher cerca de cem pessoas sentadas, contando ainda com o amplo espaço do bar.

Por estas bandas, e como não poderia deixar de ser devido à pastorícia intensiva de várias raças animal, encontramos pratos de cordeiro, cabrito e a suculenta picanha, entre outros pratos que fazem parte da gastronomia do Vale da Vilariça e da região de Trás-os-Montes.

No restaurante “cruzeiro” fomos brindados com uma salada de tomate como entrada, produzidos e colhidos nestas terras, temperados com algum sal e um fio de azeite; produto este também de excelência produzido neste vale e nas encostas do concelho de Torre de Moncorvo. Algum tempo, não muito, chegaram umas tenras costeletas de cabrito, que foram “depenas” em poucos minutos. À espreita já estava a simpática e veterana empregada de mesa, para assim que acabássemos de degustar as costelas de cabrito fossemos novamente brindados com umas, também, deliciosas tiras de picanha, acompanhadas por batata e arroz. Um manjar para pessoas que não tenham o tempo limitado. Depois de saciados, quanto às delícias saídas da cozinha, chegou a vez de escolhermos a sobremesa: optamos por bolo de amêndoa e tarte do mesmo fruto. Mais um produto produzido e colhido por todo o concelho de Torre de Moncorvo; sendo mesmo uma mais-valia da terra e único local onde existem amêndoas cobertas com açúcar de forma artesanal. Devemos acrescentar que são muitos os operários que por ali laboram a terra nas várias actividades agrícolas e procuram o restaurante “cruzeiro” para fazer a sua refeição.


Quanto ao vinho, como muito acontece na região do Douro, a escolha esteve a cargo do proprietário do restaurante “cruzeiro” que nos presenteou com um néctar da sua colheita, ali mesmo nas terras de aluvião do Vale de Vilariça.

Os preços das refeições no restaurante “cruzeiro” varia em conformidade com a ementa e a oferta variada que vem da cozinha. O prato do dia ficasse pelos €6, enquanto uma ementa como a que nos foi servida poderá rondar os €15 por pessoa.


VAMOS FALAR DE «CONFIDENCIALIDADE MÉDICA» E DAS SUAS IMPLICAÇÕES

ANTONIETA DIAS
Vivemos numa época em permanente transformação onde cada dia é iluminado pelos avanços nas tecnologias que se identificam com a saúde, com a condição biológica e mental dos seres humanos. 

Porém, o avanço tecnológico não pode ser separado da Ética e do Direito e a investigação científica não pode ser separada da lei nem da ética.

Sendo que, em qualquer área o conhecimento disponível só pode ser utilizado se respeitar os princípios fundamentais do Direito.

Importa, ainda referir que a proteção dos dados pessoais é um direito intrínseco e fundamental da pessoa e das ciências biológicas.

O direito fundamental de sigilo e proteção dos dados pessoais do paciente, dados estes adquiridos através da entrevista clínica no decurso de uma catividade profissional privilegiada (consulta), cuja informação obtida resulta do grau de confiança que o doente deposita no médico, tem obrigatoriamente de ser respeitado.

Para o efeito existem vários documentos publicados, destinados a fundamentar a sua preservação, dos quais salientamos o Código Deontológico da Ordem dos Médicos (2008), que é constituído por um conjunto de normas de comportamento, recomendado para a prática médica e serve de orientação nas várias questões estabelecidas em todos os atos médicos relacionados com o exercício da atividade profissional.

Este Código contém dois tipos de normas, que traduzem os princípios éticos fundamentais, conceitos estes imutáveis, e que estão excluídos de quaisquer conceitos ideológicos ou políticos.

Como exemplos destas normas, fazem parte o respeito pela vida humana e pela sua dignidade, o dever do segredo médico, o dever de solidariedade e respeito entre os profissionais, a proteção dos diminuídos e dos mais fracos e o dever de não descriminação.

Neste mesmo Código Deontológico, são ainda referidas as normas, que derivam dos usos e costumes.

“O que, no exercício ou fora do exercício e no comércio da vida, eu vir ou ouvir, o que não seja necessário revelar, conservarei como segredo.” (Juramento de Hipócrates).

Na época atual o segredo profissional adquiriu uma fundamentação mais rigorosa, focalizada nas necessidades e direitos de cidadania como uma prioridade da intimidade passando a ser entendido como confidencialidade.

A confidencialidade define a propriedade da informação, que não pode ser disponibilizada ou divulgada a indivíduos, entidades ou processos, sem prévia autorização do titular da informação, uma vez que é a garantia da proteção dos dados que são fornecidas pessoalmente aos profissionais de saúde, com base na confiança e no sigilo médico abrangidos pelo princípio ético.

“O Médico deve respeitar o direito do paciente à confidencialidade. É ético revelar informação confidencial quando o paciente consinta ou quando haja uma ameaça real e iminente para o paciente ou para terceiros e essa ameaça possa ser afastada pela quebra da confidencialidade.”

Outro documento importante de sustentabilidade do dever de preservação de confidencialidade é o Código Internacional de Ética Médica, em que a 1.ª parte se refere ao dever do sigilo médico, ao segredo e confiança.

Fazendo uma revisão histórica, verificamos que o segredo médico já vem do tempo de Hipócrates.

Cerca de 2500 anos depois de Hipócrates, a obrigação do médico de guardar segredo mantém toda a atualidade e assume-se como uma necessidade, cada vez mais importante.

Após a segunda guerra mundial, o segredo médico ficou consolidado, pela defesa dos direitos humanos, tendo como suportes de apoio:

1. Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 10 de Dezembro 1948.

Artigo 12.º: “Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação. Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem direito a proteção da lei.” 

2. Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos

Artigo 17.º: “Ninguém será objeto de ingerências arbitrárias ou ilegais na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem de ataques ilegais na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem de ataques à sua honra e reputação.”

Se o médico não respeitar estes princípios éticos, incorre no crime de violação do segredo médico, porque não cumpre o dever a que a sua profissão o obriga e desvirtua o direito do doente, lesando-o e destruído o mais elevado grau da segurança dos registos clínicos que fazem parte do segredo profissional dos médicos e que são a garantia da manutenção da informação privada do doente.

Como escreveu L. Pontes: “não existe medicina sem confiança, tal como não existe confiança sem confidências, nem confidências sem segredo.”

No âmbito da segurança informática para a proteção dos dados do utente é imprescindível que as regras de confidencialidade sejam respeitadas entre todos os intervenientes, sendo que a proteção dos dados e informações partilhadas entre o emissor e os restantes destinatários intervenientes no processo, exigem a garantia do sigilo de comunicação entre todos.

No domínio da segurança informática a confidencialidade é entendida como a troca de informações trocadas entre um emissor e um ou mais destinatários contra terceiros.

Porém, independentemente da segurança do sistema informático utilizado para o registo da comunicação, a proteção dos dados deve ser preservada por todos, seja qual for a proteção do sistema utilizado, de forma a garantir o sigilo da comunicação que é transmitida ao profissional de saúde. 

A confidencialidade encontra-se intimamente relacionada com o conceito de privacidade de âmbito restrito resultante da comunicação privilegiada (priviledged communication), entre o doente e o médico.

“Confidencialidade foi definida pela Organização Internacional de Normalização Organização Internacional de Normalização (ISO) na norma ISO-17799 como "garantir que a informação seja acessível apenas àqueles autorizados a ter acesso" e é uma pedra angular da segurança da informação. 

É obrigação do médico guardar segredo de todas as informações privadas que lhe são reveladas no decorrer da sua atividade profissional, funcionando como um direito e um dever na preservação dos interesses do doente. 

Em termos bioéticos toda e qualquer informação obtida através das palavras ou do exame físico é confidencial, só podendo ser revelada se o doente o permitir, constituindo assim o pressuposto de confiança que o doente tem no médico que o trata, subentendendo-se a existência de fidelidade do profissional que obtém a informação.

O conceito de privacidade é entendido como o controlo que a pessoa exerce sobre o acesso de outros a si próprio, sobre a preservação da sua intimidade, no decurso da prestação de cuidados assistenciais.

O doente tem o direito à preservação da sua privacidade, ao respeito pelo direito à intimidade, em todos os atos que se relacionem com o diagnóstico e tratamento clínico. 

Todo o profissional que se envolve na cadeia de atendimento clínico é obrigado a manter o sigilo pelos seus códigos deontológicos, de forma a impedir a existência de manipulação dos dados. 

O sigilo sempre foi considerado como uma característica moral obrigatória da profissão médica.

Assim, a privacidade constitui uma dimensão da liberdade de cada um, sendo vetada a intrusão por questões de carácter pessoal por parte de governos, indivíduos ou corporações a não ser que tenham sido previamente autorizadas por quem as revelou.

O doente tem o direito a ser respeitado, por toda e qualquer informação que revele ao seu médico, independentemente ou não se serem situações embaraçosas, quer sejam reveladas de forma informal ou não. 

Entre o médico e o doente existe uma relação especial e uma comunicação de dados pessoais, pensamentos ou sentimentos, que podem estar ou não relacionados com a patologia em si, os quais serão arquivadas no processo clínico do doente, cujo acesso fica reservado apenas e só fica disponível para ser consultado pelos profissionais de saúde envolvidos na intervenção do caso clínico.

A confidencialidade é uma competência de todos os profissionais e das instituições de saúde, em que a segurança da informação é a base do direito individual à intimidade e a única garantia que permite ao doente revelar dados da sua vida pessoal, porque sabe que em circunstância nenhuma serão transmitidos sem o seu prévio consentimento.

Em suma, o segredo médico é um dos direitos fundamentais dos doentes. A informação contida no seu processo clínico não pode ser divulgada sem o seu prévio consentimento devidamente esclarecido e assinado.

E por último, um alerta importante para os médicos: codificar a doença é um ato médico, porém dar essa informação a terceiros, por exemplo às seguradoras, implica uma autorização documentada, com consentimento informado esclarecido e assinado pelo doente, sem a qual essa informação não poderá ser disponibilizada.