segunda-feira, 26 de setembro de 2016

43 ANOS DE GUINÉ BISSAU

JOANA BENZINHO
A Guiné- Bissau celebrou este sábado, dia 24 de Setembro, 43 anos de independência.

O colonialiamo, o jugo de uns povos pelos outros, foi um um capitulo menos feliz da história da humanidade que se verificou em todos os continentes sem excepção e que no século XX cessou finalmente em grande parte deles. 

A Guiné-Bissau é fruto deste movimento de descolonização e neste sábado, como seria de esperar, o dia de comemoração da independência foi cheio de festividades, principalmente na capital, Bissau.

Além das tradicionais cerimonias oficiais, desta vez (e mais uma vez) manchadas pela instabilidade política e marcadas pela ausência do Presidente da Assembleia Nacional e do Presidente do partido mais votado nas últimas eleições, houve festas e celebrações um pouco por toda a parte. O povo guineense é assim mesmo. Alegre, fanfarrão, um entusiasta das festas de rua. Este ano não foi excepção. Barraquinhas montadas com comes e bebes em algumas artérias da cidade, palcos com música com os decibéis no máximo até altas horas da madrugada, muitas famílias a passear na rua, e a conversar animadamente enquanto paravam aqui ali nas barraquinhas da rua de Angola ou se concentravam na Praça dos Heróis Nacionais.

Mas estas celebrações, esta alegria exteriorizada por que tem a música e a alegria no corpo e na alma, são apenas a capa de uma sociedade que continua a passar tempos difíceis, a deitar-se sem saber o que vai por no prato dos filhos no dia seguinte ou como juntar o dinheiro para comprar uma simples chapa de zinco que a proteja das fortes chuvas da época na sua casa onde chove quase como na rua.
Quando conversamos um pouco mais que o trivial, percebemos que a estrada não tem sido fácil para os filhos da Guiné-Bissau. 

Uma população fortemente jovem, com acesso a uma educação extremamente deficitária e a um sistema de saúde quase inexistente, teme naturalmente pelo seu futuro. E vive um misto de ansiedade e resignação que começa a tardar em tornar-se indignação. Porque eles sabem que não há futuro sem as componentes da saúde e da educação, pilares cruciais para a afirmação do seu País.

A festa fica assim amarga quando falamos do dia a dia, eufemísticamente marcada pela forte chuva que atingiu a cidade logo no momento em a musica começava a animar quem não teve lugar na parada oficial, mas apenas nos festejos populares de rua, e assim teve que recolher a casa.

A Guiné-Bissau tem um enorme potencial para ser um país de sucesso. Tem tudo para deixar dormir o seu povo em paz sem fazer conta aos bagos de arroz que sobram para a refeição do dia seguinte. Tem recursos naturais de excelência, tem uma geografia que lhe é favorável com fontes de água doce que chegam a destoar num continente onde a seca já mata e gera refugiados climáticos que afluem à Europa, tem jovens que auguram um futuro risonho ao país, tem um povo que nunca perde a esperança em ver o futuro mudar para melhor. Compete a cada um dos guineenses encarar este desafio de forma responsável e cumprir o futuro para que a Guiné-Bissau se orgulhe dos seus, e estes, do bonito país que os viu nascer. 

43 anos passados, a luta deve continuar mas desta feita para vencer as divisões, as desigualdades, a falta das condições mínimas de dignidade que a todos devem caber por direito inato e natural.
Feita que está a história da independência, faça-se agora uma história de sucesso do país. Parabéns Guiné-Bissau.

VERGÍLIO FERREIRA N’OS CAMINHOS DA INTERROGAÇÃO



«Mas porque custa tanto encontrar o caminho? Tantos se perdem (...) Caminhos ásperos, difíceis, os deste mundo. E a gente pisa-os tanta vez e não os reconhece nossos (...). Negra sorte a de andar à procura, eternamente à procura. E a vida afinal reduzia-se a isso apenas: procurar».
Vergílio Ferreira

ISABEL ROSETE
A interrogação tem, para Vergílio Ferreira, um sentido ontológico e não apenas lógico, tal como as perguntas para as quais encontramos sempre respostas nesses mesmos espaços prometaicos de que o autor sistematicamente se afasta. O caminho da interrogação é o caminho da própria vida, da vida deste homem de Melo e da nossa vida, sempre marcada pela procura constante. Perante as interrogações que o intrigam, e à medida que vai chegando ao fim, Vergílio Ferreira guarda o silêncio, conceito de mérito primeiro em toda a sua obra. A Natureza, por si mesma, encarrega-se de ir organizando esse espaço metafísico, bem como o modo de ser e de sentir do Eu que o incorpora para o harmonizar com a morte real, ininterruptamente presente em cada acto humano, que um dia virá – amanhã, depois - acompanhada pelas mais radicais interrogações, por entre as quais se entretece o jogo da temporalidade da existência, quiçá a hora do balanço final, onde se esgotaram todas as perguntas e, por conseguinte, todas as respostas.

Esta postura, assumida por Vergílio Ferreira, puramente conceptual e que o conduz a fazer uma distinção clara entre interrogação e pergunta, emerge, no seio da sua obra, como uma das teses centrais defendidas em “Invocação ao meu Corpo”. As diferenças entre estes dois termos são substanciais. Convém atentar, com precisão, em cada uma delas. Não se trata aqui de simples “nuances”, mas de questões de fundo que marcam a finura e a própria trajectória, a concepção de mundo, de vida e de homem perfilhada pelo autor. À semelhança de Heidegger, faz-nos entrever uma atitude que adopta, como traço marcante, a indagação permanente, a interrogação não apenas como forma de estar, mas, sobretudo, como forma de ser de um Eu inextricavelmente irredutível. Senão vejamos: «Uma pergunta não interroga: uma pergunta diz a resposta. Porque uma pergunta está do lado do problema a resolver, do ainda simplesmente desconhecido; e a interrogação está do lado do insondável. A pergunta desenvolve-se na clara horizontalidade; a interrogação na obscura verticalidade. Como em jogo de cabra-cega, em que há seres à nossa volta, a pergunta orienta-se entre os que lhe não pertencem até achar o que procura. Mas a interrogação não encontra, porque nada há para achar. O limite da sua esperança está menos no triunfo de um encontro, do que no cansaço, na resignação, ou na evidência natural do que nos coube, como nos é evidente ter cinco sentidos e não mais»[1].

A história do pensamento ocidental legou-nos a tradição, cada vez mais comum, da «pergunta-e-resposta» como um mero passatempo, como um simples jogo que brota e está presente na nossa linguagem de todos os dias. E, assim, vamos jogando esse jogo, sem que nos apercebamos da sua existência, em cada acto de pensamento ou em cada acto de fala. Até mesmo o interrogar depressa degenerou em pergunta. O interrogar, qual modo inaugural de questionar o mundo, tivializou-se no jogo de «pergunta-e-resposta» quotidiano, perdendo, deste modo, o seu enraizamento ontológico primordial.

O espanto original quebrou-se. O mundo tornou-se deveras evidente para comportar essa interrogação autêntica: aquela que quer captar o sentido último das coisas no seu brotar primordial; aquela que procura o verdadeiro significado daquilo que é em si mesmo, porém algures perdido na trivialidade das aparências e na falsa evidência das sombras que nos percorrem. Ao espanto original de umolhar virgem e indefeso, pré‑conceptual, não moldado pelos traços artificiosamente construídos pela “civilização”, pela “cultura”, que só vê e faz ver o quer que seja visto, o que nos respondeu não foi, ainda, a suspensão atónita. O que respondeu foi a resposta. Assim sofismado o primeiro porquê, organizou-se uma cadeia ininterrupta de porquê(s) sob a base de uma certa confiança, fácil, ilusoriamente evidente e esquecida como um sono. Não se perturba mais a certeza ou a suspeita da emergência de uma resposta provisória, porque uma resposta é, em si mesma, definitiva. O que está em causa, neste ponto, é a inteligibilidade da vida. Sabemos que o reino do homem é o reino do humano, que a expressão do seu poder não é propriamente o domínio da Terra, dos mares ou dos astros, mas o domínio das sombras.

A interrogação alarmou-nos e, deste modo, culminou em pergunta. Fecharam-se todas as portas e todas as janelas: não podemos mais permanecer no reino das mónadas leibnizianas, mas unicamente no espaço limitado que enquadra a nossa dúvida no extremo rigor de uma construção. Aí encerrados, jamais alguma interrogação nos solicita do espaço livre: «Pesados muros do nosso repouso, aí se dorme tranquilo, e a pergunta que se formula é a resposta que a dá, que a condiciona no traçado dos muros onde ela embate, onde ela se estrutura e se molda»[2].

Vergílio Ferreira instaura, neste contexto, a dialéctica claridade/sombra, ou, se preferirmos, luz/sombra, nos mesmos moldes em que Platão no-la apresenta, logo no início do Livro VII da sua “República”, aquando da exposição da famosa “Alegoria da Caverna”, também cara a Saramago, a qual corresponde, por sua vez, à dialéctica realidade/aparência, modelo/cópia, inteligível/sensível. Todavia, caminhando para além de Platão, ao “reino das sombras” ou “Mundo Sensível”, Vergílio Ferreira acrescenta o espaço específico do Mistério, de cuja voz demoníaca o homem se alimenta e vivifica.

Mas há, também, o miraculoso e o estranho, o espanto e a inquietação. Há, em qualquer dos casos, uma outra realidade para além da realidade, um outro homem para além do homem, um outro mundo para além do mundo… E, quando o nosso sono se quebrar, o nosso mundo ressurge, esse mundo das superfícies distintas e, claro, das formas perecíveis. O “reino das sombras” continua a fascinar-nos, exactamente do mesmo modo que seduzia os prisioneiros algemados, de pernas e pescoços, dentro da “Caverna” platónica. Talvez ainda não nos tenhamos libertado dela e, por isso, a voz do Mistério continua a atrair-nos com a mesma intensidade, apesar da sua natureza demoníaca. Além disso, se a claridade encanta, também decepciona, ofusca, confunde, porque o que nos é revelado, quando é revelado, apresenta-se, a um tempo, como vitória e como derrota.

Se a nossa ânsia de revelação se nos apresenta eternamente infinita, se o nosso desejo de aceder à suprema epifania é indeterminável, não deixamos, porém, de manter o obscuro desejo de que o Mistério aí habite e permaneça. O que nele nos atrai é absolutamente invencível: é o desejo contraditório de aniquilar o desconhecido e, ao mesmo tempo, de conservar o miraculoso; é o contraditório desejo de subordinar o estranho à claridade inteligível e, concomitantemente, de manter nele ainda a voz do insondável. Caminhamos sempre, mesmo que algum freio nos retraía, para o ex‑traordinário, para o im-possível, para o e-norme, a limite, para o mais inquietante.

Para Vergílio Ferreira, o Mistério é uma forma de mensagem que se traduz tanto «na evidência desinteressada, como no desventrado logro do prestidigitador. Assim reconhecemos que há uma voz atrás da voz, uma força além da evidência, uma realidade atrás da realidade, uma interrogação além da pergunta. Assim reconhecemos que um vasto mundo de sombra nos engloba, o da claridade, e que esse nos fascina»[3]. Sentimos o eco de uma pergunta que nunca chega a perguntar, mas também o eco da interrogação que não é senão imóvel espanto. Deste espanto brota a notícia na inquietação de tudo o que nos inquieta, a notícia na sedução do enigma e, igualmente, o Mistério que é, tão-só, a grande incógnita do desconhecimento.

A interrogação é o limite de todas as perguntas que possamos colocar, tal como o mar, infinito, é o limite de todos os rios que possamos imaginar. Lancemo-nos na profunda interrogação, a única que verdadeiramente interessa; na interrogação que ultrapassa todos os limites, todas as fronteiras; na interrogação que fala ao que não tem fim e à morte: «Como a luz vibrada ao espaço aí se perde em vazio, no vazio se nos esgota o interrogar. Não assim na resposta destes muros que me cercam onde embata a chama breve da pergunta acidental.»[4].



[1] Vergílio Ferreira, “Invocação ao Meu Corpo”, pp. 20 – 21.
[2] Idem, Ibidem, p. 22.
[3] Idem, Ibidem p. 23.
[4] Idem, Ibidem, p. 24.

domingo, 25 de setembro de 2016

QUAL L’AMPORTÁNÇA DE LA LHÉNGUA MIRANDESA PARA PERTUAL?

CARLOS FERREIRA 
Ua democracie madura i spessa cumo la nuossa, tamien ten que ser democracie lhenguística, promobendo i praticando assi un de ls sous percípios mais fundamentales: l respeito pula diferença. Para cuncretizar esse percípio, las leis son amportantes, mas solo cun eilhas, nun s’atíngen ls perpósitos q’ancérran! Por esso, tambiem nun chega ua lei que proclame l mirandés cumo lhéngua oufecial, eisige-se de l Stado, a níble ouropeu, nacional i lhocal, que cuncretize ls cumpromissos q’assumiu na lei, ne ls sous mais bariados domínios.

Por to l mundo, specialmente n’Ouropa, fai cada beç mais sentido la defénsia de las chamadas lhénguas minoritairas, tornando-se esta lhuita nua eibidéncia para un númaro de pessonas cada beç más amportante, sobretodo porque stan mais anformadas i alertadas pa l’amportança de la diversidade an giral. Tamien al ser criada an 1997 pula UNESCO la figura de Patrimónho Cultural Eimaterial de l’Houmanidade, las pessonas i las anstituiçones ampeçórun a balorizar muito mais l amparatibo que se tornou de preserbar essa parte de l patrimónho de l’houmanidade. Dende que la defénsia i promoçon de la lhéngua mirandesa deba ser bisto cumo ua eisegéncia de cidadanie de la mais alta amportánça, i que nun ten solo ua dimenson lhocal, mas tamien nacional i anternacional.

La dibersidade lhenguística i cultural ye ua riqueza para Pertual, q’antegra de pleno dreito la nuossa eidentidade anquanto naçon, por esso debe ser aceite la berdade stórica i sociológica, durante muito tiempo negada i refutada, apersentando-se Pertual cumo paíç bilhingue, antegrando essa referénça ne ls porgramas de las nuossas scuolas, dando a coincer a to ls cidadanos l’eisiténça de la lhéngua mirandesa, la sue ourige i las sues caratelísticas.

Muito par’alhá de la dinidade de ls sous falantes, ye atrabeç dua lhéngua que se sprime la cultura, las tradiçones, ls saberes, i to ls modos de bida que fúrun fundamentales pa l anquelíbrio dua determinada sociadade. I apuis l mirandés pouco pan come, i se la lhéngua mirandesa zaparecir naide ganha nada cun esso, pul cuntrairo, Pertual, ls pertueses i de maneira mais cercana ls mirandeses, todos quedaran muito mais probes, bisto que pa la region de Miranda, la lhéngua i la cultura mirandesa, assúmen-se cumo amportante recurso eiconómico, que ten un grande balor eiquenómico i financeiro associado, q’inda mais amporta tener an cuonta, ne l cuntesto dua region depremida eiquenomicamente i an acelarado processo de zprobamiento.

Por faláren outra lhéngua, ls mirandeses nun son menos pertueses que ls outros, i al lhargo de mais d’uitocientos anhos de stória yá mostrórun que nun quieren ser outra cousa a nun ser Pertueses. Por esso ye mui buono i amportante que ls mirandeses cuntínen a tener dues lhénguas, percebendo que afirmando i çfendendo l mirandés nun stan an nada a negar que son pertueses por anteiro: çfender, promober i zambulber la lhéngua mirandesa ye un deber de cidadanie que s’ampon a to ls pertueses, percipalmente i an purmeiro lhugar, a to ls mirandeses.

AS ILHAS SELVAGENS SÃO PORTUGUESAS

MOREIRA DA SILVA
Recentemente, notícias vindas a público afirmam que a Espanha volta a criar uma guerra surda, sobre as Ilhas Selvagens, que pertencem por direito internacional a Portugal, desde 1971, com os espanhóis a fazerem tudo que está ao seu alcance para que a ONU as considere espanholas, mas esquece-se de nos devolver Olivença que é portuguesa. As ilhas foram compradas pelo Estado Português a uma família portuguesa, e já foram reconhecidas pela ONU, como pertencentes a Portugal.

Em 1560, as Ilhas Selvagens foram doadas a uma importante família madeirense, a família Caiado, que ainda hoje possui lá uma casa de habitação. Este conflito entre Portugal e Espanha já se tinha verificado em 1911, quando o governo espanhol enviou uma nota ao governo português a comunicar que decidira incorporar as Ilhas Selvagens no arquipélago das Canárias e que ia montar nas ilhas um farol. Seguiu-se de imediato um protesto do Estado Português e foi acordado não praticar quaisquer atos que pudessem comprometer uma solução amigável.

Com uma área aproximada de quatro quilómetros quadrados, as Ilhas Selvagens são formadas por três ilhas: Selvagem Grande, Selvagem Pequena e Ilhéu de Fora. Sem água potável nem recursos naturais, as ilhas são consideradas um polo de biodiversidade marinha e terrestre, integrando os Sítios de Importância Comunitária da Rede Natura 2000. Além do interesse científico – duas das ilhas são consideradas santuários. A importância geoestratégica deste arquipélago perdido no Atlântico aumentou quando se colocou a questão da extensão da plataforma continental.

A Comissão Permanente de Direito Marítimo Internacional concedeu em 1938, e confirmou em 1958, a soberania portuguesa das ilhas. Em 1971, o Estado Português adquiriu-as instituindo, nesse mesmo ano, através do Decreto-lei n.º 458/71, de 29 de outubro, a Reserva Natural das Ilhas Selvagens, o que lhe permitiu impedir a caça excessiva nas ilhas, que quase tinha levado ao desaparecimento da cigarra, e controlar a pesca ilegal. A Espanha nunca reconheceu a soberania de Portugal sobre as Selvagens.

Os espanhóis têm feito diversas tentativas para as ocupar, quer através de pescadores, que em 1975 (aproveitando a turbulência política em Portugal) hastearam na Selvagem Grande uma bandeira espanhola, quer através de vários voos de aviões da Força Área Espanhola a baixa altitude, na década de 1990, tendo inclusive um helicóptero Puma AS-330 simulado uma aterragem, em 1996. No ano seguinte continuaram os voos a baixa altitude de aviões militares espanhóis. Em 2014, as autoridades espanholas apresentaram à ONU - Organização das Nações Unidas uma proposta, para acrescentar cerca de 300 mil km2 ao seu território marítimo, incluindo nessa área as Ilhas Selvagens.

A Espanha está preocupada com uma estação meteorológica instalada pelo IPMA – Instituto Português do Mar e da Atmosfera, nas Ilhas Selvagens temendo que, com esta construção possa afetar o controlo efetivo das suas águas territoriais e afetar o interesse dos pescadores das Ilhas Canárias, pois compete à armada portuguesa controlar todas as atividades relacionadas com o transporte e a pesca.

O centro da polémica, sobre as Ilhas Selvagens tem a ver com a Espanha considerar as ilhas um rochedo, para poder integrá-las no Arquipélago das Canárias. Esta visão espanhola é rejeitada pelo Estado Português, cujo principal argumento é que as Ilhas Selvagens são uma Reserva Natural desde 1971, e são habitadas, permanentemente, por dois vigilantes da natureza, que são rendidos a cada 15 dias. Está previsto que esta população residente, mais que duplique no final deste mês de setembro de 2016, com a colocação, em permanência, de dois agentes da Polícia Marítima e um elemento da Capitania do Funchal.

As Ilhas Selvagens são o extremo mais a sul do território português e, obviamente é a Zona Económica Exclusiva (ZEE) que mais interessa à Região Autónoma da Madeira e a Portugal pelo interesse geoestratégico na Europa e no Mundo. Vários Presidentes da República Portuguesa efetuaram visitas às Ilhas Selvagens, que são portuguesas. Quer os espanhóis queiram, quer não queiram! Quer gostem, quer não gostem!

COISAS PEQUENAS

GABRIEL VILAS BOAS
Em 1997, Teresa Salgueiro cantava “Coisas Pequenas”, que procurava explicar que o Amor está nas coisas pequenas e são elas que fazem um grande amor. Antes, já Miguel Torga escrevera que “a vida é feita de pequenos nadas” e, na verdade, o decorrer da vida ensina-nos a valorizar as pequenas coisas de todos os dias.

Acho que descobrimos isso quando verificamos quanto estamos presos a um afeto, a um lugar, a um trabalho. Ou então, quanto nos irrita aquela desarrumação na casa de banho, a bicicleta eternamente fora de sítio, os sapatos espalhados pela casa ou o constante atraso com que nos obrigam a chegar atrasados aos compromissos sociais.

As coisas pequenas podem ter um papel devastador nas nossas vidas, porque passam bem por insignificantes e fazem-se de sonsas até se tornarem um vício poderoso que nos derrota lenta… totalmente.

Haverá sempre quem diga que as coisas pequenas têm também um lado B, que aproxima pessoas e resolve grandes problemas. Trata-se, no entanto, de uma verdade mais imperfeita, visto que poucos são aqueles que apenas convidam as coisas pequenas para os momentos mais emblemáticos da sua vida.

Felizmente o tempo e a vida fazem justiça às coisas pequenas de vida de cada um. Revelam a força dum abraço, o sabor duma presença, o amor colocado num doce que se trouxe para casa.

Depois de termos dado a volta ao mundo das coisas importantes, que nos conduziram somente à fama e ao poder, a rádio tocará sempre aquela insignificante canção que nos recordará todas as coisas pequenas que deixamos partir sem nunca lhes dizermos que eram grandes, imprescindíveis e únicas… para nós!

As coisas são grandes e pequenas, mas quem define esse valor é o nosso coração. Infelizmente, chegamos tarde a essa conclusão.


FEITAS DE SORRISOS

MIGUEL GOMES
Abro a porta do passageiro e iço-te, demoras a largar-te do meu pescoço, tens medo, compreendo. Sento-te no banco e o pó levanta-se, começas a tentar apanhá-lo com essas mãos pequenas e ris-te porque ele foge. Desistes pouco depois, não sei se pelo tempo em que estou simplesmente a ver-te, se por perceberes que vive-se melhor a apreciar a liberdade do pó, do que a tentar aprisioná-lo na nossa mão.

O Sol da manhã, na sua diagonalidade existencial, traça pequenos véus de luz onde, deste lado, faz parecer que até o pequeno movimento de sombra que se desprende de ti reluz. 

Passo o cinto de segurança por ti, não sem um pequeno esforço para te fazer compreender que não é hora da papa, mas sim de viajar. O clique indica que a cegueira da minha mão encontrou o negro invólucro com as letras “PRESS” gravadas no botão vermelho. Fecho a porta com algum cuidado, se saíres a mim não gostas dos estampidos breves e altos das coisas (e pessoas) que se embatem. Embacio o vidro pela parte de fora e começo a desenhar pequenos círculos com o dedo, até que pelo aumentar do raio e o duplicar do diâmetro consegues ver-me a sorrir do outro lado e sorris também, com essa mão gordita a tocar o vidro, não pelo sorriso, mas porque és criança e as crianças sorriem porque é do que elas são feitas.

Rodeio a carrinha pela frente sempre a olhar-te, pensei que terias medo, não sei, talvez pensar que estaria a ir-me embora, mas continuas fascinado com o pó a salpicar o ar e o embaciado do vidro e, talvez, penso rindo-me sozinho, pela sujidade a que, normalmente, veto tudo o que é veículo. 

Abro a porta, iço-me, sento-me com algum cuidado para que a vertebralidade não acorde e mais pó se levante. Bato a porta e o estampido faz-te olhar para mim, refeito da absortidade, sorris e imitas o meu gesto de colocar o cinto de segurança. Descobres o botão vermelho, não lês o “PRESS”, não sabes ler mais do que os sentidos, mas com o dedito tentas carregar. Perdes uns largos segundos a olhar o vermelho, a tentar carregar, mas despertas para outros sentidos quando ligo a carrinha, depois do laranja da luz da resistência se apagar, e todo o cangalho se abana, como que acordado sobressaltado de um pesado sono de sonhos metálicos e de fluidos petrolíferos e lubrificadores. Olho e estás já a ensaiar o vrum vrum. 

“Onde vamos?”, pergunto, mas tu não percebes ou porque percebes não respondes. 

“A tua mãe faz anos amanhã e eu não sei o que dar-lhe”, mas não me parece ser tua preocupação. Estendes-me os braços e, porque te habituei, desprendo o teu cinto de segurança e sento-te ao meu colo, prometendo que será a última vez que o faço. Agarras o volante e olhas para mim, talvez por perceberes que ainda sou eu quem comanda o veículo ou porque quando o fazes eu invariavelmente esboço uma careta, engato a primeira velocidade, baixo o travão de mão, desembraio e carrego um pouco no acelerador ao mesmo tempo que faço um pequeno rugido com o fundo da garganta, o mesmo que aprendeste a fazer com os lábios a tremerem num vrum, vrum que indica movimento. 

Começamos a andar e ris-te, ou melhor, dás umas pequenas risadas, o piso faz vibrar o volante, saltitas de emoção, olhas para o caminho e para mim, encostando a cabeça ao meu peito. Chego ao fim do caminho, travo, embraio, engreno a marcha-atrás, desembraio, levanto o pé do travão e vamos indo às arrecuas, com cuidado. O Sol bate no espelho e vai ter com o teu olhar, levantas a mão e instintivamente tapas a cara. De volta ao início do caminho, uma viagem com trajectória, movimento, mas sem deslocação, quase como se estivéssemos ambos a um degrau de sermos centelha novamente, como se os milénios que passaram fossem o que são aos olhos da eternidade, uma infinita intemporalidade que se exponencia a cada divisão. 

Desligo a carrinha, algures ficou um parágrafo por colocar, alguma pontuação errada, uma ambição não ambicionada e o pó, que foi e veio e também ele não saiu do lugar.

O Sol escalou uns graus no firmamento, na leveza astral de ser-se hidrogénio, alguém bate ao vidro, estremeço e abro os olhos. Sorrio e aceno, “Vou já sair”. 

Penso “ainda bem que não te viram”. 

Saio descendo o degrau com cuidado e contigo ao colo, demoras a desprender-te do volante. Fecho a porta da carrinha, dás-me uma espécie de abraço, coloco-te no chão e nos passos inseguros da fisicalidade etérea vais caminhando até te agarrares ao fio de arco-íris que se forma pela rarefação da luz na água das minhas órbitas. Viras-te e atiras-me um beijo com a mão toscamente aberta e encostada aos lábios, para depois desapareceres para um outro episódio.

Começo a pensar nas palavras, que as venderia, do quanto poderia empregar nos tempos verbais para fazer do menos mais, mas a chuva diz-me que se mas dá não será para as vender, “Dá-as também” choves dizendo e eu, que nem era para escrever isto, mas é Outono sabes, neste tempo onde tudo começa a tonalizar e a cair dos ramos eu, novamente, tronco, deixo-me escorregar languidamente pelo dia sem me aperceber que as minhas estações tardam a caminhar, apenas porque não sei falar.

sábado, 24 de setembro de 2016

O PASSAPORTE BIOLÓGICO

JORGE NUNO
Há muito poucos anos, a Agência Mundial Antidopagem (AMA) viu necessidade de criar o passaporte biológico, como estratégia, para lutar contra a dopagem no âmbito desportivo e concretizou esta ideia inovadora. Trata-se de um documento electrónico individual, no qual “são registados todos os resultados dos controlos antidoping que forem efetuados” ao atleta, o que faz com que contenha vários indicadores importantes e permite traçar o perfil hematológico e o perfil dos esteróides, entre outros.

Começou com um projeto-piloto desenvolvido pela União Ciclista Internacional (UCI) já que esta modalidade é uma das que mais requer esforço físico, por parte dos atletas e deve estar mais sujeita a controlo. Se repararmos bem, é praticada a horas pouco recomendáveis, na maior parte das vezes com calor excessivo, em distâncias longas, durante muitas horas por dia e muitos dias seguidos; daí ser expectável a ocorrência frequente de casos de doping, como se veio a confirmar. Nele, viram-se envolvidas algumas figuras de proa do ciclismo mundial – de que é exemplo Lance Armstrong, considerado [por muitos] o maior ciclista de todos os tempos, que acabaria por ser banido do ciclismo, passando de herói a vilão –.

Rapidamente passou do ciclismo para outras modalidades, em variadíssimos países. Em Portugal já haverá 363 atletas com passaporte biológico em meia dúzia de modalidades, como: canoagem, remo, natação, atletismo, triatlo e, claro, ciclismo. A Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP) já confirmou, recentemente, através do seu presidente – Rogério Jóia – que passará a haver o passaporte biológico no futebol nacional, tendo referido que “o número de controlos totais e também específicos para esta ferramenta no combate ao doping aumentaram”, o que terá contribuído para fazer subir significativamente, em 2015, o número de casos de positivos face a período homólogo. Segundo palavras de Rogério Jóia, a própria UEFA entendeu que havia necessidade de o estender ao futebol, pois “não seria ético o futebol não estar inserido no passaporte biológico, até pelo seu mediatismo e poder económico”. Deste modo, não é de estranhar o facto de, p.e., Sport Lisboa e Benfica, Sporting Clube de Portugal, Futebol Clube do Porto e Sporting Clube de Braga, já terem visto jogadores seus a ser alvo deste tipo de controlo para se dar início à introdução do referido passaporte. Também o modo de atuar foi alterado; agora aADoP faz as colheitas de urina e sangue nas competições, e não fora delas. No futebol profissional, está a acontecer com a regularidade de dois jogos por jornada na I Liga e de um jogo na II Liga.

Pode ser difícil de entender o afastamento dos atletas paralímpicos da Federação Russa (FR) aos jogos do Rio 2016, mas quando se tratou de factos comprovados, de forma superiormente organizada, não se podia esperar outra atitude do Comité Paralímpico Internacional (CPI). A FR ainda recorreu, mas o Tribunal Arbitral do Desporto (TAS) indeferiu-o e manteve a decisão de banir toda a comitiva russa.

Imaginemo-nos no lugar de um atleta paralímpico [com qualquer tipo de deficiência] e que treina afincadamente durante quatro anos para conseguir um lugar na comitiva presente nesta competição maior, sem ter cometido nenhum ilícito, e que se vê relegado para posições inferiores na competição, ao ter adversários que usam de meios ilegais, que lhes conferem mais resistência.

Ainda há homens com carácter, como no caso do Comité Paralímpico da Austrália, ao suspenderem preventivamente, por doping, um seu ciclista – bicampeão paralímpico de perseguição individual (para atletas amputados) – e que lhe poderia dar mais uma medalha.

Também o CPI está atento, e aperta o cerco, aos casos de boosting, estratégia que aumenta artificialmente o rendimento dos atletas, com o aumento da pressão arterial e chegada de mais oxigénio aos músculos. É algo difícil de detetar e, ainda mais, em se saber se a prática é intencional. Estranhamente, é usada pela via da autoflagelação e prática de tortura, e comum entre atletas em cadeiras de rodas, entre outros. As consequências desta prática são nefastas para a saúde dos atletas, dando origem a acidente vascular cerebral (AVC) e até à morte.

Há poucos dias chegou a delegação portuguesa, vinda dos Jogos Paralímpicos Rio 2916, evento em que foram vendidos dois milhões de bilhetes e teve vasta cobertura televisiva. Dos 37 atletas portugueses presentes, quatro trouxeram medalhas de bronze e 25 ganharam diplomas paralímpicos, ao ficarem entre os oito melhores do mundo, nas suas modalidades. São atletas que merecem ser acarinhados, e merecem que sejam criadas condições para terem um estatuto idêntico aos olímpicos, com treino como atletas de alta competição. Como todos os outros atletas, também deverão possuir passaporte biológico. Como é bom ver a sua felicidade e a dos sues familiares e amigos, quando chegam ao aeroporto, após o fechar das cortinas da competição! E como cada um se deve sentir bem, ao saborear o mérito dos seus resultados desportivos, fazendo apenas uso da sua coragem, do seu esforço, do seu querer, ajudado pelo empenho, saber e entrega dedicada do seu treinador!

Bem-haja todos aqueles que se entregam devotada e honestamente a algo, como neste caso, trabalhando para que haja verdade desportiva. Gostaria de acreditar que o crime não compensa.

FURNAS: O VALE ENCANTADO

CARLA LIMA
As Furnas ficam situadas num Vale, o Vale das Furnas, e é uma freguesia do Concelho da Povoação na Ilha de S. Miguel nos Açores. Tem 70 quilómetros quadrados e mil e quinhentos habitantes, aproximadamente.

Ir a S. Miguel e não visitar as Furnas é como ir à Feira do Marisco e ser-se alérgico. Ou seja, é uma estupidez.

Na minha opinião as Furnas são o sítio turístico mais completo da ilha e têm oferta para todo o tipo de procura, ou melhor, quase todo o tipo de procura, porque não fica ao pé do mar. Mas de resto tem tudo.

Posso começar pela lindíssima Lagoa das Furnas, o Vulcão das Furnas (um dos três vulcões centrais activos na Ilha de São Miguel). Nas imediações da Lagoa podemos encontrar a Capela da Nossa Senhora das Vitórias mandada erguer por José do Canto. Esta Capela é uma pequena maravilha artística, em estilo neo-gótico imitando as grandes catedrais europeias e é considerada como um dos mais ricos e originais templos do Arquipélago. Nela estão sepultados os corpos de José do Canto e da sua esposa.

CAPELA DE NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS

É na Lagoa das Furnas que encontramos as caldeiras naturais onde são feitos os famosos cozidos das Furnas, um dos pratos mais emblemáticos da ilha.

Os vários ingredientes (vaca, porco, galinha, chouriço, morcela, cenoura, batata, inhame, etc) são colocados numa panela de alumínio, em camadas alternadas. Com folhas de couve abafa-se tudo e tapa-se com a tampa que se ata às asas da panela. Introduz-se então numa saca de serapilheira, que por sua vez é amarrada a uma corda. A panela é enterrada num buraco no solo junto às caldeiras. Este buraco é tapado com uma tampa de madeira e depois com terra, deixando a corda de fora. Leva cerca de cinco horas a cozinhar pelo calor natural emanado da actividade vulcânica. Depois, é saborear o cozido das Furnas, de preferência no próprio local. O que torna a experiência muito mais enriquecedora.

Outra especialidade típica e exclusiva das Furnas é o bolo lêvedo. Há quem diga que é um pão e há quem diga que é um doce. Para mim é um pão doce cozido, normalmente, numa sertã de barro e que se pode comer sem nada ou acompanhar com queijo, fiambre, qualquer tipo de geleia ou doce.

Fala-se muita da “água quente” das Furnas. As águas das Furnas são conhecidas, principalmente, pelas suas propriedades termais. Os dois sítios principais onde se pode “tomar banho” em água quente são: as Poças da Dona Beija e a Piscina do Parque Terra Nostra.

As Poças da Dona Beija devem o seu nome a uma personagem de uma telenovela brasileira, a Dona Beija, que tomava banho numa ”cachoeira”. Neste local há várias nascentes férreas e quentes que chegam a atingir os 39ºC. Tem três piscinas com temperaturas diferentes, uma área para molhar os pés ou o corpo e uma ribeira com uma comporta removível que proporciona uma mistura de água quente e fria.O Parque Terra Nostra é um jardim com mais de 200 anos, considerado um dos Melhores Retiros Verdes do Mundo. Tem um tanque com água termal, que atinge cerca de 40ºC e devido à quantidade de ferro, a água do tanque é acastanhada. Para além do ferro, estas águas termais possuem cálcio, magnésio e outros minerais e oligoelementos essenciais à pele humana.

O tanque fazia parte da casa de férias de Thomas Hickling, cônsul americano responsável pela criação do parque.


No local ficam as instalações do Terra Nostra Garden Hotel.

Falando neste Hotel, é um dos maravilhosos sítios onde pode ficar quando visitar as Furnas. Também tem o Furnas Boutique Hotel, que é um novo Spa. Há vários alojamentos locais de grande qualidade. E, não menos importante, o Furnas Lake Villas, que são apartamentos de luxo no meio do verde.

Há tanto para dizer sobre as Furnas mas nunca mais acabaria esta crónica.

Há Golfe, há mais jardins, há mais lagoas, há mais igrejas, há a Casa dos Barcos, há casas fantasma, há trilhos pedestres, há passeios de gaivota na Lagoa, há fontes de “água azeda” a sair das paredes, há o famoso cheiro a enxofre que o Anthony Bourdain comparou com cheiro a “bufas” no seu programa televisivo “No Reservations” e até há uma casa ao contrário…

Ou seja, nas Furnas há de tudo para todas as idades e para todos os gostos.

As Furnas têm uma mística única que só quem as visita é que consegue sentir.


“Todo mundo gostaria de se mudar para um lugar mágico. Mas são poucos os que têm coragem de tentar.”
Rubem Alves