quinta-feira, 13 de março de 2014

A CEGUEIRA (PEQUENA REFLEXÃO)*


O pior cego é aquele que não quer ver.
Adágio Popular

ANABELA BORGES
DR
Já aqui tenho abordado temas semelhantes, como quando referi a ideia que nos foi apresentada por Saramago de que é preciso sair da ilha para VER a ilha.

“Com os olhos bem abertos, em que devemos nós concentrar-nos, com tantas distrações em volta? Tanta dispersão?”  
“Como o fado: a música sentida na dor imensa, na desilusão, no amor e na perda – não sonhes mais, porque vais sofrer de novo. A nostalgia, a dor das coisas passadas – a saudade: escrevi o teu nome no vento, convencida de que o esquecia, na folha do esquecimento. Pois é, mas o vento traz tudo de volta.”
“Sentes o vibrar da cidade através da mão encostada ao vidro da janela.
Não há dúvidas de que vês claridades várias, sombras várias, vultos vários, objetos vários. Mas parece que tens andado a ver tudo desfocado.” 
“Deixaste de perseguir o sonho da infância e agora reparas no tédio incessante e entorpecedor da vida que tens. Olhas à volta e reparas (porque agora começas a ver) na panóplia de lixo humano que te rodeia. Não podes ficar a assistir à vida como tens feito até aí.

O homem está desenvolvido em castas, separado por categorias, por assim dizer. Isso faz com que cada um seja um ser individual, específico, criado para um determinado fim: uns, para serem os olhos e os ouvidos; outros, para serem os músculos e os tendões; e outros ainda, os cérebros. Entre eles, há os pensadores e os predadores, e há os que apenas passam. E o mundo precisa de todos eles. O fim de nós pode ser o fim de tudo. Cada um de nós dá significação ao Universo.
As forças que moldam o nosso mundo são superiores a todos nós. Quando rebenta uma catástrofe, cada homem age de acordo com a sua natureza. Alguns ficam tolhidos pelo terror, alguns fogem, outros escondem-se, e alguns consertam as asas e procuram planar, com a ajuda do vento, acima da tempestade. 
O que fazes tu numa tempestade, perante a possibilidade de morrer? Voas ou enredas-te na tua própria teia?” 
“E ao reparares melhor nas pessoas, verás que são capazes de proceder a atos comuns, aos quais já não te lembravas de prestar atenção: de ler tabuletas, de elaborar expressões corporais e faciais – porque há toda uma linguagem corporal paralela à linguagem verbal –, de manter conversas inteiras com os olhares. Ao deparares-te com isto, os teus olhos quererão dominar a tua forma de ver o mundo, mas talvez não estejas em condições de confiar inteiramente neles, porque é difícil veres o mundo tal como ele é. É difícil, mesmo quando vês um simples ramalhete de flores, por mais belo e real que te pareça, porque estás a vê-lo com as tuas emoções, as tuas cores, o teu tato e os teus odores, de forma distorcida.
Todos vemos aquilo para onde olhamos, mas a nossa maneira de ver é afetada pelo que sabemos, pelo conhecimento que temos das coisas e das pessoas. Daí que muito do que vês à tua volta pareça não fazer sentido. Talvez que subitamente percebas que eras alguém sem visão, até aí. Eras cego e não sabias.”
“Há pessoas que nasceram para serem cegas, literalmente falando, e isso pode ser uma maldição, como pode ser uma bênção.
A maioria das pessoas vê só o que está à sua frente. Algumas apenas precisam de fé para acreditar e outras precisam de evidências. 
Nem toda a gente precisa de olhos para ver o que realmente importa. Com os olhos, podes ver os teus maiores receios, mas se os fechares é que consegues entender a verdadeira cegueira humana. Por vezes, ver de olhos fechados pode ser a salvação.”  
Mas talvez seja hora de abrir os olhos.

*Este texto contém citações de um texto da minha autoria, publicado na antologia de contos ATÉ SER PRIMAVERA, devidamente isoladas por aspas. 

sexta-feira, 7 de março de 2014

CUIDA DE MIM QUE EU NÃO CUIDAREI DE TI

O que custa mais na velhice? Objetivamente, é a doença ou a falta de saúde, como eufemisticamente
GABRIEL VILAS BOAS
DR
gostamos de dizer. Subjetivamente, é a tristeza. 

Dirão muitos que a segunda deriva da primeira. É só uma parte da verdade. A mais funda das tristezas que um velho pode enfrentar é perceber que ninguém quer tratar de si, que é um empecilho. Quando a tristeza lhe invade a alma já não lhe interessa nada que a doença o vença. E isso é uma tragédia. E toda a gente sabe que não há redenção nas tragédias. 

Li, há poucos dias, que as unidades de cuidados intensivos cobrem apenas cinquenta por cento das necessidades dos utentes. Infelizmente o número é bem maior se falarmos de afeto, carinho, atenção.  

Os últimos anos marcaram uma viragem enorme na relação das sociedades com os seus velhos. As pessoas duram mais, os afetos duram menos. Ficamos sozinhos muito tempo. Quando a doença nos apanha, reparamos que ninguém nos ampara e desabamos emocionalmente.

Os velhos são atirados para a arrecadação da vida à espera que as circunstâncias, a oportunidade e a coragem os atirem definitivamente borda fora da aventura da vida que termina de maneira angustiante. E eles assistem a isto tudo lúcidos. Conseguem imaginar o que sentem? Eu não consigo, porque a dor, a maldade, a ingratidão, a tristeza têm uma profundidade tal que nunca quis explorar. 
Mas não adianta nada fechar os olhos ou olhar para lado. Eles estão aí. Precisam de cuidados continuados. Daqueles que dão em lares, casas de saúde, Misericórdias… e daqueles que se dão com a presença, com o olhar, com as mãos e com os lábios. 

Embora não saibamos, nós (adultos, jovens, crianças) também precisámos de lhos dar. Não pela razão egoísta e interesseira de precavermos o nosso futuro. Necessitamos de os sentar na nossa sala e ouvirmos a sua voz lenta e arrastada para não perdemos a humanidade. 

A conversa do “não tenho tempo” ou “não tenho casa para isso” é em muitos casos uma treta conveniente, destinada a calar a consciência. 
Obviamente sei que a maioria de nós não tem as condições físicas e médicas para ter uma pessoa acamada em sua casa. Não nego que as exigências da vida moderna consomem quase todo o nosso tempo. Mas sei que é possível (até por experiência próxima) proporcionar aos velhos que estão num lar, num hospital, numa instituição, algumas horas de convívio semanal com família. Para eles faz toda a diferença. Eles esperam por essas horas com a ansiedade dum jovem que aguarda a namorada à porta do cinema. Precisamos de fazer tão pouco para os fazer felizes!

É verdade que muitas vezes nos parecem aborrecidos, que o seu entendimento já não é famoso, que são obstinados nas suas teimosias, que estão desfasados da realidade… Todavia, convém não esquecer que foram eles que escreveram os primeiros capítulos da nossa história, convém lembrar que foram eles que financiaram o argumento. O nosso filme só terá um fim feliz se tiver memória. Dizia Aristóteles que ela (a memória) é a escriba das almas. 

Eu acho que uma memória que perde o afeto já não é memória, é um computador.   

quinta-feira, 6 de março de 2014

DIA INTERNACIONAL DA MULHER (NEM É BEM UMA QUESTÃO DE IGUALDADE)

ANABELA BORGES
DR
Este ano, o tema das Nações Unidas para a comemoração do Dia Internacional da Mulher, que se celebra a 8 de Março, levanta-se sobre esta singeleza: “Igualdade para as mulheres é progresso para todos”. Pois é, sem dúvida. Mas dou comigo a pensar que isto não será bem uma questão de igualdade.

Dizem alguns que a celebração do Dia Internacional da Mulher tem como origem as manifestações de mulheres russas por melhores condições de vida e trabalho e contra a entrada da Rússia czarista na Primeira Guerra Mundial. Mas parece que a ideia de celebrar um dia da mulher já havia surgido nos primeiros anos do século XX, nos Estados Unidos e na Europa, no contexto das lutas de mulheres por melhores condições de vida e trabalho, bem como pelo direito de voto. 1975 foi designado pela ONU como o Ano Internacional da Mulher e, em dezembro de 1977, o Dia Internacional da Mulher foi adoptado pelas Nações Unidas, para lembrar as conquistas sociais, políticas e económicas das mulheres.

Ora, para mim, só faz sentido existir um Dia Internacional da Mulher se for para lembrar que o mundo está entregue a mãos e cérebros masculinos e o quanto muitas mulheres sofrem, diariamente, a toda a hora, a todo o instante, como se não se fossem seres com o direito de viver a vida com respeito e dignidade. Igualdade para muitas coisas, sim, concordo, tem de ser, é importante: no direito às condições de trabalho, a salários dignos, no apoio nos cuidados básicos de saúde, na maternidade, no direito ao voto, em inúmeras situações, certamente. Tudo muito bem. Mas é uma questão de respeito e dignidade. Estou certa de que as mulheres não buscarão, na totalidade, a IGUALDADE, com os homens. Mulheres e homens são diferentes na sua essência e a evolução das espécies ditará se assim deverão permanecer. EU NÃO QUERO SER IGUAL AOS HOMENS. EU QUERO É QUE AS MULHERES SEJAM RESPEITADAS E TENHAM UMA VIDA DIGNA EM TODO O MUNDO. Quero que cada uma tenha o direito de ser feliz, de lutar por uma vida melhor, uma vida onde caibam os seus sonhos e projetos. 

Atualmente, a celebração do Dia Internacional da Mulher tem vindo a perder o seu sentido original, adquirindo um carácter festivo e comercial. Ora, isso, para mim, não tem qualquer valor. Ponto final.

Tenho muito orgulho em ser mulher e muita sorte, apesar de tudo, por ter nascido no país onde nasci. 
Se quiserem fazer deste dia uma data mais feliz, em vez de dizerem “Feliz dia da Mulher”, pensem em como poderão contribuir para melhorar as condições de vida das mulheres que sofrem no mundo, por todo o género de discriminação.

Um abraço a todas as mulheres.

quarta-feira, 5 de março de 2014

CARNAVAIS TRANSMONTANOS: A SINGULARIDADE DE PODENCE E DE LAZARIM

ALINA SOUSA VAZ
DR
Começo por dizer que não percebo porque insistem em carnavais de imitação. Não percebo as horas de trabalho gastas em prol de cortejos onde o samba e os corpos seminus teimam, contra natureza, combater o frio arrepiante do nosso inverno rigoroso. As interrogações proliferam-me o espírito. Porque não pode sair um corso adaptado às nossas características culturais onde a alegria reine por entre os que desfilam e os que assistem? Porque não podemos ter carnaval folião sem estarmos condicionados pelo frio gélido dos aguaceiros típicos desta altura do ano?
A título de curiosidade, sabiam que o carnaval brasileiro, aquele que adoramos imitar, chegou ao Brasil através das festas de bailes que ocorriam em França e dos carnavais de Itália (Veneza e Roma), no século XVII? Estas festas foram sofrendo ao longo dos tempos alterações e adaptações tendo em conta o clima e folclores típicos do país, dando origem à atual excentricidade e conhecida pela luxúria.
Não pretendo criticar a dedicação dada às atividades de preparação, sou adepta de carnavais e de todos os corsos que proliferem a alegria nos espíritos das populações, porém imprima-se cunho próprio!
A juventude é original na hora do retrato da caracterização. Permitam-lhes agarrar tradições ancestrais e cunharem o carnaval de forma singular. Não somos só um povo triste marcado pelo fado e saudade. Somos, também, um povo divertido que muito pode ajudar os seus concelhos no desenvolvimento turístico.
Contudo, Carnaval singular é o das terras transmontanas. As festas dos mascarados no nordeste transmontano resistiram à passagem do tempo e são, hoje, uma marca de identidade cultural. Ícones relacionados com cultos antigos, ornamentos das personagens e ritos do mais profundo esoterismo remetem para uma presença da cultura pagã nos nossos dias.
Podence, freguesia do concelho de Macedo de Cavaleiros, celebra um dos carnavais mais conhecidos em Portugal pela sua autenticidade. Os protagonistas são os rapazes que, mascarando-se, transformam-se de caretos. Convém destacar nestas figuras a riqueza dos seus fatos: são confecionados com lã, cerca de 24 novelos, à medida de quem o veste, em teares tradicionais. As correrias constantes destas largas dezenas de caretos pelas ruas, durante o domingo e terça-feira de Carnaval, constituem o seu ritual específico. Usam um volumoso molho de chocalhos à cinta para com eles “chocalhar” as mulheres com uma certa violência. Os malignos mascarados lançam-se ao assalto das moças e, encostando-se a elas, exercitam uma dança um tanto erótica, abanando a cintura e fazendo embater os chocalhos que trazem pendurados contra as ancas das vítimas. Este gesto erótico representava a desejada fecundação das mulheres. As máscaras dos caretos de Podence são quase todas de latão, algumas de cabedal, o que permite aos jovens esconderem, na totalidade, as suas identificações. As suas formas desinibidas são, também, fruto do vinho que se vai bebendo, e os facanitos, os mais pequenos, assim que vestem um traje, bebem logo um copito. E as mães não se zangam, pois é o Carnaval de Podence.
Em Lazarim, uma aldeia do concelho de Lamego, também o entrudo tem vida. Ainda restam artesãos que por esta altura se dedicam à execução de máscaras de madeira lixadas e talhadas pelas navalhas e serrotes de vários tamanhos, tendo sempre ao lado uma enxó e a pedra de afiar. Trabalho moroso pelos seus pormenores, as figuras mais típicas do entrudo de Lazarim são o diabo e a senhorinha, mas os artesãos da aldeia também tiram da madeira de amieiro polícias, reis, máscaras com bichos e máscaras de bichos como o porco ou o canguru. A festa pelas ruas de Lazarim começa ao domingo, com gaiteiros, bombos e carros alegóricos. As máscaras, essas, só saem à rua nas terças-feiras de Carnaval pelas 14h30, 15h00, durando a folia até à noite, acabando com caldo de farinha e feijoada para todos. Pelo meio são lidos os testamentos no Largo do Padrão. A tradição aguça ainda a curiosidade dos que assistem, pois os rapazes descobrem os podres e os defeitos das raparigas no ano que passou e vice-versa. O que a pessoa for é dito. O mal que tiver vem à rua. Mas o povo não se zanga, aceita tudo, pois é dia de brincadeira.
Outras são as aldeias transmontanas que vivem destas singularidades promovendo todos os anos a chegada de turistas curiosos destas tradições, muitas delas com raízes nos povos celtas. A originalidade traz mais visitantes e os hotéis esgotam-se na região. De que se está à espera? Gastar dinheiro sim, mas não em imitações!


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

ENGOLIR SAPOS

Gabriel Vilas Boas
DR
Quem já não disse por uma vez: "Comigo isso não ficava assim!" ou "Eu jamais aceitaria tal situação!? Pois... quase todos!
E quase todos já tivemos que engolir muitas dessas certezas.
Com o passar do tempo fizemos por esquecer a determinação com que abordávamos as situações, as atitudes, as relações.
E por que desapareceu essa determinação implacável com que julgávamos tudo e todos, onde o mundo só tinha duas cores? Há dezenas de razões.
Cada um encontrou as suas.
No meu entendimento, cada um largou aquela pose irredutível quando percebeu o quanto gostava daqueles que o rodeavam e que também eles tinham aqueles defeitos que havíamos excomungado do nosso Paraíso.
Depois houve outro momento: quando fomos nós a meter o pé na poça. Aí o mundo ganhou outras cores além do branco e do preto e nós passámos a apreciar o cinzento. Teve de ser!
Quem não recorda, com um sorriso compreensivo, como julgava indecoroso invetivar alguém desconhecido com aqueles nomes feios e ordinários e que jamais pronunciaria? Para muitos o "jamais" perdeu-se num qualquer campo de futebol onde a frustração da derrota se confundiu com a injustiça e derrubou um dos bastiões sagrados.
Quem não achava ridícula e cega a atitude dos amigos a defender as atitudes inqualificáveis dos filhinhos e jurou que nunca se prestaria àquele papelinho? Para muitos, essa arrogância terminou quando os filhos entraram na escola, para outros foi ainda antes.
Quantos de nós não classificavam a falta de pontualidade como uma indesculpável falta de respeito? Não preciso de dizer que sobram poucos desse imenso grupo.
Não quero desmoralizar ninguém mas a ementa dos sapos ainda vai na entrada...
Os mais pesados começamos por digeri-los no trabalho, os mais indigestos nas relações pessoais.
Ficámos a conhecer o mundo do trabalho e facilmente lhe chamámos selva. E não precisámos de trabalhar em Wall Street. A conivência com os salários paralelos, a fuga aos impostos, a não partilha de informação entre colegas de trabalho... Haveria toda uma panóplia de exemplos bem mais escabrosos para citar, mas estes apanham uma imensa maioria que tem vindo a crescer. Sempre dissemos que isso não aconteceria connosco. Hoje encontramos mais silêncios comprometidos do que palavras quando abordamos o assunto.
Acho mesmo que a questão agora se coloca apenas no campo da legalidade. Recordo apenas que o início desta história nada tinha que ver com leis, mas com valores éticos.
Deixei para o fim os sapos que engolimos nas relações pessoais. Com os amigos e com a família. São os maiores. Alguns tornam-se impossíveis de engolir, mas muitos há que nos foram impostos de uma maneira brutal. Não deixamos de gostar de um amigo quando percebemos que ele fugiu ao fisco, não despedimos a nossa companheira de vários anos quando percebemos que afinal ela não gastava parte significativa do ordenado no médico, mas antes na boutique. Já nem refiro as esposas que tiveram de lidar com alguns deslizes dos maridos. "Eu era incapaz de desculpar uma traição!" Pois sim. Sempre acharam isso, até ao dia em que perdoaram. Não foi uma decisão fácil de tomar, mas tomaram-na. E viveram com as consequências disso. Com dúvidas, incertezas, claro, mas acharam que valia a pena.
As certezas absolutas nas relações, como em quase todo o resto, são tão perigosas como rasteiras. A maneira como gerimos os nossos afetos obriga-nos, muitas vezes a jogos de cintura tais que mais vale não enunciar tantas regras, para não termos de passar o tempo a incumpri-las. 
Aqui chegados, uma questão sobrevem: estamos condenados a engolir sapos? Deixamos de ter valores, ética, princípios?
Nada disso. Primeiro não há nada de errado em engolir alguns sapos. Faz parte do nosso processo de crescimento. E às vezes engolir sapos significa tãosomente admitir que o outro estava certo. Além do mais, penso que muitos sapos nascem do facto de usarmos desde muito cedo palavras como: "sempre", "jamais", "nunca." Na maioria dos casos a realidade a elas subjacente não existe.
O problema não está nos valores, nos princípios, na ética. O problema está em que somos humanos. E muitas vezes isso significa falhar uma vez... vá lá, duas! Não significa falhar repetidamente, descaradamente e muito menos sempre.

Como muitos sabem por experiência própria, aqueles com quem nos relacionamos precisam duma segunda oportunidade, porque todos eles são imperfeitos. Mas nós gostamos deles. E se em algum momento tivermos de abdicar de algo por causa de um bem maior, abdicamos e...ponto final. Tem é de ser um bem maior, porque se não deixa de fazer sentido e os sapos asfixiarão a nossa alma.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

EM SENDO CARNAVAL, AS PESSOAS, QUERENDO, DIVERTEM-SE

Alegria, ENTRUDO, que amanhã será cinza.
adágio popular

Anabela Borges
DR
Representação da consciência colectiva, o Carnaval não deixa de ser uma festa de liberdade, onde quase tudo é permitido, e se afastam preconceitos durante cerca de três dias. E as pessoas, querendo, divertem-se! Daí que, quando queremos mostrar que devemos aproveitar o melhor da vida, tomou-se o hábito de dizer, ironicamente, que “esta vida são dois dias e o Carnaval são três”.

O Carnaval serve a miúdos e graúdos.

O Carnaval é o bode expiatório dos povos, cansados da vida rotineira de um ano inteiro, verdadeiras válvulas de segurança em relação aos sistemas de poder. Sinónimo de folguedo, máscaras e largueza de espírito, o Entrudo é uma forma de dar porrada na política, destaque às problemáticas sociais, ou simplesmente criar espaço para manifestações lúdicas e festivas.

Nas Crónicas & Companhias do Minho, podemos ler: “Por isso, as máscaras, a censura popular e a moda colectiva de se parodiar toda uma existência satirizando-se, ridicularizando, causticando, virando-se, praticamente, tudo do avesso: os homens viram mulheres; as mulheres, homens e a máscara é a caricatura da própria vida local.”

Quando eu era pequenina, o Carnaval representava um dos dias mais felizes da minha vida. 

Dias antes, cerca de uma semana antes, já corríamos a macaca, na escola. 

Não é bem sabida a origem deste costume, mas o jogo era levado muito a sério. Parece-me, agora, à distância que a memória põe no tempo, a primeira manifestação de guerra de sexos que vivi. Era uma autêntica guerra entre rapazes e raparigas, devidamente incentivados pelos professores (a professora das meninas e o professor dos meninos). Eram pequenos bonecos de lã, laboriosamente feitos por nós. As meninas levavam macacos machos e os meninos levavam macacos fêmeas. As histórias mais antigas remetem para bonecos feitos de palha.

É uma tradição que se perde no tempo, muito própria da minha terra. Contam os mais velhos que os bonecos, nas formas de homem e de mulher, representavam, simbolicamente, casais, que podiam ser namorados ou não, podiam andar desavindos, aproveitando o Carnaval para esgrimir argumentos ou reconciliar-se, ou podiam andar a pedir namoro, se bem que diz o ditado: “namoro de Carnaval, não chega ao Natal”. Mas como “no Carnaval ninguém leva a mal”, a rivalidade entre sexos servia de principal pano de fundo à libertinagem linguística e às atitudes quase proibidas ao longo de todo o ano. Era assim que as raparigas exibiam o boneco e havia uma perseguição de rapazes para o esfarraparem, como forma de protesto, o mesmo sucedendo com os rapazes, estes ainda mais atrevidos, pois muitas vezes levavam a macaca para cima dos ramos das árvores e esperavam que algumas das raparigas subissem para se apropriarem dela e eles aproveitariam para lhes espreitarem as pernas.

E é assim: eu cá não gosto que o Carnaval português seja abrasileirado, primeiro porque acho infinitamente mais interessante a nossa tradição dos trapalhões, dos bombos, das máscaras, dos gigantones, dos mascaréus, que era assim que chamávamos à forma como nos vestíamos de homem, de mulher, de velho, de rico, de pedinte, sempre com roupas dos adultos para parecermos mesmo ridiculamente tolos e, quanto mais não fosse, para nos rirmos de nós próprios; segundo, porque está sempre um frio de rachar pelo Carnaval, enfim, e as meninas por ali vão a sambar de coxa grossa e pele de galinha. O samba, que nada tenho contra a sua existência, poderia sempre ser guardado para as festas de Verão, para as romarias, que temos muitas no nosso Portugal, graças a Deus, enfim. 

Hoje, eu continuo a gostar do Carnaval. Mas já não o gozo como outrora. Agora, vejo-o mais como uma espécie de despedida do Inverno e o acolhimento da Primavera que há-de estar por aí a chegar, sentimento que, no fundo está também ligado às suas origens.

Gozem, gozem o Carnaval, que a seguir vêm as cinzas e essas são as cinzas das horas, à espera de melhores dias.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

PENSAR O DESPORTO EM VILA REAL

“Vila Real, oh que linda és
Tens o Corgo aos pés, em adoração
Vila Real, como és gentil
Canta-te Cabril, beija-te o Marão.”

Alina Sousa Vaz
DR
Não é da cidade propriamente dita que nos queremos ocupar nesta crónica. Hoje, a nossa abordagem recai na tónica do DESPORTO, a sua importância no desenvolvimento de uma cidade.

Se é inquestionável a relevância do desporto para a qualidade de vida quotidiana dos cidadãos e das comunidades, também no capítulo da economia, o desporto é atualmente um sector em clara afirmação. 
Apesar de não se verificarem disponíveis muitos dados estatísticos sobre o seu contributo efetivo ao nível da estrutura económica, reconhece-se que o desporto pode potenciar o desenvolvimento local e, designadamente, a geração de emprego, quer por via do seu dinamismo próprio, quer por via da sua articulação com outros sectores produtivos como são, desde logo, os do turismo e do lazer. Como se trata de um assunto com benefícios económicos pouco evidentes a curto prazo, por vezes é descurado, ficando refém da sensibilidade de quem coordena tal sector.

Como tenho vindo a proferir noutras estâncias, o desporto eleva nomes e transmite alma a quem o pratica. O desporto fomenta sentimentos! Quero com isto dizer que a cidade de Vila Real necessita urgentemente de crescer neste âmbito de forma sólida e consistente para que as populações possam ter mais um motivo de orgulho da sua cidade. Louvemos as associações e os clubes, mas o desporto não pode crescer como se de uma casa individual se tratasse onde as atividades desportivas andam ao sabor de pequenas rivalidades que parecem não fazer qualquer sentido. A autarquia deve, sem dúvida, apoiar os projetos já existentes, mas é primordial haver coordenação e um fio condutor para um futuro desportivo promissor se consolidar na cidade de Vila Real.

É urgente um plano viável que sirva a sociedade vila-realense no seu todo e não persistir em erros que dotem a cidade de infraestruturas que sirvam poucos ou nenhuns.

Seria ótimo um jovem poder iniciar uma prática desportiva e levá-la a um patamar competitivo elevado, se assim o desejasse. Neste momento, são poucas ou nenhumas as modalidades que permitem tal situação o que indica que há um longo caminho a percorrer. Chamem os clubes, as associações, juntem os técnicos e decidam o melhor para a cidade. Só desta forma Vila Real sairá do anonimato ao nível desportivo, até lá apenas vamos dependendo da boa vontade e da carolice de alguns.   

A MUDANÇA estará para breve?


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

CULTURA DE VIOLÊNCIA

Gabriel Vilas Boas
DR
A violência é um ícone das sociedades modernas.
Não falo do conceito clássico que habitualmente associamos a conflitos armados ou da repressão policial em regimes pouco democráticos. Não falo da violência que vemos nas ruas de Kiev ou do Cairo. Refiro-me antes a um modo de estar em sociedade que primeiro tolerou, depois aceitou e agora quase que incentiva a agressividade.
 Para muitos a violência/agressividade tornou-se quase uma estética de afirmação pessoal, um estilo de vida, um modo de “marcar território” no trabalho e nas relações.
As escolas têm cada vez mais dificuldades em contê-la entre alunos, os pais receiam falar delas aos filhos com medo de serem ridicularizados, os media assobiam para o lado. Acho que esta atitude titubeante de pais, escola e comunicação social tem que ver com a consciência pesada que todos sentem em relação ao assunto.
 A televisão cavalga a euforia de poder que a violência proporciona em tudo o que transmite: filmes, séries juvenis, programas informativos, desenhos animados. Depois, hipocritamente, procura redimir-se com debates pretensamente moralistas chamando à discussão os psicólogos, os técnicos da segurança social, os agentes da autoridade, os pais, os jovens… Jamais se questionam nem permitem que os questione
A escola sente que não vale a pena. Vislumbra tarefa hercúlea e endossa responsabilidade às famílias, à sociedade, às televisões. Promove umas palestras sobre violência no namoro, controla a agressividade no recreio e dá o trabalho por concluído. Faz de conta que nada tem que ver com o assunto, mas tem. A escola moderna promove duma maneira absurda a competitividade. Números, resultados, sucesso, rankings. Apenas isso parece interessar. E a mensagem passa claramente do diretor para os professores e destes para os alunos. Da competitividade à agressividade vai um passo muito pequeno. Se a isto juntarmos a frustração de objetivos não alcançados, depressa chegamos à violência. Que não é física, mas psicológica. Muitas jovens vivem profundamente infelizes e deprimidos com este estilo educativo moderno que fez da cultura do resultado a única coisa que interessa em educação.
Facilmente chegamos a casa e à família. Cansados, desorientados, encurralados entre televisões sensacionalistas e agressivas e uma Escola que faz o culto da competitividade, os pais não sabem como atuar. Muitos deles têm já medo dos filhos. Outros nem reparam que eles existem e bombardeiam-nos com mais violência. É o pai que bate na mãe; é a linguagem desbragada; é a exigência de resultados escolares a todo o preço; é o abandono dos compromissos assumidos; é a falta de respeito, carinho e amor entre familiares, é…
Há uma enorme guerra civil que nos destrói a alma diariamente e não permite que sejamos felizes. Por isso penso que devemos reorientar o nosso estilo de vida. Perceber para que serve, afinal, uma escola, uma família, uma sociedade. Uma família deve incutir valores, uma escola serve para ensinar e educar, a sociedade imprime coerência coletiva a um conjunto de pessoas que quer viver em comunidade. Isso não se faz segundo as leis da selva.