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quinta-feira, 31 de março de 2016

RECEITA PARA SER FELIZ

ANABELA BORGES
Em diálogo de mim para comigo, disse-me assim:
- Preciso de receitas para ser feliz.
- Tens de rodear-te de pessoas que te amem! – disse-me.
- Já estou! – respondi – A minha família ama-me de verdade. Eles, sim, ouvem-me e sabem ver quando eu não ando bem, quando preciso de desabafar e quando preciso apenas de um pouco de silêncio. O problema é que, no dia-a-dia, vejo-me obrigada a lidar com muita gente que destila más energias, gente que se preocupa com apenas “eu, eu, eu” (diga-se “elas, elas, elas”). Não querem minimamente saber de mim, embora tenham de lidar diariamente, e por longas horas, comigo. Mesmo quando parecem cordiais, não fazem por mim o que eu faço por elas. E acho que nunca farão. Essas pessoas nunca notam se eu estou triste, se tenho algum problema, se estou a passar por um mau momento. Não imagino essas pessoas a observarem que em certo dia estou triste, a perguntarem-me o que me atormenta, a ouvirem os meus desabafos. E o problema, neste caso, verdadeiramente, é que passo mais tempo com essas pessoas do que com aquelas que me amam de verdade.

- Pois. Isso é realmente um problema – respondi-me. Fiquei, por um bom tempo, calada. Não parecia que tivesse grandes soluções para breve. Até que desferi outro imperativo:
- Tens de gostar de ti! Muito. Tens de gostar muito de ti!
- E gosto! Gosto do que sou. Gosto de ser assim. Verdadeiramente, gosto da pessoa em que me tornei. O problema é que não tenho sequer tempo para pensar nisso. Não tenho grande tempo para estar comigo, para pensar em mim... para me dar tempo, para me mimar… – respondi-me.
- Pois. Entendo… – e sem saber mais o que dizer, retirei-me, cabisbaixa.

Depois, veio-me outra ideia importante, e fui a correr dizer-me:
- Tens de fazer coisas que gostas!
- E faço! Quer dizer, também faço. Mas o trabalho, a obrigação, ocupa-me tantas horas e tanto perímetro de cérebro, que aquilo que faço por gosto é muito pouco, mal dá para me satisfazer a ansiedade.
- Pois. Assim… - e, sem saber o que responder-me, retirei-me novamente, cada vez mais desarmada.

Depois de pensar mais um pouco sobre o assunto, regressei com nova premissa. Esta deveria estar em falta. Deveria, certamente, fazer parte da receita para ser feliz:
- Tens de sair mais. Divertir-te!
- Hum. Achas mesmo? – perguntei-me – Se sair mais para me divertir, onde irei buscar tempo para me rodear das pessoas que realmente me amam?; onde buscar tempo para ficar um pouco no silêncio?; tempo para estar comigo?; tempo para fazer o que gosto?.

Seria, afinal, tudo uma questão de tempo? Ou de vontade? Fiquei sem saber qual a receita para ser feliz.
Sabia que o era – feliz. Tinha tudo o que, afinal, me impusera ter, ainda que não fosse nas doses desejadas.
Lembrei-me das palavras do poeta*:
É claro que a vida é boa / E a alegria, a única indizível emoção / É claro que te acho linda / Em ti bendigo o amor das coisas simples / É claro que te amo / E tenho tudo para ser feliz // Mas acontece que eu sou triste...


*Dialética, Vinícius de Morais.

domingo, 20 de março de 2016

ENTRE MUNDOS

MIGUEL GOMES
Dois passos e estou no balcão.
Bom dia! Rio-me, ri-se, Boa tarde e quase bom fim-de-semana!

Engano-me ainda como adolescente, mas dou por mim a precisar de dar apenas dois passos para chegar ao balcão, quando antes precisava de mais dois, esquecendo-me até que agora tenho que me vergar para a senhora do balcão dos CTT me ouvir, quando antes tinha que me colocar em bicos de pés. Por vezes, ou sempre, é assim, transportado para um mundo mais pequeno, mais baixo, acordado na casa dos enta, sem me lembrar de cá ter estado antes, como se à saída da agência dos CTT estivesse a minha bicicleta e uma data de amigos à espera para ir tomar banho ao rio.

Até as mãos no teclado, que parecem nascidas com ele, sorriem quando me olham, vendo-me crescer segundo-após-segundo, afagando-me a cara quando tenho frio ou simplesmente escrevendo coisas que leio e que me fazem compreender o mundo, ou o balcão. Oscilando entre infinitos mundos, é como se todos eles estivessem em mim... E ontem, ontem pensei em ti e vi um arco-íris. 

Emocionei-me. Coisa de gente que fala de mãos e olhares. Pensei que eras tu, pensei se estarias a ver-me, se estarias simplesmente a piscar-me o olho ou se estavas a exibir as cores que eu jamais te poderia dar.

Deixo as mãos no teclado, o corpo todo imóvel, o computador ligado e saio para a rua. Está frio, outros corpos defendem-se do vento, que passa a correr e pisca-me o olho. Olho o céu, o destino faz puzzles com as nuvens cinzentas, que teimam em não ficar no mesmo sítio. Não, não é a mesma coisa que lentamente hipnotizar o limpa pára-brisas em dias de chuva com os grossos flocos de neve no Marão ou Alvão, mas percorrer a estrada, com temperatura de tarde de Setembro, apesar de noite de Primavera, com o vidro aberto e fazer de conta que os faróis são estrelas, que se movem aos pares, algumas vezes em pares de um, faz-me sentir bem apenas porque sim.

Trago um silêncio comigo e partilho-o com quem quero, deixo-o percorrer e envolver quem não o ouve, apenas porque houve um som, algures, que não ouvi. Começo a ouvir a bicharada nocturna e a ver, ao Luar, as sombras dos campos e do que lá está plantado e é como se no meio deste restolho que há-de vir, já eu me levantasse, espreguiçasse, erguesse os braços, perdão, os ramos, ao ar e dissesse: nasci!

Mas nascer, nascer, nasci há alguns anos, com memórias e saudades de sítios que nunca estive nestes anos de encadernação, sem me espreguiçar, apenas com um lento recordar de quem sou, de onde vim e, curiosamente, sem saber muito bem para onde ir, com a certeza de não encontrar, aqui ou ali, caminho que me galgue. Estas palavras grudam-se, atropelam-se, é uma saudade do futuro, um pensamento sobre um pensamento, que conduz a um pensamento, que por sua vez gera outro pensamento, é um pensamento imenso e de repente sou eu. É esta necessidade de escrever, no papel e no tempo, nas pessoas e nas ausências, que me vai consumindo, a noite e o dia, sem que anoiteça ou amanheça desde que nasci.

Vou e, ao mesmo tempo parado, é como se já lá estivesse chegado e, sorrindo sozinho, tivesse constatado que afinal, nos deves e haveres, fui dar ao sítio de onde nunca saí.

Volto para aqui, ajeito-me ao meu próprio corpo, encaixo os dedos nas minhas mãos e termino o texto. Sou feliz, entre mundos, entre mim.

quinta-feira, 17 de março de 2016

MARÇO, MARÇAGÃO

Ouço sempre o mesmo ruído de morte que devagar rói e persiste…
In Húmus, de Raúl Brandão.

ANABELA BORGES
Assim começa um dos meus livros favoritos, um daqueles livros que temos vontade de retomar a cada instante, ler e reler para absorver o seu conteúdo, único e feroz, sobre as fragilidades da condição humana.

Somos pó. Ela dizia, “somos pó. Morremos e pronto. Não há mais nada. O nosso corpo apodrece na terra até ficar só pó”.
Desde sempre, ela acreditara que fosse assim. Desde que percebe o que implica morrer, que entende o processo desta forma. Simples. Por isso, custava-lhe tanto que a morte viesse e fosse levando as pessoas à sua volta, uma a uma. Por parecer tão simples, era tudo mais difícil.
E quando alguém partia, ela enfraquecia sempre um bocadinho. Era o corpo que não se ajudava, não tinha forças; era a cabeça que tombava pesada e doía. A morte era dura. Era dura, escura e cruel. A morte era fria. Ficava envolta em tal onda de frio quando estivesse alguém para morrer, que as tremuras, a náusea, a palidez tomavam-lhe conta do corpo.
Tudo se tornava difícil de suportar. E, apesar de tudo, ao outro dia era preciso arranjar forças e andar – o rosto desfigurado do espanto e do choro, o rosto envelhecido e curvado. Era preciso tratar de coisas – porque, afinal, nós é que estamos vivos; é preciso ir enterrar os mortos.
Vai-se, de arrasto, enterrar os mortos. E o ruído de morte rói e persiste ainda por muito tempo. Persistirá.

Estamos em Março e eu podia pôr-me a falar dos dias mais luminosos e da Primavera que está quase a chegar. Mas não.
É Março, mas ainda me soa a Janeiro. E Janeiro é para mim um dos meses mais difíceis e tristonhos do calendário – mês longo, escuro, melancólico, frio, ausente.
Este ano, o frio prolongou-se em Março (pelo menos na 1.ª metade) – o frio da meteorologia e o frio que ronda a morte.
Desde Janeiro que ainda não deixou de ser Janeiro. Março trouxe-me momentos fantásticos com crianças (o melhor do mundo, afinal!), trouxe-me momentos de leitura e de afectos, mas trouxe-me também a morte. Levou-me pessoas e bichos – Março traiçoeiro, dá com uma mão, tira com a outra.
E o ruído rói e persiste, e o choro, o espanto, o frio.
Uma vez entre outra, a recusa da morte aplaca-se um bocadinho, atenua, trazendo alguma paz de espírito.
Não é possível aceitar a morte, mesmo sabendo, desde o início, que ela é a parte mais certa da vida. É apenas possível esperar que ela nos traga algum conformismo.

Porque…
Há um vento que zurze no fundo das janelas.
Há uma luz apagada no fundo das almas.
Há um grito que procura o silêncio arrastado do fundo da noite.

Há uma dor ungida que nenhuma boca pode calar. 

PÂNICO EM IR AO DENTISTA

Sim, é verdade, há ainda muita gente com medo de ir ao dentista. Por que será?

LARA RIBEIRO
Não vai assim há muitos anos em que ouvíamos as pessoas contarem histórias de autêntico terror das suas consultas com o dentista! Os nossos avós, bisavós e, se calhar, alguns dos nossos pais são testemunhas dessa época… 

Pois é, cá entre nós, antigamente era mesmo horrível ir ao dentista. A anestesia local não existia ou simplesmente não se recorria a ela. Logo, os tratamentos eram terrivelmente dolorosos, traumatizantes e muito limitados. Quase só se faziam extrações dentárias, os objetos cirúrgicos eram muito feios e assustadores, o ambiente do consultório era escuro e triste. Como consequência, a população criou um estigma do médico dentista e das condições dos tratamentos, que, hoje, está completamente ultrapassado.

A ciência evoluiu imenso, os profissionais investem cada vez mais na sua formação e especializam-se em áreas específicas da Medicina Dentária. 

Note-se que a Medicina Dentária é uma área médica em que a evolução não pára: os materiais, as técnicas indolores e inovadoras, as alternativas de tratamento para resolver as mais diversas patologias da cavidade oral, assim como as soluções estéticas existentes estão constantemente a ser aperfeiçoadas.

A Medicina Dentária é a área da saúde que estuda e trata o sistema estomatognático, que compreende a face, pescoço e cavidade oral, abrangendo ossos, músculos mastigatórios, articulações, dentes e tecidos moles.

Dadas as exigências, o médico dentista tem que ser um eterno estudante. Só assim poderá acompanhar a evolução que, diria, se verifica a cada minuto do nosso dia-a-dia para oferecer aos seus pacientes todas soluções médicas disponíveis e encontrar a solução ideal para cada pessoa e problema em concreto, porque cada caso é um caso. Hoje em dia, a extração dentária é sempre o último recurso.

As crianças são um bom exemplo das vantagens e das estratégias da Medicina Dentária que hoje é oferecida. As que nunca conheceram o “dentista de antigamente” adoram as consultas de Medicina Dentária. Conversam, aprendem, compreendem o tratamento e colaboram durante a consulta. E, com certeza, vão ser adultos sem medos e preconceitos em relação ao dentista, com bocas saudáveis e sorrisos bonitos. 

Com perceções e opiniões “amigáveis” sobre os tratamentos dentários, facilmente consultarão o dentista de seis em seis meses, prevenindo doenças e mantendo o sorriso bonito. E, no futuro, revelar-se-ão pais que irão incutir aos seus filhos os cuidados de higiene oral e a importância de consultas regulares de prevenção com o médico dentista.

Se aceita uma dica, não espere sentir dor para procurar o dentista! O que fica sempre na memória é: “Da última vez que fui ao dentista, estava tão mal, tinha tantas dores”… Da próxima vez que tiver consulta marcada, o seu subconsciente vai relembrá-lo(a) daquela dor que sentiu e vai acabar por o “convencer” a não ir… Depois só voltará quando voltar a doer!

Evite estas situações. Construa o seu sorriso. Sorrir é a melhor coisa do mundo!

segunda-feira, 14 de março de 2016

AS FERROADAS DO MOSCARDO

Ferroada 1. - ANARQUISMO POÉTICO

ALVARO GIESTA
"O homem é um ser em permanente evolução", já o dizia Darwin na sua "Teoria da Evolução das Espécies". Teoria que se aplica a tudo, no meu entender. À evolução do ensino, por exemplo, se bem que, e ainda no meu entender, esta evolução tenha dificuldade em atingir a velocidade mais alta para o bom desempenho do andamento. E, ensino, também é poesia, também é literatura, também é saber literário. Neste campo, também a teoria do velho botânico, aplicada aqui, se dispersa entre velocidade de carros antigos que não saem dos 30 km/h e dos modernos supersónicos, voando por vários céus a velocidades-luz, mas que no campo verdadeiramente literário, e na vertente poesia, pouco ou nada acrescentam ao já dito. Ou, antes, talvez assim esteja mais certo, quase nada dizem de novo.

Procuram-se rimas forçadas, e a poesia, para o ser, não requer, necessariamente, rima; repetem-se temas, ou antes, repisa-se sempre o mesmo tema "o velho amor do velho romantismo tão mal cantado" (sem desprimor para os poetas que "bem" o cantam), não cuidando em o refinar neste cantar, dando outra exploração literária à palavra; constrói-se, tanta vez, na tentativa de dar novo uso à palavra, o verso desconexo sem cuidar de o analisar antes de o pôr na rua, para ver se o escrito que se oferece ao leitor, o primeiro crítico, contém matéria digna de julgamento literário. A poesia até pode ser obscura e hermética na sua semântica ou sintaxe (atente-se na poesia de Herberto Helder) mas, se de autêntica poesia se tratar, essa obscuridade servirá para dar nova luminosidade à língua pela sua violência reveladora. A poesia é «uma arte do rigor, da obstinada busca (...) do mistério das coisas», mas é também «a procura da palavra que diga o indizível, que fale onde a linguagem se cala», como nos diz Sousa Dias em "O Que é a Poesia?". A poesia maior é o silêncio que envolve as palavras e seduz por aquilo que as palavras deixam por dizer e se lê na voz que o silêncio cria na ausência das palavras.

Argumentar-se-á aqui, e com razão, que a liberdade poética admite todas as possibilidades da escrita. Pois sim, mas liberdade poética não é anarquismo poético que tantas vezes enferma de erros gramaticais que as editoras-prestadoras de serviços não cuidam em corrigir nas revisões que ficam por fazer, limitadas que são no saber do staff editorial, tantas vezes casal marido-mulher com uma quarta classe mal feita, encaixadas no espaço caseiro em que funcionam, exíguo e atafulhadas de caixas de livros por vender à espera do lucro fácil nesta exploração do poeta feito à pressa. Em boa verdade a poesia que se faz, actualmente, salvo raríssimas excepções, visa, apenas e só, o conhecimento do já sabido. Não explora e quase nada interroga; parece, que, com medo de desagradar a alguém, não sai do intuito, apenas, de agradar aos amigos com os já demasiado gastos versos de amor cansado. A tal ponto de, tanto o usar cantando-o, e a maior parte das vezes bem mal cantado, se vulgariza. Como, aliás, acontece com qualquer tema que se cante. Em boa verdade este tipo de poesia ao amor, hoje, quase se limita aos lamentos... mas, o mais angustiante, é ver e ler a análise (pseudo-análise) que pseudo-críticos fazem, por encomenda, a esses pseudo-poetas, autênticas catástrofes de tragédia no panorama literário actual. De "pseudismos" estão as redes sociais atulhadas! E levedam com o fermento dos pseudo-leitores!"
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Ferroada 2. A POESIA CIRCULAR OU REDONDA

Embora não exista tal conceito nem sequer definição firmada do que é a poesia circular ou redonda, o meu entendimento sobre ela passa por uma leitura pericial da questão em que o poeta, numa atitude lírica e que raramente passa além da lírica, parte em busca de uma identidade pacífica, unificadora, que não vai além do círculo das suas próprias águas, talvez com medo de perder a auréola que julga ter atingido, com medo dos percalços que possa haver se sair do seu círculo poético. Entendo por poesia circular, redonda ou elíptica aquela que tem sempre a mesma temperatura. Logo: não interroga, não se inquieta, não suscita, não acusa, não ousa procurar uma tentativa de resposta para as inquietações deste tempo desabitado. Porque, se o fizer, esse "meter o dedo na ferida", esse mergulhar na chaga que supura e gangrena, essas interrogações que deve fazer, poder-lhe-ão ser fatais pela (in)sabedoria - embora não conste no dicionário, esta palavra, ela está aqui pelo que é de rebelde, pelo que é de inquiridor, pelo que é de diferente do tal modo de poetar "circular" - em conseguir ir além do lírico "sem sabor", do elíptico, do que não fere susceptibilidades, do que não faz virar a cara do poeta para o lado pela falta de coragem de fazer a denúncia.

Poesia redonda, neste meu entendimento, será aquela que se fecha num movimento circular - aqui circular quer dizer "repetido" - como o nome indica. Comum em dois tipos de poetas: o primeiro, aquele que quer ser poeta à força, porque o vizinho do lado também o é, e enquanto não (se) cultiva o tal fiozinho de "inspiração" com vista a consolidar(-se) fazendo da poesia um trabalho intelectual; o segundo, o poeta que faz poesia sempre igual e sempre subordinada ao mesmo tema em toda a sua existência humana: feita de repetição, regida pelo ciclo do retorno, sem diferenças de ênfase, de temperatura, de cor e luz. Nestes últimos, escrevendo-a sempre assim até ao fim da vida, a poesia circular funciona neles como se fossem fixações obsessivas: sempre as mesmas ideias, sempre as mesmas imagens, sempre os mesmos temas repetidos, sempre os mesmos malabarismos para fixarem a si o mesmo tipo de leitor nos mesmos temas explorados. Muito comum no eterno poeta do eterno amor!

Não esquecer que a poesia, como nos diz o poeta Joaquim Pessoa, em entrevista publicada no livro "Poeta Visitado", de Maria Augusta Silva, das Edições Caixotim, 2004, "(...) tem, também, a obrigação de palpar o mundo, de estar atenta aos sintomas e ajudar ao diagnóstico."

A poesia circular rodopia à volta de si mesma, na busca da própria cauda que morde para nela injectar o seu veneno que não a deixa ir além de si mesma, além da sua enfermidade que não a deixa interrogar, inquietando e inquietando-se. Dificilmente faz nascer no leitor respostas sensoriais que possam ir para além do que as próprias imagens reflectem. Ela, a poesia redonda, não passa disso mesmo: do conceptual carregado de trocadilhos e outras figuras de estilo, quantas vezes desapropriadas, um uso excessivo de metáforas e hipérboles, às vezes tão desajustadas no poema que até dá a entender que o poeta não percebe nada daquilo que quis deixar expresso, ponderando sempre, conquanto muitas vezes em desajuste no poema, o amor transcendente, esquecendo-se da transitoriedade do tempo, esquecendo-se da natureza tão adversa ao ser, do mal que produz o próprio homem a si próprio, desprezando a denúncia que é preciso fazer pela palavra, neste refúgio que procura em dizer sempre o mesmo em todas as circunstâncias, no tal movimento circular, vivendo com o próprio "veneno" obsessivo, que o "envenena" obsessivamente, como a serpente que, enrolada sobre si mesma morde a própria cauda, pois prefere ficar sempre bem com (o seu) deus e nunca desagradar ao (seu) diabo.

sábado, 12 de março de 2016

FALAR P´RÓ BONECO

JORGE NUNO
Há uma indesmentível sabedoria popular, a que nem sempre damos o devido relevo, e muitas vezes somos mesmo traídos pela aparência evidenciada por algumas de essas pessoas e temos a tendência mesquinha para as menosprezar.

Creio que terei aprendido uma lição de vida, que não mais esqueci, ao deparar-me com um alentejano que aparentava ter setenta anos (numa altura que eu devia andar pelos trinta). Foi numa noite de verão, num tosco café, um dos poucos abertos na cidade de Elvas, onde eu iria pernoitar. Sentado ao meu lado e talvez por sentir necessidade de conversar com um estranho, que até tinha ares de quem vinha da capital, meteu-se a disparar uma série de questões, algumas que pareciam profundas e filosóficas, apesar do seu ar humilde, e ia, pacientemente, aguardando a minha reação. Primeiramente, senti que ele estava a falar para o boneco, pois não estava a dar-lhe qualquer importância e reconheço que até olhava para ele com alguma altivez. Quando me decidi “ir a jogo”, mesmo tendo eu um curso superior, senti-me completamente vergado pela sua sabedoria.

Uma dessas pessoas que muito admiro, é o poeta António Aleixo, que tendo sido um pobre, “quase analfabeto”, com tragédias familiares, dificuldades e doenças, ficou conhecido como um dos mais importantes poetas populares portugueses – com quem me identifico ao nível da ironia e capacidade de crítica social –, bem patente nas suas quadras, e que ainda hoje fazem a delícia de quem as lê, mesmo tendo passado quase setenta anos sobre a sua morte. Talvez, durante algum tempo, ele tenha sentido que andava a escrever para o boneco, mas ficou uma boa parte do seu legado, que pela aceitação contraria essa ideia.

Mas essa sabedoria popular, não sendo considerado conhecimento científico, acaba por ser transmitida de geração em geração e revela-se das mais variadas formas, desde as mezinhas para curar algumas doenças, sem recurso aos químicos da indústria farmacêutica, até aos ditados populares. Sobre estes, dou apenas alguns exemplos, para ficarmos apenas na verdade e na mentira: “O dinheiro cala a verdade”; “Ainda que enterrem a verdade, não sepultam a virtude”; “Mais perde em amizades quem mais teima nas verdades”; “Mais vale o calar do mudo do que o falar do mentiroso”; “O mentir exige memória”; “Nada é mais fácil que mentir e mais difícil do que mentir bem”; “Quem a dois senhores quer servir, a um há de mentir”; “A verdade é amarga, a mentira é doce”… 

Fui acumulando alguma dessa sabedoria ao longo de mais de sessenta anos, e ao aperceber-me que tivemos uma longa ditadura no país que durou mais de quatro décadas, admitindo que quanto mais ignorantes são as pessoas mais são facilmente manipuladas, talvez explique porque dediquei mais de metade da minha vida à educação e formação de adultos. Este conceito parecia verdade, até ler num jornal semanal, que colocam gratuitamente na caixa de correio, esta frase do conhecido mágico Mário Daniel: “Quanto mais culta e inteligente for a pessoa, maior a facilidade com que cai no truque”, falando mesmo nos truques para seduzir. Talvez alguns membros destacados da classe política tenham conseguido obter algumas lições, para aumentar o número de votos, já que tinham, como dado adquirido, os votos dos “ignorantes”.

À presente época, ainda se veem alguns cidadãos, provavelmente bem-intencionados, a tentar deixar uma marca e a promover mudanças na sociedade, num apelo à inteligência e à verdade. No entanto, um conhecido bastonário andou a falar para o boneco, tendo como cruzada a crítica aos juízes; agora foi conhecido o caso de um procurador indiciado de ilícitos criminais em que, ao que tudo indica, “o dinheiro calou a verdade”. Há o caso do professor universitário, candidato a presidente da República, que teve a corrupção como tema central da campanha; afinal, “a verdade foi amarga” e obteve 2,16 % dos votos nas últimas eleições, parecendo evidente que andou a falar para o boneco e que as pessoas preferem uma “mentira doce”. Também um conhecido comentador desportivo parece andar a falar para o boneco; enveredou pela defesa da causa “verdade desportiva”, estabeleceu pontes numa abordagem da promiscuidade entre desporto (com predominância do futebol) e política e escreveu, já em 2016, o livro “Mentiras Futebol Clube”, vindo a “perder em amizades por teimar nas verdades”. Estranhamente, até no último filme a que assisti no cinema – “The Boy – Segue as Regras” – vi a personagem Greta, no papel de baby-sitter, que passou quase todo o tempo a falar para o boneco Brahms, de porcelana e no tamanho real de um menino de oito anos, que afinal “não era um mero boneco”… deixando uma pessoa desconcertada, quanto ao que é verdade e mentira.

No dia de tomada de posse do 20.º presidente da República, assisti a uma entrevista de circunstância na TV, feita por um repórter na rua e para “encher chouriços, frente ao Palácio de Belém. À pergunta “Então o que espera deste novo presidente?” ouviu-se uma popular responder: “Então… espero que seja melhor que os outros atrasados!”. Será que a esta pessoa fugiu-lhe a boca para a verdade? Fez-me logo lembrar da presidência aberta de Mário Soares em Trás-os-Montes, mais precisamente em Rio de Onor; quando um repórter perguntou a um ancião o que achava da presença do presidente da República na aldeia e teve como resposta: “Oh… nunca outro tinha cá botado as patas!”. Porque aqui não se precisa de truques, ao ver gente genuína, com tanta simplicidade, bem posso acreditar que este homem estaria mesmo convicto dessa verdade.

quinta-feira, 10 de março de 2016

«ATÉ SER PRIMAVERA», EM BREVE NA BIRD


Anabela Borges, escritora amarantina
DR

Primeiro livro da inteira autoria de Anabela Borges, “Até ser Primavera” surge como uma antologia de dez contos onde impera o desespero da condição humana, a dar lugar à esperança na primavera da vida.
Até que ponto as coisas mais simples podem fazer alguém voltar a agarrar-se à vida, ou os mistérios inexplicáveis levam a desistir dela? Como se faz da intriga um modo de vida, ou se vive na cegueira de não ver o que está mesmo à nossa frente? Como justificar um aborto voluntário, ou viver com alguém que te faz a vida num inferno, como aguentar a perda daqueles que mais amamos, ou entender a saudade arrebatadora no fado do amor, como perdoar, ou gerir arrependimentos? São histórias que, há muito, te acordam o sono, te preenchem as memórias e te povoam os dias inquietos, para ler e refletir. Vale a pena acreditar na primavera da vida.

Este livro surge como o resultado da atribuição do prémio melhor conto da coletânea Ocultos Buracos, da Pastelaria Studios Editora, e inclui o conto vencedor.



“Os meus “leitores” no Facebook são muito efusivos e simpáticos, deixam-me comentários interessantes e mensagens de incentivo à escrita”


“Vou buscar muitas recordações à infância, a histórias que vivi e ouvi contar. Temos em Amarante um património riquíssimo, que eu adoro evocar e explorar”






CONFIANÇA TRAÍDA

CATARINA PINTO
É assustador e revoltante, a cada passo escuto ou leio sobre mortes de mulheres e / ou casais encontrados mortos (homicídio suicídio) e não consigo deixar de pensar como é possível existirem pessoas que sejam mortas as mãos daqueles em quem deviam supostamente entregar a sua confiança cegamente. O que é que justifica esta matança inglória? Procuram razões sociais, como a falta de dinheiro, a crise, motivos pessoas como o ciúme… doenças mentais, pessoalmente condeno esta chacina que tem invadido as notícias nos últimos anos e não procuro encontrar respostas supérfluas. Sabemos que desde sempre o relacionamento homem-mulher não é fácil como todos os tipos de relação no Mundo. Onde há duas pessoas é fundamental respeitar o limite individual e ter a honradez de saber perder. É mudar de caminho e voltar a nascer. A sociedade devia abrir os olhos e preocupar-se mais consigo mesma, afinal a nossa vida é tão curta.

quarta-feira, 9 de março de 2016

A VERDADEIRA AMIZADE

ALINA SOUSA VAZ
Hoje propus-me falar de amizade. Um tema que tenho vindo a refletir, principalmente desde o momento em que a vida nos exige responsabilidade diária. O pensamento acolhe a palavra com satisfação, porque não há sentimento mais puro quando existe de verdade. No entanto, a reflexão preocupa-me. E mesmo contrariando alguns pensamentos, a realidade fala sempre mais alto como se um juiz no tribunal ditasse a sentença. 

Atualmente, no dia a dia evocamos a amizade com facilidade e acreditamos em todos os “contos” postados nas redes sociais. Ali, tudo é de cor purpurina ou azul do céu e o brilho dos sorrisos não enganam, a felicidade mora com os que agem naquele momento. Mas não é a amizade que se celebra a todo o instante que me preocupa; o que me deixa com semblante sério é a forma como ao longo dos tempos poucos tratam/cuidam daquilo que dizem adorar, a amizade. 

Os amigos de verdade não te telefonam apenas para dias de festa, lembram-se de ti ao meio da semana e ligam-te para saberes como estás.

Os amigos de verdade chamam-te atenção das tuas atitudes incorretas, mas não o fazem em frente a outros.

A amizade verdadeira não exige troca de favores, mas celebra a troca de experiências.

A amizade de verdade, que vive longe, não adormece e retoma a conversa naturalmente.

Muitos são aqueles que levam anos a perceber o verdadeiro sentido deste sentimento, uma vez que entroncamos, todos os dias, a nossa vida na vida de outros; as amizades parecem que borbulham no tchim tchim de um “copo” degustado durante uma noite. No entanto, novas descobertas acontecem e empurram-nos, sem darmos conta, para um bem-estar que nos satisfaz, porque a amizade reflete o companheirismo desinteressado onde o ouvir é mais preponderante que o falar. Estas amizades são raras e difíceis de encontrar e as que existem é porque cresceram em terra fértil enfrentando situações difíceis e superaram obstáculos. Por isso, devemos sempre dar valor ao amigo que temos a nosso lado e que se preocupa connosco.

Emociono-me com amizades com tamanho de histórias de amor, porque são relações até que a morte as separe!

A EDUCAÇÃO, A DISTÂNCIA E A AUSÊNCIA

JORGE MADUREIRA
Nos dias de hoje é complicado conciliar o trabalho e a educação dos filhos. Os pais sentem-se mal, culpados e com sentimento de impotência com a falta de tempo passado com os filhos. Por vezes entregam a educação de seus filhos a terceiros.

Depois temos os pais que trabalham fora (do país), longe de casa. Não conseguem acompanhar os filhos nas suas actividades e crescimento. Todos “sofrem” esta ausência. Os pais, pelo atrás referido, os filhos que quase sempre se habituam à rotina da ausência dos pais. Não é nada benéfica na sua base de estruturação da personalidade. É um “abandono” que todos gostariam de evitar.

Não é fácil não estar presente no dia-a-dia dos filhos. Não poder apreciar o crescimento, as descobertas e maravilhas diárias. Compreendo a confusão que esses pais enfrentam com essa distância. A falta paterna é muito mais de que uma “simples ausência”.

Mas infelizmente nem tudo é perfeito.

Existe também a situação em que o pai, por motivos de separação da mãe ou ainda outros acontecimentos, não convive integralmente com o filho. 

Na minha humilde opinião, a figura paterna é fundamental na formação, no desenvolvimento e construção social, moral, emocional e psicológica da criança. Mas quando isso acontece não devemos fazer aquilo que todos temos tendência, que é: rotular de filhos complicados. Isso deve ser evitado.

Todos os filhos, sem excepção, necessitam em qualquer condição, de apoio, de serem protegidos, de companhia constante, cuidados diários e também de limites. A figura paterna faz parte integrante da estrutura emocional para serem um dia pessoas sadias e com amadurecimento natural. A criança é melhor preparada se for criada com referencial masculino e respeitará mais tarde ordens dadas por representantes femininos. Contudo, uma criança que seja criada somente pela mãe poderá também ter tudo isto e não ter algum transtorno emocional. Conheço tantos casos de sucesso de mães que também são pais.

É cada vez mais comum existir uma família sem pai nas sociedades modernas. Existem casos em que é bem mais saudável. Aqui a mãe terá que definir limites com sucesso.

Isto também pode fazer com que a ausência do pai leve a uma menos predisposição para conflitos associados à falta do pai.

O pai ocupará sempre um lugar especial na evolução psicológica dos filhos, ainda antes do seu nascimento. Por isso, a mãe se não tiver esse suporte terá que ser ela a representar essa figura tão importante na vida da criança.

terça-feira, 8 de março de 2016

NO DIA INTERNACIONAL DA MULHER

"Todos sabemos que somos animais, da classe dos mamíferos, da ordem dos primatas, da família dos hominídeos, do género homo, da espécie sapiens, que o nosso corpo é uma máquina com trinta biliões de células, controlada e procriada por um sistema genético que se constituiu no decurso de uma longa evolução de dois a três biliões de anos, que o cérebro com que pensamos, a boca com que falamos, a mão com que escrevemos são órgãos biológicos, mas este conhecimento é tão inoperante como o que nos informa que o nosso organismo é constituído por combinações de carbono, hidrogénio, oxigénio e azoto. " [Morin,  Edgar,  O Paradigma Perdido (A evidência estéril)]
REGINA SARDOEIRA
Escolhi como epígrafe este excerto de "O Paradigma Perdido" de Edgar Morin, por me parecer que estas e outras constatações acerca da natureza humana, acertadamente intituladas como "uma evidência estéril" , podem fornecer um sem número de informações sobre o homem e o seu funcionamento, enquanto organismo e enquanto ser excepcional da natureza, produtor e produto da cultura, e tudo o mais que sobre nós podemos afirmar - mas tal conhecimento é inútil, na justa medida em que não consegue explicar-nos, enquanto natureza. 

As mulheres pertencem à classe dos mamíferos, à ordem dos primatas, ao género dos hominídeos (...), tal como os homens; e, tal como eles, escapam a uma absoluta e total conceptualização. 
Durante muito tempo classifiquei-me como uma pessoa - um ser humano, idêntico a qualquer outro, feita mulher por um acidente biológico nos trâmites da aleatoriedade genética, que junta um par de genes XX, diferenciando -se assim do XY que produz o ser masculino. Nessa ordem de ideias, nunca vi qualquer razão para ser tratada de modo diferente ou para me considerar diferente dos homens, só por consequência desta combinação automática dos genes. 

Dizia eu, na época : "Sou, acima de tudo uma pessoa e é assim que me vejo e quero ser vista; nasci mulher, por acidente biológico. Nessa ordem de ideias, nada pode separar-me, do ponto de vista humano, do sexo masculino, porque o meu ser feminino é apenas uma condição cromossómica. "

Só mais tarde, ao tornar- me mãe, fui capaz de absorver de forma radical - jamais poderia compreender o que significa a maternidade, se a não tivesse experimentado - a dimensão do meu erro: não, de facto, não sou apenas mulher por acidente biológico e, quanto ao resto, absolutamente idêntica ao homem. Tenho, em mim, uma faculdade única e exclusivamente feminina, esta, que me permite acolher um embrião, criá-lo em mim, estabelecer com ele uma profunda relação simbiótica e admitir, no fim do tempo, dá-lo à luz e permitir-lhe a autonomia. Nenhum homem pode realizar este papel, substituindo a mulher; nenhum homem experimenta esta odisseia dentro de si, esta unidade na diversidade, esta transcendência de si, através de um outro de si - o filho. 

Foi deste modo que estabeleci a desigualdade entre os sexos e assimilei a respectiva diferença. Mais: percebi que toda a morfologia do corpo feminino, todas as transformações decorrentes da puberdade, mais não são que o caminho para essa função suprema e intrinsecamente feminina - ser mãe, dar novas vidas ao mundo. Percebi que o homem não precisa, no âmago de si, da forma constitucional de ser pai, para se afirmar por inteiro, na sua condição. Ao longo da vida, o humano do sexo masculino desperdiça milhões de espermatozóides ou sementes de si; e, mesmo quando gera, através da mulher, um filho, é apenas uma dessas sementes que fecunda o óvulo receptivo. Ser pai não representa a afirmação suprema da masculinidade. Essa, ele poderá encontrá -la de outros modos - os mesmos que, hoje em dia, a mulher tem ao seu alcance para elevar-se a certos patamares sociais. Quanto à mulher, nem sequer o será, de facto, enquanto não aceder a esta experiência sublime. 

A partir do momento em que tirei estas conclusões, não teoricamente, mas com a carne e todas as faculdades a ela inerentes, percebi a dimensão da minha diferença face ao sexo masculino. E percebi, no momento em que fui, pela primeira vez, mãe e depois, quando outras maternidades me aconteceram, que o filho não me limitaria, que, com ele e enquanto fosse preciso, constituiria um só corpo, uma só voz, uma só alma. 

Sempre me chocou ouvir certas mães dizerem: "Ah, se não fossem os filhos!... ", como se eles fossem as correntes da sua subjugação, os verdugos da sua liberdade. Quanto a mim, fui adiando as outras tarefas, fui marginalizando as outras vocações, fui mãe absoluta - mesmo admitindo falhas, já que criar um filho para a individualidade é uma incomensurável tarefa para a qual não existem receitas infalíveis - e sei que a minha feminilidade se criou, inteira, nesse acto. 

Devo então celebrar na mulher esta especificidade que a torna, de facto, um animal racional, mamífero, sapiens, e tudo o mais de que fala Edgar Morin, mas que, infinitamente, a acrescenta e a separa do bípede macho da mesma espécie. Por mais que qualquer mulher procure realçar os seus dotes e distinguir-se, em tudo quanto o mundo oferece à sua inteligência, à sua criatividade, ao seu génio, se a maternidade não lhe acontecer, nunca poderá intitular-se mulher, em pleno. 

E como hoje é o Dia Internacional da Mulher - e por essa razão também é o Dia Nacional da Mulher - e semelhantes efemérides devem servir, segundo creio, para dar visibilidade (ao menos por um dia) ao respectivo tema, vou expressar aqui o meu absoluto desconcerto perante três casos, dos quais me chegaram apenas indícios, grandes indícios . 

Uma mãe, movida sabe-se lá por que estranhos mobiles, dirige-se uma noite à margem de um rio e tenta matar-se, matando, consigo, as filhas. Sobrevive ao suicídio, é isolada e presa, e abre-se o circo especulativo sobre causas e motivos. O certo é que a carne da sua carne é encontrada sem vida, já que aquela que as gerou, com o mesmo ser as suprimiu. Outra, num vigésimo primeiro andar de um prédio, consente a si própria sair de casa para jogar, deixando sozinha a filha pequena que, decerto procurando os pais no meio da noite, abre a janela, debruça-se talvez, talvez grite...e cai. Outra ainda, percebe que o seu filho adolescente não regressa a casa depois das aulas, e, quando entrevistada, dez dias depois, adopta um discurso frio, fala dos acontecimentos como se fossem uma coisa de somenos importância, uma trivialidade...e o filho, jazia morto, assassinado, a escassos metros da casa de onde - disse a mãe - terá saído pelo seu pé, normalmente, a caminho da escola, onde nunca chegou.
Estas mães, feitas mulheres em pleno nas maternidades respectivas, não podem ser celebradas, nem sequer justificadas, no Dia Internacional da Mulher. Podem ter ademanes que as religam à especificidade da mulher, mas, pelo indícios (que nada mais temos que nos permita entender os factos) não o são de direito. Tiveram os filhos, é certo, mas vasaram sobre esse momento sagrado toneladas de escória e fizeram de si aberrações. 

Dir-me-ão que estas mães, estas mulheres, são excepções, num oceano de sublimidade. Talvez sejam. Ou talvez haja, por esse mundo fora, centenas, milhares de simulacros, com ar de mulheres e trazendo filhos pela mão - e contudo, senão matando-os com as próprias mãos, pelo menos fazendo deles vítimas do seu desejo frustrado de ser outras coisas na vida (que os filhos pela mão não consentem). 

Por mim, gostaria de poder dialogar algum tempo com estas três caricaturas de mulheres, longe do tumulto das câmaras de televisão e das notícias - a ver se almejava perscrutar que género de doença vem destruindo a mulher e a sua especificidade realmente identificadora de uma condição. 
Não sou capaz de exprimir seja o que for acerca da mulher e do seu dia internacional, para além do que deixo aqui como testemunho - testemunho da mulher que sou. 

Há mulheres infelizes, violentadas, injustiçadas. De igual modo há homens infelizes, violentados, injustiçados. Há mulheres de grande inteligência e criatividade e arte. De igual modo há homens de grande inteligência e criatividade e arte. Mulheres fazem carreira, nos palcos, nos fóruns, nas organizações. De igual modo, homens fazem carreira nos palcos, nos fóruns, nas organizações. Por mais que acrescentemos a lista, sempre encontraremos, para o feminino, a alternativa no masculino. Não será por essas razões que devemos enaltecer a mulher neste seu dia - porque só a maternidade lhe dá o estatuto de privilégio único e não permutável, é essa e apenas essa a nossa diferença face aos homens. E, se acaso todas as mulheres percebessem este seu estatuto criador e lhe fizessem justiça, em si mesmas e naqueles que geram, nem seria necessário este dia no calendário para uma e outra vez debater as mesmas e aparentemente insolúveis questões.

segunda-feira, 7 de março de 2016

A PALAVRA ESCRITA: UM OBJECTO DE ARTE E COM ARTE

«ARTE E SENSIBILIDADE

1) Toda a arte se baseia na sensibilidade, e essencialmente na sensibilidade.

2) A sensibilidade é pessoal e intransmissível.

3) Para se transmitir a outrem o que sentimos, e é isso o que na arte buscamos fazer, temos que decompor a sensação, rejeitando nela o que é puramente pessoal, aproveitando nela o que, sem deixar de ser individual, é todavia susceptível de generalidade, portanto, compreensível, não direi já pela inteligência, mas ao menos pela sensibilidade dos outros.

4) Este trabalho intelectual tem dois tempos

a. intelectualização directa e instintiva da sensibilidade, pela qual ela se converte em transmissível (é isto que vulgarmente se chama "inspiração", quer dizer, o encontrar por instinto as frases e os ritmos que reduzam a sensação à frase intelectual (...)

b. a reflexão crítica sobre essa intelectualização, que sujeita o produto artístico elaborado pela "inspiração" a um processo inteiramente objectivo - construção, ou ordem lógica, ou simplesmente conceito de escola ou corrente.

5) (...).»

Fernando Pessoa, in "Carta a Miguel Torga, 1930"
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ALVARO GIESTA
Escrever, para mim, depois de vencido o tenebroso pânico da página em branco, esse grande obstáculo que tantos tortura antes de por eles ser vencido, torna-se quase como um fluxo imparável de palavras que jorram como a mágica fluidez da respiração até onde algo desconhecido, na minha sensibilidade, me faz parar e voltar atrás num processo de leitura crítica sobre o que até aí escrevi, para ver se o que deixei escrito possui a qualidade necessária à minha exigente satisfação, como escrevente, e à minha ainda mais exigente satisfação, como o leitor que me leio antes de me dar a ler aos demais leitores. Mas, estes "demais" leitores não significam, para mim, o leitor comum que se satisfaz com a notícia banal do mais vulgar jornal ou com obra escrita dos vulgares "escritores" hoje muito em voga, que a submetem ao leitor sem que sobre ela tenham feito, antes, um cuidadoso trabalho reflexivo e crítico. Os leitores para quem penso as minhas obras, são aqueles que construtivamente me criticam exigindo, de mim, a maior das perfeições.

Dir-me-ão, de certeza (e quase adivinho quem o dirá), que é tão válida, como arte, a coisa feita - aqui "coisa" significa obra escrita - sob impulsos não pensados sem um mínimo de trabalho de intelectualização num processo de leitura atenta, reflexiva e crítica, do que foi escrito antes de ao leitor mais atento, e crítico também, a dar a conhecer, como a que, antes de a transmitir a outrem, «por necessidade orgânica» a reflectimos e criticamos, não só a obra como a nós mesmos, escreventes, com nova elaboração «sobre o já elaborado». Só assim se fará arte!

Este "pensar e voltar atrás" para me ler num processo de decomposição do texto a fim de sobre mim mesmo, e à minha escrita, me auto criticar, não anula nem bloqueia a minha sensibilidade, vontade e decisão sobre aquilo que me propus escrever - porque previamente o estabeleci -, tão-pouco tem por objectivo ferir a inteligência e a sensibilidade dos outros: sejam escritores, sejam leitores. Este meu processo reflexivo e crítico, de mim mesmo e da minha escrita, tão colado ao meu método de escrever como a derme à epiderme, não visa dizer aos outros que sou melhor que eles, como muitos ousarão pensar.

Este processo tem apenas um objectivo: tornar a palavra escrita um objecto de arte e com arte, raciocinando-a antes, durante e depois de a ter debitado no papel.

Porque é num trabalho de intelectualização constante, de aperfeiçoamento exaustivo retirando o supérfluo, o acessório, o pessoal (este, sem deixar de ser individual num processo de definição de estilo), rejeitando o instinto, ou seja, o que surge instintivamente no processo da escrita sem à mesma voltar para a tal análise reflexiva e crítica, que a arte nasce. Dificilmente o objecto da arte se tornará arte apenas no e do movimento primevo que lhe deu o ser. Porque, para ser arte, a palavra tem que ser, em primeira mão, sujeita à crítica intelectual de quem a escreve: não basta ser, tem que «dever ser». E isto porque dificilmente há génios resultantes de impulsos: também eles, os génios, exercem sobre a sua obra de arte, para que seja arte, operativos trabalhos de intelectualização.

Podia arvorar para mim e como se meu fosse, e genuíno, também, este modo de pensar a escrita; porém, isso seria usurpação injusta de coisa alheia porque, efectivamente, e aqui fica bem expresso, a minha escola está nos ensinamentos dos grandes mestres que leio com enlevo.

Ora, toda esta prelação visa os artifícios da palavra na poética com arte:

1. seja o poeta o "engenheiro da palavra" elaborando-a com alguma secura de linguagem e rigor construtivo, negando aquilo a que chamam "inspiração" - a vulgar "inspiração" que os vates atribuem às divas e às musas - porque, na verdade, inspiração não é mais do que criatividade intelectualizada: ou seja, converter o sensível no intelectual de ordem a que o leitor no seu movimento crítico de leitura veja, no que lê, arte;

2. seja o poeta sem alma que constrói poemas frios sob o rigor da razão, como o eram os concretistas dando valorização ao fim da poesia intimista, ao desaparecimento do eu-lírico, ao fim do verso e da sintaxe tradicional, valorizando a desmontagem das palavras incorporando-as na arte da montagem do poema, dando-lhes aspectos geométricos;

3. seja o poeta da busca e da interrogação, o poeta da procura e da tentativa de resposta neste tempo desabitado, indagando, sem revelação nem encantamento - à "inspiração" das musas inventadas, aqui me refiro -, mas com raciocínio, fazendo da poesia um trabalho intelectual, aquilo a que eu chamo um pacto-não-lírico;

4. seja o poeta sentimental que põe arte nos versos que o coração dita - mas não aquele que apenas constrói poesia ornada de chavões líricos cansados de já o serem tanto e gastos de tão repetidos, oscilando entre a falta de rigor construtivo com mestria e o excesso de retórica.

Ao ler-me, perplexo estará o leitor nesta altura, pensando que eu apenas defendia um tipo de poesia: a minha que, afinal, não é minha. A que eu escrevo, depois de a deitar ao mundo, ao mundo pertence.

É que, caro leitor, a poesia deve funcionar como um pêndulo - já de alguém o ouvi ou li e, ao mesmo, reconheço razão:

· um dia oscilará para o rigor da filosofia e da razão ou da ausência de uma e outra, como nos anos cinquenta com essa corrente de vanguarda em que três poetas "loucos" do país irmão acreditaram que a poesia era fruto de um trabalho mental e do esforço que implicava em refazer o texto várias vezes até que ele atingisse a sua forma mais adequada, excluindo dele, e redondamente, tudo o que fosse emoção e sentimento;

· outro dia aprofundará a palavra, crítica, racionalmente e com maturidade para conquistar a arte e a estética: será a obra do engenheiro da linguagem geometrizada e exacta que leva o poeta, antes do seu leitor, a reflectir nesse mistério da criação literária;

· outro dia, ainda, ela oscilará para a poesia do coração hesitante entre os olhos que veem mas também sentem e o coração que muitas vezes é forçado a sentir sem sentir coisa nenhuma, sem a grande aspiração ao reconhecimento que o rigor da criação literária exige.

É entre os limites deste movimento pendular que moldo a minha poesia sempre na tentativa de a tornar arte. Umas vezes me revelo um poeta quase sem alma em poemas frios, racionais, como que medidos sob o rigor da fita métrica e do compasso: isso é evidente em obras já publicadas como sejam "Meditações sobre a palavra", "Um Arbusto no Olhar" e "O Retorno ao Princípio"; outras vezes, ainda que o coração esteja presente no rosário de palavras, ele se ausenta do exagero usual do lirismo repetido para não cansar nem banalizar o tema cantado: isso é evidente no meu livro "Onde os Desejos Fremem Sedentos de Ser", no opúsculo "Oblíquo é o tempo" e noutros poemas que publico por aí e cujo tema é o eterno feminino.

Sem pretender fazer ruir os edifícios poéticos que por aí proliferam, uns construídos e outros em fase de construção, no seu excesso de lirismo, pretendo demonstrar que o acto de escrever poesia deve ser um trabalho de constante catarse e depuração. Controlar o fenómeno poético é o que eu proponho com as obras que vou escrevendo, se bem que outras leituras se possam fazer e diversas conclusões tirar da minha obra deixada escrita.

Em homenagem singela a Ramos Rosa, o poeta do rigor absoluto, defendo que se pode e deve dar novo uso à palavra poética, um uso que não seja apenas lírico, onde o «artefacto rigoroso da busca» e da construção e emprego da palavra no todo do edifício poético, dê verdadeiro sentido intelectual à obra construída. É que fazer poesia, é: reflectir, organizar, construir e integrar; duma forma lógica e justa, sonhando, mas materializando e intelectualizando de forma racional.

domingo, 6 de março de 2016

A RE(EDUCAÇÃO) DOS PAIS

MIGUEL GOMES

É impossível não olhar para as crianças e sorrir convencido que se não crescerem serão o futuro. Mas temo, temo pelos pais (e que legitimidade tenho eu?), pelo sistema de deseducação, pela sociedade que lhes vai pedir tudo aquilo que eles não precisam. Mas, para já, ainda longe da idade de espreitarem as etiquetas das roupas, embora a idade das marcas e tipos de telemóveis tenha vindo a diminuir, vão sentando-se no chão, atirando uns piões moderníssimos (que a TV lhes vai vendendo), rindo-se das solas dos chinelos mais desgastadas, o joelho que se apoia no empedrado chão e se esfola, os risos, tudo vai ecoando pela entrada da tarde como um claro regato de água corrente que não vai a lado algum.

Fecho a porta do carro, pé na embraiagem, ligo-o, puxo o cinto de segurança num gesto automatizado e destravo-o, nada caiu, óptimo. A rádio, perdão, as rádios, debitam (vomitam) as mesmas músicas, as mesmas notícias, hoje nem a música clássica me apetece ouvir e os CD's são também os mesmos, sempre. Desligo o rádio, nada caiu do carro, óptimo. Arranco e vou retirando ruídos e barulhos, um a um, até sair toda a capa encardida e lodosa que se foi entranhando ao longo de um dia e ficar apenas o som dos putos a atirar os peões. De repente é como se a meu lado surgisse um puto, calções gastos e joelhos esfolados, com um baraço na mão e, na outra, um pião de madeira, ouvindo o som que a minha memória vai debitando, os piões de plástico e metal a zunirem no chão, a claquearem uns nos outros e, ele, ali, esbugalhado, sem saber como ali foi parar e sem saber o que fazer com o pião que tem na mão, de madeira, com aquela ponta de metal frio, que faz cócegas quando rodopia velozmente na palma da mão.

É pouco provável chegar a casa e ligar a televisão. 

A futilidade hoje em dia parece grassar, espalhar-se como uma doença. Já não chega aquela que nasce em nós e que, na sua dose de erva daninha aceitável, se tolera, mas ainda se tem que receber, quase forçadamente, doses e doses de vazio, de sons articulados sem qualquer pejo pelo que se diz, com o único objectivo de sharingar, de ganhar espaços e audiências. Quando mais cruel e fria, quanto mais impacto aquele soco invisível nos causar melhor, quanto mais a pessoa se ache vítima, ainda que por simpatia, do que lhe é fornicado aos ouvidos melhor. E este movimento replica-se, em casa, na rua, nos transportes, no trabalho, quanto mais impacto, quanto mais visceral a anunciação melhor e assim nos vamos alimentando, de vísceras e vazio, até percebermos que, afinal, quando pensávamos estar a comer, estávamos a dar de fome a quem de tudo, até dos sonhos, se apodera lentamente.

E é assim, belicamente, que vou declarando morte ao vazio. 

Na minha trincheira só cabem umas côdeas, pão, boroa, regueifa, seja lá o que for, água, uma licorada bem preparada, seja lá qual for, e uns quantos piões, amanhados ao canto. Mantenho a cabeça baixa, nunca se sabe o que poderá surgir por aí, o tempo vai quente, consta que vai ser pior do que foi, se for mais quente, foi pior, se for mais frio, foi ainda pior, restam-me as nuvens, o Sol, a Lua, as estrelas e as fotografias de todos os bocadinhos de pessoas com gente dentro que vou guardando, emoldurando, atafulhando o que sou porque tenho medo, vá-se lá saber porquê, de deixar algum espaço de vago onde o vazio possa vir e fazer lá seu visceral trono.

Chego a casa. Já não recordo de onde saí, por onde passei, o que vi. Estaciono na rua, desligo o carro, nada caiu, óptimo. Coloco novamente a chave na ignição para fechar os vidros, vão subindo e chiando, como que resmungando e compreendo-os, afinal, quando fechados são eles que levam com o barulho do vazio. Tiro a chave, engato o carro, puxo o travão de mão, nada caiu, óptimo. 

Saio ainda a tempo de ouvir a sirene dos bombeiros a baixar o tom, cansada dos constantes avisos de risco elevado de incêndio que lhe fazem prever noites de arreliação e esforço em levantar da cama os já cansados corpos dos bombeiros. Já depois de fechar a porta vejo-o. 

Abro novamente o carro. No banco do passageiro um pião e o baraço, desembaraçado, desenleado, escorrido do banco até ao chão. 

O correio nada deixou, entro no prédio, fecho a porta com cuidado e vou subindo os degraus enquanto tacteio aquele bocado de madeira torneado pelas mãos de alguém ou de ninguém, que embora possamos conhecer que o torneou, poderá esse torneador não se saber. 

Entro em casa, pouso chaves, carteira, pão, trocados, tiro os sapatos da forma que a minha mãe sempre disse para não os tirar e vou andando até chegar à sala. Sento-me no sofá, inclino-me e pouso o pião no chão, agarro o baraço, encosto-me e fecho os olhos para me deixar sorrir enquanto os sons dos putos, os risos, tudo vai ecoando pelo final de tarde como um claro regato de água corrente que não vai a lado algum.

sexta-feira, 4 de março de 2016

AS ARMADILHAS DA VIOLÊNCIA FAMILIAR

RODRIGO LAPA (15 ANOS)

GABRIEL VILAS BOAS
violência familiar é um tema chocante e doloroso para qualquer sociedade. Infelizmente, os portugueses têm sido insistentemente sacudidos por notícias dilacerantes sobre mulheres mortas por maridos ou companheiros, crianças alvo de abandono, maus tratos e, agora, mortas, presumivelmente, por gente que devia cuidar delas.
Desgraçadamente, a expressão “violência doméstica” tornou-se um eufemismo, porque aquilo com que nos deparamos frequentemente são homicídios.

A violência em meio familiar têm crescido assustadoramente, especialmente no que ao grau de monstruosidade diz respeito, deixando a população perplexa e assustada, até porque verifica que os motivos dos crimes são quase sempre insignificantes.

A violência familiar é um problema muito difícil de atacar pela sociedade, pois é cometida, regra geral, por um membro da família descontrolado sobre outro familiar, sob forma de coação física, psicológica, emocional e económica.

O que o crime de Portimão, ocorrido durante esta semana, vem revelar é que não é preciso um grande historial de desavenças para levar alguém à insanidade criminosa. Outra conclusão devastadora que podemos tirar é a da premeditação. Quer no caso do jovem algarvio quer noutros casos dados a conhecer pela comunicação social, percebemos que estes crimes foram minimamente planeados, de modo a ocultar provas ou a atrasar a investigação ou a proporcionar a fuga dos assassinos.

É assustador constatar como existe instinto assassino à solta na sociedade portuguesa. Tanta gente capaz de matar ou deixar matar aqueles que lhe são próximos por uma qualquer sem razão.

Não deixo de pensar como a destruição familiar tem tornado a sociedade fria, insensível, desumana e violenta. Quando as relações terminam, os filhos tornam-se um problema que se quer varrer para debaixo do tapete, especialmente quando atrapalham as novas relações que os progenitores querem assumir. Se a isto adicionarmos a natural rebeldia da adolescência e o pouco tempo que os adultos passam com as crianças e adolescentes, temos um contexto potencialmente perigoso. A voragem das coisas quotidianas, a falta de compromisso afetivo, o pouco investimento feito no diálogo minam os laços familiares.
Apesar de uma monstruosidade ser uma exceção, a sua repetição, cada vez mais frequente, revela sintomas preocupantes.

Evitar uma tragédia como a de Portimão é também saber ler sinais, acompanhar casos problemáticos, alertar pais e mães para as várias armadilhas que as vias rápidas da vida têm.

quinta-feira, 3 de março de 2016

COMO A SAÚDE ORAL PODE REDUZIR RISCOS DE DOENÇAS GRAVES

LARA RIBEIRO
A saúde oral é determinante para a existência de uma boa saúde geral, assim como para o bem-estar psicológico e social de cada um de nós. Quando uma pessoa não goza de boa saúde oral, existe um desequilíbrio que, mais tarde ou mais cedo, acabará por se manifestar, já que a saúde oral se reflete na qualidade de vida e na sua longevidade.

Estudos comprovam que pessoas com uma boa higiene e saúde oral têm menos risco de ataques cardíacos, de AVC (acidente vascular cerebral), de contraírem Alzheimer e Diabetes tipo II. Quem diria…Nunca tinha pensado nisso? Há pessoas que não imaginam que ligações deste tipo existem. “Um dente furado”, “gengiva vermelha e a sangrar”, podem prejudicar a este nível? Podem mesmo! 

É importante pensarmos na nossa boca como um órgão que é, simultaneamente, de importância fundamental para o equilíbrio do nosso corpo e uma porta aberta à entrada de centenas de bactérias para o nosso organismo! 

A saúde oral é também muito importante no aspeto psicossocial: mau hálito, “dentes tortos”, dentes escuros, falta de dentes… Estes são, normalmente, fatores que inibem as pessoas de sorrir, de dar uma boa gargalhada, de sair à rua, de namorar, de arranjar emprego, etc. Uma boca saudável facilita a comunicação e a interação com os outros.

Infelizmente, em Portugal a percentagem de desdentados parciais ou totais é ainda muito elevada. A falta de dentes tem como consequência a deficiente mastigação dos alimentos, o que dificulta todo o processo de digestão dos mesmos e leva, muitas vezes, ao aparecimento de problemas de estômago. 

A dentição completa e bem posicionada (mordida e alinhamento dentário) são também muito importantes para o equilíbrio postural do nosso corpo. Um dos exemplos dessa importância está nos atletas que necessitam daquela condição para maximizarem o desempenho na sua atividade. Ou seja, é-lhes exigida uma boa saúde oral para terem um desempenho e performances à altura das suas ambições.

A forma mais barata de tratamento que existe é sempre a PREVENÇÃO! Consultas regulares ao Médico Dentista, idealmente de 6 em 6 meses, podem evitar muitos problemas de saúde oral, pois se as patologias forem detetadas numa fase inicial, são facilmente resolvidas. Evita-se a dor, o desconforto, o stress de arranjar uma consulta com urgência, faltar ao emprego e pagar um tratamentos mais caro, como uma desvitalização, por exemplo. Se tratada numa fase inicial, uma situação destas teria uma solução diferente: passaria, quem sabe, pelo restauro do dente, já que a cárie poderia apenas ainda ter afetado o esmalte.

Queria dizer-vos, a propósito, que a cárie é contagiosa e se existe um dente com cárie é muito provável que comece a afetar os outros dentes! Logo, prevenir é a melhor solução. 

A saúde oral está ao nosso alcance. Basta querer! O seu médico dentista pode orientá-lo(a), na obtenção do equilíbrio geral em termos de saúde, conceito com que iniciei este texto.

UM SEX-SHOP RURAL

HELDER BARROS
Uma moça das aldeias das terras de Basto, conhecida por Maria Bonita, desde muito nova, sempre gostou de dar nas vistas, quer pela sua beleza natural, quer pelo seu temperamento um pouco intempestivo e com uma personalidade muito marcada, nem sempre pelos aspetos mais positivos; enfim, desde miúda, uma jovem muito temperamental e pretensamente dominadora nas mais diversas situações.

Desde cedo, por volta dos catorze anos, começou a namorar um rapaz com quem mais tarde haveria de se casar, praticamente a seguir ao momento em que atingiu a sua maioridade. Escusado será dizer que, o seu relacionamento foi sempre marcado por muitas discussões, avanços e recuos, com Manuel Góvias, uns sete anos mais velho que ela. Mas, Maria Bonita, com o seu temperamento de jovem fêmea denominadora e caprichosa, de mais vale quebrar do que torcer, gostava de dominar as situações, ou de ficar sempre por cima, salvo seja!

Manuel Góvias, trabalhador da construção civil como manobrador de máquinas, era desde novo, um emigrante no México, onde trabalhava há muitos anos. Assim, depois de casar a sua vida continuou como antes; praticamente um mês em Portugal e os restantes a trabalhar na América do Sul, onde além de laborar muito, se divertia aos fins de semana, com as mexicanas “calientes”.

Maria Bonita, a mais nova de cinco raparigas, já veio como se diz na aldeia, fora de tempo, portanto foi sempre a menina querida, habituada a contornar as situações e a conseguir os seus intentos, através do seu charme de jovem bela e caprichosa, do seu feitio irreverente e possessivo; aliás os progenitores queriam muito um rapaz, mas saiu-lhes uma moça de pelo na venta, como se costuma dizer.

No seu percurso escolar, algo atribulado, depois de ter frequentado cursos de educação e de formação, cursos profissionais grupos de características problemáticas, Bonita sempre se conseguiu safar, quer copiando, quer enganando os professores das formas mais incríveis que se possa imaginar. Tinha no seu sorriso e no seu olhar penetrante e enigmático, nas suas cenas de mimo, sedução e de capricho, como fórmulas para contornar as dificuldades.

Basicamente, estava habituada a ter tudo o que queria, na sua relação com a Escola, com o Namorado, com os Pais, com o Rancho Folclórico local e com as suas amigas e amigos. Desarmava-os com o seu charme feminino, mimo, cenas de orgulho, amuos e outras diatribes, saindo sempre com o seu sorriso vencedor e olhar penetrante.

O Manuel Góvias, ganhava muito bem para o nível de vida português e era um ótimo marido para responder às exigências e caprichos de Maria Bonita. Por incompatibilidade de feitios andavam sempre zangados, o que Bonita usava sempre em seu favor, conseguindo tirar partido das reconciliações temporárias. Parte do tempo não se falavam, quer presencialmente, quer à distância. No entanto, foram o casal sensação da aldeia: O Manuel Góvias e a Maria Bonita. Apesar de bem casada, ela foi trabalhar para um supermercado, onde não tinha vida muito fácil, pois além de ter uma relação precária com a instituição, o ritmo de trabalho era muito forte, mormente para os novatos, a quem atribuíam as tarefas mais complicadas e onde ser colega, não significava, nem pouco mais ou menos, ser amigo de alguém. Num ritmo de autofagia dominante, cada um tentava escapar e subir na profissão de formas mais ou menos honrosas. Naquela selva, nem o capricho de Bonita se conseguia impor... o que a deixava amargurada!

Também pela sua idiossincrasia, não tinha amigos, pois todos absorviam a sua alegria enquanto precisavam dela, mas rapidamente a esqueciam e ignoravam, logo que já tivessem retirado dividendos da sua energia positiva, de menina que andava sempre com um sorriso no rosto e a fazer das suas. Praticamente, quase nenhuma das amigas do tempo de escola, mantinha a relação de amizade anterior com ela. Sempre se aproveitaram dela, gostavam do sorriso de Bonita, da sua alegria, da sua natural tendência de tomar a iniciativa e de contornar dificuldades que ela tinha sempre revelou; mas, no fundo; invejavam-na, só queriam aproveitar a sua alegria e energia, que não tinham… por isso a odiavam e a desprezavam inexoravelmente!

Maria Bonita estava a ficar cansada daquele stress da vida ativa, para o qual não estava preparada, mas o seu desgaste maior era de índole psicológico, dado que estava habituada a comandar as operações, ficando de repente aprisionada de uma forma quase lancinante.

Por outro lado, o Manuel Góvias, começou a pressionar Bonita para que esta pensasse em ter um filho, facto que ela não pretendia, pois era muito nova e queria curtir a vida, pelo menos era o que dizia a todos os que a interpelavam nesse sentido. Afinal, é perfeitamente normal, numa aldeia, moça casada, criança esperada…

Ora Bonita é que não achava piada nenhuma à ideia e mais, como não estava a gostar do seu trabalho, retomou uma ideia que sempre guardou na sua ingenuidade simples, passe a redundância: abrir uma Sex-Shop nas terras de basto, pois era um nicho de mercado, segundo ela, por aproveitar, dado que não havia nenhum estabelecimento do género aberto ao público até à data; um autêntico filão por aproveitar, na sua forma simples de pensar.

Havia então que convencer marido, sogros pais e irmãos, e as personagens ainda algo retrógradas da aldeia, pelo menos assim o pensava ela, para esta sua ideia que ia abanar a mentalidade das terras de Basto e arredores, dada a sua inovação, sentido de modernidade e pelo seu amplo mercado potencial. Claro está que, em meios pequenos tudo se sabe rapidamente, ainda mais porque Bonita costumava pensar alto, falando nas reuniões de família, no Rancho Folclórico que continuou a frequentar e em todos os lugares, onde chegava a sua alegria. Marido, sogros, família e aldeia em geral, tudo se virou contra Bonita que depois de uma experiência com muito stress laboral, teve que se aguentar com o que de pior as pessoas são formadas. Foi por isso, muito maltratada, dentro e fora de casa, junto dos seus e dos outros, traída pela sua forma simples de ser, de querer, de fazer... e finalmente descobriu que, quase nunca se pode ter a vida que se quer, pois a envolvente ainda controla muita gente!

Fernando Pessoa: “Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir - é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.”