Do alto do seu metro e sessenta de ossatura, aos olhos água-marinha nada lhes escapava: os trocos quando comprava as notícias do dia, o silêncio dos vizinhos ante a sua saudação, o céu se prometia sol, ou chuva, os estendais do logradouro com as bandeiras do asseio, os lírios do jardim do bairro se floresciam, as rugas que o tempo ia desenhando quando não se reconhecia no espelho do lavabo. Não tinha agenda pessoal, nem calendário na parede da casa onde vivia. O telefone emudecera, a campainha da porta só dava de si se o carteiro aparecia com as facturas da água ou da luz, a colecção de postais não prometia herdeiro. Tinha no roupeiro um fato, que engomava quando era preciso, apenas para os dias do seu aniversário, quando soprava as velas sem ter presente quem o aplaudisse, ou para levar a público em dias de eleições, sem convicção, e orara para que fosse nele bem embrulhado, apenas com a medalha de serviço como bom soldado na lapela, depois da encomendação da sua alma, não sabia se merecida como a medalha. Regava os vasos que debruavam os lances da escada, cujos degraus eram a sua sina, punha migalhas de pão no parapeito da janela para os fiéis pardais, cujo matinal canto era a sua sina, fazia as palavras-cruzadas do jornal, cuja adivinhação era a sua sina. Dava esmola aos pobres, sonhava na companhia das músicas que o rádio de cabeceira destilava, ria-se do seu papel de soberano no reino das fantasias. Até ao dia em que comprou um bilhete premiado na tabacaria do bairro. O senhor Adão passou a ser saudado, pagava as contas próprias e do alheio, a sua opinião era tida em conta, e tinha já uma mula chamada mercedes que carregava as suas extravagâncias ante a admiração pública. Houve um dia em que as flores murcharam nos vasos da escada, em que os pardais deixaram de o visitar e o senhor Adão se achou no direito de não responder à saudação da sua pessoa. Quando um dia procurou no seu dicionário, que apodrecera entre bibelôs, o significado da palavra felicidade, e folheou, folheou, folheou e viu que pertencia a um mundo onde os lírios vingam no cimento e a chuva cai sobre os oásis. O senhor Adão queria morar no metro e sessenta, mas os seus olhos água-marinha eram já cinzas.
Só dás pelo tempo quando dói, quando a agonia lancinante te rasga o fegundo esgar dessa amorfa existência. E nessa dor, tantas vezes dilaceras, por prazer ou por impotência, a tua nobre e singela essência, reduzindo-a a cacos subjugados às vontades alheias.
Só dás pelo tempo quando é tarde demais, quando o comboio das oportunidades já apita ao longe na curva das reprimidas vontades e das mentiras que nunca se tornaram verdades. Nesse medo, do futuro e do desconhecido, dás pelo tempo que atropelou o que tanto desejavas e que não mais regressou.
Só dás pelo tempo quando anseias acalmar o bater do teu coração, em busca de amor ou da satisfação que, alheia a ti, escorre pelos ponteiros lentos do relógio que teima na tortura que jaz dentro desse tempo que não se apressa.
Não dás pelo tempo que escorre e se esvai todos os dias, em cada minuto, e despreza-lo porque o tempo não existe para além dos horários a cumprir. Nesses momentos, eternizas o tempo, congelando o que és para consumir no tempo certo.
Mas o tempo não pára e não te permitirá qualquer acerto. O que passou, passou. E na irrecuperabilidade do tempo passado, alimentaste os dias em que não foste nada.
Só dás pelo tempo quando dói, quando a agonia lancinante te rasga o fegundo esgar dessa amorfa existência. E nessa dor, tantas vezes dilaceras, por prazer ou por impotência, a tua nobre e singela essência, reduzindo-a a cacos subjugados às vontades alheias.
Só dás pelo tempo quando é tarde demais, quando o comboio das oportunidades já apita ao longe na curva das reprimidas vontades e das mentiras que nunca se tornaram verdades. Nesse medo, do futuro e do desconhecido, dás pelo tempo que atropelou o que tanto desejavas e que não mais regressou.
Só dás pelo tempo quando anseias acalmar o bater do teu coração, em busca de amor ou da satisfação que, alheia a ti, escorre pelos ponteiros lentos do relógio que teima na tortura que jaz dentro desse tempo que não se apressa.
Não dás pelo tempo que escorre e se esvai todos os dias, em cada minuto, e despreza-lo porque o tempo não existe para além dos horários a cumprir. Nesses momentos, eternizas o tempo, congelando o que és para consumir no tempo certo.
Mas o tempo não pára e não te permitirá qualquer acerto. O que passou, passou. E na irrecuperabilidade do tempo passado, alimentaste os dias em que não foste nada.
Nascido a 2 de novembro de 1877 na freguesia de São Gonçalo de Amarante, morreu a 14 de dezembro de 1952 no Solar de Pascoaes em Gatão, pertença da sua família, de onde retirou o seu nome literário pelo qual ficou conhecido. Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos, de batismo, é filho de Carlota Guedes Monteiro e de João Pereira Teixeira de Vasconcelos, deputado às Cortes por Amarante e abastado agricultor. Era tido como um homem de cultura e inteligência notáveis bem como um brilhante conversador pelo que exerceu uma profunda influência na orientação intelectual e espiritual do seu filho.
Este soneto de Florbela Espanca tem, sem sombra de dúvida, todos os ingredientes adequados à beleza, à fantasia, à musicalidade, e são de tal ordem estes predicados que inspiraram e deram corpo a uma das mais belas canções da música portuguesa – Perdidamente, dos Trovante (ver e ouvir o vídeo inserido exactamente acima!). E, no entanto, o poema perde a sua grandiosidade ao atrofiar-se tristemente no terceto final! Reparem: Florbela Espanca enuncia o sujeito poético na sua universalidade e fá-lo, soberanamente, em 11 versos, através dos quais, literalmente canta o vigor e a alma da fome única de quem sente e, pelo sentimento, se transmuda. Mas depois, na chave do soneto, confina tudo ao seu próprio eu, atrofia o estro vibrante, o ser maior e mais alto do que os homens, o condensar o mundo num só grito, o ter fome e sede de infinito, o esplendor de mil desejos e por aí adiante, amordaça toda esta grandeza no seu amar perdidamente, em que faz de outro eu ser alma e sangue e vida em mim e na urgência de o cantar para ser ouvido por toda a gente! O sujeito poético dilata-se, aparentemente, durante a maior parte do soneto e, quando esperávamos que ele se abrisse a uma odisseia mil vezes superior à que foi cantada, eis que Florbela Espanca mergulha no solipsismo, de onde afinal não tinha saído antes, mas para cuja ilusão nos projectou.
É claro que Florbela Espanca teria que suicidar-se, porque, a ser assim, tal como se escreve, tinha que sofrer profundos desequilíbrios psicológicos e o suicídio pode ser a porta de saída da loucura. Ela nunca abandonou o ensimesmamento, nunca soltou as amarras de si para si própria, em direcção ao Outro, todo o seu mundo é reflectido em si, apenas em si, e eis a dor, a melancolia, as trevas, a intensa e alucinante peregrinação por abismos tornados delirantes no seio de um narcisismo sem apelo. Se acaso ela houvesse um dia descoberto verdadeiramente, o Outro e, através dele, todos os outros, sem dúvida aceitaria continuar viva, sem dúvida teria escrito outra chave para este soneto, apesar de tudo musicalmente magnífico!
Meus dias de rapaz, de adolescente,
Abrem a boca a bocejar, sombrios:
Deslizam vagarosos, como os Rios,
Sucedem-se uns aos outros, igualmente.
Nunca desperto de manhã, contente.
Pálido sempre com os lábios frios,
Ora, desfiando os meus rosários pios…
Fora melhor dormir, eternamente!
Mas não ter eu aspirações vivazes,
E não ter como têm os mais rapazes,
Olhos boiados em sol, lábio vermelho!
Quero viver, eu sinto-o, mas não posso:
E não sei, sendo assim enquanto moço,
O que serei, então, depois de velho.
António Nobre, eis outro decadente, capaz de expandir em beleza a força da sua dor e cativar-nos por ela, mas caindo, também ele, nas linhas deste soneto, na omnipotência de um eu que não lhe permite viver. Observem que tudo neste poema é mera técnica, mero jogo de palavras, nada acrescenta, nada nos diz, em nada levanta o eu para lá da misantropia. Morreu muito jovem (33 anos), vítima de tuberculose, essa, que imolava os fracos e que os punha cansados e famintos, cadáveres ainda vivos, soltando suspiros e cuspindo sangue! Este soneto traz a marca da doença e o estigma da fragilidade. Destino? Herança? Acaso? Talvez que se António Nobre pudesse ter ressuscitado da melancolia decadente e fatalista dos seus versos e erguido a ser em pose triunfante, a tuberculose não o houvesse derrotado e ele pudesse redimir a vida!
Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busca anelante
O palácio encantado da Ventura!
Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura…
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!
Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado…
Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas d’ouro, com fragor…
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão – e nada mais!
Outro suicida, este Antero de Quental, aqui narrado por ele mesmo como o que bate vãmente às portas do ideal, aquele que, armado em cavaleiro andante, quer tomar de assalto, para si próprio, o Palácio Encantado da Ventura! E quer abrir a golpes as portas d’ouro do palácio gritando Eu sou o Vagabundo, o Deserdado… mas como podem não ser repletas de silêncio e de escuridão as portas dos palácios dos vagabundos, dos deserdados? Para lá do seu génio, para lá da limpidez da sua voz e do ritmo magnífico dos seus versos, a nota é o desalento, o emparedamento no eu, a incapacidade de transformar-se em Nós e aderir ao Todo. E que pode restar a tais seres senão, muito simplesmente, dar o tiro redentor na cabeça esvaída, ausentando-se de uma vida que não puderam viver em pleno?
O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.
Alberto Caeiro também foi um ensimesmado e também morreu de tuberculose! E aqui, neste poema de amor, vemos como a fraqueza do eu se redime na amada e como tudo se esvai de modo desolador quando ela está ausente: "Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas. Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela." É terrível amar assim, é terrível ser/existir apenas através de um outro eu, a ele se apegar e dele viver ou nele se consumir! Bem sei que Alberto Caeiro é um fantasma de Fernando Pessoa, bem sei que ele se multiplicou infinitamente, e este pobre desgraçadinho que plange pelos caminhos do seu triste mundo não teve sequer um corpo. Mas agora pensem: se Fernando Pessoa o criou como um outro de si, não haveria nele também um Alberto Caeiro pobrezinho e abandonando, amando e plangendo, por nada ser sem aquela que ama? E afinal também ele – o criador do fantasma – morreu na miséria de si!
Homens! A poesia é um instrumento, uma arma, um poderoso meio de transmissão de sentimentos do sujeito poético para o mundo!
Homens! O mundo está prenhe de terror, de raiva, de violência e de ódio!
Homens! O mundo já chora e geme, individual e colectivamente, por dores muito concretas que nenhuma redenção parece ter poder para sanar.
Escrevei, homens, escrevei, poetas, lançai para o mundo a voz e a palavra! Mas, se acaso for de dor o vosso canto e se acaso for apenas vosso e se de nada valer para redimir a dor universal do homem sitiado, guardai-a, ensimesmai-vos mais um pouco na magia dolente da vossa própria melancolia e só saiais da vossa toca quando fordes capaz de trazer gritos verdadeiros de catarse, em que o eu subjectivo e lamuriante seja a afirmação suprema do Ser e o sim à vida! ( E eu sei perfeitamente que Florbela Espanca e António Nobre e Antero de Quental e Alberto Caeiro são grandes nomes da literatura portuguesa e deles recebemos herança e neles nos revemos enquanto expressão sublime da língua que nos estrutura…mas não choremos por eles e com eles, porque o choro atrasa a tarefa de erguer os ombros e encarar de frente o prodígio extraordinário de sermos os porta-vozes inflamados do futuro!)
Talvez não precisemos de razões e nos bastem os ideais. Talvez as ideias que levam às ações sejam mais do que meios e consigamos atingir os fins usando só o que o inconsciente nos mostra mas raramente somos capazes de perceber. Quem sabe. Talvez seja mesmo amor ou estejamos perto dele, sem o saber. Porque hoje acordei a pensar em ti mas, por outro lado, não me recordo se sonhei contigo. Não sei se somos feitos de saudade mas a saudade faz parte de nós e chega a tornar-nos parte dela. Não sei, sequer, se é sempre nossa.
Definitivamente, é amor. Ou isso, ou estamos perto dele. No fundo, eu sei. Somos feitos de saudade que não é nossa, de saudade que se começa a fazer sentir quando começamos a ser dela.
Tenho saudades tuas. Talvez acabe por matá-las ou elas me matem a mim. Definitivamente, não precisamos de razões. Eu amo-te e acordo a pensar em ti como se tivesse sonhado contigo.
Em que te tornaste tu Romeu? Trocaste o cavalo branco por uma besta negra que acelera com dentes de sangue em direção à tua princesa. Tu Romeu que perdeste o romantismo e te alimentas do medo, da humilhação, da frustração, do pavor e do terror alheios! Quem és tu Romeu? Tu que promessas fizeste e agora lavas as mãos com o sangue da tua amada. Que tens os teus cinco minutos de fama mas que só serás recordado como um homem vil.
Em que te tornaste tu Julieta? Deixaste-te conduzir num cavalo negro como a cor que te dilacera o coração, adiaste as promessas que te fizeram para te tornares na mais miserável escrava no teu próprio reino. Quem és tu Julieta? O teu corpo jaz agora numa capa de jornal, sem brilho, nem fama nem glória. Tu que aguentaste calada quando querias gritar, que ficaste imóvel quando querias quebrar, que te deixaste ficar quando o que mais querias era partir.
Que amor é esse Romeu, que agora levas para a cela putrefacta em que te tornaste? Nunca mais serás recordado nem aplaudido por qualquer plateia!
Que amor foi esse Julieta, que banhaste com o teu próprio sangue já frio como o peso que trazias no peito? Serás recordada mas não mais aplaudida porque dos mortos não reza a história daqueles que ainda vivem!
Volta Shakespeare! Reescreve a história. Não a de Romeu e Julieta que morreram por se amarem demais, mas a história de amor dos homens que só se amaram a si próprios e das mulheres que amaram mais do que a si mesmas.
«Não me preocupo com o Ser
Do ser daquilo que é ou que não-é.
Porém, o vazio do espaço e do tempo
Sempre me atrofia o cérebro, Sempre trava os movimentos Do meu corpo, lânguido.
- Porque vos espantais?
Somos corpo e mente,
Cérebro consciente e inconsciente
Puro complexo físico-químico.
- Porque ficais atónitos?
Somos veias, sangue, espinal medula,
Células, átomos, moléculas,
E, também, mágoas.»
Isabel Rosete, in livro "ENTRE-CORPOS", de Isabel Rosete
O mar azul, na verdade, pinta-se como um arco-íris.
Não é só água, é essencialmente vida…
Algas, bússolas, castelos de areia,
Descobridores, estrelas – do- mar, focas
Gaivotas, horizontes, ilhas,
Jamantas, km de imensidão, lulas,
Medusas navios, oceanos,
Peixes borboletas, quadrantes, rochas
Sal, tesouros, universal
Viagens,
Xaréus, ying-yang, Zarpar
Rumo aos sonhos de Júlio Verne…
In Mar-à- Tona- As cores do Mar- Antologia de Poesia 2016
Cresce uma flor no jardim de um coração. Jaz ali sentimentos abandonados, que a distância foi matando pouco a pouco na rotina diária. Hoje nem palavras são… apenas pétalas dessa mesma flor que procura sobreviver nos dias curtos, frios e sombrios de um tempo tão distante. Não se pode arrancar ou fazer voar frases já ditas e sentidas. Foi assim que o amor que parecia ser verdadeiro se tornou tão agreste.
Olha-se em redor e a volta a cidade de pedra adormecida ainda que por breves instantes no frio silêncio das madrugadas. As janelas parecem imóveis ao tempo e as intempéries mas por detrás esconde-se tudo. Ocultam- se verdades e mentiras sinceras.
Perdi parte das letras e das asas. Aprende-se que regressar a essência é a única resolução acertada de um enorme labirinto que rodeia o coração onde cresce uma flor.
Ali estávamos nós reunidos, eu e um grupo de jovens estudantes, para procurarmos ter esse encontro com a poesia.
Mas para nos encontrarmos com a algo ou com alguém, precisamos, primeiramente, de saber onde está.
Onde estará a poesia?...
Onde é que costumam encontrá-la, se é que a encontram?
Fiz a mesma pergunta aos meus alunos do 7.º ano. Eis algumas das respostas:
… num só mundo, em que o TEMPO não é problema, e em cada acção existe um forte SENTIMENTO.
… está em todos os LUGARES, com todos os sentimentos.
Ora, nestas breves impressões sobre o que poderá ser a poesia e onde encontrá-la, os alunos destacaram essencialmente três aspectos: tempo, espaço e sentimento. E referem-nos como aspectos abrangentes ao universo poético.
Também António Gedeão refere “Todo o tempo é de poesia. // Desde a arrumação ao caos / à confusão da harmonia”*.
Ora, seguindo esta linha de pensamento, poderemos dizer que a poesia não tem tempo (pode pertencer a qualquer tempo); que qualquer espaço / lugar pode ser cenário para a poesia; e que qualquer sentimento pode ser abordado no texto poético.
Na verdade, no que diz respeito ao sentimento, esta conclusão (de que qualquer sentimento pode ser abordado no texto poético) não foi prontamente retirada pelos alunos. Ao iniciar as actividades de estudo do texto poético, comecei por colocar-lhes algumas questões simples sobre o mundo que nos rodeia, desde natureza, pessoas, objectos, sentimentos. Desde logo, a sua maior dificuldade foi associar a poesia a sentimentos e aspectos negativos da vida do ser humano, como “dor”, “tristeza”, “choro”, “morte”. Inicialmente, os alunos responderam “não” a estas situações. Ou seja, quando as perguntas que lhes fiz referiam situações de instabilidade, confusão, mal-estar, sofrimento, os alunos diziam que não eram associadas à poesia.
Já por isso, Eugénio de Andrade dizia que “Toda a poesia é luminosa, até / a mais obscura”.**
Por que razão os alunos associavam a poesia apenas a “coisas boas”?
Há uma ideia pré-feita de que a poesia é risonha e harmoniosa; que enaltece o sonho, a magia, os passarinhos e as borboletas; que realça as coisas boas e belas da vida.
Foi com este pressuposto que, de seguida, lhes coloquei à disposição diversos poemas em áudio e também algumas canções para eles ouvirem, e as suas respostas mudaram radicalmente.
Ora aí está. As coisas belas da vida são também tocadas pelo sofrimento e por circunstâncias menos harmoniosas.
De pequenino…
As cantilenas e outros textos da tradição oral transmitem ensinamentos, exercendo uma importantíssima função social. É fundamental, por isso, cultivar, desde muito cedo, o gosto pela língua, já que sem memória colectiva não há conhecimento.
A poesia que nos é transmitida desde a mais tenra infância – das rimas, das cantigas, da sonoridade da palavra – marca-nos para sempre. Se recebemos elementos poéticos na infância, estamos, certamente, preparados para ler e ouvir ler poesia; alguns estarão também preparados para escrever poesia.
Quando acabamos de ler / ouvir um poema, o encontro com a palavra não acaba ali. Há uma vibração que fica, como quando ouvimos música. Isso faz da poesia um texto especial, solto de convenções.
Uma vez, num “encontro” em que participei, Fernando Dacosta referiu que “a poesia é mais transcendente porque tem a ver com inquietação – somos um povo de inquietude. Não somos trágicos, somos nostálgicos. Somos muito ligados ao invisível, ao mistério, à morte”. Somos um povo de contadores de histórias, de cronistas e poetas notáveis. Somos muito vocacionados para a imaginação e a memória, “ingredientes” da criatividade.
Quando eu era pequenina, a minha mãe era costureira, e cantava enquanto costurava; dizia pequenas rimas como aquela da criada “lá decima é feita de papelão”. Isto ficou para sempre gravado na minha memória e dos meus irmãos.
Rapidamente, os alunos começaram a lembrar pequenos poemas, lengalengas, cantigas, fábulas em verso, em que poderia estar presente qualquer sentimento, situação ou emoção, como é o caso meramente exemplificativo de: “Joaninha, voa, voa / Que o teu pai está em Lisboa”; ou de “Fui ao Porto / A cavalo num burro morto”.
Rapidamente, verificaram que tudo pode contribuir para a “arrumação” do texto poético.
A poesia está em tudo e tudo está na poesia.
No cultivar o gosto pela poesia, devemos ter em linha de consideração, antes de mais, a poesia pela poesia, começando do mais simples para o mais complexo. É desejável que o contacto dos alunos com a poesia seja continuado, regular, provocado e variado, não devendo o professor deixar-se intimidar com as supostas questões de dificuldade, antes devendo valorizar a dinâmica do imaginário. Como ouvi, uma vez, dizer ao poeta Fernando Pinto do Amaral “a poesia não tem relógios nem livros de ponto”.
A poesia surge, na sua essência, como forma de pensamento, que se traduz em formas de sentir; uma necessidade humana de expressão fundamental com um forte contributo civilizacional. É, no fundo, um legado.
Assim, também Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) diz “Sou um guardador de rebanhos. / O rebanho é os meus pensamentos / E os meus pensamentos são todos sensações”.***
Se analisarmos o valor intrínseco da poesia, encontramos os diferentes valores que a compõem, desde o fónico-rítmico, o métrico, o estilístico, o técnico-compositivo e o semântico-pragmático.
A poesia está recheada de significações, imagens e recursos expressivos, representando a realidade, desenvolvendo o sentido estético, assim como a criatividade, e ajudando na promoção do desenvolvimento pessoal e social.
Então, o que é ser POETA?
E os alunos disseram:
Ser Poeta é…
… ser criador de sentimentos.
… ser sonhador, navegar num mundo de felicidade e dor.
… alguém que escreve observando qualquer objecto ou lugar. O POETA VÊ POESIA EM TUDO!
Por fim, alguém ainda acrescentou que a poesia é…
… um sonho em bruto derramado numa folha de papel.
Não é fantástico?
*António Gedeão, In: "Fala do homem nascido".
**Eugénio de Andrade, In Os Sulcos da Sede.
*** Fernando Pessoa, “O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro.