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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

A MAGIA DO CINEMA

RAQUEL EVANGELINA
Domingo é noite de Óscares. Mas a minha crónica não vai ser a fazer uma análise aos candidatos nem aos que deveriam estar a concorrer. Até porque, honestamente, apesar de gostar de ver a cerimónia sou mais adepta da seleção feita pelo Festival de Cannes. Não obstante esta noite que se aproxima deu-me a ideia do tema a abordar na crónica desta semana: Cinema. Goste-se ou não se goste toda a gente, pelo menos a que tem acesso a televisão, já viu um filme, ou partes de um.

A primeira vez que fui ao cinema tinha 5 anos. O meu pai folgava às terças-feiras e como eu não andava ainda na escola passava as folgas com ele. Levou-me a ver “O Rei Leão”. Quando o pai do Simba morreu desatei a chorar. Não sei se por desde miúda ser sensível à dor dos outros ou até mesmo influenciada por ele ficar sem pai e eu ter o meu ali ao lado quando presenciei a cena. Desde aí que sou uma cinéfila. Não tenho um género de filme favorito. Eu vejo tudo. Gosto mais de filmes cuja história seja interessante e não sou muito dada ao chamado “filme de pipoca”. Apesar de também os ver. Os meus pais não ligam muito a filmes. Mas quando eram novos sim. A minha mãe conta que quando estava grávida de mim ia basicamente todas as semanas ao cinema. Daí virá o meu gosto pelos filmes, apegou-me quando eu estava na barriga.

Aprendi imenso com os filmes. Graças a eles hoje sei falar inglês. Sei também desenrascar-me em francês porque faço parte da pequena percentagem de pessoas que gostam de cinema francófono. O cinema é uma boa ferramenta para aprendermos novos idiomas. Também o é para dar lições de História ou mostrar-nos histórias de pessoas extraordinárias. Graças ao filme “O Pianista” hoje sei um pouco quem foi Władysław Szpilman. Descobri recentemente que um espanhol a quem foi diagnosticado esclerose múltipla e a quem foi dito que não conseguiria andar mais de 100 metros conseguiu fazer um triatlo. E sabiam que o grande amor de Édith Piaf morreu num desastre de avião e que o “Hymne à l’amour” foi escrito para ele? Eu sei graças ao cinema.

É isto que gosto na 7ª arte. O cinema faz-nos aprender, torna-nos mais cultos. Choramos, rimos, sofremos, “apaixonamo-nos” até, mesmo sabendo que aquelas pessoas não são reais e que o que vemos não existe. Mas o que ressalvo no cinema é como ele nos faz sonhar. A Amélie Poulain que nos ensina que por muito difíceis que os tempos estejam para os sonhadores não se deve perder a esperança, o Forrest Gump e a sua inocência e bondade, a Bela e o Monstro a demonstrar que nem sempre o mais bonito é o que importa e, voltando ao Rei Leão, que sempre que tivermos um problema só temos que dizer "Hakuna Matata" e tudo fica melhor.

Portanto se por vezes a vida não estiver a correr bem vejam um filme. Não vos solucionará os problemas mas fará ver, ou pelo menos acreditar, que às vezes tudo é possível. E que tudo passa. Basta crer.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

MARGOT FONTEYN

PAULO SANTOS SILVA
Faz hoje 27 anos que faleceu um dos maiores expoentes da Dança, na vertente do Ballet Clássico – Margot Fonteyn.

Tendo nascido como Margaret Evelyn Hookam, a 18 de maio de 1919, esta filha de pai inglês e mãe irlandesa (descendente de brasileiros), transformou o apelido da família da mãe (Fontes) no Fonteyn que associado à uma alteração do Margaret num mais “afrancesado” Margot, lhe deram um nome artístico que ainda hoje é conhecido.

A jovem Margot entrou para a famosa Sadler’s Wells em 1931, onde pelas sábias mãos de Ninette de Valois e de Frederik Ashton rapidamente evoluiu ao ponto de apenas 4 anos depois com apenas 16 anos se ter tornado na sua primeira bailarina. 

Estava, pois, na forja a companhia que se viria a designar de Royal Ballet e que viria a ser sediada na Royal Opera House, no mítico Convent Garden. O Royal Ballet foi a primeira companhia de Ballet do Reino Unido e é, ainda hoje, a mais importante.

A primeira digressão aos Estados Unidos (mais propriamente a Nova York) realizada em 1949, foi um sucesso para o qual muito contribuiu a parceria Ashton e Fonteyn, sendo que Margot funcionava para o coreógrafo como uma espécie de musa inspiradora. Exemplificativo dessa feliz parceria é Ondine, de 1958.

A primeira visita do Royal Ballet à Rússia, onde se encontravam expoentes do Ballet Clásico como o Bolshoi, data de 1961. É após esta visita que se forma um dos pas-de-deux mais famosos (senão mesmo O mais famoso…) da história do Ballet – Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev. Apesar de Nureyev ser 20 anos mais novo, isso não impediu que a dupla fosse absolutamente idolatrada até 1979, ano em que Margot abandonou os palcos.

No que diz respeito à vida pessoal, Margot casou-se em 1955 com o diplomata panamiano Roberto Arias, filho de um antigo presidente do mesmo país. Roberto foi atingido a tiro por um colega de partido, em 1964, por suspeitar que este mantinha um relacionamento com a sua mulher, tendo ficado paralítico. Depois de se retirar dos palcos, dedicou-se ao marido tendo vivido até a morte dele em 1989, na sua fazenda do Panamá.

Margot Fonteyn foi a grande diva do Ballet Clássico do Século XX. É por isso que ainda em vida, ela e Nureyev foram homenageados com a mais inteira justiça, o que não deixa de ser curioso uma vez que vivemos numa sociedade que tantas e tantas vezes, apenas atribui a grandeza que as pessoas merecem quando elas desaparecem.

Margot Fonteyn, faz parte do imaginário de todos aqueles que estudaram ou simplesmente apreciam o Ballet Clássico. Afinal de contas, foi durante 37 anos a Presidente da Royal Academy of Dance, instituição respeitadíssima do mundo da Dança e que se encontra espalhada pelo mundo inteiro!...

Delicie-se, pois, com Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev numa interpretação do bailado Romeu e Julieta!!!

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

MÚSICA E MÚSICOS DA GUINÉ-BISSAU

JOANA BENZINHO
Na Guiné a música acompanha tudo e todos desde o nascimento até à morte. Tudo é motivo para chamar as vozes e os instrumentos musicais, independentemente da etnia. O nascimento celebra-se ao som de música; o início da idade adulta (Fanado) implica naturalmente música; as colheitas iniciam-se e concluem-se com cerimónias musicadas; o pedido de casamento e a cerimónia em si, obrigatoriamente decorrem ao som da música; a morte, celebrada com o "Choro" no falecimento e o "Toca choro", quando a família se junta com os amigos a comer e a beber numa festa que ajuda os espíritos a subir ao mundo espiritual, também não poderia ser feita sem o ritmado bombolom.

Serve então para momentos de alegria, de fortuna, de tristeza, de celebração, de mistério e dos muitos ritos animistas.

Os instrumentos tradicionais - a Kora (uma harpa-alaúde de 21 cordas), a Tina (tambor de água composto por uma cabaça cortada a meio e tocada dentro de um recipiente com água) o balafon ( tipo xilofone) ou o bombolom (tambor longitudinal feito a partir de um tronco comprido com uma abertura fina que é percutida com baquetas) são constantes nas tabancas guineenses, em função das etnias e das suas tradições. Acompanham as vozes das mulheres na canção tradicional e são acompanhados muitas vezes por palmas e danças ritmadas e bem distintas conforme as origens étnicas e diversas regiões do país.

Mas além de instrumentos, a Guiné é rica em autores e cantores. Em Bissau abundam as "serenatas", festas de salão, uma espécie de matinés que se prolongam tarde e noite fora com cantores da melhor estirpe a interpretar temas de José Carlos Schwartz (poeta e músico guineense, autor de alguns dos maiores sucessos da música nacional) dos Super Mama Djombo, mornas de Cabo Verde e as suas próprias criações músicais.

Sempre que posso, faço a volta das capelinhas para os ouvir cantar. Todos os dias há um espaço com música ao vivo, todos os dias sabemos que esse espaço enche com jovens e menos jovens, amantes do melhor da música. Todos fazem coro com a alma toda colocada na voz a cantar letras claramente datadas, muitas delas de intervenção, de um tempo em que a música era uma arma contra o colonialismo e o único grito de liberdade que lhes podia sair da garganta. 

As letras falam da Apili que perdeu o seu homem combatente, da Ilha de Galinhas, ilha prisão colonial onde o autor José Carlos Schwartz esteve detido, 

do menino que chora cansado de ver sangue, das mulheres de pano preto, de esperança, de dor, de um fado muito próprio de um povo que ainda hoje cura feridas desse passado recente.

Encontramos também os cantores mais recentes e alguns com carreiras internacionais firmadas que, sem falsos vedetismos, vão cantar lado a lado com os menos conhecidos, onde a festa acontece. E esta acontece em vários locais.

Há na cidade um contentor, de que não sei o nome (acho que na verdade não tem) mas onde vou comer muitas vezes umas espetadinhas assadas no fogareiro, onde o Demba Baldé, com conservatório feito na Holanda, anima muitas das noites com a sua guitarra e voz inconfundíveis, dando palco a todos os que lá passam, e não são poucos. Já lá vi passar grande parte dos nomes mais conhecidos da Guiné-Bissau.

Ali perto, um supermercado, à noite vira bar com música ao vivo. Na caixa, onde durante o dia vamos comprar leite, podemos pagar à noite umas cristais bem geladinhas e comprar uns enlatados para picar enquanto ouvimos boa música instalados ao lado das colunas de som, na berma da estrada.

Continuando a rota musical, chegamos ao Djabaté, casa da famosa cabra sempre a sair da grelha, outro contentor rodeado de mesas e cadeiras, com um ecrã vistoso que passa novelas brasileiras até de madrugada, para delícia dos muitos que não têm luz ou tv em casa, e, claro, a música ao vivo que atrai diariamente muita gente até aqui pela madrugada fora. 

E depois há as festas de circunstância, o passa palavra que junta músicos e amantes da sua arte nos sítios menos prováveis, os djambés que se tocam noite fora numa qualquer festa improvisada.

A Guiné-Bissau alberga um lote de músicos de mão cheia que davam uma colectânea de indiscutível qualidade mundial. Nesta eu incluiria seguramente o José Carlos Schwartz, a Eneida Marta, o Zé Manel, o Demba Baldé, o Klim Mota, o Binham, o Micas Cabral, a Karina Gomes, o Miguelinho Simba, o Bidinte, o Atanásio Hatchuén, a Dulce Neves, a Iragrete Tavares, o Manecas Costa ou o Justino Delgado. Entre outros.

Enquanto não chega o disco até nós, ou a possibilidade de viajarem a até Bissau para os ouvirem ao vivo não se concretiza, convido-vos a darem uma espreitada a estes músicos no youtube. Acreditem que vale a pena.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

A MECANIZAÇÃO DA INDÚSTRIA MUSICAL

RUI DE LEON
A escrita como fonte de comunicação é sempre condicionada por factores externos (ambientais, sociais, etc) e internos (estado emocional, memórias, etc). 

Como músico compositor, não sei bem quais são os que me influenciam mais...e muito honestamente, se haverá vezes em que me deixo influenciar. 

Naturalmente estarão todos interligados. A minha inércia, a minha vontade, os condicionantes internos e externos e a antevisão do impacto que poderá surtir no "público alvo".


Como evoluiu o compositor, as discográficas, os agentes, todos os intervenientes e estádios desde a ideia à finalização de uma música. Passamos da revelação de um artista, ou descoberta de um "diamante" em bruto, único , original, para a procura de alguém com características pré-definidas, num contexto limitado e extrapolado de experiências artísticas anteriores com vista a um sucesso de vendas. 

Serão as músicas projectadas para ser o próximo número um das tabelas de vendas, ou o resultado da partilha do intelecto de um ser para outro?

Fala-se muito em "equipas" inteiras a trabalhar em conjunto para determinados artistas de música, com a finalidade de descobrir uma "fórmula" que cative os nossos sentidos e desta forma permaneça na nossa mente , mesmo que quase inconscientemente, tornando-se "viral".

Quando os ouvintes estão à procura de uma estação de rádio, ou uma "playlist" que irão gostar, cada música tem alguns segundos antes de ser rapidamente trocada por outra. A razão para desistir de uma música poderá estar no simples facto de o ouvinte não ter paciência para esperar pela melodia e as letras fazerem sentido, ou serem simplesmente cativante, "fácil de ouvir". As melodias e as letras demoram tempo a serem construídas, o que não demora tempo nenhum para avalia-la é o som. Podemos rapidamente julgar uma música em questão de segundos. Percebemos o estilo, se é mais calma ou agitada, simples ou sofisticada e se vai ao encontro do nosso interesse. 

Com um acesso mais fácil á produção musical, cada vez existem mais artistas, com sonoridades distintas e com variadíssimas ofertas. 

Longe vai o tempo em que uma música complexa cativasse pela diferença, pela exposição da alma nua e crua , da paixão e dor reais do autor, desde o momento de escrita até ao registo do trabalho.

Existem técnicas e profissionais especializados para analisar um "demo" e transforma-la num êxito, recorrendo a fórmulas construídas através de estudos que incidem na histórica da música, produção musical e contexto social. os chamados "engenheiros musicais" constroem melodias apropriadas a um tipo de letra e género musical , realçando as qualidades , pontos fortes, dando uma nova "roupagem" a uma melodia inicial. Transformam-na num "hit" musical, entrando quase que de imediato nas tabelas de vendas. Melodias fáceis de memorizar, com repetições nas métricas e letras simples e curtas parecem ter maior resultado.

Agora pergunto-me, será isto evolução? A música é a linguagem universal, deverá ser o instrumento de propagação de mensagens, de alento de força... de sentimentos. Não estaremos a condenar uma vez mais o ser humano ao pré-concebido, ao "menos humano"? 

Serei eu suspeito para opinar mais sobre o assunto, por isso escrevi esta crónica como forma de tentar perceber o que vai nas vossas mentes. 

Deixem a vossa opinião, sobre a realidade da industria musical actual. 

Todos aprendemos uns com os outros, e enquanto viver pretendo aprender.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

VAMOS CANTAR AS JANEIRAS

“Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos […]”
Zeca Afonso




ANABELA BORGES
 Quando eu era pequena, só os narizes gelados, só os queixos gelados, os dentes gelados, as mãos e os pés gelados podiam dizer da magia que assomava aos nossos olhos crentes de criança, num brilho especial; só as bochechas coradas do entusiasmo, e o fumo que saía das bocas, bafo quente, na noite escura do fundo dos tempos, noite sempre misteriosa e fria, noite longa, interminável, a despontar da luz própria de Janeiro, enluarada, promessa de Primavera.

A geada caía, num silêncio renovado, quebrado pelas nossas vozes, ora mais afinadas ora mais esganiçadas, às vezes espaçadas em cadências incertas, desvairadas, umas vozes a seguirem outras vozes, perdidas na noite, como numa imitação incessante.

Os instrumentos eram do mais genuíno improviso que a ocasião conseguisse produzir: uma guitarra de acordes destemperados, uns ferrinhos tiritantes e um realejo desaustinado que nenhuns dos nossos beiços sabiam tocar com jeito de melodia.

Mas o mais interessante era quando a dona Arminda nos emprestava os batuques que o seu genro trouxera de África. Isso sim, isso fazia de nós o grupo mais espantoso de cantadores de Janeiras nas redondezas. Era uma circunstância tão inusitada, que parecia que o som daqueles batuques transportava as pessoas para lugares só imaginados, e parecia que as deixava anestesiadas a olhar para nós, sem nos verem, como se olhassem para o fundo da noite, antes de soltarem as moedas que haviam de tlim-tilintar ao cair no gorro preto que fazia de saco. O som dos batuques a perder-se na imensidão da noite, a arrastar ventos que se sonhavam mornos, a agitar o verde de uma vegetação impossível de ser real e a provocar restolhares de bichos nunca antes vistos, o som que enfeitiçava tudo e dava às nossas Janeiras uma magia, que era como uma cisma a perdurar sobre os telhados brancos de Janeiro; África inteira metida no som aqueles batuques, uma África só imaginada, a espreitar o gelo de Janeiro.

Até hoje, eu continuo a acreditar que as Janeiras têm uma magia especial, uma tradição que eu gosto que se mantenha.

Todos os anos recebo em minha casa o rancho folclórico da minha freguesia. As portas abrem-se de par em par, as luzes da casa acendem-se, e aqueles cantares ecoam na noite, rua abaixo. É sempre um cantar dedicado ao Menino e ao advento do Novo Ano. É um cantar à moda do Minho, onde as vozes esganiçadas das cantadeiras mais gaiteiras sobressai do coro corado e dos fumos que se soltam das bocas no frio da noite.

Ouço-os com um imenso prazer. Por momentos, flutuo, deixo o espaço, a casa; vivo outras realidades, outros tempos.

É então que os meus olhos se perdem longe, no fundo da noite, na ilusão das vozes, a parecer-me que ouço os batuques africanos, a trazer para a rua a magia dos ventos mornos, dos verdes impossíveis e dos bichos que os rigores de Inverno do nosso Janeiro jamais conseguiriam suportar.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

MÚSICAS DE NATAL

RUI SANTOS
Por esta altura, certamente, cada um de nós já se "esbarrou" com o Espírito Natalício que vem como uma lufada densa de ar quente, neste mês de temperaturas baixas. Este rolo de emoções mostra-se de diversas formas. Através das decorações brilhantes, das saudações com votos de um feliz Natal, dos anúncios que os média bombardeiam para podermos adquirir o presente ideal e sobretudo, através dos sons e da música. Os sons metálicos dos "guizos dos trenós", dos sinos e todas as melodias que reconhecemos prontamente e que nos transporta para esta quadra tão memorável. 

A música tem esta grande peculiaridade: viajar no espaço e no tempo!

Transporta-nos a locais que já visitamos ou que gostaríamos de conhecer, numa altura especifica, passado ou futuro, conforme desejamos, recordar algo que associamos a um som ou música, ou projectar no futuro experiências que desejamos viver, sempre com aquela banda sonora como "backround".

Nesta quadra especifica do ano, quem ainda não ouviu "All I want for Christmas" ou "Last Christmas"nas rádios? Ou quem ainda não trauteou o "Jingle Bells" ou "White Christmas"? 

Colocando a minha opinião de lado, mas chegando um pouco a "brasa à minha sardinha", infelizmente o Natal ao longo dos anos tornou-se num mercado capital muito forte. A corrida ás lojas, a preocupação com prendas, com bens materiais é bem vincada com a imagem da árvore de Natal e, claro a presença anual do Pai Natal que promete prendas às crianças que se portaram bem durante o ano, como se a tomada de boas decisões necessitasse de recompensa material. Mesmo assim é bom saber que pelo menos uma vez por ano o ser Humano está mais aberto à alegria, solidariedade, paz e sobretudo ao conceito de Família. 

Podemos através das tais recordações ou projecções, construir um presente com os valores que o Natal abraça, tais como a bondade,o amor, a solidariedade, o ser caritativo e a importância da Família. Pois não é isso mesmo que os velhos cânticos de natal apregoam? É o recordar velhas caras, familiares distantes, sentir o calor e o conforto de um porto de abrigo, numa época tão conturbada e corrompida a qual vivemos. 

Por isso este ano vou deixar que os sons, as músicas de Natal entrem no meu coração, e tal como faço em qualquer ocasião que cante ou toque, vou fazê-lo porque realmente o sinto, porque estou em sintonia com esses valores, e quem sabe, não ajudarei através da minha música, construir recordações ou projecções alusivas a uma quadra natalícia de paz e amor?

É com os votos de um Feliz Natal que termino esta crónica, e espero que a partir deste ano se valorize mais o que realmente é importante. A todos muita paz e amor. 

Que a música faça sempre parte da banda sonora das nossas vidas.

sábado, 9 de dezembro de 2017

PARABÉNS CARLOS PINHEIRO



Uma das estrelas do lançamento da BIRD Magazine - Volume I a 30 de junho está, hoje, de parabéns. Carlos Pinheiro, cantor amarantino, completa, neste dia, 18 anos de idade.

Muitos parabéns e muito sucesso, em nome de toda a equipa.

domingo, 3 de dezembro de 2017

E A MÚSICA FICOU MAIS POBRE…

LÚCIA LOURENÇO GONÇALVES
E o Zé Pedro, um ícone da música portuguesa parte… Não se pode dizer que foi surpresa, o seu estado débil indiciava uma morte anunciada, porém quando confrontada com a sua partida não posso deixar de sentir um nó na garganta. Afinal a música dos Xutos & Pontapés, da qual foi fundador, faz parte de muitas das minhas memórias. E pensar que este grande homem, e músico apaixonado pelo que fazia, deu o seu último concerto há menos de um mês!

De repente dou-me conta que esta banda me acompanhou ao longo dos anos, e curiosamente neste exato momento, o que primeiramente me vem à memória, é ter achado o nome estranho. Só bem mais tarde e, mediante a música que cantavam e com a qual encantavam, descobri a pouca importância que isso tinha. Aliás tornou-se um nome sonante e, que fazia sentido dentro do contexto musical e, talvez, vidas pessoais. Há pormenores que não são por acaso, muitas vezes, a sua irreverência é o que os torna únicos.

Não posso dizer que fui, ou sou fã da banda, sequer gosto de todas as suas músicas, porém trauteei com prazer algumas delas… Afinal, quem não se lembra de “Aqui ao luar”, “O homem do leme”, “A minha casinha” ou “Ai se ele cai”? Músicas que me acompanharam em viagens e que cantei alegremente em momentos descontraídos e felizes vividos em família, transformando-se assim em parte integrante da minha própria história! Estas e outras músicas ficarão nas minhas memórias, de muitos da minha geração e até da geração dos meus filhos.

A partida do elemento mais conciliador é triste… é estranha… Não o conheci pessoalmente, mas não posso deixar de salientar o sorriso que falava por ele. Um sorriso aberto, genuíno e contagiante. Também a simpatia nas palavras e a sua generosidade enquanto ser humano ficaram bem patente em cada aparição pública. E é desta forma, que a sua imagem ficará imortalizada.

Hoje já não está entre nós, a música fica mais pobre, a Humanidade também, afinal o seu sorriso jamais contagiará outros rostos.

“Para sempre” e até sempre Zé Pedro!

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

RIP ZÉ PEDRO


Nasci, cresci e decidi viver do rock n'roll, apenas porque ele faz-me viver
Por isso fui um dos fundadores dos Xutos&Pontapés.
Por isso fui um dos donos do Jonhnny Guitar.
...
Por isso existo e estou vivo.
OBRIGADO ROCK N'ROLL.

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Obrigado nós, Zé Pedro!!!
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Não é uma crónica fácil.

PAULO SANTOS SILVA
O Zé Pedro era um de nós. Para os da minha geração, os Xutos estão presentes em vários momentos da nossa banda sonora. A rebeldia, as tardes de domingo com os amigos a tirar os acordes das músicas deles na guitarra, os concertos, os concertos nas Queimas das Fitas em que a malta mais nova se surpreendia de sabermos as letras das canções todas de cor, os braços cruzados em forma de X que todos sabíamos fazer com orgulho.

O Rodrigo Guedes de Carvalho, ontem no Jornal da Noite, verbalizou aquilo que já me ia no pensamento ao imaginar o que iria escrever nesta crónica. O Zé Pedro não era o homem dos solos na guitarra – esse era o João Cabeleira. O Zé Pedro não era o homem que cantava bem e que dava a identidade vocal aos temas dos Xutos – esse era o Tim. O Zé Pedro não era o compositor por excelência dos temas da banda. Ainda assim, o Zé Pedro era o elemento mais importante dos Xutos&Pontapés, uma vez que era um dos responsáveis e, provavelmente, o mais fiel depositário de uma das coisas mais importantes de uma banda – o carisma. 

O Zé Pedro, fazia qualquer um de nós acreditar que podia fazer parte da banda. Era genuíno, não tinha máscaras, nunca escondeu o passado de ninguém, fazendo dele um exemplo a não seguir pelas gerações mais novas. Era um lutador, porque só um lutador consegue subir ao palco do Coliseu no dia 4 de novembro, naquele que ele já sabia que seria o seu último concerto e terminá-lo aos saltos. 

O Zé Pedro não se submetia, não se acomodava. Não teve uma vida fácil. Gastou as “fichas” todas. Viveu como tinha que viver. Se tivesse sido de maneira diferente, não teria sido ele. 

Continuas connosco! 
Até um dia, companheiro!!!

domingo, 5 de novembro de 2017

DESASSOSSEGO

JOÃO PINTO


Parece-me por vezes que para a massa portuguesa o que de melhor se faz em Portugal é como que uma pena desfalcada. Belíssima. Que esvoaça e submerge num mundo que não é bem o nosso. E parte em mar de descobrimento. Esta será talvez a crónica mais pequena do mundo. Ou não. Não interessa. Precisarei de um parágrafo. Pontos finais. E talvez um ponto de interrogação. Porquê? Porque sinto que quando não escrevo consigo também escrever mais do que o mundo. Como todos nós. E também porque há obras que não correspondem à necessidade de serem criticadas. Apenas vistas. Lidas. Ouvidas. Em todos os sentidos de cada palavra. Assim me perplexo quando me deparo com o Livro do Desassossego. Assim me senti perplexo quando vi o Filme do Desassossego. Não é por falta de tempo. A ausência de palavras. Há tanto tempo para quem tempo tem. E não é por falta de palavras. Que tão pouco escrevo. Quando há tantas palavras por onde escrever. É por saber que qualquer das obras de que falo. Fala por si.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

GEORGES BIZET

PAULO SANTOS SILVA
Faz precisamente hoje, 179 anos que nasceu em Paris aquele que viria ser (apesar de apenas ter vivido 36 anos) um dos compositores de ópera franceses mais reconhecidos – Georges Bizet.

Nascido como Alexandre César Leopold, viria a ser batizado como Georges dois anos após o seu nascimento. Aluno brilhante do Conservatório de Paris, venceu vários prémios como pianista. No entanto, esta vertente da sua veia musical foi por si pouco explorado tendo atuado como tal, muito raramente. Depois de três anos em Itália, descobre que nos teatros de ópera de Paris se prefere os repertórios mais clássicos, o que origina que as suas obras para orquestra e piano sejam frequentemente ignoradas. Assim sendo, Bizet tem de ganhar a vida a transcrever e organizar as obras de outros, o que não o impede de iniciar vários projetos teatrais que foram sendo abandonados por falta de sucesso. No entanto, duas das suas óperas atingem alguma notoriedade neste período – Os Pescadores de Pérolas e La Jolie Fille de Perth. 

Durante a guerra entre a França e a Prússia, Bizet serviu na Guarda Nacional. Neste período, teve pequenos sucessos como a ópera em um ato Djamileh e a sua suite para orquestra L’Arlésienne teve uma aceitação imediata, por parte do público. 

Do seu casamento com Geneviève Halévi, filha de um dos seus mestres de composição (que teve alguns altos e baixos por influência das constantes intromissões da sogra), nasceu apenas um filho. Bizet não fundou nenhuma escola nem chegou a ter discípulos, o que fez com que a sua obra fosse negligenciada durante algum tempo. À exceção de Carmen, as outras obras foram sendo sucessivamente adulteradas por outros compositores ou mesmo perdidas. Só mais recentemente, é que o génio de Bizet passou a ser reconhecido ao ponto de se afirmar que a sua morte prematura foi uma perda irreparável para a música em geral e para a ópera francesa, em particular. 

A sua última ópera, Carmen, viu a sua estreia a ser adiada várias vezes por medo que a temática da mesma (onde se incluíam traições e assassinatos), não viesse a ser bem aceite pelo público. Após a estreia de Carmen, que finalmente ocorreu a 3 de março de 1875, Bizet convenceu-se que a sua obra tinha sido um fracasso. Morreu apenas três meses após a estreia, de ataque cardíaco, sem saber que a sua Carmen se tornaria num grande sucesso que ainda hoje perdura e que faz com que seja uma das óperas mais apresentadas e apreciadas, inclusivamente por público mais leigo na matéria. De entre as várias peripécias que a produção teve durante os ensaios, destacam-se as queixas da orquestra de que algumas partes eram impossíveis de tocar e as queixas do coro por ter de se constituir como uma “personagem” dentro da encenação, ao contrário do que era hábito até então. Entre as personalidades da cena musical presentes na estreia, destacam-se Jules Massenet, Camille Saint-Saëns e Charles Gounod. Enquanto os primeiros dois reagiram de forma positiva, Gounod acusou Bizet de plágio da sua obra. Teve a oportunidade de redimir-se desta acusação no funeral de Bizet, visto que ficou a seu cargo o elogio fúnebre. Não o conseguiu concluir uma vez que a emoção se apoderou de si.

Estiveram presentes cerca de 4000 pessoas no seu funeral. Nessa mesma noite, houve uma apresentação especial da Carmen, na Opera de Paris. A mesma imprensa que o havia dizimado, após esta apresentação, declarou-o como um mestre. Um belíssimo exemplo de que algumas pessoas só veem o seu valor reconhecido, depois de mortas!...

domingo, 8 de outubro de 2017

THE BIG SICK

JOÃO PINTO
Como seguidor do trabalho do Kumail Nanjiani desde a estreia da aclamada sitcom “Silicon Valley” da HBO, foi uma surpresa deparar-me com um filme rodeado de críticas positivas, principalmente num mundo onde a comédia é algo desprezada e uma comédia romântica ainda mais. Mas só vendo o filme se percebe, que “The Big Sick” é muito mais que uma comédia romântica.

O filme circula em torno da história verídica da relação entre o humorista Kumail Nanjiani e de uma mulher que viria, como é sabido, a ser a sua esposa, Emily V. Gordon (Emily Gardner no filme). A partir do momento em que sabemos que foi o próprio Kumail e a sua esposa Emily a escrever o argumento daquilo que é a sua história é perceptível que estamos prestes a explorar um território que é novo em comédias românticas, não só pela escrita na primeira pessoa, lembrando que para além do argumento, Kumail Nanjiani também desempenha o papel dele mesmo, protagonizado com Zoe Kazan (Emily), mas pela representação genuína da sua cultura e das barreiras que foram quebradas numa época onde não se espera tal necessidade. A realização de Michael Showalter está em perfeita harmonia com a indumentária do filme, apropriando-se da comédia para criar aquilo que é um belíssimo drama, usando material que Nanjiani usa nos seus próprios espetáculos e enaltecendo as fortes barreiras culturais e religiosas que ainda vivemos sem deixar que a temática do filme seja meramente por controvérsia. Aliás, vendo “The Big Sick”, espera-se controvérsia, mas recebe-se uma história de amor sobre como a controvérsia e as nossas raízes não podem ser obstantes ao nosso futuro. A grande qualidade do filme está longe de se limitar à história, é a intimidade que através também das performances de Ray Romano e Holly Hunter nos abraça. É o pacing do filme que nos permite observar a evolução do julgamento e da ambivalência do humano, não só através da família de Nanjiani mas do retrato de sofrimento que se centra em torno do coma de Emily, e como o mesmo é contornado.

“The Big Sick” mostra-nos que ainda é possível inovar e criar um drama que é exímio no seu comentário social, mas acima de tudo magistral na sua capacidade de storytelling. Como já fã que era do Kumail, este é um filme que provou também o papel da comédia no mundo da sétima arte, e no panorama cultural em que estamos.

domingo, 24 de setembro de 2017

CRÓNICA. CINEMA. CULTURA

JOÃO PINTO
Uma vez o Woody Allen disse naquele que é um dos seus clássicos que sentia que a vida era dividida entre o horrível e o miserável e que eram essas as duas categorias, onde o horrível são os casos terminais, e os cegos e aqueles que jamais voltarão a andar, e que o miserável são todos os outros, e que nos devíamos dar como gratos pela sorte de nascermos miseráveis.

Nascemos em berços estranhos onde se ecoam notícias de um "homem" laranja, de mísseis e de diplomacias bélicas que retiram qualquer sentido diplomata da expressão em si. Mais do que nunca existe um bombardeamento de informação que alude a massas mudarem de opinião conforme a subserviência que é pixelizada seja onde for, como for e sobretudo a quem convém. Não usamos os recursos para fundamentar mas sim para alimentar uma opinião mal formada acerca de tudo o que nos rodeia. É estranha a geração que é alimentada por sonhos fabricados por aqueles que com eles irão lucrar. Ainda mais estranho é perceber que esta alienação não atinge uma geração mas sim um mundo delas. Sem esquecer o mundo daqueles que diariamente se contrariam à formatação e que contribuem para tanto que para o povo parece tão pouco. Esses que são os esquecidos, pois não têm em mente aquilo que parecem ser os pontos fulcrais no final do dia: lucro e luzes. É fácil esquecer que essas luzes conseguem cegar qualquer tipo de liberdade que supostamente nos é dito termos. É por isso que é importante projetar uma visão abrangente sobre tudo o que nos envolve. E sobretudo, ser capaz de olhar para além do panorama geral. Ser capaz de olhar para o que está à nossa frente da nossa própria forma, por mais promiscua ou insignificante que possa parecer, se há coisa que o cinema nos pode ensinar, é que nada é insignificante se for olhado da forma certa. Este texto, crónica ou o que quer que seja não vem a propósito de cinema, vem a propósito de cultura, e do quão desprezada ela é. Não falando de dinheiro ou de percentagens mas falando da mentalidade perante o cultivo do nosso futuro.

Começava eu a redigir sobre o Woody Allen. Lembro-me de ver o Manhattan pela primeira vez e como qualquer filme do Woody Allen me fascinar por o quão comum qualquer linha de diálogo poderia parecer não fosse ela escrita por quem foi. E que qualquer beco de Nova Iorque tinha a sua história, o seu traço e a sua própria vida. Pois não se tratavam de diálogos comuns, mas sim de temas comuns, do nosso quotidiano. Pequenas conversas e pequenos momentos que se projetam ao comportamento do humano. E pouco a pouco pela história do cinema e francamente de qualquer forma de arte se percebe que se pode tornar o comum em matéria merecedora de ser apreciada, desde que não caia no erro de ser vulgar. O comum e o vulgar, o banal são diferentes. E cabe-nos a nós perceber isso. Perceber que a nossa pequena contribuição para um mundo voraz está na facilidade inquietante do atrevimento de pensar. Pensar em desassossego. Transformar o pouco que está à nossa volta numa ideia que virá ou não a promover-se perante todos nós. E se tal não acontecer, promover-nos a nós mesmos. Quer seja o perfeccionista Kubrick com a sua inquietude na representação do comportamento humano e nas odisseias do mesmo, o colorido Wes Anderson com histórias que fazem trazer ao de cima todos os elementos por vezes esquecidos pelo público na sétima arte, o peculiar David Lynch cuja imaginação será apenas compreendida pelo próprio, seja o cinema feito onde for, como for, de que ano, género ou temática abordar há algo em comum que se retira de qualquer obra, e é de que qualquer tema, qualquer ideia, sem pensar no tamanho da mesma, é um contribuinte para aquilo que enquanto humanos vamos tentando fazer, ou pelo menos deveríamos. O afastamento da ilusão de que tudo o que está à nossa frente é o que acontece. Pois bem, nós vê-mos uma fração imaginária daquilo que acontece à frente de uma câmara. Não nos ousemos a esquecer o que está por trás dela. Vamos praticar a ousadia de nascermos miseravelmente capazes.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A PERDA DOS NOSSOS ÍDOLOS

RUI DE LEÓN
Como músico, e como fã incondicional da música, posso com orgulho afirmar que os anos 90, foram para mim, a época de ouro, uma vez que ouvi, cresci com as tendências rock/grunge que fervilhavam na altura. Bandas de Seatle como os Nirvana, Soundgarden, Pearl Jam , numa "onda" mais funk, rock-alternativo e punk os Red Hot Chili Peppers entre outros grandes artistas marcavam a história da música.

Porém , por influência familiar, sempre tive um "background" musical mais amplo que percorre Leonard Cohen, Frank Sinatra, Rolling Stones, The Beatles, Louis Armstrong , Led Zeppelin entre tantos outros. No panorama nacional na altura, gritavam os Ornatos Violeta, os Silence 4 e os Moonspell. 

Apesar deste "cocktail musical" sempre me identifiquei mais com o rock/grunge , que posteriormente, teve um papel fulcral enquanto músico. 


Toda esta descrição que apresentei serve para abrir a porta ao tema que realmente quero abordar. A perda dos nossos ídolos, e como isso afecta o panorama da música actual.

De 2015 a 2017, foram anos desoladores quanto à partida, entre muitos, precoce de diversos ícones de vários géneros musicais. Aqueles que para muitos marcaram a sua geração, partiram e deixaram um vazio não só a nível musical mas também na forma como influenciaram as suas vidas com histórias controversas, estilos de vida e muitos pela ação social e de intervenção que exerceram.


Hoje em dia, embora com maior facilidade para gravar um álbum e distribui-lo digitalmente, tendo cada vez mais artistas, é por outro lado mais difícil se destacar por entre tamanha massa de novos talentos. E no meio de outras conjunturas, aquilo que me apercebo, e acaba por ser mais uma opinião pessoal do que um facto, os maiores meios de difusão de música parecem ter um espectro mais estreito, um género musical comum, que roçam o kizomba e os ritmos latinos. Parece assim haver menos margem de manobra para a continuação do legado daqueles que já partiram. 


Como exemplos temos o legado de Scott Weiland, vocalista e compositor Norte-Americano ex-vocalista dos Velvet Revolver, ficou mundialmente conhecido com os Stone Temple Pilots. A forma controversa como Weiland lidava com o mundo do espetáculo e a forma singular como se apresentava em palco marcaram uma geração e deixaram o seu nome gravado no mundo rock/grunge com a explosão do som de Seatle. Foi encontrado sem vida no autocarro da tour que realizava nos EUA em Dezembro de 2015.


Outra grande referencia de rock/grunge que perdeu a vida em Maio de 2017 foi Chris Cornell ,um dos grandes impulsionadores do movimento grunge de Seatle nos anos 90. 


Fez parte dos Soundgarden, Temple of a Dog (juntamente com Eddie Vedder) e Audioslave. Para mim, sempre foi um ídolo, talvez uma das maiores referências vocais e sem dúvida uma das maiores influências no meu trabalho. Foi com choque que o mundo da música recebeu a notícia da sua partida prematura. 

Segue-se Chester Bennington, vocalista dos famosos Linkin Park (rock alternativo, rap rock, rock eletrónico). Perdeu a vida a em Julho de 2017. Bennington ainda deu voz aos Stone Temple Pilots, continuando o legado deixado por Weiland. 


Dentro de outros géneros musicais presenciamos a partida de Leonard Cohen, autor de Im your Man e Hallelujah, aos 82 anos. Deixa-nos uma invejável carreira tanto como cantor como compositor. 


Outro gigante da música, George Michael faleceu em Dezembro de 2016. Para muitos a cara dos Wham com a música Last Christmas, marcou uma geração com os seus êxitos musicais e com uma vida controversa. Deixou uma legião maciça de fãs destroçados .


Não poderia deixar de falar do grande "camaleão dos palcos" , o grande David Bowie. Um artista sem precedentes, com uma discografia tão diversa e rica que marcou gerações de forma tão intensa e impregnada. Deixou o mundo perplexo e em choque em Janeiro de 2016 quando foi confirmada a sua morte , dias após o lançamento do seu último trabalho "Blackstar" 


Todos estes artistas, com estilos distintos, personalidades fortes e detentores de um enorme talento, deixaram a sua marca de inúmeras formas, tocando as mentes e corações de gerações. 


Gerações estas que, embora em crescimento exponencial na música, não parecem continuar uma história começada por estas Estrelas. 

O mundo da música está mais pobre e, claro , a lei da vida é certa, e muitos dos nossos ídolos partirão. Cabe a nós mantermos a chama bem acesa e não deitar por terra o que anos atrás começaram. 

O rock , rock/grunge marcou toda uma geração e transportou-nos tantas vezes para lugares que nuca visitamos, ajudou-nos a atravessar períodos conturbados e marcou para sempre a história da música. 


Assim termino esta crónica, "puxando a brasa à minha sardinha" e apenas dizer "long live the grunge".

quarta-feira, 26 de julho de 2017

CHESTER BENNINGTON

PAULO SANTOS SILVA
Ainda o mundo da música não estava refeito do desaparecimento de Chris Cornell, que tinha sido alvo de uma crónica nestas páginas que vos escrevo e, precisamente no dia em que o seu amigo faria anos, Chester Bennington decide pôr termo à vida. 

Para os mais distraídos, o nome não será familiar. No entanto, se dissermos que foi o vocalista dos Stone Temple Pilots e, principalmente, dos Linkin Park o caso já muda de figura.

Nascido em Phoenix, a 20 de março de 1976, Chester Charles Bennington foi cantor, compositor e ator. Chester nasceu em Phoenix, Arizona, tendo-se mudado algumas vezes para outras cidades deste estado. Mais tarde, revelou ter sido abusado sexualmente por um amigo mais velho, o que, somado ao divórcio dos seus pais, o ajudou a entrar no mundo das drogas de onde conseguiu sair aos vinte anos, quando se casou pela 1ª vez.

O seu primeiro instrumento foi um piano, tendo o seu irmão mais velho sido uma fonte de inspiração no que toca a abrir-lhe os horizontes relativamente ao conhecimento de várias bandas que contribuíram para influenciar a sua carreira musical.

Envolveu-se em diversos projetos até que, em 2013, substituiu na banda Stone Temple Pilots o vocalista Scott Weiland que assumiu ser uma das suas maiores influências, a par de Robert Plant dos Led Zeppelin e, principalmente, dos Depeche Mode. 

Dois anos e meio depois, deu por terminada a colaboração com a banda por motivos que não tendo sido bem explicados, terão tido como base a dificuldade em conciliar a atividade pessoal e familiar, com a atividade como vocalista naquela que já era a sua banda principal – os Linkin Park. Foi, aliás, com esta banda que ganhou dois dos prémios mais importantes da música – os Grammys – e gravou sete álbuns que venderam mais de 70 milhões de cópias.

Deixou seis filhos de dois casamentos, sendo um deles adotado. Segundo o porta-voz da Polícia de Los Angeles, Chester suicidou-se por enforcamento, sendo mais um caso de um músico que não aguenta a pressão da fama, aliada ao consumo de álcool e drogas. Lamentavelmente mais um. Juntando a estes fatores, a espiral depressiva em que terá entrado após a morte do amigo Chris Cornell, temos reunidas todas as condições para um final trágico, como oque aconteceu.

Deixo-lhe como sugestão de audição, o tema Halleluja de Leonard Cohen, interpretado por Chester Bennington no funeral de Chris Cornell. Quase que diria, premonitório.





PS. – Para terminar num registo menos triste, 60 mil pessoas num festival de música em que tocam Herbie Hancock, Manel Cruz, Nação Zumbi e Jards Macalé, entre muitos outros, é mais do que um orgulho para uma cidade como Amarante – é um MIMO!!!

quarta-feira, 28 de junho de 2017

NOVAMENTE OS PROGRAMAS DE TALENTOS…

PAULO SANTOS SILVA
Numa semana de particular relevância e em que, se calhar, o tema deveria ser o lançamento da 1ª Edição da Revista Bird em Papel, decidi abordar novamente os programas de talentos que constantemente nos entram “pela porta adentro”. Neste caso o Just Duet.

O conceito é simples. Vários candidatos à procura de serem escolhidos por terem chegado a uma final e terem realizado o “dueto perfeito”. Tudo isto com o apoio de um painel de quatro jurados/mentores, com quem terão de realizar o supracitado desígnio.

A primeira questão se coloca é – existe um “dueto perfeito”? Obviamente que não. Não, porque a perfeição não existe e não, porque a avaliação da “perfeição” de um dueto depende de muitos fatores, sendo que uma boa parte deles serão altamente subjetivos.

Outra questão pertinente, é os critérios que levaram à escolha deste painel de jurados/mentores. Na minha modesta opinião, altamente desequilibrado. Se por um lado não questiono cada um deles como músico (gostos à parte) e até percebo que se queira um leque alargado de influências musicais, acho que alguns deixaram manifestamente bastante a desejar naquilo que demonstraram enquanto mentores dos candidatos. 

Destaco, pela positiva, o caso do Héber Marques. Sóbrio nas análises dos concorrentes (seus e dos outros) e sábio nas opções propostas, bem como nas ajudas dadas aos “seus” concorrentes. 

Quanto aos outros, perdoem-me a sinceridade mas, do que vi, fracos. Tome-se como exemplo o programa desta semana. Paulo de Carvalho, muito refém de um estilo musical que é o seu, mas que não resulta de todo com outros (a versão de Mãe Negra apresentada não trouxe rigorosamente nada de novo) ou então, completamente colado ao tema original, como foi o caso do tema Ele e Ela em que, novamente, nada surpreendeu. 

Agir, tal como o pai Paulo de Carvalho (será que foi uma opção acertada da produção em juntar os dois?...), tenta “enfiar dentro da sua camisa” os temas que propõe aos seus candidatos. A versão do tema do Diogo Piçarra que fez no programa passado com a sua concorrente, é um bom exemplo disso. Despropositada, no mínimo.

Gisela João, é o exemplo contrário. Tenta nadar fora da sua zona de conforto e acaba por, com isso, ficar ainda mais nervosa do que os próprios concorrentes. Dois excelentes exemplos no domingo passado, em que falhou redondamente. Más escolhas musicais, nas quais se sentia de todo desconfortável e insegura, sendo que acabou por arrastar os concorrentes para esse mesmo desconforto e insegurança. 

Valha-nos ao menos o Héber Marques para salvar a “honra do convento”. Versátil, assertivo nos comentários sem se tornar desagradável ou deselegante, mas acima de tudo muito inteligente na condução dos seus concorrentes, no que diz respeito aos duetos apresentados. 

Veremos, pois, como tudo isto acaba.



Por falar em acabar, termino mais uma vez prestando a minha pública homenagem e agradecimento ao mentor da BIRD MAGAZINE – Ricardo Pinto – pela coragem, ousadia e persistência que levou a que, orgulhosamente, vá ser lançado na próxima sexta-feira a obra “BIRD Magazine, Volume 1”. É com muita honra que integro este projeto desde 2014 e estar presente nesta obra com uma crónica da minha autoria, é um motivo de grande felicidade! Obrigado!!!

terça-feira, 27 de junho de 2017

NOITE E NEVOEIRO, DE ALAIN RESNAIS (1955) – A BIPOLARIDADE DOS ESPAÇOS

ANABELA BRANCO DE OLIVEIRA
Noite e Nevoeiro (Nuit et Brouillard) foi encomendado a Alain Resnais pelo Comité de História da Segunda Guerra Mundial para assinalar o décimo aniversário da libertação dos campos de concentração (Auschwitz foi libertado a 27 de janeiro de 1945). É uma curta-metragem documental, um projeto de equipa entre Alain Resnais, Jean Cayrol, escritor sobrevivente dos campos de concentração, que escreveu o texto, declamado no filme por Michel Bouquet, e Hanns Eisler, que compôs a banda sonora. Noite e Nevoeiro - Nacht und Nebel em alemão – é o nome do decreto nazi de 7 de dezembro de 1941 que ordenava a deportação dos “inimigos do Reich”. Para os nazis, os deportados que enchiam os vagões de mercadorias com destino aos campos de concentração eram os NN (Nacht und Nebel).

Noite e Nevoeiro é um documentário de imagens, espaços e objetos. As imagens são provenientes de múltiplas fontes: fotografias e documentos comprovativos existentes nos arquivos nazis, pequenos filmes a preto e branco realizados por oficiais das tropas aliadas aquando da libertação dos campos de concentração polacos e holandeses e imagens a cores filmadas por Alain Resnais nos campos de concentração de Auschwitz e Maïdanek.

O choque entre as imagens coloridas, que mostram a paisagem verdejante à volta do campo de concentração deserto, e as imagens de violência e horror, ora facultadas pela montagem ora pelo próprio texto de Jean Cayrol, está presente desde o primeiro momento e paira sobre todo o filme alertando para os perigos do esquecimento e para a banalidade do mal.

A câmara só se mexe, em lentos travellings, nos espaços vazios, reais e vivos. Espaços vazios do homem, do ser humano. Nesses lentos travellings, tudo é vazio, imóvel e silencioso porque retrata o vazio, a condenação, a imobilidade e a ausência de todos os que por ali passaram.

O percurso pelos campos do presente é um travelling subjetivo dos ausentes, dos que, no sofrimento da separação e da dor, não olharam para a quietude dos campos, dos ausentes porque não sobreviveram! É o travelling de algo que parece, hoje, inimaginável!

Noite e Nevoeiro é um documentário que grita com um imenso diálogo entre imagem e som: as imagens de arquivo são datadas e localizadas mas a música de Hanns Eisler dá-lhes uma extensão intemporal e universal. Entre a imagem e a música, um choque de proporções: quanto mais violenta é a imagem mais leve é a música. A imagem cria um choque visual mas a música dá-lhe uma dimensão espiritual porque a imagem é documento e a música é poesia. A música projeta a necessária reflexão que sobrevive ao horror.

A montagem de Noite e Nevoeiro é a orquestração do horror: fria, sóbria, sem cólera, com um sarcasmo urgente. Com um sarcasmo que denuncia a banalidade do mal – os estilos arquitetónicos dos campos, os objetos e os contrastes da futilidade, a vida mundana dos comandantes e a total ausência de remorso e de responsabilidade.

As imagens das montanhas de óculos, pentes e cabelos (o monte interminável de cabelos é das imagens mais impressionantes no filme), são apenas vestígios que denunciam a monstruosidade mas que são incapazes de exprimi-la totalmente. O plano ilimitado dos cabelos, um mar ilimitado, um plano que se prolonga no domínio de uma quantidade infinita e que se esmaga no detalhe dos pelos que saem dos blocos de tecido, define o grito da não- aceitação, o grito do não esquecimento.

Noite e Nevoeiro não é a denúncia da morte. É o grito de alerta para o futuro. O esqueleto dos fornos crematórios, o silêncio dos campos vazios, a inutilidade dos carris cheios de ervas denunciam uma eterna imobilidade. Mas nada está parado: o contraste entre a cor e o preto e branco, entre o espaço e as imagens de arquivo são um intenso alerta contra todas as noites e todos os nevoeiros que podem sempre cair sobre um terreno nascido para receber o sol e a paz.

Noite e Nevoeiro é um filme necessário e urgente. É a imagem da intolerância, da desumanidade, da banalidade do mal e da organização da barbárie.

António Crespi, docente universitário, declarou, a propósito da plantação, no Jardim Botânico da UTAD, em março de 2014, de uma das “filhas” do carvalho que ainda hoje existe à entrada do campo de Auschwitz- Birkenau:

“É uma forma de, neste paralelo, vincarmos a diferença entre um lugar que fica para sempre associado ao ódio e à morte, e este outro, que é um espaço de tolerância, de conhecimento. De vida, no fundo”

As palavras de Jean Cayrol, nas sequências finais do documentário, são um enorme grito de alerta – “O crematório está fora de uso. Os artifícios nazis estão ultrapassados. Nove milhões de mortos assombram esta paisagem. Quem vela este estranho observatório para nos prevenir da chegada de novos carrascos? Terão eles uma cara diferente da nossa? Algures, entre nós, ainda há kapos afortunados, chefes convertidos, denunciantes desconhecidos. Há todos os que não acreditaram, ou só de vez em quando. Estamos cá nós, que olhamos estas ruínas como se o velho monstro concentracionário estivesse morto sobre os escombros, que fingimos retomar a esperança perante esta imagem que se afasta, como se nos curássemos da peste concentracionária, nós que fingimos acreditar que tudo isto pertence a um só tempo e a um só país e que não pensamos em olhar à nossa volta e que não entendemos que se grita infinitamente.”

Não esqueçam nunca esta mensagem final porque, da aparente imobilidade dos espaços e dos instrumentos, da aparente calma das ervas nos carris desativados, da aparente banalidade de pequenos abusos, desrespeitos, racismos, estereótipos, inflexibilidades, ódios e intolerâncias pode nascer a estrutura organizada do mal. E não queremos que haja um outro carvalho, à entrada de um outro campo, a testemunhar os limites da desumanidade.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

CHRIS CORNELL

PAULO SANTOS SILVA
Não será um dos nomes mais conhecidos da cena musical. As bandas de que foi vocalista, também não o serão certamente, no sentido do que é mais comercial em termos musicais. 

Apesar disso, não deixa de ser mais uma grande perda no contexto da música pop contemporânea.

Chris Cornell, nome artístico de Christopher John Boyle, foi considerado um dos fundadores do movimento Grunge, que teve o seu expoente máximo em Kurt Cobain e na sua banda, os Nirvana.

Nascido em 20 de julho de 1964, na cidade americana de Seattle, deixou-nos no passado dia 18 de maio após mais um concerto de uma das bandas de que era vocalista, provavelmente a mais conhecida delas – os Soundgarden. Segundo a Associated Press, Chris Cornell suicidou-se por enforcamento, na casa de banho do quarto de hotel onde se encontrava. 

Sendo o vocalista de bandas como os Soundgarden, os Temple of The Dog e os Audioslave, isso não foi obstáculo a que tivesse editado cinco álbuns a solo, entre os anos de 1999 e 2015. Era famoso por ter uma extensão vocal de quatro oitavas, o que corresponde a dizer que tinha uma extensão vocal que lhe permitia cantar todas as notas de um qualquer teclado. 

Em 2007 lançou o single "You Know My Name", música que foi tema do filme 007 - Cassino Royale, tornando-se o primeiro cantor americano a gravar o tema principal de um filme da série 007. A canção vendeu 3,5 milhões de cópias digitais.

Filho de um pai farmacêutico, católico e de uma mãe contabilista, judia, a infância e a juventude de Chris Cornell foi tudo menos fácil. Depois da separação dos pais, Chris e os irmãos adotaram o nome de solteira da mãe – Cornell. Durante a adolescência, além de uma depressão severa, Chris teve acesso e usou diferentes tipos de droga até se dedicar à música. 

O primeiro instrumento que aprendeu foi o piano, mas iniciou sua carreira como baterista na banda Jones Street Band. No início dos anos 80, Cornell era membro de uma banda de covers (nome que se dá às bandas que tocam músicas de outras bandas) chamada The Shemps. Esta banda, tinha Hiro Yamamoto como baixista. Depois de Yamamoto deixar os The Shemps, a banda recrutou o guitarrista Kim Thayil. Cornell e Yamamoto continuaram em contacto e depois que os The Shemps terminaram, começaram a formar uma nova banda juntos, trazendo Thayil para se juntar a eles. Estavam, assim, lançadas as bases para o nascimento dos Soundgarden. No início da banda, Chris Cornell tocava bateria e cantava. Após a entrada de Scott Sundquist, mais tarde definitivamente substituído por Matt Cameron na bateria, Chris dedicou-se em exclusivo à parte vocal. Os Soundgraden tiveram um período de inatividade de 12 anos, após os quais se voltaram a reunir, tendo gravado temas que fizeram parteda banda sonora de filmes como Os Vingadores e Homem de Aço.

Chris Cornell era um dos herdeiros vivos do Grunge e, tal como outros, entendeu por fim à sua vida. Só ele saberá os motivos que o levaram a tomar esta decisão algumas horas depois de mais um concerto. A discussão em torno do suicídio, é e será sempre a mesma. É um ato de coragem ou um ato de covardia? Confesso que tive esta discussão por diversas vezes e nunca a mesma foi conclusiva. Se calhar nunca vai ser, visto que facilmente se encontram argumentos a favor de uma e outra teoria. Se calhar vai ser sempre uma questão de perspetiva, em tudo idêntica à teoria da garrafa – para uns, está meio cheia, para outros, está meio vazia.

Deixo-lhe, como sugestão de audição, a versão acústica do tema “Nothing Compares To U” da autoria do, também já desaparecido, Prince!

FESTA: UM PASSAPORTE OBRIGATÓRIO NA VIAGEM CINEMATOGRÁFICA

ANABELA BRANCO DE OLIVEIRA
A celebração é um momento fundamental e inevitável na vida de todos os povos. A celebração é a festa como manifestação individual, coletiva, espontânea, programada, exigida, interrompida. E a festa é um percurso criativo no olhar de Arthur Duarte, Cottinelli Telmo, Emir Kusturica, Federico Fellini, Francisco Ribeiro, Jacques Tati e Sérgio Tréfaut num processo narrativo estruturado em memórias recriadas.
Emir Kusturica em Promise Me (2007) projeta uma organização coletiva de uma festa individual: o regresso do neto à aldeia exige o ritmo frenético dos músicos e das danças, num poderoso, subversivo e violento contraste com uma outra manifestação coletiva vinda de um objetivo individual: um funeral. A sequência do encontro das duas manifestações na mesma estrada, o contraste dos sons e dos rituais, as queixas do representante religioso e as exigências do avô definem a inevitabilidade surrealista de um indiscutível realismo. 
A força simbólica dos instrumentos de corda e de sopro dos Balcãs, concretizado na banda No Smoking Orchestra é um tema recorrente e estrutural em toda a obra de Kusturica, no acompanhamento tornado coletivo de situações marcadamente individuais. Na sequência inicial de Underground (1995) os músicos acompanham Blacky e Marko e celebram a entrada de Blacky no Partido Comunista; a cena de pancadaria na sala de bilhar, numa cave de Belgrado, é sempre acompanhada pelo grupo de trompetistas; na cave de Marko, a celebração do 3º aniversário da morte de Eva, projeta o fervor das canções de resistência de homenagem a Tito, sempre com acompanhamento dos trompetistas e dos mesmos ritmos. Em Gato Preto, Gato Branco(1997), a visita do neto ao avô hospitalizado subverte todas as regras. A banda de trompetistas e guitarristas instaura um clima de festa no qual todos acabam por alinhar.
Os casamentos são o exemplo individual de obrigatoriedade coletiva. Proliferam no olhar cinematográfico dos realizadores escolhidos. Fellini projeta o retrato social, a paródia, a caricatura, a encenação burlesca da personagens e as exigências da pose fotográfica, na sequência do casamento da Gradisca em Amarcord (1973). Emir Kusturica, num registo marcadamente fellinesco, constrói casamentos em Underground(1995), Gato Preto, Gato Branco (1997) e O Pai foi em Viagem de Negócios (1985). O Pai foi em Viagem de Negócios projeta um casamento cheio de mistérios, transgressões, adultérios e discursos. Underground define, no casamento da cave, a união de dois jovens cuja existência se constrói através da imagem platoniana do mundo. O casamento de Jovan representa a continuação dos rituais coletivos na cave, a fantasia de uma noiva suspensa no ar, através do canhão de um tanque militar, com véus e rendas a esvoaçar, filmada em contre-plongée ao ritmo dos trompetistas. Os músicos animam a festa colocados numa estrutura rotativa, em círculo, num plano que se repete durante uma festa popular em Gato Preto Gato Branco, onde os músicos tocam, em círculo, amarrados ao tronco de uma árvore.
Os santos populares, uma outra celebração da exuberância das colheitas, define o percurso cinematográfico das famosas comédias do Estado Novo, nomeadamente A Canção de Lisboa (Cottineli Telmo 1933), O Pátio das Cantigas (Francisco Ribeiro 1942) e O Costa do Castelo (Arthur Duarte 1943). As marchas populares, os bailes de bairro, os namoros e as canções preenchem a decoração minuciosa dos “pátios” lisboetas. EmO Pátio das Cantigas, o pátio do Evaristo é sobretudo uma arquitetura, uma confluência de janelas e escadas, uma espécie de Janela Indiscreta (Hitchcock, 1954) que engendra todo um jogo de comunicação entre as pessoas, toda uma cumplicidade tecida por e através de um espaço específico. Pedaços de Lisboa, os pátios são, ao mesmo tempo, um espaço arquitectural e um produtor de narrativas porque a “comédia à portuguesa” é também a imagem de uma cidade, apaixonada pelas casas de fado (outros espaços de celebração) e pelas tabernas, a imagem de uma cidade de bairros típicos: o Castelo, a Estrela, o Bairro Alto e Sete Rios.
As marchas populares estabelecem, nestas comédias, o universo de festas quase sempre focadas em contre-plongée. Projetam o universo popular e a identificação absoluta com o público. Durante as marchas, e pelas marchas, todos põem fim às suas quezílias e discussões, abraçam-se perante o fogo de artificio e trabalham em conjunto para a organização das festas dos santos populares que duram até às sequências finais de A Canção de Lisboa e O Pátio das Cantigas.
Jacques Tati em Jour de Fête (1947) projeta a preparação, a organização, a decoração, a chegada dos artistas, o carrocel, as vivências da festa na aldeia com a banca de tiro, a banda de música, o carteiro (Tati), a velhota, o jogo das personagens, planos marcantes de movimentação individual e coletiva à volta da festa.
Sérgio Tréfaut em Os Lisboetas (2004), documenta os momentos festivos dos imigrantes com um baile de forró: a música, as luzes e os jogos eróticos definem um longo plano sequência que protagoniza a reflexão sobre o valor da festa no percurso da integração, momento chave da estruturação narrativa deste documentário.
Fellini define a inevitabilidade das festas populares, das danças e das manifestações musicais em Roma, Amarcord e Otto e Mezzo com o circo, o jogo e a magia dos músicos, bandas e sopro que animam as ruas e as festas populares e com as danças espontâneas e resistentes dos refugiados sérvios que chegam em E la nave va.
Há festa no cinema. A festa é o passaporte obrigatório no percurso identitário do herói. Estabelece a inevitabilidade da arte na vida humana e, por isso, o cinema não a esquece. E assim, o diálogo entre o cinema e a festa é, sempre, uma mistura subtil entre realismo e surrealismo.