quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

QUEM QUER FALAR DE BULLYING?

"... morre um menino, morremos todos um pouco" 
Mário Crespo, na Sic Notícias, em 14/01/2014

Anabela Borges
DR
É janeiro. 
Era sobre as Janeiras que eu queria falar. Queria falar da alegria renovada ano a ano, de uma tradição secular que quer persistir no tempo inglório que corre, no tempo apressado, no tempo agastado, no tempo gasto. Queria falar nos rostos corados do frio, nos gorros e cachecóis, nos cavaquinhos, nos homens de bigode e as mulheres com a mantilha sobre as costas, no saco do dinheiro, nas vozes teimosas a entoar cânticos de esperanças para o Novo Ano.
Chove copiosamente e é janeiro. Os dias ainda se agastam nas intempéries invernosas que não queremos viver, e vão ganhando lentamente um pouco mais de luz, pois que pé ante pé se vão notando os dias maiores, num salto de carneiro, ainda que seja um carneiro e perna curta.
Ninguém fala de bullying. Fala-se um bocadinho de bullying e passa-se logo para o tema seguinte, política ou futebol, ou assim. As pessoas têm medo de falar de bullying, não querem aceitar que ele existe todos os dias à sua volta. O bullying sempre existiu. Todos conhecemos alguém, vizinho ou do nosso tempo de escola, que foi vítima de bullying.
Quando um menino de quinze anos põe termo à vida, graças à violência perpetrada por outros meninos, isso é trágico de mais. Não podemos fingir que não vemos.
Este ano lectivo, a APAV promoveu uma acção de sensibilização sobre bullying na escola onde lecciono. E os alunos, todos da idade deste menino que esta semana se suicidou, pouca importância deram ao assunto. Mais: não tiveram um comportamento adequado à gravidade do que ali estava a ser exposto. Diziam graçolas (para que os colegas apreciassem), e riam-se (para mostrar que o problema não era um problema e que nunca os afectaria). Mas o que é isto? Eu fiquei indignada com a postura destes adolescentes, quando lhes estava a ser proposto ouvirem alguns conselhos e eles próprios debaterem o assunto. Muito a custo e com ar de imensa confiança e conhecimento sobre o assunto, do tipo “tenho tudo controlado”, alguns lá admitiram conhecer casos de bullying e um ou outro admitiu já ter pertencido a um grupo agressor ou ter conhecido vítimas. 
O bullying não se passa só entre os jovens. Não, de todo. O bullying abrange todas as idades e classes sociais. O bullying é uma das formas de exclusão mais cruéis, é uma maldade que se cozinha durante um grande somatório de horas, dias, semanas, meses, anos – até onde se conseguir aturar. É imenso este mundo escurecido.
Os miúdos são cruéis. Vivem numa sociedade em que importa ter para ser; importa estar inserido num padrão, num grupo, para ser incluído.   
Eu ouvi a notícia, à noite, e o Mário Crespo dizia, na sua indignação, "... morre um menino, morremos todos um pouco". 
Pois morremos. Eu morri um pouco. Deitei-me cheia de horrores na cabeça e sonhei com pessoas e mais pessoas que entraram no meu sonho, sem saber o que elas queriam. Acordei muito cansada, para um novo dia. O quê? Ninguém fez nada por aquele menino. E agora? Vamos fazer o quê? O quê? O quê?

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