sábado, 15 de agosto de 2015

FAMÍLIA PIMPAREL: ENTRE JUDEUS, CRISTÃOS-NOVOS E CRISTÃOS


(casado com uma Pimparel,Jorge Nuno tem dois filhos e dois netos com o mesmo apelido).

Vai-se ouvindo dizer que “podemos escolher os amigos, mas não a família” ou, também, “os amigos são a família que nós escolhemos”. Benditos aqueles que não tendo escolhido a família, têm os familiares como amigos; a vasta família Pimparel é um exemplo disso, entre aqueles que têm oportunidade de se conhecer e privar no dia a dia ou em encontros esporádicos promovidos, ou ainda outros, mais ou menos casuais.

Tantas vezes foi questionado, por membros desta família, a proveniência do nome Pimparel e da própria família, ouvindo-se uns zunzuns, passado de boca em boca pelos mais antigos até ao presente, quase a medo, que se tratava de uma família de origem judaica; a alguns deles, devido à Inquisição, terá sido imposto a “conversão” a cristãos-novos e hoje, passado cerca de 500 anos, há predominância de cristãos. Na verdade, ao tempo do rei D. João III, há o relato de um André Gonçalves Pimparel, que se pode ler num documento preparado por Maria José Ferro Tavares (professora catedrática aposentada), intitulado “Entre religiões e negócios, a sobrevivência” e que, com base num documento da Inquisição de Lisboa (PT-TT-TSO/IL/28/57, fot. 9-10) diz o seguinte: “(…) André Gonçalves Pimparel fora viver para a Turquia onde se fizera judeu e nesta fé morrera. Enquanto fora vivo escrevia cartas aos filhos, aos netos e a outros cristãos-novos que tinham ficado em Miranda do Douro, estimulando-os a perseverarem na fé judaica.

Também um artigo assinado por António Júlio Andrade e Fernanda Guimarães (com livros publicados e tendo como fonte IANTT - Inquisição de Lisboa, processo 2181, de Lopo de Leão) refere André Gonçalves Pimparel como uma “figura mítica do movimento messiânico desencadeado por David Reubini (judeu originário da Índia e aclamado como o Messias prometido (…)” e que depois deste ter caído em desgraça, levou a que o Pimparel – um dos seus principais seguidores – se visse forçado a seguir para a Turquia, por terra, com um dos “seis salvo-condutos emitidos em 21.6.1526 pelo rei D. João III (…). Este Pimparel terá partido para o Golfo (Turquia?) e publicamente regressado ao judaísmo, ele que havia nascido judeu e fora um dos ‘batizados em pé’ ”.

Num documentário preparado por José Rodrigues dos Santos (jornalista e escritor), passado na RTP 2, veem-se algumas incursões deste por terras do nordeste transmontano, particularmente em Carção e Argozelo, assim como pelo Arquivo Distrital de Bragança, em demanda das suas origens, e terá concluído que também tem antepassados, de origem judaica e de apelido Pimparel.

O guarda-redes Beto, jogador da Seleção Nacional de Futebol e atualmente ao serviço do Sevilha, demonstra orgulho neste seu apelido, tal como qualquer dos Pimpareis que se conhece. 

Sabe-se que, na primeira metade do século XX, vários membros desta família detinham, maioritariamente, pequenas áreas de negócio – caraterística de judeus –. Atualmente, os seus descendentes têm vindo a conseguir cargos de relevo, nas mais variadas profissões em diversas cidades europeias e de outros continentes, embora sem o “estrelato” atribuído a quem aparece frequentemente nos media. Atualmente o nome Pimparel está disseminado por todo o Portugal (com maior quantidade em Trás-os-Montes) e também no estrangeiro, com núcleos familiares conhecidos na Alemanha, Brasil, Canadá, Espanha, Estados Unidos da América, França, Reino Unido, Sérvia, Suíça,…

Membros desta família – alguns sem se conhecerem –, criaram e começaram a fazer circular árvores genealógicas das ramificações que conheciam (por mensagens nas redes sociais), para juntar as várias “peças do puzzle” e obter uma visão mais alargada da extensão da família.

Em boa hora partiu a ideia da realização de um primeiro almoço-convívio, por Ricardo dos Santos Pimparel, que se realizou em Bragança em 15 de agosto de 2014, e juntou cinquenta e dois membros desta família, com muitas crianças que ostentam o Pimparel no seu cartão de cidadão, estreitando laços familiares. O “motor” deste evento, em termos organizativos, foram a Lena Pimparel e a Laura Pimparel, primas afastadas (até fisicamente, em cerca de 400 km) e que até há pouco tempo não se conheciam. Para o mesmo dia e mês, em 2015, está previsto o segundo almoço-convívio, igualmente em Bragança.

Como qualquer outra família, nos imensos núcleos familiares desta, em particular, haverá: venturas e desventuras; alegria e momentos menos bons; solidez de relações e abalos ocasionais. Mas no reencontro sobressai o elo forte da amizade, num carinho comovente, a ultrapassar as meras relações familiares (ou o pretexto dos laços de sangue), fazendo-nos experienciar o verdadeiro sentido da vida – nesta caminhada de luta diária – onde nos deparamos, naturalmente, com o tempero de afinidades, cumplicidades, simplicidade e muita fraternidade, valores inestimáveis a preservar para uma vivência mais suavizada e agradável.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

AS REFERÊNCIAS A FREGIM NA OBRA DE CAMILO CASTELO BRANCO

Fregim

HÉLDER BARROS
O grande escritor português, Camilo Castelo Branco, refere-se às suas passa-gens por Amarante, no percurso Vila Real-Porto e vice-versa, de modo a que a afamada tradição hospitaleira e posição estratégica, da nossa então Vila e ago-ra Cidade de Amarante, ficassem registadas de forma indelével, no Romance: “Vinte horas de Liteira”.

(…) “Pernoutamos, em Amarante, numa estalagem, onde eu, annos antes, ti-nha visto tres bellas creaturas, filhas de uma grave e redonda mulher, dona da hospedaria.” (…)

Na qualidade de grande apreciador da extraordinária Obra Literária de Camilo Castelo Branco, onde o seu poder narrativo de romancista de excelência, o notabilizou como um descritor das paisagens social e física do século XIX Por-tuguês, com uma clarividência fantástica na associação do ficcional com o real e que, designadamente, também abordou a nossa região e as suas vivências, quer enquanto viajante assíduo pelas nossas estradas e pousadas, quer en-quanto personagem interclassista que teve orgulho de privar, por exemplo, com o famoso salteador “Zé do Telhado”, na sua estadia forçada na Cadeia da Relação, por motivos passionais, devido à sua paixão proibida por Ana Plácido, que resultou em crime de adultério.

Ainda mais orgulhoso fiquei na referência que faz no mesmo romance, à sua passagem por Fregim, onde contou a história ficcionada de “Manoel Brazilei-ros”, estribada em acontecimentos e personagem concretas.

(…) “Vimos nascer o sol do dia seguinte nas alturas de Pidre. Dalli, com o oculo do meu amigo, procurei entre as ramagens as ameias do manuelino portal da casa de Frigim. Esta casa fôra de José Augusto Pinto de Magalhães, cavalheiro que abriu no Porto, ha dez annos, uma chronica de infortúnios, e se fechou com ella n'uma valia do cemiterio do Alto de S. João, em Lisboa. Naquella casa tinha eu passado uma noute, ha doze annos. Referi a Antonio Joaquim a tragedia mysteriosa de José Augusto. Cahia a proposito contal a aqui ao leitor; mas, no mez que vem, ha-de boiar «no rio do negro esquecimento e eterno sono» mais um livro meu, desvelando a face enigmatica d'aquella grande desventura, que o mundo impiedoso quiz explicar com uma calunia maior.

Quando avistamos o edifício magestoso de Alemtém, o meu amigo mandou-me apontar o oculo um tôpo de outeiro, em que se avistava uma cruz alpendrada, com um lampadario pendente do docel de abobada.
— Tem um bonito romance aquella cruz — disse Antonio Joaquim. — Chamo-lhe eu bonito, porque encerra uma sublimada philosophia. Eu vim alli, ha tem-pos, comprar um potro n'aquella freguezia, e conheci, em casa do comprador, um sujeito, pequeno lavrador, a quem os da terra chamam o «Manoel brazilei-ros. Pelos trajos, encodeados de terra e remendados, entendi que o epitheto de brazileiro era epigramma popular com que a gentalha costuma alcunhar os patricios que voltaram pobres do Brazil.” (…)

Aqui se fala de uma personagem que, encantado por estórias de gente que enriqueceu com a emigração para o Brasil, quis também para si esse “El Dora-do”, mas que só encontrou o destino de muitos aventureios em busca do des-conhecido e em locais remotos, o cruel reverso da medalha da sorte… no fun-do, Camilo Castelo Branco aborda nessa estória, a desmesurada ambição hu-mana de enriquecer facilmente que, neste caso, incidiu sobre um pobre rapaz de Fregim, um tal Manuel do Lugar da Mó, Fregim, Amarante.

De facto, Fregim foi sempre um local de passagem dos viajantes que vinham de Trás-os-Montes para o litoral e vice-versa. O lugar da Pousada e a Casa de Pousada, não a pertencente ao Visconde da Granja e que posteriormente per-tenceu ao Comendador José de Abreu, mas antes a Casa de Pousada, no mesmo local, que ainda pertence atualmente à família Sousa, de Pousada.

Em miúdo tive o privilégio de brincar e de visitar bastante esta casa, onde ainda eram visiveis os vestígios dos locais de amarração dos cavalos e de estacionamento das carruagens que lá paravam, para o repasto e descanso merecido dos ocupantes e dos animais que os transportavam. Tem também uma enorme cozinha, uma grande sala de jantar e muitos quartos e arrecadações, o que ajudou à sua função de Pousada.

Recordo aqui esta prova documental da importância estratégica de Amarante, que paulatinamente vamos vilipendiando mas que penso que não devemos deixar morrer… pelo contrário, deveremos tentar por todos os meios possíveis inverter, a nosso favor, a favor de uma Amarante que Dom Gonçalo encontrou na sua viagem e que, não mais abandonou, tornando-se o seu patrono! Quanto ao romance de Camilo, aconselho vivamente a sua leitura.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

FÉRIAS VERSUS CULTURA

“Continuo imaginando não ser cego; continuo comprando livros; continuo enchendo minha casa de livros. Há poucos dias fui presenteado com uma edição de 1966 da Enciclopédia Brokhaus. Senti sua presença em minha casa - eu a senti como uma espécie de felicidade. Ali estavam os vinte e tantos volumes com uma letra gótica que não posso ler, com mapas e gravuras que não posso ver. E, no entanto, o livro estava ali. Eu sentia como que uma gravitação amistosa partindo do livro. Penso que o livro é uma das possibilidades de felicidade de que dispomos, nós, os homens.”
Jorge Luis Borges


ANABELA BORGES
DR
Chegando as férias e o lazer, chega também mais tempo para ler. É o que eu costumo dizer aos meus alunos. Eu digo-lhes: “leiam todos os dias um pouco; leiam antes de ir dormir; leiam sempre que possam, mas leiam sobretudo nas férias”.

Desde muito cedo, eu transmito o gosto pela leitura às minhas filhas, desde a sua estada buliçosa e inquietante no meu ventre, já que sempre tive o hábito de ler em voz alta. Hoje, elas lêem muito. A mais nova tem treze anos e disse-me: “Mãe, quero levar mil livros para ler na praia. Eu vou ler mesmo muito, quero melhorar o meu vocabulário”. E o meu orgulho de mãe sobe, sobe até às estelas, sempre sem parar. 

É claro que sobressai a hipérbole da questão, mas os meus desejos aspiram a que as minhas filhas aprendam mil ou mais palavras, de entre o emaranhado de letras sem fim que se solta dos livros que hão-de ler. E depois mais mil e outras mil ainda, ou mais.

Quando elas eram pequeninas, pediam frequentemente para ir à biblioteca. E eram horas arrastadas em tardes inteiras, sem ponteiros nem relógios, palavras apenas e conhecimento.   

Cada vez mais, as bibliotecas são vistas como espaços de conhecimento e não como depósitos de informação, pois não basta tê-la (a informação), é mesmo necessário aprender a transformá-la em conhecimento. Ter acesso aos serviços de uma biblioteca é um processo que se deve formalizar desde a mais tenra idade, por forma a cimentar a aprendizagem ao longo da vida.

É, por isso, importante que os utilizadores aprendam a usufruir de modo inteligente e rentável da informação disponível nas bibliotecas.

As bibliotecas, florestas de conhecimento, erguem-se como espaços sociais, locais onde convivem pessoas de diferentes graus académicos, diversas escolaridades, pertencentes a uma variada tipologia de profissionais, faixas etárias, níveis económicos e sociais. Assim, as bibliotecas são espaços privilegiados para os utilizadores tirarem o máximo partido num sentido construtivo, dando especial destaque ao desenvolvimento das literacias e à capacidade de aprendizagem ao longo da vida, como formas de adaptação às mudanças emergentes na sociedade atual.

Eu não consigo imaginar muitos espaços tão aprazíveis e enriquecedores como as bibliotecas. O Borges dizia que imaginava o paraíso como uma grande biblioteca. Eu também. Quando entro numa biblioteca, sinto as brisas e aragens dos enredos que as compõem. Parece que vêm a mim gerações de gentes que por lá passaram, juntamente com as múltiplas ficções e o conhecimento acumulado nas estantes e nos arquivos. 

Assim foi, por exemplo, no fim-de-semana passado quando visitei a Biblioteca Joanina, na Universidade de Coimbra.

Eu também já pus de parte os livros que quero ler na praia. É um lote grande, para juntar às mil, mais mil, mais mil palavras das minhas filhas. Levamos uma mala de livros para as férias, vidas inteiras em palavras, conhecimento em construção.

É essa fé que eu tenho: que, mesmo que seja lentamente, mesmo que seja palavra a palavra, se vá fortalecendo o conhecimento e não apenas nos limitemos a acumular informação. E talvez assim, por meio das florestas de livros, por meio de palavras, dos seus gritos e das lições de silêncio que podemos retirar delas, estejamos a assistir a uma gradual mudança de mentalidade da sociedade em geral. É preciso acreditar.


Boas férias e boas leituras!

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

CRÓNICA EXCLUSIVA PARA ESPÍRITOS JOVENS

PAULO SANTOS SILVA 
Comemora-se hoje, dia 12 de agosto, o Dia Internacional da Juventude. Esta data, que foi instituída por uma resolução da Assembleia Geral da ONU tomada em 1999, resolução esta que surgiu como resposta a uma recomendação da Conferência Mundial de Ministros Responsáveis pela Juventude, reunida em Lisboa, de 8 a 12 de Agosto de 1998.
Importa em primeiro lugar definir o conceito de juventude. O que é a juventude? Conseguimos definir um espaço temporal que nos permita dizer que a juventude do ser humano acontece desde a idade x até à idade y? Se assim for, fará sentido dizer que o ser humano pode manter a sua eterna juventude?

Se procurarmos a resposta a estas perguntas ao longo da história da Humanidade, facilmente encontramos personagens que buscam nos mais diversos locais o célebre Elixir da Eterna Juventude. Procuraram-no (e ainda procuram…) na genética, nas plantas aromáticas e medicinais. Até o procuraram no Santo Graal, um cálice sagrado onde se confundem elementos religiosos e pagãos, relacionados com a cultura celta. 

Deixemos as lendas medievais, mais o Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda em paz (já agora, o Indiana Jones também…) e analisemos a questão de uma forma mais pragmática.

Na minha modesta opinião, a juventude é muito mais do que uma data no Cartão do Cidadão. É um estado de espírito que nos leva a estar atualizados, a ser reflexivos acerca de tudo o que nos rodeia, a ser perspicazes, a ser pró-ativos e a saber acompanhar a evolução do pensamento da sociedade. É neste sentido que me parece que a resposta à última questão colocada, é claramente sim. O ser humano, independentemente de ter mais ou menos cabelos brancos, mais ou menos rugas, pode manter a sua eterna juventude. Cada fase da nossa vida, deve ser vivida no seu momento certo. Nem antes, nem depois. Sem antecipação de etapas, nem regressos ao passado. Por isso, caro leitor, o conselho deste jovem é que viva!!! 

Saia de casa, vá a um concerto, leia um livro, dê um passeio, em suma, disfrute dos prazeres que a vida lhe oferece em cada momento, sem reservas ou preconceitos, sempre com a moderação e sentido de responsabilidade necessários.

Certamente que o seu espírito se sentirá mais jovem e o seu corpo agradecerá!
Termino com uma sugestão musical – o Hino das próximas Jornadas Mundiais da Juventude, que acontecerão em Cracóvia, entre os dias 25 e 31 de julho de 2016.


Carlos Lopes



PS – Comemora-se hoje 31 anos que um jovem atleta português, de seu nome Carlos Lopes, ganhou a primeira medalha de ouro olímpica para Portugal, na Maratona dos Jogos Olímpicos de Los Angeles 1984. Tinha 37 anos de idade. Muitos da sua geração, já tinham terminado a carreira como atletas. Ainda bem que o Carlos Lopes era um espírito jovem!...

terça-feira, 11 de agosto de 2015

É NECESSÁRIO APRENDER A LER

REGINA SARDOEIRA
Efémero. Termo que se opõe ao eterno e traduz um estado transitório entre dois momentos, dias, horas ou mesmo segundos, nos quais houve acesso a situações e sentimentos que, bruscamente, ou aos poucos, nos abandonaram para, numa sequência limitada, darem lugar a novas aventuras, também elas efémeras, também elas destinadas a serem tragadas na voragem do devir. 

Dizem que a vida de uma borboleta é efémera. Ao sair do casulo onde foi larva e crisálida, solta as asas na derradeira metamorfose, desdobra-se em cores, voando rasamente por entre os arbustos , deixando breves sulcos no ar, que brandamente agita, e depois desaparece, enquanto vida, sem deixar história que mereça ser contada. E no entanto eu não acredito no efémero. 

Enquanto ligeiramente discorria sobre o carácter transitório e fútil do voejar da borboleta, no instante em que afirmava ser a sua vida uma ínfima sucessão de ínfimas metamorfoses, das quais não ficará no mundo a sombra de uma história, dei comigo a negar o meu próprio raciocínio e a evocar a trajectória subtil de um ente da natureza submetido, como todos os outros, a um processo complexo de indícios evolutivos. E lembrei-me da teoria do caos, segundo a qual, um invisível bater de asas de uma borboleta na Amazónia pode ser a ruptura da estabilidade cósmica, a ponto de desencadear um furacão em Miami. 

Efémera, a borboleta? Todos os dias, minúsculas hélices irrisadas, em minúsculas e aleatórias batidas desencadeiam, pelo mundo, as mais fantásticas explosões e tempestades! 

E eis que a borboleta se tornou metáfora; e logo afirmo, com Nietzsche, que "os maiores acontecimentos não são as tuas horas mais ruidosas, mas as horas de profundo silêncio" e também que "não é ao som das grandes algazarras que a terra gravita, mas por obra dos criadores de novos valores... e ela gravita, em silêncio" e ainda que "são as patas das pombas que transportam as certezas do mundo" , e com ele reafirmo a importância infinita e perene dos pequenos hiatos, com que separamos os grandes acontecimentos, ou dos símbolos que nos envolvem e de que, escassamente, damos conta. 

Assim, a efemeridade de tudo contém o eterno e este reside, invisível, no âmago das pequenas coisas, sem as quais perderia substância e sentido. 

Dizemos que tudo passa e que tudo é vão. Hoje vivemos um amor ou um sonho que amanhã não lembraremos e dos quais não encontrámos já o reflexo ou os contornos; e todavia, na trama que vamos urdindo, enquanto a vida transcorre, esse amor e esse sonho foram o arabesco de uma volta da alavanca do tear e estarão lá, para sempre intrincados, na tessitura da nossa existência. 

Mais uma vez renego o efémero, para afirmar o eterno, atendo-me ao sinal que pareceu fugaz à nossa limitada perspectiva e contudo subjaz, para rechear de sentido o futuro, erguendo o presente e preenchendo o passado de solidez e substância. 

Hoje, um homem morre, deixa vago um lugar, não somente sentimental ou histórico, mas o espaço pelo qual foi arrastando a existência corpórea. E dizemos: qual o sentido desta morte, neste dia, nesta hora? Porque se desvaneceu, por fim, esta vida e que faremos, doravante, dos lugares que lhe pertenceram, enquanto moradia terrena? Percebemos, daí a pouco, que aquela morte e a aparente insensatez de um desaparecimento físico, que a nossa razão teima em rejeitar, foram a oportunidade bem vinda da existência de um outro, ali instalado para dar sentido ao seu próprio destino, perpetuando a vida do que, morrendo, criou sentido para outrem. Nenhum dos dois o soube, porém. Um, porque partiu e não deixou no testamento a outorgação da sua residência ao posterior ocupante; este, porque quando viu partir o primeiro não sabia que um sentido, para si, deveria advir daquela morte. 

Volto a negar o efémero, para me ocupar a ilustrar a perenidade dos pequenos feitos e o carácter eterno dos mais ínfimos sinais. Quem diria que, naquele dia concreto, a uma certa hora, um homem morria para que dessa morte nascesse a condição do recomeço da vida de um outro e que nenhum deles teve o poder de pressenti-lo? 

"A lei da vida é o eterno, não o efémero" , escreveu Teixeira de Pascoaes, e "na humanidade transluz o divino e temos Deus em Jesus Cristo" . 

Na mitologia panteísta do poeta das "Sombras" e nestas linhas, citadas de cor, de "A Minha Cartilha" vemos a transição e a simbiose, em dialéctica inelutável, do que acreditamos serem duas partes, de duas diversas realidades, e no entanto coexistem, unidas, na inextrincável necessidade que, não somente junta as partes, como necessariamente as funde. 

E outra vez nego o efémero, na sua efectividade, pois a lógica transhumana da realidade cósmica obriga a pequenez dos sinais transitórios, em fugaz percurso, a tornarem-se as inevitáveis cadeias, muitas vezes intangíveis, da imensa e misteriosa dinâmica daquilo a que chamamos vida. 

Uma abelha, por exemplo, é um insecto minúsculo que só nos prende a atenção por duas razões: ou queremos fugir-lhe, e eventualmente matá-la, para que não nos pique, ou aprisionamos o enxame em colmeias para retirarmos delas, o mel. E contudo, estes actos efémeros de afastar a abelha, ou de extrair-lhe o mel escondem um segredo imenso, no que concerne à existência de abelhas no mundo: caso elas desapareçam da terra, o homem saberá que, em quatro anos, as condições da sua existência biológica na terra terão desaparecido para sempre. As abelhas, pequenos entes efémeros, na sua existência aparentemente desrazoável, são, no limite, o sinal irrevogável da nossa perda, enquanto seres da terra. 

Sinto que a minha vida, sendo uma sucessão de episódios e processos, onde o fluxo ordeiro se interrompe, aqui e ali, no sobressalto ou no ápice de uma surpresa, traz em si, no próprio instante do brusco acontecimento efémero, o segredo de uma eternidade, cujo sentido me será revelado, depois, quando permitir libertar-me das vendas que o raciocínio redutor engendra. 

Por isso nada lamento daquilo que me vai encrespando de sobressaltos e de dores, obliterando felicidades, desvanecendo prazeres, cravando farpas na pele do meu espírito. Esses átomos de desespero, essas sombras agónicas, esses crepúsculos sombrios onde a angústia se acoitou são, afinal, os símbolos indeléveis de muitas realidades paralelas, em mim, todas unidas num sentido, nem sempre legível. 

É necessário, pois, aprender a ler.

Citações de:
Friedrich Nietzsche,  Assim Falava Zaratustra
Teixeira de Pascoaes,  A Minha Cartilha

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

IR À «TERRA»

CLARA CORREIA
“Meu querido mês de Agosto”, não só o “meu”, como dizia a letra de uma canção de pendor ”emigrante”, mas o de todos em geral, tem, quase sempre, tanto de “silly” como de sentimental … ou não estivéssemos em plena “silly season” e em pouco serena, por vezes, arena de sentimentos; eles, os sentimentos e as sensações (não só as causadas pelo “sol na pele ao léu”, como dizia uma outra canção a pender mais para o tropical) soltam-se por aí (que no ar livre estival desfrutam bem do privilégio da liberdade), à rédea tão solta como livres de “rei e roque”. 

De modo que, à semelhança dos ditos “amores de Verão”, que também exigem um considerável aporte emocional e, tipicamente, duram o ápice do pico passional sazonal, as idas anuais (ou bi-anuais, se natalícias) à “terra” (a de cada um, bem entendido) têm a duração do prazo para a despedida forçada, que o que tem de ser, tem, de facto, muita força … sobretudo no que respeita a tudo o que respeite à chamada “rentrée” que, afinal, mais não é do que um estrangeirismo “três chic” para fazer regressar a “plebe” à realidade da rotina laboral e de outros compromissos deliciosamente omissos nas férias e viagens a elas associadas, nomeadamente, à “terra”! 

Ora, a ida “à terra” é precedida pelo artigo definido “a” em vez do artigo indefinido “uma” pela mesma razão que nos faz ser “filhos dela” (da “terra”) e não de qualquer outra. E se chegar à “terra” implica viajar milhares de quilómetros pela mesma estrada que conduziu à emigração, então, a ida toma a forma da saudade saciada pela ambicionada ausência da distância geográfica, para quem vai e para quem lá espera!

Se “ir à terra” equivale a passar uns dias na província, o que sucede a maioria das vezes, a expressão adquire um significado ainda mais especial, dependendo, ainda assim, da manutenção que se cuida em fazer no que respeita à afinidade com a terra e à cumplicidade com os conterrâneos; uma parte destes, provavelmente, participaram no cenário da nossa infância e é precisamente a infância, como a arca dos tesouros mais ou menos únicos que nos compõem enquanto indivíduos, que nos liga indelevelmente à “nossa terra” … mais um motivo, em boa parte dos casos, para (re)vivermos este e cada Verão!

domingo, 9 de agosto de 2015

SAL...VAÇÃO

MIGUEL GOMES
Existe bastante ironia no tempero entornado à vida, uma cidrazice que fica no amargo de boca de cada vez que inalamos os limites da nossa magneticidade existencial. 

O dia encarregou-se de ser dia e o homem encarregou-se de ser homem, ao calor típico da inclinação orbital neste périplo em redor do Sol sucede a humanidade, que se pode avistar lá ao fundo, primeiro num fino fio de uma tonalidade cinzenta, rapidamente transformada em espessa cortina negra que ascende em golfadas como se a própria maldade fumasse desenfreadamente nesta tarde de veraneio. 

Agora, encarrego-me de, sentado, suster o calor que emana da parede, enquanto estico as pernas pousando-as num banco. Até as próprias inanimadas criações do homem parecem ter vida, respirando ao sabor do dia, suando vida em forma de sensação térmica. E assim, de repente, salta-me à frente a recordação do velho portão de ferro enferrujado da casa onde cresci, das suas vivências enquanto fronteira móvel da privacidade familiar, da fina película de gelo que se formava no inverno e que eu, alegremente, partia com a mão ou das gotas que por lá amanheciam depois de pernoitarem e penumbrarem com a neblina, nevoeiro e orvalho.

Degustado o agri-doce do tempero, sobra-me apenas a ironia, da vida. Talvez nem seja ironia, mas apenas a vida, natureza, destino, carma, chamem-lhe o que quiserem. Falam-me numa criança. Preservo o seu nome. Nascida com uma deficiência visível, e nisso congratulo a natureza pela sinceridade, todos nascemos deficientes e passamos a maior parte da vida a escondê-lo, mas estas crianças nascem com a visibilidade do que são e permanecem durante a sua existência terrestre ostentando, na involuntariedade do seu querer, o que são, sem subterfúgios, sinceras. Tendo-me brindado a existência com dois invernos na vida, abraço agora qualquer nuvem com a mesma candura como se fossem minhas, quando não são, penso. 

Há uma criança, uma vida, que se vai desenvolvendo na incógnita do desenvolvimento e no mais profundo sofrimento dos pais, uma sensação que se multiplica pelo número crescente de indiferença na sociedade, alheia a qualquer problema que não seja o incrustado ao redor do seu próprio umbigo. Vejo nos olhos e ao redor do que transpiram a angústia e o medo do futuro, de um amanhã que poderá amanhecer com menos cor ou até na penumbra total. Imagino a desesperante sensação de se querer o melhor e este estar apenas ao alcance de um sonho, de uma reviravolta nas leis da física à qual chamam milagre. 

Sendo o futuro o que é, ou seja, aquilo que não sabemos vir a ser, o medo acautela-se de incutir aos pais a dúvida perante a certeza da sua ausência um dia. Faltando pai e mãe quem poderia continuar a acompanhar a criança, adulta amanhã, se a doença se cavalgasse e prolongasse a noite para lá das madrugadas de incerteza que agora vivem? O amor tem soluções que a própria solução desconhece. Os pais decidem, no mais profundo amor acredito, que um irmão, ou irmã, seria o indicado e o mais perto do amor de pais para, desapegadamente ou desinteressadamente, permanecer ao lado da consanguinidade e seguir vida adentro segurando-lhe a mão nas vagas mais altas e, também, nas baixas onde tendencialmente estamos mais desatentos. 

A ironia da vida nasce aqui, na estupidez mundana ou divina, de permitir que a segunda criança nasça deficiente, dentro da sua perfeição. 

Qual a escala para medir o desabamento das esperanças dos pais? 

Para onde são lançados os dados da vida? 

Eu que não me lembro de ser deus ou ter qualquer tipo de regência sobre os elementos naturais, limitando-me a ser duas coisas apenas, calado e estúpido, prostro-me e indago sobre a justiça, a lógica, o porquê do desequilíbrio na inocência num mundo (humano) já por si desequilibrado, injusto e cada vez mais carcomido de vilezas e mundanices tão viscosas que fazem de qualquer acto de bondade um evento noticioso de extrema raridade.

Enquanto me perco entre a observação e o exercício de ajuizar, deixando-me ser aquilo que não gosto de ser e ver nos outros, começo a vislumbrar, a emocionar-me com a cumplicidade entre os irmãos, vigiados de perto pelos cuidadosos pais que herdaram tal amálgama de sentimentos, um abraçar, o olhar terno e infantil de quem nos habituamos a ver como “coitadinhos, tenho tanta pena” (juntando um pequeno esgar contorcido de uma dor falsa e passageira e um encolher de ombros), a supremacia de um amor que se vê acima de qualquer veleidade, esvoaçado por entre o pó que os pés descalços na terra levantam, a profunda humanidade no olhar de duas crianças, cada qual a viver a sua própria vulnerabilidade, crescendo e encontrando espaço para aquecer o mundo numa vida que parece cada vez mais fria.

A noite vai terminar, tal como este relato, na verdade terminou há bastante tempo, talvez ainda antes de começar, quando tentei colocar neste conjunto de letras e sinais de pontuação, certamente mal empregues, as minhas costas já quentes pelo contacto com a parede, as estrelas a cintilarem sem qualquer preocupação com as minhas indagações, o deslocar lento e firme desta esfera numa matriz que se faz de todas as palavras que quisermos. A noite termina, os pais à frente, os filhos atrás, o caminhar num abraço desnivelado próprio da diferença de idades, o olhar e o sorriso mais terno que poderei um dia almejar ver novamente. Ali, numa trindade quadrada, o porquê desta vida ser o que é, um percurso com data certa, o nascimento, sem data definida para partida, e em todo o espaço entre estes tempos sobra apenas a veracidade de se tentar descobrir o amor perfeito, quando perfeito é o amor nascido naqueles considerados imperfeitos.

sábado, 8 de agosto de 2015

OS PERIGOS DO SOL

ANTONIETA DIAS
Quase todos desejamos o verão sobretudo pela possibilidade de poder usufruir da tranquilidade das férias para recuperar energias e para poder partilhar com os amigos e com a família dos encantos do mar e do sol.

Certo é que o efeito relaxante que o bem-estar gerado pelo prazer da praia pode se não respeitarmos as regras de segurança e de proteção solar transformar este reforço positivo num problema de saúde que irá quebrar a nossa esperança da tão desejada mudança de visual. 


Nem sempre o bronzeado traduz saúde e bem-estar, pois o risco pode ser maior que o benefício 


Foi na década de 1980 que começaram a despertar os primeiros sinais de alerta sobre os potenciais perigos da exposição excessiva ao sol sem proteção solar.

Até então pensava-se que o sol só trazia benefícios e era consensual que os efeitos deletérios seriam praticamente nulos.

Todavia existe evidencia científica e os estudo comprovam que a exposição solar para alem de envelhecer a pele, em qualquer fase da nossa vida, torna-se ainda mais agressiva na faixa etária antes dos 18 anos é a fase em que esta exposição ainda é mais prejudicial, porem não é só a idade., pois existem outros fatores de vulnerabilidade dos quais destacamos que os ruivos são sensíveis na aquisição de complicações originadas pelos malefícios da exposição solar inadequada cuja irradiação irá tornar a pele mais fina e mais suscetível, transformando-se num terreno fácil para o aparecimento de lesões que podem passar por lesões simples como as queimaduras, ou serem mais agressivas e predisporem o organismo ao aparecimento de lesões pré- cancerosas cujo risco potencial mais evidente é o de degenerar em cancro da pele.

Existem várias neoplasias malignas da pele, sendo uma mais graves do que outras, algumas curáveis outras não.

Referiremos apenas as mais comuns designadamente o carcinoma baso celular, o carcinoma de células escamosas e o melanoma maligno.

O melanoma maligno é a lesão mais grave e mais perigosa porque pode não ter tratamento podendo ate ser fatal.

Importa ainda referir que as lesões que surgem na pele provocadas pela exposição solar são irreversíveis. A fim de minimizar os riscos da exposição solar recomenda- se que o tempo de exposição não seja muito prolongado sendo imprescindível o uso de protetores solares com utilização de filtros solares (cremes ou pomadas que protejam a pele das queimaduras e que previnam os potenciais malefícios causados pelos raios ultravioletas (UVA e UVB). Certos filtros solares são também impermeáveis a água sendo assim possível a permanência da proteção mesmo que se façam os banhos de mar. Se mesmo assim surgir uma queimadura solar, em que nos sinais de alerta se destacam a presença de ardor ou vermelhidão a primeira atitude a tomar é abandonar de imediato a exposição ao sol e iniciar tratamento conservador com aplicação de compressas molhadas em água fria, hidratar bem a pele e aplicar loções tópicas. O tempo de tratamento necessário para a cura destas lesões é imprevisível, podendo durar alguns dias ou prolongar-se por semanas conforme a gravidade das mesmas. A pele por vezes fica demasiado sensível podendo desenvolver infeções que irão implicar o uso de antibiótico para debela-las. Sempre que a pele é queimada irá ser substituída por outra camada mais fina e mais sensível devendo evitar- se nesses períodos de revitalização novas exposições solares pelo risco de se produzirem queimaduras mais graves mais complexas que necessitarão de tratamentos mais agressivos para as combater devido ao fato da pele se manter muito mais sensível durante algumas semanas. 

Recomenda-se que os pacientes que sofram queimaduras solares sejam submetidos a uma consulta para vigilância medica. 

Os protetores solares devem ser aplicados antes e durante o período de permanência ao sol, dos quais os mais indicados são os que possuem nos seus componentes a benzofenona e o ácido paraaminobenzoico (PABA). 

Os filtros solares com fator de proteção superior a 15 são os que têm maior eficácia para impedir a radiação UV, dando-se preferência aos que contenham barreiras físicas designadamente o óxido de zinco ou o dióxido de titânio para a aplicação em zonas mais sensíveis e mais pequenas (nariz e lábios).

Em suma, os benefícios do sol são vários, porém não nos podemos esquecer de que existem regras que devem ser cumpridas para que não haja riscos na saúde.