terça-feira, 9 de junho de 2015

A RESPOSTA



Subia a Serra de Espinhaço de Cão, vinda de Aljezur, quando, por entre os pinheiros, pelo lado direito da
REGINA SARDOEIRA
estrada, rumo ao poente, entrevi, ao fundo, um cenário onírico. Estávamos num fim de tarde de Verão, o sol brilhava no céu límpido, e o mar, ao longe, cintilava, daquele azul opalino e transparente, (quase céu, quase fantasmagoria) e, como que depositada sobre a superfície líquida, uma cidade parecia emergir de uma almofada de areia, uma cidade com torres – quais castelos, vistos assim na lonjura translúcida da tarde – torres de outrora, parecia-me, depositadas por gigantes na textura oceânica. A ilusão persistiu durante algum tempo, a ilusão de que a estrada serrana descobrira uma quimera, pois logo soube que a cidade assim desvendada não podia ser outra a não ser… Portimão! Quem diria que a cidade algarvia, com os seus prédios incaracterísticos, feitos para o lazer fútil e para o consumismo demolidor, poderia ter semelhante dimensão mítica, vista, deste modo, por entre os pinheiros de uma serra? Iludida pelo esplendor fantasmagórico deixei a serra e desci os escassos quilómetros que me separavam da deusa emergente, qual Vénus explodindo no oceano ignoto. À medida que me aproximava, o encanto dissolvia-se em torrentes de carros fumegantes pelas avenidas, formigando pelos túneis, alastrando por múltiplas rotundas. O encanto diluía-se na proliferação das catedrais do consumo, nos Mac Donald’s e Hipermercados de todos os géneros, nos restaurantes e bares, nos hotéis…e o bafo africano transformou a temperatura amena do Atlântico de Aljezur em miasmas múltiplos e heteróclitos de muitas respirações. Desiludida com o subterfúgio, descrente da transfiguração de uma promessa de sonho num cenário cosmopolita de capital urbana, pensei que, ao menos, o mar estava lá, tinha que estar, para além do muro de betão das construções já despojadas da sua aura de milagre. O mar e a praia, as rochas de cor ferruginosa erguidas sobre o azul profundo, essas não teriam sido absolutamente corrompidas pela invasão catastrófica do lazer dos homens. Abafada e em angústia, dei voltas e voltas procurando um lugar de onde ver o prodígio marítimo, um pequeno buraco onde depositar a máquina e sair em busca de outras visões. No entanto, na cidade imensa e resfolegante, não havia um sítio , uma brecha, um pequeno miradouro para espreitar a vastidão! Saturada de ruídos de escapes, da visão alucinada da gente em busca dos prazeres orgiásticos, não vendo do mar senão uma pequena tira esbranquiçada subtraída à omnipotência das torres de habitação, voltei costas à cidade e regressei, já ao crepúsculo, e depois, pela noite estreme à serra do Espinhaço de Cão e a Aljezur. Não voltei a contemplar a cidade fantástica depositada no oceano, inocente e plena na distância, perdi de todo a visão mágica e perdi-a duplamente: primeiro, porque me aproximei demais e a realidade estraçalhou o sonho, depois, porque a noite na serra não me permitiu rever a fantasia.

São assim os homens. A beleza – esse conceito humano que não existe, enquanto objecto, mas apenas como ideia acrescentada às coisas – a beleza está lá, pode ver-se, fruir-se, captar-se na orla da pupila ou pela objectiva das máquinas. Mas, quando queremos tocá-la de perto entendemos que uma mistura cruel de prosaísmo e vulgaridade enfeitou de negritude o que era etéreo! Sei bem que no episódio narrado a culpa foi minha: quis indevidamente devorar aquela beleza, penetrar no sortilégio da cidade encantada depositada numa paleta azul e ouro, quis desvendar o segredo, em cima inviolado, e apressei-me a descer a montanha em busca da sua solução, quis possuir a beleza: e logo que o intentei, ela escapou-se-me entre os dedos. A Beleza é sempre o Longínquo, longínquo da posse, longínquo da captação, longínquo da necessidade de aproximação. Se tivesse deixado estar o sortilégio assim, à distância, recordaria Portimão como uma Vénus recém saída da concha parturejante, imaginaria, doravante, que a cidade algarvia com as suas torres e o seu bulício cosmopolitas se havia transmutado; ao querer ansiosamente observar de perto a miragem entrevista nos horizontes da Serra desfiz o enleio. E também são assim os homens! Em lugar de permitirmos que o longe permaneça longe, embrumado ou ensolarado e repleto de faíscas milagrosas, apressamo-nos a correr ao seu encontro ansiosos de guardar para nós uma esteira da poalha, derramada e significante, apenas na lonjura! Esquecemo-nos que a Beleza é «estar ali» submersa nas águas ou pendurada nos céus e que a terra que nos atrevemos a chamar nossa, mesmo não nos pertencendo, amarfanha, por via dessa suposta pertença, o esplendor da refracção, o delírio sublimado, a fantasia dos longes! Queremos conhecer, desesperadamente conhecer; e então, em vez de lua e de luar, esses que nos encantam as noites e nos lançam em arroubos poéticos ficamos com um planeta estéril, sem atmosfera, sem vida, mero satélite da Terra sem o qual a mesma se desintegraria! Em vez de estrelas cadentes em noites de estio, estrelas minúsculas que nos encantam em múltiplas cintilações, passamos a ter chuvas de meteoros, de calhaus efervescentes desprovidos de mágica, estilhaçados e em órbita nas solidões vazias do cosmos! E por aí adiante! O conhecimento mata a poesia, destrói a magia, escalpeliza o uno em fragmentos desprovidos de luz. Foi assim que os gregos inventaram a ciência e depois a filosofia: quebrando o uno primordial, procurando o elemento genésico, reduzindo o todo mítico e coeso à fractura das partes e acabando com um pedaço de cinzas entre os dedos – também eles calcinados!

Sejamos claros: o conhecimento é útil e eu, como muitos, procuro-o e desvendo-o, comungando na ânsia humana de decifração de enigmas; mas existe um limite, uma orla de mistério para além dos quais é pernicioso avançar, sob pena de nos encontrarmos face a face com a aridez extrema e com a descrença. Por outro lado, quanto mais avançamos na pesquisa do ignoto, mais nos defrontamos com a vastidão, sempre crescente, do desconhecido e da ignorância: as mais rebuscadas pesquisas científicas da nossa era assemelham-se a brincadeira de crianças por onde perpassa a dúvida, a suposição e a omnipotência da hipótese. Basta analisar o percurso científico das últimas décadas para entendermos que em lugar da certeza temos a dúvida, em lugar da lei, a probabilidade, em lugar da fórmula, a estatística. Poderá esta situação do conhecimento significar que o universo deixou de ser acessível à nossa inteligência humana, a partir de um certo grau de complexidade e de vastidão? Poderá significar que precisamos de ultrapassar a nossa limitação, conceptual e de princípios, a fim de podermos ver o invisível? Somos nós que nos detivemos num patamar específico de evolução, a partir do qual não poderemos lograr decifrar mais enigmas? Precisaremos de fender a carapaça da nossa auto-suficiência e abrir a mente e o corpo para novas caminhadas? Ou será que, muito simplesmente, o mistério, enquanto tal, continua a ser o horizonte privilegiado da busca humana pelo saber?

Quando penso na minha visão onírica, por entre os pinheiros da Serra do Espinhaço de Cão e na aproximação nefasta da realidade desvendadora e corruptora do sortilégio, parece-me que encontrei a resposta.


segunda-feira, 8 de junho de 2015

IMENSO OCEANO

CATARINA DINIS
Nesta linda segunda-feira, estamos a celebrar uma data importante e que no fundo está relacionada com a
nossa história inclusive até aos dias de hoje… Desde 1992 que se celebra neste dia 8 de junho o dia mundial dos oceanos. E neste mundo onde vivemos a sua importância é relevante, além de cobrir cerca de 70% da superfície da terra, o que incrível pensar na proporção. Os Oceanos são fonte de vida e desempenham um papel fulcral na nossa vida desde a manutenção da vida do planeta, fonte de alimentação, matéria económica, um recurso energético e até politicamente é importante já que separam ou criam continentes, países, etc…por vezes existindo até conflitos. A verdade é que nós portugueses vencemos o medo cultural e entranhado, do mar, dos oceanos profundos e secretos. No séc. XV partimos para esse desconhecido, desbravando sonhos e quimeras, dando origem a dita expansão portuguesa, torná-mo-nos nos imperadores de um oceano bravio. Mostramos e ensinamos que o oceano não é para temermos mas sim para se cruzar. Na atualidade os oceanos são locais de passagem, quer comercial, quer cultural, é o eterno ir e vir de massas, fonte de migração, onde haverá sempre um mundo novo, onde haverá sempre um eterno regressar, e não importa o século. Nós portugueses queremos cruzar o oceano mas o coração fica aqui, na lezíria, na montanha, no areal… Acredito que somos um dos povos com a visão mais ampla do que o oceano nos pode oferecer. Os oceanos são também uma fonte de inspiração, trazem a nostalgia, a nossa saudosa saudade, abre a sensibilidade tão característica de ser português e leva-nos a construir o impossível, quer na literatura, pintura, música…transforma a arte em uma melodia de beleza e cor. Para terminar, esta semana deixo-vos com um poema da nossa Sophia de Breyner Andresen, Praia… para se deliciarem… cada palavra é azul e traz nos o mar, o oceano…


A Praia - Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 7 de junho de 2015

BICHO DE CONTAS

MIGUEL GOMES
Encosto-me ao portão de ferro. A pintura negra apresenta diversas falhas, por onde brotam bolbosas bolhas de ferrugem, com se este óxido de ferro fosse uma quente e espessa lama que nasce por baixo da pintura. A mão habitua-se ao frio do metal e à rugosidade suave da tinta descascada. A estrutura metálica a que chamam portão faz-me lembrar uma velha cancela das linhas de ferro, onde uma mão atenta ia puxando a segurança ao longo de um gasto carril por onde nunca circulou um comboio, apenas as rodas conservadas pela espessa e melada massa consistente que as protegiam da intempérie e as faziam prender na areia e terra depositada, deixando no ar o característico cheiro a caminho de ferro. 

Deixo-me ficar um pouco, atento ao trânsito que passa na curva cega da estrada, onde por vezes cegos condutores se aventuram como se por terem apenas meio olho fossem algo similar a rei. Ao fundo, abrigado do Sol por um telhado de chuchus e suas ramagens, vejo-o sentado no frio banco de granito, as mãos calejadas e um pouco cegas de articulações, talvez lhe falte a massa consistente ou a consistência de uma vida mais protegida, calejada, mas não ceifada. As favas ganham vida por entre os dedos, há uma espécie de destreza que parece inundar as pessoas que eram já velhas quando as conhecemos em criança. Estas, pessoas, nunca envelhecem, vão-se tornando mais enrugadas, mais encurvadas, com um andar mais vagaroso e cauteloso, o olhar viçoso dentro das órbitas já torneadas quantas e quantas vezes por uma vida que vai passando quase sem se dar por ela, translacionando-se sem que se saiba de que lado nasce o Sol ou se é mesmo ele que se mexe ou somos nós, migalhas de um pão sideral que caíram neste quintal a que chamamos Terra.

As favas caem no balde, as cascas na bacia. O balde, negro, tem um arame protegido por um plástico azul escuro. Detenho-me a pensar se o plástico é para proteger as mãos do arame ou, se, porque não?, será para proteger o arame do contacto com as nossas calosas mãos, o suor que nos escorre das palmas e se esborrata com o pó levantado pelos passos descalços num terreno lavrado que pariu batatas aqui e ali, inteiras e rachadas, deixá-las lá, não se comem inteiras. 

O bocal do balde ou lá como se chamará a entrada do mesmo apresenta uma forma ovaloide, mas não me impede de tentar visualizar e calcular o diâmetro do mesmo e, assim, pensar no perímetro, depois a área, o volume segue-se imediatamente e quando dou por mim estou já a calcular o espaço que sobra se colocar vários baldes semelhantes lado a lado, uns sobre os outros, num espaço confinado.

- Estás novamente a fazer contas, não estás?

As pessoas mais velhas conhecem-nos melhor agora que estão velhas e nós as conhecemos desde o sempre que é o momento em que nos lembramos de nós como pessoas ou portadores de baldes.

- Sim, estava – respondi com um sorriso tímido e envergonhado.

A conversa continua, desde a saúde que já não é a mesma, passando pelo futebol, aventuras de outros tempos e sem cronologia, orbitando, como os olhos vagos, em travessuras de canalhada a correr descalça, calças remendadas sobre remendos, as côdeas de pão, a fruta roubada do pomar do senhor fulano de tal, os dias de soldadura às barrigas generosas das carruagens vermelhas e amarelas, o zumbir das catenárias, a modernidade dos alfas e as saudades das velhas locomotivas que pareciam enfurecidos gigantes cor de laranja a fumegar de esforço e orgulho em galgar montes e rasgar longas rectas por esse país fora, sucumbindo por fim ao cansaço e ronronando no abrigo secreto das oficinas, recebendo o carinho de quem as tratou como suas próprias mãos. A precessão das histórias levar-te-á pelas paredes do lagar e de quantas pessoas foram necessárias para o erguer, outros tempos, quando não havia nada e por isso tínhamos tudo, pelas caminhadas ao Sol e à chuva com o bombardino às costas e a merenda a bailar dentro do saco de pano que levavas ao ombro ou, ainda, das noites quentes e ardentes, literalmente, dos tempos de bombeiro, quando nem a ceia de Natal era poupada ao chamado rouco e aflito da sirene na noite escura de aldeia e tu te enfiavas, como tantos outros, a correr estrada abaixo, ainda de pijama, até ao quartel e se te pesava o cansaço ou a preguiça de olhar para o lado e fazer de conta que o que se ouve não é nosso, dizias que olhavas para trás e vias como se fosse tua própria casa a arder, logo te bafejava a adrenalina e os longos passos te levavam lesto ao quartel.

Agora, as favas estão quase todas descascadas, eu fiz milhentas de contas, sem qualquer prova de nove ou de novo que me permita saber estar certo ou errado, as cascas na bacia beije (vim a saber que era castanha, modernice de plástico que nos traz contas e doenças, cujo tempo se entreteve a tingir de claridade) servirão de comida para as galhinhas e as favas, dizes tu, é para a patroa enfiar na sopa, isto de estufá-las já não é para ti, que nem o cheiro nem o sabor te enchem a barriga.

Vamos os dois até ao portão, o Sol encarrega-se de nos fazer lembrar que esteve sempre ali, as favas e as cascas despedem-se por uma última vez enquanto alguém se encarrega de as levar para outro local, cada qual em seu recipiente. Os teus dedos estão verdes, sacode-los nas calças, levantas a mão a alguém que passa e encostas-te ao portão, quase como se fizesses de propósito para eu não o abrir e ir embora. Faço de conta que sim, que não reparei e encosto-me também ao portão, que se inclina e apoia na calha que o sustém e esta, por sua vez, deixa-se ficar chumbada ao pilar como sempre esteve. 

A conversa vai longa, o silêncio falou a maior parte das vezes em que abri a boca. É uma espécie de diálogo inter-estelar, cada qual na sua órbita. Sei que daqui irei um dia cavalgar numa qualquer linha poligonal até me perder de vista, para lá das nuvens íngremes agora e o troar que escutares não será trovoada, talvez tenha sido eu que me perdi nos cálculos e tive que começar de novo.

- Estás aí? Nem te vi rapaz, entra!

Sou arrastado dos pensamentos, empurro o portão, sacudo a ferrugem das mãos e entro quinteiro dentro, a fugir do Sol para me abrigar por baixo da folhagem e dos chuchus, para te apertar a mão fria com dedos verdes das favas que descascas e para calcular quanto tempo terei eu perdido enquanto me dedicava a ver que resultado poderias ser?

sexta-feira, 5 de junho de 2015

INSÓLITOS À VOLTA DE UMA URNA

JORGE NUNO
O striptease tornou-se tradição em algumas zonas rurais da China, por ocasião dos… funerais. Aos olhos dos ocidentais estas práticas, no mínimo, são vistas como estranhas. Será preciso um esforço suplementar para tentar compreender o que está por trás disto. Há a seguinte crença, por parte dos chineses: para que haja “boa sorte para o defunto” é importante haver muita gente no funeral e uma aparência alegre e festiva, não sendo importante que as pessoas presentes no funeral conheçam o recém-falecido!
Assim, desde banquetes e outros festins, avançou-se rapidamente para o striptease, em que muitas vezes a performance é feita em palco, com a projeção, em tela, da imagem do “homenageado”. Este tipo de serviço, fornecido por empresas especializadas, fica próximo dos € 300 e quase todos os dias do mês há trabalho.
No entanto, uma notícia recente do jornal oficial “China Daily” dá conta que o Governo chinês, através do Ministério da Cultura, vem “estragar a festa”! Não só reprova este tipo de shows nos serviços fúnebres, como diz serem “severamente castigados” os organizadores, a quem será aplicada também uma multa de € 10.500. Terá sido criada uma linha telefónica exclusiva, tendo em vista a denúncia de “irregularidades funerárias”. 
Já no Reino Unido a música é outra, pois abrilhanta-se o ato com música pop. Um estudo feito pela Funeralcare, envolvendo 250 das cerca de 900 agências funerárias, concluiu que os temas mais tocados nos funerais, em 2012, foram: Someone Like You, de Adele; My Way, de Frank Sinatra; Angeles, de Robbie William; My Heart Will Go On, de Celine Dion; The Best, de Tina Turner e I Will Always Love You, de Whitney Houston. Revelou-se que a música pop veio substituir os hinos funerários em dois terços dos funerais britânicos, quase que fazendo esquecer o Requiem, de Wolfgang Amadeus Mozart.
Enquanto uns divertem-se e despertam os sentidos com música mais animada, em San Luís de Sabidilla, Espanha, os paroquianos entregaram um abaixo-assinado ao bispo da diocese de Málaga, a pedir o afastamento do padre por este não os deixar chorar durante os funerais. Nesta paróquia, pelos vistos, não se pode manifestar tristeza, embora o padre coloque músicas de Natal durante os funerais, o que sempre pode argumentar que o Natal é quando o homem quiser. Só que o que está na “berra”, pelos vistos, é a música pop.
Recentemente, o padre da freguesia de Freixiosa, no concelho de Mangualde recusou-se a fazer o funeral a um paroquiano, deficiente das forças armadas, alegando que ele devia € 375 de côngrua, o que fez com que este homem fosse enterrado “sem missa, sem padre, sem cruz e sem o toque dos sinos” e, acrescento, sem striptease e sem música pop nem de Natal.
Se quem está a ler esta crónica está incrédulo com estes relatos, vejamos o que sentirá ao ler este novo parágrafo, ao ficar a saber os resultados de dois interessantes estudos com as aves Western Scrub Jay – nomenclatura binomial Aphelocoma Californica –, os quais foram elaborados pelas Universidades de Cambridge, no Reino Unido, e da Califórnia, nos Estados Unidos da América. A primeira, chegou à conclusão que “esta espécie é capaz de planear o futuro”. A segunda, comprovou que estas aves realizam um “ritual parecido com um funeral”. Neste último caso, a equipa de investigadores da Universidade da Califórnia colocou alguns animais mortos, rodeados de falsos predadores, feitos em madeira, e as aves [a ser testadas] “ignoraram os falsos inimigos” e reagiram “interrompendo as suas atividades, como recolher alimentos ou piar”, mostrando-se sensíveis à morte dos da sua espécie, rodeando-os, mesmo perante os prováveis predadores.
Estranho mundo!… Enquanto uns não têm um enterro condigno, por não terem pago uma “dívida” de € 375, outros com € 300 podem (ou podiam) ter animadas sessões de striptease, com a sua imagem projetada numa tela, enquanto no palco se desnudam os artistas pagos para o efeito. Nas cerimónias fúnebres, consoante a localização geográfica e a cultura, ora é fomentada a alegria, impedido o próprio ato fúnebre, inviabilizada qualquer manifestação de pesar (…), quando em Portugal e no sertão brasileiro, até se pagava às carpideiras para rezar e chorar nos velórios.  
Benditas aves, que não precisam de se despenar – e seria uma pena, com penas tão bonitas! –, nem precisam de imposição de regras, nem de modas, nem de nada, nem de ninguém, para deixar transparecer os seus afetos pelos membros da sua espécie, quando falecem.

SOCIEDADE & NATUREZA

GABRIEL VILAS BOAS

Ao longo dos tempos, a Natureza tem revelado grande capacidade de resiliência e de paciência com o ser humano. Agredida das mais variadas formas, amputada de vários filhos queridos, a natureza continua a proporcionar ao Homem oportunidades de reconciliação. Infelizmente o ser humano tem recusado a maior dessas possibilidades, continuando a desfigurar a mãe da vida.
O egoísmo, essa célula cancerígena dos tempos modernos, define também a relação do Homem com o meio ambiente. Grande parte das intervenções do ser humano nas florestas, nos rios, nas praias, nas cidades ou nas zonas industriais visam a satisfação imediata e fácil dos seus desejos e manias, em prejuízo do elemento natural. 
O mais estúpido é que, em muitos casos, esses desejos ou manias seriam também alcançados sem ferir mortalmente o ambiente, se houvesse paciência, racionalidade, um pouco mais de investimento. 
Desgraçadamente, chegamos ao início do século XXI numa situação de pré-rutura ambiental, em que começamos já a pagar a fatura de toda a ingratidão, egoísmo e estupidez do último século e meio. Somos forçados a intervenções de recurso, mas continua por tratar o problema de base: a educação ambiental. 
Alguns passos foram dados na última década, mas são claramente insuficientes. Foi positivo que os portugueses se tenham habituado a reciclar; constituiu um êxito a retirada do fumo do tabaco dos restaurantes, cafés e demais espaços fechados; os rios já não sofrem o ataque pesticida doutras décadas. 
No entanto, as matas continuam por limpar e os assassinos profissionais das florestas fazem questão de nos lembrar isso de junho a setembro; o mar continua a deglutir dunas; há fábricas que pintam o céu de cinzento carregado e fedorento. 
Dizem alguns industriais que Portugal ainda tem quota para poluir mais. É uma ideia idiota, perigosa e ignóbil. A indústria deve adotar o único paradigma que interessa a país: qualquer atividade económica deve respeitar o ambiente. 
Acho que a educação ambiental começa no contacto com a natureza. Se proporcionarmos às crianças e jovens esse contacto permanente com a natureza, eles vão aprender a amá-la. E é muito mais fácil respeitar aquilo que amamos. 
Quando o tempo das decisões chegar, essa geração, que habitou os bosques na primavera e no verão, estará mais consciente e preparada para tomar decisões verdes.
Por outro lado, penso que a floresta e o mar têm um potencial económico imenso que pode e deve ser aproveitado por pequenos e grandes empreendedores. Não é um favor que fazemos ao ambiente, é um favor que fazemos à humanidade.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

POETA E POESIA

ANABELA BORGES 
Há muito poeta e pouca poesia.

Há muito quem se diga poeta, com todas as letrinhas, sem nunca ter lido um livro do princípio ao fim. Há mais poetas que leitores? Pois que assim seja, se assim o desejarem ser.
Seja poeta quem quer! Seja!

Ninguém é alguém para dizer quem pode ser poeta ou não ser. Eu até acho que há gente que é poeta sem o saber.
Talvez seja como os ladrões, como disse António Aleixo: “[...] há muitos que eu conheço / Que não parecendo o que são, / São aquilo que eu pareço”.

Agora, POESIA… poesia é outra coisa. Será. Mas eu não sei dizê-la. Sabeis vós? A poesia é redonda e aberta, inteira e infinita.
É talvez como diz Sophia, no conto Os Três Reis do Oriente: “um justo acordo de palavras, um equilíbrio de sílabas, um peso denso, o esplendor da linguagem, um tecido compacto e sem falha que apenas fala de si próprio e, como um círculo, define o seu próprio espaço e nele nenhuma coisa mais pode habitar. O poema não significa, o poema cria.”
O poema vale por si, é uma história. Mas abre portas sem fim.
Como isto que eu escrevi. Assim:
O dia nasce de cinzas
e silêncios
que, devagar, se fazem rumores da cidade,
ao longe.

[…]
Cinza quase tudo,
numa frescura de orvalhos melosos,
pingados em lentos desembaraços.
Desembaraça-se o dia,
soltam-se as amarras dos braços.

Pois. E quem disse que isto era P O E S I A ?
Ó, aflitinhos de nada! Julgais-vos sabedores de tudo. Nada sabeis.
Também Miguel Torga assim dizia:
A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento
[…]”.
Ah, pois. Este foi O Poeta quem o escreveu, dizeis.
Ó, ímpios! Mas julgais vós que o poeta é que dá nome à poesia? Mas quão enganados andais! A poesia dá nomes ao poeta! Essa é, pela certa, a pureza do poema: pegar no verbo, limpo e tosco; olhá-lo de todos os ângulos, ou de um apenas.

Por causa das coisas fui perguntar aos mais jovens. Perguntai-lhes e vede. Ide. Ouvi-os! Eles têm a alma imaculada. Sabem dizê-lo melhor, e sem pudor.
Perguntei ao Pedro e ao João, à Ana, à Inês, à Ariana, ao Lucas, à Diana, à Francisca, à Beatriz. E eles disseram assim:
“Uma parte de mim: como um texto com aspas, no início, e sem fim”;
“Sonhar como uma criança”;
“Pensamento livre”;
“Como a Natureza: bela e imprevisível”;
“Como um sonho, onde nada é impossível”;
“Ter vontade de voar”;
“Navegar em muitas águas”;
“O jogo das palavras”;
“Expressão da alma”;
“Vida eterna”.

Também o meu Pascoaes. Peço desculpa, nosso. Já pedi desculpa: nosso. Também ele gritou à sombra:
Ah, dize-me a palavra derradeira;
A mágica palavra, que tem sido
Um pálido murmúrio imperceptível,
Um reflexo de voz, indefinido,
Mais um silêncio vivo e deslumbrado,
Na boca dos profetas e dos santos...
E sussurro mecânico e pesado,
Na boca seca e árida dos sábios...

E os jovens a quem perguntei “O que é POETA? O que é POESIA?” – pegai lá:
“Azul escrito num horizonte infinito”.

E isto tudo sem absolutos, num pano de fundo com a eterna Sophia a repetir: “Num poema não devemos buscar sentido, pois o poema é ele próprio seu próprio sentido. Assim o sentido de uma rosa é essa própria rosa”.
O mundo.


terça-feira, 2 de junho de 2015

COMO SE AVALIA A FILOSOFIA VS. CIDADANIA ?

REGINA SARDOEIRA 
A maior parte das pessoas considera que os filósofos são pessoas extremamente teóricas, cujos pensamentos tendem a tornar complexo o que é simples e que (para tudo exprimir em poucas palavras) andam nas nuvens! Ao mesmo tempo, hostilizam a filosofia dizendo que não serve para nada, que não tem valor prático e que estudá-la é, por isso, inútil.

A maior parte das pessoas está, todavia, errada. E os verdadeiros filósofos são extremamente práticos, tendem a transformar o complexo em simples e, longe de andarem nas nuvens, tem os pés firmemente assentes na terra. E a verdadeira filosofia, se praticada, é a mais útil das ciências, logo deve estudar-se, para levar à prática os seus ensinamentos.

Falo assim porque sou daquelas pessoas que leva a filosofia muito a sério e que por volta dos 15/16 anos rejeitei as aulas de filosofia do liceu, por me parecerem inúteis e me compelirem a decorar enunciados que tão pouco entendia adequadamente. Foi extremamente difícil ceder às exigências da minha professora e decorar o suficiente para passar de ano, já que eu acreditava ser a filosofia algo de muito diferente do que aquilo que me era servido em aulas muito fastidiosas. Apesar disso, segui para a universidade, licenciei-me em filosofia, embora, invariavelmente, tivesse esbarrado com professores que me obrigavam a decorar matéria e depois a “papagueá-la” nos exames. Recusei papaguear, levei o curso a ler o que me agradava e a estudar apenas o que considerava interessante e útil. O mais extraordinário é que consegui passar todos os exames, mesmo sem ler os apontamentos dos mestres, mesmo sem aparecer nas aulas a maior parte das vezes e lendo, das extensas e intragáveis bibliografias das “cadeiras”, apenas o que me agradava e me parecia ter algum interesse.

Percebi, no final da aventura que foi tirar semelhante curso, que o meu destino era ser professora de filosofia e, lembrando-me da maioria dos meus professores que matavam a filosofia em cada aula, não quis, à partida, seguir esse caminho. No entanto, vim a descobrir, em aulas dispersas, que, apesar de tudo, fui dando, que era capaz de usar os meus conhecimentos e fazê-los chegar até aos outros com tal eficácia que, nunca traindo a ciência das ciências, conseguia que os meus alunos obtivessem, em pouco tempo, o saber necessário para conseguirem bons resultados em exames nacionais.

Todo este relato vem a propósito de sentir (e saber) que pertenço a uma espécie de pessoas que põe em prática o conhecimento e que, apenas podendo fazê-lo, me interessa adquiri-lo. De igual modo, quando o passo para os outros, tento demonstrar-lhes que devem ver, nas questões e nas teorias dos filósofos, guias para a vida e contributos para a formação do pensamento pessoal e da aplicação à prática de viver.

Desde que conheci verdadeiramente o filósofo alemão Kant (e aprendi-o à minha própria custa, exclusivamente) que aderi sem dificuldades às linhas da sua filosofia moral a que ele chama, justamente, Razão Prática. Na moral kantiana não se trata de especular sobre os actos, juízos de valor, regras, mandamentos ou máximas, mas de os pôr em prática, em ordem ao bem e à virtude.

Há dois mandamentos kantianos (ou imperativos categóricos) que particularmente me têm servido como guia e por eles ajuízo do acerto ou desacerto do meu comportamento moral e também daqueles que, à minha frente, realizam acções.

O primeiro diz o seguinte. “Age de tal maneira que possas querer que a máxima da tua acção se converta em norma de conduta universal.”

Parece obscuro, talvez, e depois irrealista e nada prático. E contudo, vejamos melhor. Se, em cada momento, eu fizer somente o que a minha vontade deseja que possa ser uma regra universal – não se virando, por isso, contra mim e levando em conta o bem-estar de todos, não estará aqui um princípio prático capaz de endireitar o mundo?

Devo mentir? Não devo. E porquê? Porque é absurdo que a minha vontade possa querer instituir a mentira como regra de conduta universal. Devo roubar? Não devo. E porquê? Porque ao querer transformar o roubo em regra de conduta, legitimada universalmente, estou a admitir que eu própria seja roubada e que todos devem roubar-se uns aos outros. Multipliquemos os exemplos. Veremos sem dificuldade que apenas os actos virtuosos podem ser universalizados, sem contradição racional, enquanto todos os outros, sendo praticados, violam esta regra e voltam-se por esta razão contra nós mesmos.

Vou agora aplicar este mandamento kantiano a um acontecimento verídico, a um caso passado comigo e já divulgado nesta mesma publicação.

Estacionei mal o meu carro um destes dias. Deveria tê-lo feito? Não, porque a minha vontade não pode querer que todos estacionem ilegalmente e porque a carta de condução me torna, pela minha vontade, sujeita ao código das estradas.

A polícia deve multar-me quando descobre um carro mal estacionado, seja ele de quem for? Deve. Porque faz parte do seu código profissional, a que ficou sujeito, por inerência, logo que se tornou agente da autoridade. Logo, a vontade do agente deve querer que perante a detecção de um acto ilegítimo, por parte de um cidadão, ele cumpra o seu dever porque exactamente desse mesmo modo devem agir todos os demais agentes.

Portanto, eu deveria aceitar, sem discutir, a sanção prevista na lei para aquele delito e submeter-me a todas as consequências legais, visto que a minha razão e a minha vontade percebem que a manutenção da ordem passa pela observância das leis a que estamos todos vinculados, enquanto cidadãos.

Porém, um incidente travou a linearidade de um caso simples, e um elemento novo e nova avaliação foram introduzidos no decorrer dos acontecimentos. Quando me dirigia para o carro, um passo em falso fez-me cair. E tal aconteceu no exacto momento em que um agente da autoridade, saído de um carro também ali (mal estacionado como o meu, note-se!) se dirigia a mim para admoestar-me por estar mal estacionada. No momento em que o fez, eu estava no chão, caída, e logo que me levantei, sozinha, mostrei –lhe a minha contusão e disse-lhe que não me sentia bem.

Pergunto: à luz do mandamento kantiano, qual era o primeiro dever do agente? Multar-me, por estar em infracção evidente, ou prestar-me socorro (talvez bastasse deixar-me uns minutos a recuperar do choque)? Seguir com os procedimentos morosos da consulta dos documentos, do exame dos selos do carro, da redacção dos papéis necessários, da pressão sobre a necessidade de ir assinar (ao carro da polícia) e de pagar de imediato a multa, ou insistir para que fosse ao hospital, conduzir-me lá, ele próprio, e, depois de verificar que eu estava recuperada, passar-me a multa que, efectivamente, devia passar? O que deveria ele querer, primeiro, universalizar naquele momento, em que poderiam digladiar-se dentro dele dois imperativos: socorrer-me ou multar-me?

Eu não tive e não tenho dúvidas. O primeiro dever de alguém, quer perante si mesmo, quer perante os outros, diz respeito à preservação da vida, à assistência quando se está ferido ou doente; logo, a minha vontade quis que eu tratasse, em primeiro lugar da minha condição física e quis também que, em segundo lugar, sofresse os efeitos do meu incumprimento da lei. No entanto, a vontade do agente foi noutro sentido, de modo nenhum kantiano, de modo nenhum ético: “estou aqui para multar e é esse o meu dever; se ela caiu, não é problema meu – que vá tratar-se depois.” Logo, ele universalizou esta máxima de conduta e o que resulta daqui é o seguinte enunciado: “ Devo multar esta pessoa porque ela infringiu a lei, mesmo se a vejo a sangrar e com tonturas; e devo querer que qualquer pessoa aja deste modo em circunstâncias idênticas.”

E eu? Deveria ter entrado no carro, apesar de o agente estar a dirigir-se para mim, e ir para o hospital, onde seria assistida, dizendo-lhe: “Espere um pouco, vou tratar de mim e já volto!”? Ou deveria ter feito o que fiz: aguentar meia hora de sofrimento e mal-estar e só depois me deslocar ao hospital para serem avaliados os estragos do incidente?

Este pensamento fez-me meditar na segunda formulação do mandamento kantiano que diz o seguinte: “Age de tal maneira que uses a humanidade, quer na tua pessoa, quer na pessoa de outrem, sempre e unicamente como um fim e nunca como um meio.”

Perante este mandamento, falhámos ambos, eu e o agente. Eu deveria ter ido ao hospital de imediato, independentemente das consequências, tratando-me a mim mesma como um fim e resolvendo o meu problema, preservando a minha saúde e a minha integridade física; ele deveria ter olhado para mim como um fim – uma pessoa que necessitava de apoio – e não como um meio para cumprir qualquer meta de passagem de multas (estavam ali vários carros em transgressão) agendada para aquele momento pelo seu superior, decerto.

Não fugi do local para resolver o meu problema emergente, porque sabia que haveria consequências perniciosas para mim: usei-me como meio. O agente deu prioridade às ordens de passar multas que recebera e ignorou o incidente da minha queda, usando-se a ele próprio como meio para atingir o fim, cumprindo a ordem superior.

Resta somente um pormenor. O agente da autoridade agiu mal de várias maneiras. Procedeu com desumanidade, mesmo quando me perguntou, displicentemente, se queria uma ambulância (porque não a chamou logo, sem tão pouco me perguntar?). E eu? Devo dirigir-me ao seu local de trabalho e apresentar uma exposição dos factos para que o superior ou outra entidade qualquer o repreendam e, eventualmente, castiguem?

As máximas kantianas já expostas dizem-me que sim, que é esse o meu dever, que não posso querer que estes actos prepotentes e cruéis de uma autoridade, que não olha a meios para atingir os fins e achar que cumpriu o dever, se tornem normas de conduta universal. No extremo, eu poderia ter sofrido consequências mais graves e admiti, enquanto o agente me obrigava a responder a perguntas e a exibir documentos, etc, uma possibilidade de paragem digestiva ou outra mais grave consequência. Devo querer universalizar estes comportamentos considerando legítimo, no limite, deixar morrer alguém, apenas para passar uma multa? Não devo querer que o agente seja repreendido, apenas porque daí poderão advir consequências para mim, universalizando deste modo um comportamento displicente – da minha parte?

Passaram quatro dias sobre este incidente e ainda não estou refeita, nem física nem psicologicamente, nem nas minhas convicções acerca do que deve ser uma conduta verdadeiramente ética e logo humana. 

Serve este testemunho de filosofia prática para que a maioria das pessoas que rejeita o trabalho dos filósofos e a própria filosofia perceba que não é filósofo aquele que leu muitos livros de filosofia e sabe imensas teorias de cor, mas antes aquele que reflecte por si e leva até ao mundo os conhecimentos que recolheu nas lições dos grandes homens que foram (que são) os filósofos, e se auto-avalia, avaliando os outros, com o discernimento racional que a prática de pensar, para agir, se transformou nele numa segunda natureza.



segunda-feira, 1 de junho de 2015

MONTRA VIRTUAL

CLARA CORREIA
Na nossa dita, e supostamente ditosa, era das tecnologias e comunicações por tecno-vias, seria suposto ter sido alcançada uma nova era na comunicação humana intencional ... pois não se supõe que os meios, além de, justamente, justificarem os fins, facilitem a sua concretização? … é de supor que sim! … não ficassem as nossas suposições, mais vezes do que suporíamos, no “supônhamos”! 

Subrepticiamente, suponhamos que assim tenha sido, começámos a iludir-nos com os tais meios tecnológicos … e todos sabemos como uma ilusão cresce tanto mais de feição quanto mais se nos apresenta atraente a feição da comodidade, imediatamente antes de se desmascarar em esgares de comodismo. Ora, então, progressiva e sub-repticiamente, temo-nos vindo a enredar nas irresistíveis redes sociais … redes, sem lugar a qualquer discussão, mas de sociabilidade discutível, já que, em certos casos, é altamente suspeita a dependência digital, não dos apertos de mão ou abraços reais, mas das imagens (visuais ou verbais) que os ditos “amigos virtuais” emitem, eventualmente com o filtro da total ausência de espontaneidade. “Net stuff is great!” … claro que concordamos com as múltiplas tecno-facilidades sem as quais, a bem dizer, já não passamos e que nos fazem sentir quase desmembrados, caso nos faltem! Em muitos casos, não fosse o afastamento da vida real, subjugada à insidiosa tirania virtual, e “voilá”! … viveríamos na, e com, a tecno-perfeição: sem abusos de nenhuma espécie, sem estupro da privacidade, e sem aliciamento ilícito de menores e não só.

Caberá a cada elo da cadeia global de “clics” clicar no bom senso e respeitar o seu e o global interesse comunicativo, enquanto emissor e/ou receptor de mensagens mais ou menos (in)directas; o acto de comunicação nunca é inócuo, traga ou não benefícios às duas ou apenas a uma das partes envolvidas … ou aos potenciais milhares ou milhões na qualidade de receptores na montra virtual global.