quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

FIGURAS DO ANO 2014



Hélder Barros
Olhando em retrospectiva o ano de 2014, na minha modesta e despretensiosa leitura, existe uma figura que claramente se destaca pela sua ação, pela lufada de ar fresco que trouxe ao mundo e, em particular, a uma instituição há muito parada no tempo, como é o caso da Igreja Católica Apostólica Romana. Trata-se do Papa Francisco I que, em boa hora, foi assim anunciado, após a saída do fumo branco da Capela Sistina, no Vaticano.

Podemos ser levados a pensar que a sua ação passa apenas pelo verbo, num plano mais teórico, com poucas consequências no Mundo real. Nada mais errado! Como verificamos recentemente, Francisco I, proferiu declarações orientadas para dentro da Igreja e para os que trabalham mais perto de si, designadamente os seus Cardeais e, as suas palavras foram de desafio, para que se mudassem certos hábitos menos apropriados, precisamente lá, na Cúpula de Roma.

Muito mais cómodo seria estar calado, não dar a tal pedrada no charco, cujas ondas concêntricas que se expandiram em virtude do forte impacto, atingiram os círculos mais próximos num primeiro momento, mas que se espera que alastrem aos pontos mais afastados da Cúria, em última análise, a todas as pessoas, a nós todos e a cada um de nós.

Em termos gerais o Papa criticou duramente o conservadorismo, o carreirismo, o comodismo, de muitos dos seus cardeais que, manifestamente, não pretendem largar o seu espaço de conforto e sair para a luta que significa tornar toda a Igreja, numa instituição de combate mais efetivo contra as injustiças, a pobreza, a falta de apoio espiritual desta humanidade, que está deserta de valores e de vontade de mudança, com homens cegos pelo facilitismo, imediatismo e pelo endeusamento do capital, do consumismo exacerbado e do liberalismo selvagem.

Claro que a ação de Francisco I extravasa de longe esta função de agitação interna. Seja lá quem for a pessoa, independentemente da sua raça, credo, ou orientação ideológica, existe uma grande aceitação de todos, na nova postura deste Papa, pela sua tentativa de abrir ao Mundo uma instituição que, genericamente, desde a sua Cúpula até às suas bases, está profundamente desfasada do seu tempo e dos problemas das pessoas neste início de século XXI.

E nem tudo são rosas no mandato de Francisco I, senão recorde-se que recentemente recusou uma audiência particular com o Dalai Lama, para que supostamente não se prejudiquem as relações entre o Vaticano e a China que, ultimamente, têm vindo a ser melhoradas. Trata-se de uma cedência de princípio, que não me deixou feliz, mas eu não sou possuidor de toda informação necessária para formar uma opinião sobre este tipo de assuntos, sempre delicados, relativos à diplomacia do Vaticano.

Para mim, este aspeto melindroso, em nada impede de que eu faça uma avaliação global, altamente positiva, sobre o papado de Francisco I. Começa pela sua forma de expressão, muito menos canónica e, muito mais dirigida aos problemas sociais do nosso Mundo, em que se “chamam os bois pelos nomes”, sem medo de afrontar entidades e pessoas que estão em contra ciclo com as suas ideias. 

Há quem mesmo, dentro da Cúpula Romana, seja conta este tipo de mensagem, seja na forma de a difundir que, dado o seu carácter quase sempre fraturante, tende a procurar “abanar” as consciências de quem receia a mudança e não quer que se mude um paradigma existencial confortante para as elites do poder.

Assim, a minha esperança passa pelo facto de que Francisco I, não seja de qualquer forma “amordaçado” e que possa ser “apenas” a figura de relevo do ano de 2014, mas que marque uma nova era, da Igreja e da sua envolvente.

Em Portugal, a figura de destaque de destaque do Ano 2014 está em Amarante e é personificada numa menina muito especial, de seu nome Diana Vasconcelos que, veio dar muito sentido à expressão, contida nos versos de António Gedeão “que sempre que o homem sonha o Mundo pula e avança...”. Diana, que continues a sonhar e a realizar os teus sonhos, para que o mundo seja um lugar melhor para as crianças do Quénia, que vão ter uma Escola – “...como bola colorida entre as mãos de uma criança”.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

SERVIÇO PÚBLICO DE TELEVISÃO

Paulo Santos Silva
Muito se tem falado nestes últimos anos, acerca do que deve ser o Serviço Público de Televisão e de quem
o deve cumprir.

A Constituição da República Portuguesa, no seu Titulo II (Direitos, liberdades e garantias), Capítulo I (Direitos, liberdades e garantias pessoais), mais propriamente no nº 5 do artigo 38º (Liberdade de imprensa e meios de comunicação social), garante que “O Estado assegura a existência e o funcionamento de um serviço público de rádio e de televisão.”

Por outro lado, nos termos do nº 2 do artigo 50º da Lei 27/2007 de 30 de julho (Lei da Televisão, “O serviço público de televisão garante a observância dos princípios da universalidade e da coesão nacional, da diversificação, da qualidade e da indivisibilidade da programação, do pluralismo e do rigor, isenção e independência da informação, bem como o princípio da inovação.”

A mesma Lei, prevê no nº1 do seu artigo 51º que “A concessionária do serviço público de televisão deve, de acordo com os princípios enunciados no artigo anterior, apresentar uma programação que promova a formação cultural e cívica dos telespectadores, garantindo o acesso de todos à informação, à educação e ao entretenimento de qualidade.”

Todos estes e outros considerandos se encontram no Contrato de Concessão do Serviço Público de Televisão, celebrado a 25 de março de 2008, entre o Estado Português e a Rádio e Televisão de Portugal, SA.

Vem esta introdução a propósito da estreia que se avizinha de um programa que penso ser dos que mais encarna este espírito – O Povo que Ainda Canta.

Esta série documental, composta por 26 episódios, é da autoria de Tiago Pereira. O autor, que é filho do conhecido músico português Júlio Pereira, pretende com este trabalho mostrar o resultado de 4 anos de “trabalho de campo”, consubstanciados na gravação e divulgação de mais de 1800 vídeos. A produção desta série documental, é assegurada pela equipa da Música Portuguesa a Gostar Dela Própria (MPGDA). O primeiro episódio irá para o ar no dia 8 de janeiro (quinta-feira), pelas 22,45 horas na RTP2, com reposição no sábado seguinte, no mesmo canal, pelas 12 horas. O título deste primeiro episódio será a ”Mouraria”, sendo certo que se falará de fado e guitarras portuguesas. Ao longo dos vários episódios, estou certo que iremos ouvir falar da nossa viola amarantina, uma vez que constam gravações da mesma, nos vídeos já publicados.

Os “menos jovens” que leem esta crónica, certamente já se lembraram de um outro programa com nome semelhante e que foi transmitido nos anos 70, pela mesma RTP. Nada mais correto. Chamava-se “Povo que Canta” e resultou de uma feliz parceria entre o realizador Alfredo Tropa e o etnomusicólogo corso Michel Giacometti. Foi a partir do seu trabalho de pesquisa de mais de duas décadas (do qual resultaram inúmeras gravações para este programa) e graças a, mais uma, feliz parceria com o grande Fernando Lopes-Graça, que resultou a edição em 1981 do Cancioneiro Popular Português. Esta obra, constitui-se como o mais importante acervo da Música Popular Portuguesa, sendo por isso a sua obra de referência. Nele podemos encontrar desde as mais inocentes canções de berço às cantigas de noivado e casamento, passando pelos cantos de trabalho, as cantigas e danças para festas e arraiais e as canções de bem-querer e maldizer.

Se há serviço público que a televisão pode prestar, este é seguramente um dos casos. Alguém terá dito um dia, que um povo que não respeita o seu passado, não poderá ter grande futuro. Lutemos, pois, para evitar que as nossas tradições musicais não se percam no esquecimento e não desapareçam quando aqueles que ainda hoje as conservam, teimosamente, quais guardiões de um qualquer tesouro escondido, desaparecerem também.

Devemos isso a nós próprios!

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A BANALIDADE DO MAL

REGINA SARDOEIRA
Habituámo-nos a considerar que o mal existe e se estampa no rosto e nas atitudes daquele que é mau, pelo que o homem mau pertencerá a uma certa categoria de seres, de tal modo monstruosos, que vê-los, ou às suas obras, fará deles grandes indivíduos – se bem que no lado negativo da escala de grandeza.

O mal existe? – pergunto. 

Inseridos num coletivo humano, regidos por padrões morais e éticos, somos confrontados diariamente com esta dicotomia: de um lado, está o Bem, pontificando em boas ações, em boas pessoas; do outro lado, está o Mal, visível nas más ações e nas más pessoas. Nesta ordem de ideias, existem o Bem e o Mal, sendo que o primeiro está de acordo com a norma ética e o segundo, em desvio dela.

Simples, não é? Se quisermos saber se um certo ato, uma certa pessoa são bons ou maus, basta consultar a lei e aferir, para categorizar. O desconhecimento da lei não desculpa o afastamento dela, sabemo-lo: sendo cidadãos livres de uma determinada ordem social, temos o dever de conhecer as regras do lugar que habitamos, a fim de nos tornarmos dignos do estatuto de cidadãos, com que usamos apelidar-nos.

Porém, na prática, semelhante categorização dicotómica não se revela assim tão linear e, muitas vezes, o caráter hermético ou ambíguo da lei impede-nos de ver com clareza a fronteira que, de uma vez para sempre, possibilitaria o esclarecimento e a correta separação entre o Bem e o Mal. Por isso, há grandes equívocos na História Universal e na história privada de cada um de nós, pois que a escala de valores parece fluidificar-se, dando-nos ora uma definição, ora outra do que deveria ser absoluto e definitivo, uma vez estabelecido – e afinal parece que não é.

Hitler, falemos de Hitler. Em si mesmo, ninguém hoje poderá dizer quem foi, de facto, semelhante pessoa, porque o “si mesmo” ou “self” ou “selbst” pertencem ao reduto interior de cada um que, apenas ele, poderá (se puder) desvendar perante a sua própria consciência. Todavia, semelhante personagem percorreu a História Universal e nela ficou como marca e sinal. Marca de maldade absoluta e radical, pois de acordo com as múltiplas narrativas que nos servem de elucidação, terá sido o responsável supremo de um holocausto cometido de modo gratuito e intencional, pois visou um certo tipo de pessoas, apenas por serem quem eram, sem culpa formada, sem julgamento, sem sentença. Mas sinal da existência, confirmada e provada, de que há um certo tipo de pessoas – que não podem ser catalogadas como “demónios” porque isso seria desresponsabilizá-las – viradas para o mal, capazes de cometerem os crimes mais nefandos, aparentemente sem poderem fugir a uma marca de caráter, a uma inscrição no próprio ADN. 

Hitler poderá ter sido um desses exemplos do designado mal radical, mal que se foi desenvolvendo nele na mesma medida dos membros ou da inteligência e se tornou a sua natureza. Perante Hitler, todos os outros homens emudeceram, pois, ao que podemos supor, o mal conferia-lhe uma auréola de sedução, um estigma de quase divindade, um carisma que brilhava e entontecia, um poder capaz de amalgamar, a si, as multidões. 

Não sabemos e nunca saberemos quem foi Hitler – repito. Mas conhecemos (até onde a História consegue desvendar os factos) a pesada herança que ele deixou e o rasto de sangue inocente espalhado pelo mundo, provindo de uma nascente que tem a Alemanha como sede. Intriga-me este povo alemão, cujo estandarte foi, durante anos, a bandeira vermelha com a cruz suástica no centro, essa cruz de pontas reviradas, a querer alternar-se e, quem sabe, a substituir a cruz de Cristo, invertendo a sua mensagem. Poderá o povo alemão, hoje mesmo, perdoar-se, enquanto povo, por conter nas páginas da sua História semelhante obscenidade?

Objetar-se-á que os descendentes desses alemães, que à sombra de Hitler e de acordo com as suas diretivas, levaram a cabo uma das mais terríveis carnificinas (senão a mais terrível, se atendermos aos seus contornos específicos), nenhuma culpa têm de haverem nascido alemães e que não podem ser responsabilizados e votados ao ostracismo pelo simples facto da nacionalidade que o nascimento lhes outorgou. E contudo, creio que a semente nazi paira ainda no solo e nas células dos que vão sendo dados à luz, desde Hitler para cá (e talvez antes disso, pois pode muito bem acontecer que o próprio tenha herdado, enquanto estigma, o embrião maligno que o terreno fez proliferar.).

Apesar disso, há um outro mal, na História Universal e na história própria de cada um, um mal, decerto não colorido com o cromatismo virulento de uma suástica, um mal camuflado e mascarado de baços matizes, esse, que vingou e vinga na esteira dos grandes malfeitores, sem o qual eles não poderiam ter sido o que foram.

Sem dúvida, ninguém pensa que Hitler agiu sozinho e matou, com as suas próprias mãos, milhões de pessoas; logo, há todo um conjunto hierarquizado de personagens que, elevados por ele à categoria de adjuntos, colaboradores, funcionários, prosélitos, seguidores, simpatizantes, etc. lograram pôr em prática a hecatombe.

Muitos nomes são conhecidos e, dentre eles, alguns foram julgados e condenados, a posteriori. Mas, reflitamos: terão sido todos erradicados e com eles terá ido, para sempre, a semente do Mal, essa, cujo símbolo máximo poderá ter o nome de Hitler?

Hannah Arendt, na sua obre Eichmann em Jerusalém, um Relato sobre a Banalidade do Mal*, alude a um outro tipo de mal, não o absoluto, indisfarçável, aquele que coroa cabeças malévolas travestido, quantas vezes, de boas intenções ou então feito poder absoluto e logo prepotência. Esse mal, que ela carateriza como “banal”, não aparece nas personagens francamente monstruosas, mas subjaz aos gestos e atos de seres medíocres, quantas vezes trabalhadores e funcionários extremamente cumpridores, cujo defeito foi seguirem escrupulosa e fielmente as ordens do chefe.

Desse modo lhe apareceu Adolf Eichmann, em Israel, no ano de 1961, no julgamento que o condenou à morte por enforcamento. Hannah Arendt, repórter presente para escrever o relato do julgamento, não viu, naquele homem, sentado atrás de uma proteção de vidro, nenhuma das caraterísticas do assassino cruel e sanguinário que talvez esperasse, mas um apagado e calmo burocrata que afirmava ter apenas cumprido ordens! 

E esta condição, materializada no palco montado naquele tribunal e destinado a tornar-se uma cena de grande mediatismo, provou – e Hannah Arendt, defendeu convictamente a tese que resulta desta obra – que há uma banalidade inerente à perpetração de certos atos pérfidos e ainda que semelhante banalidade é mais comum do que poderá supor-se. Para que um Hitler – ou a materialização do mal radical – possa fazer vingar a sua linha assassina de conduta, necessário se torna a existência e o conluio de milhares de funcionários, como Eichmann, ou trabalhadores, como os guardas dos campos de concentração, ou cientistas e técnicos, como os estudiosos e fabricantes dos produtos destinados a matar os condenados e muitos mais, quem sabe o próprio povo alemão que, da janela das suas casas assistia, impávido, às saídas de milhares de homens, mulheres e crianças, rumo ao exílio, à prisão, à morte, ao desaparecimento súbito de pessoas que antes eram seus vizinhos ou amigos e de quem nunca mais ouviam falar e que talvez tivessem medo de procurar.

Esta característica banal, muito próxima da normalidade, que envolve os atos de obediência ou omissão, capaz de engendrar os piores crimes, alijando, contudo, de si a responsabilidade, pois o sujeito cumpriu apenas o seu dever, ou foi obrigada, vai desculpando e impelindo o mundo a tolerar hostes de pessoas pérfidas. 

Disse, no início, que a sociedade está vinculada a leis e que, seguindo-as, o cidadão coloca-se no polo do Bem enquanto a sua violação o atirará para as sendas do Mal. E contudo, as escrever estas frases simples, vejo-me inundada por uma cascata de dúvidas.

Serão boas as leis, só por serem, as leis? Cumprir o dever, só porque o superior assim o determina, tirará, àquele que cumpre a ordem de outro, a responsabilidade de responder por um erro, por um crime? Se a banalidade do mal estiver insinuada na natureza daquele que é honesto, zeloso, cumpridor, poderemos estar no mundo com a consciência tranquila e a mente esclarecida? Poderá quem quer que seja ser o juiz de uma causa, quando ele próprio não é imune à banalidade do vício – e, por isso, sabe distingui-lo da virtude – e jamais conseguirá sondar, até ao cerne, o íntimo daquele que vai julgar? Não seremos todos nós reféns e vítimas de outros tantos Eichmanns, que, de caneta em punho, ordenaram, arbitraria e cegamente, milhares de execuções, só porque assim estava inscrito no código deontológico da sua profissão e do seu cargo? Estaremos nós, que nos cremos bons, a salvo de cometer erros irrevogáveis e talvez crimes, só porque uma certa ordem hierárquica, estabelecida antes de nós, nos apresenta o seu decálogo? Será o mal uma condição ontológica ou metafísica, radicada no cerne do indivíduo, no seu ADN (ou na sua alma), ou o produto das circunstâncias históricas e políticas que, enquanto conjuntura, o fazem nascer e proliferar? Terá sido Hitler um monstro, um “demónio”, ou meramente o produto do seu tempo e logo o rosto visível do mal abstrato, que não sabemos se existe, enquanto tal?

No início de um novo ano, é uso apelarmos ao bem que existe em todos e em cada um e desejar que ele possa crescer, redimindo as criaturas e solvendo, por fim, problemas e males. Eis porque refletir um pouco sobre o mal que sobrepuja as nossas cabeças e tolda, em doze meses, o que auguramos em fervorosos auspícios, para termos que, incessantemente, exorcizar, me parece ser a tarefa humana mais urgente.

*Editora Tenacitas, Outubro de 2003


Trailer do filme Hannah Arendt, sobre o julgamento de Eichmann,

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

TREZE BADALADAS

Clara Correia
Dezembro. Primeiro round: fartazana de festas natalícias que, mesmo para quem as não teve à farta, não se fartaram de ser incluídas em desejos mais ou menos sinceros e em conversas mais ou menos de circunstância. Segundo round: “countdown” mundial para a passagem de testemunho da tocha olímpica dos complexos jogos diários das Olimpíadas das relações humanas. O fim de ano, na realidade, deveria ser apenas referido como “passagem de ano” ou, se se quiser lançar mais uma moda do linguajar, por “transição de ano”, isto se não quisermos ser cínicos ao ponto de fingirmos acarinhar o débil ancião que o simboliza só porque sabemos certa a sua morte e certo o seu sucessor, personificado numa viçosa e rosada criança que passamos a receber com tal e tradicional euforia infantil que até parece que o alegre infante encarna o “pack 2 em 1” da promessa de novas oportunidades mais os respectivos benefícios em piloto automático. Assim, está visto que, quase sempre interesseiros, nos referimos à passagem de ano por “fim de ano” só para “dar graxa” ao ano velho, não vá ele arrepender-se e, em vez de se finar, ficar … ficar alapado à nossa consciência, como o grilo falante se alapava à do Pinóquio; o problema é que, como o boneco de pau, queremos distância dos grilos-falantes-às-consciências e dos anos moribundos, como se estes levassem consigo para o túmulo do Tempo o critério de selecção e divulgação anual dos nossos segredos e os fracassos dos últimos trezentos e sessenta e quatro dias da nossa vida. E, se calhar, boa parte das vezes, é por isso que, secretamente, talvez festejemos no nosso íntimo tanto a ida do ano velho como a vinda do novo ano … como se o Tempo, além de paciente (“ … é uma questão de tempo”) e curativo (“ … o tempo cura tudo”), sendo passado, também tivesse de ser absolvidor dos nossos pecados e pecadilhos para ir em paz, pelo menos na nossa consciência da qual, boa parte das vezes, só queremos saber quando nos convém. Assim com´assim, com ou sem superstição, engolem-se com risco de asfixia, as doze passas ao compasso das doze badaladas que, à dúzia, não chegam para apadrinhar todas as decisões de mudança … decisões que, mesmo produzidas em sintonia obrigatória com a deglutição das passas, o emborcar do espumante e a pressão das badaladas, são mais fáceis de expelir do que as passas de ingerir. E assim, a modos que de mente aparentemente purificada pelo ano novo, puro no seu estado ainda virgem de impuras acções humanas, cada um de nós sente-se uma autêntica “fénix” renascida das cinzas dos seus velhos problemas, muitas vezes nascidos de “fogos” ateados por nós próprios. De modo que, assim em modo de “ilusão-de-que-os-primeiros-segundos-de-Janeiro-são-o-início-do-fim-de-tudo-o-que-desagrada”, trocam-se beijos e abraços com amigos, conhecidos e até desconhecidos … aparvalhemo-nos! Glória à humanidade nas alturas da sua nobreza espiritual que, muitas vezes, só nestes breves minutos anuais, atenta nos desconhecidos e mesmo nos demais! Depois de um 2014 de baldes de água fria, em sentido literal e figurado, e banhos gelados mais ou menos voluntários, instaure-se a campanha das treze badaladas na transição de ano, não importa qual ano … pode ser já para o ano, isto é, no fim deste; pode ser que à não convencional décima terceira badalada, soem badalos de lucidez a acordar as nossas consciências para a influência que, realmente, temos na vida que queremos … para nós, para os outros, para a vida da nossa terra e para a vida na Terra de todos. Excelente 2015!

domingo, 4 de janeiro de 2015

NATIVA(IDADE)

MIGUEL GOMES
Começo por não identificar um teor repetitivo em tudo o que me rodeia, do ar ao chão, em mim, no meu andar, na respiração. 

Termina o Natal, a azáfama tolerada de um mote que se quer acelerado, quase não saboreado, de uma terminologia dedilhada em tons de manhã com neve, uma brisa, leve.

De que me querem de vida salpicado? 

Já tolero as costas por onde se atropela um arado, um punho em cravos fechado. Caminho lentamente com medo que o mundo me fuja pelo andar, sem me saber que de caruma em caruma se faz o monte meu lar.
O vento encaminha as nuvens para onde quer que me volte. Traz-me novas em forma de velhas formas, um pedaço de céu sobreposto à atmosfera, o rufar lento, síncrono, de uma memória de útero, o coração de mãe que se fez habitação, o rouco boa-noitar de um marido que se saberá pai. À vida, sozinho, ainda não se vai.

Sem que me vejam permaneço pontualmente a ver o sol nascer, ainda que de tarde se tome, surge áspero por detrás de uma casca de pinheiro, encosto a face a um velho sobreiro, sob ele o latejar lento de um coração, a promessa de uma amizade que nos salta para a mão. 

Não se anotam notas em verbalidades gráficas, lamento, gostava de escrever o que brota dos meus olhos sem ver o que de ti faz momento. Fecho os olhos, a memória incita velhas sinapses, tempos de outros tempos, em que nasci em berço estelar, nos destempos onde descansei antes de a ti vir dar, dou por mim em palhas deitado, como um menino jesus grande e desajeitado, a escutar cânticos de aves que desconheço.

Um cão ladra aqui, outro responde ali, espero, a caruma sobreposta e uma clareira em forma de resposta. 
A terra que se fez da Terra bombeia a vida pelas suas artérias, passa-me ao lado, gostava de dormir um dia acordado, por isso deixo-me esmaecer ao encontro do mundo, fazer do meu sétimo universo o descanso da hora sobre o segundo. 

Vejo a manjedoura vazia, um desalentado José coloca a mão sobre o ombro da sua Maria. Olhos de mãe choram quando não se fazem de rosa, cravo florido, mãos no regaço e um ventre dorido. O presépio aconteceu, mas por lá ninguém nasceu, os pastores trazem as mãos cheinhas de nada e o calor das vacas, das ovelhas, dos burros e do fiel cão aquecem a noite de quem não se sabe vir a madrugar, hoje as noites das trevas são.

Se chovesse teríamos um arco-íris, mas a única precipitação é das estrelas cadentes que iluminam lampejantemente uma porção de noite. 

Uma estrela regressa no caminho, vai por aí, devagarinho, contando a plebes e reis, um dia há-se ser, hoje não, que retornem a cortes as realezas e distribuam a vossa riqueza noutros estábulos, em pobres mesas, por lá nascem diariamente príncipes, princesas.

Acompanhado que está o casal na sua natividade interna, resguardam-se pastores à sorte de um capote, vai noite e fria a jornada e o gado, esse, quer-se levantado de madrugada.

A manjedoura desfaz-se de berço, Maria segura desajeitadamente um terço e oscila ao levantar-se. Uma mão no joelho, a nodosidade de um soalho que reclama de velho, a força de quem se pare todos os dias encontra a calosidade de um José que soluça e encontra afagando um cão um Gabriel desacreditado. O céu, ou Deus, tem por vezes destinos díspares para iguais filhos seus.

Não cresceu a vida onde se pensa ter tido guarida o casal. Neste mundo não se fará Natal.

No entanto, porque da vida encarrega-se a vida, viram-se por terras de gente boa um casal que navegava à noite, à toa, sem cardos ou espinhos, olhando o céu estrelado onde descansam deuses meninos, talvez deitados, talvez sozinhos.

Em cada torso uma árvore, de Natal, nos olhos brilhantes de meninice a iluminação de dias que parecem noites de tão inverno se alimentarem. Navegam pelo imaginário presentes que jamais serão entregues e, desses, restará o sabor de possuir o que se é. 

A vida carrega consigo ela mesma e, em cada parte dela, um pedaço de amor que espreita. Dos seus braços pendem laços, pedaços de colmo onde se deitam meninos, meninas, crianças e gentes menos pequeninas. Deuses nascidos e não criados, criados e não nascidos. 

Penso nos Natais desflorestados, das vidas que nasceram para o lado de lá da existência, guardo para o momento todo o pequeno sorriso que se possa fazer simplesmente fazendo. Acredito que de todos brota amor, em fases e sintonias diferentes, todos desejam no inverno frio o forte e humano abraço que nos dá calor. 

A cada olhar com gente bem lá no fundo, possamos procurar ser, dia ou noite, um pouco mais de luz, tratar cada criança, infante ou adulta, como o nosso próprio menino Jesus.
A cada medo um sorriso em forma de segredo, a cada nome a certeza de uma existência sem fome pois quem se alimenta de vida em si mesmo se sacia, como a letra que escrevo sem tinta e deixo aqui, sozinha, vazia.

sábado, 3 de janeiro de 2015

SEM ROSTO E SEM RASTO

JORGE NUNO
Depois do que vi num canal noticioso da TV, vi-me impelido a levantar-me cedo e procurar obter uma consulta no meu médico de família. Fora da vidraça, o habitual cinzentão, bem escuro, recortado pelos focos de luz das torres de iluminação da rotunda. Entretanto, os seus sensores avisam que o dia começa a clarear a bom ritmo e apagam-se as luzes. Preparo-me para sair, sem tomar o pequeno-almoço, apesar de adivinhar que a manhã irá ser longa. Procuro o comando do portão da garagem, não a encontro e, sem demoras, decidido, inicio a caminhada, a pé. 

Já na avenida, reparo que o sol está a nascer, pintando, com cores exóticas, o negro das nuvens que teimam em persistir há demasiado tempo. Tudo depende da forma como olhamos. Eu prefiro fixar-me no belo das partes multicoloridas, de tons dourados, relegando o negro das nuvens a um mero contraste. Olho mais para cima e vejo o rasto deixado pelos três aviões da Força Aérea, presumindo tratar-se de treino de voo e/ou controlo do espaço a aéreo, junto da fronteira, a muito poucos quilómetros da cidade. Era algo agradável de ver. Aqueles rastos – seis linhas retas –, pareciam uma pauta de música. Apesar das pautas só apresentarem cinco linhas, ocorreu-me que os pilotos estariam a compor uma canção tripartida para embalar cada uma das suas mais-que-tudo. Apenas faltava colocar-lhe umas quantas breves, semibreves, colcheias e semicolcheias, já que com mínimas e semínimas seria uma composição mais complexa, para estes pilotos enamorados. Enquanto caminho, viro-me algumas vezes para trás, para apreciar este céu bonito e invulgar.

Chegado ao Centro de Saúde, deu-se o que esperava. Neste “reino maravilhoso” – apesar da crise instalada –, há sempre lugar para mais um à mesa, assim como mais uma consulta de clínica geral, sem marcação! Depressa ouço o meu nome no altifalante, levanto-me e dirijo-me ao gabinete para a triagem. A enfermeira “Popota” – como lhe chamo em surdina – mede-me a tensão arterial, pesa-me e mede o meu perímetro abdominal. Nesse momento toca o meu telemóvel, que desligo, de imediato. A “Popota”, que tem tanto de excesso de peso, como de zelo e simpatia, diz: – Mesmo a propósito! Tenho um telemóvel igual e tem aí uma aplicação que devia usar, pois faz a gestão das calorias, dando indicação do número de passos dados ao longo do dia, para poder perder peso! Por acaso usa esta aplicação? Olhe que deve… pois está a ficar pesado demais!

Fiz um gesto de negação com a cabeça e ela toma a iniciativa de programar a aplicação, dizendo-me que devia fazer, no mínimo, 10.000 passos por dia.

Já regressado à sala de espera, entre “ais” de dores físicas crónicas e de dores emocionais, decorrentes da solidão e da atual crise, ouço comentários pouco abonatórios. Entre os menos deselegantes, podia-se ouvir: “parece que anda tudo doido!”; “deve ser algum vírus que anda no ar.” ou “parece o fim do mundo!”.

O médico ouve as minhas queixas relativas a esquecimento, desvaloriza, dizendo que é próprio da idade e aconselha-me a beber mais água, fazer caminhadas, algum esforço para manter bem ativa a parte intelectual, e descomprimir – procurando não me deixar contaminar pela situação envolvente… –, e manda-me fazer umas análises.

Regresso a pé, olho para o céu, como que à procura de colírio para os meus olhos, mas tudo era diferente. Apenas se viam nuvens negras e os paralelos rastos dos aviões tinham-se dissipado completamente. Passo pelo laboratório de análises, colhem-me algum sangue, e dirijo-me à pastelaria, a uma hora já pouco própria para tomar o pequeno-almoço.

A televisão estava sintonizada num dos canais noticiosos e “martelava-se” em temas recorrentes, como seja o trabalho da comissão de inquérito nomeada pelo Parlamento para averiguar o caso do maior banco privado que foi ao “charco”. Sabe-se que por intervenção estatal foram separadas as “águas”, ficando um a ser um banco mau, “com ativos tóxicos, dívidas dificilmente incobráveis e operações de grande risco em offshores” e o outro, um banco bom, de cara lavada, com avanço de dinheiro dos contribuintes. Via-se os responsáveis pelas várias áreas de negócio a demarcarem-se, alegando “desconhecimento da situação” ou dizerem “não se lembrar…”. 

A dona Laurinda, aposentada, que já era professora do ensino primário no tempo do Craveiro Lopes, resiste, firme, ao passar dos anos, e não parece estar esquecida nem dá provas disso. Frequenta aquela pastelaria pelo convívio e para ler diariamente o jornal. A seu lado tem a amiga, que vive com dificuldades – já a vi a mordiscar um bocado de pão, tirado da mala, para acompanhar com um copo de leite –. Ouço a ex-professora confessar que foi prejudicada e a dizer coisas como: “Como é que não se lembram? Estão só a atirar areia para os olhos.”; “Há muita gente sem rosto, que mexe os cordelinhos e faz o que quer.” ou “O dinheiro foi para onde? Não deixou rasto?” 

Eu, que me sinto, cada vez mais, com falta de memória… comecei a fazer uma retrospetiva e passei a pente fino vários primeiros-ministros. Um deles, referiu: “Eu nunca me engano e raramente tenho dúvidas”. Tanta firmeza de convicções deixou-me, na, altura cheio de dúvidas!… Uns anos mais tarde, não se lembrou e distorceu o valor das suas reformas. Um outro, candidato a primeiro-ministro, – e viria a sê-lo – em frente às câmaras de televisão, cometeu uma gaffe com os dígitos do PIB e sentiu-se embaraçado ao querer fazer contas de cabeça, sem conseguir, num assunto relacionado com o orçamento para a área da saúde. Outro, quando lhe acenaram com um cargo importante, esqueceu-se que tinha sido eleito há pouco e, não hesitou – foi embora – e lá, cometeu muitas gaffes, esquecendo-se que os governos dos estados-membros eram eleitos democraticamente e que este país vivia com imensas dificuldades, para ele promover projetos megalómanos e incomportáveis. Outro, esquece-se qual foi a importância que o amigo lhe “emprestou”, para poder pagar as suas elevadas despesas mensais. E outro, esqueceu-se quanto recebeu de uma pequena empresa de formação na margem sul, sob a capa de ONG, que não podia ter capacidade para lhe pagar aquilo que se diz ter recebido.

De seguida, passam na TV três breves notícias: uma, dava conta de se estar a comemorar o segundo ano da data prevista para o fim do mundo – que não ocorreu; outra, falava do arquivamento do processo do caso dos submarinos e, por fim, da Comissão Europeia que puxava as “orelhas” ao nosso governo, por estar a abrandar nas reformas previstas, mostrando discordância com o aumento do salário mínimo, previsto para 2015, por entenderem que os cidadãos deste país estão a viver acima das suas possibilidades.

A dona Laurinda vira-se para a amiga e diz – Oh Tila, e estavas tu já a fazer o molho à vaca e a vaca no lameiro! Resposta da amiga, desconsolada – Agora… mesmo que venham com a carrinha, não vou votar!

Não me esqueço de pagar e saio da pastelaria, com a ideia que afinal não é assim tão complicado esquecer (ou não saber) onde estão as chaves do portão da garagem. Abro a tampa do telemóvel e reparo que já tinha dado 5075 passos, que corresponde a 4,0 km e um consumo de 217 Kcal. Não esqueço que há o teto de 10.000 passos a atingir. Lembro-me do rasto… Se eu ao fim de menos de três horas já não consegui ver o rasto dos aviões, como é que eles querem ver o rasto do dinheiro que voa? Enquanto caminho, vou dando uso sistemático ao cérebro – como é apologista o meu médico – e penso – Apesar de se terem esquecido de completar o túnel do Marão, a verdade é que desfizeram o IP4 para o transformar numa autoestrada que chega ao fim do mundo, – sem haver alternativa, caso seja portajada… –. Como o Douro está in e é navegável, se calhar ficaria mais barato desfazer um afluente para fazer chegar aqui os submarinos, e construir uma Base Naval na cidade, que levaria ao desenvolvimento turístico da região. Como as águas seriam pouco profundas, até podia ser que se visse o rasto!...

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

BEBÉ DO ANO

GABRIEL VILA BOAS
Desde que me conheço verifico que não é só o Natal que tem as suas tradições, pois o primeiro dia de Janeiro, esse ícone do otimismo instantâneo, sorrisos e determinações resolutas, também ganhou direito às suas tradições: banho de mar em Carcavelos, aumento de preços ligeiramente acima da inflação, corrida ao bebé do ano. 

Ano após ano, aquele jornal que quase todos lêem envergonhadamente reserva um lugar de destaque na primeira página para o primeiro rebento do ano. Este ano foi ligeiramente diferente… O bebé do ano é uma criança abandonada numa vala, muito perto dum colégio de freiras, em Setúbal, dentro duma cesta. A criança não teve muito tempo ao relento porque um homem a encontrou e logo chamou a polícia que tratou de a colocar no Centro Hospitalar mais próximo.

A notícia chocou-me e revoltou-me! Como é possível alguém colocar um bebé de horas no cadafalso, à espera da misericórdia da sorte? Será que aquela “pessoa” (mãe, familiar ou simplesmente amiga dos pais) não vislumbrou o sofrimento cruel que infligiria àquela criança? Entregou-a à morte e desafiou Deus a salvá-la!

Não me parece muito justo pensar que o fez em desespero absoluto, pois teve várias hipóteses para solucionar o “seu problema” doutro modo. Podia não ter assumido a gravidez que a lei e o hospital a acolheriam discretamente; podia ter tratado de encontrar alguém que temporariamente tratasse do seu bebé até que as difíceis circunstâncias da sua vida se alterassem; podia ter tocado à campainha do colégio de freiras, que acolhe crianças abandonadas há 65 anos, pedindo que lhe ficassem com a criança… Podia não ter tido aquela atitude abominável, mas teve!

Não acho que haja causas sociais que justifiquem tal acto. Se não queria ser mãe daquela criança, não era! Ser mãe é algo de maravilhoso e grandioso, que torna a mulher mais feliz e mais completa. Aceito que nem todas pensem desse modo, que muitas tenham medo, que haja quem não goste de crianças, mas não tolero que haja alguém que faça isto a um ser humano.

Será um crime que passará impune, pois a adoção acontecerá em semanas; a mãe não reclamará a criança, de que é absolutamente indigna, e o Correio da Manhã irá farejar notícias para outro lado.

Este bebé encontrará em breve uma mãe, um pai e talvez até irmãos. Ele é o meu bebé do ano. Sorrio ao imaginar o seu olhar doce e inocente e agradeço a Deus e ao destino este presente de Natal que teve de chegar atrasado.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

PAZ NA TERRA AOS HOMENS DE BOA VONTADE

ANABELA BORGES
Hoje é o primeiro dia do novo ano, dia um de Janeiro do ano da graça de 2015. Outro Natal passou.
Os poucos dias destinados a folga sucederam-se na azáfama dos preparativos daquela que é, desde que me conheço, a grande festa de reunião familiar.
Somos uma família numerosa. E falo apenas da família mais chegada, da família directa: avós, filhos e netos.

E ninguém falta, ninguém arranja pretextos para não estar presente no Natal. Não é algo que se pense (estar ou não estar presente), é algo que veio com a educação, que se faz com naturalidade e que acaba sempre numa felicidade imensa, difícil de traduzir em palavras – uma felicidade que dilata o peito, acende um brilho inconfundível nos olhos e rasga sorrisos, gargalhadas e sobrepõe conversas num atravessar longínquo de três gerações (neste momento, o mais jovem elemento tem dois anos e é meu sobrinho, e o mais velho tem 80 que é o meu querido pai).

Ao longo do ano, são muitas as vezes em que nos reunimos em família, em festas de aniversário, festas de Primavera, de Verão, de despedida do Verão, enfim, com ou sem pretexto, reunimo-nos muitas vezes em família e somos mais que muitos (os jovens sobrinhos trazem as respectivas namoradas e um ou outro amigo). E dá-se, por vezes, o caso de um ou outro elemento não poder estar presente, pelos mais variadíssimos motivos. Mas no Natal ninguém vai de férias, ninguém vai sair com os amigos, ninguém vai trabalhar. Todos estão presentes. Os mais jovens (as minhas filhas incluídas) já têm esta mentalidade também. Já são elas que, ano após ano, dizem “Neste ano, o Natal é na casa da avó Julieta, com os tios e os primos tal e tal”, “Neste ano, é na casa da avó Albertina, com os tios e os primos tal e tal”.

De há uns anos para cá, desde que a família foi ficando mais numerosa, com os casamentos e os netos (os nossos filhos), deixamos de nos reunir na casa dos nossos pais, que é pequenina, contribuindo assim também para poupá-los às canseiras e azáfama que envolvem esta época festiva, dadas as suas idades avançadas. Assim, nós, os filhos, organizamos os natais nas nossas casas, de forma mais ou menos alternada. Inquestionavelmente, com o espírito de sempre – a vontade de reunir a família para celebrar o Natal.

Sei que muita gente celebra e que muita gente não celebra o Natal assim. Eu não critico. Sei que muita gente não valoriza a união familiar, particularmente nesta época, sei dos que dizem que isso tem de ser trabalhado durante todo o ano – pois tem, e na minha família assim é (que não o fosse, ficaria feliz se nos pudéssemos reunir ainda que apenas no Natal). Não comento. Verifico que há pessoas que dizem detestar o Natal. E chamam-lhe muitos nomes, ao Natal e às suas festividades: festa hipócrita, comercial, superficial (vejo que não sei dizer os nomes, por isso dou uma espreitadela no Facebook, que é um meio de fácil acesso, e peço a todos desculpas por isso, para verificar os nomes que algumas pessoas atiram para cima do Natal, porque não os sei, não fui habituada a conhecer o Natal dessa maneira), conjunto de excessos, materialista, uma farsa… Tenho pena. Mas não condeno.

Eram as férias de Natal. Enquanto a geada caía, a pôr as ervas duras como palitos e as águas dos tanques lisas como espelhos finos, os vidros embaciados transpiravam o calor da casa rente à terra. E os seis irmãos espreitavam lá para fora, acenando com as palmas das mãos, fazendo deslizar pequenas gotas, rápidas como lágrimas de desejo.
Até que veio o dia em que o pai só trabalhou meio dia e chegou com o cabaz. Era o dia em que a casa cheirava aos sonhos de Natal. A mãe tinha a panela ao lume para amouchar a troncha e a mais velha das filhas estava a tratar dos doces. E a casa cheirava aos sonhos de Natal, que era um cheiro feito de mel e canela e Vinho do Porto, os sonhos dourados que enchiam a casa com promessas de dias benfazejos para um ano inteiro. Era um cheiro que se entranhava nas roupas e nos cabelos, metia-se nas madeiras, subia ao teto e esbarrava nos cantos da casa.
Pôs-se a mesa com uma tolha imaculada, mas sujou-se logo no entusiasmo de passar o galheteiro de mão em mão para regar o bacalhau com o azeite. E a noite avançou, lenta e mágica, com cheiro a sonhos de Natal.
No fim da ceia, era costume o pai jogar com os filhos ao rapa-tira-deixa-põe. O maior azar do jogo era a quem saísse o P, porque tinha de pôr no centro da mesa os pinhões que tivesse arrecadado até aí. No fim do jogo, restabelecia-se o equilíbrio das coisas, porque iam todos para a bancada da cozinha partir, repartir e comer os pinhões conquistados.”*

Quem cresceu num Natal assim, não pode odiar o Natal, não pode deixar de valorizar a celebração da festa da família – pai, mãe, filhos.

Este é verdadeiramente o momento para estreitar os laços familiares.

Não há famílias perfeitas. Não há natais perfeitos. Como todas as famílias, também temos tido a nossa dose de natais ensombrados de doença, de sofrimento, de dúvida. Não podemos renegar a graça de podermos estar junto dos nossos pais, dos nossos irmãos, dos nossos filhos. A graça de estarmos juntos é reafirmada ali.  

E o que verdadeiramente deveríamos ver, deveríamos querer, deveríamos relembrar nesta época, se cremos, um bocadinho que seja, nessa história cristã do Homem que viveu como os homens, para lhes deixar lições de simples humanidade, para lhes dizer “PAZ NA TERRA AOS HOMENS DE BOA VONTADE”. E se não cremos nesse homem de nome Jesus, também. Creiamos na boa vontade dos homens, pois é ela que faz evoluir todas as humanidades da Humanidade de que somos revestidos. É principalmente disso que se trata – de vontade. Falta vontade aos homens, não apenas vontade de fazer, mas também vontade de ser. Só através do motor que trabalha a vontade, a Humanidade evoluirá para um patamar superior, de paz e maior igualdade entre os homens.

A vontade respira dentro de cada um de nós. E a segurança nessa vontade, a força, a mão de agir vem da família. Os (bons) amigos são também essa família, qualquer um que seja, que venha por bem, será acolhido como família – de boa vontade. Ninguém será feliz sozinho, por mais que procure convencer-se disso. Da mesma forma, também ninguém será feliz por seguir alguém por influência social, ou por outra qualquer forma que não seja o instinto puro que é revocado no silêncio interior. Cada um de nós tem o seu silêncio interior. E é necessário saber escutá-lo. E, sim, devemos sempre preocupar-nos com o que os outros pensam, pois isso é que vai pôr à prova o nosso carácter, a nossa individualidade, a capacidade de pensarmos por nós mesmos e de tirarmos as nossas conclusões sobre o(s) caminho(s) a seguir.

Precisamos da nossa trupe – família. Precisamos de quem faça o caminho ao nosso lado para sermos felizes. Precisamos da partilha: de dar a mão, o abraço, o beijo, o olhar. Precisamos, acima de tudo, de partilhar o verbo, de acalentar a palavra, aconchego ao espírito. E se aqueles que seguimos se limitam a ser contra tudo, se limitam a criticar, se limitam a derrotar as mais simples alegrias dos outros, por vezes de forma inconsciente (pois esses não souberam ainda ouvir a sua voz interior), pensemos melhor – se é por aí que queremos ir, se somos felizes assim, ou se seremos apenas imitadores, pessoas revoltadas sem válidas razões, se, afinal, ainda não aprendemos a viver a vida de dentro de nós para fora, para o outro. Porque esses, senhores, muitos desses não sabem o que andam cá a fazer, e vivem nadando em muita arrogância e variadíssima presunção, e nem sequer perceberam qual é a sua missão neste espaço terreno.
Todos estamos em tempo de seguir o instinto primordial da nossa humanidade e, em ascensão, ajudando-nos, corrigindo os erros uns dos outros, estaremos em condições de deixar um mundo melhor aos vindouros.

Homens de boa vontade – não estejamos à espera que seja o outro. Sejamo-lo nós primeiramente.

Perante isto, o que posso desejar para o ano que hoje começa?
Que seja um ano mais ciente e vivo de humanidade.


*Passagem do meu conto de Natal de 2013, “Acordar os Sonhos de Natal”, publicado pela editora Lugar da Palavra.