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sábado, 10 de fevereiro de 2018

TÂMEGA GUIGAS E GAIVOTAS

ANTÓNIO PATRÍCIO
Para se amar é preciso conhecer e, este Tâmega, tem ainda tanto para se descobrir… 

O rio Tâmega, que nos atravessa de lés-a-lés, nasce entre musgo e fetos na Galiza, na província de Orense, Serra de São Mamede e, como quem inicia um passeio para o qual não persepctiva um regresso, entra em Terras de Portugal pela Veiga de Chaves, onde se espraia num amplo gesto de abraço. 

Este pequeno repouso, como querendo tomar folgo, leva-me a pensar ser sinónimo de ânsia em conhecer outras terras e novas gentes, na procura de um oceano que a vista ainda não alcança e o olfato, sedento de maresia, ainda não descortina. 

Aventura-se e, sem medo, atira-se por entre fraguedos e penhascos lançando mão a ribeiras e arroios e, como um cavaleiro medieval na defesa da sua honra ou da sua amada, procura os caminhos mais curtos afundando-se nas profundezas de um leito de serra pedregoso e temido mas, ao mesmo tempo, de belezas ímpares e verdes idílicos. 

É um rio de vida, de paixões e desencantos mas, temperamental e de carácter forte que, de quando em vez, investe sem dó nem piedade levando consigo vidas e bens. 

As memórias mais cansadas fizeram chegar até aos dias que correm de que o Tâmega é um rio “fêmea” e, como tal, necessita de comer carne todos os dias para se manter boa mãe. Este “dito” teve cá em Amarante uma Senhora que, vivendo na sua Casa beijada pelas suas águas, quando lhe sentia alterações comportamentais mandava uma sua criada matar uma galinha e lançá-la ao rio. Sabe-se lá quantas vezes lhe apaziguou a fome e a fúria, mantendo o doce deslizar das guigas sobre o seu dorso povoado de folhas de amieiro e salgueiro, onde as bogas e os barbos se deliciam nas cascalheiras e os escalos se banqueteiam de moscas de maio e outros insetos cansados dos ardentes e efémeros momentos de procriação. 

Por onde passa é povoado, um pouco por todo o lado, de barcos que os homens nos seus diários afazeres utilizavam e utilizam como meio de transporte de pessoas e bens e, também, na pesca e na caça em percursos relativamente pequenos, uma vez que, o Tâmega não se deixa navegar pelas muitas açudes e pedregosos obstáculos que enxameiam o seu leito. 

Estas pequenas embarcações, em Terras de Amarante, tomam uma forma diferente de todas as outras e um nome – Guiga – que não se sabe a sua origem (supõe-se que derive de uma outra de origem inglesa “gig” – barco de regata) nem o por quê de tal denominação, uma vez que, se restringe só e somente a esta Terra a quem São Gonçalo chamou sua. 

Nos dicionários a definição de Guiga aparece como “pequeno barco utilizado nas regatas” o que também não deixa de ser interessante, uma vez que em tempos não muito remotos, no Verão, era dado grande realce a um evento que consistia numa concentração e posterior corrida de ida e volta, destas pequenas embarcações, na área compreendida entra a velha Ponte e os Açudes dos Morleiros, onde era posta à prova não só a força muscular e o sentido de orientação dos remadores - remam de costas voltadas para a proa - mas, também, os conhecimentos ancestrais utilizados na sua construção pela forma suave e elegante como corta as águas. 

Esta tradição quase que se chegou a perder vindo a ser, ultimamente, implementada pelos organizadores e responsáveis pelas Festas de Junho. 

Foi, em tempos, meramente utilizada como utensilio de trabalho, fosse na pesca, na caça ou nas travessias de pessoas – seis a oito – e bens ligeiros. Ultimamente tem vindo a ser utilizada na pesca desportiva e em passeios turísticos ao longo do rio na área adjacente à zona histórica da cidade. 

A Guiga, é um barco de fundo chato, de proa e popa levemente alevantadas e com a mesma configuração o que dá ao remador a possibilidade de o manobrar da maneira mais favorável, que pode ser movido a remos ou à vara. Construído em madeira de pinho (proa e popa em carvalho) nunca excede os cinco metros de comprimento, pouco mais de quarenta centímetros de altura e um metro de largura, com cinco assentos com proa e popa cobertas, toda ela pintada com cores garridas. 

Os últimos construtores de guigas em madeira foram os irmãos Sílvio e Fernando Patrício e António Ribeiro, também conhecido popularmente por “António Pisco” que trouxeram esta arte, mais que centenária e adquirida através de gerações, até aos anos setenta do passado séc. XX, se bem que, outros entretanto tenham surgido mas de duração efémera. 

Um outro barco, conhecido sempre por “barco” mais avantajado, mais ou menos com a mesma configuração excepto na popa (rematava com uma tábua que se elevava acima dos lados e tomava a forma de leque ou rabo de pássaro), quase sempre movido à vara, era utilizado na travessia de animais e cargas mais pesadas e na extração de areias, podendo-se dizer que hoje já não sulca estas águas. 

De há uns tempos a esta parte, têm vindo a ser construídas em chapa de ferro e até em contraplacado, se bem que algumas não obedeçam à configuração tradicional pois são-lhe retiradas as popas iguais às proas e rematadas com popas retas o que leva o remador a remar só numa direcção. Não deixa, por isso, de ser um barco diferente cuja história partilha com a terra e a gente que lhe deu o nome e que permanece no Tâmega e só em Amarante a deliciar não só as suas gentes, mas também, todos quantos nos visitam e gostam de se deleitar com os prazeres de uma paisagem inigualável. 

Nos idos princípios dos anos oitenta surgiu no nosso rio uma pequena embarcação de recreio pela mão do amigo e companheiro de carteira Teixeirinha – António Machado Teixeira – a quem foi dado o nome de “Gaivota”, sabe-se lá por quê, construída em fibra-de-vidro e com estrado em madeira. Fazia-se deslocar a pedais, que moviam uma espécie de hélice, entre a Praia Aurora e os Açudes de Frariz. Teve vida curta pois, logo nas primeiras cheias, as cadeias que a sujeitavam não aguentaram o esforço finando-se, esta primeira “Gaivota” rio abaixo tendo sido vista, pela última vez, na Varziela. 

Passado algum tempo surgiu pela mão de Pedro Macedo, proprietário de uma oficina de bicicletas na Rua Teixeira de Vasconcelos, uma outra “Gaivota” cujos flutuadores eram construídos com latas de óleo (vazias), devidamente agrupadas e fixadas a uma estrutura de madeira que servia de estrado e, ao mesmo tempo, as sujeitava à sua função. Também não se aguentou acabando por fenecer sem deixar história. 

A terceira “Gaivota” aparece pelas mãos dos amigos Hugo Silva e Mário Flores, esta já com flutuadores cilíndricos, feitos em chapa de ferro e com extremidades cónicas (para melhor cortar a água) também com um estrado em madeira, com rolamentos nos pedais para facilitar o movimento da hélice e pintada de amarelo a quem foi dado o nome Humar em homenagem aos seus patronos. 

Esta “Gaivota” chegou até aos nossos dias, com alguns arranjos e conservação e alguma apurada e atenta vontade de existir pois, Mário Flores, não descura atenções à sua Humar. A patente não foi registada e, como tal, começaram a surgir algumas “más cópias” enxameando uma área da zona histórica com estas embarcações de recreio e forma de obtenção de alguma maquia extra por parte dos seus proprietários. 

Estas “Gaivotas” que não comem peixe nem sabem voar, não se identificam com o nosso Tâmega, com a paisagem, com Amarante e, no meu modesto entender, nada de bom acrescentam a esta Terra. Pela sua instabilidade e deficiente construção já protagonizaram alguns incidentes e acidentes com perdas de vidas humanas. Dá que pensar… 

Com esta investida a existência da “Guiga” chegou a estar deveras ameaçada mas, o amor e a tradição falaram mais alto e, este barco de poetas e prosadores, elegante, plenamente integrado na paisagem idílica e património de Amarante e do seu Tâmega, único no mundo, como que ressurgiu com nova força e vontade e, paulatinamente, ocupou a lugar que sempre foi seu. 

O Tâmega, na sua passagem por Amarante, divide-a em duas margens frescas, verdejantes e com história e, é a “Guiga” com as suas formas sensuais e delicadas, a sua elegância no flutuar e cortar as águas que as une e faz prevalecer o amor, alimenta paixões e ilumina a vontade de viver a Vida. 

Não nos esqueçamos que só em Amarante e no rio Tâmega é que há um barco a quem os Homens, em tempos que ninguém recorda, deram o nome de “GUIGA” e, tudo o mais, não passa de uma fantasia que não faz nem deixa história.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

UM ABRAÇO

+José Carlos Lima
(Crónica de MIGUEL TEIXEIRA)

Um abraço, Zé Carlos!

Dizia Victor Hugo, escritor , dramaturgo e político, que "a imprensa é a sagrada e imensa locomotiva do progresso". Esta semana, um dos grandes jornalistas deste país, que ajudou a desenvolver o espaço geográfico do Minho nas últimas duas décadas, partiu para aquele lugar onde repousam os homens bons. Conheci o José Carlos Lima num dia que não consigo precisar, no ano de 1998, no ano em que julgo que ele era um estagiário do curso de comunicação social da Universidade do Minho. 

Telefonou-me do seu local de trabalho, o Jornal Diário do Minho, para me questionar sobre a estratégia da minha direção política para a Federação Distrital de Braga da JS. Eu tinha acabado de ser reeleito Presidente da Federação Distrital de Braga da JS, num Congresso realizado em Fafe e vivia um momento particularmente feliz da minha passagem pela política ativa. No mesmo telefonema e depois de se apresentar como jornalista daquele jornal que eu sempre vi como o de maior audiência e com maior alcance social no Distrito de Braga, (julgo que nessa época eu já conhecia o Jose José Ferreirae o Abel Coentrão, dois outros nomes incontornáveis deste mítico jornal), o Zé Carlos depois de me ouvir sobre as grandes linhas de intervenção política da estrutura distrital da JS , disponibilizou-se para ajudar a divulgar as nossas iniciativas, deixando-me o seu número direto. Seguiram-se inúmeros telefonemas, à medida que os nossos comunicados iam caindo na redação do Diário do Minho. Mais tarde, na Assembleia da República, e quase sempre que eu endereçava requerimentos a vários ministérios solicitando ao governo informações sobre obras e empreendimentos previstos para o Distrito ou sub-região de Basto, ou fazendo intervenções de caráter regional no plenário da Assembleia da República , o José Carlos veiculava para o Distrito de Braga o essencial das reivindicações que eu ia produzindo. Respeitou-me sempre, mesmo depois de eu ter abandonado a política e ter assumido a Direção da adbasto e a função de editor do Jornal "O Basto" solicitando-me sempre informações sobre factos que iam sucedendo em Cabeceiras, o que demonstra o seu enorme profissionalismo e independência face a poderes instituídos. Foi para mim uma enorme tristeza saber da partida do José Carlos, num trágico acidente de viação. O Distrito de Braga perdeu um dos mais dignos representantes da imprensa regional. Recordo-o como um homem que fazia jornalismo a sério. Que a sua alma descanse em paz.

sábado, 12 de agosto de 2017

NO ARCO DA PONTE

A. PATRÍCIO
O Tâmega é...

O nevoeiro cobria o rio mas, nem por isso, lhe subtraía a beleza. Quer queiramos quer não, a beleza natural, seja do que for, é perene, inigualável e, por mais que o tempo passe e sobre ela exerça a sua influência não a macula, muito pelo contrário, acrescenta-lhe magia, dá-lhe autenticidade.

A beleza deste rio é poema de rima incerta, onde o autor, com palavras sopiadas por Deus descreve, sujeito aos condicionalismos humanos, o melhor que sabe e sente – amor, paixão, romance, sentimento, carácter – sem nunca questionar a sua origem e o seu ocaso.

À imagem de Deus, não há palavras para o definir e caracterizar. O rio Tâmega é e, se a recordação nos leva a sentir saudade não é propriamente do rio ou da sua beleza – o rio é futuro – mas sim, dos momentos passados na sua companhia, sempre diferentes, usufruindo da sombra das suas árvores, da paz do seu silêncio, da frescura dos seus relvados, da harmonia dos cantares trinados dos rouxinóis ou do coaxar das suas rãs; da calmaria das suas margens e da elegância das suas guigas no sulcar amancebado das águas.

DR FILIPE SOARES
Meu rio, quão me fazes feliz e quão me sinto perdido quando não te vejo ou sinto a tua presença, levado pela azáfama de uma vida cheia e, por vezes, incompreendida pelo vulgar sentimento e dificuldade de discernimento de uns tantos acolchoados de fátuas ânsias, cegos por promessas efémeras e surdos pelo burburinho da cidade...

Meu rio, conselheiro sábio e despojado de interesses, como te fito abandonado e votado ao esquecimento; como te vejo ansioso quando és vilipendiado por gente sem escrúpulos; como te oiço gritando por ajuda e como sofro, com ranger de dentes, por não ter poderes para te socorrer; como te sinto lutador, quase exangue, em tempos de Estio, a respirar com dificuldade; como és sofredor quando, sem qualquer pejo, te tornas sepultura dos teus nados. 

As tuas águas, ora calmas e remansosas, ora turbulentas e agrestes guardam histórias e estórias de valor e de valores, sem que alguém as saiba ou queira guardar ou resguardar para um tempo e de um tempo de preservação da memória.

Os teus açudes respingam lágrimas de épocas em que guiavam as águas para fazer pão e sujeitavam rodas e mós a uma cadência que dava indolência e ajudava a embalar cestos e canastras onde, em sono angelical, repousavam os filhos daqueles que sabiam os teus segredos.

DR SÓNIA BASTOS

A aragem, como uma meiguice, faz borbulhar a tua face e, num murmúrio quase imperceptível, troca contigo juras de amor copiadas pelos pares de namorados que, todos os dias, palmilham as tuas margens, bebem a tua paz e descansam à sombra dos amieiros e salgueiros. 

A névoa continua sobre o rio e, neste espírito, guardo as ideias e os conselhos que o silêncio partilha e só aqueles nados nas tuas margens entendem e gratuitamente partilham.

O Tâmega é ontem, hoje e amanhã e, como tudo que é eterno, é passado, presente e futuro. É intemporal e único e a saudade, que se evapora das suas águas, é a responsável por toda esta neblina incapaz de o ofuscar por serem eflúvios da sua beleza.

Amemos o rio como parte integrante do nosso corpo pois, só assim, seremos capazes de o respeitar e honrar e, como cidadãos livres, merecedores dos seus pergaminhos. 


(Por opção, o autor escreve de acordo com a antiga ortografia) 
Publicado em “ O Jornal de Amarante” em 28/Março/2013

sexta-feira, 28 de julho de 2017

UM POUCO DE ROTARY

ANTÓNIO PATRÍCIO
Nos inícios de séc. XX, corria o ano de 1905, Paul Percy Harris (advogado) reuniu com três amigos e homens de negócios, Gustav Loehr (engenheiro de minas), Hiran Shorey (alfaiate) e Silvester Schiele (comerciante de carvão) na cidade de Chicago com o propósito de apoiar as atividades de indivíduos e grupos prestadores de serviços no sentido de melhorar a qualidade de vida, manter a dignidade humana e promover a compreensão e paz mundial. Esta reunião realizada a 23 de Fevereiro seria a primeira, de uma ideia que já vinha fermentando desde 1900, nascendo o que hoje é a maior Associação do planeta contando com 1,2 milhões de associados distribuídos por 34.700 Rotary Clubs e espalhados por 210 países ou regiões do planeta.

O Rotary Club de Amarante haveria de nascer no dia 1 de Junho de 1954, pela mão de vinte e três Amarantinos cujos nomes se encontram perpetuados nas colunas mestras do Monumento ao Rotary inaugurado no passado dia 1 de Junho na rotunda do Rotary Club de Amarante, tendo como padrinho o Rotary Club do Porto. Desde então, a esta parte, já contribuiu para a fundação de outros Clubs sendo padrinho dos Rotary Club de Luanda, de Estarreja, de Ovar, de Vila Real, de Beja, de Penafiel e de Resende.

No que concerne à sua acção socio-cultural, educacional e humanitária, na comunidade em que está inserido muito tem contribuído, não só com bolsas-de-estudo direccio-nadas para alunos do ensino superior, muitos deles exercendo actividade profissional cá na terra (pena é que alguns tenham a memória curta e, em vez de se sentirem orgulhosos de terem sido bolseiros deixem transparecer como que um sentimento de vergonha renegando o que no fundo deveria ser um motivo de orgulho); com o movimento “Transformers”; com a Santa Casa da Misericórdia de Amarante e outras Associações como a Terra dos Homens e a APDM, tentando fazer uma sociedade melhor e ajudando a Viver. 

De momento somos vinte sócios contribuindo com o nosso saber e a nossa boa vontade para que o objectivo do Rotary que é, estimular e fomentar o IDEAL DE SERVIR, como base de todo o empreendimento digno, promovendo e apoiando: Primeiro: O desenvolvimento do companheirismo como elemento capaz de proporcionar oportunidades de servir; Segundo; O reconhecimento do mérito de toda ocupação útil e a difusão das normas de ética profissional; Terceiro: A melhoria da comunidade pela conduta exemplar de cada um na sua vida pública e privada; e Quarto: A aproximação dos profissionais de todo o mundo, visando a consolidação das boas relações, da cooperação e da paz entre as nações, seja continuado e se possa manter como força viva e em movimento. 

“O Rotary faz a Diferença” é o lema deste Ano Rotário e neste sentido e sem descorarmos a Prova Quádrupla – do que nós pensamos, dizemos ou fazemos: 1- É a verdade?, 2- É justo para todos os interessados?, 3- Criará boas vontades e melhores amizades?, 4- Será benéfico para todos os interessados? – temos como objetivos, :- Pro-mover o companheirismo;- Manter “Tema da Semana” – Reuniões/Jantar com convi-dado palestrante (temas de interesse geral);- Ampliar o Quadro Social;- Dar conti-nuidade ao Boletim do Club;- Festejar o “Dia da poesia/Dia da Árvore”;- Sensibilizar e cativar os “mídia” para as actividades do Club;- Celebrar o Natal (oferta de brinque-dos);- PPR (passeio pedonal rotário que girará à volta da Rota do Românico);- Come-morar o 64º Aniversário do Club. 

Para além disto temos, ainda, dois Projectos, um direcionado para a Saúde Oral, numa parceria com a Associação “Mundo a Sorrir” e que irá ser levado a cabo em Cabo Verde com a duração de três anos e outro direcionado para a Floresta numa parceria com outros Clubs, nomeadamente, Vila Real, Lamego, Régua, Bragança, Mirandela, Chaves e Valpaços, assim como as respectivas Câmaras Municipais, que visa a reflorestação da Serra do Marão com a plantação de 10.000 árvores. O ICNF irá ser um parceiro activo no sentido de se delinear e levar a cabo esta acção. 

Escusado será dizer que uma parte significativa das cotas mensais é direccionada para a acção internacional do Rotary, através da Rotary Foundation, que desenvolve esforços e acções num esforço hercúleo de alcançar a compreensão mundial e a paz através de programas internacionais de intercâmbio humanitário, educacional e cultural.

O Conselho Director do Rotary Club de Amarante mantém-se atento e disponível para analisar e tentar colmatar situações que, a todo o momento, possam surgir.

Em Rotary, entre outros procedimentos, iremos usar toda a nossa experiência profissional, talentos e princípios básicos de comportamento para melhor servir o Rotary, os Companheiros e a comunidade seja ela local ou além-fronteiras; seremos justos e trataremos com respeito intrínseco os nossos iguais; honraremos a confiança que os nossos Companheiros depositam em nós, pondo sempre os interesses do Rotary à frente de qualquer desconforto pessoal, por forma a que nada façamos que neles se possa reflectir negativamente e, não menos importante, “dar de si antes de pensar em si”.

Ser Rotário é ser Companheiro, é ser Amigo, é comungar o Ideal de Servir.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

FESTIVAL MIMO DE AMARANTE PARA O MUNDO

CRÓNICA DE ANABELA BORGES
FOTO EC

Diversidade. É a palavra que define o Festival MIMO.

Primeiramente, a diversidade é vincada pelo extenso abraço entre dois continentes separados pelo Atlântico, logo seguido por um outro abraço apertadinho entre dois países irmãos: Portugal e Brasil. A cidade que recebe o festival deste lado do Atlântico é a minha bela cidade de Amarante. Quando pesquisamos, no sítio oficial do festival, podemos ler sobre Amarante: “Palco da estreia internacional do MIMO Festival, a charmosa cidade, que é do distrito do Porto, está localizada no Norte de Portugal. Distinguindo-se pelo património cultural e natural da região do Tâmega e Sousa e intenso fluxo turístico, Amarante é conhecida por seu belo casario, as igrejas seculares e a produção do apreciado vinho verde”. É com este cenário por guia que milhares de pessoas percorrem Amarante durante os três dias que dura o festival. Neste ano, foram mais de 60 mil presenças.

A diversidade em diferentes palcos.

A diversidade manifesta-se a todos os níveis. Desde logo, toda a oferta do cartaz é gratuita – um luxo! – não se resumindo a concertos, nem a um espaço único. O festival espalha-se generosamente pela cidade: pelo museu Amadeo de Souza-Cardoso, as igrejas de São Pedro e de São Gonçalo, o centro cultural Maria Amélia Laranjeira, o cinema Teixeira de Pascoaes, o Parque Ribeirinho, as ruas e as famosas quelhas, atravessando a velha ponte, com o rio Tâmega correndo aos pés. Ao longo de três dias, a diversidade vai ditando, além dos concertos, uma oferta cultural que passa pela parte educativa, fóruns de ideias, palestras, master classes,workshops, cinema e chuva de poesia, num total de 52 actividades.

Também a área alimentar traduz diversidade, apresentando cardápios para diferentes gostos. Diversidade é a cidade a encher-se de gente de diferentes gerações, vinda dos quatro cantos do mundo, desde os próprios participantes no festival aos visitantes. O ambiente vai-se tornando fluido e descontraído, e há uma felicidade – difícil talvez de traduzir – que se vê genuína nos rostos de quem está. Festivais como o MIMO unem as gentes. Há uma conexão entre as pessoas, e isso nota-se e é bom.

Na edição deste ano, a diversidade contou com artistas como o multi-premiado compositor e pianista Herbie Hancock (EUA), os tuaregues Tinariwen (Mali), Nação Zumbi (Brasil), Ala.Ni (Inglaterra), Richard Bona (Camarões) e Mandekan Cubano, Manuel Cruz (Portugal), Hamilton de Holanda e o já famoso Baile do Almeidinha, entre outros.

Todas essas andanças vieram a proporcionar à minha filha mais nova um encontro com o escritor Valter Hugo Mãe, graças à sua presença no festival. Porque esse sentido de união próprio do festival permite-nos encontrar e reencontrar pessoas que nos fazem bem e com quem queremos estar. E a Inês tinha esse sonho firme de conhecer o escritor que tanto admira, tão ligado ele também ao mundo, e ao Brasil com um carinho especial.

Não tenhamos dúvidas: o MIMO já é um festival do mundo!

segunda-feira, 17 de julho de 2017

... A CASA DA GRANJA VOLTOU A TER VIDA

A. PATRÍCIO

A tarde era de Verão e não podia estar mais convidativa.

Pelas dezassete horas meti pés-ao-caminho e lá fui até ao belíssimo mirante e velhinha Casa da Granja. Lá chegado, não descansei enquanto não corri todos os cantos movido por uma curiosidade, já de mim conhecida, bebendo surpresas em cada sala, descansando o olhar neste ou naquele pormenor ou lendo, muito devagar, os painéis contendo partes da história daquela Casa.

Por todo o lado pedaços de imaginação traziam-nos a uma realidade de eventos e iniciativas concebidas pelos jovens da MODAR.TE que, juntando Moda, Cultura e Arte, num só evento, criaram momentos especiais. 

No ar, ainda que difusa, sentia-se a presença de Amadeo quando, ali se deslocava, para visitar a sua tia e madrinha. A liberdade de movimentos era total e, aproveitando essa benesse, dei por mim a deambular, possuído de espanto, pela área circundante e lá fui encontrar a velha pedra-de-armas, orgulhosa da sua história, na fachada da capela que, outrora, teve como orago N.ª Srª. do Bom Sucesso, instituída que foi pelo Pe. António de Magalhães Machado corria o ano de 1865. De repente, pouso o olhar sobre uma coluna em granito ainda com base e capitel mas sem o coroamento que lhe completaria a história, sobressaindo no fuste duas argolas em ferro envelhecidas pelo tempo. Não resisti em abraçá-la tentando sentir o seu pulsar de tantas histórias e estórias na tentativa de ouvir um segredo - …eu sou o que resta do velho pelourinho de Amarante que, em tempos que já lá vão, estava no Largo da Ordem, hoje de S.tª Luzia e que os homens não souberam ou não quiseram conservar-me… - mas, o silêncio, manteve-se mudo e calado e o “milagre” não se consumou. Senti uma sensação agri-doce e o momento levou-me a pousar o olhar sobre um montão de pedras, jogadas a um canto, na tentativa de “ver” algo que trouxesse sossego ao meu devaneio elas que, também, têm muitas histórias para contar. 

Esta Casa da Granja, que se mostra às gentes desde o remoto séc. XVII, mantém a sua beleza apesar de todas as reconstruções e obras de conservação e restauro, como casa de habitação, acabando por ser sujeita, nos nossos dias, a obras de outra envergadura e passar a ser um “domicílio de cultura” em honrosa homenagem àquele que, nos dias que correm é um dos expoentes máximos da pintura – Amadeo.

Aos jovens da MODAR.TE que lhe abriram as portas, dando-lhe uma perspectiva de vida, com uma iniciativa mais que louvável trazendo aos amarantinos um evento cheio de cor, música, alegria, arte e moda, os meus parabéns.

Amarante continua a trilhar por caminhos de afirmação que esperamos sejam continuados num futuro de desenvolvimento e empreendedorismo.

Amarante e os amarantinos merecem este esforço e a tenaz persistência de quem vê Amarante com olhos de ver e se afirma pela positiva.

Bem-hajam jovens da MODAR.TE, todos estão de parabéns e, àqueles que vos ajudaram a levar a bom-porto esta iniciativa, o desejo de um continuar pois, Amarante, é Terra Mãe e agradece todos os nossos esforços.



Parabéns.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

AINDA SOBRE ILÍDIO SARDOEIRA



Publiquei, recentemente, neste jornal dois textos sobre o Dr. Ilídio Sardoeira e continuo a pesquisar informações acerca da sua vida e obra, nomeadamente nos jornais de Ponta Delgada, durante o período em que ele viveu em Ponta Delgada e lecionou na Escola Secundária Antero de Quental.

TEÓFILO BRAGA
Hoje, darei a conhecer um episódio ocorrido no funeral do prestigiado matemático Bento de Jesus Caraça (1901-1948) e algumas informações colhidas em edições antigas do Correio dos Açores.

Em junho de 1948, faleceu Bento de Jesus Caraça, grande vulto da ciência e cultura de Portugal que foi um destacado dirigente da oposição ao Estado Novo.

O seu funeral, realizado a 1 de julho, foi uma grande de manifestação de pesar pelo seu falecimento e de oposição ao governo do Dr. Oliveira Salazar, que nem depois de morto o deixou em paz. Naquele participou o Dr. Ilídio Sardoeira que ficou com a responsabilidade de fazer o seu elogio fúnebre.

A polícia política, que se infiltrou no meio de todos os antifascistas e amigos que quiseram prestar uma última homenagem a Bento de Jesus Caraças, impediu que o Dr. Ilídio Sardoeira usasse da palavra, acabando o texto do elogio fúnebre sido depositado na urna com o corpo.

Numa consulta aos jornais publicados em São Miguel, descobrimos que o Dr. Ilídio Sardoeira teve uma colaboração muito reduzida nos mesmos, que eram porta-vozes do regime salazarista como se poderá comprovar pelos artigos de opinião publicados e pela parcialidade com que foi tratada a campanha eleitoral para a presidência da república que colocou, em 1958, frente a frente os candidatos Américo Tomás e Humberto Delgado.

No ano referido, no Correio dos Açores, apenas encontramos um poema intitulado “Vale das Furnas”, dedicado à memória de Afonso Duarte, que abaixo se transcreve:

Um côncavo jardim de ramos nascentes
Com píncaros de assombro vigiando;
Um coração de fogo nas raízes
Primaveras de cor aos olhos dando.

Líquida maravilha de água e pedra
É uma concha, à noite, de levar …
Alto, o silêncio alegre das estrelas
Casa-se ao canto triste que é de mar.

Em 1989, a Escola Secundária Antero de Quental editou o conto “A Princesa, o Pastor e o Rei”, que havia sido publicado no jornal “Comércio do Porto, em 1969, onde Ilídio Sardoeira apresenta uma versão sobre a Lenda das Sete Cidades.

Como se pode ler na brochura, a iniciativa daquela escola foi uma “singela e justa HOMENAGEM da Escola Secundária Antero de Quental, onde foi PROFESSOR e fez discípulos, onde foi “SEMEADOR E SEMENTE”, semente que floriu pela força da amizade”.

A sessão de lançamento do livro ocorreu no dia 15 de novembro, na Biblioteca da Escola Secundária Antero de Quental, tendo a obra sida apresentada pelo Prof. Doutor José de Almeida Pavão que também foi docente daquele estabelecimento de ensino e amigo e admirador de Ilídio Sardoeira.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

JOÃO, O ROMEIRO DESCONFIADO

HÉLDER BARROS
Na aldeia, nos finais do mês de abril, pela década de setenta, começava um frenesim muito particular, nestas terras de entre douro e minho. O povo que costumava fazer a peregrinação anual a Fátima num ritual que, muita gente de então, iniciava fazendo preparação para a mesma. Primeiro, tratava-se de arranjar alguém que desse apoio de carro, ou, preferencialmente, de carrinha, aos diferentes grupos e/ou famílias. Uma ou duas carrinhas, quase sempre as típicas Bedford de caixa fechada, muito difundidas na época, eram uma preciosa ajuda para o transporte de carga e mantimentos suficientes para a viajem e um conforto para o descanso dos peregrinos, embora alguns ficassem ao relento, em locais cobertos, particulares ou públicos, tais como aquedutos, estações de camionagem, estações de serviço e por baixo de pontes, arrecadações e alpendres agrícolas com permissão dos respetivos donos, entre outros.

Entre estes, havia o João da Nora que, foi sempre um homem bastante preguiçoso, mas com proporcional quantidade de curiosidade. O avô dele tinha sido um dos peregrinos que, em outubro de 1917 na Cova da Iria, assistiu ao alegado milagre do sol. João passou a infância a ouvir relatos do avô sobre essa epifania. Considerou sempre aquela história pouco credível, mas viveu igualmente com aquele sentimento ambivalente de, simplesmente não acreditar, mas ao mesmo tempo, com a esperança remota de que qualquer coisa de sobrenatural pudesse acontecer. Andou de ano para ano, desde adolescente, com esta preguiça enturpecedora que se misturava com uma curiosidade quase doentia de saber se acontecia em Fátima algo de paranormal. Ademais, como era muito avarento, andava sempre a tentar saber qual era o grupo que levaria mais alimentos e que reuniria melhores condições para uma peregrinação o mais confortável possível e que fosse para ele mais proveitosa, monetariamente falando em termos de custos. Claro que, já todos na aldeia o conheciam e como se tornava chato por alturas da peregrinação à Cova da Iria, pelo que fugiam quanto podiam dele.

Por alturas dos quarenta anos, João andava desanimado com a vida. Nunca tinha casado, nem sequer namorado, graças à sua fama de avarento, de chato, de coscuvilheiro e de tudo o mais que corria na aldeia acerca dele. Então, depois de muito cismar uma noite, decidiu que iria empreender a grande aventura, nesse ano, em 1967. Sim, João Romeiro, ia acabar de vez com a sua curiosidade, ainda mais que Paulo VI viria a Fátima nesse ano, a sua curiosidade de experiências com o Sagrado estava ao rubro. Para João algo ia acontecer em Fátima, uma epifania, um crime, qualquer coisa de especial. Acreditava piamente no que lhe tinham contado numa feira de gado há uns anos: um dos segredos de Fátima que a Irmã Lúcia guardava, passaria pela morte de um Papa em Fátima e que Deus como castigo, iria despoletar o fim do mundo através do fogo. Dizia João que quando foi com Noé, o Mundo acabou pela água, agora Deus mudaria de sistema e queimaria tudo pelo fogo. Deus faria da terra um autentico inferno, para redimir os pecados dos homens, que foram de tal forma que, nem o seu representante na terra, o Papa, foi respeitado pela maldade dos homens, que derivaram para comportamentos desviantes e costumes mais conformes com as intenções do Demo que, com as Leis de Deus...

Chegou a data da partida, os peregrinos da aldeia iam caminhar durante cerca de oito dias, por etapas de distância máxima de 40 Km por dia. Ia ser uma semana dura, que apelava a todas as forças humanas, físicas e psicológicas, daquelas pessoas que iriam empreender tão nobre jornada. O João, no primeiro dia até Paredes, lá para os lados de Baltar, ainda se foi aguentando, mas na segunda etapa até Vila Nova de Gaia foi o bom e o bonito. Ele, preguiçoso como era, não realizou a preparação prévia, umas caminhadas que o grupo ia fazendo aos fins do dia e aos domingos, para preparar o corpo para tão grande esforço. O homem só chorava de dores de pernas e dos pés, com bolhas e a sangrar, de tal forma que, com pena dele a tia Arminda do Olival Velho, se ofereceu para lhe aquecer água e tratar das feridas dos pés. Como ele muito se lamentava, deu-lhe uma malga de caldo verde e fez-lhe um chã para ele dormir melhor. Mas, os dias seguintes foram penosos, o João não aguentava as dores e tinha que parar muitas vezes. O grupo foi sempre solidário com ele, os homens mais fortes até o chegaram a levar às costas, em alguns troços de estrada mais penosos, principalmente nas subidas. De resto, ia sempre amparado por uns dos homens mais pujantes do grupo.

Dia 11 de maio de 1967, uma quinta feira cinzenta e a ameaçar chuva que já os tinha encharcado várias vezes pelo caminho, obrigando-os a embrulharem-se em plásticos, chega o grupo à Cova da Iria, Santuário de Fátima, totalmente invadido por peregrinos que eram originários de todos os lados do País e estrangeiro. João deitou-se no chão a chorar, os colegas ajoelharam-se, todos sentiram a enorme emoção do dever cumprido, choravam como crianças. Armando das Cortes, o mais experiente e líder deste grupo, abraçou-se a João e disse-lhe, repetidamente: “Vês Homem de Deus o que vale a Fé!!! Alguma vez te tinhas sentido assim, tão rico e tão pobre, tão alegre e tão triste, tão grande e tão pequeno; é isto a Fé, eis o milagre que já sentiste e que sentimos todos, uns de uma forma, outros de outra, mas jamais esqueceremos esta experiência individual e coletiva…” 

Claro está que, foram umas cerimónias espetaculares, ainda para mais coincidindo com a visita a Portugal do Papa Paulo VI e nas cerimónias dos cinquenta anos das aparições, tudo encantou João. Parecia-lhe que, naqueles dias, tinha vivido pela vida toda. De certa forma, encontrou o segredo da vida, pelo menos para si. O João mudou, a prova de solidariedade que o grupo lhe prestou, em circunstâncias tão difíceis, foi decisiva para libertar um homem que só vivia de intriga, de avareza, sem Fé em si próprio e em qualquer religião. Tratava-se de um homem vazio, pior que isso, um homem que não acrescentava nada a ninguém nas relações humanas, o seu verdadeiro desígnio era a inveja, esse sentimento ignóbil que assola a humanidade em grande escala. Entretanto, na peregrinação tornou-se próximo da Rita do Vale, uma solteirona da aldeia, boa rapariga e plena de virtudes. Casaram e tiveram gémeos, dois herdeiros cheios de saúde e de encanto, o verdadeiro orgulho daquele casal, outro milagre que os abençoou.

Em suma, numa peregrinação, assim como na vida em geral, não importa se somos católicos, budistas, islamitas, agnósticos, ateus… o que conta é aquele momento da chegada a um qualquer destino traçado, com uma intenção do Bem... uma descoberta interior, o Amor que sentimos e que podemos partilhar. Só faz sentido acreditar em projetos de Amor, não patrocinemos, crenças baseadas no ódio e da morte… isto tudo a propósito da recente vinda do Papa Francisco I a Fátima e do abominável ataque terrorista em Manchester...

quinta-feira, 27 de abril de 2017

ADELINA, A BRUXA

HÉLDER BARROS
Bem sei que o termo feiticeira fica muito melhor, sendo até literáriamente mais sedutor, mas nas nossas aldeias de Entre Douro e Minho, pelos anos oitenta e noventa do século passado, o termo era mesmo: “bruxa”. Em quase todas as aldeias, havia uma mulher, predominantemente, estes seres estranhos, com poderes do Além, eram do sexo feminino e de meia idade, com um putativo dom: tinham a “morada aberta”, como se costumava dizer. Qualquer mal de amor, de dinheiro, invejas, doenças, era passível de ser resolvido por Lina, a bruxa local. Estes seres que vestiam o papel destas personagens, tinham características muito próprias, idiossincrasias singulares. Deveriam, preferencialmente, ser pessoas muito curiosas, conhecer muita gente, ter uma vasta rede de contatos, de relacionamento fácil e espontâneo. Existia algo de comercial naquele mister, como se costuma dizer, era preciso muita lábia, dotes quase que de encenação teatral, para compor tão complexa figura.

Certo dia, um lavrador da freguesia começou a ter problemas com o seu gado, que ele tão zelosamente cuidava e estimava. Começou por lhe morrer o porco de criação, um mês depois morreu uma vaca leiteira bastante produtiva, passado uma semana deu uma desinteria tal aos coelhos, que foram cerca de vinte à vida. A seguir foram os frangos, galos e galinhas que começaram a tombar como tordos. Tónio das Bouças, como era conhecido localmente, andava triste como a noite, muito abatido e calado. Começou a ver a sua vida a andar para trás, o gado era muito importante para a sua economia familiar, fundamental no sustento da sua família, que estranha maldição o teria atingido, dizia para os seus botões; a sua vida ia de mal a pior. Tónio, não tinha motivos para sorrir, nem para andar de cabeça levantada, a sua vida estava na lama, num estado de desesperança tal que, nada o conseguia animar. 

Num dado domingo, foi à missa e todos os amigos lavradores o tentaram animar, pois já constava na freguesia o infortúnio que tinha assolado a vida de Tónio. Um primo que estava mais afastado do ajuntamento, o Zé do Alto Seco, chamou-o à parte onde se encontrava também a sua senhora: “Tónio tu estás com mal de inveja, alguém te deitou olho gordo, acredita no que te digo”. Então, num tom muito sério, a mulher, a Milinha do Alto Seco, acrescentou: “Oh primo você não devia estar a partilhar o seu azar com essa malta, sabe lá se não foi um deles que lhe rogou a praga”. O Tónio continuou a escutar, entre um sentimento de espanto, de mistério e de medo e, de repente, retorquiu: “Oh prima mas isso é possível, assim só com um olhar, dar cabo da vida de um homem…”. A Milinha riu-se e desafiou-o logo de seguida: “Nós vamos levá-lo a um sítio onde vai ficar a saber tudo e como vai poder resolver isso, são coisas do tinhoso”, finalizou ela, a inveja aqui é muita. Assim depois de combinarem tudo, foram, passados três dias a um local ermo na freguesia vizinha, a casa de Adelina a Bruxa, onde chegaram já de noite, era inverno e escuro, um local mesmo inóspito e assustador.

Não foram o primeiro casal a chegar, aguardaram numa sala escura, com pouca luz, tal como a casa toda, esperando com angustia a sua vez. À frente dele estava um casal com uma filha adolescente, com umas grandes olheiras na sua cara pálida, como as casas caiadas, que tinha supostamente, incorporado o demo, segundo os pais estavam a contar a outro casal. Tinha ataques brutais, convulsões, esperneava-se, urinava-se, vomitava, até a sua voz mudar e começar o tinhoso a falar por ela. Era verdadeiramente possuída por um espírito do mal, que incorporava naquele ser frágil, manifestando toda a sua fúria e maldade naquela rapariga escanzelada e enfraquecida. Os pais correram os médicos todos, foi-lhe diagnosticada uma epilepsia. Mas com os medicamentos foi sempre piorando, só a Adelina lhe conseguiu dar algum sossego, com as suas sessões de pseudo-espiritismo. No atendimento a Tónio, na parte da tal incorporação de espírito, a Adelina corada e a falar com uma voz estranha concluiu que um vizinho o invejava muito e que teria que realizar determinados procedimentos, para reverter a sua sorte. Em transe, Adelina repetiu muitas vezes a seguinte lenga lenga: “vai-te espírito da inveja, nas alminhas arderá o teu mal para que se veja”.

Assim, o Tónio teve que levar um coração de cada tipo de animal que morreu e colocá-los com velas a arder, nas alminhas da estrada nova. Segundo Arminda, tal iria livrar o Tónio da má sorte e passar a maldição para quem a lançou previamente. Era noite escura, o Tónio saiu com as amostras de carne e levou-as às alminhas, colocando as velas a arder. Um espetáculo tenebroso e diabólico que assustou os poucos vizinhos e as pessoas que por ali passaram altas horas da madrugada, que conseguiam assistir aquele fogo intrigante e sinistro, uma cena do Inferno, dantesca. O lume iluminava a cruz das alminhas, provocando um efeito bastante perturbador. Passaram uns meses e a vida de Tónio regressou, paulatinamente, à normalidade, os seus animais deixaram de morrer e a sua vida começou a prosperar como nunca… houve um lavrador vizinho que, ao que constou na aldeia, começou a ter problemas com o seu gado, assim de repente… do nada!

Foi conhecido também, o caso de uma jovem que, ao que parece, gostava muito de um rapaz e que estariam já até com planos de constituir família, de se casarem. Inopinadamente, o rapaz deixou a rapariga e fugiu com uma amiga da namorada, a Rita da Eira Velha. Os primeiros eram a Teresa do Alto e o Joaquim da Presa. A Teresa entrou num estado depressivo de tal forma que não falava com ninguém, não conseguia dormir, não tocava em comida e passava os dias prostrada numa tristeza que a invadiu, até às profundezas da sua alma. Os seus pais, o Manel e a Maria do Alto, não sabiam o que mais fazer para aliviar o sofrimento da sua filha, pois esta não respondia a qualquer estimulo exterior. Teresa passou a viver num estado de torpor e com uma astenia angustiante. Parecia que viver já não fazia sentido, morrer seria a única saída deste malogro em que a sua vida se tornou, desaparecer do mundo dos vivos era quase que uma libertação para aquela Alma sofredora.

Os seus pais, muito católicos, estavam relutantes em socorrerem-se dos serviços espirituais de Arminda, mas perante o crescente definhar da sua filha, foram à casa desta, numa tentativa desesperada de resolverem os seus problemas. Adelina, ouviu a história e rapidamente concluiu que fizeram um serviço ao Joaquim, de tal forma que este transferiu todo o interesse e amor que tinha por Teresa, para a Rita de Eira Velha. Entrou novamente em transe e mudando o seu registo de voz, para algo mais diabólico, repetiu várias vezes a seguinte cantilena: “Mau serviço embruxado carrega o coração do Quim para este lado!”. A tarefa a desenvolver a seguir seria arranjar um coração de um jovem recentemente morto, espetar-lhe vários alfinetes e colocá-lo em frente ao quarto da Rita de Eira Velha, durante uma noite, com velas a arder rodeando o sinistro objeto de uma espécie de ritual quase… satánico. Decorreu um mês, morre na aldeia um rapaz de vinte e poucos anos que teve a infelicidade de cair numa obra onde trabalhava, e, passados poucos dias das suas cerimónias fúnebres, o Manuel e a Maria do Alto, pediram ajuda a alguns familiares para profanar e o túmulo e retirar o coração ao morto. Num espetáculo digno de um filme de terror, lá foram com candeias iluminadas, no escuro da noite, começaram a cavar e, finalmente, retiraram o coração ao rapaz. No entanto, na penumbra da noite, facilmente foram avistados pelos casais mais próximos, que vieram com enxadas e forquilhas e correram em direção aos profanadores e lhes atiraram pedras, agrediram à varada e sacholada. O coração foi recuperado e os primeiros, além de ficarem maltratados, foram censurados, enxovalhados e humilhados por toda a freguesia, durante muitos anos. A Teresa continuou doente até morrer precocemente, enforcou-se na adega dos pais, provavelmente com uma depressão que nunca foi diagnosticada, quanto mais tratada… Esta realidade foi muito comum nos meios rurais, nas décadas de oitenta e noventa do século passado. Era normal assistir a grandes concentrações de automóveis em frente das casas destas curandeiras rurais, foi uma altura de grande atividade, não diria espiritual, porque isso é uma verdadeira ofensa ao verdadeiro Espiritismo, que respeito; mas antes de charlatanice espiritual… fizeram-se autenticas fortunas, à custa do infortúnio de muita gente humilde e de boa fé. E foi um fenómeno verdadeiramente transversal e interclassista, pois atravessava todas as classes sociais. Para cumulo, alguns padres da igreja católica entravam em encenações de cerimoniais de falsos exorcismos, quando as pessoas estavam era gravemente doentes e frágeis a nível mental. Afinal, era fácil ver um demónio num doente com convulsões e ataques de pânico. Perguntar a um esquizofrénico que, não se tratava, se falava com o diabo, ou com os demónios, era muito provável ter um feedback positivo. Achava piada, designadamente, quando ouvia dizer que uma verdadeira bruxa não levava dinheiro, dado que, no final, contas bem feitas, as pessoas deixavam muitas centenas de contos em oferendas e donativos monetários, ficando, muitas vezes, completamente arruinadas… no entanto, ainda bem que, por crença ou pelos mistérios insondáveis da nossa mente, muita gente se sentiu curada por estes processos, no mínimo, de dúbia intenção…»

quinta-feira, 20 de abril de 2017

ILÍDIO SARDOEIRA, O PROFESSOR


“ (…) Corri os riscos de haver sido professor durante quase meio século. Se pudesse recomeçar a minha vida, professor me queria, nessa aventura, entre afetiva e criativa que é aprender ensinando.” (Ilídio Sardoeira)

TEÓFILO BRAGA
Em texto anterior, publicado no passado dia 4 de abril, dei a conhecer um pouco da vida e da obra do Dr. Ilídio Sardinheira, distinto professor da hoje denominada Escola Secundária Antero de Quental.

No mencionado texto, inseri o depoimento de dois dos seus alunos, o Doutor José Medeiros Ferreira e o Doutor João Vasconcelos Costa, que a ele se referiram em termos elogiosos. Hoje, antes de escrever um pouco sobre o seu pensamento enquanto professor, divulgo o depoimento do escritor picopedrense Cristóvão de Aguiar que no seu livro “Relação de Bordo, escreveu: “Ilídio Sardoeira era poeta e um grande “devoto” de Teixeira de Pascoais, que nos deu a conhecer no quinto ano do Liceu, levando-nos poemas do Poeta de Marânus, nas aulas de Ciências Naturais…Que belo que isto é! E que ventura é ter bons mestres na quadra genuína da vida…”

Depois de escrever que o Dr. Ilídio Sardoeira era “professor de Ciências Naturais e de sonho e de poesia, ou de tudo junto”, Cristóvão de Aguiar dá a conhecer o que pensava o mestre sobre o ofício de ensinar: “Um professor é um semeador. Não sabe quais as sementes que realmente ficam, mas não ignora que ele mesmo é uma parte da semente. É semeador e semente”.

De acordo com João Manuel Ribeiro, autor do livro “Ilídio Sardinheira: o caçador de madrugadas”, publicado em 2016, o Dr. Ilídio Sardinheira teve uma vida dedicada ao ensino, tendo lecionado “primeiro no Colégio de S. Gonçalo de Amarante durante quatro anos; depois, no Liceu Normal de Pedro Nunes, em Lisboa, onde fez o seu estágio de habilitação para a docência; finalmente, em muitos lugares do país: Évora, Figueira da Foz, Braga, Porto (Liceu D. Manuel II), Ponta Delgada (Liceu Antero de Quental), Viseu e Vila Nova de Gaia.”.

Como tive a oportunidade de conhecer através dos depoimentos dos seus alunos, o Dr. Ilídio Sardoeira estava longe de ser um professor tradicional, agarrado aos manuais, seguidor do conhecimento espartilhado pelas áreas de ciências e de letras e preso no interior das quatro paredes de uma sala de aula.

Sobre o ensino confinado à sala de aula, João Manuel Ribeiro, no livro citado, escreve que Ilídio Sardoeira “não queria que a escola fosse uma prisão para crianças onde se aprende amarrado às carteiras, ou um canteiro de plantas floridas cercado de arame farpado!”

Para se conhecer o pensamento do Dr. Ilídio Sardoeira sobre o ensino é importante a leitura do seu discurso proferido na Assembleia Constituinte, publicado no Diário da Assembleia Constituinte nº 118 de 12/03/1976. Dada a extensão do mesmo, apenas referirei algumas ideias chave, as quais ainda hoje não perderam atualidade.

Ao contrário do que pensam alguns, os problemas do ensino e os da sociedade não se resolvem na escola. Ilídio Sardoeira corrobora esta afirmação quando afirmou no discurso mencionado que: “os problemas centrais da degradação do ensino permanecem. São problemas, em grande medida, de raiz socioeconómica. Ao cabo e ao resto problemas que têm de encontrar primeiro as soluções políticas adequadas ao mundo dos adultos”.

Sobre a Escola, Ilídio Sardoeira, acrescentou que era “o espelho da sociedade; esta não transforma aquela, reprodu-la” e acrescentou: “Somos nós, os adultos, os responsáveis pelos fracassos escolares porque não temos a coragem de modificar radicalmente as condições, as contradições da sociedade portuguesa porque nos empenhamos em manter uma sociedade estratificada, caduca, per omnia secula seculorum, não é assim? E queremos depois que a escola resolva problemas que não tivemos a coragem de resolver nas ruas.”


Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 31209, 19 de abril de 2017, p. 17)

quarta-feira, 5 de abril de 2017

ILÍDIO SARDOEIRA, UM PROFESSOR DISTINTO DE PONTA DELGADA

“Não sei coisas difíceis 
Nem as faço nos versos, com palavras. 
Difícil é ser simples
E é vestir as coisas de tal jeito
Que quem as veja, julgue que são nuas.”
(Ilídio Sardoeira)

CRÓNICA DE
TEÓFILO BRAGA
Ilídio Ribeiro Sardoeira nasceu na freguesia de Canadelo, no concelho de Amarante, no dia 12 de novembro de 1915 e faleceu em Vila Nova de Gaia no dia 28 de novembro de 1987.

Licenciado em Ciências Biológicas, foi professor de Biologia, ensaísta, poeta, pedagogo, professor metodólogo e, a seguir ao 25 de abril de 1974, inspetor-orientador. Foi assistente da Universidade do Porto, tendo sido demitido pelo regime salazarista.

Depois do 25 de abril, teve alguma participação política, tendo sido Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Amarante e deputado à Assembleia Constituinte pelo MDP/CDE.

Para além do mencionado nos parágrafos anteriores, Ilídio Sardoeira, também, se dedicou ao jornalismo, tendo sido diretor da “Voz do Marão” e de “Alma Nova” e colaborou com outras publicações com destaque para as revistas "Vértice", "Seara Nova", "Labor", "Lusíada" e "Átomo".

Foi autor de muitos livros, de que destacamos, a título de exemplo, os seguintes: "A minha Aldeia", "Pascoaes - um Poeta de sempre", "Provas", "História do Sangue"", "Nota à margem de dois livros", "Influências do Principio da Incerteza no Pensamento de Pascoaes", “O vulcão dos Capelinhos: alguns aspetos humanos” e “ A origem da Vida”.

O livro “A origem da vida”, que ainda hoje é possível adquirir em alfarrabistas ou através da internet, foi um dos que foi publicado pela Biblioteca Cosmos que foi dirigida pelo insigne matemático Bento Jesus Caraça e tal como os restantes da coleção teve a pretensão de “contribuir para a expansão da cultura científica em Portugal”, inscrevendo-se “numa matriz ideológica de feição dita progressista, com evidentes laivos de utopia”. Para além de Ilídio Sardoeira colaboraram com a Biblioteca Cosmos vários vultos da cultura científica internacional e portuguesa. Dos portugueses, destacamos, entre outros, o médico Abel Salazar, o pensador e pedagogo António Sérgio, o professor e político Henrique de Barros, o matemático Rui Luís Gomes e o professor, pedagogo e poeta Rómulo de Carvalho (António Gedeão).

Como já escrevemos, Ilídio Sardoeira colaborou na revista Vértice, surgida em Coimbra em 1942, tanto antes como depois do 25 de abril de 1974, sendo o seu nome incluído, por Armando de Castro, no dos autores “que se reclamam do marxismo ou que no campo estético eram por ele influenciados. Entre os citados, mencionamos os seguintes: Joaquim Namorado (poeta), Mário Dionísio (professor, escritor e pintor), Mário Sacramento (médico e escritor), António José Saraiva (professor e historiador de literatura portuguesa), Fernando Lopes-Graça (maestro e compositor), Flausino Torres (historiador), e A. J. Avelãs Nunes (professor de Direito).

Com a promessa de que voltaremos a escrever sobre o professor Ilídio Sardoeira, deixamos a opinião de dois alunos seus:

“…era um homem culto – dava umas aulas de Ciências Naturais espantosas e também nos encorajava em atividades «circum-escolares», como as do círculo cultural” (José Medeiros Ferreira)

“Como professor de ciências naturais, dava muito mais importância à prática, incutindo-nos o gosto pela observação e pela limitada experimentação para que tinha magros recursos. Boa parte das nossas aulas era de campo, muitas vezes ao fim de semana, calcorreando a ilha em cata de exemplares da flora e da fauna típicas da Macaronésia. A matéria do programa que a estudássemos no livro, que era para isso que o tínhamos, compensando esse estudo pessoal com uma ou outra sessão de "tirar dúvidas". Mas muito mais lhe devemos, eu e os meus colegas, de que aqui ficam só alguns exemplos: as aulas teóricas em que se tratavam de todos os assuntos menos ciências naturais, fosse a poesia de Pascoais, as ideias essenciais da teoria da relatividade, os perigos da guerra nuclear, a vida e obra de Ghandi, eu sei lá que mais.” (João Vasconcelos Costa)

(Correio dos Açores, 31198, 5 de abril de 2017, p. 14)

COISAS DO PASSADO

MIGUEL TEIXEIRA
Testemunho inédito sobre três figuras típicas de Cabeceiras de Basto

Reproduzo para os leitores da "Bird Magazine" um excecional apontamento de opinião da autoria do saudoso escritor local Mamede Mendes, que nunca chegou a ser publicado sobre três figuras típicas de Cabeceiras de Basto e que o autor confiou ao meu pai e seu amigo Gaspar Teixeira, poucos meses antes de deixar este mundo.

A opinião expressa neste artigo sobre o "João de Pedraça", o "Pimenta engraxador" e o "Zé da Carrapata", é um belo texto, de um humanismo tocante, que recria a memória histórica de três personagens da nossa terra, daquelas que "povoam" o espírito dos que os conheceram e com eles privaram e é reveladora da singular veia literária do Senhor Mamede, como "contador de histórias". 

"Coisas do passado"

Por Mamede Mendes
As últimas criaturas típicas que viveram e andaram por estes sítios foram o "João de Pedraça", o "Pimenta engraxador" e o Zé da Carrapata, qual delas a que possuia maior originalidade, caraterizada pelas suas figuras singulares e inconfundíveis, conforme fotografias no final.
O "João de Pedraça" não teve o consolo de conhecer a mãe, não chegando por isso a ter os seus afetos e carinhos. Sofria de epilepsia, doença que lhe originava, de quando em vez perder os sentidos, caindo ao chão como morto. Gostava, contudo, de vinho e outras bebidas espirituosas, que em muito contribuiam para acelerar mais os seus padecimentos. Por vezes sentia enormes dores de cabeça, pedindo para lhe atarem na testa uma ligadura ou pano, envolvidos em vinagre, a fim de atenuar essas dores. Às senhoras que generosamente o amparavam, chamava-lhes com imensa ternura "Minha querida mãe ".
O Borges, carregador da "viação automotora", quando o seu estado de embriaguez era total, transportava-o na sua carreta para o Largo da Raposeira, onde geralmente pernoitava...
Assim, errando durante anos por toda a vila, de todos conhecido, foi amargamente vivendo até ao dia em que as autoridades conseguiram o seu internamento em Barcelos, na Casa de Saúde.
Aqui, porém não aguentou muito tempo, visto a sua moléstia não lho ter permitido, acabando por falecer.
O "Pimenta engraxador" vivia com a mãe, numa das barracas pertencentes ao Sr. Jerónimo, no Campo do Seco. Na sua humilde profissão foi um exímio engraxador. Engraxou a maior parte dos habitantes da vila e alguns forasteiros. Colocava primeiramente a tinta nas bordeduras dos sapatos, que espalhava com as escovas. De seguida, punha a pomada escovando fortemente os mesmos, a fim de lhes dar lustro. Por fim, com um pano bem esticado, seguro entre as mãos, que fazia deslizar pelos sapatos até estes brilharem, ouvindo-se ao mesmo tempo uns pequenos estalos que o pano ia dando, concluía o seu trabalho.
Enquanto a mãe, que muito estimava, foi viva, o Pimenta andou menos mal, trajava roupas usadas, mas bem lavadinhas, sempre muito limpo, com o almoço e a ceia a horas. Após isso, a coisa desandou, viu-se sem qualquer amparo, esperando unicamente pela caridade dos outros, começou a beber sem regra, a viver uma vida de "vagabundo". Dormia dentro da carcaça de um velho automóvel abandonado debaixo dos "chorões" , na Praça da República. Nunca mais foi o mesmo. 
Contudo, e após esta vida atormentada, teve a sorte de ser internado no Lar da Santa Casa da Misericórdia, passando aqui os últimos tempos da sua vida, recebendo o carinho de que tanto necessitava, até ao momento em que se extinguiu, morrendo na paz do senhor.

O "Zé da Carrapata", assim era conhecido por ser natural e viver no lugar com este nome, da freguesia de Pedraça.
Tinha uma cara patusca, andava andrajosamente vestido, descalço, calças arregaçadas, parecendo um saltimbanco. De quando em quando, vinha a pé a Cabeceiras, ao Arco de Baúlhe e Cavez. Pedia nestes sítios esmolas, mas não aceitava tostões, somente se acomodava com a "coroa branca", como ele dizia, ou seja, a moeda branca de cinquenta centavos, vulgarmente conhecida por "Croa".
Quando alguém lhe dava a tal "Croa" ficava delirante, numa alegria imensa, parecia até que os olhos, que mal se viam, se riam. Não se metia com ninguém, nem tinha o vício de dizer palavrões. Vivia uma vida de mendigo , sendo querido por todos, dada a sua ingenuidade. Não durou muitos anos, pois morreu relativamente novo. Eis pois, resumidamente a lembrança que tenho destas três personagens.
Cá estão eles.

sábado, 1 de abril de 2017

TRIÉNIO PASCOALINO (2014/015/017)

TEIXEIRA DE PASCOAES
CRÓNICA DE ANTÓNIO PATRÍCIO
Se houve alguém que amou a sua Terra de uma forma universal e “quase” transcendente foi Teixeira de Pascoaes. Portanto, merece, por direito, ser recordado, revisitado, estudado, reencontrado e, por que não dizê-lo, elevado ao pedestal supremo da cultura e do pensamento. Pascoaes, o poeta da saudade, da paisagem, das biografias dos santos e dos heróis, do pensamento português da universalidade do homem e de outros escritos onde a transcendência do Ser levaram e levam alguns estudiosos a apelidá-lo de “Mestre espiritual” esteve em Amarante em toda a sua plenitude.

Pascoaes, como ninguém, soube cantar Deus e o Diabo, o rio e as serras, a terra e o céu, o homem e o Ser.

Amarante soube viver, de novo, Teixeira de Pascoaes e, se em tempos ainda não tão distantes quanto isso, houve uma geração que soube colocar Pascoaes entre os maiores, nos tempos que correm emerge todo um conjunto de especialistas, estudiosos e pensadores de renome que, se esforçam por manter e garantir que este nosso grande Poeta continue a ser lido, estudado, pensado e compreendido em todo o seu legado não só no presente mas, acima de tudo, no futuro.

É imperativo que a semente humana, filosófica, religiosa do Poeta prodigioso do Marão continue a ser lançada à Terra por forma a germinar em toda a sua beleza e pujança. Foi, aliás, o que fez Sofia Carvalho, apaixonada por Pascoaes desde os bancos da escola, ao organizar e promover este “Triénio Pascoalino” que tanto enobrece Amarante, as suas Gentes e Portugal.

Sofia Carvalho soube e sabe ouvir e sentir Pascoaes e, auxiliando-se da vontade do Município de Amarante em levar as pessoas a conhecer cada vez mais e melhor o seu Poeta, agendou e bem a terceira parte do Congresso para a Terra que o viu nascer, viver e morrer e que, orgulhosamente, guarda o seu legado físico, espiritual e material. 

Um bem-haja ao município de Amarante na pessoa do seu Presidente Dr. José Luís Gaspar; um reconhecimento, como amarantino e apaixonado por Pascoaes, a Sofia Carvalho e a todos quantos tiveram e tomaram parte activa neste Congresso que pôs portugueses, espanhóis, italianos e brasileiros, de mãos-dadas, a falar, sentir e viver Pascoaes.

Foram cinco dias de intensa actividade física e intelectual, durante os quais, Amarante esteve à altura das mais prestigiadas e cultas cidades, não só, da Europa como do Mundo.

Parabéns, Pascoaes merece.    

sexta-feira, 24 de março de 2017

A ESTRANHA MORTE DO PADRE OLÍMPIO

JOAQUIM DA SILVA GOMES
Irei recordar um episódio que ocorreu na nossa região, passam agora 90 anos. 

Eram, na altura, os últimos dias do mês de dezembro de 1926 quando, em Braga, surgiu a notícia que o padre Olímpio tinha desaparecido. Preocupados, as pessoas de Braga, Guimarães e Fafe tentavam, aos poucos, saber qual o paradeiro desse padre, tal era a admiração que este tinha nestas três localidades. 

O mistério ficou parcialmente desfeito no dia 19 de dezembro de 1926, quando o padre Olímpio apareceu num quarto próximo do Convento de S. Domingos, em Guimarães. Foi encontrado pendurado por uma corda atada ao pescoço, pálido, com uns olhos semiabertos, a língua a mostrar-se por entre uma boca quase fechada e com um rosto sereno. Estava vestido com a tradicional batina!

O relato desta situação depressa ultrapassou as fronteiras de Guimarães, onde estava colocado na paróquia de S. Paio, chegou à sua freguesia de naturalidade, Travassós – Fafe, e também a Braga, onde era muito admirado e respeitado.

Afinal, quem era este mediático padre Olímpio, que apareceu morto em circunstâncias estranhas?

O padre Olímpio Rebelo nasceu em Travassós – Fafe, em 1902. Muito novo veio para Braga, onde frequentou o Seminário. Aqui ficou conhecido pela sua invulgar dinâmica: pertenceu à Juventude Católica, foi um dos fundadores da Juventude Católica de Travassós e era, à data da sua morte, diretor da Alcateia de Lobitos do Corpo Nacional de Escutas, em Guimarães. 

Em 1924, com apenas 22 anos, foi ordenado sacerdote e enviado para Travassós, sua freguesia de naturalidade. Contudo, passado pouco tempo, a Arquidiocese de Braga resolveu enviá-lo para a freguesia de S. Paio, em Guimarães. Nessa freguesia, em poucos meses obteve o reconhecimento e a admiração de todos os paroquianos, quer pela sua juventude, quer pelo seu bom caráter e pela sua amabilidade. Era um padre moderno, para a época.

Na semana anterior ao Natal de 1926 o padre Olímpio resolveu fazer umas compras, para levar à sua família de Travassós, com quem iria passar a quadra natalícia. Para isso, deslocou-se a uma casa comercial, onde pretendia comprar aquilo que julgava mais necessários para o Natal dos seus familiares. Foi então que, desde essa final de tarde, deixou de ser visto, quer pelos seus paroquianos, quer pelos seus amigos. 

Na ocasião, alguns vizinhos do padre Olímpio afirmaram tê-lo visto com um homem estranho, vestido com uma capa à alentejana. Foi então que se deslocaram a uma casa próxima da residência paroquial, em S. Paio, e, pelas 11 horas do dia 19 de dezembro, depararam-se com o triste espectáculo já descrito, ou seja, o padre Olímpio, já cadáver, pendurado por uma corda ao pescoço!

Perante este cenário, de imediato surgiu a hipótese de suicídio, que foi, no entanto, colocada de parte por todos os que conheciam o padre Olímpio. E a recusa da tese de suicídio baseava-se na alegria que o padre demonstrava, na solidariedade que revelava, na competência que detinha e no desejo de servir, sempre e cada vez mais e melhor, os seus semelhantes. Por isso, a tese de assassínio foi de imediato colocada como a mais provável. Contudo, esta era uma hipótese que admirava os seus amigos e familiares, uma vez que não se reconheciam inimigos ao padre Olímpio! 

Como é natural nestes casos, as forças policiais e as autoridades judiciais tomaram conta deste estranho caso, que se prolongou no tempo, acabando, no entanto, por entrar numa fase de esquecimento, sem existirem ilações claras acerca do que realmente tinha acontecido ao jovem e mediático padre Olímpio.

quinta-feira, 23 de março de 2017

ADÃO CAMPOS: UMA BIBLIOTECA, UM LUGAR DE AFECTOS!

ANABELA BORGES
Escrevo esta crónica no dia 22 de Março (2017). As emoções do dia anterior latejam ainda muito à flor da pele.

Lá fora, o mundo continua aquele lugar, a um tempo, belo, terrível e inquietante. E, por acaso, está um dia agreste, pesaroso, carregado de ventos gélidos e tempestades.

Ontem foi um daqueles dias em que os afectos – esses lugares de abrigo e afago – fazem o tempo parar. O tempo parou, na biblioteca – esse outro lugar de refúgio e desvelo da alma. E foi na escola.

A escola é o lugar de todos os afectos. Não há educação nem cultura sem afectos. Na escola, é possível encontrar e conjugar todos os afectos, em todas as pessoas, géneros, números e graus.

Celebrou-se a POESIA e sagrou-se o dia ao saudoso professor bibliotecário ADÃO CAMPOS (1964-2016), um ano após a sua partida. Pai, professor, amigo, colega, irmão, filho, tio: são muitas as relações que estão em causa quando alguém deixa este mundo físico para habitar outras alas, longe do alcance do nosso entendimento.

MURAL DE HOMENAGEM 
Muito tempo será necessário para que eu (e creio que o mesmo acontece convosco) me capacite, no meu mais íntimo discernimento, de que aquela pessoa não mais estará presente, in corpore, nos lugares que antes habitava. Para mim, é como que esteja ainda. E na HOMENAGEM que ontem, por entre lágrimas, canções, poemas, música, lhe prestámos, ele estava mais do que presente. Foi possível sentir o seu espírito sereno e o seu sorriso.

Eu creio que os homens bons têm uma simplicidade muito sua, e, ao mesmo tempo, guardam uma carga de mistério que nunca saberemos decifrar. Sempre me pareceu que havia no Adão um entendimento muito próprio do mundo, quase impossível de ser explicado ou discutido. Assim, os seus relacionamentos pairavam muito nas coisas mais simples e belas, nos sorrisos e ações e (quase sempre) em parcas palavras proferidas, entre as muitas lidas nos livros. Volto, neste ponto, a referir que não há cultura sem afectos. Não há, por isso – tal como facilmente se percebia nos contactos mais próximos com o Adão –, salvação possível sem humanidade. Algo do género se depreendia do seu entendimento: apenas a nossa humanidade nos pode salvar (como a Literatura, afinal!).

Ontem, portanto, meu caro amigo Adão, celebrámos a vida, num mar de afectos, pondo a nu a nossa humanidade, dando as mãos – professores, alunos e família – e partilhando memórias e lágrimas de saudade.



O mundo – esse lugar, a um tempo, belo, terrível e inquietante – hoje, dia 22 de Março, traz-nos mais um horror do que é (a falta de) humanidade; hoje traz-nos notícias de horror, terrorismo, guerra, maldade. Hoje estamos mais tristes com os maus acontecimentos do dia, e tu estarás mais triste também, meu amigo, como quando, a propósito de um terror parecido com o que hoje aconteceu em Londres, escreveste no FaceMuro da biblioteca: «O peso do nosso silêncio tem de ser o grito contra este terror surdo e irracional». 

E esse grito ficou vivo em nós, como um eco.



Olá. Espero que te encontres bem, aí onde estás, porque aqui continuas a estar, continuamos a sentir-te aqui presente. Trago-te uma mensagem. De Álvaro de Campos para Adão Campos:

“Ah, comandante, quanto tarda ainda

A partida do transatlântico?

Faz tocar a banda de bordo —

Músicas alegres, banais, humanas, como a vida —

Faz partir, que eu quero partir...” *



Ontem foi um dia forte em emoções, pleno de humanidade. A vida é essa viagem. Façamo-la de humanidade!



Os dias chegam ao fim, mesmo que, por momentos, tenha havido paragens no tempo – como ontem, na tua linda festa; mesmo que nos pareça que não avança; que tenhamos a sensação de que não passamos de seres frágeis e incrédulos, a viver a mentira da tua partida.

Então, tal como nos outros dias, nos fins de tarde em que apago as luzes e fecho a porta da biblioteca, digo-te, Adão, “Até amanhã”.



*In, CAMPOS, Álvaro, “Meu amor perdido, não te choro mais, que eu não te perdi!” (excerto).