sexta-feira, 15 de maio de 2015

CONSTANÇA, A GRANDE TANSA

GABRIEL VILAS BOAS
Há vinte anos, ouvi Mário Soares dizer, perante um auditório de estudantes universitários, que um facto só existe quando passa a ser noticiado. Entretanto o mundo da comunicação evoluiu e hoje todos sabem que os acontecimentos sociais só ganham dimensão para repararmos neles quando se tornam virais no facebook. Ora toda a gente sabe que os vírus nunca espalham boas notícias. 

Mais uma vez marcando a espuma dos dias, um vídeo colocado esta semana na rede social mais usada do planeta pôs a população portuguesa a discutir novamente o bullying e a chocante agressividade entre jovens. É uma questão importante que deve ser discutida e analisada pelas famílias portuguesas de forma urgente. No entanto, toda a sociedade deve ter a noção que este problema também lhe diz respeito e que pode contribuir para a sua resolução de uma maneira direta ou indireta. 

Treze minutos a levar estaladas sem reagir não é bullying, é uma agressão brutal que se aproxima muito da tortura. É tão difícil imaginar alguém a levar uns tabefes durante vários minutos, sem esboçar grande reação, como conceber que um grupo de jovens comete tão ignóbeis atos sem que em nenhum momento algum deles tenha sentido um pingo de humanidade, culpa, remorsos e tivesse posto cobro a tamanha barbaridade. Parece impossível, mas foi possível! 

Como diria Hannah Arendt, hoje assiste-se com frequência à banalização do mal e cenas como as ocorridas há um ano na Figueira da Foz chocam muito pouco os mais jovens. Não deixa de causar espanto que só um ano depois o jovem agredido se tenha sentido agredido o suficiente para se deslocar à PSP e apresentar queixa. Durante um ano, Constança e o seu grupo de gente cool não sentiram culpa nem remorsos nem medo. O que lhes dói hoje é saber-se! Constança conhece finalmente o significado da fama. Para além de ficar a saber que ela tanto leva ao céu como ao inferno, já percebeu que ela se torna incontrolável e é mais destruidora que a humilhação que infligiu àquele rapaz e, possivelmente, a outros como ele. 

Ficou também ciente que o mundo egoísta e dominado pela vaidade em que vive haveria de lhe recordar o que ela fez no verão passado. Em cada comentário, em cada notícia, em cada olhar, em cada programa televisivo, em cada piada que já se faz sobre o caso, Constança já sente toda a dor das bofetadas que deu ao rapaz agredido. 

Como o seu pai bem disse é uma lição que lhe fica, cruel e dura. Deixemo-la aprender sem acrescentarmos os costumeiros pregos da moralidade hipócrita à sua cruz. Será uma lição intensa mas não durará muito, porque o círculo mediático daqui a breves horas já terá voado para outras paragens. 

Constança precisa de aprender algumas coisas sozinha, outras com a ajuda da família, que afinal não a conhecia e outras com a ajuda de toda a sociedade. Se os adultos não valorizam a amizade, o bom trato, a delicadeza, o respeito pela diferença como podem os jovens sentir-se impelidos a tal? Se uma estação televisiva não acha grande mal ridicularizar os defeitos físicos e artísticos de um adolescente, expondo-o perante milhões de pessoas, como podemos ficar admirados que haja mais “Constanças” do que aquelas que supúnhamos?

quinta-feira, 14 de maio de 2015

MARIA DA RIBEIRA

HÉLDER BARROS
Estávamos no Portugal pós-revolucionário e ainda do furor das utopias românticas de um Abril que trouxe muitas esperanças vãs, e, adiadas por um período militarista conhecido como PREC. Apesar do militarismo e euforia que percorriam os centros urbanos, na Freguesia de Fregim, Amarante, os dias passavam calmos, as águas da sua ribeira arrastavam-se com a calma dos dias azuis e atlânticos, de uma primavera verde e pastosa de maio de 2015, um caudal raso de verão, o grilar constante dos pequenos insetos do campo e o colorido exuberante que as flores silvestres conferiam aos campos e bordas da aldeia.

José e Maria, caseiros de uma quinta ribeirinha, em Fregim, tiveram três filhos machos e foram sempre dedicados ao seu trabalho, numa rotina diária de muito labor e de muitas canseiras, num ofício de sol a sol, imparável na intensidade, dureza e implacável na obrigação. Possuíam touros, vacas leiteiras, porcos, ovelhas, galinhas, patos, perus e coelhos, que ajudavam no sustento da casa, nas tarefas diárias, para comerciar localmente entre os vizinhos e nas feiras semanais da localidade de Amarante. 

Maria era uma mulher de vida, com uma enxada nas mãos trabalhava como um homem, não raras vezes, calcava os carros de mato com os pés descalços, como andava sempre ou quase sempre, pois nos dias de missa e de ir à feira levava umas tradicionais tamancas e a roupa de sair. Os filhos desde novos foram habituados a trabalhar no campo, com a mesma tempera dos pais. Dois nem a quarta classe chegaram a fazer, pois o chamamento dos campos foi sempre maior.

José era um homem de poucas palavras, mas de trato afável para os vizinhos e visitantes e andava sempre com Maria. Os dois eram inseparáveis na sua faina diária, tendo sempre que fazer. Os dias sucediam-se sempre iguais, entre sol, chuva, vento e frio, sendo o trabalho para eles sempre garantido. José pouco falador mas sempre disponível para ajudar os seus vizinhos, contrastava com a personalidade de Maria, mais faladora e de riso fácil; na maior parte das vezes lançava, um qualquer dito popular, para rematar as conversas, sendo o seu preferido o seguinte: “chuva no campo e sol na eira é o que o lavrador precisa…”

O filho mais novo, tendo nascido já fora das previsões deles, era muito naturalmente o mais mimado e, igualmente, o mais poupado às tarefas árduas do dia a dia da quinta. Apesar disso, era um moço forte e entroncado que, aguentava todo o tipo de trabalho e de desafio que os irmãos e amigos, lhe lançavam. Nas vindimas, andava orgulhosamente, com a escada de 26 banzos, precisando da ajuda dos irmãos, para mudar a escada de sítio, nos salgueiros que ladeavam a ribeira. E era vê-lo a subir e a descer as escadas, com cestos carregados de uvas. Estes bardos ribeirinhos davam cestos e cestos de uvas, bem douradas pelo sol, pois estavam bem lá no alto dos salgueiros a muitos metros de altura, tentando beijar o sol dourado e quente.

Numa vindima de um lavrador vizinho a quem foram dar “tornas”, um colega do José desiquilibrou-se ao esticar-se para apanhar uvas, numa dessas escadas enormes, caindo de seguida e ficando numa cadeira de rodas até ao final da sua vida, que ficou mais curta, em vista do desgosto e da falta de capacidades físicas para alimentar a sua família. O pouco tempo que viveu, após o acidente, foi de apelo constante à caridade dos amigos, no limite da sua dignidade individual.

Maria era uma mulher destemida, no dia em que lhe vieram abrir as águas da poça comunitária, ela fez-se de forquilha para o intrépido homem que a enfrentou, por pouco não o vazando de um lado ao outro. Estava no dia e a hora deles regarem, não podiam deixar que lhe roubassem aquele direito secular, dando a vida, se necessário fosse, para tal. Eram os últimos tempos em que a terra se confundia com as pessoas, em que a força telúrica estava no sangue de cada um… a terra era ao mesmo tempo sustento do corpo e fazia parte do sagrado, num clima de panteísmo, na medida em que era respeitada como tal, nos seus ciclos de produção e de devoção.

Maria e a sua família viviam pelos ritmos naturais da terra, pelas luas. Jamais semeavam algo ou faziam alguma tarefa agrícola, sem saberem se o ciclo da Lua era o mais favorável, para tal. José nasceu e morreu naquela quinta, ninguém se atreveria a tirá-lo do único lugar em que foi feliz, apesar de trabalhar como um desalmado ao sabor dos elementos que ele poderia prever, mas não controlar.

Às tardes, depois de tirarem o esquiço à pipa de vinho tinto da casa, e de beberem como que mama, José e Maria iam cortar erva para os campos férteis e com o regadio das levadas da Ribeira, cantavam músicas ao desafio, com a pronúncia e o arreganho minhotos, para matar o tempo e esquecer o cansaço do trabalho. Normalmente, a Maria dava o mote: “O meu amor chama-se Zé; sem ele eu não sei viver; para o ver eu iria a pé; bem longe só para o ver…”. O José então entrava a cantar, em jeito de resposta, com traços de humor e de ironia muito próprios: “Oh Maria eu estou aqui; abre os olhos se me queres ver; ao teu lado bem perto de ti; sem ti não podia viver…”

Entretanto, o peso da idade começou a fazer-se sentir e o casal foi ficando mais velho, com os problemas atinentes a essa circunstância, começando eles a perspetivar uma morte pacífica no sítio que sempre adoraram, até por não conhecerem outro. Os anos de muito trabalho e de excesso de exposição aos elementos naturais tiveram o seu preço, que se paga com juros elevadíssimos na saúde de cada pessoa, inexoravelmente, a partir de certa idade.

Inopinadamente, a Junta Autónoma das estradas decidiu fazer um acesso a uma autoestrada, atravessando a quinta ribeirinha que foi expropriada para tal. O casal que, entretanto, já vivia sozinho, pois os seus filhos foram crescendo, casando e saindo de casa, foi intimado a deixar a casa e a quinta. Está bom de ver que, embora tivessem ido viver em condições melhores, num apartamento da cidade, o fim das suas vidas foi antecipado drasticamente, falecendo, pouco tempo depois, com saudades do seu sítio e das suas coisas.

De premeio, o filho mais novo, sempre o mais protegido, estourou as poupanças de uma vida toda de trabalho dos pais, em mulheres, bebida e em jogo, logo que teve acesso à conta bancária deles, o que afligiu de forma contundente e acutilante o coração dos pais. As coisas quando tendem a ficar más, podem mesmo ficar muito piores e assim foi na Quinta da Ribeira! Quem disse que não somos feito de terra?...



quarta-feira, 13 de maio de 2015

A FÉ


Fé, s. f. Crença. Convicção. Crédito na existência de um facto. II O conjunto de dogmas e doutrinas que constituem o culto católico. II A religião católica. II A primeira das três virtudes teologais. II Fidelidade a promessas ou compromissos.
Silva, António de Morais, in Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa, Horizonte Confluência



Vive-se hoje, um dia especial para todos os católicos portugueses. 
PAULO SANTOS SILVA 

O dia 13 de Maio. 

Neste dia, milhares de peregrinos acorrem ao Santuário de Fátima, expressando desta forma o seu fervor religioso em honra de Nossa Senhora de Fátima. Alguns deles, viajam especialmente neste dia ou na véspera para assistir à Procissão das Velas. Outros percorrem centenas de quilómetros a pé, cumprindo desta forma as promessas realizadas em determinado momento da sua vida. Estas promessas, realizadas em momentos de maior ou menor fragilidade emocional, levam-nos a refletir sobre o significado e a dimensão que a Fé pode assumir dentro de cada um de nós. 

Antes desta reflexão importa, porém, dizer que estas aparições terão começado em 13 de Maio de 1917 e se terão prolongado por vários meses. Comemoram-se, pois, os 99 anos decorridos desde a primeira vez em que Lúcia, Jacinta e Francisco terão avistado “uma senhora mais branca que o Sol” sobre uma azinheira de um metro ou pouco mais de altura, quando apascentavam um pequeno rebanho na Cova da Iria. Os relatos destas aparições foram redigidos pela própria Irmã Lúcia, já depois de ter sido ordenada freira pela Ordem das Carmelitas Descalças, a partir do ano de 1935 em quatro manuscritos habitualmente designados por Memórias I, II, III e IV.

Refletindo, então, sobre o significado e a dimensão da Fé, podemos questionar: 

Será que uma crença, uma convicção em algo ou alguém que desconhecemos é racional? 

Será que na verdade, conhecemos algo ou alguém que nunca vimos? 

Até que ponto é que essa crença nos pode levar a prometer (e cumprir) algo que nos leva em tantos casos, a superar os limites da nossa própria força física?

Se em relação às duas primeiras questões, a resposta é difícil e se encontra nas convicções de cada um, mais ou menos formatadas por uma educação religiosa, a resposta à terceira questão já encontra razões que poderão ter explicação em momentos de grande fragilidade emocional, em que as pessoas não encontrado respostas aos seus problemas em mais lado nenhum, recorrem em “desespero de causa” à sua Fé ou, em grande parte dos casos, a uma Fé que não sendo sua lhes parece ser o único caminho a seguir. A verdade é que Fátima (à parte ter sido um dos baluartes do Estado Novo, através da trilogia Fado, Futebol e Fátima), tem sido um lugar de devoção e peregrinação de povos de todo o Mundo, altamente valorizado pelo próprio Vaticano, tendo já recebido a visita de diversos Papas e contando desde já com a promessa da presença do Papa Francisco em 2017, aquando das comemorações do Centenário das Aparições. Será discutível o “negócio” que gravita à sua volta, relacionado com as questões da Fé em Nossa Senhora? É, certamente. Mas também o é em outros Santuários ou, até mesmo no próprio Vaticano onde uma visita guiada à Basílica de São Pedro poderá custar na ordem dos 25 euros, tendo a duração de 1 hora e dez minutos. 

Voltando à reflexão e agora de uma forma mais pessoal, confesso que não fico indiferente. O mês de Maio traz-me boas e nostálgicas recordações de quando criança, acompanhava a minha mãe à Igreja para a novena. Talvez nessa altura não entendesse muito bem o significado. Talvez ainda hoje não entenda. Talvez ainda hoje (felizmente, digo eu…) não entenda porque é que as pessoas dão voltas de joelhos à Capelinha das Aparições ou descem o caminho desde a Cruz Alta até ao Santuário, de joelhos ou a rastejar. Mas sinto saudades das idas com a minha mãe à novena. Sinto saudades de quando ela, não podendo ir à Igreja, a ouvia na Rádio Renascença. E emociono-me cada vez que vejo as imagens na televisão da Procissão das Velas. Não consigo explicar porquê. Ou se calhar, consigo. É a minha Fé. 



terça-feira, 12 de maio de 2015

LUCIDEZ

REGINA SARDOEIRA
Muitas vezes gostava de não ser lúcida. Gostava de passar pela vida com a leveza de uma ave, de um golfinho, de uma criança e não ser trucidada pelo vigor humano da consciência vívida e vigilante que tenho e com a qual me habituei a antecipar. Sem me arvorar em clarividente, mas crendo que possuo um dom inquestionável para saber o que vai passar-se a seguir – seja no decurso de uma conversa, no transcorrer de uma aula ou na análise de acontecimentos sociais e políticos – sinto-me presa de uma angústia peculiar: gostava de ser surpreendida pelas pessoas, enquanto agem, comentam, falam, sussurram ou se quedam, simplesmente, em silêncio. Gostava de captar o inesperado, a surpresa, a revelação e dar um salto qualitativo na minha compreensão do mundo e dos homens.

Porém, a lucidez acutilante que me caracteriza e venho desenvolvendo desde que me reconheço como pessoa, atinge patamares cada vez mais elevados, a um ponto tal que antes de me dizerem isto ou aquilo eu já o sei, mesmo que não me tivesse vindo ainda à consciência em pleno.

Tal qualidade (se o é) deveria transportar-me a elevados patamares criativos, deveria guindar-me à categoria de cientista ou de profeta e o mundo já poderia estar rendido aos meus dotes excepcionais. Percebo, contudo, que sucede exactamente o contrário, que, saber de antemão o que vai suceder-se a um acto meu, a um gesto, a uma frase, me bloqueia os movimentos, me trava o pensamento, me impede de soltar as rédeas de mim mesma e partir para muitas ribaltas. E o problema é ainda esse: não tenho um domínio exclusivo onde proceder à especialização e tornar-me técnica disto ou daquilo e ignorante em tudo o resto. Não faço separação de saberes e de competências, tudo me interessa, quase em igual medida, e de tudo gostaria de ir até ao cerne.

Se eu disser: “Sou professora”, esta é uma afirmação que pode ser comprovada na prática já que é essa a parte mais visível das minhas actuações no mundo. Mas sê-lo-ei, mesmo e apenas? 

De vez em quando, estou a dar aulas e percebo que os alunos estão ali, parcialmente, que os meus ensinamentos (se o são) não os atingem e que pouco lhes importa descodificar segredos da existência e do mundo dos quais é feita a filosofia. Que interessa perceber o pensamento de Descartes, por exemplo, dar um salto intelectual para as linhas metódicas do seu pensamento lúcido, quando ele já morreu há quatro séculos e o seu método lhes parece um intrincado xadrez, um labirinto de conceitos inabituais nos trâmites da vida comum?

Desce sobre mim um profundo e inenarrável tédio, já sei que quando falo, por exemplo, em ideias inatas, e lhes digo que elas são as sementes da verdade, que estão em nós, como parte constitutiva do nosso eu de humanos, que só por elas conseguimos aceder a dois ou três pensamentos verdadeiros…leio-lhes nos gestos uma enorme perplexidade, uma incrível dose de suspeita e nenhum interesse por esse fenómeno humano que nos faz perceber, tomar consciência, pensar, construir argumentos! E já sei que, se amanhã ou depois lhes disser que, afinal, há quem negue as ideias inatas e argumente que somos tábuas rasas ou folhas em branco e só a experiência sensível garante alguma informação…quererão (se quiserem) saber quem tem, afinal, razão, quem está certo ou errado ou o que interessa afinal se temos ideias inatas ou se nascemos absolutamente vazios!

O pior é que eu sei também que esses alunos, que mediocremente me ouvem, se acaso se empenhassem seriamente nos caminhos que procuro arduamente abrir para eles, sairiam das aulas acrescentados e as lições de Descartes e dos outros todos repercutiriam nas suas vidas dando-lhes sentido.

Digo que sou escritora porque, desde que me conheço, cultivo a arte de descodificar a língua, a um ponto tal, que, quando começo a escrever seja o que for, as palavras afluem a grande velocidade, os pensamentos organizam-se, de um modo célere e coeso, e quando dou conta escrevi um texto, um comentário, um ensaio, um poema e até um livro, sem conseguir explicar de onde brotou semelhante manancial.

Produzo textos, quotidianamente. Se decidisse reuni-los em volume, por temas, teria sem dúvida um considerável conjunto de obras plenamente escritas, uma série de livros de poesia, de contos, de romances… E contudo, não há qualquer possibilidade de dar vazão a tal avalanche, não há nenhuma espécie de editora que aceda a publicar, de uma só vez, tantas produções e eu sei que as minhas obras permanecerão arrumadas em pastas, já que a lucidez de que falava no início me faz antever a impossibilidade de ser escritora em pleno.

Tenho portanto um grande problema: sou lúcida. Entendo à saciedade o mundo em que vivo e conheço que nesse mundo não há qualquer lugar para pessoas da minha espécie. Entendo à saciedade que apesar disso tenho que viver aqui, atrás das grades, cingida ao isolamento que para mim mesma criei. E não há nenhuma solução à vista.

Fernando Pessoa (e tantos outros cujos nomes não citarei) afirmou-se lúcido e eu percebo que ele foi, no seu tempo, um foragido da vida, um solitário: e tudo isso apenas por ser lúcido! Entendo-o nessa lucidez que ele não desejava e lhe enchia o pensamento de imagens torturadas. Leio-lhe os poemas, nos diferentes heterónimos, e a infelicidade perpassa nas palavras exactas que (tenho a certeza) lhe saíram espontaneamente do pensamento para a ponta dos dedos, quer fosse Alberto Caeiro, ou Álvaro de Campos ou Ricardo Reis ou Bernardo Soares (ou sei lá quem mais) e até ele mesmo, Fernando Pessoa. Mas, Fernando Pessoa fugiu de si mesmo e desta avalanche de personagens que o habitavam, bebendo continuamente, esquecendo, pela bebedeira, o excesso de lucidez com que a natureza o dotou, morrendo, enfim, por causa da bebedeira com a qual foi escapando sempre à terrível acutilância do seu modo de ver e de sentir.

Para mim, porém, não há bebedeira de nenhuma espécie, não há droga que me retire a consciência aguda do que sou, não há soporífero que me adormeça. Vivo, em pleno, a lucidez que me coube em sorte, cultivo-a mesmo sem querer, julgo que até quando durmo (a crer nos sonhos de que me lembro) a consciência permanece, vigilante. E muitas vezes não durmo porque o pensamento, inquieto, vagueia em muitas direcções, aproveita-se do silêncio da noite e do negrume, para brilhar, qual sol de meio dia, e fazer de mim uma noctívaga.

Percebo que escrevi uma crónica inesperada – principalmente para mim. Percebo que hoje não escreverei outra e que, por essa razão, os presumíveis leitores que amanhã terei não saberão o que pensar da minha declaração de lucidez. Paciência.



segunda-feira, 11 de maio de 2015

ESCRITORA AMARANTINA EM DESTAQUE NA RÁDIO POPULAR FM 90.9


ANABELA BORGES, ESCRITORA AMARANTINA
(Anabela Borges em entrevista à Rádio Popular FM 90.9)
Lugar das Letras Dia 10 de maio 2015 – em Amarante

O VALOR DE UMA BOA PALAVRA

CATARINA DINIS
Elas brilham, são carinhosas, levam-nos mais além do horizonte azulado, por outro lado elas podem ser maliciosas, fatais, cruéis. Palavras que são verdade,” fazedoras” de sonhos, de poesia, de prosas e quimeras mas também de morte, lágrimas, tristezas…
Podem ser como multidões que gritam entre as ruas, na revolta e na mudança, ou o espelho de uma solidão que se escreve no papel…
São elas simplesmente as palavras, poderosas palavras. Mas a nossa crónica de hoje vai ser sobre as ditas “ boas palavras”… aquelas que estão sempre do nosso lado.
São palavras bonitas quando as usamos para incentivar, para suavizar o dia de nossos amigos ou família… quem não gosta de as ouvir? São palavras de coragem e de sabedoria que ecoam no tempo e irão abraçar-nos no exato momento em que necessitamos. Aliás uma única palavra nos pode salvar.
Sem duvida, as palavras têm um poder , o dom de edificar o mundo, no fundo elas são a materialização dos pensamentos e sentimentos. 
Decididamente, tenhamos a cada dia uma “ conversa” positiva com o nosso interior e assim exteriorizar e semear confiança, tranquilidade e felicidade. "O pessimista vê dificuldade em cada oportunidade; o otimista vê oportunidade em cada dificuldade." (Winston Churchill)

domingo, 10 de maio de 2015

INEVITAVELMENTE

A inevitabilidade das palavras é a última barreira e a incontornável prova da justiça da banalidade, acaba
MIGUEL GOMES
por trazer ao de cima, numa ascensão volumétrica, todo o silêncio que se tenta calar, redimindo sílabas e conjugando as palavras, ora em prosaica arquitectura, ora em queda livre de escarpas feita pelas arestas das próprias letras, vou tentando entender todos os dias que vivo. Escrevo baixinho, inaudivelmente, tentando passar despercebido por entre dois parágrafos que quiseram falar, mas eu não os deixei. Soltar palavras, assim, por soltar, é como tentar perceber todas as notícias que nos tentam noticiar, sem sequer deixar de lado as realidades irreais, vou almocrevando de galho em galho, porque hoje serei pássaro, escutando o passo de quem também se escreve baixinho, indelevelmente, como quem sem parágrafos torna cem eus num só entardecer tranquilo. Oh vento. Tu que me trazes de volta ao local onde esperei pelas histórias, vais esbatendo pela tela sem véu, a que muitos chamam céu, as pinceladas longas de uma matiz alaranjada, acastanhada, azulada, acinzentada e todas as cores que de tão esbatidas me lembram o nada que sou. O brilhar do cair da tarde e o ascender noutro azimute da noite, a pequena aragem que pede licença ao frio e se faz carente de agasalho, o queixo encostado ao pescoço, a aba do casaco emproada, as mangas do casaco que se tornam casulo de mãos gélidas. Há em tudo um sentido de imaginado, uma deificação de um simples arrulhar de um casal de rolas, uma amaravilhação do simples paupérrimo, o encantamento pelo encanto, o coro de uma voz só que canta e embala a própria terra e liberta, de quando em vez, a tuberculosidade de uma extensão de si mesma em forma de alimento. Para onde caminhas tu, povo, que de tão velho te queres sempre novo? Pudera eu ser composto, acompanhado de auxiliar que me dissesse quem tenho sido. A vida faz-se no infinitivo, sem nunca se debater com clausuras de ideias e pensamentos, tropeça por aí ao descer de uma encosta para tomar um café na primeira tasca que traga no ar um cheiro a fumo de carvalho e a mesa já gasta pelo bater do baralho. Ah, caralho, está quente! E o colectivo riso que se acerca de um vulto e com uma palmada nas costas expressa em tons que não se vêm pela cidade aquilo, não isto, a quem os entendidos chamam amizade. O claro e o dito, trocados pelo não dito, fazem das tardes domingueiras o palco principal do circo que se enche e mais vazio fica. Tal como as gentes, em rebanho, caminhamos como putos trôpegos, descalços e com ranho, vestidos com tudo aquilo que nos pesa e não sabemos a falta que temos, o casulo em que nos querem enclausurar enquanto nos dizem que de nós ninguém nos tira, e ai de nós quem nos acorde, não há outra mentira. Vejo o mundo cansado, quase irado, orientando-se a cada passo que lhe impomos. Uma mole de gente, igual por ser diferente, a caminhar cada qual por si, para si, de costas voltadas à intenção (o que conta é o vómito em forma de oração) equilibrando-se neste pequeno berlinde e este, coitado, na supra infinita paciência, vai rodando e rebolando, enquanto estes palhaços criados e malcriados se degladiam nas suas vestes sobranceiras à nudez, calcando os próprios passos, equilibrando-se contra o espaço vago e vazio que é o ocaso do corpo contra o frio. Inevitavelmente, assim, quase baixinho, existirá um dia a necessidade de sabermos habitados por almas, lampejos de uma luz que não brilha por não existir escuridão maior que aquela a que nos damos sem saber. Oh Deus, que foste tu fazer... Era evitável, talvez, todo o recurso expressivo do qual me sinto deficitário. Eu, também, um dia, talvez ontem, serei capaz de erguer a cabeça a sorrir e do alto da falésia que me separa do conhecido gritar baixinho, sussurrando, não me encontrem agora, ainda, enquanto houver hiatos entre sujeitos e verbos, possamos ser o complemento que se transmuta em metafóricas formas de adjectivar o pensamento. Só mais um dia.

sábado, 9 de maio de 2015

NÃO MAIS [DITADURA DO] PELO

JORGE NUNO
Habituei-me à sabedoria milenar chinesa, mas desta vez a notícia relâmpago fez mesmo faísca e deixou-me algo incrédulo. A notícia dava conta que na China um homem foi condenado a seis anos de prisão por se recusar a rapar a barba. Como os chineses têm vindo a comprar tudo o que podem… pensei que o caso pudesse estar relacionado aos negócios do pelo e, nuns laivos de excesso de fantasia, até já os estava a ver a ficar com as 29 dependências da Clínica do Pelo, espalhadas pelo litoral de Portugal. Afinal, vim a apurar que o citado caso aconteceu na província de Xinjiang, região do noroeste daquele país, predominantemente muçulmana, onde têm acontecido vários atentados e recrutamento para o Estado Islâmico.

Ainda há pouco tempo, um prisioneiro no Estado do Arkansas, submeteu o seu caso ao Supremo Tribunal dos EUA para esclarecer se ele, como muçulmano preso, pode ou não ter barba grande segundo a sua crença religiosa, quando outras 44 penitenciárias estaduais permitem o uso da barba. Levado ao extremo, este caso definirá se há, ou não, liberdade religiosa naquele país, tido como paladino da liberdade. 

Na comunidade amish, os homens quando casam deixam de cortar a barba, sendo que a barba grande tem o mesmo simbolismo que a aliança no dedo – é um sinal que o homem é casado –. Aconteceu em Bergholz, no Estado de Ohio [EUA], um bispo amish e mais 15 seguidores usaram da força, à noite, para cortar a barba a um determinado número de homens da mesma comunidade, sendo levados a tribunal. A legislação prevê penas até 16 anos de prisão para quem forçar o corte da barba, contra a vontade própria e como forma de humilhação, por ser considerado um crime de ódio.

O pastor John Weaver, no seu sermão “O Significado Histórico e Bíblico da Barba”, menciona a barba fazendo referência a Levítico 19:26-28: “Não comereis coisa alguma com sangue; não agourareis nem adivinhareis; não cortareis o cabelo (…), nem danificareis as extremidades da barba (…). Eu sou o Senhor”. Neste sermão, acrescenta a dado passo: “Não estou a dizer que um homem que não tem barba é menos santificado que aquele que tem barba. Além disso, não estou a dizer que um homem com barba é mais santo do que um homem sem barba”, mas lá foi dizendo que, com base nas Escrituras, os homens tementes a Deus devem ter barbas visíveis. Avança ainda que o Quarto Concílio de Cartago, em 398, decretou. “ O clérigo não deixará o seu cabelo crescer, nem removerá a sua barba”. 

Lembro-me da confusão que tem havido na paróquia de Canelas, com a recente substituição forçada do padre Roberto Carlos, contra a vontade do povo, e do seu substituto – o padre Albino Reis – a ser insultado à frente das câmaras de televisão, com alusão ao seu cabelo e barba compridas, numa mostra clara de intolerância, até pelo aspeto físico do “novo” padre. 

Em Moçambique, na época colonial, era frequente os presos políticos colocados na cadeia central da Machava – ala do Centro de Recuperação Político-Social ou Secção Prisional da PIDE – não serem autorizados durante os primeiros nove meses de “internato forçado” a cortar o cabelo, a barba ou até mesmo lavar os dentes. Bem mais civilizados e tolerantes foram os legisladores e quem aprovou em 1843, em Portugal continental, o Regulamento Provisório das Cadeias, já que no Capítulo II, Artigo 5.º, dão-se instruções sobre o asseio e salubridade nas prisões, devendo o carcereiro “seguir as ordens que mandam limpar, lavar e arejar, e defumar as prisões; bem como as que obrigam os presos (…) a fazer a barba e a cortar as unhas e os cabelos em dias marcados.”

Atualmente, a legislação portuguesa prevê sanções aos taxistas que se apresentem ao serviço com a barba por fazer e situação idêntica já foi adotada em alguns Estados do Brasil. Somos livres de questionar o porquê da aplicação destas regras a estes profissionais e não a outros, tais como médicos, chefs e muitos outros, em que pode estar em causa a higiene e até a saúde pública. Mencionei algumas profissões, mas é evidente que em qualquer das situações, por muitas boas razões que haja, pode estar a ser violado o Princípio da Igualdade consagrado no Artigo 13.º da CRP – Constituição da República Portuguesa, que estabelece que “todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei” e “ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão da ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual”. Também o Artigo 26.º refere que “(…) A todos são reconhecidos os direitos à identidade pessoal, (…) à imagem, (…) e à proteção legal contra qualquer forma de discriminação”. Por acaso alguém consegue imaginar o filósofo e professor Agostinho da Silva ou o jornalista José Milhazes, sem barba? Ou os ex-futebolistas Toni e Fernando Chalana, sem bigode? Ou Jesus de Nazaré sem os seus cabelos longos e rapado, como Buda? É parte da sua identidade pessoal, da sua imagem e, como tal, seria desprovido de sentido privá-los do direito de usar barba, cabelo ou bigode, se assim o entenderam! 

Infelizmente, não havia a CRP quando eu cumpri o serviço militar obrigatório, e se era incompreensível a discriminação!... Não podia usar barba no Exército, mas se estivesse na Marinha… podia! Quando fui recrutado, tive que forçosamente cortar a barba, rapar o cabelo e, resolvi aproveitar a única oportunidade para exibir uns pelos sobre o lábio superior: deixei ficar um bigodinho parecido com o do galã Errol Flynn. Numa visita do comandante da Região Norte ao quartel em Bragança, por questões protocolares compareci no gabinete do comandante da unidade, atual gabinete do presidente da autarquia, e àquele general, vindo do Porto, deu-lhe para embirrar com o meu vistoso a alourado bigode! Pegou numa esferográfica, levou o bico a um dos meus cantos da boca e disse, à frente de todos, que o meu bigode era um “bigode à chinês” e que não estava “conforme o regulamento militar”, humilhando-me publicamente. 

Infelizmente, a CRP também não se aplicou ao ti moleiro da Augusta, que ao longo de mais de 60 anos de casado deixou a sua mais-que-tudo exercer o poder de matriarca, impedindo-o, despoticamente, de estar mais que 24 horas sem se barbear. Esse problema não teve a ti Ricarda, que me habituei a vê-la (há mais de 50 anos) a vender peixe de porta a porta, sem complexos e sem ditaduras legislativas relativas aos pelos, como mulher de máscula compleição física, a exibir o seu bigode preto, farfalhudo, de fazer inveja a qualquer homem.



Estranho mundo… ainda mais estranho se eu fizer o exercício do “se”! Se o chinês muçulmano – que eu julgava ser obrigado a ser ateu – vivesse há 50 anos atrás, em Moçambique, poderia ser à mesma preso político, mas sempre teria a hipótese de conservar a barba por 6 meses; se o bispo amish vivesse em Portugal no final do Séc. XIX, poderia estar preso, mas seria obrigado a cortar a barba, no tempo definido por lei; se o velho moleiro pertencesse à comunidade religiosa do pastor John Weaver, poderia continuar a ser temente da sua Augusta, mas não seria considerado temente de Deus, por não ter barba visível; se o caso do meu bigode – que face ao regulamento militar português ultrapassava o limite previsto em 3 mm – viesse a ocorrer nos EUA, poderia continuar a usar “bigode à chinês”, mas seria a minha “vingança de chinês” quando processasse judicialmente o general, por humilhação pública, que o poderia levar a uma pena de prisão efetiva; se Jesus de Nazaré voltasse novamente, agora com a missão de pacificar os paroquianos de Canelas, poderia sentir-se a sua enorme aura e ver-se os seus cabelos longos, mas adivinha-se a dificuldade que teria em cumprir a sua missão entre aqueles católicos; se os legisladores não estivessem quietos com a pata e ousassem continuar a legislar sobre o pelo, se lhes fosse aplicada, sumariamente, uma pena de prisão perpétua, pelo menos haveria, na humanidade, uma geração sem confusões, de gente feliz por poder usar barba, ou por rapá-la, consoante a sua própria vontade. Mas nem tudo seriam rosas!… Pois mesmo que não houvesse legislação sobre pelo, nem legisladores no ativo, até a ti Ricarda – que viveu feliz, no tempo e local certo – se tivesse vivido 50 anos mais tarde, precisamente agora e no mesmo local, teria que gastar, por mês, o valor de uma canastra de cavalas, chicharros, ruivos e chaputas, só para ir à depilação a laser à Clínica do Pelo, devido à pressão social e ao slogan “Não mais pelo”, até retirar, definitivamente, o seu bigode farfalhudo, o que a faria perder a sua identidade e imagem de marca!