quarta-feira, 24 de junho de 2015

SANTOS POPULARES

GABRIEL VILAS BOAS
Os santos populares são das festas mais portuguesas e mais genuínas que vivemos.

Oriundas do feliz casamento entre a religião e a tradição, souberam manter o espírito de folia ao mesmo tempo que se foram reinventado, de maneira a renovar a festa na transição das gerações. 

Acontecem no verão, quando o tempo e a vontade nos expulsa do comodismo caseiro e nos traz para a rua. São elas que nos devolvem ao contacto com as nossas raízes, com os vizinhos que nem cumprimentávamos, com o prazer do convívio sem hora marcada. 

Quase ninguém aparece porque “tem de ser” e vemos famílias, novos e velhos, pessoas de todos os estratos sociais a sorrir, a brincar, a comer a sua sardinha assada no pão ou no prato, de pé ou numa mesa improvisada no meio da rua. 

São as festas populares que reúnem novamente as gentes da cidade, do bairro ou da rua, à volta do prazer de estar com o outro e da pequena brincadeira. Mantêm viva o orgulho da pertença a um grupo ou associação, nas marchas populares ou nas cantigas, fazem as crianças saltar as fogueiras e recordam a beleza da vida na magia do fogo-de-artifício. 

Os santos populares são festas de comunidade, onde todos estão convidados, mesmos os desconhecidos. Rapidamente o convívio vence a timidez dos mais recatados e instala a doce descontração dos momentos alegres até que os corpos deem sinal de cansaço.

Apesar de toda a brincadeira e descontração, há tempo e inspiração para coisas mais artísticas. O povo anseia pelo desfile bairrista das marchas, onde a coreografia namora a música, esperando o consentimento das palmas. Os mais sonhadores derramam poesia nos manjericos à espera dos sorrisos das almas delicadas. Entretanto a banda toca para mais um passo de dança enquanto os pequenos nos surpreendem com outra marretada e o calor da noite pede mais um copo e dois dedos de conversa. 

Como todas as coisas boas, a festa popular e santa também tem o seu fim. A sorte é que caminhamos (ou cambaleamos) para casa com a barriga cheia de alegria e folia, onde nos espera uma cama sem relógio para acolher um corpo cansado de satisfação.

Foi bonita a festa, pá!

terça-feira, 23 de junho de 2015

GAFANHOTO ALENTEJANO

REGINA SARDOEIRA
Pude um dia observar um gafanhoto – sou afortunada! A casa, alentejana típica, pintada de branco com uma barra azul forte, separando a alvura do toque negro da rua, tinha um pátio nas traseiras, por onde luzia um sol escaldante e quotidiano. Aí, haviam plantado duas árvores de fruto, ainda tenras naquele tempo, não mais altas que eu, meros arbustos esquálidos com algumas folhas longilíneas, uma nervura central mais espessa e umas dez mais ténues de cada lado do pequeno limbo, pessegueiros ou macieiras, não saberia dizê-lo com exactidão embora, agora que penso a sério no gafanhoto, me pareça que eram pessegueiros. O gafanhoto, claro, porque ali vinha ele todos os dias, exactamente à hora em que os homens almoçam, qualquer coisa entre as 12:30 e as 13:00 horas, poisava sobre a árvore, fazendo tremer a haste frágil, e com as suas mandíbulas, terríveis se ele fosse proporcional ao meu tamanho, mas apenas confrangedoras porque eram mandíbulas de gafanhoto, com uns insignificantes milímetros medidos em toda a sua extensão, ia comendo o tecido tenro metodicamente, à semelhança de quem come um peixe, isso mesmo, um peixe, pois, como se fosse uma espinha deixava intacta a nervura central, enquanto o limbo era devorado da orla para o fundo, primeiro, e do fundo para a orla, em seguida. Observar o gafanhoto, neste ritual imprevisível de almoçar toda uma folha de pessegueiro ainda impúbere (se assim podemos chamar a uma árvore emergente) constituiu uma experiência memorável, ver os olhinhos vivos, redondos e castanho irisado e as patas traseiras feitas para o salto, e ali dobradas, arrumadas por cima do dorso como se fossem instrumentos em repouso de uma oficina bem organizada, enquanto os dois pares de patas dianteiras seguravam firmemente a haste e as mandíbulas, dotadas de pequenos dentes, praticamente invisíveis, roíam o tutano da folha num discreto ruído de trituração tornou-se, também, o meu ritual da hora do almoço. Acreditem ou não, durante alguns dias, talvez duas ou três semanas ou nem tanto, aquele gafanhoto – porque eu tive a certeza que era sempre o mesmo – veio ali, poisou, mastigou e engoliu, sempre com o mesmo método, uma folha de pessegueiro por dia. Afeiçoei-me ao insecto, compreendem isto?

Não tendo comigo, na minha passagem exótica pelo mundo alentejano, qualquer animal de estimação, decidi, na medida do possível, adoptar o gafanhoto. Mas não imaginem que fui comprar uma gaiola e o levei para casa a fim de lhe servir, eu própria, a folha do pessegueiro! Não. Todos os dias, à mesma hora, dirigia-me ao pátio, procurava entre as folhas e lá estava o meu gafanhoto, deliciado, parecia-me, a comer o seu almoço ou quem sabe? a única refeição do seu dia. Onde ia, depois de comer, pois nunca ali o encontrei mais tarde, de onde vinha antes de comer, pois também por ali não estava de manhã, nunca pude vir a saber, nem tão pouco cheguei a vê-lo em movimento pelos ares, o que seria comum e eventualmente desinteressante. Mas vê-lo comer, ouvir o mastigar preciso das suas pequenas mandíbulas no acto solene e rigoroso de absorver o limbo da folha, pelo limite da nervura central, representou para mim um acto de intimidade com o bicho, inédito em toda a minha vida. Não poderei dizer se o gafanhoto soube que foi «o meu gafanhoto» durante aquele período, efémero, convenhamos, mas ainda assim de extraordinária longevidade, visto tratar-se de um gafanhoto. Suponho que ele não soube, suponho que ele não poderia ter sabido, afinal não passava de um gafanhoto e os gafanhotos nada sabem: não pensam!

Um dia, bruscamente, não porque tivesse roído todas as folhas da pequena árvore, não porque a minha presença o tivesse importunado, mas por razões que ignorarei para sempre, dado nada saber da vida enigmática do «meu gafanhoto», percebi que ele não regressaria nunca mais. E tive um desgosto. Afeiçoara-me ao visitante furtivo da árvore do pátio alentejano, aguardava com júbilo a hora em que o iria encontrar na sua solitária refeição, quase à mesma hora da minha, e logo que percebi que não voltaria a vê-lo, nem assistiria mais à refeição deleitada no aconchego vago do pequeno arbusto, senti o incómodo subtil, mas persistente, da perda de um amigo.

E ainda penso: que aconteceu ao gafanhoto, o meu pequeno amigo daqueles instantes furtados ao rigor da racionalidade, porque deixou, um dia, de assentar o seu corpo, frágil, se comparado com o meu, mas extraodinário de perfeição e vigor à sua escala de insecto poderoso, nos ramos daquele pessegueiro de folhas tenras e ainda escassas, e ali saciar o seu apetite e refazer as suas forças?

Não o saberei nunca, é claro, como disse ignorei sempre de onde vinha e para onde ia, antes e depois de ali se deter; talvez tivesse chegado a sua hora de deixar a vida, talvez o tivessem apanhado, homens ou outros bichos para dele fazerem malícia ou refeição, talvez tenha encontrado outras folhas mais suculentas ou mais propícias… o certo é que me deixou! E aquela árvore, aquele pátio de paredes brancas, com a orla azul a separar a alvura, do chão escurecido pelo pó e pelos passos, nunca mais foram os mesmos, desde então.

Há vários anos que perdi o meu gafanhoto alentejano, mas penso muitas vezes nele, acreditem. Talvez julguem que é loucura e eu julgo-o convosco, de bom grado: afinal, seres respeitáveis que somos, do alto das nossas cátedras racionais, porque havemos de prender-nos a insectos, mesmo que sejam gafanhotos corpulentos a saciarem a fome nas folhas nutritivas de uma árvore tenra? Mas a verdade é que, durante os dias em que observei a refeição ritualística, no calor opaco da primavera alentejana, senti uma unidade transcendente com a natureza, de que também sou feita, e acabei por perceber que me havia sido dado o privilégio de sorver a pureza de um gesto, a verdade de uma vida ainda não contaminada. E isso constitui, até hoje, uma espécie de refúgio cristalino quando preciso operar a catarse, após certos mergulhos no visco turvo da perversão humana. Hoje, finalmente, contei a história do meu gafanhoto alentejano que me deixou prematuramente, antes de o observar tão profundamente quanto desejava, a ponto de ter chegado a dar-lhe um nome e a desvendar-lhe, quem sabe?, uma psicologia própria… mas, por isso mesmo, na exacta medida em que não o desvendei até ao âmago, e nunca cheguei a querer possuí-lo ou sequer a agarrá-lo, retendo-o para mim, guardo dessa espécie de relação marginal uma intensa e viva memória: aquele gafanhoto anónimo, plasmado no verde discreto de uma árvore humilde, nunca me desiludirá, nunca envelhecerá nas linhas do meu pensamento e veio a tornar-se, por essa via, o perfeito paradigma das relações humanas, tão enviesadas e distorcidas pela posse e pelo engano, que mais vale delas ver-me privada para sempre.

Onde quer que estejas e mesmo que não estejas há muito em lado nenhum, louvo-te, pequeno gafanhoto da planície doirada, porque me ensinaste a intimidade transcendente das trocas invioláveis, só possíveis nos limiares da fantasia, onde o sonho se converte na autêntica expressão da realidade.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

FRONTEIRAS DA MÚSICA

CATARINA DINIS
Junho, o mês do sol, dos santos populares, dos manjericos, das sardinhas, da alegria e boa disposição, tem igualmente a celebração do dia europeu da música, neste passado domingo, dia 21 de junho. Musica fonte de inspiração para a vida e quem será que consegue viver sem ela? Cada instante das nossas vidas parece existir uma intensa banda sonora. Uma canção pode trazer -nos as brincadeiras e sons da infância, a lembrança do primeiro amor, o primeiro beijo, o primeiro adeus, a primeira separação eterna. É nestes momentos que ela, a música nos envolve, como que a acariciar a nossa alma. A música cria emoções: a tristeza, a alegria, o ódio, o amor, a revolta, a tranquilidade… Sabe-se que a música é fundamental na nossa sociedade, já desde os tempos pré-históricos onde podemos encontrar vestígios de instrumentos líricos, tal como a harpa, a lira, a flauta. Inclusive encontramo-los nos contos mitológicos. Estes instrumentos evoluíram e chegaram até aos nossos dias e durante todo esse trajeto, foram-se criando as orquestras da história humana. Cada cultura têm o seu próprio estilo e claro que depois de existirem tantas variantes, acabam-se por vezes por se fundir no mundo. Sem dúvida a música têm importância a nível cultural ajudando a construir e caracterizar uma determinada nacionalidade, a música pode até atravessar vários planos, várias temáticas e várias setores políticos, culturais e artísticos. Não podemos deixar de mencionar que a importância da música é tal que em determinados momentos no séc. XX existiram alguns exemplos de censura na música, e foram bastante graves e intolerantes, como é o caso do Estado Novo em Portugal, na Alemanha Nazi ou na União Soviética, ou como no Afeganistão com o regime Taliban nos anos 90 entre tantos outros exemplos. Depois de um lado negativo, um dos melhores aspetos da música é sem duvida a inspiração para a escrita, para a poesia. Simbiose perfeita e complexa. Existem músicas ligadas as palavras, ao texto, ao sentimento mas também há posições que defendem que o poema se desvirtua e é condicionada a sua interpretação? A verdade é que isso não é para nós o fundamental mas antes vamos deixar-nos levar pela sonoridade e pela palavra sem pensar nas “ prisões” que elas podem criar… Hoje termino com um poema da minha autoria…

Com ritmos tão diferentes, 
Bizantina medieval
Ou tradicional servia, 
A história escreve-se com sons,
Escreve-se com palavras e sentimentos,
Escreve-se no limite Das fronteiras europeias. 
Haydan, Mozart ou Beethoven, 
Orquestra sinfónica ou banda Beatles, 
Peter Gabriel Flamengo, Alvorado,
Andro Passado e futuro
No presente do que se escuta 
E constrói a nossa identidade europeia

domingo, 21 de junho de 2015

NAS ASAS

MIGUEL GOMES
Fito o meu braço, rio-me com as letras projectadas, de repente tenho escrito em mim parte da frase “quebrar em caso de emergência”. Fico a cogitar sobre o que o vidro me tenta dizer. Graúdo, não me sobra braço para toda a afirmação, mas curioso-me com a tatuagem possível e ergo um sorriso a esta espécie de sincronicidade, que leva o dia a escrever no braço, no meu braço, “caso de emergência”. Quereria dizer-me, talvez a vida, que o braço, os braços, os abraços, ainda que no calor, sejam um caso de emergência, urgência tida por quem sozinho se faz à vida?

Os passos que tento dar rapidamente, para fugir do calor súbito que quase não me deixa ver o empedrado chão, fazem-se acompanhados de uma ligeira praguejação, minha e doutras que reclamam deste braseiro transmontano que visitou a cidade.

Abrando o passo quando encontro uma sombra, mas mantenho-me lesto enquanto fito os ponteiros do relógio e calculo os minutos que me faltam até o comboio entrar na gare. 

Vou ultrapassar um casal de idosos que, no calor desta tarde, andam lentamente, ele à frente, agarrado à asa de um destes sacos ecologicamente modernos, vermelho, ela atrás, com os olhos revirados do calor, ambos uma mistura secular de idade conjunta. Sorrio ao passar por eles, a senhora retribui o sorriso e diz-me, “Atrás de um homem, há sempre uma grande mulher” e a pobre alma que carrega o seu peso e quase arrasta o peso da companheira retribui com tédio “bem poderias hoje ser mais pequena”.

As cumplicidades que se fazem ao longo das idades reverberam na velhice, quando os passos se fazem a quatro mãos, ainda que separadas por um túmulo.

O calor desce pelas escadas rolantes sem se compadecer das pessoas que se escondem no semi-subterrâneo que é a galeria de acesso às plataformas e consequentes linhas de partida e chegada dos comboios. Se fosse o frio, analogiaria de imediato com a sua necessidade de fugir de si mesmo e procurar calor no contacto com as pessoas que escondem as mãos nos bolsos tentando aquecê-las, mas é o calor, não há lugar a analogias nem a mãos frias. Desce disparado a gare, entra de rompante no corredor e aninha-se no torpor de cada pessoa, fazendo transpirar pelos poros e paredes gotículas de um suor brotado sem ser trabalhado.

Ascendo, apenas figuradamente, à plataforma, valido o passe e a nostalgia surge na recordação das antigas bilheteiras, o carimbar da data no bilhete, o agreste homem de bigode que me vendia o bilhete sem um bom dia sequer obliterar, o cheiro do óleo queimado, a paisagem ondulante nos dias de calor, o som dos meus passos nas travessas atravessadas na linha que me permitiam chegar à linha do lado de lá, as mesmas que se vêm quando se sai de lá para cá.

Perdido por entre as memórias de viagens que nunca mais retomarei, vejo passar um vulto vermelho. Um bombeiro segura uma botija de oxigénio, outro, mais novo, segue-o segurando um desfibrilador portátil, de passo apressado. 

Um homem, velho, sentado no banco de comboio olha assustado para o aparato e ruboriza-se ao constatar que é o centro das atenções dos transeuntes que aguardam a vinda gloriosa do comboio.

Uma mulher acaricia-lhe a face, desaperta-lhe outro botão da camisa de padrão riscado e afasta-lhe os colarinhos da caminha e da camisola azul do pescoço transpirado.

Ajoelhado em frente a ele, o bombeiro mais velho olha-o, pergunta o que aconteceu. A senhora responde-lhe, um pouco embargada, que parecia ter-se desequilibrado ao final das escadas rolantes e se não era ela a ampara-lo teria ele caído para trás.

Olho para o lado, cabisbaixo o calor envergonha-se de se fazer tão forte e sai da gare, levando-se lívido para o meio da tarde. 

Eu, talvez por ter sido arrastado das minhas viagens entre o hoje, ontem e amanhã, ensonado e descoincidido de mim mesmo, vejo uma translúcida figura masculina, uma espécie de pessoa impessoal, cujo corpo parecia luzir uma luminosidade que não fere e que se esbate no sem contorno que o caracteriza e desvanece-se em transparência. Coloca a mão quase transparente sobre o ombro da mulher que amparou o idoso e o olhava, agora, num misto de apreensão carinhosa e rememoração saudosa de alguém partido. 

O bombeiro diz-lhe que pode ir agora, o comboio estará a chegar tarda nada, mas para ela, senhora, parecia tardar tudo, responde-lhe a esta espécie de anjo sem asas, que não, não tinha pressa, que faria o mesmo como se se tratasse do seu querido “paizinho”, senhora dixit.

O bombeiro sorri, levanta o joelho que tinha no chão, pisca o olho ao bombeiro mais novo e ergue-se. Coloca a mão no ombro do idoso, “posso levantar-lhe a camisola para medir a tensão”? O senhor responde que sim, “mas eu tenho comboio agora”, “não, o senhor não pode sair daqui enquanto não estiver melhor, está bem?”, “mas o comboio”, “tem alguém a quem possamos avisar que chega mais tarde? A sua esposa?”, “ela já morreu e eu tenho que apanhar o comboio”, “não se preocupe” retorquiu a senhora “eu levo-o a casa”, “mas eu moro na Régua”, “então temos um longo e bonito passeio para fazer” e sorriu, ao mesmo tempo que o vulto lhe passa as mãos transparentes pelos fios de cabelo que caíram sobre a face.

Vejo agora outros, mais ou menos translúcidos, menos ou mais luminescentes, uma pequena multidão parece rodear esta imagem de tarde sufocante. No perímetro estão pelo menos dois vultos bem maiores do que eu, uma espécie de barreira luminosa que forma um halo e me faz lembrar a luz que via passar-me pelos contornos dos dedos quando colocava a mão em frente ao sol.

Com carinho e cuidado, medem-lhe a tensão, auscultam-no, perguntam com sensibilidade se lhe estava a doer “aqui” e “aqui” e “agora aqui?”. O bombeiro mais novo acata a ordem do mais velho e retorna à ambulância, suponho, com o desfibrilador enquanto o outro desenha um padrão no telemóvel e entra em contacto com alguém.

O comboio surge ao fundo, na curva, ganhando dimensão como um velho e grande dragão que se anuncia pela cabeça e depois abre as asas entrando de rompante, silvando, na estação. Olho mais uma vez com o intuito de guardar bem cá no fundo da retina esta imagem, as pessoas levantaram-se com a chegada do comboio, faço por ser o último a entrar na carruagem amarela e já sentado, comigo a meu lado, olho para trás pelo vidro e por entre os reflexos do interior do comboio despeço-me um pouco emocionado pelo turbilhão de sentimentos que me chegam como uma maré aos olhos.

Enquanto o comboio arranca vou virando a cabeça para poder ver apenas um pouco mais. 

Ficam lá o idoso, desorientado, a senhora, que parece ter ganho uma inesperada orientação e o seu vulto luzidio com a transparente mão no seu ombro, o bombeiro mais velho com uma mão no ombro do idoso acarinhando-o e a outra no telemóvel, ostentando uma espécie de luminescência que lhe brota nas costas abaixo do pescoço e, aos meus olhos destreinados, se assemelham a umas asas, como se pudesse ser!, feitas do mesmo material dos outros vultos.

O comboio segue lesto na viagem quente, ganha velocidade, eu ganho apenas idade e vou, sentado, de frente para a lateral da carruagem, vendo o meu reflexo no vidro, as mesmas letras “quebrar em caso de emergência”. 

Baixo um pouco a cabeça e penso na inevitabilidade da vida, das vidas, que se iniciam algures e terminam nenhures, no aglomerado de luminescências que se vestem de companhia, nos vultos que se fazem vestes e se deixam atravessar por tantas e tantas vidas sem vida dentro, na miríade de habitantes de um universo que por infinito me parece tão pequeno.

O hipnótico som das rodas nos carris quentes e dilatados começa a embalar-me.

Penso no idoso que ficou sentado no frio banco metálico da plataforma, na sua fragilidade, no seu olhar assustado, de vultos rodeado, no chegar a casa e encontrar alguém, um filho preocupado, um cão de saudade espumado, uma esposa, se ainda a tivesse, de avental bordado e o susto que a susteria ao ver chegar o companheiro em companhia desconhecida... Não acabo o pensamento, dou um daqueles passos falheiros que damos ao adormecer e abro os olhos estremecendo de repente. 

Vejo no vidro o reflexo de alguém que não se senta a meu lado, pousa-me sobre a perna um avental, de arco-íris bordado, “a surpresa será dele, ao ver que quando pensou que eu partia eu estava ali ao lado dele e sorria”.

sábado, 20 de junho de 2015

QUE AS HÁ… HÁ!

Que as há… há! A tal ponto que na Roménia evidenciaram estar suficientemente furiosas com o Presidente
JORGE NUNO
e com o Governo do país; é que estes ousaram criar e aprovar nova legislação que as afeta com um imposto de 16% sobre o rendimento – o mesmo que pagam quaisquer trabalhadores por conta própria –, a que se junta a contribuição para a Segurança Social. Fazendo fé na notícia do jornal “Correio da Manhã”, como as bruxas e cartomantes não gostaram da “brincadeira”, antes que se fizesse tarde… toca a lançar um mau-olhado! Uma delas, sexagenária, que esteve presa durante o regime comunista, na presidência de Nicolae Ceausescu, terá preparado (contra os atuais governantes) uma mezinha com um cão morto e excrementos de gato; enquanto que uma dúzia destas “profissionais” ter-se-á dirigido ao rio Danúbio para lançar um mau-olhado aos ditos governantes romenos, tendo garantido que “o “mal cairá sobre eles”.

Em Portugal, no final de maio do presente ano, a comunicação social referia uma nota da Polícia Judiciária, que dava conta de uma investigação a envolver duas mulheres e um homem, concluindo que este trio estaria sob forte suspeita da prática de “crimes de burla qualificada”, ficando-se com a ideia que estariam detidos preventivamente. Um dos seus crimes era a abordagem de pessoas, na zona de Lisboa, dizendo à vítima (ou referindo-se a familiares próximos) que “padecia de um mal grave” – decorrente de mau-olhado –, levando ao convencimento que os seus problemas seriam resolvidos através de “alegados tratamentos espirituais, que se disponibilizavam a realizar”, e que podiam ter a duração de meses ou anos. Como não é habitual os burlões fazerem trabalho “pro bono”… neste caso exigiam às vítimas avultadas quantias em dinheiro e ouro, dizendo-lhes que o ouro seria enterrado para contactarem os espíritos malignos, como forma de proporcionar a cura da “doença”, e que depois do tratamento o ouro seria devolvido. Só num dos casos terá “voado” dinheiro e ouro no valor de € 200.000, presumindo-se que esse ouro tenha sido vendido e derretido.

Já no anterior mês de março, um artigo do jornal “i” referia em título: “Mau-Olhado: A crença que não escolhe idades nem classes sociais”. Nesse artigo, depois da divulgação de alguns casos concretos em Portugal, menciona a revista científica “Journal of Economic Behavior & Organization”, que dá a entender que a crença no mau-olhado terá aparecido como “defesa nas comunidades com maiores desigualdades sociais, para as pessoas se escudarem da inveja de quem tinha menos”. 

O senhor padre Fontes – pessoa por quem tenho uma profunda admiração, tendo colocado no “mapa” a pequena aldeia transmontana, Vilar de Perdizes, pertencente ao concelho de Montalegre – fomentou o Congresso de Medicina Popular, que vai este ano na sua 28.ª edição, e cujo evento é visto como um importante “acontecimento cultural”, mas onde, entre outros, é vendida a “erva da inveja, que combate os maus olhares e toda a espécie de inveja”. É conhecida a opinião do senhor padre Fontes relativamente a este assunto: para ele, o mau-olhado é uma mera superstição e atribui os “azares e os problemas” às próprias pessoas, através dos seus sentimentos de “ódio, raiva (…)”; esta opinião faz-me lembrar a frase atribuída a Neville Goddard: “Tenha cuidado com os seus humores e sentimentos, porque existe uma ligação ininterrupta entre os seus sentimentos e o seu mundo invisível”.

Não será preciso ser-se psicólogo ou sociólogo para realçar, nestes casos, a importância da crença e, pior ainda, da obsessão na vida de cada um. Se há alguém a acreditar que outrem lhe está a fazer mal, por exemplo, onde entre a inveja e o mau-olhado, esse sentir terá consequências… que poderá manifestar sintomas daquilo em que a pessoa acredita.

Na introdução do livro “O Poder da Mente” [ed. Círculo de Leitores, 2000], o comentário do Dr. J. B. Rhine, investigador de capacidades psíquicas na Duke University, Carolina do Norte, E.U.A., vai mais longe e refere: “assombra-me o facto de a imaginação conceber todas as implicações que se seguem, agora que se demonstrou que a mente, através de algum meio desconhecido e dela própria, tem a capacidade de efetuar diretamente as operações materiais no mundo à sua volta”. Objetiva com o exemplo de algumas pessoas que “conseguem hipnotizar, infligir maldições, mover objetos, (…), exercer o domínio coletivo de mentes, (…)”. No mesmo livro [p. 13] há um parágrafo com o título “Atividades Sinistras”, onde pode ler-se: “Talvez seja significativo que a sociedade ocidental considere sinistra (do latim para “esquerdo”) atividades como magia e misticismo, porque não parece existir qualquer lógica racional a apoiá-las. Contudo, outras atividades como meditação, ioga, cura pela fé, parapsicologia, adivinhação e realização de estados de consciência, alterados através do uso de drogas, desafiam a lógica do cérebro esquerdo e são praticadas por um número crescente de pessoas. 

Há quem não duvide que o mau-olhado é mesmo uma realidade, e que não será através dos olhos mas sim da carga energética gerada pela mente e pelas emoções; quem assim pensa, também considera necessário e possível “limpar esse campo energético” (subentendendo-se como negativo), enviado pelo pensamento de outrem. Mas os citados campos também podem ser positivos, em concordância com o pensamento. O Dr. John Pierrakos, do Instituto de Energética do NÚCLEO, em Nova Iorque, que faz o prefácio do livro “Mãos de Luz – Um Guia para a Cura através do Campo de Energia Humana”, de autoria de Barbara Ann Brennan, menciona haver uma “ligação da psicodinâmica ao campo da energia humana” e “descreve as variações do campo de energia na medida em que ele se relaciona com as funções da personalidade”. Hoje sabe-se, porque se pratica – com bastante sucesso –, não só a cura presencial como a cura à distância, sem recurso à medicina convencional e sem o consumo de fármacos.

Existem imensas investigações credíveis sobre esta matéria, de que destaco dois estudos. Um, foi efetuado pelo Dr. Barnard Grad, da Universidade de McGill, em Montreal, Canadá, que fez “investigação com sementes de cevada para testar o efeito de energias curativas psíquicas em plantas”. As sementes foram lançadas à terra e “regadas com uma solução salina, que retarda o crescimento; uma parte das sementes, lacradas num recipiente, foi regada com uma solução energizada” por um mestre de Reiki, e a outra parte não. Provou-se a existência dessa energia “extra”, já que o efeito da energia contida nesta solução, mesmo que aplicado o retardante, possibilitou “estas plantas cresceram mais rapidamente e mais saudáveis, com mais 25% de peso e um teor de clorofila mais alto, provando-se também que energias curativas podem ser armazenadas em água para uso futuro. Outro estudo, bastante divulgado, efetuado por uma universidade norte-americana, dá-nos conta da utilização de dois grupos distintos de voluntários: um deles, lançou “vibrações de ódio” junto de plantas; um outro, lançou vibrações de “amor e carinho”. As conclusões eram evidentes: “as primeiras murcharam e algumas até morreram, ao passo que as outras, as que receberam pensamentos e sentimentos de amor ficaram cada vez mais exuberantes”, provando haver “uma energia psíquica que pode ter efeitos benéficos ou maléficos, a depender dos sentimentos ou intenções do seu emissor”.

Na luta diária pela sobrevivência num país em crise, é natural que haja um acréscimo de angústia, por se “ver a vida a andar para trás” –, mas também de um aumento de crença, de inconformismo e de vontade de recorrer a profissionais, como quem quer agarrar-se a algo para inverter o ciclo negativo que o sufoca. Não é por acaso que os psiquiatras e psicólogos têm mais pacientes nestas ocasiões. Não é por acaso que acontece o mesmo com as videntes, cartomantes e outros profissionais, amadores e burlões deste ofício. Não é por acaso que todos os dias úteis, logo de manhã, no programa da SIC – “A Vida nas Cartas”, com Maria Helena Martins –, há uma apreciável audiência e muita afluência de chamadas de valor acrescentado, sendo que metade das “consultas” tem a ver com a inveja e o mau-olhado. Não é por acaso que, precisamente há mesma hora, também a TVI tem no ar o programa “Cartas da Alma”, com um formato semelhante. 

A Maria Helena Martins também transmite a ideia que somos nós os principais causadores do que nos acontece de mal, particularmente pela forma negativa como encaramos a vida, mas vai deixando escapar que se a pessoa se sentir insegura e quiser agarrar-se a um amuleto, que pode ser um “santinho” na carteira, uma medalhinha ao pescoço, uma rosa de Jericó ou um olho da Turquia, por afastarem a negatividade e dar sorte, não vem nenhum mal ao mundo por isso. E se mesmo assim ainda sentir necessidade de fazer uma oração ou um ritual, há-os para todos os gostos, e exemplifica com uma para o mau-olhado (pelo sim, pelo não…) : “Deus te viu, Deus te criou, Deus te livre de quem para ti mal olhou. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Virgem do Pranto, tirai este quebranto” – que é dito na altura em que pinga azeite num prato com água, utilizando o dedo polegar.

Desde pequenino que eu ouço dizer: “Não acredito em bruxas… mas que as há… há!”; e em castelhano até parece que tem outro sabor: “No lo creo en brujas … pero que las hay… las hay!

sexta-feira, 19 de junho de 2015

SESSENTA MILHÕES?!

GABRIEL VILAS BOAS
Sessenta milhões?! Quando li, precisei de ler novamente, de digerir devagar, porque o número impressionava! Sessenta milhões de pessoas procuravam refúgio noutros países, porque, nas suas terras, são perseguidas, por causa da religião, da raça, da guerra e, sobretudo, da fome. 

Homens, mulheres, crianças, velhos. Gente desnutrida, doente, descalça, esfomeada faz centenas de quilómetros na busca dum oásis de esperança, entre balas, tanques, ódios animalescos dos senhores alucinados da guerra.

Só nos últimos quatros anos, os refugiados em todo o mundo cresceram cerca de 40%. Passamos a reparar nos sírios, nos iraquianos, nos afegãos como gente de mão estendida à caridade internacional, que demora, que se faz desentendida, que quer negociar… Mesmo depois de toda a tragédia que se passou nos últimos meses no mediterrâneo, com os migrantes que chegam a Itália como náufragos, a Europa rica, desumana e hipócrita hesita, pede dinheiro, impõe restrições à chegada desta gente desesperada, que perdeu quase tudo e tenta apenas sobreviver. 

Passos Coelho declarou que o dinheiro proposto para acolher cada migrante é pouco; os ingleses já disseram que ajudam com roupa, comida e algum dinheiro, mas não têm intenções de acolher ninguém; os franceses, todos eles Charlie Hebdo, só entendem a solidariedade no sentido que lhes interessa; os alemães já avisaram os italianos que estão a ser demasiado complacentes na entrada dos migrantes do outro lado do mediterrâneo e que sendo assim, têm muita pena, mas Schengen está em risco. Que gente abominável!

Louvo a atitude fraterna, humana, solidária dos italianos que recolhem todos, mesmo sem grandes condições. Louvo-os porque dizem ao resto da europa que já não têm mais lugar para os clandestino que chegam às suas praias e não àqueles que chegam com a roupa do próprio corpo como único património. 

Esta gente foge porque há loucos como o Estado Islâmico; foge porque há mais gente no mundo com fome do que a comer o necessário para subsistir; foge porque a europa rica e hipócrita apoiou ou pactuou com regimes desumanos e assassinos como os de Bashar al-Assad, durante muito tempo.

Os refugiados precisam de muito mais do que um alto comissário das Nações Unidas, por muito que a ação de António Guterres tenha sido meritória e esforçada. Guterres fez alguma coisa, mas claramente foi insuficiente. Angelina Jolie foi mais mediática, mais dura com os mais poderosos, mais incisiva e, sobretudo, deu o exemplo, a nível pessoal. 

A questão dos refugiados não é só um problema daquela gente desesperada, mas de todos nós, que ainda presamos a nossa consciência e o nosso sentido de humanidade. Exige respostas rápidas, mas também ações de fundo, pensadas para uma década, para que aquele número assustador diminua drasticamente. 

Se não fizermos nada, também nós afundaremos no nosso mediterrâneo de egoísmo, hipocrisia e desumanidade.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

QUANDO VIVER É UMA LIMITAÇÃO

Desta vez, decidi pelo valor da vida. Apresento, por isso, um excerto do meu conto Até Ser Primavera, num elogio à pequenez humana, uma vida dependurada da vida, a desistir e a renascer. De como alguém, num coma profundo, decide que não está morto. Alguém encarcerado no seu próprio corpo. (locked in). De como o sonho agita para a vida.
Espero que gostem.

“Trabalhar a memória e a imaginação são a melhor escapatória. 

A viagem da borboleta: no meu sonho, quando elas chegavam ao seu destino, havia muitos que acreditavam
ANABELA BORGES
que elas eram espíritos, almas dos que já partiram, que vinham do outro mundo visitar aqueles que deixaram, diziam: Ali está aminha mãe, ali está o meu amigo. São aos milhares e recolhem-se numa floresta que é um cobertor microclimático, como mágico. Essas almas contumazes e compassivas enchem o espaço todo, cobrem o chão e povoam o ar, e decoram de mil cores os troncos altos das árvores milenares. 

Com a capacidade de imaginar, posso tudo. Consigo perscrutar o silêncio do hospital, que já lhe conheço as quietudes e os movimentos, o sossego e a azáfama. E era nas horas de silêncio que a imaginação proliferava mais: a minha mente revia cada canto, cada parede clara, cada cama, cada doente, cada moribundo. Tudo me era permitido no silêncio da noite, no meio da penumbra, porque creio que um hospital só fica totalmente escuro quando fechas os olhos de vez.

Certas pessoas só veem o que está mesmo à sua frente; outras só precisam de fé para acreditar. Eu precisava de evidências – de ver para crer – e as evidências estavam ali, mesmo à minha frente. Todos temos como certo o dom da vida, mas, quando menos damos por isso, o dom desaparece. E isso pode despertar coisas incontroláveis e obscuras dentro de nós. Todos temos um lado obscuro. 

Pela primeira vez, dei comigo a pensar nisso, porque a minha vida, ou pelo menos a que tinha, estava a chegar ao fim. 

Agora que voltei a comunicar, não sei se digo o que sinto ou apenas o que recordo. Porque muito do que sei são apenas ideias vãs. É importante dizeres certas coisas enquanto ainda podes, que quando tudo acaba, acaba.

Já não digo que quero morrer. Mesmo que quisesse dizê-lo, não conseguiria, mas não o digo, nem com o piscar de olhos nem na minha cabeça.

Demorei muito tempo a compreender, a devolver a luz aos meus olhos, para mostrar aos outros que também me estou a esforçar. 

A vida é brutalmente simples. Resume-se a conseguir ser feliz e proteger os que se ama – afigura-se-me assim. 

Agora, sei que os sentimentos que terão existido em mim ainda não se esgotaram de todo. 

Para tudo, é preciso aptidão natural ou treino. Sei, agora, que a minha vida era toda diferente do que se me apresenta. Sei também que tenho de reaprender a viver. Se não tenho jeito para levar a cabo estas novas tarefas, terei de aprender a fazê-las, como antes aprendi a fazer tudo o que quis ou precisei. Tenho de melhorar as técnicas, treinar. Ela disse-me, aqui, um dia, perante a minha aparente indiferença, que quando alguém tem grandes dificuldades para ultrapassar, pode tornar-se muito bom nessa matéria, pode ser mesmo insuperável, o melhor, que é só querer, ter força de vontade. E eu pensei: a minha borboleta.

Depois de três semanas no interior do casulo, a sofrer as dores da metamorfose, a lagarta acorda do seu longo sono e dá lugar à borboleta, num caldo de genes que o tempo velho transporta religiosamente: as peças bocais são agora uma probóscide; os doze pequenos olhos fundiram-se em dois; crescem-lhe as antenas e as belas asas. Pesa meio grama. Ainda assim, terá de esperar durante duas horas, nessa eternidade da sua curta vida, para que o corpo se capacite da sua nova condição, se liberte da baba pegajenta e as suas asas endureçam. Só depois, poderá voar. Ela tem um dia certo para iniciar o seu êxodo – um belo dia de outono em que o sol se eleva 52o acima da linha do horizonte. Chegará ao seu destino no início da primavera. 

Agora sei que cada um tem a coragem do tamanho das suas convicções. Acho que era isso que eu defendia antes, na outra vida que tinha. 

Quando acordas de um coma, não sabes o que regressará de ti. 

E agora sei que a escuridão também é necessária, nem que seja apenas para podermos ver as estrelas. 

Para quê temer o amanhã, se hoje é apenas o que tenho? Quero esforçar-me para que não voltem a dizer-me que sofro da doença da doença. Quero aprender a amar e deixar-me ser amado.

O que eu realmente gostaria? Que este meu estado durasse o tempo que dura um sono. Mas não será assim.

No fim das contas, todos nos agarramos a alguma coisa. E se me fazem crer que ainda não sou uma mala velha, não me vou deixar ficar para trás.”

Anabela Borges, ATÉ SER PRIMAVERA, anthologia de contos, da Pastelaria Studios Editora, 2014

terça-feira, 16 de junho de 2015

RASTEIRAS E EMBUSTES: OS EXAMES NACIONAIS

REGINA SARDOEIRA
Estou aqui a reflectir sobre a palavra “rasteira” e a descodificá-la como correspondendo a uma armadilha, a um obstáculo que se deixa no caminho, de propósito, para alguém tropeçar e cair, a um modo falso ou falacioso de proferir um enunciado, de maneira que aqueles com quem falamos sejam ludibriados. Se penso, aqui e agora, em “rasteira” é na exacta medida em que acabo de ouvir/ler uma reportagem da Antena 1 acerca dos exames nacionais hoje realizados. E cito: “Já quanto a Filosofia as coisas não correram tão bem: alunos e professores dizem que esta prova tinha algumas “rasteiras”.”

De imediato me sinto apoiada a vários níveis com esta palavra tão certeiramente aplicada ao exame de Filosofia e à Filosofia que nos obrigam a dar aos alunos do ensino secundário (e note-se que não escrevi “ensinar”, mas sim, “dar”). Precisamente: este exame de Filosofia, como outros exames de Filosofia do mesmo teor, apoiados num programa de Filosofia absolutamente inadequado não pode deixar de ser uma tremenda “rasteira”.

Mas falemos, antes de mais, do exame nacional, em si, seja ele de que área for. Vejamos se também os exames nacionais de Português, Matemática, Geografia, etc. são rasteiras passadas a alunos e professores.

Durante dois ou três anos, consoante os casos, os alunos são avaliados, de modo contínuo, quer através de testes, quer através de trabalhos escritos ou orais, quer através das suas atitudes e comportamento, e o professor vai-os conhecendo, gradualmente, vai-os classificando, numa sucessão de três períodos (ao longo de cada ano). Tratando-se de professores normais, que dão aulas normais a alunos normais (deixo de lado as excepções), posso dizer, com algum rigor, que, no final desses dois ou três anos, o professor conhece bem o seu aluno, pelo que a avaliação definitiva que lhe atribui deve corresponder ao valor global do aluno – uma vez que esse valor tem que ser traduzido de modo quantitativo. 

No termo dos dois ou três anos, esse aluno, já classificado por aquele ou aqueles que tão bem puderam conhecê-lo, para avaliá-lo, é obrigado a preparar-se para um exame nacional e, em duas horas, deve responder a um conjunto de perguntas e resolver um certo número de itens, relativos às matérias já leccionadas e avaliadas nos dois ou três anos anteriores. Primeira rasteira: em duas horas, joga-se todo o trabalho feito em dois/três anos lectivos. Posteriormente, os exames são entregues, sob anonimato, a um professor/corrector a quem dão, ao mesmo tempo, instruções de correcção, critérios e propostas de resposta. Esta rasteira é para o corrector que fica refém das orientações que lhe são dadas e, não fazendo ideia de quem é a prova que está a corrigir, trata o que está escrito no papel de modo impessoal, seco, burocrático. Ele não sabe se a nota do exame era muito ou pouco importante para o aluno, ignora se o aluno estava nervoso ou preocupado com a situação exepcional do exame, nada conhece das características pessoais daquela entidade numerada; apenas sabe que terá que classificar a prova (para o bem ou para o mal). 

Por outro lado, há todo um teatro, nas salas onde decorrem os exames, que é, a todos os níveis, absolutamente extraordinário. Dois professores aguardam os alunos e fazem-nos sentar, de acordo com a lista ordenada alfabeticamente; obrigam-nos a largar tudo o que transportam consigo num local designado; analisam se ele tem em seu poder apenas material de escrita e, se houver necessidade de outros suportes, como máquinas calculadoras ou dicionários, um professor especialista é seleccionado para vir examinar se tais materiais são autorizados ou se esconderão alguma possibilidade de fraude; lêem-lhe um decálogo de regras do comportamento que deverão assumir durante o exame e logo que acabe; se transportam consigo uma garrafa de água, fazem-no descolar o rótulo; e agora até certos relógios mais avançados terão que ser apreendidos, pelo que os próprios relógios se revelam objectos suspeitos! As folhas têm que ser preenchidas de uma certa maneira, sob pena de terem que ser inutilizadas ou rasuradas, burocraticamente, com duas assinaturas, etc. Os dois professores vigilantes e os alunos devem permanecer ali duas horas (e mais) absolutamente silenciosos e pouco mais do que hirtos, zelando para que tudo decorra conforme o estipulado. 

Tudo isto constitui uma série de rasteiras, quer para quem vigia, que precisa assemelhar-se a um polícia e escrutinar rigorosamente os alunos, quer para os alunos, já à partida colocados num acto excepcional e ainda submetidos a tão estrita e suspeitosa vigilância.

Dir-me-ão que sempre assim foi, que o exame exige estes procedimentos para ser credível e isento, que é necessário o sigilo e o anonimato para não haver embustes; e eu objecto que o próprio exame é, em si mesmo, na sua condição aferidora e na sua excessiva importância, um embuste, uma rasteira.

Os alunos vão fazer exame porque são obrigados; mas só a algumas matérias. Há, desse modo, matérias de primeira (as que são, obrigatoriamente, sujeitas a exame nacional) e matérias de segunda (as que dispensam essa aferição). Algumas são importantes para compor a média dos alunos que querem seguir para a universidade; outras, nem por isso.

O exame de Filosofia, que o aluno pode ou não realizar no final do 11º ano é, decerto, o mais estranho de todos. Em primeiro lugar, não é obrigatório: mas pode servir para libertar o aluno de realizar uma das outras duas provas obrigatórias que deve realizar. Exemplificando. O aluno é da área de ciências e deve fazer obrigatoriamente exame nacional de Física e Química e de Biologia – mas pode trocar um destes por Filosofia; O aluno é da área de Humanidades e deve fazer obrigatoriamente exame nacional de Geografia e História – mas pode trocar um destes por Filosofia. 

Nunca entendi que espécie de vantagem tem o aluno que substitui Física e Química por Filosofia, ou Geografia por Filosofia, a não ser trocar um mal maior (a Física e Química ou a Geografia) por um mal menor (a Filosofia); mas também não consigo entender por que há-de a Filosofia aparecer a esses alunos como um mal menor! Que os exames são males, isso parece não haver dúvidas (eu sou do tempo em que as notas elevadas de frequência produziam dispensa de exames…porque o exame era um mal a evitar e as boas notas tinham esse poder!), mas por que razão a Filosofia teve que converter-se numa oportunidade de fugir a uma matéria tida como mais difícil e valer o mesmo (ou seja o aluno fica aprovado ou não com o exame de Filosofia, como ficaria com o de Física e Química ou Geografia) quando as diferenças entre as matérias são abissais…isso não me entra na cabeça! Agora se me disserem que fazer o exame de Filosofia permite obter uma nota que pode dar acesso à universidade (mesmo tratando-se de uma disciplina de formação geral e não específica)…essa razão posso atender. Mas, tanto quanto sei, nem para entrar no curso de Filosofia é exigida, especifica e absolutamente, uma nota de exame a Filosofia!

Sendo assim, como credibilizar este exame? É evidente que os alunos que decidem fazer exame de Filosofia não se interessam propriamente pela Filosofia, antes querem livrar-se de uma disciplina que, segundo eles, lhes traria mais trabalho! Por outro lado, consultando, as médias de exame nacional do ano passado a Filosofia – 9,7 – não creio que a troca tenha sido excepcionalmente benéfica, percebendo que a Física e Química a média foi de 8,8 e a Geografia de 10,5! 

Escrevo todas estas considerações e sinto um certo desconforto. O conceito de exame nacional não faz grande sentido, neste tempo marcado por tantas diferenças de norte a sul do país e mesmo dentro de uma mesma cidade ou região.

No que diz respeito à Filosofia, por exemplo, há dois anos atrás o Ministério decidiu apresentar um programa para exame não coincidente com o programa que era lecionado durante o ano. Logo, os professores necessitaram de fornecer apontamentos- extra aos alunos, visto que os manuais adoptados não incluíam esses assuntos.

Stuart Mill e David Hume, por exemplo, não eram estudados em profundidade: mas o exame obrigou a tal. Descartes era leccionado como exemplo do racionalismo, juntamente com Platão e Kant: de um momento para o outro o exame questiona Descartes com uma certa profundidade, ignora Kant no que concerne à Gnosiologia, pede aos alunos que comparem as ideias dos filósofos…Quanto a mim, afirmo que, para que os alunos pudessem efectivamente compreender Descartes ou Kant ou David Hume, necessário seria um estudo muito mais profundo e durante muito mais tempo. Desde o ano passado que os manuais de Filosofia passaram a incluir estes temas não-obrigatórios e alguns trazem mesmo a tarjeta: Matéria sujeita a avaliação externa. Mas isto não significa que os professores tenham sido informados acerca da alteração dos programas ou tão pouco tenham sido consultados a esse respeito: sai no exame, logo é obrigatório, mesmo que à partida, não conste das planificações.

Rasteiras e embustes: eis o que me parece ser qualquer exame nacional. Rasteiras e embustes: eis o que julgo serem os rankings das escolas efectuados friamente, com base nos resultados dos exames; rasteiras e embustes: eis o que considero ser a avaliação dos alunos feita nesta base e consequente avaliação do professor.

Eu, por exemplo, passei este fim-de-semana um pouco nervosa, pois não pude deixar de pensar que um grupo de dezasseis dos meus alunos iriam submeter-se hoje à prova de Filosofia – para não fazerem outras, tidas como piores (para eles) – e que semelhantes alunos decerto vão descer a sua (em geral) já baixa classificação de frequência. Tentei alertá-los para isso e fiz o esforço (a que não sou obrigada) de dar-lhes aulas de apoio para o exame. Fiquei estonteada, pois percebi que os temas do 10º ano já estavam no limbo e os do início do 11º seguiam o mesmo caminho. Sei que os alunos estudam nas vésperas: como guiá-los em tão pouco tempo na imensidão de problemas que a ciência filosófica alberga? Como dar-lhes a fórmula capaz de, uma vez decorada, resolver todas as questões? Não dei. Ou se dei, foi insuficiente porque veio a rasteira: os alunos foram questionados sobre estética, filosofia da arte, géneros artísticos – e não há, decerto, tema mais complexo do que ajuizar filosoficamente sobre a obra de arte. Ora, ao longo dos anos, este tema não foi incluído nos exames nacionais, e eu imaginava que afinal haveria alguma sensatez nas mentes de quem elaborava as provas. Não dei ênfase ao assunto: mas ele lá está, na prova, como rasteira!

Não chegavam Kant, Stuart Mill, Locke, Rawls, Descartes, David Hume, Popper e Kuhn? Não era suficiente a lógica e as regras do silogismo, a retórica e as falácias? O determinismo e o livre arbítrio e as éticas deontológicas e utilitaristas? E o conhecimento prático ou por contacto ou proposicional e se a crença justifica ou não o conhecimento? E…? 

Não, era necessário que os alunos soubessem falar também de arte e de estética, dessem a sua opinião acerca do expressionismo e de sei lá que mais e se movimentassem nesse universo tão escorregadio como é o da conceptualização da arte e da obra de arte!

Rasteiras. Embustes. Eis o que penso dos exames nacionais e um pouco de todo o sistema de ensino em Portugal.