sábado, 23 de maio de 2015

JÁ NÃO SE PODE DORMIR?

JORGE NUNO
A seguir ao almoço, sento-me em frente ao meu PC para iniciar a crónica para a BIRD, e dou uma olhada pelo correio eletrónico, pelas notícias online e pela minha página do Facebook. Nesta, deparo-me, imediatamente, com uma foto na comunidade em que sou membro e com a qual me deliciei: uma imagem recente da Serra da Estrela, com um pastor deitado no chão, a dormir, enquanto as suas cabras se mantêm em vigília, junto às fragas e a pastar, dando a ideia, pela pose e pelo porte, de que os ares da serra dão um apetite devorador. 

Há aqueles que não dormem em serviço – nem podem – acreditava eu, para bem de todos nós. Mas compreendo e entendo que este pastor fez mesmo bem em tirar uma soneca, e admito que sempre terá o seu cão de pastoreio (que não vi na foto) que, com determinação, vigia e pode pôr as cabras em ordem, se começarem a tresmalhar-se.

Não sei se por influência deste quadro bucólico, se pelo efeito do estômago composto, se pela temperatura exterior de 38º C, a verdade é que começo a sentir-me, rapidamente, no estágio 1 do sono NREM (Non Rapid Eye Movement), que é como quem diz: com uma sonolência! Sem desligar o computador, atirei-me para cima da cama ao lado, sem querer saber que esta fase costuma ter a duração aproximada de 5 minutos. Apenas sei que adormeci e devo ter chegado ao estágio 4 – o do sono profundo – como um Porsche Boxster GTS chega dos 0 aos 100 kms/h, ou seja, em 5 segundos!

Acordei cinquenta minutos depois, com o correr e gargalhar das pequenas vizinhas de cima, não sendo eu tão veloz quanto o Porsche a chegar aos 100 km/h… na minha tentativa de identificar e assimilar qual a proveniência do ruído. Poderia ficar rabugento e, na melhor das hipóteses, refilar coisas simples e educadas como: “Já não se pode dormir?”, ou “Ninguém põe as crianças a dormir?”, ou “Ninguém leva as crianças ao até ao jardim?” – sim, porque não sou dado a praguejar impropérios, embora por vezes dê mesmo vontade de perder a cabeça e começar a desatinar –. Em vez disso, lembrei-me do ator e escritor Peter Ustinov que terá dito que “o som de uma gargalhada sempre lhe pareceu a mais civilizada música do universo”. E aqui, não era uma gargalhada, mas muitas e repetidas gargalhadas, logo uma grande sinfonia enviada… quem sabe, pelo universo, para eu acordar. Em surdina, agradeço às miúdas e ao universo, pois a tão apregoada sesta, com efeitos benéficos para a saúde, estava razoavelmente cumprida e eu sentia uma vontade reforçada de escrever a crónica.

Talvez tenha dado para ver que eu não sou daqueles que sofre de perturbação comportamental do sono, e muito menos das “agruras da privação do sono e desacertos com os ritmos do bebé”, quando este teima em não querer dormir, já que passei por isso há mais de três décadas, lembrando-me que tinha que contar, milhentas vezes, a “história da menina muito chata”, história que era suposto ter o efeito contrário ao verificado. 

Li algures que “vidas interessantes dão sonos tranquilos” e li, também, no livro “Dormir Tranquilo”, da autoria do pediatra Mário Cordeiro, que “o registo de vida stressante desregula a hormona do sono – a melatonina –. A ser assim, então a minha vida e a do pastor estavam a ser interessantes e sem stresse, com a diferença que ele sempre podia prolongar a sesta, sem ser acordado pelas miúdas a correr e a rir, nem pelo som das sinetas das cabras, a que já deveria estar imune. 

A propósito da sesta, Sara Medrick, professora do Departamento de Psicologia da Universidade da Califórnia, no seu livro “Durma a Sesta, Mude a sua Vida”, naturalmente, faz aquela apologia e alega que o desempenho é melhor quando se dorme mais. Uma pesquisa da NASA – a agência espacial norte-americana – aconselha que se durma no local de trabalho, pois terá chegado à conclusão que “os pilotos que fizeram uma sesta de 25 minutos estavam 35% mais atentos e duas vezes mais focados do que aqueles que não tinham dormido”. Outros estudos mostram que “as sestas dinamizam a aprendizagem, fazem com que aumente o sentimento de felicidade e ainda contribua para um aumento da atenção, memória, aprendizagem e criatividade”. 

Temos que reconhecer que o sono – como estado normal de repouso para o corpo e mente – complementa o estado de vigília e que a sua privação pode afetar a regulação e regeneração das células e afetar, igualmente, o sistema imunológico. A ser assim, depois do que já tinha lido e do que agora escrevi, tenho duas dúvidas, por haver um difícil entendimento: 

1.ª – Custa a admitir que nas longas e animadas sessões na Assembleia da República haja deputados que adormeçam, cumprindo o ritual da sesta sempre que lhes apetece e, face aos resultados comprovados dos estudos, não se veja um melhor desempenho com esse “passar pelas brasas”;

2.ª – Custa a admitir a veracidade da notícia veiculada pala BBC, com base em informações dos serviços secretos sul-coreanos enviados ao parlamento do seu país, que o líder supremo da Coreia do Norte, Kim Jong-un, tenha mandado executar o general Hyon Yong-Chol, ministro da defesa (tal como já fizera com o próprio tio), com tiro(s) de bateria antiaérea – método destinado à execução de altos funcionários e à frente de centenas de pessoas –, pelo ato “desrespeitoso” do general adormecer num evento público onde o líder supremo se encontrava.

Abençoado pastor que, em contacto com a natureza, aparentava o sono dos justos!

Abençoada sonolência que senti quando iniciei esta crónica, ainda sem tema, e sem ter que responder perante ninguém.

E se os factos são verdadeiros, estranho mundo… em que um general que ousou “passar pelas brasas” numa cerimónia oficial nem deva ter podido questionar educadamente: “Já não se pode dormir?”

sexta-feira, 22 de maio de 2015

A BANALIDADE DO MAL

GABRIEL VILAS BOAS
Passo os olhos pela memória dos últimos dias, que não são assim tão poucos, e tropeço em pedras, cassetetes, agressões, roubos, vandalismo, cargas policiais, humilhações, mortes. 

A violência tomou conta da vida coletiva e já nem nos admiramos que não haja razões que expliquem tudo isto. Muito dificilmente a violência encontra justificação, mas, por vezes, pode explicar-se. Nos últimos dias, nem isso. 

Um clube de futebol conquistava algo inédito em três décadas e no meio do júbilo de centenas de milhares de portugueses, irrompe uma onda de violência tão absurda quanto inquietante. 

Qual a razão para gente feliz e satisfeita vandalizar, roubar, destruir, enquanto esperava que a polícia garantisse condições de segurança para que abandonassem um estádio de futebol? Como entender que algumas centenas entre muitos milhares resolvam estragar a festa de gente sua atirando pedras, garrafas, petardos, cocktails molotov à polícia? Como explicar a fúria encolerizada de um polícia perante um cidadão que a ele se dirige, na presença dos filhos menores e dum velho pai, que desata à cacetada para efetivar a mais simples das detenções? 

A violência já não precisa de justificações sociais nem psicológicas. Existe porque tudo o resto parece aborrecido. Nem as vitórias, os momentos de exaltação, as alegrias desejadas durante meses, conseguem suster esta animalidade grotesca e maligna que se apossa de algumas pessoas. 

Cinco dias passados sobre os acontecimentos, os jornais, as televisões, as rádios conseguiram ouvir quase toda a gente sobre os acontecimentos de domingo passado em Guimarães e Lisboa, mas não conseguiram ouvir os protagonistas. E foram tantos! Sobram os comentários, as análises, os lamentos, os clássicos pedidos de medidas e castigos, as desculpas tardias daqueles que tacitamente concordaram com o esquema da festa no Marquês do Pombal. Já eu gostava de ouvir o que têm para dizer os vândalos que saquearam os bares do estádio do Guimarães, os operacionais da intifada do marquês e, claro, o polícia mais famoso do país, pelos piores motivos. Gostava de perceber PORQUÊ?, mas, talvez, nem eles saibam. Receio que me continuassem a chocar, temo que nenhum arrependimento lhes tenha passado pela consciência. 

Durante algum tempo, pensei que aquele agente graduado da PSP encontraria um meio de pedir desculpa ao avô que esmurrou e à criança que aterrorizou, no final da tarde de domingo, mas o máximo que consegui ler foi um pífio recado mandado aos jornais por um colega: talvez se tenha excedido. 

Não acho, como o professor Marcelo, que estejamos mais sensíveis à violência. O problema é que a violência entra no corpo e na alma de cada vez mais gente e não encontra sensibilidade nenhuma.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

FALEMOS EM DESACORDÊS

ANABELA BORGES
“A língua é um organismo vivo”, a professora explicava. E os alunos, naquele ponto, ficavam logo muito atentos.

E perguntavam, “Como assim, ‘vivo’? Como um animal?”.
“Sim”, respondeu a professora, “como qualquer ser vivo”.
“Uma língua nasce, cresce, modifica-se, envelhece”, continuava a professora, logo interrompida pelo aluno incrédulo sentado ao fundo da sala (aquele que punha sempre tudo em causa, mesmo quando se tratava do mais logicamente entendido por todos), “E morre?”.
“Morre.”, respondeu outro, sentado na fila lateral.
“Como o Latim!”, disseram alguns quantos em coro.

A professora sorriu, orgulhosa. Não raro, recorria ao Latim para explicar a origem de muitas das palavras. Os alunos sabiam que o Latim era uma língua morta. Mas ali falava-se da língua viva. A língua em movimento, praticada por mais de 240 milhões de falantes em todo o mundo; a quarta língua mais falada e segunda em reuniões de negócios, logo depois do Inglês. Estes dados relativos à Língua Portuguesa, todos recentes, eram apresentados pela professora com recurso a fontes, para que os alunos vissem da sua veracidade. E perguntava, “É, ou não, de termos orgulho na nossa língua e de a tratarmos bem?”, os alunos respondiam “Sim!”, ainda um tanto estonteados pela força dos números.

Daí para a frente, não foi difícil explicar os ‘processos de formação de palavras’, nem foi nada difícil para a professora dizer que era contra ‘acordos ortográficos’. Porque não há forma de uniformizar uma língua falada por cerca de 240 milhões de pessoas. O Português, nas suas variantes – europeia, africana e brasileira –, possui inúmeras pronúncias, sotaques, variedades linguísticas e um vocabulário riquíssimo, de uma riqueza impossível de quantificar. Cada país de Língua Portuguesa tem as suas especificidades. 

Vejamos:
Se não fosse a riqueza de vocabulário do mundo da lusofonia, a professora nunca poderia dizer “Estou cá com uma (a)zoeira na cabeça”, e nem poderia sequer queixar-se que tudo se devia ao banzé feito pelos alunos. Não poderia dizer que a sua mãe estava a ver a xepa, que era como lá por casa designavam a telenovela. E em vez da mochila que os jovens tanto prezam, talvez continuássemos a chamar alforge ao saco de levar os livros para a escola (um exagero certamente aqui, mas “mochila” não diríamos, que a palavra não é originariamente nossa). Nem poderíamos utilizar a palavra canoa para designar a curiosa embarcação que habitualmente se vê a sulcar o rio Tâmega. Ou dizer que comemos pipocas quando fritamos o milho.

Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação”, escreveu Vergílio Ferreira. A língua portuguesa conjuga, em muitos aspectos, o sabor salgado e o cheiro da maresia. O caminho essencial, esse desconhecido que foi traçado com vigor e convicção: o mar. E o mar trouxe-nos muitas palavras.

Além das palavras do mundo lusófono, outras palavras estrangeiras, faladas um pouco por todo o mundo, vão entrando na nossa língua e fazendo parte do nosso vocabulário oficial. São os empréstimos. Os alunos não tiveram qualquer dificuldade em dar exemplos à professora: “croissant”; “paparazzi”; “boom”; “shopping”; e uma parafernália de expressões ligada ao mundo das tecnologias – “motherboard”; “backup”; memória RAM; “e-mail”. Ah, sem dúvida, os alunos são barra nisto! É como se tivessem nascido com um “chip” instalado, com todo um roteiro de palavras orientadas para o mundo das TIC (acrónimo para Tecnologias da Informação e Comunicação). E para explicar que eles, os jovens, têm bué de influência nas transformações da língua, a professora explicou também os processos de truncação. E explicou-lhes assim, “Vocês gostam de poupar nas palavras: cortam uma palavra a meio, ficam com metade e deitam a outra metade fora”. Mais uma vez, os alunos foram rápidos a dar exemplos, “Prof’; Net’; Face’; Insta’…”. E depois ficaram muito admirados quando a professora lembrou que “foto” é uma truncação de “fotografia” e “metro” de “metropolitano”. E quando acrescentou que ‘s’tor’ era uma espécie de truncação da gíria estudantil que significava “senhor doutor”, foi o pasmo geral, uma surpresa total, pois os alunos desconheciam tal significado do vocábulo que usam de forma tão recorrente. Habituam-se de tal modo à linguagem corrente, que acabam por esquecer o vocábulo original. Mas isso é o preço a pagar pela evolução natural da língua. E esse foi o pretexto para a professora explicar algumas palavras amalgamadas, que, por força do uso, por pragmatismo, por rapidez de comunicação (por vezes, por pura preguiça), se transformaram em vocábulos cuja origem se vai perdendo, como “telefone móvel” para telemóvel, ou “informação automática” para informática.   

Tudo isto faz parte de um processo lento, estranhado e saboreado pelos falantes. É a evolução da língua. A língua perde e ganha novos vocábulos, e nós afeiçoamo-nos mais a uns do que a outros. E procuramos selecionar os que mais nos aprazem na prática da comunicação.

Lá mais para o final da aula, um aluno perguntou à professora, “E a palavra ‘s’tor’ como se escreve?”.
Boa pergunta! Isso foi logo o que a professora pensou, “Boa pergunta!”. E respondeu: essa palavra ainda não entrou oficialmente no vocabulário. E, desde já, vos digo: se entrar, será um problema para os linguístas conjugarem esta palavra com o Acordo Ortográfico (1990), pois iremos nós retirar um ‘c’ a sector e o professor passará a ser um ‘setor’?


Porque isto são mais de 800 anos de língua portuguesa, organismo vivo, sempre   em evolução. E a evolução faz-se caminhando, não é com golpes de espada de desacordês.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

SARA MAGALHÃES
Ouvi estas palavras pela primeira vez em 2003. A partir dessa altura continuei, até hoje, a querer saber mais sobre esta forma de Inteligência. 

As regras de trabalho encontram-se em mutação e somos hoje avaliados por uma nova bitola. Não somos apenas avaliados pela nossa inteligência ou pelas nossas habilitações literárias, mas também pela forma como gerimos a nós próprios e aos outros. Acredito que devo ensinar as crianças e os jovens para esta realidade: habilitações centradas nas qualidades pessoais tais como, autoconfiança; autodomínio; integridade; capacidade de comunicar; a iniciativa e a empatia, a adaptabilidade; influenciar e aceitar a mudança, são cada vez mais importantes para as novas regras de trabalho.

Numa época em que não existem garantias de segurança no emprego, em que o próprio conceito de “emprego” está a ser substituído pelo de “perícias portáteis”, estas são qualidades fundamentais que nos tornam e nos conservam empregáveis. 

Foram mencionadas ao longo de décadas com vários nomes vagos, desde “caracter” e “personalidade”, até “qualidades pessoais” e “competências”, há finalmente uma compreensão mais precisa destes talentos humanos e segundo os especialistas, um novo nome para eles: INTELIGÊNCIA EMOCIONAL (QE).

Tudo tem a ver com a forma como nos comportamos, nos damos com as pessoas, trabalhamos em equipa, lideramos. Aqui importa uma nova forma de ser inteligente.

Inteligência emocional não significa meramente “ser simpático”. Em certos momentos estratégicos pode exigir “não ser simpático”, mas antes, por exemplo, confrontar alguém abertamente com uma verdade desagradável plena de consequências, até então evitada.

Inteligência emocional significa gerir os sentimentos de tal modo que se exprima apropriada e eficazmente, permitindo que as pessoas trabalham juntas sem problemas, em sintonia com os seus objetivos comuns.

O nosso nível de inteligência emocional não é geneticamente fixo nem se desenvolve apenas nos primeiros anos de vida. Ao contrário do QI, que pouco muda após a adolescência, a inteligência emocional é em grande medida assimilada e continua a desenvolver-se ao longo da vida, à medida que aprendemos com as nossas experiências. Existe uma palavra antiga para este crescimento da inteligência emocional: maturidade.

Apreende-se capacidades emocionais baseadas na inteligência emocional, que resulta num desempenho extraordinário no trabalho. 

A nossa inteligência emocional determina o nosso potencial para aprender aptidões práticas que se baseiam em cinco elementos: autoconsciência; motivação; autodomínio; empatia e talento nas relações. A nossa competência emocional mostra até que ponto traduzimos esse potencial nas capacidades profissionais. Mas a posse de uma elevada inteligência emocional não garante por si só que uma pessoa adquirirá as competências emocionais que importam para o seu trabalho; significa apenas que possui um excelente potencial para as aprender.

Trabalhar as competências emocionais, principalmente nos adolescentes, é abrir janelas de oportunidades para o autoconhecimento emocional, para que no futuro, possam ser reconhecidos e recompensados no mercado de trabalho, uma vez que estas competências emocionais já o são.

Tenho a certeza que é necessário e urgente educar as emoções.

terça-feira, 19 de maio de 2015

METÁFORAS

REGINA SARDOEIRA 
Eu soube que o mundo não seria salvo pela lava daquele vulcão, e dos outros todos. Logo que o soube, pensei que tinha sido acometida por um pensamento estranho, pois a lava de qualquer vulcão não existe, aí, para salvar o mundo dos homens, ou seja de quem for, a lava dos vulcões é um produto natural com consequências que apenas dizem respeito aos vulcões e à natureza mas que nós, homens, desarreigados da natureza, fazemos incidir sobre a humanidade, para dar-lhe um sentido que nunca teve. Sei bem que o pensamento expresso é metafórico e é o mesmo que dizer que não há salvação, nem salvador, nem nada, porque essa ideia é tão utópica quanto inútil. O mundo dos homens está desgovernado, e parece que desgovernado continuará, construído que tem sido nas espirais da ganância e nas linhas condutoras do egoísmo e da insanidade. Enquanto não for possível reconquistar a velha racionalidade – ou a nova, se nova existir – nada será salvo e o homem perder-se-á.

Ninguém se salvará, por fim: nós, porque deveríamos ter gritado e calámo-nos; eles, porque deveriam ter-nos impelido a gritar e viraram insolentemente as costas. Esta absurda passividade desbragada em que esperamos uma salvação vinda pelo meio das nuvens, em céus, porventura tenebrosos e violáceos, ousando querer que o todo-poderoso desça num vórtice de luz e nos estenda a mão, sem que demos um passo para derretermos a nossa miséria, é, sem dúvida, o maior perigo da humanidade.

Eu nem sei se precisamos de ser salvos ou, no mínimo, de que precisaremos, afinal, de ser salvos. Quem está perdido e reconhece a sua perdição e quer encontrar um porto de abrigo, mais vale começar o caminho, desde logo, em vez de implorar misericórdia: e os caminhos fazem-se, caminhando. Lugar-comum, dir-me-eis, mas nunca receei um preceito vulgar se afinal ele for profícuo e vêde: os carreiros das montanhas existem porque um e depois outro e a seguir dezenas e centenas os foram, aos poucos, esculpindo. 

Bem sei que escrevi gritar e calar e agora falo de caminhos e passadas. Mas o grito pode ser de Avante! E o silêncio pode ser de Desisto! Ora, o incitamento para a frente será a salvação a que quis aludir, embora a minha sentença seja céptica, pois afirmo que ninguém se salvará, por fim.

Vejo, quotidianamente, multidões acéfalas em ordeiros rebanhos para nenhures ou então digladiando-se do alto das tribunas ou nos campos de batalha. Não creio na eficácia dos condutores de rebanhos, castradores das consciências dos que consideram reses, e o modo como empunham o gládio dos discursos conduz ao sofisma, e portanto ao logro, enquanto o sangue que espirra das baionetas espetadas não lava a miséria de estarmos todos vivos.

Tive todos os privilégios, mesmo quando me pareceram castigos, mesmo quando outrora rangi os dentes e arranquei os cabelos na perplexidade de me sentir numa prisão: mesmo então poderia ter usado, a meu favor, o lume da inteligência, o poder da razão. Ora o que em mim se agigantou nas horas indeléveis em que me travaram os passos, rumo a mim própria, foi apenas a emoção violenta, o desejo de fuga e talvez o propósito de vingança. Foi por essa razão, ou talvez para escapar às decisões cruéis, aos pactos incompletos, que me pus a sentenciar.

Soube que todos passaremos, depois, como sombras ou centelhas – a escolha será nossa – e aqueles que encontrarmos nas sendas da alvorada saudar-nos-ão com gritos de euforia, porque ficarão a saber que já não estão sós. E no entanto esse “depois” tardava em revelar-se e talvez nem me conviesse. Sombras ou centelhas? Que dizer de uma sombra que é sempre o rasto de outra realidade e não a própria realidade? Que dizer de uma centelha que é sempre um fogacho transitório, mesmo que de luz, mesmo que violento?

Por isso, os castigos que a vida pôs entre mim e o que quero de mim devem ter sido a sentença de vida a procurar a indicação para mudar de caminho, a seta apontada no sentido inverso àquele que usei seguir. Foram, pois, privilégios e ainda bem que o percebi, pois não é tarde demais quando a luz do dia, mesmo ensombrecida pelas nuvens de Maio e turvada pela chuva persistente, se vai rasgando após a noite e compelindo-me a, finalmente, viver.

Não existem impossíveis, pois a palavra impossível, contém a palavra possível, basta tirar o prefixo que nega…Para negar seja o que for é necessário que esse “seja o que for” tenha uma qualquer substância que possa ser negada e logo, tendo em si substância, deverá existir. Assim, qualquer impossível marca o advento do possível ou a sua anterioridade no tempo: foi possível, deixou de ser, é impossível, mas foi possível antes. Questão metafísica ou filosófica ou de qualquer âmbito, até do senso comum: qualquer um pode exclamar uma bela manhã, Não há impossíveis, e partir para as montanhas e ali viver de gafanhotos e mel. Principalmente, não esperes que te venha salvar seja quem for: tu és o teu único e legítimo salvador…ainda não reparaste que a vida vivemo-la, inevitavelmente, a sós? Nunca percebeste a solidão intrínseca do teu pensamento, a impossibilidade absoluta de comunicar uma ideia apenas, só uma, e obter de alguém a perfeita compreensão? E os salvadores!... Esses, de preferência te atiram ao abismo, se a escolha tiver que dar-se entre ti e eles: logo preferem ser os salvadores de si próprios… e porque haveríamos de criticá-los? Vê bem: podes ter um pequeno presente de dádiva pura no oceano dos dias…mas é sozinho que terás que prosseguir…não esqueças! Só tomando esta consciência extrema que parece um paradoxo na vivência do humano, mas afinal o resume, enquanto lucidez, estaremos na existência em serenidade suprema.

Comprei a bugiganga porque me apeteceu e logo que a tirei da bolsa, ansiosa, percebi que não a desejava e envergonhei-me. São assim os impulsos ou as frustrações ou a exposição acertada das coisas nos mostruários: de repente, um brilho salta, que até pode ser o reflexo do sol, que até pode ser uma ilusão óptica: e a insignificância ganha uma espécie de sumptuosidade e eis-nos a não poder resistir ao seu poderoso halo de sedução. Depois, há outra coisa. É que as bugigangas, como lhes chamei, nem sempre são fúteis ou inúteis, e pensamos honestamente que vamos ser capazes de lhes dar uso e até ansiamos por chegar a casa, desdobrar o embrulho e desatar a procurar a finalidade do utensílio. E contudo a vergonha pode instalar-se, se repararmos que nada de extraordinário pode vir-nos desse pequeno nada adquirido em hora repentina. É certo que, tal como o bolor que fez vicejar a flor miudinha, também a minha triste bugiganga da montra modesta poderá enfeitar de luz o espaço de um outro: e então ganhará sentido a oferenda, se após a súbita descoberta da inutilidade da coisa, para mim, puder fazer dela prémio, para outro. Percebemos deste modo que nem sempre as bugigangas são verdadeiramente futilidades e que, mesmo que nos envergonhemos do acto repentino, da fúria cega do impulso acéfalo e depois suspirarmos porque o prazer e a ansiedade se converteram em culpa, logo se dará a catarse e provaremos a nós próprios, sem equívocos, que houve um sentido não revelado, de imediato, no momento deflector, mas, apesar de tudo, lá, mesmo que indistinto.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

A LOUCURA DA NORMALIDADE

CLARA CORREIA
“ Estamos em pleno século vinte e um! … ”, diz-se a propósito de tudo e de nada, com o propósito de exaltar a nossa própria contemporaneidade face à sua presumível falta no outro … ou ainda como que celebrando valores cujos progressos na respectiva conquista não foram menos do que seculares. E, no entanto, como ilude a aparência da crença na globalidade desses valores! … como mente em cada mente individual o universal cinismo a fingir que nos julgamos todos iguais, iguaizinhos, sem tirar nem pôr! E não, não estamos a falar do desrespeito absoluto pela Humanidade absolutamente assumido por boa parte da Humanidade do Médio Oriente. A Ocidente, a apregoada liberdade pela individualidade torna-se presa individual de demasiados indivíduos que, (des)confortáveis no seu frágil pedaço de sociedade, apontam outros que, no seu parecer, no parecer do “rebanho social” a que talvez temam deixar de pertencer, não satisfazem os cânones detidos pela suposta maioria. Grita-se aos quatro ventos a Tolerância pelas opções individuais que não lesem a Pátria nem ninguém, e o direito à Diferença, com a intolerância da hipocrisia e a indiferença pelos direitos alheios … não importa se o alvo é a menina, filha do casal mais mediático do “showbiz”, que, consta, insiste em aparecer publicamente vestida como um rapaz, ou se é o vizinho que passou a viver com o namorado, ou ainda se é a prima que, em consciência, optou por mandar às urtigas os planos de casamento para fazer voluntariado em África. Nem tão pouco importa se determinado canal televisivo faz uma reportagem acerca de “bullying” e depois, no âmbito da emissão em diferido de um “casting” de talentos musicais, apresenta um jovem candidato como “objecto” de intencionada zombaria nacional. E será importante a reacção adversa feminina, nomeadamente de bloggers/”opinion makers”, perante o corpo (francamente esbelto), em fato-de-banho, de uma jovem actriz, depreciando-a por, alegadamente, estar “gorda”? … quando deveriam ser, precisamente, as mulheres a estar na primeira linha de combate à rigidez dos estereótipos femininos e padrões respeitantes ao peso e idade?

Por entre a chuva, por vezes ainda moderada, de Intolerâncias com nomes como Racismo. Homofobia ou outros pretextos para discriminações, caem pingos de uma absurda “loucura da normalidade” que bem pode denunciar quem pode bem juntar-se à fila dos infelizes que sofrem de “Normose”, a designar o temor de “sair do baralho” e o horror a quem dele se “desbaralha”!

domingo, 17 de maio de 2015

RENOVAR... DE NOVO

MIGUEL GOMES
Encosto a cabeça à porta, baixo um pouco o vidro, entra-me o fresco da noite e ainda ecos de claves que luziram de lua e não de sol. De sol em sol a falta do volante não se sente, embalo-me pelas irregularidades do piso e deixo-me ser transportado pelo pequeno emaranhado de ruas que viram, em tempos, desacordos românicos sobre qual a letra a visitar quando o amor se quer fazer entre um dó e um ré. Ré, inocente, entre o vento e a noite, a luz que passa por mim como riscos leves de pinceladas de um sem abrigo no quase breu dos candeeiros que iluminam, mas não aquecem ao longe, do lado de lá da retina, as pequenas estrelas que me fazem chegar a saudade de milhões de anos luz onde vivi como sendo apenas éter. É ter e não ser que me prevalece no untado corpo quando chovem risos de conversas que nunca soube ter. Hoje e ontem. Amanhã e no futuro, distante, onde me sentarei na pedra fria, a contar nuvens de mosquitos que conspiram sobre a pluviosidade que lá vem. Lavem as ruas, as calçadas, desnudem as pessoas e as casas, hoje quer-se um momento de sonolência, passe por nós sua excelência, nua e crua, enquanto eu dormito e emudecido o céu fito, tenho saudades de ver o brilhar com olhos de criança dormente. A dor mente, tenta trazer para si o barulho de uma semana onde encontro a vida e a morte, se me é permitida tal sorte, quando umas mãos frágeis e pálidas, onde corre sangue que quer ser respirar me seguram o braço, os lábios sedosos de um idoso que envelhece para ser criança de novo me beijam a tremer a face e um sussurro que me bate alto na cavidade auricular, tanto quanto na alma, soltando um “gostava tanto de morrer agora”, mas a vida tem outros propósitos, um pouco como as mãos que me vêm debruçar sobre o vidro semi embaciado, ortografiar enregelado o pensamento enquanto me esforço por repescar as letras que afloraram à tona do lago onde me reflicto. Baixaram a tampa do caixão. Cai chão e terra, o céu aguarda-se azul por enquanto, os corpos contorcem-se na ignorância de não se saberem eternos, em húmus e cinza, a claridade ausente que apenas o louco sente quando a consciência mundana o deixa divagar rapidamente entre as várias camadas que nos separam do reflexo e refluxo da vida. Vi da janela, pela janela, corrijo, a tua cara já rechonchuda, pele lisa e braços firmes onde pende a tua pulseira dourada. As paredes parecem ceder à transparência do que o olhar desatento fita, enquanto te beijam a testa fria, dás um ar de riso e colocas a mão invisível no rosto e limpas umas lágrimas de comoção que nunca chegaram a luzir. Os abraços e o choro, a tinta da caneta por onde escorreito corro, tudo se converte no chamado da atenção para a inevitabilidade da vida, morto estamos todos quando nos permitimos ser vividos pelos dias, sem que nunca os enfrentemos sem medos, agarrados a nós os segredos e a eles o dia a seguir ao outro. Apertado ao pulso o barulho ritmado do relógio sobrepõe-se ao bater do coração. Cura, são segue o horário e a manhã fria e ventosa, a perniciosidade do mal vigorará agora que todos se sabem mortais, sem a protecção dos capitéis, de que nos valerão nas mãos gastas os luxuriantes anéis? De novo, mas ainda gasto, dou-me ao pensamento e continuo no remexer de uma semana, a procurar sobre e debaixo de papéis, a maior parte não são meus, episódios que me possam trazer a serenidade de acalmar a pacatez do que me sobra. Não possuo qualquer legitimidade na defesa ou acusação de nada além de mim. Falta-me, faltas-me, a opinião sobre outras veleidades que não o que me dita o coração. Por mim continuo na sombra, onde sempre me soube proporcionar a queda das folhas, o mergulhar das mesmas no mar de ar e partículas que me separa da próxima respiração, ver sorrir um rosto que se volta e, por momentos, pedir em segredo a que divindade possa interessar que me tenha o tempo com placidez, afinal, o reflexo de mim no espelho sorri-me velho e diz-me, piscando conspiratoriamente o olho, sou eu quem me fez. Sabes, leitor, penso em ti, enquanto continuo com a cabeça encostada ao vidro e o ruído abafado do motor se harmoniza na minha imaginação num contínuo ronronar de um universo a dormir. O quanto te tenho para dizer, esta ânsia de tudo espairecer e deixar que se soltem as palavras, ainda que não as gostes, porque, sei-as, por vezes, amargas. Olho para as letras e palavras, as do papel e as que passam por mim na mesma rapidez das luzes do crepúsculo contínuo que é a duração da noite, o que me separa de ti é a respiração que gostava que sentisses, sobres os teus ombros, e visses que além desta cacofonia de escombros estão as estrelas. E eu, garoto, espero que sonhes com elas.

sábado, 16 de maio de 2015

O DESMORONAR DO SNS/TENTATIVA DA BANALIZAÇÃO DO ATO DE PRESCRIÇÃO MÉDICA

ANTONIETA DIAS
Nestes dois últimos anos temos assistido a mudanças significativas na área da saúde que irão com certeza destruir completamente um serviço de saúde que nos orgulhava e que era invejado por muitos Países a nível mundial.

O diagnóstico atual, quando avaliamos os procedimentos e analisamos os objetivos de quem legisla e os pareceres dos teoricamente conhecedores de uma área tão complexa como a da medicina, em que opinam sobre atos que colocam em risco a vida dos nossos doentes, gera uma angústia terrível, não só pela ignorância demonstrada sobre o verdadeiro papel e conteúdo funcional da profissão do médico que é constrangedor e gera violência, no utilizador(doente).

Pensar que qualquer pessoa que tenha uma intervenção na saúde pode ser candidato a um eventual prescritor clinico é de fato um pensamento terrivelmente desumano e desrespeita completamente o ato medico e a assistência ao doente.

Sem prejuízo, da mais valia e da preciosa colaboração que cada um dos técnicos das várias áreas da equipe de saúde têm (enfermeiros, técnicos de cardiopneumologia, técnicos de radiologia, técnicos de fisioterapia, ortodontésicos, podologistas, etc, etc…), que vieram enriqueceram de forma digna o SNS e contribuíram para melhoram a prestação dos serviços saúde, é um fato inquestionável e demonstrável.

Porém, não podemos de forma nenhuma desrespeitar e desqualificar o conteúdo profissional de cada um dos técnicos e muito menos tentar transferir competências de uns para os outros, sejam quais forem os interesses e objetivos pretendidos de quem decide.

Estando em curso o estudo das condições necessárias ao desenvolvimento da rede de serviços de saúde, é conveniente estruturar mas não destruir.

Respeitar os princípios, os níveis de cuidados, os atributos, as formas de coordenação e os objetivos da atividade assistencial, respeitando o doente e cuidando-o no seu todo, não é possível que alguém com responsabilidade possa propor que outros profissionais que não sejam os médicos, façam prescrições terapêuticas aos doentes.

Se neste momento, com tanta mudança estrutural, com tanta poupança, com tanto desinvestimento, com tanta privação de recursos humanos, de meios técnicos, de dificuldade de acesso dos doentes que residem mais no interior e distantes dos urbanos, já por si é uma perda da qualidade nos cuidados de saúde, não é possível que ainda se pretenda propor, que outros profissionais que não os médicos sejam prescritores de qualquer medicamento seja ele qual for e em que circunstâncias ou contexto clinico se enquadre.

Não podemos aceitar se tente encontrar soluções que coloquem em risco a vida dos doentes e se destrua o acesso aos cuidados de acordo com a “legis artis”.

Antes de prescrever qualquer medicamento é preciso conhecer o doente, é necessário diagnosticar a doença, saber farmacologia e ser um “expert” do conhecimento na indicação do efeito e das contraindicações dos fármacos que estamos a prescrever aos doentes.

Se alguém imagina que a prescrição terapêutica é um mero mencionar de um fármaco que o vizinho, o amigo, o colega, a publicidade é suficiente para ter legitimidade para o fazer é destruir completamente a ciência e a investigação médica.

Salvar a vida do doente é um ato nobre que não pode ser desrespeitado e muito menos violado.

É preciso sim, mudar muitas diretrizes no âmbito da prestação dos cuidados de saúde, mas isso implica mudanças estruturais, e neste momento a mais importante é entregar a responsabilidade da decisão a quem tem competência para o exercício dessa atividade, e os decisores políticos deverão procurar outros meios para poupar na saúde que sejam compatíveis com o que de mais sagrado existe que é a vida e a dignidade da prestação dos cuidados de saúde a quem precisa e tem direito a ser assistido com sapiência e com todos os recursos existentes, pelos vários intervenientes envolvidos na área da saúde.

Deixemos o ato de prescrever para quem tem competência para o fazer sendo que este ato é da exclusiva competência dos médicos e aproveitemos os recursos técnicos de cada um dos outros profissionais cuja função é imprescindível para cuidar bem e melhorar a qualidade em saúde.



Não tentemos confundir e muito menos transferir competências para quem não as tem.