quarta-feira, 19 de julho de 2017

DO AMOR QUE DAMOS SÓ O AMOR HERDAMOS

RAQUEL EVANGELINA
Há cerca de dois meses apadrinhei uma criança órfã moçambicana através de uma organização não-governamental portuguesa. O meu apadrinhamento, uma quantia financeira mensal, permitirá à criança ter direito a cuidados de saúde e a uma educação. Comprometi-me a ajudar desde o 1º ano até ao 12º ano de escolaridade. Era algo que queria fazer já há algum tempo mas estava suspenso, não por má vontade mas, porque queria mais estabilidade financeira. Decidi então que se estivesse à espera de estabilidade ou de um aumento salarial continuaria a adiar. Era este o momento. As pessoas que me conhecem bem apoiaram-me, algumas disseram que admiravam a coragem de me comprometer e nenhuma delas questionou a minha decisão. Mas há sempre outras pessoas. Aquelas que não compreendem o porquê. E depois fazem-me perguntas do género: “Achas que esse dinheiro chega mesmo lá?”, “Já fizeste contas ao fim de 12 anos de quanto dinheiro vais gastar com uma criança que podes até nunca conhecer pessoalmente?”, “Não havia cá pessoas próximas de ti para ajudar?” ou então “É tudo muito bonito mas e se precisares de um momento para o outro do dinheiro?”. O dinheiro chega lá e vão mandando fotos da criança a mostrar que adquiriram mais isto ou aquilo com a minha “mesada”. Posso conhecer a criança pessoalmente, se me quiser deslocar a Moçambique, a ONG trata de organizar a visita. Agora não mas acho que em 12 anos haverá uma altura em que conseguirei. Também já fiz as contas. É uma quantia considerável no total. Dividida por 12 anos e subdividida por 12 meses aposto que muitos dos que me perguntam sobre contas gastam muito mais com um par de calças. Também sei que há pessoas a precisar de ajuda cá. Não preciso que estejam sempre a lembrar-me disso. Mas apoiei uma causa com a qual me identifico. De certeza que outras pessoas se identificarão mais com causas mais próximas. Eventualmente poderei precisar do dinheiro no futuro mas não será este que me fará falta, será aquele que foi mal gasto com roupa que já não uso ou coisas que nem nunca sequer precisei. Tive uma infância feliz. A minha família não é abastada mas nunca passei fome. Tenho um pai e uma mãe que, feitios e defeitos à parte, sempre me apoiaram nas decisões e sempre foram honestos quando não concordavam com algo. Tive direito a brincar. Tive direito a sonhar que poderia ser o que quisesse no futuro. Tive direito à educação para poder chegar ou pelo menos aproximar-me desse sonho. Tive acesso a cuidados de saúde. É tão banal para nós termos isto que nem nos damos conta da sorte que temos. A minha afilhada não tem pai. Sonha ser professora. Entrou para a escola. Se não for professora pelo menos será alguma coisa. Poderá no futuro cuidar da avó e mãe, iletradas, que agora cuidam dela. Terá agora um maior cuidado a nível de higiene o que também ajudará a não necessitar tanto de cuidados de saúde. Estou feliz porque no fundo acho que com uma pequena contribuição estou a ajudar alguém a viver melhor. Acham mesmo que o valor mensal que me tiram paga isso? Nada no Mundo paga a sensação de saber que alguém está melhor graças a nós. “Do amor que damos só o amor herdamos” é uma frase conhecida que me diz muito. Este meu amor vai em forma monetária todos os meses para uma criança que só vejo em fotografias. Mas que a cada fotografia nova que me mandam está cada vez mais e mais sorridente. E esse sorriso é o maior agradecimento que posso ter.

LADRÃO ADORMECE A ASSALTAR ESCRITÓRIO DE ADVOGADOS

PALMIRA CRISTINA MENDES
Em jeito de ferias, apetece me contar a “real anedota”.

Certo dia, um ladrão entrou de madrugada num escritório de advogados de Coimbra e fez a recolha dos bens que queria roubar. Mas cumprida a árdua tarefa, deu-lhe o sono e decidiu passar pelas brasas no conforto da sala de reuniões do escritório. Aconchegado a uma toga de advogado, deixou-se cair tão profundamente nos braços de Morfeu que já era meio-dia quando um advogado o encontrou, ainda deitado.

Pouco depois do sobressaltado acordar, o assaltante, de 23 anos, era detido pela PSP de Coimbra.

O jovem ainda sem cadastro, confessou que seriam umas três horas da madrugada quando entrou no escritório de advogados. Porém a vizinhança da zona fina da cidade de Coimbra diz que não, que já seriam umas cinco horas quando ouviu um barulho estranho, presume-se provocado pelo arrombamento de uma porta. Era porta das traseiras do edifício e dá para uma varanda. O assaltante terá escalado até ali com a ajuda de um cano de água pluviais . Arrombada a porta que não tem alarme, tratou de recolher os bens que lhe interessavam. E que teria dificuldade de levar de uma só vez sozinho: três pinturas de Noronha da Costa, um televisor, vários relógios, dois anéis, um isqueiro e uma máquina fotográfica. Foi tudo avaliado em E74.000 euros.

Depois da colecta feita em várias divisões do edifício, o assaltante ter-se-á sentido cansado e acomodou-se na sala de reuniões do escritório. Pegou num casaco que estava pendurado num cabide, dobrou-o e fez dele almofada. Uma toga ter-lhe-á servido para se proteger da aragem que porventura entraria pela varanda. Tudo lhe correria bem se um advogado do escritório tivesse decidido passar o domingo em descanso. Mas como contou um colega dele, o jurista foi ao escritório, seriam 12 horas, buscar uns documentos de trabalho. Mal entrou, viu tudo remexido e, já na sala de reuniões, deparou-se com o assaltante deitado adormecido no chão. Obviamente que o final não foi Feliz!!

BEBÉ ESPECIAL

ELISABETE SALRETA
O que significa ter um bebé especial?

É cuidarmos de alguém que na sua limitação dá-nos muito mais do que lhe damos a ela. É um amor sem barreiras, sem vergonhas e cheio e orgulho pela diferença, porque essa desigualdade é rica e traz um mundo ao nosso mundo.

Mia, um amor tão grande na adversidade.

Não sei o que lhe aconteceu, mas sei o que poderia ter acontecido sem a minha intervenção. E sem o saber, eu ficava mais pobre. Tenho uma outra riqueza que me custou tanto aceitar e admitir. Hoje sei que ensinou-me tanto sobre a entrega e o amor, que não sei como algo tão simples tinha-me escapado antes. Óscar. Hoje cuido e sou abençoada por dois bebés especiais.

Mia Chegou até mim numa situação limite. Numa semana mostrou ser o gatinho que era, com as suas limitações. Ou que tentava ser. Não sabe o que é brincar, mas quando lhe fazemos cócegas na barriguita que já se começa a notar, agarra a nossa mão e lambe os dedos, morde ao mesmo tempo, sem saber o que fazer. Brinca com o Óscar, mas até ele tem medo de magoa-la com os seus 7 kilos. Ela toca-lhe nas patas e ele devolve-lhe o toque. Depois ele tenta agarra-la para a lamber, e ela deita-se de barriga para cima, confiante nesta sua nova família. Esta semana brindou-me com um fsssst simpático e umas quantas rosnadelas. Só o faz a mim. Mas sou eu quem lhe dá a medicação e trata das orelhas, não admira.

Mia é cega. Por isso não brinca, não corre atrás de uma bola, não morde a cauda dos outros gatos, nem sobe o sofá. Não amarinha pelas nossas pernas acima, mas abana o rabinho e salta para um destino imaginário. Mia não mia como os outros gatos fazem aos humanos, faz apenas um som característico como fazem entre eles, os gatos. Ela não sabe que a família dela é diferente, mas sente-se bem, protegida. Nada mais importa. Mia não faz buraquinho na areia. Não é caracteristicamente um gato. Não teve tempo de aprender a ser um, mas é um bebé que sabe quem cuida dela, pois vem até nós e encosta-se aos nossos pés, como um filhote procura o colo da mãe. Sofre de stress, pois caminha sem parar, sem destino, pela casa, caindo de sono no primeiro tapete que encontra. Come até não poder mais, mas aprecia mais carne, peixe, ovo, do que a ração. Isso só quando o prato dela está vazio.

Apesar de tanto sofrimento, entregou-se de corpo e alma a nós. Confia. Prenda-nos com as suas lambidelas e alguns ronrons. Não tem um grama de hostilidade. Admiro-a quando se entrega a um sono profundo e por momentos, por alguns minutos apenas, é um gato bebé.

Mas afinal quando acorda, é o meu bebé especial.

CORRIDA PORTUCALE 2017

"Há lendas e factos que tentam explicar a origem do nome. Portugal, Porto, Gaia ou até Galiza são nomes que radicam em Cale. Várias são as teorias relativas à origem do nome, ao qual foi associado o Portus latino de significado entendível pela presença do porto natural no rio Douro. No ano 74 terá sido tomado por Perpena, lugar-tenente de Sertório, chefe dos lusitanos. No domínio romano, seria o primeiro povoado na grande circunscrição que o Douro separava da Lusitânia, que daí tomou o nome para Callaecia, de que veio a resultar Galiza. A primeira referência documental a “Portucale” surge no século V. Também dali tomou nome o Condado Portucalense, do qual veio a nascer Portugal. Facto é que se trata da melhor forma de designar algo, mesmo no século XXI, relacionado com duas cidades que se continuam a complementar." por A Direção do Centro de Atletismo do Porto

ELISABETE RIBEIRO
.. E assim nasceu a ideia de unir as duas cidades numa corrida representativa recheada de simbolismo e história. 
Esta foi a minha segunda participação nesta prova. Na edição anterior fiquei fã do percurso, do ambiente e da organização. Tive de regressar, apesar do seu adiamento. Quem corre sabe que, quando apanhamos boa boleia para correr, não se muda. Depois da experiência da Douro Run, voltei a "massacrar" o Cabral para a boleia na Portucale. Depois de vários requerimentos, emails, cartas registadas e mais umas centenas de pedidos... ele lá cedeu e aceitou ( estou a brincar, não fiz nenhuma carta registada... mas o resto mantém-se!)

O calor já apertava às 9h da manhã. Não iriam ser 15 kms muito fáceis. Mas vá, eram só 15! 
Sabem do que eu gosto mesmo nestes eventos? É do circular entre os atletas e encontrar rostos conhecidos mas com quem nunca falámos. Conhecidos porque há um elo comum. Depois há os rostos conhecidos e com quem já falamos e nos juntámos para a fotografia. Há também aqueles atletas a quem, na conversa se pede para rebocar (Luís Miguel Silva), em caso de necessidade...
De repente olhámos e vimos, algures, amigos que fizeram questão de ir assistir à partida, apenas e só porque a amizade impera. 

Começou a corrida! Calor do bom até ao retorno do Freixo. 

Mas, pelo caminho, fomos ouvindo vozes de incentivo, ora no público ora no pelotão. Aqui, o Manuel Silva e a esposa ladearam-me para um afável cumprimento e ânimo. Evitei falar muito pois o calor era imenso. Mas é uma missão quase impossível, quando o ambiente é tão agradável à nossa volta. Quando chegámos à Ribeira perdi-me completamente. Viram a camisola de Amarante e comentavam. Simpática e educada como sou tinha de responder. Depois eram as objetivas que me chamavam e... "sai um pulo dos lados de S. Gonçalo, se faz favor!". Mais à frente surge o Vitor Dias, e lá fica a miúda a querer levantar voo. Com tanta adrenalina e energia despendida, nem dei pelo balanço da Ponte D. Luís quando lá passei. Demorei cerca de 500m a recuperar. Em direção à Afurada sentimos o vento e uma aragem mais fresca que auxiliou na restituição de um ritmo mais equilibrado. Ouvi o Leandro Ramos a chamar por mim e a motivar... soube tão bem!!! Retorno da Afurada! A partir dali fomos certinhos até à meta. Coincidência ou não, a quem pedi para me rebocar, no inicio da prova, acabou mesmo por fazê-lo no último km. Bem lhe disse para seguir e aplaudir-me na meta, mas a resposta foi " Não, é para terminar todos juntos!". Seguimos a sua passada e os últimos metros foram fabulosos. Uma entreajuda fantástica e uma cumplicidade inigualável. O Cabral cedeu-me a passagem para ficar o registo do pinote na meta.

Prova terminada e uma excelente sensação de objetivo cumprido. (Sim, porque aqui o objetivo era terminar!). Aquela sensação de satisfação que nos preenche e nos faz esquecer as possíveis dificuldades que pudéssemos sentir ao logo da empreitada. Sorrisos abertos, abraços sinceros e um coração feliz. Com mais esta experiência tenho mais consistente a ideia que as provas têm de ser usufruídas, vividas na sua dimensão de "correr por prazer". Os tempos são para os profissionais e para os atletas que se querem superar e mostrar o resultado do trabalho realizado para o efeito. Eu gosto de correr, mas também gosto de me divertir. O relógio deixou de ser um acessório essencial e passou a ser um acessório de mero registo. Correr, divertir, sorrir, conviver e... ser feliz!


Ao CAP Centro de Atletismo do Porto e à EventSport quero endereçar os mais sinceros parabéns pela excelente organização com muita simpatia à mistura. 

Não posso terminar sem deixar um especial agradecimento a todos os fotógrafos presentes neste evento. Sois os verdadeiros autores da história de cada atleta. Se não fosse o vosso registo fotográfico tudo não passaria de uma narrativa contada. Convosco a corrida tem mais vida! 

A todos que me motivaram, cumprimentaram, chamaram e acarinharam, um infindável obrigada.

A ti, António Cabral, muito obrigada pela companhia. Correr assim fica mais fácil.

Corrida Portucale, sou feliz a correr aqui!

terça-feira, 18 de julho de 2017

ANOMALIA

REGINA SARDOEIRA
Fui ao dicionário procurar o significado e a origem do termo anomalia. Eis o que encontrei:

"anomalia 
a.no.ma.li.aɐnumɐˈliɐ, ɐnɔmɐˈliɐ
nome feminino
1. carácter ou estado de anómalo
2. irregularidade
3. BIOLOGIA desvio do tipo normal; anormalidade
4. excepção à regra; singularidade
Do grego anomalía, «desigualdade», pelo latim anomalĭa-, «irregularidade», pelo francês anomalie, «idem»"


Fiquei satisfeita com esta busca, visto ela corresponder ao sentido que sempre dei à palavra. E, como o domínio linguístico é um dos que mais me apraz, quer para pesquisa, quer para utilização, decidi tratar uma vez mais do "mundo misterioso das palavras" . 
Dizer que determinada situação é uma anomalia classifica-a, desde logo, como irregular, em desvio do normal, excepção à regra, ou desigual. E todos estes aspectos são relevantes em função de quê? Daquilo que é normal logo, de acordo com a norma, do que está estabelecido, quer pela natureza, quer pela sociedade, quer por ambas. 

É anómalo, por exemplo, um dia de extremo frio em pleno verão, ainda que uma investigação meteorológica possa analisar o facto e esclarecê -lo; é anómalo nascerem gémeos siameses unidos, por exemplo, pela cabeça; é anómalo, ainda, um homem vestir-se de saia ou vestido, por norma, como é anómalo uma mulher ter barba. E no entanto, tais factos ocorrem e logo estabelecemos padrões (necessitamos deles) e se, durante o verão, começam a surgir demasiados dias frios, ou se os gémeos siameses se vulgarizam ou os homens de saia ou as mulheres de barba, logo nos apressamos a dizer que tais factos são normais e que, por isso, devem ser aceites como novas formas de ser ou de estar. A anomalia é, deste modo, suprimida, integrada nos contextos normais ou ela própria constituindo outra normalidade. E assim deixam de ser importantes os padrões, as regras, as leis pois uma anomalia cedo ou tarde adquire o estatuto, ela própria, de regra. 

Thomas Khun Cincinati 1922 - Cambridge 1979, um epistemólogo do século XX, ao efectuar a análise filosófica da evolução da ciência estabeleceu os seguintes momentos: ciência normal, ou aquela que permite aos cientistas usar um certo paradigma e, na sua posse, interpretar o mundo; a anomalia, quando uma brecha no paradigma revela uma impossibilidade científica de compreensão dos factos; a ciência em crise, a qual corresponde aos momentos em que a comunidade científica procura ajustar a anomalia ao paradigma ou investigar a anomalia e tirar daí conclusões para alterar o rumo da ciência; finalmente, a recuperação do paradigma, posto em causa pela anomalia, ou a ruptura do anterior paradigma e a sua substituição. 

Vemos, deste modo, a importância do incidente anómalo, quer para abalar as certezas do paradigma e pô-lo à prova, quer para assumir a anomalia, enquanto tal, promovendo a evolução científica. 
Um médico sabe exactamente o que é uma anomalia porque, afinal, o seu mister, a sua arte, enfim, conduzem-no a lidar com elas, diariamente, a procurar compreendê -las e a restituir a normalidade ao organismo afectado por elas, repondo a saúde. E se um médico refere uma condição, seja ela qual for, como sendo uma anomalia, se, inclusivamente, um indivíduo o procurou por sentir em si a presença de um sintoma anómalo, o dever do clínico é procurar a cura. 

Durante séculos, a homossexualidade foi considerada uma doença, física e mental, acrescida da conotação pejorativa com que a sociedade rotulou essa condição. Logo, o homossexual procurava ajuda médica para curar-se, reprimia os impulsos anómalos ou, à margem da sociedade e das suas normas, dava satisfação aos seus impulsos. Ele próprio se castigava e se sentia diferente, anómalo, portanto, acedendo a um submundo de onde emergia carregado de culpa. 

Nas últimas décadas, assistimos à progressiva reintegração desta e de outras minorias sociais, e hoje alguém que aluda à homossexualidade como sendo uma anomalia é taxado de preconceituoso e, eventualmente, levado a tribunal, por isso. Como foi possível, no espaço /tempo de um século, a homossexualidade passar de crime punido pela lei, de doença psiquiátrica grave, de distúrbio biológico, a respeitável e correcta afirmação da sexualidade humana, diferente, mas legítima e normal? 

Oscar Wilde (Dublin 1854 - Paris 1900) , o célebre escritor britânico de origem irlandesa, era homossexual e contudo casou e teve filhos; porém, a tendência falou mais alto e foi tendo amantes, normalmente rapazes mais jovens do que ele, até ser levado a julgamento,acusado pelo pai de um deles, e, por essa razão, condenado a trabalhos forçados. Com ele sofreram os seus, porque a mulher apoiou-o e não pediu o divórcio. Mas a sociedade conservadora da época renegou-o e (diz-se) durante muito tempo nenhuma família britânica dava o nome de Óscar aos seus filhos. 

Distúrbio biopsicológico, anomalia, erro da natureza, doença ou, afinal, uma subespécie da normalidade humana? Orientação sexual diferente, perversão, desvio ou condição absolutamente legítima, francamente normal do modo de ser humano? 

Seja como for, não vejo qualquer razão para discriminar e punir alguém, apenas porque é homossexual; de igual modo, não vejo razão para louvar ou celebrar seja quem for, apenas por causa dessa condição íntima e pessoal. Mas sei, porque já o ouvi suficientes vezes, que todo aquele que, aparentemente, aceita os homossexuais como seus amigos e nada objecta face a essa maneira de ser, detestaria descobrir que um dos seus filhos é homossexual. 

Esta conclusão conduz-me à tese da anomalia. Hoje, o homossexual é aceite, a lei protege -o, não precisa de esconder-se e pode mesmo constituir família; mas, lá no fundo, todos sabem ( incluindo os próprios) que um erro da natureza fez nascer impulsos anómalos nesses indivíduos e que a sociedade precisou de forçar-se a si mesma e aos seus preconceitos para aceitá -los como iguais.

O TURISMO, EMPREGO E QUALIDADE DE VIDA

RUI CANOSSA
Portugal já é o 13º país onde o emprego mais depende do turismo. Espalhados pelo mundo só há 12 países que dependem mais do turismo para empregar do que Portugal. De acordo com o relatório do Fórum Economico Mundial sobre a competitividade turística, 7.9% dos empregos em Portugal vêm do setor das viagens e turismo. Os países que estão à frente de Portugal são a Jamaica, Panamá, Hong-Kong, Nova Zelândia, Croácia, Montenegro, Maurícias, Grécia, Camboja, Barbados, Cabo Verde e Malta, onde 16.5% dos postos de trabalho deste pequeno país estão diretamente ligados ao turismo. 

Se a relevância do turismo no emprego em Portugal é grande, a tendência atual e de futuro é para aumentar. É que estes dados são de 2015 e não têm em consideração ainda o boom de postos de trabalho criados entretanto de norte a sul do país, quer seja nos hotéis, restaurantes, agências de viagens, serviços de transporte, ou na chamada “indústria do lazer”, que é impulsionada diretamente pelos turistas. 

Segundo as estimativas do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTIC) - a fonte do Fórum Económico Mundial e a referência estatística do setor turístico a nível internacional – os empregos ligados diretamente à fileira do turismo em Portugal já subiram para os 8.1% em 2016 do emprego total do país o que corresponde a 372 mil postos de trabalho e voltaram a subir para 8.2% em 2017 o que equivale a dizer 384 mil postos de trabalho. O WTIC estima que o emprego no turismo português possa vir a crescer cerca de 1.4% ao ano na próxima década, o que significa que, em 2027, haja 441 mil postos de trabalho no setor. 

Mas se reparou, estive apenas a referir-me aos empregos diretos, já que há muitos postos de trabalho noutros setores que estão a ser impulsionados indiretamente pelo boom de turismo. Como dizia no último artigo, há que ter em conta o efeito de arrastamento do turismo sobre outras atividades como a alimentação e bebidas, recreação, vestuário, habitação, e outros gastos dinamizados pelo turismo. O WTIC estima que a contribuição total da fileira das viagens e turismo para o emprego em Portugal atinja 20% em 2017 e que daqui por dez anos represente 22.6%. Isto significa dizer que, entre postos de trabalho diretos e indiretos, induzidos, o turismo português irá superar o milhão de empregos na próxima década.



Termino a dizer também que hoje temos melhor planeamento estratégico e uma maior aposta na qualidade, fruto de uma nova geração de gestores, empresários e líderes políticos que souberam responder da melhor forma às exigências de quem nos procura. Aliás atrevo-me a dizer que o nosso maior recurso é a excelência da qualidade de vida. Resta-nos muito pouco na economia global do que nos tornarmos no melhor país do mundo para viver. E não falta assim tanto para isso acontecer.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

... A CASA DA GRANJA VOLTOU A TER VIDA

A. PATRÍCIO

A tarde era de Verão e não podia estar mais convidativa.

Pelas dezassete horas meti pés-ao-caminho e lá fui até ao belíssimo mirante e velhinha Casa da Granja. Lá chegado, não descansei enquanto não corri todos os cantos movido por uma curiosidade, já de mim conhecida, bebendo surpresas em cada sala, descansando o olhar neste ou naquele pormenor ou lendo, muito devagar, os painéis contendo partes da história daquela Casa.

Por todo o lado pedaços de imaginação traziam-nos a uma realidade de eventos e iniciativas concebidas pelos jovens da MODAR.TE que, juntando Moda, Cultura e Arte, num só evento, criaram momentos especiais. 

No ar, ainda que difusa, sentia-se a presença de Amadeo quando, ali se deslocava, para visitar a sua tia e madrinha. A liberdade de movimentos era total e, aproveitando essa benesse, dei por mim a deambular, possuído de espanto, pela área circundante e lá fui encontrar a velha pedra-de-armas, orgulhosa da sua história, na fachada da capela que, outrora, teve como orago N.ª Srª. do Bom Sucesso, instituída que foi pelo Pe. António de Magalhães Machado corria o ano de 1865. De repente, pouso o olhar sobre uma coluna em granito ainda com base e capitel mas sem o coroamento que lhe completaria a história, sobressaindo no fuste duas argolas em ferro envelhecidas pelo tempo. Não resisti em abraçá-la tentando sentir o seu pulsar de tantas histórias e estórias na tentativa de ouvir um segredo - …eu sou o que resta do velho pelourinho de Amarante que, em tempos que já lá vão, estava no Largo da Ordem, hoje de S.tª Luzia e que os homens não souberam ou não quiseram conservar-me… - mas, o silêncio, manteve-se mudo e calado e o “milagre” não se consumou. Senti uma sensação agri-doce e o momento levou-me a pousar o olhar sobre um montão de pedras, jogadas a um canto, na tentativa de “ver” algo que trouxesse sossego ao meu devaneio elas que, também, têm muitas histórias para contar. 

Esta Casa da Granja, que se mostra às gentes desde o remoto séc. XVII, mantém a sua beleza apesar de todas as reconstruções e obras de conservação e restauro, como casa de habitação, acabando por ser sujeita, nos nossos dias, a obras de outra envergadura e passar a ser um “domicílio de cultura” em honrosa homenagem àquele que, nos dias que correm é um dos expoentes máximos da pintura – Amadeo.

Aos jovens da MODAR.TE que lhe abriram as portas, dando-lhe uma perspectiva de vida, com uma iniciativa mais que louvável trazendo aos amarantinos um evento cheio de cor, música, alegria, arte e moda, os meus parabéns.

Amarante continua a trilhar por caminhos de afirmação que esperamos sejam continuados num futuro de desenvolvimento e empreendedorismo.

Amarante e os amarantinos merecem este esforço e a tenaz persistência de quem vê Amarante com olhos de ver e se afirma pela positiva.

Bem-hajam jovens da MODAR.TE, todos estão de parabéns e, àqueles que vos ajudaram a levar a bom-porto esta iniciativa, o desejo de um continuar pois, Amarante, é Terra Mãe e agradece todos os nossos esforços.



Parabéns.

APRENDER A VIVER COM A E.L.A - DOENÇA QUE ALTERA RADICALMENTE A NOSSA VIDA

RITA TEIXEIRA
Habituar-me a falar sem pronunciar corretamente algumas consoantes, foi um baque em meu frágil coração. 

Estar a comer e engasgar-me a toda a hora, foi deveras penoso, porque previa algo de muito grave. O cansaço apoderara-se de mim e eu, que raramente chorava, passei a chorar de revolta com as leis do governo, conhecendo a frustração do cargo que me fora imposto. 

Aceitar que a lecionação aos meus alunos foi um roubo à minha carreira profissional. Tirar um curso, sonho de criança, para ser professora e haver a hipótese de ter que avaliar os outros professores, era inconcebível e inexplicável, pois não possuía competências para exercer essas funções. Com o decorrer do tempo, a revolta foi-se intensificando e o prazer de ensinar terminou a meio do ano letivo, porque a fala agravara-se e já não havia condições para lecionar! 

Segundo a opinião de um médico, eu já tinha o gene da doença, porém a minha situação psicológica agudizara o avanço de. E. L. A. Encontrava-me, então, nos Estados Unidos da América e, lá, facultaram a paz, tão fundamental, para quem acabara de ouvir a evolução desta enfermidade e o prognóstico de três a cinco anos de vida, embora, dependesse de pessoa para pessoa. 

Reforcei a minha decisão de não esperar passivamente que eu fosse mais um número para essa estatística. 

Senti o orgulho do meu irmão. Senti a admiração da prima Helena Gonçalves, da reverenda Lourdes Magalhães, dos membros que a acompanhavam e do médico que passou a frequentar a casa do meu irmão. Senti o carinho do grande Bernardino Coutinho e a dedicação diária da mana Mariazinha Coutinho. 

Não posso terminar, sem agradecer à Adriana todo o amor que pôs ao cuidar de mim. gratidão ao Manolo, que se disponibilizou para o que fosse necessário. 

Finalizando, o meu muito obrigada aos meus cunhados, Fernando e Manuela Pinheiro, pela ajuda fundamental à Francisca, num momento crucial da sua adolescência. Agradecer à minha cunhada Dina Teixeira, por colocar, na minha bagagem, a paz, a fé ingredientes valiosos para viver e aceitar a vida com. E. L. A.