segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

UNIÃO FAMILIAR

RITA TEIXEIRA 
Sou daquelas pessoas que agem de acordo com o que dizem. Há valores fundamentais na vida que regem a nossa atuação na sociedade atual. Ao longo da minha vida, os meus pais transmitiram certos valores e eu fiz questão de educar meus filhos com os mesmos que fui educada. Família e amizade, acima de tudo. 

Viver com a cara lavada, significava integridade. Viver de acordo com as nossas posses, significava honestidade. Dividir o pouco que temos, significava solidariedade. Trabalhar até ao limite, significava garra. 

Vivemos com muitas provações, numa época de privações. Sentíamos o afastamento de familiares, que se julgavam superiores, por terem herdado alguns bens. Enquanto isso, eu e os meus irmãos herdamos o orgulho de possuirmos o fruto da tenacidade e a valentia dos nossos progenitores. 

À medida que crescíamos, éramos forçados a trabalhar, para contribuirmos para as despesas familiares. Desde cedo, aprendemos a cuidar de um pai com a doença de Parkinson e relembro que era eu, com oito anos, que ia à farmácia buscar os medicamentos, sendo eles, Madopar 1000g e Akineton retard.. Quantas vezes, recebíamos uma chamada telefónica das Padarias Reunidas, onde era escriturário, para ir buscá-lo, porque tinha caído e não tinha condições de permanecer no local de trabalho. 

Foi assim, a nossa infância, entre brincar no largo da Feira Nova, trabalhar, cuidar do pai e estudar. Fomos crescendo neste ambiente familiar. Sempre disponíveis para acompanhar o nosso progenitor. Entretanto, constitui a minha família e sempre fiz questão dos meus filhos visitarem os avós diariamente. Proporcionei-lhes momentos felizes com os netos. 

Hoje custa-me ver a minha mãe, com uma tristeza enorme, ansiosa, por ver os filhos que estão tão perto e tão distantes para a visitarem. Os meus filhos aprenderam que a família da mãe e a família do pai eram apenas uma família deles. Quando havia uma festa de aniversário eles convidavam os amigos e a família. Estavam familiares meus e familiares do pai. 

A união familiar requer entreajuda, afeição, amor e paz, muita paz! Viver sem a família é como sobreviver sem o ar que necessitamos para respirar.

Viver sem a união familiar é como estarmos à beira de um precipício e não saber como se salvar. Viver sem a união familiar é como caminhar sem o suporte de Deus, para nos amparar. Nesta fase da caminhada da vida, há familiares e amigos que se mantiveram unidos a mim, formando a minha família do coração! Esta união é o lampião da coragem, a vela da persistência, a lanterna do ânimo, o candeeiro da esperança, a lâmpada da fé. 

As estrelas são a luz dos familiares e a lua ilumina as pegadas de Deus a meu lado. Gratidão será sempre uma palavra dirigida a Deus, nosso pai!!!

O PÉ E O FRIO

FÁTIMA LOPES
No inverno os pés à semelhança de outras partes do corpo têm tendência a permanecerem frios por longos períodos de tempo; este frio provoca vasoconstrição dos capilares, ou seja o sangue que flui nos pequenos vasos diminui.

Esta é uma característica muito frequente nos pés por se tratar de uma extremidade mais distante do coração. Neste contexto o CENTRO CLINICO DO PÉ (www.centroclinicodope.pt) esclarece uma série de conselhos práticos para cuidado dos pés durante esta estação.

· É muito importante que o calçado não comprima em excesso os pés, pois quanto mais apertados estão os pés mais dificultada se torna a circulação e um pé em que o sangue não flui corretamente torna-se cada vez mais frio.

· Não exponha os pés diretamente a fontes de calor porque as alterações bruscas de calor favorecem o aparecimento de lesões.

· Devem-se manter os pés sempre secos, pois os pés húmidos favorecem a sensação de frio; recomenda-se a utilização de calçado impermeável. 

· Deve-se praticar atividade física moderada nomeadamente caminhadas, este tipo de atividade evita a perda de calor corporal e promove o mesmo efeito no pé.

· Devem ser ingeridos líquidos suficientes água ou chá.

· Utilizar meias de algodão em vez de nylon.

· Deve massajar os pés pois aumenta a temperatura dos mesmos e logo a sensação de quente.

· Não fumar; este hábito dificulta a circulação sanguínea.

· Utilizar botas de água (galochas) só em dias de muita chuva, pois este calçado permite que os pés não fiquem molhados com a chuva mas favorecem a transpiração mantendo os pés frios.

· Deve descalçar-se em casa para que o pé respire.


SAÚDE ORAL NO BEBÉ

INÊS MAGALHÃES
Os cuidados com a saúde oral do bebé devem começar antes da mãe engravidar, isto é, a futura mãe deve ter uma boca saudável para, assim, a gravidez decorrer sem nenhum percalço, quer a nível dentário quer gengival. Deste modo proporciona ao seu filho todos as condições para que este, também, possa vir a ter uma boca saudável.

É importante que desde a primeira amamentação se tenham cuidados com a higiene oral do bebé. No final deste se alimentar, mesmo sendo apenas com o leite materno, deve-se higienizar a sua boca. Para tal, podem-se utilizar gazes ou dedeiras embebidas em soro fisiológico e passá-las por todas as mucosas do bebé (gengivas, língua, bochechas), afim de não restar nenhum resíduo de leite na sua boca. A higiene oral deve ser sempre realizada desta forma até que comecem a erupcionar os primeiros dentes, onde é importante a introdução, nesta fase, de uma pequena escova (ou dedeira com cerdas) para se remover eficazmente qualquer resíduo de comida, quer dos dentes, quer das mucosas. Para já não é essencial a utilização de uma pasta dentífrica com flúor, pois o bebé poderá engoli-la, sendo esta introduzida mais tarde, por volta dos 18/24 meses, quando a dentição já se encontra quase completa e onde o bebé já consegue “cuspir” a pasta.

É de ressaltar que devem ser evitados quaisquer contactos da boca do adulto com a boca do bebé. Beijos na boca do bebé, ou o simples facto do adulto introduzir algo na sua boca (por exemplo a colher da papa) e depois introduzi-la na boca do bebé, facilita a entrada de microorganismos/bactérias, responsáveis por doenças orais (ex. cárie dentária), na boca do bebé que é estéril a estas, podendo aumentar-lhe o risco de este vir a sofrer mais cedo destas patologias.

Durante o período de erupção dentária é normal o bebé manifestar certos sintomas. Os mais comuns são: gengivas avermelhadas, aumento da salivação, perda de apetite e alteração dos hábitos nutricionais, ansiedade e dificuldade em dormir. Se a criança apresentar febre, vómitos ou diarreia, deverá ser consultada pelo seu médico assistente pois poderá existir outra causa subjacente. O desconforto da criança pode ser aliviado limpando a boca com uma gaze molhada ou recorrendo a mordedores e geles disponíveis no mercado.

Não se esqueça, qualquer dúvida consulte sempre o seu Médico Dentista!

CUIDADORES

“No amor,
A dor disfarça-se com um abraço,
A tristeza com um sorriso,
A ausência com um beijo
E o medo com companhia”
Autor desconhecido

    
ELISABETE CERQUEIRA
Nas crónicas anteriores abordei o tema “envelhecimento”, é um tema muito pertinente e atual, é uma realidade muito presente, não só do ponto de vista profissional mas também do ponto de vista pessoal. Os idosos são o nosso foco principal? sim…mas nunca podemos esquecer os seus cuidadores.

Na verdade, à medida que crescemos e que os nossos pais envelhecem, os papeis dentro da família acabam, inevitavelmente, por se inverter. Estima-se que 85% da população idosa continua a viver na sua própria casa ao cuidado dos familiares, daí a importância do aconselhamento e apoio prestado a estas famílias, para que a árdua tarefa do dia a dia se torne mais fácil e eficaz, prevenindo o stress e o isolamento do familiar que cuida.

Cuidar de idosos em casa é um passo gigante, que deve ser dado com muita consciência, planeamento e com muita boa vontade. O cuidador é peça fundamental na difícil tarefa de cuidar, é aquele que assegura o bem-estar a outra pessoa, quer de forma temporária ou permanente. Tem, acima de tudo, de ser um Ser Humano de qualidades especiais que se expressam pelo amor, solidariedade e doação. Cuidador, define-se como alguém que “cuida…zelando pelo bem-estar, saúde, alimentação, higiene pessoal, educação, cultura e lazer da pessoa cuidada”. Pode ser uma pessoa da família ou da comunidade que presta cuidados a alguém que necessite deles, apoiando-os em termos físicos, emocionais, cognitivos e nas tarefas da vida diária.

Não é uma tarefa fácil, a adaptação ao papel de cuidador é um grande desafio, principalmente nos dias de hoje, em que o dia a dia é uma corrida frenética contra o tempo. Cuidar de um idoso é muito mais que um ato, cuidar é uma atitude. Requer conhecimento, responsabilidade mas também muita afetividade. Cuidar não é apenas zelar um corpo físico mas observar a palavra não dita, expressa através do corpo, muitas vezes frágil, debilitado, um corpo físico que por medo se retrai, escondendo manifestações físicas e emocionais de grande importância e que mais tarde se manifestam em forma de doença.

Muitos cuidadores, mais vulgarmente conhecido como “apoio ao domicilio” nada disto podem observar, limitando-se a zelar um corpo físico e o espaço físico onde o idoso permanece, numa corrida louca…porque o tempo é dinheiro…a seguir há um, mais um e mais um…

Muitas famílias desejam ocupar-se elas mesmas do seu familiar idoso ou doente. Os cuidados diários são tão exigentes, que aqueles que os prestam são frequentemente chamados, “as vítimas ocultas”, esquecessem-se com frequência das suas próprias necessidades. Estas famílias estão “de serviço” 24 horas por dia, lavando, vestindo, alimentando, arranjando, entretendo e tomando conta dos seus “amores”. A responsabilidade de tomar conta dum familiar, muitas vezes assumida sozinha, provoca níveis elevados de stress, o que aumenta o risco duma quantidade de problemas emocionais e físicos, pois a esta tarefa são adicionadas outras atividades do dia-a-dia, principalmente quando estão a tentar manter um emprego e uma família. 

Aproximadamente metade das pessoas que se ocupam de doentes e idosos, apresentam depressões clinicamente evidentes, principalmente devido ao isolamento social e ao stress constante. Além da depressão, existem outras perturbações passíveis de aparecer nos cuidadores, tais como: perturbações do sono; ansiedade; sentimentos de isolamento; fadiga crónica; hipertensão; doenças cardiovasculares; alterações na vida conjugal e familiar; diminuição da assiduidade no emprego (Portal da Saúde, 2008).

É extremamente difícil ser cuidador, esta tarefa pode levar a experienciar sentimentos diversos, muitos deles negativos, a mesma fonte diz que, é normal que sinta tristeza, frustração, culpa pela falta de paciência que por vezes tem, pelo sentimento de revolta em relação ao próprio doente ou idoso, pela situação que vive e solidão pelo afastamento gradual da família e dos amigos, pela impossibilidade de deixar o seu familiar sozinho e procurar um pouco de convívio.

Todos esses sentimentos negativos não significam que não seja um bom prestador de cuidados. São apenas reações humanas! Pelo que, para seu bem e para o bem do seu familiar, não se deve recriminar demasiado; cuidar de si e vigiar a sua saúde; sensibilizar os seus familiares para o ajudarem, procurando em conjunto, estratégias de colaboração; conhecer os seus limites e tentar encontrar ajuda; devem aprender a viver a nova vida, principalmente se não podem contar com o apoio de familiares, tentando tirar partido dela, já que é essa a vida que o espera.

O papel dos enfermeiros dos cuidados de saúde primários, continua a ser de primordial importância na ajuda aos cuidadores. Os seus conselhos podem não só melhorar a qualidade dos cuidados e evitar a exaustão de quem cuida. Os enfermeiros devem procurar sugerir formas, para que os cuidadores vejam a sua vida mais facilitada e ao mesmo tempo manter a sua saúde e o seu bem estar. Todos os conselhos são fundamentais, pois os cuidadores estão sujeitas a cargas emocionais constantes, repetitivas, sentindo-se presos, chegando até à exaustão, sem vida própria e deprimidos, podem na verdade perder o controlo após meses e anos a lidarem com idosos doentes e dependentes que se tornam muitas vezes agressivos, desconfiados, exigentes e teimosos. Estas situações de exaustão levam muitas vezes a atitudes condenatórias que é a questão das agressões físicas e psicológicas, muitas vezes de certa violência.

É de primordial importância, as informações, os conselhos e o apoio, prestado pelos enfermeiros, pelos médicos de família, instituições de apoio e ainda por familiares e amigos, podendo minimizar os anos de provação.

Como cuidador, a vida mudou…ser cuidador em casa é viver uma angustia permanente…é o não conseguir controlar as emoções é o não ser capaz de cuidar de si próprio…

domingo, 26 de fevereiro de 2017

O SENTIMENTO DA VERGONHA

CARLA SOUSA
Este sentimento surge no meio das relações sociais e apesar de não ser um sentimento “prazeiroso” de se sentir, não tem que ser necessariamente negativo. Pode inclusive, estar associada a quadros de timidez. 

A vergonha está relacionada com o Eu e com o Outro, e a forma como eu acho que o outro me julga.

Quando a vergonha se torna excessiva pode bloquear as relações interpessoais e conduzir a comportamentos de evitamento: evitar sair, evitar falar ao telefone, evitar contextos sociais…. Este evitamento pode conduzir à solidão e ao isolamento.

Sentimos vergonha diversas vezes na nossa vida. Quando fazemos algo de errado, quando recebemos críticas, quando sentimos que falhamos, quando não nos sentimos gostados…

A vergonha de si mesmo está associada a uma autoestima baixa, a pessoa sente-se “cheia de defeitos”: inferior, incapaz, feia, má, indesejada…

Deve-se perceber como é que estes sentimentos foram internalizados ao longo da vida, de modo a perceber a origem da vergonha. 

Pode estar associada a críticas negativas e sentimento de rejeição por parte de pessoas significativas, a ausência de afeto ou cuidado ou até a bullying na adolescência. 

A rejeição recebida pode não corresponder à rejeição real, pois normalmente, nestes casos, a auto-rejeição já está instalada. Ou seja, a pessoa que sente vergonha, pode, em jeito de auto-defesa rejeitar todas as pessoas de modo a evitar entrar em contacto direto com a importância de se sentir integrada e gostada, e o medo de ser rejeitada. Actua numa máxima de “perdido por cem, perdido por mil” ninguém”, “nunca niguém vai gostar de mim”, “eu não sou nada interessante”…

A pessoa que sente vergonha de si mesma é insegura, e compara-se aos outros na sua forma de vestir, falar, agir… 

No entanto, convém perceber que aquilo que é vergonha para uma pessoa, pode não ser vergonha para outra. Está associada à nossa sociedade, educação, valores morais e formação. E pode ser sentida e experienciada forma muito diferente nestes contextos.

Na gíria popular usa-se muito a expressão “o sem vergonha”, “não tem vergonha na cara”, muito associado a opiniões morais sobre a pessoa. Pode dizer-se que, é melhor ter vergonha do que ser “sem vergonha”. Ninguém gostará de ouvir “tu não tens vergonha na cara”.



É normal sentir vergonha! É importante saber lidar com este sentimento de forma saudável de modo a que possamos manter boas relações e, para que possamos sentirmo-nos incluídos e lidar adequadamente com o sentimento de exclusão.

EU SÓ SEI SER CALADO

MIGUEL GOMES
Percorri as prosas rimadas que tinha esculpido. Há um sentimento de partilha comigo quando leio do que me escreveram as mãos, sinto um pouco de orgulho, havia ali uma sílaba que me fez sorrir, dizia-me: “Olha, era isto que estava a sentir”.

O vento bate na porta da igreja, encosto-me por instinto e por escassez de lugar nas últimas filas que ladeiam o corredor, lousado, irregular, que guia ao altar. Há a distância que se quer do sagrado. Sequer ousasse sacralizado. Bate leve, levemente. Eu não sou, será gente? Era gente sim, que se escorre de frio e fecha o guarda-chuva no silêncio possível, deixando-o encostado a espremer-se de água caída e a dormitar orgulhoso de vareta curvado. Tudo na vida faz sentido, até o silêncio que trago comigo, arado.

Deu-se início à cerimónia, a natureza conspira contra o solene acto de mnemonizar grafias antigas que outros urdiram em sacralizar, o barulho da porta a bater nas minhas costas, o desequilíbrio e o bater de ambos, porta e eu na ladeira granítica. O olhar ríspido, altivo, inocente e sem sacralidade sobre os óculos para mim faz-me confundir com a porta. Encosto-me e finco os pés. Se alguém bater, por leve que seja, não entrará hoje aqui, na igreja.

Tu estás encostado à esquerda de toda a gente, quando nos disseram que estarias à direita do pai. Sei o que isso é, também eu ia à sua direita, imitando os gestos do volante com um velho livro do Lucky Luke. 

Lembraste quando me disseste onde ias estar dali a uns anos? Rimo-nos. E choramos. De quantos sois precisaria o olhar humano para sentir a imaginação sequer do ameno calor daquilo que nem a realidade te soube contar? Pelo teu acordar valeu a pena adormecer, de vela oscilando de sono no pavio retorcido, esmorecido.

Há uma cacofonia que teimo em não escutar. A pedra onde assentaste, sabia-lo, iria trazer a aridez plutónica do que arrefeceu na profundidade de cada um que se seguiu. 

Uns que entram e saem, admirados por me verem ali, de porta fechado, eu no futuro, eles no passado. Confundem-me com a porta, saem todos no remoinho de gente no inverno, folhas que um vento levou porque rezaram, mas ninguém de ti se lembrou. 

As luzes desligam-me, fecham-me como porta, o ferrolho corre preguiçoso no áspero ferro. Há agora espaço de manobra, bancos de sobra, coincido-me com o andor e fecho os olhos quase como quem se acorda. Em espaços de madeira onde se ajoelham as saliências de quem se fez terra entre leira, também eu soçobro e deixo cair baixinho duas gotas de saudade. 

Tu surges. Ris-te. Eu choro, envergonhado, não lacrimejado. Há meia dúzia de palavras que nunca soube proferir, o ruído do ferro que se rangeu quando os pregavam, nós escondidos, eu com medo e tu senhor, em segredo, sabias já, sei-o agora, do bafiento agreste inodoro arrastar de sotainas por quem te chama em sussurro, para que não venhas. 

O vento bate com mais força. Eu nem sei porque me demoro, nem por que acordo, mas tu alças o braço sobre o meu corpo carregado de ignorância e desambição. 

“Eu só sei ser calado”, desabafo em torpor, mas dizes-me que “isso é o amor”. Eu chamo-lhe silêncio e tu, sorrindo: “Sim, por acaso me viste gritar?”

I(LÓGICA) FEMININA

LUÍS ARAÚJO
Nas coisas indefiníveis no mundo, a (falta) de lógica feminina aparece a brilhar estratosférica lá no alto, poderosa, cheia de vaidade e com um toque de rimmel e blush. Vem desde tempos imemoriais a natural incapacidade para o homem, qualquer homem, conseguir entender mesmo as coisas mais simples inerentes ao universo feminino. Isto, claro, falando metaforicamente, pois não há nada, mas mesmo nada, que possa ser epitetado como “simples” no universo feminino, um mundo complexo e intrincado que faz com que qualquer homem se borre de medo só pela mera sugestão de um hipotético contacto com esta realidade obscura, tenebrosa, e de putativo aspecto dócil, o que qualquer biólogo - mesmo tendo feito o curso por equivalências e com um diploma passado num domingo - de pronto identificará como características inerentes às plantas carnívoras, aquelas que atraem um insecto para o seu interior deleitando-se depois a consumi-lo devagarinho, muito lenta e sistematicamente. De forma desconcertante é a este mundo que se devem dos maiores feitos jamais alcançados pela humanidade, o pânico, o medo visceral, o terror permanente da actividade conjugal, sem sombra de duvida, fizeram com que Edmund Hillary se escapasse para o topo da montanha mais alta que encontrou, Yuri Gagarin fugisse para o espaço, Alan Shepard só encontrasse sossego a jogar golfe na Lua e Don Walsh e Jacques Piccard se refugiassem no fundo da Fossa das Marianas. Após 3, 4milhões de anos, desde o Paleolítico até aos nossos dias a evolução foi... Zero! Ora 3,4 milhões de anos de sabujisse masculina colocam uma pedra bem pesada na velha questão do género dominante. O que é uma modernice muito porreiraça, eu ainda me lembro dos tempos em que as pessoas tinham sexo e eram só dois, agora têm género e são vários, esperemos que as mesmas modernices que acabaram com o sexo não extingam também as posições todas do kamasutra, chutando os géneros futuros para uma vida de asséptica monotonia. E, veio-me isto de repente à memória porque tive uma conversa suis generis com um elemento do belo sexo, que hoje em dia é o belo género, uma amiga minha que estava muito irritada porque um ex-namorado/amante/amigo colorido a tinha “desrespeitado”, o que é uma nova moda com toda a certeza, pois há imensas mulheres que se sentem “desrespeitadas”, ainda não percebi muito bem é porque é que grande parte delas vem desabafar comigo, reconhecidamente a pessoa menos sensível num raio pelo menos daqui até à Nova Zelândia. Antes que a pudesse interromper, fazendo-lhe ver delicadamente que, apesar de ter imenso prazer em ouvir os seus devaneios inconsequentes, tinha marcada uma cirurgia para doar um pulmão a um refugiado de Lampedusa, sou assoberbado com detalhes que me fizeram desejar fazer a doação de um pulmão sem anestesia. Após alguns (muitos) minutos de baba e ranho fico ciente de que esta minha amiga tinha decidido enviar várias mensagens - que fariam enrubescer uma corista da Praça Pigalle - ao tal ex-namorado/amante/amigo colorido e que este, após uma catadupa de mensagens que se estenderam por mais de uma hora e que culminaram numa descrição demasiadamente detalhada da maneira como uma certa parte da anatomia feminina se encontrava livre de toda e qualquer penugem, lhe solicitou uma fotografia... Pelos vistos um gesto altamente desrespeitador, porque ele sabia que ela tinha um namorado. Aqui chegado parece-me que há uma certa confusão na mente feminina, a confusão inerente a alguém que acha que pode estar durante uma hora a fazer sexting e depois fica muito chocada por lhe ter sido pedida uma fotografia. O problema dos fracos e oprimidos reside precisamente nisto, no facto de abusarem do estatuto de fracos e oprimidos, relembro-me de num dos cursos termos um colega de cor que muito divertia a aula porque de cada vez que tirava uma negativa dizia que o professor era racista, ou daquela mãe que não deixava ninguém tocar no filho por serem todos “pidófilos”, do mesmo modo esta minha amiga acha que pode provocar até à medula alguém e depois sentir-se muito ofendida, seja com o que seja. E é nesta altura que dou por mim a lamentar ter terminado esse belo hábito do “chapadão nas ventas”, seja a mulheres ou a homens, porque voluntários não faltam.

É CARNAVAL E NINGUÉM PODE LEVAR A MAL

LÚCIA LOURENÇO GONÇALVES
Sim, sou de tradições… Ou antes, de as recordar.

Hoje o Carnaval é feito de máscaras, fantasias… Na minha opinião, simples banalidades!

Cresci a viver o Carnaval de uma forma bem diferente e ainda hoje recordo as brincadeiras e tropelias vividas entre rapazes e raparigas que durante esta época carnavalesca se tornavam autênticos rivais.

E quando havia casais de namorados à mistura, as picardias, assumiam uma característica ainda mais interessante!

A semana dos “compadres” não era comemorada. Os pais, zelosos, não deixavam as raparigas saírem à noite, logo os rapazes nunca eram incomodados, contrariamente à semana das “comadres” que era bem vivida.

Os rapazes, livres do preconceito dos pais, passeavam-se pelas povoações onde havia raparigas, e eram peritos em atazanar-nos os ouvidos, fazendo barulho com tudo o que produzisse som. Algo que provocava autênticas “batalhas campais”, com muitos banhos de água fria à mistura… E quando já não havia água no balde, às vezes num ato de pura frustração, arremessava-se com o balde vazio.

E no escuro da noite muito raramente conseguia-mos descobrir o rosto dos simpáticos meninos que nos brindavam com uma serenata de panelas e metais, numa melodia completamente atordoante!

Para o dia de Carnaval, outra atividade era esmeradamente preparada. Na manufatura do “compadre” e da “comadre” – bonecos - eram usados paus revestidos com papel de seda nos mais variados tons. Um por cada grupo de jovens que participavam num autêntico despique entre sexos!

E era exatamente neste dia, que a última batalha tinha lugar. Objetivo? Capturar ao grupo rival, o respetivo boneco. Algo que nos fazia calcorrear campos e vales, sofrer quedas e arranhões… Enfim, era quase o vale tudo.

E isto sob o olhar divertido dos respetivos pais, que muitas das vezes não sabiam por quem torcer, afinal nesta “guerra” não havia irmãos, mas sim rapazes e raparigas de lados opostos e dispostos a passarem um bom bocado e honrar a tradição herdada das gerações anteriores.

Por fim e quem captura-se o boneco do grupo rival - e por norma eram os rapazes - Aqui tenho que admitir, o grupo das raparigas era mesmo o elo mais fraco. Isto porque, quase sempre de estatura mais baixa e menos velozes a fugir, facilmente eramos “engolidas” pela força e altura dos rapazes que, quando cercados, facilmente arremessavam a “comadre” para o restante grupo que assistia à espera da oportunidade. E a corrida continuava, por vezes até ao anoitecer.

Quando acontecia o inverso, rapidamente o jogo terminava, as raparigas não tinham a força nem a altura para atirar com o boneco para fora do círculo formado pelos rapazes e o nosso querido “compadre” era capturado e queimado ao anoitecer, junto à escola que todos tínhamos frequentado e ficava situada num alto de onde todas nós “humilhadas” podíamos assistir. Tudo isto no meio de gritos de júbilo dos rapazes, claro!

Pobres de nós raparigas, que nas semanas seguintes ouvíamos as suas gracinhas... Mas que relevávamos, claro!

Afinal,eramos jovens e vivíamos estas épocas como jovens que éramos e acima de tudo divertíamo-nos… e de uma forma bem simples!

E que me lembre nunca houve cabeças nem pernas partidas, agora umas nódoas negras… talvez algumas, e uma ou outra amassadela no ego também!