terça-feira, 24 de janeiro de 2017

MOSCOSO

BRUNO SANTOS
Mocenigo Alba costumava almoçar no Nariz do Mundo, o único restaurante da aldeia de Moscoso, no alto da Serra da Cabreira. Nesse dia inesquecível, enquanto bebericava o verde tinto da casa e rilhava um pequeno pedaço de broa milha, um homem muito alto e muito vestido de negro aproximou-se da sua mesa. Parou junto a Mocenigo e ficou completamente imóvel durante alguns segundos, sem dizer uma palavra. Depois, com um gesto digno de um ilusionista, fez rolar sobre a toalha de linho três moedas de bronze.

Mocenigo pousou o copo de vinho e baixou ligeiramente a ementa que lia com a atenção de um ourives. À sua frente estavam três círculos metálicos exactamente iguais, em cujas faces se destacava claramente o número dez. Voltou uma das moedas ao contrário sem tirar os olhos da lista de sugestões do chefe. Na outra face do círculo reconheceu, de soslaio, o selo de validação usado em mil cento e quarenta e dois por D. Afonso Henriques, o primeiro Rei de Portugal - uma Rosacruz.
Regressou à leitura atenta dos pratos do dia, bebericou de novo o tinto e fez um estalido metálico com a língua.

- Seis. Yin. Móvel. Já almoçou? - perguntou ao homem de negro.

- Sempre que abro uma certa gaveta em busca de um par de peúgas - respondeu o homem - acontece encontrar lá as peúgas que buscava. Uma vez que jamais lá coloquei peúgas ou o que quer que fosse, pensei hoje, ao abrir a gaveta, que talvez deva ao Deus que provê tal magia um pequeno altar e um pau de incenso. O que lhe parece, Mocenigo?

- Acho que é de pequenos milagres que se faz o Corpo do Divino. Mas eles misturam-se uns com os outros, formam uma imagem difusa para que os olhos mortais os confundam com as coisas aparentes que tomamos por reais. Costuma usar meias pretas?

- Depois pensei melhor e lembrei-me que, sem prejuízo da devoção que devemos ao Deus do nosso coração, talvez não fosse mau passar a lembrar-me mais das gavetas onde os outros buscam mistérios como meias pretas e ser eu próprio a depositar lá essa magia, como um Deus abscôndito, um anjo desconhecido. O que lhe parece, Mocenigo?

- Vou no Cozido à Portuguesa.


PALESTRA AO INTERVALO: COMO MUDAR O RUMO DOS ACONTECIMENTOS EM 15 MINUTOS

ANDRÉ QUEIRÓS
A imprevisibilidade é algo que está bastante presente no jogo de futebol, e talvez essa grande probabilidade de acontecer algo fora do expectável é que torna este jogo tão apaixonante. Mas para o treinador uma primeira parte fora daquilo que tinha projectado com a sua equipa para aquele jogo representa uma desilusão tremenda e muitas vezes perdas irreparáveis para os segundos quarenta e cinco minutos. Que estratégias pode adotar o líder para mudar o rumo dos acontecimentos e colocar a equipa de volta ao jogo?

Primeiro e mais importante do que tudo o treinador e a sua equipa técnica devem ser capazes de perceber aquilo que se está a passar, ou seja, o porquê de a sua equipa não estar a corresponder aos problemas criados pelo jogo do adversário ou outros constrangimentos que estejam a acontecer. 
Em segundo lugar e depois de perceber o que está a acontecer de menos positivo o líder tem que estar preparado para encontrar soluções para os problemas de forma a que os jogadores percebam não só aquilo que está menos bem, mas que tenham acesso a ferramentas para corrigir esses mesmos aspectos. 
Em menos de quinze minutos o treinador deve fazer tudo isto e ainda comunicar de forma adequada ao contexto, ao grupo de Homens que tem consigo e de acordo com a resposta que ele quer obter. A comunicação deve ser curta e objetiva, tom de voz e linguagem corporal congruentes com a informação verbal e evitar o excesso de informação. O treinador deve saber ainda que mensagens individualizar para um único recetor e outras que deve transmitir para todo o grupo.

Tal como qualquer outro skill, a comunicação é treinável e para estar preparado para ter uma comunicação eficaz em situações de stress emocional para o interlocutor e para os recetores o líder deve fazer o seu trabalho de casa e tentar antecipar aquilo que poderá acontecer durante o jogo, desta forma estará pronto para argumentar e convencer o seu grupo daquilo que são as suas convicções e mais importante do que isso, levá-los a agir da forma que ele pretende e acha mais benéfica para a equipa.

CARTAS DE AMOR

REGINA SARDOEIRA
Quando leio poemas de amor, declarações de amor, cartas de amor, textos que surgem, em abundância, agora, nos territórios virtuais onde, democraticamente, todos publicam, publicando-se a si mesmos, sou acometida de uma sensação invencível de desconcerto. O nosso mundo não é marcado pelo amor, pois não? O nosso mundo é gerido pelo ódio, pela violência, pelo interesse, pela hipocrisia, pelo caos, não está à vista? O nosso mundo está enfermo, carece em absoluto de valores, vive no contexto de atropelos de humanos contra humanos, alimenta-se de vinganças e de intrigas, corrompe-se na devassidão e na artimanha…não é?

Pode ser que eu seja irremediavelmente céptica, mas o cepticismo que propugno é a expressão real dos acontecimentos testemunhados quotidianamente: como pode haver tanto amor, derramado nessas páginas, e tanto horror desfraldado à vista de todos os que escrevem e lêem as mesmas páginas? Dir-me-ão que sim, que pode, mais, que é preferível ler textos de amor – mesmo falsos – escrever odes românticas – ainda que feitas somente de palavras astuciosas – do que expressar ou desvendar a verdadeira e única expressão do nosso mundo.

Há tempos fui a um casamento, daqueles que – percebi-o aos poucos, no decorrer das inúmeras cerimónias que a festa acumulou – são frequentes nos nossos dias e para os quais as famílias espremem economias, pedem empréstimos, investem um capital desmedido. Só o respeito e a amizade que nutro pelo noivo me fizeram ir e depois suportar e até tolerar e mesmo usufruir com prazer o fausto de semelhante banquete! Mas estive sempre dividida entre dois sentimentos: a vontade de justificar a opção faustosa do meu amigo e o horror de semelhante desperdício, absolutamente supérfluo, quer para eles, cuja vida futura será o que eles forem, enquanto pessoas, e não o que aquela festa patenteou, quer para nós que ali participávamos, até aos limites e muito para além da nossa necessidade de consumir, de comer, de gozar surpresas e rituais cuidadosamente preparados e ensaiados.

Por outro lado, a cerimónia em si, aquela que a Igreja Católica considera ser a única forma válida, melhor, verdadeira e legítima, de unir casais pelo sacramento do matrimónio foi apenas um ponto acima do medíocre e, quanto à homilia do sacerdote, um ponto abaixo do muito mau. Reparem: os noivos estavam ali, para, mais ou menos convictamente, celebrarem o casamento pelo ritual católico… e o que faz o padre? Em vez de centrar a sua atenção exclusiva nos dois jovens e louvar-lhes o acto sagrado, não se coíbe de fazer extrapolações absurdas condenando explicitamente os casamentos civis (não são verdadeiros casamentos, dizia ele, apenas contratos) e de aludir, de modo enviesado, mas mesmo assim perceptível, a outro tipo de uniões reivindicadas por certas minorias, uniões condenáveis, uniões absurdas (segundo ele)!

Este exemplo foi uma espécie de demonstração da queda de valores do nosso tempo. Respeito o meu amigo, compreendo-lhe a necessidade de exibir-se daquele modo (porque o conheço); mas, estendendo aquele acto até aos limites da sua compreensão e interpretação, não posso deixar de ver ali os sinais da decadência do tempo que vivemos.

Os romanos, no seu tempo áureo, quando tinham um império e um exército, quando eram donos do mundo, do ponto de vista do poder e da riqueza, afundaram-se e deixaram-se conquistar porque cederam à orgia: quando acordaram dos banquetes desmesurados, dos excessos, a que a glória conquistada os conduziu, já nada lhes restava que valesse a pena festejar! Nada temos em comum com os romanos (no que diz respeito ao império, ao poder e à riqueza), mas somos os actores de um momento de crise, crise muito mais profunda e devastadora que os simples sinais económicos e financeiros do colapso. Estas crises, paradoxalmente, fazem emergir fenómenos de fausto, repetições de rituais orgiásticos, como se quiséssemos agarrar o que nos foge e celebrar o fim dos tempos: e estas explosões de exibição de riqueza correspondem ao culminar e ao declínio do Império Romano, que, depois de morto, nunca mais conseguiu erguer-se. E então, o nosso tempo, este em que, simultaneamente nos afundamos na crise económica, no desemprego, na fome e na miséria à escala global e, ao mesmo tempo, nos patenteia o luxo, o excesso e a orgia afundar-se-á, definitivamente, tão definitivamente quanto o Império Romano do Ocidente e do Oriente. Não ficará pedra sobre pedra!
Em Portugal, buscamos desesperadamente os salvadores, e ficamos perplexos, porque quer uns, quer outros nada valem, afinal, enquanto salvadores. Olhamos a democracia – esse governo do povo – e percebemos que a deixamos perverter-se, a um ponto tal, que só destruindo-a, cortando cabeças, instaurando a lei da guerra e da revolta podemos anular a perfídia dos salvadores, proibindo-os de fazer o que quer que seja em nosso nome. E é então que evoco Marx e Engels, nascidos prematuramente, profetas do século XXI, ancorados na escuridão do século XIX, aproveitados e viciados nos estertores maquiavélicos das guerras mundiais, usados em revoluções e governos, antes do tempo, antes da eclosão deste momento que vivemos hoje e que, apenas ele, está pronto para a aplicação dos princípios, nunca levados à prática e ainda letra morta nos livros de Marx e Engels.
É necessário relê-los em primeira mão, atirar fora as teias de aranha e as falsas teorias dos que ousam apelidar de marxistas governos que tiranizaram e oprimiram, governos que, desconhecedores da verdadeira essência do marxismo, se substituíram (reproduzindo-as mais tarde ou mais cedo) às ditaduras czaristas e outras que vinham, supostamente, desmantelar, para traçarem as linhas do caminho humanista. E quem, ainda assim, não for capaz de eliminar o preconceito anti-comunista, tão obscurantista e inadequado, que leia ao menos o evangelho e medite nas palavras de Cristo, naquelas que dizem que somos todos iguais e que podemos transcender-nos, ultrapassando a fragilidade e a miséria do corpo, naquelas que falam do Reino de Deus e que é, afinal, o Reino do Homem liberto da sua inferioridade, elevado até ao seu poder! Ou então, se formos capazes de entendê-lo, leiamos Nietzsche, à luz do nosso tempo, e vejamos a Vontade de Poder nas suas páginas enunciada, não como a materialização de um aberrante Super Homem racista e prepotente, mas como a necessária auto-superação do homem, amesquinhado, mistificado, iniludivelmente tornado o Último Homem.

«Todas as cartas de amor são ridículas», escreveu Fernando Pessoa, num poema que toda a gente conhece; as dele, Fernando Pessoa, também o foram e ele di-lo no mesmo texto e, ainda que continue o poema, dizendo, «mas afinal só aqueles que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículos», o certo é que guardou as dele para si, não as exibiu para o público, porque elas não se destinavam ao público mas ao ser amado e eram, por tal razão, íntimas, pessoais. E se hoje lhe esventram o espólio e as publicam, nesta ânsia de vasculhar um ser humano até ao âmago, não é porque ele tivesse dado autorização (o poeta morreu em 1935) mas porque o nosso tempo vive da apropriação indigna dos sentimentos dos outros e não recua perante o deleite dos pequenos ridículos, das pequenas fraquezas de alguém, a outros níveis, realmente grande!

CINESIO & MECANOTERAPIA

LIANE SANTOS
Cinesioterapia
A cinesioterapia é definida etimologicamente como a arte de curar, utilizando todas as técnicas do movimento.
Define-se como, o uso do movimento ou exercício, como forma de tratamento, tendo em conta os conhecimentos de anatomia, fisiologia e biomecânica.

A utilização da cinesioterapia tem como objectivo, desenvolver um trabalho mais eficaz a nível da articulação, prevenção de lesões e a sua recuperação, mantendo, corrigindo e recuperando uma determinada função.

Os seus efeitos baseiam-se no desenvolvimento, melhoria, restauração e manutenção da força, da resistência à fadiga, da mobilidade e flexibilidade, do relaxamento e da coordenação motora.

A indicação da cinesioterapia é bastante criteriosa, sendo necessário uma avaliação para traçar objectivos e estratégias. Esta avaliação deve ser frequente, para manter o tratamento actualizado, tendo em conta o desempenho do paciente e o seu desenvolvimento.

Técnicas básicas de cinesioterapia
  • Massagem
  • Mobilizações
    • Activas e Activa-assistida
    • Passivas
    • Resistidas
Contra-indicações da mobilização
Quer a passiva, quer a activa estão contra-indicadas em situações em que o movimento do segmento seja prejudicial ao processo de cicatrização:
  • Imediatamente após ruptura de ligamentos, tendões ou músculos (situações agudas)
  • Nas zonas de fracturas não consolidadas
  • No pós-operatório de cirurgias aos tendões, ligamentos, músculos, cápsulas articulares e pele
A mobilização activa está contra-indicada quando a situação cardiovascular do paciente é instável e o exercício activo poderia por em risco a vida do paciente
E ainda, é contra-indicado a realização de manobras forçadas e dolorosas e realizar a mobilização em articulações hiperálgicas

Mobilização activa
É um movimento dentro da amplitude máxima de movimento livre para um segmento, produzido por uma contracção activa dos músculos envolventes da articulação.
Ou seja, O paciente realiza o movimento sem auxílio do terapeuta. O paciente tem uma participação activa, voluntária e consciente, dos movimentos que executa.


Mobilização activa-assistida
É um movimento dentro da amplitude máxima de movimento livre para um segmento, na qual a assistência é produzida por uma força externa, manual ou mecânica por debilidade muscular.
Ou seja, o terapeuta auxilia o movimento realizado pelo paciente.

Indicações da mobilização activa e activa-assistida
Quando o paciente tem capacidade de contrair voluntariamente os seus músculos com ou sem assistência e não existem contra-indicações formais:
  • Com os mesmos objectivos da mobilização passiva, no entanto, acresce os benefícios da contracção muscular
  • Manutenção da contractilidade e elasticidade muscular
  • Feedback sensorial dos músculos em contracção
  • Estimulação para a integridade óssea
  • Melhorar a circulação prevenindo o desenvolvimento de tromboflebites
  • Fraqueza muscular do paciente
  • Em programas de melhoria da condição física podem usar-se os movimentos activos de forma a melhorar a resposta cardiovascular e respiratória.
Mobilização resistida
O mesmo que o anterior, mas o terapeuta contraria o movimento realizado pelo paciente.
É solicitada acção e controlo dos músculos motores do movimento solicitado. Deve ser realizado contra uma força externa além da gravidade ou peso.
  • Nunca esquecer os comandos verbais, para o paciente entender o que é pedido;

Indicações da mobilização resistida
  • Aumentar a força
  • Aumentar a resistência muscular à fadiga
  • Aumentar a potência
No entanto, deve-se ter atenção as condições cardiovasculares, osteoporose, movimentos associados, etc.

Mobilização passiva
É um movimento dentro da amplitude máxima de movimento livre para um segmento, produzido inteiramente por uma força externa, não havendo contracção muscular voluntária. Ou seja, Caracteriza-se pela participação passiva do paciente, ou seja, o terapeuta ou um aparelho externo, realiza o movimento.

Indicações da mobilização passiva
Por incapacidade do paciente se mover activamente um segmento ou segmentos do corpo usa-se a mobilização articular passiva:
  • Manutenção das amplitudes articulares e dos tecidos moles
  • Manutenção da mobilidade
  • Minimização de formação de contracturas
  • Manter a elasticidade mecânica muscular
  • Melhorar a circulação
  • Ajudar a manter a consciencialização do movimento
  • Demonstração de um exercício activo
  • Para avaliação de estruturas inertes
    • Limitações articulares
    • Avaliação de instabilidade articular
    • Avaliação da elasticidade muscular ou dos tecidos moles

Mecanoterapia
Engloba um conjunto de técnicas de tratamento que necessitam de uso de materiais próprios tais como Gaiola de Rocher, bandas elásticas, halteres, roldanas, molas, pesos, cabos, bicicletas, tapetes de marcha, etc.
Ou seja, a mecanoterapia traduz-se nos materiais / aparelhos que auxiliam na realização de todas as técnicas de movimento, usadas como tratamento.



Materiais integrantes na Mecanoterapia (alguns representados na imagem)
  • Tábuas de Freeman
  • Roldanas
  • Halteres/ Pesos para o membro superior
  • Gaiola de Rocher
  • Roda
  • Bicicleta
  • Pedaleira
  • Bola suíça
  • Bastão
  • Plano Inclinado
  • Colchão elevado
  • Barras paralelas
  • Escadas
  • Espaldar
  • Espelho
  • Step
  • Cadeira de quadricípite
  • Entre outros.

Todos estes materiais são facilmente encontrados em clínicas de fisioterapia e unidades de medicina física e reabilitação dos hospitais.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

MANUAIS ESCOLARES: SENSACIONALISMO E INCONSEQUÊNCIA

PAULO GUINOTE
Alguns dias passados sobre os programas e debates da RTP3 e TVI sobre o processo de produção e comercialização dos manuais escolares, tendo pousado rapidamente a poeira levantada de forma muito agitada por aqueles dias, já é possível fazer um balanço do que (não) passou.

Comecemos pelo fim: a única consequência que se pode identificar daquilo tudo é que o Ministério da Educação vai encomendar um estudo para, em 2017, saber como é constituído o preço de um manual escolar. Sim, é verdade, com tanto grupo de trabalho e estrutura de missão ao longo das décadas, incluindo encomendas estranhas para sistematização de legislação já sistematizada por parte de alguém que também por ali passou, em Portugal, em 2017, aparentemente (sublinho o “aparentemente” por razões óbvias), o nosso Ministério da Educação não faz ideia da forma como se chega a um determinado preço de um artigo que ele impõe, em regra, como obrigatório para muito mais de um milhão de alunos (e esperemos por manuais para o pré-escolar, que deve ser o must da próxima temporada). Eu acho que o que se passa é outra coisa… o ME já sabe, sempre soube, mas precisava de um pretexto para anunciar o estudo que já deve estar mais do que alinhavado. Mas isso são os truques habituais para iludir a opinião pública.

Continuando. Comum a ambas as reportagens, embora com maior gravidade e ligeireza na da RTP, a imputação aos professores da responsabilidade por obrigarem os pais a comprar manuais, optando por aqueles em que os grandes grupos editoriais lhes dariam maiores ofertas, falando-se mesmo em viagens. Nada surgiu em qualquer das reportagens como prova documental da “denúncia”, muito pouco sobre o verdadeiro processo que determina o calendário e procedimento das adopções (responsabilidade do ME), nem grande coisa sobre tudo o que anda em volta dos materiais auxiliares que também são promovidos em catadupa em cada momento que um ministro ou secretário de Estado, pela sua cabeça ou como simples testa de ferro, decide alterar calendários e natureza de provas de avaliação externa ou inventa mesmo novas alterações às provas existentes ou aos programas das disciplinas, com destaque para o Português e a Matemática. Nada ainda sobre a implicação que a adopção do Acordo Ortográfico nas escolas de forma obrigatória teve em tudo isto.

O que apareceu de mais relevante: o enorme desperdício de manuais e outros materiais não adoptados ou não utilizados (reparem que não me pareceram manuais já usados a ser destruídos), algumas pessoas a fingirem que nada era com elas (o senhor da Autoridade da Concorrência, a ex-ministra que sacudiu para o secretário de Estado a responsabilidade por não ter conseguido um acordo com as editoras, o mesmo que não teve qualquer problema em não querer, sequer, um acordo com os professores sobre a sua carreira), outras com a pose de quem sabe dominar o “mercado”, um pseudo-arrependido a dizer banalidades sem concretização (o lamentável “promotor escolar”) e alguns professores a tentar descrever algumas perversões do sistema (o Luís Braga e o Carlos Grosso, por exemplo), mas parecendo ficar na mesa da edição o mais importante e decisivo em todo este processo e que é o nível da macro-decisão, aquela em que se decide o que muda, quando e que permitiu a existência de um processo de concentração e cartelização do mercado dos livros escolares.

O que passou ainda por aquelas reportagens foi uma enorme hipocrisia de algumas figuras que apareceram e o não cumprimento da promessa de denunciar certas cumplicidades institucionais e pessoais. Foi suave o tratamento dado a uma confederação parental demasiado prisioneira das suas parcerias, foi inexistente a relação estabelecida entre o secretário de Estado incapaz de negociar um acordo bom para o interesse público e o ex-secretário de Estado capaz de ir administrar um dos grupos empresariais do sector, bem como a investigação sobre a coincidência de preços entre manuais de grupos teoricamente concorrentes ficou pela mera enunciação do facto e apresentação de documentos de outros tempos. A verdade é que terão existido denúncias bem mais recentes para a Autoridade da Concorrência que ficaram por investigar, enquanto o seu dirigente máximo constata evidências e faz nada. O auto-branqueamento dos poucos políticos que apareceram já era esperado, estranhando eu mais que ninguém ligado aos pareceres do Conselho Nacional da Educação aparecesse a dar a cara pelo que escreveu, quando tão rápidos são a aparecer quando o assunto é outro. Tenho umas ideias sobre a razão, mas logo se verá qual o movimento editorial. O movimento editorial que também não foi investigado, fazendo uma verificação de nomes entre quem apoia a produção de legislação na esfera pública e quem publica na esfera privada a explicar aquilo que os normativos se esmeram por tornar opaco e carente de explicação anotada e comentada.

Entendamos uma coisa: eu acho que os nossos manuais estão ao nível do melhor que existe em qualquer parte do mundo e que as editoras têm todo o direito de explorar um mercado que o poder político lhes deixou nas mãos. Só que… então não deveríamos todos poupar e evitar os luxos? Não será possível produzir manuais escolares muito mais baratos sem uma redução catastrófica da “qualidade”, quando na escola existem recursos digitais para ir em busca dos materiais que teoricamente mais encarecem os manuais: as imagens e infografias? Não seria possível ao ME produzir (ou encomendar) manuais e materiais “marca branca” para concorrência verdadeira no mercado? Sem promiscuidade de autorias de metas e manuais, programas e livros de apoio?

A questão da reutilização, no meio disto tudo, é importante mas tem sido usada como pretexto para outro tipo de luta. A esse nível, defendo a liberdade de todos: do Estado para impor regras a quem usa materiais recebidos de borla e das “famílias” para optar por querer essa possibilidade ou optarem por comprar e guardar os seus livros. Afinal, um manual também é um livro e tem a mesma dignidade de outros que possamos ter nas nossas estantes. Terá mesmo, porventura, maior importância na nossa formação como leitores do que tantos outros.

O balanço final parece-me magro para tanto alarido. Afinal, repito o que disse no debate da RTP3… há que ir além da arraia-miúda, ter coragem de elevar o olhar e apontar o dedo a quem tem mesmo grandes responsabilidades nisto tudo. E parar de acusar os professores por todas as tropelias (há quem faça algumas, mas a esses apliquem o devido castigo, não metam lama na ventoinha), mesmo quando os apresentam como meros idiotas úteis, operacionais involuntários de grandes interesses. Tenham a coragem para ir mais além. Se (v)os deixarem.

A POESIA COM ARTE – A ARTE DA POESIA

[explicação devida: tema de conversa ontem, 09/01/2017, na rubrica “Ensaios Abertos”,  do programa de Ana Coelho, “Livro Aberto_Rádio Voz de Alenquer”, a preencher um espaço literário quinzenal (às segundas feiras) a partir das 22H30.]


Introdução
ALVARO GIESTA
«Pensar a linguagem poética é, antes de tudo, reflectir sobre o “estranhamento” provocado pela mesma diante da configuração e significação que envolve o seu desenvolvimento» (in Rios Electrónica – Revista Científica da FASETE, Ano 1, n.º 01, Agosto 2007. A ilustrar-se este “estranhamento”, como dizia em sua obra ABRAMOVICH (editada em 1989, a pp. 67, o poeta, tradutor,crítico literário e ensaísta brasileiro José Paulo Paes, «A poesia não é mais do que uma brincadeira com as palavras. Nessa brincadeira cada palavra pode e deve significar mais de uma coisa ao mesmo tempo: isso aí é também isso ali. Toda a poesia tem que ter uma surpresa, se não tiver, não é poesia: é papo furado». Então, será que podemos dizer que a poesia é tudo e nada ao mesmo tempo? Depois deste reflexão do ensaísta atrás aludido, cabe-nos perguntar se: nesse tudo e nesse nada ao mesmo tempo, que o poeta desenvolve com a palavra através do seu poder de escrita poética, diferente e única, mesmo parecendo, ao leitor, incompreensível o poema, «Nenhuma leitura do poema é estéril: nem (mesmo) a de quem não o entende? (in OSCURO: CLARO de El ave em su aire, Ángel Crespo).

Necessário se torna, por isso, falarmos do “estranhamento” da linguagem no discurso poético como, também, questionar de que natureza é o entendimento ou não entendimento que a poesia provoca ao leitor. O “estranhamento” (definido por Jean-François Lyotard – importante pensador francês sobre a pós-modernidade – como sendo o “differend” em oposição ao consenso), é o efeito criado pela obra de arte literária, que nos leva a distanciar, em relação ao senso comum, como apreendemos o mundo e a própria arte. É o “estranhamento” ou “desfamiliarização” que nos leva a reconhecer que existe uma outra linguagem – a artística – linguagem essa que nos permite entrar numa outra dimensão, só visível pelo olhar estético ou artístico. Isto é: pela linguagem literária – diferente da usual – forma-se um universo imaginário ou ficcional que leva o leitor a fazer a apreensão do real pela imaginação. A esta fuga ao convencional chama-se arte literária. “Estranhamento” foi um termo também utilizado, e pela primeira vez, pelo formalista russo Viktor Chklovski no seu trabalho “A Arte como processo” ou “A Arte como procedimento” – artigo publicado em português na colectânea “Teoria da Literatura: Formalistas Russos” (no Brasil em 1971 e em Lisboa (Todorov) em 1999) e que, infelizmente, não se dá nas nossas escolas (ao que penso). Segundo Chklovski, tal teoria resume-se no seguinte: «A finalidade da arte, é dar uma sensação do objecto como visão e não como reconhecimento; o processo da arte, é o modo de singularização (estranhamento) dos objectos e o processo que consiste em obscurecer a forma, em aumentar a dificuldade e a duração da percepção. O acto de percepção em arte é um fim em si e deve ser prolongado; a arte é um meio de sentir o devir do objecto, aquilo que já se “tornou” não interessa à arte». Ou seja, a arte é um meio de sentir a mudança, a transformação, o poder vir a ser “aquilo”, “mas também outra coisa” – como nos diz J. Paulo Paes: na poesia “isso aí é também isso ali". Então, o “estranhamento” para Chklovski «é o efeito criado pela obra de arte literária para nos distanciar (ou estranhar), em relação ao modo comum como apreendemos o mundo e a própria arte, o que nos permite entrar numa dimensão nova só visível pelo olhar estético ou artístico».

Quanto ao entendimento ou não entendimento que a poesia feita com arte provoca no leitor, a questão importante é determinar se a leitura, de quem não entende o poema, é ou não estéril pelo não entendimento que a palavra poética provoca no leitor, que rápido pode passar a não-leitor do poeta de cuja leitura nada entende. Então, o que resulta dessa leitura estéril de quem não entende o poema? É sabedoria ou falta de conhecimento? Sabedoria do poeta que trabalha o poema com o tal “estranhamento” atrás referido, de tal ordem tão metaforicamente construído que só ele, poeta, o entende (e muito poucos dotados do poder de discernir o que essa leitura provoca, muitas vezes lido nas entrelinhas o que fica por dizer), ou falta é de conhecimento do leitor que, não entendendo o poema, e demonstrando por A + B a razão do seu não-entendimento, se transforma em sabedoria também?! Num caso há sabedoria e arte e no outro há falta de conhecimento? Controversa esta questão… pela controvérsia criada é importante que se equacione se, no poeta, há sabedoria porque trabalha o poema de ordem a provocar no leitor reacções tais que o levam a decifrar, pela leitura, pelo “ler um poema”, se este acto do “ler um poema” é distinto do ler outro texto qualquer que não seja poema, ou deixa de haver sabedoria no leitor, por não ser capaz de demonstrar que um texto é “um poema” e o outro é um “não-poema”?

O poema e o não-poema
Então, o que é um poema? E um não-poema? São estas duas coisas contraditórias, quando a ambiguidade poética dita o mais profundo saber que há em poesia, que vão definir o que é um poema e um não-poema? Não será certamente, e disso nos fala o poeta e crítico espanhol Ángel Crespo: «Se sabes perfeitamente o que estás dizendo, não continues o poema: rasga-o». Penso como o poeta, ensaísta e escritor E. M. de Melo e Castro, que esta ponte debruçada sobre o abismo do “saber” e do “não-saber”, que frequentemente interroga sem respostas concretas, é que é o maior critério (talvez o único!) de avaliação do poético. E é nisto que se define a maior ou menor arte poética. Trabalhar a palavra de ordem tal que, com ela, deixe em suspenso tudo sobre o nada poético, vestindo esse nada poético de todas as miragens, vivas ou inanimadas, provocando com a palavra poética, construída com certo uso da razão, motivos visionários que façam com que a visão do leitor se afine pela sensibilidade e pelo rigor. Aqui, temos que fazer jus à dificuldade da resposta à pergunta “O que é a poesia? ” e, embora sendo quase impossível a resposta, arriscarmos uma com base naquilo que ela propõe – os motivos visionários afinados pela sensibilidade e pelo rigor. Assim, a poesia será a expressão da alma: os poetas veem a vida de forma diferente – faz parte do mundo literário poético, podermos raciocinar as ideias de outro modo – ainda que usando a razão (ao raciocínio nos referimos) para imprimir arte à poética sem nunca nos deixarmos comandar apenas pelo coração. Porque o real é importante na poesia – e este faz parte da vida quotidiana – o poeta admira e canta a beleza sem nunca deixar de viver o real.

E isto, porque o poeta não deve olhar apenas para o seu umbigo poetando apenas de si, dos seus-só sentimentos, do seu-só pequeno grão de areia que é, em constante reflexão de intimidade egocêntrica, quando, afinal, ele vive num universo de preocupações sociais composto de ramificações profundas, em que se deve debruçar – as tais ramificações que conduzem aos problemas do filosofar-poético e do saber. Mas isto é questão para outro capítulo subordinado a outro tema.

Importa, antes de inflectir para outra reflexão, sublinhar que o extra-sensorial não pode ser olvidado – cantando-o nós, de maneira diferente em poesia, cativados pela beleza, pelo sentimento, pelos valores, pelas coisas que não podem ser silenciadas: a guerra, a injustiça, a ânsia, a procura e a inquietação, a busca existencial, a falta e a ausência de Deus, tudo o que vá além do nosso próprio umbigo – tudo isso é poesia, equacionando estes valores ou ausência deles, com arte. A caneta dum poeta, debruçada no silêncio, desassossegada e inquieta com a interrogação, descendo aos infernos para depois subir aos céus, faz arte, quando é cultura, quando é amor, quando é beleza e música… é isto tudo – é denúncia, é uma constelação de coisas naturais que, metaforizadas ou não, são arte (poética) tal qual a música, a escultura ou a pintura o são.



A palavra escrita: um objecto de arte e com arte

Antes de entrarmos neste capítulo, vamos recordar, acerca da “Arte e Sensibilidade”, o que nos diz Fernando Pessoa em “Carta a Miguel Torga”, datada de 1930:

(...)

[texto entre (...) já publicado na BIRD em 07/Março/2016 e que aqui, nesta publicação, se considera não haver necessidade de o repetir; contudo, a referir no próximo programa radiofónico]

Depois deste preâmbulo, melhor dizendo, deste ensinamento que nos transmitiu Fernando Pessoa sobre “Arte e Sensibilidade” na carta que escreveu a Torga, cabe fazer a seguinte pergunta:

– Será tão válida, como “arte”, a obra poética escrita sob impulsos não pensados – aqueles que vulgarmente se designam por inspiração (momentânea) – sem um mínimo de trabalho de intelectualização num processo de leitura atenta, e crítica também, que de imediato de dá a conhecer ao leitor, como aquela obra que, antes de a transmitir a outrem, “por necessidade orgânica” a reflectimos e criticamos, não só a obra como o autor que a escreve, submetendo “o já elaborado” a uma nova elaboração? Entende-se, sem reserva até que seja demonstrado o contrário, que não. Assim se entende com base em que, fazer com arte – seja na poética, na pintura, na escultura, na música – implica um processo catártico numa “descida ao mundo inferior” para daí “se subir ao mundo superior”. É neste processo de maior ou menor profundidade encantatória, em que o poeta dotado faz vibrar o leitor “com simpatia” com o poema, mesmo que o poema verse tema menos agradável, que se definem os artistas do mesmo ofício em bons ou menos bons ou, como nos diz o filósofo e escritor António Telmo: «É o que distingue o lírico superior daquele que se limita a associar automaticamente imagens umas com as outras». Acrescenta, ainda, António Telmo no seu livro Arte Poética: «Os grandes poetas fazem-nos esquecer as imagens visuais com que nos falam. Tudo, sob a sugestão encantatória do ritmo, se dissolve em sons, cheios de «espírito», cada vez mais altos e profundos, em que ideias e sentimentos se confundem numa mesma, única e indefinível vibração».

Quando atrás se disse, que o poeta na sua arte (se) realizava (n)um processo catártico de depuração – e usando poeticamente os termos descritos “descer aos infernos” e “subir aos céus”, tradição épica de Homero a Dante e a Virgílio, continuada por poetas célebres como Teixeira de Pascoaes, no seu luciferino saber, e Fernando Pessoa, no seu processo obscuro de autognose –, não se pretendia comparação com qualquer crença ou credo. Se do ponto de vista religioso “descer aos infernos” significa expiar as almas por terem pecado na vida terrena para, depois de tornadas puras, subirem ao lugar eterno e contemplativo dos céus, nos poetas são eles que, voluntariamente e em vida, ali descem para dali saírem regenerados. Interrogando e interrogando-se, neste processo do conhecimento de si próprio, o poeta, trilhando antes caminhos obscuros, atinge agora a perfeição e até poderá inflectir noutro sentido o seu modo depensar, de agir e de transmitir ao mundo, escrevendo, guiando-se por caminhos diferentes do inicial – por exemplo: um poeta, antes ateu, pode, assim, converter-se à fé. Não vamos entrar nos planos da consciência, de que fala o filósofo Bergson, mas apenas sublinhar que, no processo poético, o aperfeiçoamento está subjacente ao saber criar com arte. E afirmaremos, sem medo de errar, de que na “descida” que é “subida” ao mesmo tempo, como nos diz António Telmo, está implícita a actividade do espírito com o processo de conhecer. Assim sendo, a “descida aos infernos”, metaforicamente usada na obra poética, não é mais do que um processo de amadurecimento do autor sobre o texto, de depuração da escrita para a subida ao conhecimento – esta catarse é o caminho certo para a poética com arte.
A este propósito, do poema de Teixeira de Pascoaes “canção de uma sombra”, se destaca a seguinte estrofe, característica desta descida metafórica aos mistérios da noite, aos abismos da sombra e aos segredos das profundezas do inferno:

«Ah, se não fosse a noite misteriosa
Que meus olhos de sonhos povoou,
E de vozes sombrias meus ouvidos –
Eu não seria o que sou.»

No seu processo de conhecimento, Fernando Pessoa se refere, no seguinte poema, a este processo obscuro da autognose:

«O que em mim sente está pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!
Ah, puder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! O céu!»

OS MENINOS DO SALTINHO

CRÓNICA DE JOANA BENZINHO
O rio Corubal, uns dos grandes oito rios que existem na Guiné-Bissau, depara-se com uma formação rochosa na zona do Saltinho que cria um fenómeno natural de grande beleza a que chamam " os rápidos do Saltinho". São pequenas cataratas de água que passam com velocidade sobre uma ponte submersível que funcionou até 1955 e que hoje serve de tanque às muitas mulheres que aqui se deslocam para lavar a roupa e a deixar a secar sobre as rochas negras num espectáculo de cor e rara beleza. Daqui as águas seguem na sua máxima força a contornar as múltiplas formações rochosas existentes e correm por baixo da ponte que hoje liga Bissau ao Sul com um ruído de impor respeito. É aqui nesta ponte que cruzamos os muitos meninos que ali passam os dias.

São estes meninos do Saltinho que nos recebem de braços abertos e com sorrisos do tamanho dos seus sonhos. 

Dizem-nos prontamente os nomes e, apesar de não dominarem o português, língua oficial mas que por vicissitudes várias não é falada e consequentemente não é ensinada pelos professores, estão atentos à forma como falamos e tentam repetir o que dizemos com a mesma pronuncia numa alegria infantil que nos deixa rendidos. São os meninos que reinam neste espaço que pode ser traiçoeiro para qualquer um de nós, pelas correntes e pedras escorregadias que espreitam a cada esquina. Por isso tomam-nos pulso ao receio , guiam-nos para a melhor pedra e vão à frente numa explosão de alegria para dentro desta agua cálida e transparente, tendo as lavadeiras em grande algaraviada como pano de de fundo. Um deles não tem uma perna mas percorre as rochas e os declives com uma destreza que poucos de nós conhecemos. Dois outros andam descalços por os pais não terem dinheiro para o desejado par de chinelos que não chega aos dois Euros. Os restantes trajam roupa rota e velha mas que rapidamente despem sempre que os desafiamos para mais um mergulho.


Fazem acrobacias, corridas na água, pedem pra lhe tirarmos fotos, fazem-nos festas nos braços e dão-nos aqueles cafunés que sabem tão bem, curiosos com os nossos cabelos, bem mais finos, compridos e maleáveis que os seus.

Ao final do dia, recolhemos ao antigo quartel português aqui existente e que é hoje uma pousada cheia de viajantes que aqui param para uma boa refeição ou uns dias de descanso. Já eles, regressam ao seu mundo, a tiritar de frio e com as roupas todas molhadas sobre o corpo.

Ainda antes de partir, aprendem a diferença entre o feminino e o masculino da palavra amigo e correm, numa alegria contagiante, atrás de uma furgoneta para onde saltam e seguem na caixa aberta a dizer-nos adeus. Amanhã voltam, dizem eles. Quem nos dera também poder estar ali todos os dias à espera destes meninos do Saltinho e conseguir compensar os seus sorrisos e a sua alegria com um futuro que eles tanto merecem.

domingo, 22 de janeiro de 2017

ONDE O RIBEIRO PASSAVA

MIGUEL GOMES
É sob as estrelas que me confesso senhor da criança em mim. Longe dela, alcanço-a sentada a ler num qualquer valado. Lê campos de trigo, pomares e estuda ao pormenor as grainhas das uvas que imprudentemente trinca. Chego a perguntar-lhe o que lê, mas afasta o livro e o pequeno bloco onde anota os shares e os custos das suas acções preferidas, as boas acções.

Desenha caras, episódios, gentes e momentos que parecem saídos dos tempos de escola, sentimentos, sensações, passos semipassados e alguns empurrões. Tudo ganha forma de disformidade imaginada, existem poucas letras na beira da estrada, apenas passos a descansar, refúgios, não vá um dia o mundo acabar! Consigo erguer-me à altura do ombro enquanto dormita embalado por alguma recordação. 

Hoje não. Amanhã talvez. 

As palavras que este outro eu redige são as lembranças de criança adulta, poderia eu saber que estas frases mal confeccionadas são na realidade toda a minha, avulsa? 

Cada passo imprevisível hoje traçado, estava há muito escrito pela criança que fui e sou. Ontem não foi passado. 

É um presente arrastado, que irá desaguar quando as primeiras chuvadas fizerem desfolhar caoticamente uns organizados trilhos e lembranças, que são minhas estradas no futuro.

Foi-se embora. Caderno em cima do muro.

Terá terminado o som do meu caminhar ou estará apenas a dar-me uma oportunidade para da vida descansar? De uma passada passo, passivamente, de um momento para outro. Cada calçada sua sombra, cada sombra seu pavimento. Assim me disse ele antes de teimosamente zarpar numa forma de navegar a pé pela ondulação encrespada que rodeia o vau. Avisei-o do mau tempo, de promessa de vento, da noite que não tardaria e do perigo das estrelas geladas em terra fria. Ele sorriu, rejeitou a minha oferta, uma noite no meu coração, disse-me que precisava chegar a mais, assim lhe dita do alto um Adolfo com nome de arbusto ou flor, o mesmo que lhe prometera guarida caso a noite se fizesse ameaça à vida.

E partiu, encontrei-o anos mais tarde, ao dobrar uma folha, na aventura de um conto, pareceu-me novo, destes da montanha. Como invejo a liberdade de ver o mundo pelos olhos verdadeiros, sentar-me na margem de rios, ribeiros, esperando maré, vaza, e escutar o murmúrio do silêncio dizer-me: sentem falta de ti, lá onde o ribeiro passava.