terça-feira, 30 de agosto de 2016

CONDIÇÕES DE ÊXITO DA SEMENTEIRA

JOÃO PAULO PACHECO
O êxito de uma sementeira depende de três grupos de factores ligados à própria semente, ao meio e às práticas utilizadas.

As sementes não deverão estar ainda em letargia, devem estar sãs, ser jovens, puras e possuir um bom valor de cultivo (faculdade germinativa e pureza específica).

No respeitante ao meio teremos que ter o substrato indicado (deve ter grande capacidade de retenção de água e volume constante independentemente do seu grau de humidade), a temperatura próxima do óptimo germinativo e a humidade ideal. No que concerne à temperatura deveremos distinguir a do solo e a do ar. A humidade relativa do ar também é um factor com interesse, devendo ser sempre elevada mas inferior à saturação o que poderia acarretar problemas fitossanitários. A humidade do substrato também deverá ser elevada sem contudo ser exagerada o que poderia acarretar problemas de asfixia radicular e desenvolvimento de microorganismos indesejáveis. A luz poderá ser importante, embora na maioria das espécies a germinação da semente não careça de qualquer valor em especial. Após a germinação convém manter bons níveis de iluminação para evitar o estiolamento das jovens plantas.

No que respeita às condições práticas, temos que ter em conta o tipo de sementeira, a profundidade de colocação das sementes e a granulometria do substrato. As regas deverão ser de pouca dotação e muito frequentes, por aspersão ou nebulização, por forma a manter as condições de humidade tão constantes quanto possível. Por vezes utilizam-se fungicidas na água de rega o que permite uma maior garantia de êxito, devendo existir um grande cuidado na escolha do produto já que alguns fungicidas podem ser inibidores da germinação. No tocante à profundidade da sementeira poderemos ter como regra geral que a profundidade deverá ser de cerca de três a quatro vezes o diâmetro da semente, com algumas excepções.

Na moderna horticultura é comum entregar a preparação das plantas, desde a sua sementeira até ao momento adequado ao transplante, a empresas especializadas, pois não é barato criar as condições ideais para esse efeito, sendo compensador ter um viveirista especializado e da nossa inteira confiança a quem entregamos esse serviço, diminuindo assim os riscos de perdas, tendo a garantia que as plântulas nos são entregues no momento exacto em que as pretendemos e nas condições ideais de homogeneidade e qualidade, sendo o nosso fornecedor responsável para que as coisas corram da forma que desejamos. Por outro lado, isto permite ao horticultor ter menos um problema complicado em que pensar. As sementes poderão ser adquiridas pelo próprio e entregues ao viveirista para produzir as plantas ou, caso mais comum, fornecidas pelo próprio viveirista que, fruto das quantidades com que trabalha, consegue preços unitários mais baixos. A primeira situação poderá ser mais utilizada quando tratamos de sementes regionais, não fornecidas por grandes empresas e com características regionais bem marcadas.

Nota muito importante: Se utilizarmos plantas híbridas, como são a maioria das sementes certificadas à venda no mercado profissional, nunca deveremos aproveitar as sementes por elas produzidas para multiplicação, pois iremos “escangalhar” todo o emparelhamento genético do híbrido, obtendo uma descendência completamente heterogénea e de características agronómicas maioritariamente indesejáveis.


Transplante de alface preparada em viveiro especializado (Navais, Póvoa de Varzim)


JOGO, O ESPELHO DO TREINO

ANDRÉ QUEIRÓS
Como disse um dia Charlie Chaplin: “O espelho é o meu melhor amigo, quando eu choro, ele nunca se ri!”, e esta frase pode facilmente ser aplicada a uma equipa de futebol e ao seu processo de treino. Muitas vezes assistimos a jogos de futebol na televisão e reparámos no treinador de uma equipa zangado, por vezes completamente revoltado com um ou mais dos seus jogadores por alguma ação que eles tenham feito que não tenha sido do seu agrado. Ações como estas são normalmente denominadas por “excesso de comunicação”, sendo muitas vezes uma “descarga emocional” em vez de uma intervenção pedagógica que visa a melhoria da performance do atleta no jogo.

Quando isto acontece com muita frequência durante um jogo, ou vários jogos, o treinador deve fazer uma auto análise e perceber se contemplou no processo de treino aquele ou aqueles comportamentos que queria que os seus jogadores tivessem naquele momento. Algumas vezes assistimos a situações em que o treinador culpa os seus jogadores por falharem oportunidades de golo isolados por exemplo (como se fosse fácil!!) mas quantas vezes durante o processo de treino eles foram sujeitos a situações de finalização 1x1 ou 1x0 para melhorarem aquela ação, naquele contexto específico? Tenho observado que quanto maior é a experiência dos treinadores (aqueles que são alvo do meu estudo e atenção) menor é a ocorrência destes comportamentos visto que eles conseguem antecipar com maior facilidade aquilo que se vai passar no jogo e assim operacionalizar o treino de uma forma muito mais similar ao que o jogo lhes vai proporcionar.

Na projeção da semana de trabalho o treinador deve ter em conta um punhado de conteúdos que vai priorizar durante aquele período, porquê? Porque ele é capaz de antever que esses conteúdos vão ser fator chave para que os seus jogadores consigam ter sucesso naquele determinado jogo. Conteúdos esses que vão ser novos para a equipa? De maneira nenhuma! Eles fazem parte daquilo que é a “ideia de jogo” implementada e devem ser alvo de especial atenção pois vão acontecer com maior frequência e a equipa tem que estar preparada para lhes fazer face. 

No entanto, para que tudo o que foi atrás mencionado aconteça será muito importante que a equipa técnica durante o planeamento da semana de trabalho respeite o Princípio das Propensões, que consiste na criação de exercícios de treino que contemplem um grande número de vezes o que queremos que os nossos jogadores vivenciem e adquiram a todos os níveis. Graças a este princípio será conseguida a repetição sistemática de diversas interacções específicas do nosso jogar, tanto Tácticas, como Técnicas, Físicas e Psicológicas, criando o contexto (exercício) que vai proporcionar o aparecimento de determinados comportamentos, e não o contrário!


L’ENSEIGNEMENT DU FRANÇAIS AU PORTUGAL

ANUNCIADA CARAMELO
Jusqu’à cette année la coordination de l'enseignement du portugais en France , disposait de 86 enseignants employés par L’Institut Camões qui enseignait la langue portugaise et la culture dans environ 423 écoles , pour un total de près de 15.000 étudiants . Le 19 juillet la France et le Portugal ont signé la Déclaration conjointe sur l'éducation portugais et français. 

Les ministres de l'Education de la France et du Portugal, Najat Vallaud-Belkacem et Tiago Rodrigues Brandão, ainsi que le Ministre des Affaires étrangères de la République portugaise, ont signé à Paris, une politique «Déclaration», pour renforcer la coopération bilatérale dans le domaine de la langue.

Ayant comme base l'expérience du dispositif Enseignement Langues Cultures D’Origine (ELCO) , le nouveau dispositif d’Enseignements Internationaux de Langues Etrangères (EILE) bénéficiera d’un encadrement, d’un accompagnement et d’une coordination, tant du point de vue des programmes et enseignants, comme du point de vue pedagogique. 

Ce pas est d’une grande importance car il vient renforcer le rôle du Portugais comme langue étrangère vivante dans le système éducatif français , mais le Portugal s’engage également à développer l’enseignement du français deuxième langue étrangère dans le système éducatif portugais.
Pendant beaucoup d’années les élèves portugais pouvaient choisir, en 7ème ( 5ème année), étudier le français ou une autre matière comme éducation technologique. Les dernières 15 années en 7ème ( 5ème), 8ème ( 4ème) et 9ème ( 3ème), dans quelques écoles, les élèves choisissaient l’espagnol ou le français, donnant priorité à l’anglais comme langue étrangère. Beaucoup de ces élèves arriven 12ème année, terminale, où à la fin de la faculté, et ils se rendent compte que la langue française leur ouvre les portes pour aller travailler dans les pays francophones, leur donne accès à des stages, comme l’Eramus , accès aux grandes organisations europèennes et enterprises. 

Autrefois pour avoir une bonne formation academique il fallait étudier la philosophie, le latin, les mathématiques, le français, jouer un ou deux instruments, les grands auteurs de l’antiquité, entre autres.

Il me semble que nous vivons dans une société, de consommation immédiate et instantanée , dans laquelle tout sert l' immédiat et si autrefois les matières édifiaient la culture générale de chaque élève, aujourd’hui , souvent , les sujets et matières étudiés ne servent qu’à atteindre un objetif.

Quand il s’agit de l’apprentissage des langues il paraît qu’il ne reste aucun doute quant à son importance et quant au rôle que chacune joue dans les différentes époques et sociétés. Au Portugal , par exemple, l’espagnol est devenue une langue très importante pour tous ceux qui veulent étudier médecine en Espagne, l’anglais est la langue universelle, le mandarin a commencé à être important avec les affaires en Asie, l'importance de l'allemand est réapparue avec le départ de nombreux ingénieurs en Allemagne à la recherche d’un emploi et on s’interroge pourquoi les programmes du Ministère de L’Education Portugaise comprennent si peu d'heures. de français.

La signature de cette Déclaration conjointe sur l'éducation du portugais et du français vient, peut-être, nous rappeler que nous avons beaucoup de portugais qui travaillent en France et ( d’autres pays francophones) que beaucoup d’entre eux veulent que leurs enfants et petits-enfants apprenent la langue de Camões, cependant il me semble qu’il est urgent que les programmes portugais renforcent le número d’heures d’enseignement du français.

A GRANDEZA AMESQUINHADA

REGINA SARDOEIRA
Passei algum tempo da tarde do último sábado numa esplanada no Largo Conselheiro António Cândido (ou Arquinho) e essa permanência levou-me a confirmar a impressão, já experimentada noutras passagens, mais breves: o último e muito demorado arranjo desta praça da cidade de Amarante é confrangedor. E feio. 

Durante a minha vida amarantina, ou seja desde os meados da década de 80, assisti a duas transformações do espaço. Quando, primeiro, por lá passava, havia bancos de madeira pintados de vermelho, de um lado e do outro, a estátua do Conselheiro, que lhe dá o nome, erguia-se, altaneira, num dos extremos, com a mão erguida voltada para o Marão e, pelo menos uma árvore - um "chorão" - criava um halo de sombra a quem desejava por ali a descansar um pouco. 

Mais tarde, nasceram umas obras monumentais; e uma construção em pedra, demasiado elevada, pois quem estivesse do lado direito da praça, por exemplo, não conseguiria ver nada para o lado oposto, começou a erguer-se, criando desníveis e ornamentos arquitectónicos decerto desmesurados. A grande árvore resistiu e a estátua do Conselheiro permaneceu aí, no seu lugar de sempre (creio eu). 

A seguir, umas obras de fundo, destruíram o monumento arquitectónico erguido no largo, as pedras - em grande número! - desapareceram, um grande fosso foi cavado e permaneceu aberto alguns anos, descobriu-se o arquinho medieval que terá dado, primeiro, o nome ao sítio. Todos aguardávamos que, por fim, o Largo Conselheiro António Cândido traria a esta entrada de Amarante alguma da dignidade perdida em múltiplas alterações. E, um dia, a estátua do Conselheiro regressou do exílio, foi restituída ao espaço; mas, em lugar de se erguer, altiva e elevada, ao fundo, voltada para o Marão, ficou à frente, quase rente ao chão, com o braço levantando ainda, mas não abrangendo, em altura, mais do que as escadas do Edifício Navarras! 

O arquinho medieval ficou escondido, debaixo de um gradeamento metálico, o chorão desapareceu e em seu lugar construíram um pequeno habitáculo de vidro e cimento destinado a informação turística. Se por acaso alguém quiser sentar-se ali não tem sombra, não tem bancos...e terá vontade? 

A minha permanência no espaço fez-me reflectir no modo como, querendo mudar, querendo "requalificar" (eis uma palavra cujo significado ainda não entendi, no que diz respeito ao urbanismo), querendo mostrar que é possível fazer melhor, destruindo o que estava feito, se vai tornando o mundo cada vez mais feio. 

Olhar o Largo do Arquinho fez-me evocar a Avenida dos Aliados, no Porto, transformada, por um arquitecto de valor reconhecido, num deserto estéril de cimento. Dantes, havia ali um magnifico e úbere jardim. 

A minha questão é apenas esta: que vai acontecendo aos homens e ao seu mundo? Que paira nas circunvoluções dos cérebros de quem projecta e valida estas aberrações? O que se passa connosco, que nada fazemos para devolver ao nosso ambiente a sua legitima feição? 

Custa-me, cada vez mais, viajar por cidades, vilas e aldeias deste país e deparar com a descaracterização absoluta, pois, vemos os castelos, é verdade, mas no sopé da colina onde se erguem, avulta a fealdade (veja-se, por exemplo, o Castelo de Leiria); vemos monumentos de valor incomensurável e de beleza extraordinária; e ao lado, quase a esbarrar com a jóia histórica, uma estrada nacional e um arsenal de lojas mesquinhas de recordações e esplanadas e restaurantes... (veja-se o Mosteiro da Batalha); vai-se até um santuário, onde o sagrado deveria pontificar, mas, rodeando-o por completo, o comércio e a indústria agigantam-se, estendendo os tentáculos hiantes (veja-se o Santuário de Fátima). 

O fenómeno ergue-se à escala global. A Grande Muralha da China está, por norma, tão atafulhada de gente que se amesquinhou; em torno das Pirâmides de Gizé aglomeram-se tais multidões que já não nos cremos no deserto. Os canais de Veneza regurgitam de barcos estridentes e velozes, a ultrapassar gôndolas e barqueiros tornados obsoletos. 

Já não temos para onde fugir se acaso quisermos mergulhar, por inteiro, na grandeza ou prestar culto à harmonia: tudo se banalizou. E a sublimidade que resiste, vinda de outras eras, em que o homem se transmutou em semi-deus e construiu mundos admiráveis foi afogada na pequenez dos pequenos negócios a ponto de também se reduzir.

JOVENS DESTRUÍDOS

HERMÍNIA MENDES
A perda é um sentimento muito difícil de compreender e apreender.

Não estamos preparados para perder o que queremos muito, o que nos faz viver e respirar. Passamos pela fase da negação em ver e acreditar, como se cada dia e noite não fossem mais do que um sonho torturador e daqui saltamos para a revolta. Para a luta interior com a injustiça que vemos na vida, no ser, na criação. Tudo é posto em causa. Tememos pensar em, mas sentimos abaladas todas as nossas crenças e dogmas. E a revolta aumenta na medida em que esta fraqueza nos entristece. Este “estremecer” das bases do fio condutor em que fomos criados e educados. O tempo vai apagando e aclarando este horizonte turvo e sinuoso, mas nunca deixarei de ter para comigo que saber lidar com a perda “como gente” é só para os fortes. Aqueles que ventos e tempestades não derrubam, nem assustam. Os que mantém a firmeza de razão e espírito negado a outros. Eu, infelizmente, estou nestes outros. Quando caiu a ponte de Entre-os-Rios, eu tinha sido mãe há muito pouco tempo. Passava e ultrapassava a fase em que tudo me fazia chorar e cair numa tristeza imensa.

Recordo o terror das notícias e das imagens daquela noite, mas jamais consegui esquecer o facto de passados uns dias, penso eu, ter sido encontrado o corpo de uma jovem mãe agarrada ao filho bébé. Nem o medo, o desespero e a força da corrente daquele rio, abriram os braços daquela mãe. Ela nunca perdeu o filho. Lutou contra a perda para além da morte.

Durante anos recordei este facto de quando em vez, mas com a tragédia em Itália revivi esta notícia. É humanamente impossível ficar indiferente a tanta perda. A perda dos afectos e dos lugares de uma vida. Aos sobreviventes nada restou. Perderam a família, os amigos, as casas, os objectos, todos os locais que lhes poderiam trazer algum apoio e recordação. 

Não ficaram imagens, lugares ou cheiros comuns. Nada lhes resta.

E mais uma vez me vem à cabeça a descrição da imagem da irmã mais velha que sob os escombros e com o corpo, protege a pequenina e a deixa viver. A vontade desta criança vai muito para além da luta com a natureza em fúria e vence-a. A imensidão da força e do amor…

Enquanto estes seres humanos com uma vontade e força inimagináveis, lutam pela vida, ouvimos as notícias de outros que matam e agridem, bárbara e gratuitamente. 

O motivo mais ou menos fútil, leva jovens a espancar quase até à morte.

Quando nuns casos a existência humana é de tal forma preciosa que se preserva até com a própria vida, noutros parece que nada existe para além do “eu” egoísta, feroz, sem meios nem fins. Ou melhor, do “eu” cego e amoral que não olha a meios e se conforma com todos os possíveis fins.

O verdadeiramente trágico e temerário é o facto de em pouco mais de uma semana, ter havido duas agressões semelhantes, com jovens sensivelmente da mesma idade e ambas terem produzido resultados devastadores. O que motiva atitudes com estes requintes de malvadez e violência?

A criminalidade violenta sempre existiu e é impossível de erradicar. A mente humana atinge estádios de verdadeiro regresso ao estado selvagem mais puro. Mas trata-se de jovens, vidas que mal começaram, personalidades em formação e completamente alheias à consequência dos seus actos.

Não quero acreditar que estes seres não tenham a consciência e a dor da perda, que não amem a si e ao próximo o suficiente para preservar a vida. Mas o facto é que parece haver casos em que se estabelece um alter-ego colectivo, que não vê nada para além da sua vontade.

E radicaliza-se um medo e insegurança generalizados. Os pais temem pelos filhos, a sociedade passa a viver obcecada com o recurso á violência na solução das contrariedades e problemas.

É muito difícil imaginar que enquanto que uns lutam e se revoltam contra a morte, contra a perda, outros a vejam somente como um efeito potencialmente previsível da vivência humana.

O homem é um ser muito complexo, de desígnios imprevisíveis. Numa mesma sociedade formam-se, lado a lado, personalidades perfeitamente conformadas com o respeito pela vida e integridade física e moral do próximo e outras para quem não existe qualquer um destes valores. 

Enquanto uns lutam por si e pelos seus para além da morte, outros desprezam o valor da vida humana e vagueiam no meio do lodo , do ódio, da irracionalidade. Não podemos lançar mão da desculpabilidade com a exclusão ou marginalização sociais. Em muitos dos casos não existe motivo, só um lamentável “sentimento” de impunidade ou indiferença com o possível resultado da acção.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

«A POESIA E AS “VOZES DO MEU PENSAMENTO”»

ISABEL ROSETE
Reunimo-nos, por vezes, para celebrar a Poesia: aquando do lançamento de um livro da nossa autoria; aquando da homenagem a um Poeta, vivo ou morto, que merece o nosso louvor, em tertúlias de exaltação da Poesia e do Poema. Em qualquer dos casos, sempre que um Poeta fala – quer por ele próprio, quer nós por ele - é a sua obra que nos é dada a conhecer, é a Poesia e a sua poesia que se torna a protagonista do palco onde a recitamos, ouvimos e expomos. Afinal, a obra permanece para além do seu autor e, neste sentido, ultrapassa-o, mesmo que ninguém a volte a ler.

A obra clama pela eternidade contrastante com a efemeridade física da pena que a lavrou em sementes de Vida, em modos de serenidade ou de revolta. É por esta via, a do protesto, a da luta do tempo com o Tempo, que se imortaliza o nome do punho que a ergueu, porque nela deixou o seu sangue, o seu Espírito impregnado em cada palavra dita e não-dita, a sua Identidade irredutível, nunca substituível por nenhum outro, mesmo que o poeta não saiba o que, sobre si mesmo, dizem os seus versos.

O tempo do Poeta, sempre o nosso tempo e um tempo-outro, é o da Sociedade em que está inserido, é o da Cultura/Educação que a move ou desvirtua; é o tempo recente e presente que não se perde na vertiginosa passagem dos séculos que lhe sucederam e lhe sucederão. O tempo do poeta é o Hoje que, do outrora, se projecta num futuro a esboçar, pois é à visão do seu quotidiano, igualmente o nosso, que vai buscar a inspiração facilitadora da conquista e da atenção dos seus ouvintes, dos seus leitores: é a Poesia que fala nele e em nós, e não nós que falamos por ela; é a Poesia que nos interpela, e não nós que a interpelamos. O testemunho de Jorge de Sena torna esta minha tese ainda mais clara e evidente, quando afirma na obra «De Pedra Filosofal», no poema “Para o aniversário do poeta”:


“Não passam, Poeta, os anos sobre ti,

Embora sejas mais mortal que os mais;

No tempo, viverás longe daqui,

No espaço, apenas deixarás sinais.



E quando, pelos campos silenciosos,

Lá te encontrarás nas ondas dos trigais,

Repara como fogem receosos,

Para o poente, os ventos luminosos –

Antes que os homens nasçam teus iguais.”


A Poesia não é, apenas, “cousa” de Hoje, não se arquitectou, assim de repente, num rasgo acto extra-ordinário da imaginação criadora. A Poesia não é pura vagabundagem do Espírito que se aventura nas façanhas da escrita. A Poesia não é o soltar aleatório das amarras de uma qualquer mente em estado de efervescência alucinatória. A Poesia é “cousa” de ontem (e de sempre), anterior ao que conotamos de pensamento racional ocidental, nascido nas franjas da civilização grega inicial, da qual perdemos - pela tecnização e pela terrível massificação do mundo das palavras - a sua função primacial: a intenção/missão didáctica dos primeiros educadores helénicos, os Poetas. Entre eles devemos destacar HOMERO, em cujos poemas/narrativas poéticas-épicas se encontra um ideal de Vida e de Cultura, segundo uma determinada hierarquização de valores, a qual não é jamais anacrónica, desactualizada, na sua essência e fundamentação, nos seus intentos e determinações.

Tal como Homero fora o educador da Grécia - palco do que somos e não somos hoje, mostrando ao seu Povo a indesmentível circunstância do seu ser historicamente situado num espaço e num tempo próprios, que não se esgotaram no momento do seu acontecer - os nossos Poetas foram, são, os verdadeiros educadores do nosso Povo, transmitindo a sua essência, a sua Alma-Pátria, apresentando os seus desígnios, o já cumprindo como exemplificação dessa essência, o que ainda há para cumprir e urge que seja realizado no seu devido momento, que não pode ser adiado, sob pena da desestruturação desse mesmo Povo e da sua Nação. Os Poetas (e o que é dito sobre os Poetas é, igualmente, válido para os Filósofos) são Educadores no sentido mais lato do termo Educação, ou seja: a formação global do homem enquanto homem e do homem enquanto pessoa-cidadão com os seus naturais direitos e deveres cívicos. Os Poetas ensinam, instruem, formam e enformam a matéria bruta que somos, ao registarem, pelas palavras-de-origem, o percurso existencial que realizámos e vamos edificando como Povo histórico.

Os Poetas são relatores e mensageiros. Também profetas, visionários de um tempo que há-de vir, perfilhando, no Presente, os autênticos caminhos a seguir no Futuro, mais próximo ou mais longínquo, em prol do progresso-progressista do seu Povo enquanto Nação com Identidade própria (contra a des-identificação provocada pela globalização, diríamos hoje e agora).

E se o Poema “é a voz de toda a gente, todos eles, que, /não se tendo ouvido, não a sabem sua” (como afirma Jorge de Sena em «De Post-Scriptum»), a Voz do Poeta é a voz historial do chamado da sua geração e das gerações vindouras que, farão do Futuro, o Passado do que as outras foram ou não foram, elevando as suas virtudes e corrigindo os seus erros. Afinal, tal como os Filósofos, os Poetas não crescem como cogumelos. São frutos da sua época, do seu povo, cujos humores mais subtis, mais preciosos, correm nas suas ideias, sempre predispostas a colocarem-se em acto vivo.

O Poeta perscruta as reentrâncias de todas as coisas na sua evolução, extraindo os véus, as máscaras que as envolvem e escondem o seu verdadeiro viso, por vezes, camuflado em outros visos que já não são os seus. Vê o “claramente visto” e afirma-o do mesmo modo, quer dizer, sem dúvidas, sem hesitações, com a firme convicção do dito e do feito, transportando a Verdade em si. O olho do poeta enxerga por dentro. Também assim são os seus ouvidos, naturalmente capazes de escutar os ultra-sons de uma forma inigualável, naturalmente capazes de escutar todos os sons que ouvimos e não ouvimos. A sua escuta, tal como a sua visão, é atenta, perspicaz, íntima, estando sempre dentro e fora dos acontecimentos, dos factos, do real e do possível, o que lhe permite uma espécie de visão e de audição dupla, mergulhada nas entranhas do Ser. O mesmo se passa com todos os seus outros sentidos – o olfacto, o tacto, o gosto – holisticamente interseccionados. Nada lhe escapa, contrariamente a nós, que somos entes de mentes bicéfalas, sempre distraídos com que nos parece ser.

Ouvir a Voz dos Poetas significa aprender, crescer, sobretudo qualitativamente, aceder aos mais altos e ilustres corredores do saber. Cabe-nos, então, perguntar de consciência lúcida:



1. De que estamos á espera para escutarmos a Voz dos Poetas?

2. De continuarmos no marasmo da ignorância que não é douta?

3. De nos afundarmos ainda mais no já afundado mundo em que vivemos?

4. Será que ainda não nos apercebemos de que há um 5º ou um 6º Império que urge realizar já no seio do caos existencial em que vivemos, material e espiritualmente, nestes tempos de infortúnio, a que simplesmente chamamos crise, pelo vazio das palavras que todos os dias nos chegam através dos discursos demagógicos, ocos de conteúdo, em virtude da ausência de conceitos e de projectos autênticos que nos movam à realização das acções, de facto, necessárias?


Se sou ou não Poeta, quem sabe que o diga! Porém, tomo como minha esta missão dos Poetas, com toda a humildade e honestidade intelectual que me caracterizam, recusando-me a calar a minha Voz sempre que a tenho de erguer; recusando-me à postura do negativo silêncio enquanto forma de cobardia, de comodismo ou de hipocrisia, emerso em qualquer solar obscuro de estátuas amputadas. Assim faço ecoar, por todo o lado aonde a minha voz chega, as minhas palavras, apresentando-as sobre a forma da minha poesia filosófica que diz, em plena transparência, o meu pensamento. Por isso, organizo e realizo as sessões de lançamento das minhas próprias obras e das muitos outros, com cujas ideias estou em sintonia, seguindo o genuíno intuito de partilhar com os meus pares/ímpares a minha visão do mundo, em nome da Verdade do que realmente é, condenando os ignóbeis actos dos Homens e celebrando os seus nobres feitos, os quais pretendo seguir perduravelmente, apesar de todas as minhas limitações de género e de espécie.

Por último, não posso deixar de afirmar, quiçá reiteradamente, que a Poesia é absolutamente essencial à Vida e ás nossas vidas concretas e determinadas. É o seu alimento vital, o sangue vivo-fresco que corre pelo Espírito do Mundo, pela Alma dos Povos, alimentando o ciclo das gerações que se sucedem, quer na sua desventura, quer no seu estado de notabilidade, porque a Poesia:


1. Diz a Vida em todos os seus aspectos espirituais e materiais. Por isso, e como afirma Jorge de Sena, na obra “De coroa da Terra”, são “inevitáveis outros poemas novos/ sinal da nova gravidez da vida/ concebendo, alegre e aflita, mais um mundo novo,/ só perfeito e belo aos olhos de seus pais”. E a Vida, continua o Poeta, “que é prostituta ingénua,/ terá, por momentos, olhos matérias”;

2. Diz as nossas vidas, tal como elas decorrem quotidianamente, em todas as suas múltiplas vertentes, descrevendo-as, caracterizando-as nos domínios do Pensar, dos Afectos, das Emoções em Linguagem colocada em forma de Verso, referindo-se, sempre, a nós, como seres humanos reais que somos;

3. Revela as nossas aventuras, sonhos, desejos, no amor e na dor, no esquecimento e na morte, na alegria e na angústia, na satisfação e na indignidade, nos nossos encontros e des-encontros, preenchedores da nossa existência de “animais racionais”, também bi-céfalos, construtores e destruidores do mundo, da vida, à qual sempre voltamos como predadores ou como presas.

SUPLEMENTAÇÃO - SIM OU NÃO?

NUNO AREAL CARVALHO 
Este tema continua a ser um dos mais "problemáticos" e que ainda causa alguma discórdia no mundo desportivo. Por isso não vou perder tempo com demagogias. 

A resposta é, definitivamente, sim! E para isso vou-lhe dar três razões. 

Em primeiro lugar, porque a nossa alimentação diária não é suficiente. Já existem estudos em Portugal que comprovam que as pessoas que consomem suplementos alimentares, apresentam indicadores e comportamentos de saúde mais positivos do que os que não consomem.

Em segundo lugar, porque o nosso estilo de vida assim o exige. Já não conseguimos controlar a qualidade nem a quantidade de nutrientes presentes nos nossos alimentos, os solos estão cada vez mais empobrecidos. Um estudo realizado em 2002 (nem imagino este estudo em 2016) revelou que 73% dos produtos agrícolas tradicionais contém pelo menos, um pesticida.

Em terceiro lugar, porque em Portugal, por exemplo, existe uma carência de algumas vitaminas, como é o caso das vitaminas do complexo B e de vitamina C, o que nos devia "obrigar" à ingestão de multivitamÍnicos. 

Existem uma panóplia de razões para o uso de suplementação, mas quero só aqui realçar mais duas,
perda elevada de minerais pela sudação, que precisam de ser repostos e por vezes só o água não é suficiente. E necessidade extra de proteína (casos de dietas hipo ou hipercalóricas, vegetarianos e praticantes de actividades físicas intensas). 

Ok Nuno, até aqui já percebi, é importante suplementar. Mas agora a questão é, que suplementos devo usar? Essa resposta vais ter de esperar até à próxima crónica! Fica atento(a)! 


Bons treinos!

TABATÔ: BERÇO DA KORA, DO BALAFON E DOS GRIOTS

JOANA BENZINHO
No Leste da Guiné-Bissau, entre Bafatá, cidade berço de Amílcar Cabral, e Gabu, existe uma pequena Tabanca (aldeia) que transpira musicalidade por todos os seus poros e propaga sons através de todas as partículas de pó ali existentes.

Esta tabanca, Tabatô, tem a particularidade de todos os seus habitantes estarem, de uma forma ou de outra, ligados à música, sendo o mais musical dos locais que conheci até aos dias de hoje. É das mãos dos seus habitantes que sai o famoso Balafon, um instrumento idêntico ao xilofone, feito com pau sangue atado com fios coloridos sobre cabaças que lhe ampliam o som e a cana de bambu que lhe serve de base. Este instrumento é feito após 3 meses de submersão da madeira em água e afinado ao som das vozes das mulheres da aldeia, que lhes determinam com o seu tom os acordes, desde agudo ao mais grave.

Também das mãos das gentes de Tabatô nasce a famosa Kora, uma viola adaptada a uma cabaça, um instrumento tipicamente Mandinga com 21 cordas e que tem um papel de destaque em grande parte das cerimónias tradicionais deste povo.




Para além destes dois instrumentos, a musicalidade também ganha vida nas vozes, de miúdos e graúdos, de homens e de mulheres. Os habitantes de Tabatô são músicos e agricultores em simultâneo. Todos cantam, todos aprendem a tocar desde tenra idade e todos cultivam a terra.

Cheguei a Tabatô ao final da manhã, depois de duas horas e meia de viagem desde Bissau, e fui acolhida pelo chefe da aldeia, Moutaro Djabaté, que nos recebeu com um rasgado sorriso e um caloroso abraço. O objectivo era conhecer as raízes desta aldeia Mandinga, um enclave entre Fulas que ocupam grande parte do Leste da Guiné-Bissau, e que aqui resiste há vários séculos.



A disponibilidade para nos dar a conhecer a história foi imediata mas aqui, terra de Griots, há a particularidade de se contar tudo através da música, como não poderia deixar de ser. O Chefe da aldeia, um Griot por excelência, senta-se numa esteira rodeado por dois balafons, dois tambores e por toda a aldeia. Do seu lado esquerdo, o responsável por confirmar tudo o que vai contando ou por lhe chamar a atenção caso se afaste do fio condutor da história ou deturpe os factos. Do seu lado direito, a Mariama, mulher grande da aldeia que também canta e conta (como outros habitantes da aldeia), como foram as batalhas dos antepassados, as missões de paz levadas a cabo por estes verdadeiros emissários diplomáticos que são os Griots, como chegaram até aos dias de hoje.

A aldeia está toda ou quase toda ali sentada connosco, a ouvir cantar a história que é a sua e dos seus antepassados, sob a batuta dos balafons e o rufar dos tambores. Cada melodia que acompanha a voz do Griot tem um nome, um sentido, uns acordes que se envolvem numa dança entre as palavras e o som que exalam e dão corpo a este cenário de uma beleza extraordinária. 

O Griot Moutaro Djabaté, conta-nos a história por capítulos distintos e com pausas propositadas que pedem palmas. Descreve a chegada dos seus antepassados ao território que hoje é a Guiné-Bissau, as guerras e batalhas, os tratados de paz e as recompensas dadas aos respeitados griots em caso de sucesso na resolução das contendas (uma vaca oferecida por cada uma das partes do conflito) e os dias de hoje em que orgulhosamente preservam as tradições e as quais têm orgulho em nos dar a conhecer.



Tabatô tem uma casa onde mostra e preserva os instrumentos ali fabricados e mestres de Balafon e de Kora com reputação além fronteiras. Tocar estes instrumentos não é para todos. Eu que o diga pois experimentei-lhe a dificuldade. É para dedos privilegiados e iluminados, para gentes de sublime valor como aquelas que encontrei em Tabatô, que aliam com extremado amor o duro trabalho de amanhar das terras ao dedilhar das 21 cordas da Kora ou ao toque do Balafon, preservando assim com enorme orgulho a riqueza da sua musicalidade e esta tradição secular dos Griots.