quinta-feira, 23 de março de 2017

SAÚDE E ESTILO DE VIDA

MARIA AMORIM 
É um lugar comum afirmar que a saúde é o nosso bem mais precioso, no entanto não deixa de ser a mais pura verdade. Todos nós pretendemos viver até bem tarde, e, de preferência de boa saúde. É um facto que, hoje em dia, vivemos mais anos e melhores do que os nossos avós, e, se queremos que esses anos sejam anos de qualidade, devemos prestar atenção ao estilo de vida que vivemos diariamente, pois este é um factor que pode influenciar, para o bem ou para o mal, a nossa saúde. Todos podemos, com consciência, refletir sobre os nossos hábitos de vida diária e a forma como estes influenciam a nossa saúde, mas sobretudo tomar medidas realistas, com escolhas saudáveis para a nossa vida.

Existem fatores que influenciam a nossa saúde e não dependem de nós, os chamados fatores intrínsecos, que não podemos modificar, mas aos quais podemos estar atentos. Esses fatores, como a constituição genética, podem-nos predispor a certas doenças, ou proteger-nos delas, sendo um ponto a nosso favor quando os conhecemos, pois podemos estar atentos e tomar medidas para impedir o seu aparecimento. Os fatores extrínsecos são aqueles que podemos influenciar, prestando atenção à nossa alimentação, ao exercício que fazemos e à forma como lidamos com o stress.

Um estilo de vida saudável tem sobretudo a ver com equilibrio e bom senso. Evidentemente quer um excesso ocasional não é prejudicial, fazer uma petiscada ao fim de semana não vai prejudicar a nossa saúde de forma irreparável, desde que tenhamos consciência que o organismo precisa de algum tempo e cuidados para recuperar. Procurarmos informação sobre alimentação saudável e adequada para podermos adotar uma dieta equilibrada, que nos satisfaça, pois uma dieta demasiado radical torna-se muitas vezes difícil de manter. Mesmo na presença de doenças como a hipertensão ou diabetes, é muito importante o equilíbrio, o ser rigoroso com os cuidados alimentares, pois estes são muito importantes para o controle da doença e a prevenção das complicações, e estes cuidados dependem directamente de nós.

A necessidade de fazer exercício físico é mais do que conhecida, e aqui também o equilíbrio é fundamental. O mais importante é escolher uma atividade de que realmente se goste e que facilmente se possa incluir na rotina diária. Não vale a pena ir atrás da modalidade da moda, se depois não conseguirmos manter uma rotina. Então, escolhemos caminhar, andar de bicicleta, ir ao ginásio, jardinar, aquela que mais nos agradar, que nos faça sentir melhor e estabelecemos uma rotina de prática de atividade física, pois o que importa são os benefícios que daí vão advir para o coração, os músculos, os ossos e os pulmões. A consciência de que o tempo que se passa a fazer coisas de que gostamos tem um valor inestimável, quer para a saúde física quer para a saúde mental.

A consciência de si mesmo é outro aspeto importante para a nossa saúde, perder tempo a observar o nosso corpo, a conhecer os seus sinais, como funcionam os intestinos, como é o aspeto da nossa pele, dos seios, etc, permite-nos estar atento a alterações que possam surgir, e tratar eventuais problemas em fases mais precoces e com mais eficácia. 

A nossa atitude perante a vida é outro dos fatores que influencia diretamente a nossa saúde, existem muitos estudos que comprovam que pessoas positivas tendem a ser mais saudáveis. Claro que não é fácil ter sempre uma vida feliz e harmoniosa, as contrariedades estão sempre presentes, as perdas fazem parte da nossa vida, no entanto, o pensamento positivo pode ajudar a lidar com o stress de forma eficaz, tendo um efeito benéfico sobre o nosso bem-estar emocional, e está mais que provado que o bem-estar emocional desempenha um papel importante na saúde física. Por vezes é preciso fazer um esforço para integrar o pensamento positivo na nossa vida, pois nem sempre as circunstâncias nos convidam a ser positivos, e somos muitas vezes arrastados para situções negras de desespero e angústia, de preocupações e ansiedades. No entanto, vale a pena tentar integrar o pensamento positivo nos vários aspetos da nossa vida, porque sabe-se que pode ser extremamente benéfico tanto a nível psicológico com a nível físico.

Vale a pena pensar em alguns aspetos que nos podem ajudar, pois é a nossa saúde que ganha com isso:

- fazer um esforço para ser otimista e ter uma atitude positiva ( a maioria das vezes é mais fácil ter uma atitude negativa e crítica)
- relativizar as crises e, sempre que possível tentar vê-las como algo que pode ser resolvido
- centrar-se nas coisas boas da vida
- procurar técnicas de relaxamento ou estratégias para acalmar quando tivermos que lidar com situações de crise.

Hoje em dia, é muito fácil manter-se informado em questões de saúde, existe toda uma parafernália de informação sobre os mais variados apetos, que devemos procurar, tendo em atenção as fontes que consultamos, pois se temos muita informação não é por isso menos verdade que nem sempre é fidedigna. De qualquer maneira, devemos ter presente que saber é poder, e quanto mais soubermos, mais atentos podemos estar e mais diretamente podemos atuar sobre o nosso estado de saúde, para podermos viver mais anos, mas sobretudo para podermos viver melhores anos.



quarta-feira, 22 de março de 2017

ANDREW LLOYD WEBBER

PAULO SANTOS SILVA
Corria o ano de 1948, faz hoje precisamente 69 anos, quando nasceu em Londres um dos mais importantes compositores de música para teatro – Andrew Lloyd Webber.

Não sendo uma opinião consensual, visto que muitos consideram a sua obra demasiado comercial, é inegável que Lloyd Webber já conquistou um lugar de destaque no panorama musical, mais que não fosse pelo impulso que deu ao que atualmente se denomina de teatro musical ou, de forma mais simplista, musicais.

Nascido no seio de uma família de músicos (o pai foi compositor, a mãe professora de piano e o irmão mais novo violoncelista), Andrew enveredou pela composição sendo o responsável por muitos dos espetáculos que se mantêm ainda hoje em cena (alguns há mais de 20 anos…) na Brodway (Nova York) e no West End (Londres). Certamente que ninguém acreditará que se mantêm e com casas cheias, apesar de não terem qualidade… 

São várias as obras de Lloyd Webber que atingiram grande notoriedade. Umas pela novidade, outras pela espetacularidade e outras até, pela controvérsia. Neste último grupo, destaca-se Jesus Christ Superstar, um musical em forma de ópera-rock, com libreto e letras de Tim Rice, companheiro de várias aventuras. Embora tenha sido apresentado em 1970, como um álbum conceptual em cuja história se destaca as lutas políticas e pessoais de Judas Iscariotes e Jesus, o sucesso que alcançou obrigou a que fosse encenado para a Broadway em 1971 e desde então tem sido apresentado em todo mundo. A ação decorre, na maior parte, conforme a descrição que consta na Bíblia, sobre a última semana da vida de Jesus, começando com a chegada a Jerusalém e terminando com a Crucificação. Em toda a obra, transpira uma atitude moderna, recorrendo amiúde à utilização da gíria nas letras e alusões irónicas ao contexto de vida do momento em que foi criada, ao mesmo tempo que uma visão algo política dos acontecimentos, aparece retratada. Grande parte da trama é focada na personagem de Judas, concedendo-lhe uma importância que talvez não lhe seja atribuída na Bíblia. Entre outros aspetos, terá sido esta opção que terá provocado grande parte da controvérsia que a obra causou, ao ponto de ter sido condenada por vários grupos religiosos. Já agora e a título de curiosidade, no álbum original, a personagem de Jesus foi interpretada por Ian Gillan, à data o vocalista dos Deep Purple (Smoke On The Water…) e que mais tarde colaborou com os Black Sabbath!... Quem diria!...

De entre as outras obras de Andrew Lloyd Webber a merecerem destaque, encontramos José e O Deslumbrante Manto de Mil Cores (mais uma incursão pelos textos bíblicos), Evita (onde se conta a história da grande heroína do povo argentino, Eva Perón), Cats (uma história construída a partir de vários poemas do escritor T. S. Eliot sobre gatos) ou O Fantasma da Ópera (baseado no romance homónimo do escritor Gaston Leroux). O seu projeto mais recente, consiste na adaptação de um filme de 2003, denominado de School of Rock.

A sua obra, granjeou-lhe um enorme reconhecimento pessoal, ao ponto de em 1992 a Rainha de Inglaterra lhe ter atribuído o grau de cavaleiro, passando a ser chamado de Sir Andrew Lloyd Webber. Cinco anos mais tarde, foi-lhe concedida nova honraria. Foi nomeado Barão Lloyd Webber de Sydmonton, no Hampshire. 

Os prémios que os seus espetáculos e as suas músicas ganharam, foram inúmeros. Destacar uma das suas canções, não é tarefa fácil. Ainda assim, deixo-lhe como sugestão, a única canção de Lloyd Webber que ganhou um Oscar de Melhor Canção – You Must Love Me do filme Evita, interpretada por Madonna e que arrebatou o prémio em 1997.



O ARMÁRIO DOS MEDICAMENTOS

VERA PINTO
Lembram-se dos célebres armários metalizados com portas de espelhos que decoravam a maioria das casas de banho? Esta imagem faz-me viajar no tempo e regressar à infância. Não havia uma casa de um familiar ou amigo que não apresentasse estes armários tão práticos. Práticos sim, muito práticos! Funcionavam como três em um: farmácia, pois era o local utilizado para armazenar os medicamentos e outros produtos de saúde, como espelho e, como objecto de adorno e decoração. Ninguém me convence que não era moda da época. Com o passar dos tempos os padrões de decoração mudaram substancialmente, o conhecimento evolui e estes armários parecem ter entrado em extinção. Tenho que confessar que de decoração não percebo muito, mas em matéria de conservação de medicamentos sou mestrada. Escolher a casa de banho como o local da casa para o armazenamento de medicamentos é um grave erro que felizmente tem vindo a ser corrigido pela maioria das pessoas. Os medicamentos são criados com a finalidade de nos auxiliarem no tratamento, prevenção e diagnóstico de doenças e não para nos prejudicar. Para que tal seja alcançado, temos de respeitar o medicamento, obedecendo às suas condições de conservação e armazenamento, de modo a garantir o cumprimento do prazo de utilização estabelecido. Segundo o Formulário Galénico Português (FGP), o prazo de validade corresponde ao período durante o qual o medicamento ou qualquer outra preparação mantém as características e os padrões de qualidade pré-definidos. Na Farmácia, as condições de iluminação, temperatura, humidade e ventilação das zonas de armazenamento respeitam as exigências específicas dos medicamentos, de outros produtos farmacêuticos, químicos, matérias-primas e materiais de embalagem. Para além disso estas condições são verificadas e registadas periodicamente, fazendo jus as recomendações descritas no manual de boas praticas farmacêuticas. A partir do momento que o medicamento sai do controlo farmacêutico, estas noções devem ser interiorizadas pela população sob pena da ineficácia do tratamento adquirido. O prazo de validade inscrito na embalagem do medicamento só é valido se as condições de conservação do mesmo forem respeitadas e nunca se deve utilizar um medicamento fora da validade. Utilizar um medicamento fora da validade pode ter duas consequências: na melhor das hipóteses o medicamento não produz efeito. Contudo, dependendo da finalidade do medicamento seja para o controlo de uma infecção, controlo de pressão arterial ou medicamentos para o coração, a toma de um medicamento fora do prazo poderá fazer a diferença entre a vida e a morte. Na pior das hipóteses além de não fazer efeito, poderá ter efeitos secundários adversos, na medida em que o princípio activo pode estar de tal forma deteriorado que poderá causar intoxicação. Em suma, para garantir a correta conservação dos medicamentos, estes devem ser guardados num armário fechado, devidamente identificado, num local limpo e seco, ao abrigo da luz e da humidade e sempre longe do alcance das crianças. Desta forma devido à humidade e às alterações de temperatura, o armário de medicamentos não deve estar em locais como a cozinha e a casa de banho. A despensa ou o quarto poderão ser melhores escolhas para o seu armazenamento e devemos periodicamente fazer uma revisão à farmácia doméstica, de forma a descartar medicamentos que estejam fora da validade ou que já não necessitamos. Estes medicamentos nunca devem ser colocados no lixo comum ou esvaziados pelos esgotos domésticos. Devem ser entregues na farmácia no sentido de serem reciclados.

terça-feira, 21 de março de 2017

O TEMPO DAS HIENAS

BRUNO SANTOS
Há uns anos, apareceu na Europa um movimento – chamemos-lhe assim – com o nome de Zeitgeist, uma palavra da língua alemã que pode ser traduzida por Espírito do Tempo. O principal instrumento de comunicação deste movimento foi um documentário, um filme, com o mesmo nome, produzido por Peter Joseph, que abordava, na mesma linha argumentativa, temas como a História do Cristianismo, os ataques de 11 de Setembro, a Federal Reserve, a Guerra e aquilo que ficou conhecido por NWO, a sigla inglesa da Nova Ordem Mundial.

O filme teve um impacto muito significativo em certos meios internacionais e ajudou, de algum modo, a estabelecer e promover uma leitura da História que não era comum encontrar-se nos ambientes ortodoxos do mainstream que, normalmente, veiculam uma narrativa histórica estabelecida de acordo com padrões ideológicos pré-definidos, que servem de cimento psico-político e psico-social à mais poderosa estrutura de poder instalada no mundo, que é, de facto, uma Religião que dá pelo nome de Protestantismo, e cujo Deus, o seu instrumento mágico, espiritual e operativo fundamental, é o Dinheiro.

A verdade é que, sob a aparência de uma sociedade laica, totalmente dessacralizada, com Instituições “profanas” depositárias do Poder terreno e corporizadas num Estado que se afirma separado das Igrejas e dos cultos confessionais, aquilo a que realmente assistimos é uma exímia e poderosíssima expansão global do poder Protestante, que soube, como nenhuma outra religião, adoptar as transfigurações simbólicas e mitológicas adequadas no sentido de conferir aparência secular e profana a estruturas que, na verdade, assentam em rituais, símbolos e arquétipos religiosos, alguns dos quais mágicos, cuja origem se estabeleceu in illo tempore.


Estas e outras matérias têm alimentado, ao longo dos anos, algumas teorias da conspiração cuja credibilidade é muitas vezes posta em causa, quer pelo excesso de imaginação dos seus adeptos e divulgadores, quer pela inexactidão histórica, factual, científica ou até filosófica, dos pressupostos em que essas teorias assentam. Contudo, este princípio não é generalizável a todas essas teorias conspirativas.

Existem hoje leituras correctas, embora ainda marginais, do curso da História e dos diferentes movimentos sociais e políticos que se foram sucedendo e influenciando, leituras essas rigorosas e verificáveis nos principais postulados, que até há bem pouco tempo eram designadas depreciativamente como Teorias da Conspiração e relegadas para as margens do discurso, onde a fantasia e os excessos fabulosos habitam.

Recorde-se, por exemplo, que a RTP 2, um canal público de televisão, chegou a transmitir, no ano de 2006, um documentário com o título de Loose Change, no qual se coloca em causa a versão oficial sobre os atentados de 11 de Setembro de 2001, nos Estados Unidos, defendendo a teoria, sustentada em provas documentais e testemunhais, que se tratou, na verdade, de um ataque terrorista “interno”.
Mas já antes, em 1998, a fabulosa indústria de mitos da Califórnia lançara um dos mais perturbadores filmes do final do século XX, The Truman Show, um verdadeiro hino à Teoria da Conspiração, que coloca os mais ínfimos e íntimos detalhes da vida de um cidadão, e as suas dimensões sociais, psicológicas e ontológicas, no plano irredutível da ficção. Este extraordinário filme nada mais conta, afinal, do que a Verdade.

Dá-se hoje um caso curioso, cuja exploração mediática atingiu proporções inéditas na História recente, com o novo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O discurso elaborado pelos media e difundido à escala global, tratou de fazer passar a ideia de que o fenómeno da sua eleição fora um lapso da democracia e da História, um erro escatológico baptizado com o nome de Populismo, entronizado como Inimigo pelo mainstream, ridicularizado na sua consistência programática, na sua habilitação funcional para o exercício do Poder, até na sua preparação e, portanto, legitimidade, intelectual, filosófica e científica para assumir a liderança de uma grande potência económica, cultural e bélica como é o caso dos Estados Unidos. Nada mais errado, contudo. O Think Tank que elegeu Donald Trump é dos mais consistentes e competentes da História, e a sua doutrina filosófica, de matriz esotérica e com milénios de Tradição, é na essência um dogma religioso. Um dos poucos que, neste momento, pode fazer frente ao Protestantismo na luta pelo domínio das almas que habitam este mundo.

Comete-se demasiadas vezes o erro de se pensar que a Religião é uma escolha individual, que ser ou não ser religioso é uma opção que resulta do livre arbítrio de cada um. Diz-se, erradamente, que o Estado, as organizações ou os indivíduos auto-intitulados laicos, ateus ou agnósticos, são estruturas ou organismos vivos e conscientes não religiosos pelo facto de negarem, não validarem, ou simplesmente ignorarem a existência de Deus. Acontece que Deus não pede licença aos Homens para existir. Ele Está, quer se queira, quer não, tanto no plano simbólico como operativo, na dimensão espiritual ou material, criadora ou destruidora, chame-se ele Javé, Adonai, Grande Arquitecto, Cristo ou, simplesmente, Dinheiro. A Religião é uma pulsão inata do ser humano, integra a sua matriz psíquica e espiritual primitiva, e não deve ser confundida com os fenómenos mediadores, eclesiásticos, iniciáticos ou outros, através das quais se manifesta e materializa.

A televisão, as redes sociais, a comunicação social, os hipermercados, estádios de futebol, centros comerciais, os partidos políticos, as instituições do Estado, são utensílios mágicos e evangelizadores de um dogma religioso com rituais estabelecidos sobre a mesma matriz mitológica e simbólica de qualquer outro credo. O seu Deus presente é o Dinheiro, pois é ele o símbolo máximo da Ética e da Transfiguração Protestantes.

Em resumo, e não entrando em detalhes de natureza simbólica que constituem o corpo ritual de associações secretas, ou discretas, como agora se diz, espalhadas em rede por todo o mundo ocidental, e mais além, é isto que justifica que o Partido Trabalhista holandês, onde milita o nosso amigo do Eurogrupo de nome impronunciável, um torcionário liberal e fundamentalista da austeridade e do Dinheiro, use como símbolos identificativos o Punho e a Rosa, representados em suma abstracção simbólica no 9 e no 18, respectivamente, exactamente os mesmos símbolos que encontramos em organizações políticas que julgamos nos antípodas daquela ideologia torcionária e fundamentalista aos pés da qual Portugal foi esmagado, como é o caso do Partido Socialista, por exemplo. Desengane-se, contudo, quem pensa que se trata de mera coincidência. Trata-se, na verdade, da partilha de uma certa filiação iniciática, ou contra-iniciática, de matriz religiosa não eclesiástica, ou seja, laica, mas cujo universo simbólico é o mesmo.

Quando a maioria de nós olha para uma chave de fendas vê um utensílio de trabalho cuja função consiste e apertar e desapertar parafusos. Esse é o valor operativo do símbolo que está de acordo com uma hermenêutica da ascendência, a visão benigna do mundo e da vida que coloca o Homem e os seus símbolos num caminho da evolução rumo a estados superiores de Consciência. Mas a chave de fendas pode ser também usada como arma e com ela cometerem-se crimes que atentem contra a própria vida. Essa é a face operativa do símbolo que revela a visão maligna do mundo, essa visão da entropia contra-iniciática que coloca o Homem no caminho da involução, fazendo-o descer a estados inferiores de Consciência, excessivamente próximos da barbárie, ou mesmo encarnando, integralmente, a barbárie.

O nosso tempo revela esta contradição com particular acuidade. São demasiados aqueles que se camuflaram com a pele do cordeiro e se esconderam atrás de símbolos de valor mágico ancestral mas que, na realidade, são lobos famintos em busca de uma saciedade que só encontrarão com o final dos tempos, na coroação do modelo involutivo que veneram.

APARIÇÃO: O RETRATO



REGINA SARDOEIRA
Embora não seja, de facto, possível explicar uma obra de arte (seja qual for a expressão usada), a verdade é que as interpretações são inevitáveis. Considero importante deixar o campo absolutamente livre a quem observa; e contudo uma sucessão incontável de ideias e de sentimentos ligam-me, inextrincavelmente, a este quadro que intitulei Aparição. 

Para além de ter sido a obra homónima de Virgílio Ferreira, no centenário do seu nascimento, o pretexto desencadeador de uma hipótese de partilha de palavras, de pensamentos e de acções a ocorrerem no futuro, e de esse futuro nunca ter acontecido, o desejo de tornar a pessoa ainda presente, apesar da inevitável perda, levou-me a querer pintar-lhe o retrato. 

De posse de uma pequena fotografia tipo passe, iniciei o esboço. Durante algum tempo, a tela permaneceu quase em branco pois eu sei, por experiência, que não é no desenho que obtenho o ser daquele que retrato, mas depois, quando acrescento cores e matizes, sombras e luminosidades. 
O acto de pintar um retrato tem o seu tempo. Por essa razão demorei meses a iniciar a composição propriamente dita, fiz um primeiro enquadramento recorrendo à técnica da colagem, rodeei o esboço de imagens, palavras e símbolos, uns, decerto óbvios, outros, obscuros - que de obscuridade também é feita a essência de um homem. 

A seguir, comecei o retrato. E, quando, ainda incipiente, a figura dele se apresentou e o olhei, de longe, percebi que o afogara num oceano de papéis colados e envernizados e que era, pois, urgente, dar-lhe liberdade. 

Arranquei os pedaços que não resistiram ao meu esforço, desta feita destrutivo, cobri com tinta aqueles que ficaram e, bruscamente, no centro da tela, o homem retratado revelou -se. Soube que lhe captara o ser, deixei-o estar à minha frente, nessa brusca aparição; e foi então que percebi a inutilidade de inventar-lhe o busto que a fotografia não me revelou. 

O espaço vazio, por debaixo do rosto sugeriu-me, vagamente, a hipótese de um reflexo. Mas, arredei a sugestão aquática e, recorrendo à espátula, rapidamente, criei o cenário (tido, no momento como exemplar) dos livros antigos e da vela com o seu halo de luz difusa. 
Estava criado o retrato, aparecia o homem, fisicamente perdido há um ano atrás e ali presente em apoteose. 

O trabalho de burilar os contornos do rosto acrescentou-lhe realismo, sem lhe tirar presença. E a vela ganhou um rasto branco de cera, a escorregar sobre os livros como que a desintegrar-se numa fusão com outros materiais. 

Uma representação de simbologia óbvia? Sim, decerto. Quis fugir, primeiro, ao livro, aos poemas de cuja metáfora fiz colagem; mas o homem retratado mostrou-me angústia e libertei-o da matéria onde o havia submergido. Surgiu uma pessoa, viva e expressiva, a impor a sua presença no meio dos livros antigos que sobrepujou, para limpar a obscuridade da luz bruxuleante da vela e erguer-se no azul da manhã. 

É desta aparição que falo quando intitulo, deste modo, o quadro. É esta espécie de poder que evoco quando percebo que trouxe à vida, de novo, o homem que dela se ausentou há um ano atrás. A outra aparição, contida no livro homónimo de Virgílio Ferreira, esteve connosco (comigo e com ele) dias antes do acontecimento - limite que retirou o homem retratado da presença dos vivos. 
Entreguei o quadro (a custo, confesso, porque ele é a minha criatura) para devolver o homem, Adão Campos, à Biblioteca da Escola Secundária de Marco de Canaveses; mas não me atrevi a seguir a minha criação, presentificando-me lá, no dia em que alunos e professores vão homenagear post mortem aquele que foi (que é?) o espírito do lugar. A minha presença pecaria por excesso e se palavras quisesse dizer elas não me sairiam. 

De um modo íntimo, cuja natureza só poucos lograrão entender, eu estou lá, nessa aparição de um homem que se me revelou e cuja presença etérea senti em todos os dias que expus o quadro à frente dos meus olhos. E eu desejo que o lugar que lhe derem nas paredes do espaço a que ele, em vida, deu significado pleno, seja honrado e perdure.

segunda-feira, 20 de março de 2017

ARES DE PRIMAVERA

CLARA CORREIA
Ei-la que chegou! … a Primavera, pois! … quanto mais não seja a reboque da implacabilidade do calendário que dita ao Tempo que é chegado o tempo de nova estação e … assunto encerrado! … mau grado os eventuais caprichos de outro tempo, o meteorológico, a meter-nos na linha no que respeita à nossa modesta e legítima ambição de pôr os casacos, não pelas costas, mas para trás delas. Não obstante, o sol, quando não lhe é tirado o protagonismo pelas nuvens, prolonga a sua anterior, e invernosa, “visita de médico” … e agora até parece, e ainda bem, utente do SNS nas urgências e no auge da gripe.

Somos mediterrânicos, benza-nos Deus! … e quem nos tira o Sol, tira-nos tudo e mais alguma coisa, nomeadamente, a vontade de não nos encafuarmos nos centros comerciais onde, como no mar (e como escreveu Sophia de Mello Breyner), não há estações do ano, mas com a agravante de também não haver condições de vida para a chamada “luz natural”, nem condições acústicas para se propagar a melodia do vento, nem, tão pouco, as imprevisibilidades paisagísticas da serra ao longe, excepcionalmente bem delineada por ausência de neblina, ou de um hipnótico crepúsculo carmim-electrizante a encher-nos as medidas dos sentidos e da objectiva da máquina fotográfica.

Pois a verdade (e esta verdade, além de absoluta, merece ser celebrada por ser anual) é que, mais tarde ou mais cedo, e mais ou menos pela altura pascal, todos nós damos um ar da nossa graça primaveril (abafada pelo Inverno), seja no sumiço dado às golas altas e nos pedaços de pele exposta a flirtar os raios solares, seja nos comentários inevitáveis à meteorologia, que passam, finalmente, a barreira da monotonia e do pessimismo e, sendo Primavera, aumenta o risco de serem acompanhados por um largo sorriso … primaveril, claro está! Há, e haverá sempre (claro esta, também!) espíritos impermeáveis a estes preâmbulos de “silly season” e, sem qualquer presunção de julgamento, terão a sua própria razão e direito de opção. Apanhemos, enfim, a onda do renascimento sazonal da Natureza, por excelência, e renovemos a nossa alma, as intenções esquecidas, as relações esmorecidas e conceitos já com mofo, não só da humidade do Inverno mas também da mente, se esta resiste à mudança … e à esperança, a precisar, também ela (a nossa esperança) dos ares de Primavera!

DESENVOLVER UMA MOTIVAÇÃO “IMPARÁVEL”

Como é que pode desenvolver uma motivação imparável, idêntica à de um fisioculturista profissional?

NUNO AREAL CARVALHO
(http://nunocarvalhofitness.com/desenvolver-uma-motivacao-imparavel)
A Musculação não é nada fácil. Dizer que qualquer pessoa pode ter êxito na musculação, é um verdadeiro mito, porque nem todas as pessoas têm os genes e, mais importante, a motivação para ter sucesso neste tipo de desporto/atividade física.

Não chega ter a “altura ideal” ou “células musculares grandes” para ter sucesso na musculação. Acima de tudo, vai precisar de ter uma motivação e força de vontade revestidas de aço para aguentar o esforço.

Sem esses dois elementos, lamento mas não vai durar muito tempo neste mundo. Eu já vi muitos promissores fisiculturistas, desistirem porque, simplesmente não encontraram ou deixaram de ter a motivação e garra para continuarem o seu percurso.

Quando um fisiculturista em ascensão e de elevado de potencial, desiste do halterofilismo, sentimos que é uma perda para o mundo do bodybuilding em geral. Porquê? Porque este é um mundo onde não entra muita gente, em primeiro lugar.

O mundo do culturismo moderno só vai progredir e evoluir se cada geração estiver interessada em investir uma enorme quantidade de recursos pessoais nele.

Então, se você precisa de motivação ou se precisa de uma razão para permanecer como um fisiculturista, aqui estão algumas chaves que valem a pena registar:
Musculação é saudável – Vivemos num mundo cada vez mais sedentário. A vida moderna tem ensinado ao Mundo que é preferível ficar em casa do que levantar e fazer exercício. Tudo o que nos rodeia é feito para minimizar o nosso esforço físico tornando-nos cada vez menos activos. A implicação disto é ver a multiplicação de certas doenças pelo mundo.

Felizmente a Organização Mundial de Saúde há muito que vem a afirmar que o exercício físico regular é a chave para combater as doenças. O Síndrome metabólico, que é o precursor de colesterol elevado, elevados níveis de glicose no sangue e pressão arterial elevada, podem ser corrigidos através da prática de exercício regular.

Que tal apenas medicação para a pressão arterial, etc?

Sim, existem medicamentos para certas doenças. Mas na maioria dos casos, a principal causa destas doenças mais comuns, é o estilo de vida de uma pessoa. As pessoas estão a morrer porque não se exercitam.

As doenças cardíacas têm vindo a aumentar desde o final dos anos setenta. O levantamento de peso e o treino da resistência, no geral foram provados ser muito benéficos aos indivíduos que necessitam de fortalecer o seu sistema cardiovascular.

Treino de resistência não apenas mantém o seu ritmo cardíaco como também dilata os vasos sanguíneos e incentiva o desenvolvimento de mais artérias e veias no seu corpo.
Disciplina – se você acha incrível que alguns fisioculturistas tenham bíceps com cerca de 70cm, ficaria ainda mais espantado com o nível de disciplina que esses atletas têm para serem capazes de alcançar bíceps desse tamanho.

A musculação exige uma extrema disciplina, física e mental. Esta disciplina geralmente estende-se a todos os aspectos da vida de um fisiculturista, desde a forma como ele cuida da sua família, até a forma como lida com o seu trabalho.

Desde que você se concentre especificamente no Fisioculturismo, se esforce ao máximo para alcançar resultados e esteja constantemente a instigar os seus limites, garanto que nesse percurso, vai desenvolver uma disciplina de aço, digna dos fisioculturistas profissionais – vai adorar a forma como a sua visão vai mudar, assim como a sua vida!!!
O Fisioculturismo vai torná-lo competitivo – fisiculturistas profissionais são conhecidos por serem muito calmos e discretos no que toca aos seus regimes de treino. Apesar da aparente humildade de muitos fisioculturistas profissionais, a maioria deles são extremamente competitivos, vivendo e respirando musculação, dia após dia.

Novamente, esta mudança essencial na mentalidade de um fisiculturista pode ser benéfica para qualquer um. Ser competitivo é uma coisa boa! A competitividade também torna possível às pessoas, sair das suas zonas de conforto muito mais facilmente.

A competitividade também ajuda a desenvolver um pensamento mais positivo.

A maioria dos fisiculturistas vivencia o sentimento de derrota de uma forma ou de outra. E acha que eles se deixam vencer por esse sentimento de fracasso? A maioria nunca pára de tentar!! De cada vez que você insistir em treinar repetidamente padrões de exigência mais elevados, vai ver que se vai tornar cada vez mais resistente em desistir ou ceder ao sentimento de fracasso.

Os verdadeiros fisioculturistas não desistem, melhoram com o tempo!

Claro que existirão sempre campeões que vieram antes de nós, mas isso não significa que a geração mais recente não tenha o que é preciso para alcançar o mesmo. Mais cedo ou mais tarde, essa “elite de campeões” vai reformar-se (muitos já o fizeram), e de modo a que este seja um ciclo com continuidade, é necessário o surgimento constante de “sangue novo”.

Não pense por um minuto que não terá um lugar no fisioculturismo. O seu lugar já foi garantido a partir do momento que tomou a decisão de se comprometer com este desporto! Por isso, não perca a esperança e vá para o ginásio treinar com toda a garra que tem dentro de si!!

A MULHER NA GUINÉ BISSAU

JOANA BENZINHO
No mês de março celebramos o dia da mulher em todo o mundo e, se em alguns países há quem se questione sobre o porquê de se celebrar tal efeméride, por a mulher ter nos dias de hoje um papel relevante e de (pretensa) igualdade na vida social, noutros continua bem premente a necessidade de relembrar a cada minuto as origens da comemoração desta data e a necessidade de batalhar por mais direitos e por mais igualdade para o sexo feminino. 

Vem isto a propósito da Guiné-Bissau e do facto de esta data ser feriado nacional naquele país e de permitir que homens e mulheres fiquem em casa neste dia e reflictam um pouco sobre a importância da efeméride.

Com um mosaico de mais de duas dezenas de etnias e credos religiosos distintos, é traço comum a quase todos a relevância do papel atribuído à mulher na sociedade. Historicamente podemos referir a Rainha Okinka Pampa, "chefe máxima" do arquipélago dos

Bijagós, idolatrada ainda hoje por ter defendido o seu povo do jugo colonialista com grande destreza, ao ter assinado um acordo muito benéfico para os Bijagós. 

Já aquando da luta de libertação, várias foram as mulheres a assumir posições de grande relevância na guerrilha e nas fileiras do PAIGC de Amilcar Cabral como Titina Silá, Teodora Cardoso ou Carmen Pereira, entre outras.

Independente de nomes mais sonantes e com papeis mais ou menos essenciais na história do país, a verdade é que a mulher guineense em geral granjeia um enorme respeito na sociedade e assume um papel de grande relevância no contexto económico e social do país. Habitualmente é a mulher guineense que gere o magro orçamento familiar e que se desdobra em várias funções para obter os recursos que lhe vão permitir criar e educar os seus filhos.

Na etnia Bijagó, encontramos uma sociedade marcadamente matrilinear, com a mulher a ter um papel da maior relevância, a presidir a cerimónias religiosas ou a dirimir conflitos na sociedade, a escolher o marido ou a pedir o divórcio, a ficar com a guarda das crianças ou a iniciar os mais novos nos distintos rituais animistas.

Mas apesar de tudo, ainda encontramos a mulher subalternizada numa ou outra etnia, limitada ao papel de dona de casa com acesso muito restrito à educação, ao mundo do trabalho ou uma vida social livre e paritária.

É talvez da síntese destas realidades tão diversas existentes na Guiné-Bissau que se torna necessário dar a este dia a importância de um feriado de cariz nacional. Na verdade, o dia da mulher na Guiné-Bissau lembra que a igualdade de direitos e de oportunidades é um projecto ainda em construção que exige muita reflexão e que é uma luta que se deve continuar a travar diariamente. Aqui como no resto do mundo.