sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

E VIVERAM A PAZ PARA SEMPRE!

Gabriel Vilas Boas
DR
Se a felicidade é o mito do indivíduo, a PAZ é o sonho dos povos. 
Pedra angular de qualquer sociedade, é fácil perceber a relevância da paz. Nada funciona como desejamos se não vivemos em ambiente pacífico. 
A maioria das pessoas pensa que vive em paz, sobretudo porque no seu mundinho não ouve o som das metralhadoras, a polícia não passeia pelas ruas e os generais não ditam as suas leis marciais. A Europa, os EUA, o G7 vivem em paz? Então há paz…
Na verdade, a paz mundial é um mito. Nunca houve plena paz entre todos os povos do planeta porque isso nunca interessou a alguns indivíduos que enriqueceram a sabotar a harmonia entre as nações, especialmente quando estas não entendiam o valor civilizacional da paz. Reparemos com a inteligentia ocidental pensa: temos guerra mundial, justificável, ideológica, verdadeiro confronto entre duas visões de mundo, quando um pequeno grupo de países cultos e ricos se desentende ou aparece um lunático qualquer, com um bigodinho mais ou menos ridículo; quando dois países, incultos e pobres, perdidos no meio de África ou da Ásia se digladiam, estamos perante um conflito regional perfeitamente estúpido, próprio de gente bárbara e miserável, que não pensa e apenas serve para azedar o lauto jantar de gente com tão bom coração (as pessoas “sensíveis” de que falava Sophia de Mello Breyner). Na verdade estas são guerras muito úteis e produtivas para as grandes economias pacifistas e moralistas. Todas elas “lamentam imenso” estas tristes cenas que matam tantos inocentes! E o lamento aumenta ou diminui conforme a projeção mediática do evento. 
No meu entender o ponto fundamental da paz não é alcançá-la ou possui-la. O essencial é saber o que fazer com ela. 
Mais tarde ou mais cedo, os povos percebem a estupidez da guerra ou apenas cansam-se das fúteis divergências que os separam e estendem as mãos. O problema é que uma paz sem substância não dura muito. Quando não sabe o que fazer com ela, o Homem volta a fazer a única coisa que aprendeu: disparar uma arma. Algo parecido acontece com aqueles que ruminam uma paz mole e desinteressante que facilmente relativizam e desdenham. 
A paz é a base sobre a qual as sociedades assentam a sua organização. Os povos inteligentes aproveitam para construir o progresso e os indivíduos partem em busca do Santo Graal da felicidade. 
O importante não é desejar a paz, o importante é fazê-la. Construir a paz é criar acesso à educação para todas as crianças, é proporcionar oportunidades de trabalho aos adultos, é permitir que os velhos cumpram os últimos anos de vida com dignidade.
Querer a paz não é recusar vender armas a países em conflito, mas sim deixar de as produzir. Querer a paz é acabar com a cultura do medo e da coação. Querer a paz é contribuir para a formação de médicos, professores e engenheiros no Quénia, no Gabão, Geórgia ou na Índia, sem pensar no petróleo ou nos diamantes que estes países não têm.
Este foi o sonho de Gandhi e de Mandela. Cumpriram-no parcialmente. Hoje todos nos curvamos perante as suas memórias, mas que líderes mundiais querem ser seus sucessores nos corações das pessoas? Quem quer tornar o seu povo o primeiro prémio Nobel da Paz coletiva?
Almejar a paz é incentivar a diferença de opinião, conviver com diversas opções ideológicas, sociais, religiosas ou sexuais, sem querer impor a nossa, ainda que isso seja fácil de alcançar.
A paz não pode ser mais uma ideia doce de Natal que se extingue depois da noite de Reis, não pode ser um like no facebook ou praticar-se quando o peso da culpa é insuportável.
A paz só será o sonho real dos povos quando se tornar o ar que cada indivíduo respira. 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

SONHOS DE NATAL

É necessário sair da ilha para ver a “ilha”. Não nos vemos se não saímos de nós.
José Saramago, O Conto da Ilha Desconhecida


Anabela Borges
DR
É inverno. E é quase Natal.
E a minha terra acorda assim, mergulhada nas brumas, vapores vagarosos que se soltam das montanhas em redor, fumos frios que sobem, lentos, do rio – mistério quase parado, a querer saber das origens do tempo, enquanto pequenos bandos de pássaros tardios batem em debandada dos telhados à espera de quase nada.
Soltam-se os fumos das chaminés e tudo começa a ganhar a azáfama própria desta época do ano. Para os mais jovens, são as férias de Natal. E enquanto a geada cai, silenciosa e fria, a pôr as ervas duras como palitos e as águas dos tanques lisas e paradas no tempo como espelhos finos e frágeis, os vidros embaciados transpiram o calor das casas. O tempo traz-lhes uma ansiedade genuína, espreitam lá para fora, limpando os vidros com as palmas das mãos, como quem diz adeus a mais um dia, fazendo com que pequenas gotas deslizem, rápidas, como lágrimas de desejo. E cada dia vai enchendo mais e mais os olhos das crianças de um brilho inquieto, a espreitar para o céu, à procura de um sinal, como metidos numa redoma quentinha, ou numa daquelas bolas com um cenário lá dentro, onde o tempo está suspenso num momento específico com bolhas a flutuar.
Natal, Natal, Natal.
Por momentos, muitos de nós ainda temos o privilégio de adormecer nos “sonhos de Natal”, ainda temos o calor da casa, o pinheirinho, a toalha de motivos natalícios recheada de bons comeres e beberes, uns com mais esforço, outros com menos, outros assim-assim. Ainda temos a família, o abraço, as faces coradas pela alegria momentânea. 
Quando a noite já estiver tão inclinada que cobrirá por completo o chão, estaremos adormecidos nesses sonhos, entontecidos em falsas esperanças, felizes…
O tempo entretece os seus sarilhos, e anda para a frente e para trás e, às vezes, para os lados, assim como um pêndulo, a empatar o espaço. E quando nos dermos conta, estaremos mergulhados num novo ano: a correr, em sobressaltos, em angústias diárias, em pequenas alegrias, surpresas, e mais ou menos a mesma fímbria de esperança que até aí nos tem conduzido. 
Se nos predispusermos, por um tempinho que seja, a pensar seriamente na vida, saiamos um pouco para fora de nós, que, como diz Saramago, a única forma de vermos a ilha é saindo da ilha.
FELIZ NATAL e BOM ANO!

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Daniela Pereira: "Sonho muitas vezes que sou remunerada, justamente, por esse trabalho"

Daniela Pereira,
entrevistar quem entrevista
DR
Daniela Pereira diz caber "numa mão cheia de sonhos" e, ao viver no meio deles, acaba por se misturar com tudo o que a possa fazer feliz de uma forma ímpar. Assim se misturou com o jornalismo. Assim pegou num dos seus sonhos e assim o tenta realizar. 

Se não fosse o jornalismo, era o quê?

DP: Ciências políticas, assessoria de imprensa, relações públicas, comunicação organizacional, já tudo me passou pela cabeça. E, por tudo isto já ter sido uma possibilidade é que escolhi o jornalismo. Agrada-me, particularmente, a possibilidade de poder fazer coisas diferentes todos os dias. Fazer do uso das palavras profissão.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

POR QUE NÃO FAZER HOJE, O QUE PODEMOS FAZER AMANHÃ?

Nuno Meireles
DR
O Natal está à porta e mais uma vez, como é habitual, os portugueses vão deixar as compras para os últimos dias.
O deixar tudo para a última é uma das características dos portugueses que mais me faz confusão. Eu sei que muitas vezes faço o mesmo e não posso criticar muito os outros, mas que esta característica tão nossa me faz pensar, isso faz.
António Variações, na sua música “É p’ra amanhã”, descreve na perfeição o que nós somos na realização de tarefas. Pagar impostos tem vários dias para ser feito, fazemos sempre no último dia e se for na última hora tanto melhor; temos um trabalho ou um relatório para fazer com meses para o cumprir, optamos sempre pelo últimos dias; nos nossos empregos acontece exatamente o mesmo, o patrão diz-nos para realizar determinada tarefa e deixamos correr o tempo ao máximo para pôr-mos em prática o que nos foi pedido. Engraçado, é que até os nossos governantes sofrem deste ‘síndrome’ do deixar andar, qual o governo que entregou, por exemplo, o Orçamento de Estado antes do último dia? Ultimamente até tem sido entregue nas horas finais.
Contra factos não há argumentos. Nós portugueses não gostamos nada da pontualidade. Marca-se um determinado evento ou até um encontro, chegamos quase sempre para lá da hora marcada.
Na realização de tarefas, António Variações chama-nos à atenção para algo que esquecemos e que devíamos ter sempre em mente. Diz ele: «É p'ra amanha
/ Bem podias viver hoje / Porque amanha quem sabe se vais cá estar / Ai tu bem sabes como a vida foge / Mesmo que penses que esta p'ra durar». Há maior verdade que esta? Quem tem a garantia que amanhã estará cá? Então porque teimamos deixar tudo para a última ou até adiarmos?
Tenho falado nos afazeres que temos no nosso dia-a-dia mas o mesmo se aplica ao dizermos o que desejamos a quem nos rodeia. Porque adiamos a dar um beijo a quem nos é especial? Porque adiamos dar um abraço a um amigo ou um familiar? Porque adiamos dizer ‘amo-te’ a quem temos no coração? Porque adiamos para surpreender alguém que amamos, seja com a oferta de flor, um ato de carinho ou até pegar na pessoa e ir jantar a um sítio especial?
Se deixarmos de adiar o que podemos fazer hoje, é quase garantido que viveremos mais felizes, com mais tempo para nós e para quem amamos.
Pensem nisso.

Bom Natal!

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

APANHA DA AZEITONA DURANTE O TEMPO DO ADVENTO

Alina Sousa Vaz
DR
O Advento para os cristãos é um tempo de preparação com alegria, expectativa, durante o qual os fiéis esperam o nascimento de Jesus Cristo. No calendário religioso este tempo corresponde às quatro semanas que antecedem o Natal, tendo início no domingo mais próximo do dia 30 de novembro (sendo conhecido tradicionalmente como o dia certo para montar a árvore de natal), indo até o dia 24 de dezembro, sendo o primeiro tempo do ano litúrgico. O tempo do Advento é para toda a Igreja, momento de forte submersão na liturgia e na mística cristã. Este período litúrgico evoca a dupla vinda de Jesus Cristo: a verificada em Belém, quando Ele veio ao mundo, e a que ocorrerá no Seu regresso no dia do juízo. Por isso a característica deste tempo, com o qual começa o ano eclesiástico, é a purificação como preparação para receber “aquele” que está para vir. O caráter penitencial do advento é acentuado pela cor litúrgica, que é o roxo e segundo a Bíblia, o Anjo Gabriel apareceu a Maria numa visão, dizendo que em breve ela daria à luz um menino, o filho de Deus que viria para trazer luz ao mundo. Esse tempo de espera é caracterizado hoje como advento. É o tempo de espera e esperança!
Por terras trasmontanas, as pessoas vivem ainda de acordo com os ensinamentos religiosos e o tempo festivo tem de facto outro encanto e simbolismo. Durante o tempo do advento o frio grita por entre os montes, mas homens e mulheres acarinham este tempo de forma especial porque cada pormenor natalício é preparado e vivido com emoção provocando nas gentes mais novas o verdadeiro sentido da época. Receber, compreender e transmitir as tradições é sem dúvida o verdadeiro papel de um bom transmontano. 
Neste tempo de preparação, em que cada um reflete e se posiciona perante o mundo que o cerca, o trabalho laboral nunca é descorado pelo lavrador transmontano. Nos dias invernosos e frios, homens e mulheres são observados pelos terrenos íngremes transmontanos como se de deuses se tratassem no alto do seu posto. E observam tudo!
A apanha da azeitona é a atividade por excelência neste tempo de frio. Cobertos de roupas quentes, a malga da sopa e o naco de pão com salpicão aconchega o estômago após a ventania gelada da noite. A labuta da apanha da azeitona é fruto da mestria da simplicidade da arte popular e apesar de ser um trabalho árduo o objetivo final é compensador. 
A relação que os trabalhadores mantêm com as oliveiras é milenar e para isso basta olhar para as nobres silhuetas cheias de história, mas rejuvenescidas a cada primavera. As oliveiras lutam contra o vento, a chuva, e o sol tórrido, contribuem para as cores da paisagem e dão frescura aos homens que esperam as mulheres com o almoço e o farnel nas cestas, embrulhados numa toalha, não esquecendo o garrafão de vinho. 
A oliveira é para os trasmontanos um símbolo de riqueza sendo o azeite a imortalização de uma cultura agronómica contribuindo para a história da humanidade. Os transmontanos sabem desta fortuna e de varas aos ombros, lá vão arrastando os toldes de extensões consideráveis, num mar irregular, vergastando a oliveira de cima para baixo, coagindo a azeitona a cair. O varejador rodopia, maneia a vara com mestria e as azeitonas amadurecidas pela natureza eram depois limpas da folhagem nos crivos para mais tarde serem sacrificadas pela mão do homem da azenha. Porém, há as azeitonas que voam quando são açoitadas pela vara e os terrenos húmidos e enregelados são vasculhados pelas mãos das mulheres que meticulosamente as apanham e as colocam em baldes. Se hoje, a azeitona que escapa é abandonada, outrora as crianças andavam ao “rebusco”, tarefa que não lhes agradava.
E é assim, por estes dias as vidas das minhas gentes na apanha da azeitona. Os dias de frio cortante e húmido enregelam-lhes os ossos, mas eles não esmorecem. A garra e a vontade de trabalhar para obter o produto precioso, o azeite, fá-los ultrapassar as dificuldades do dia. 
A fogueira, nas casas rurais, espera-os. O calor que lhes aquecerá as mãos aconchegará as suas almas permitindo que sejam felizes nas suas formas de vida. 
O período do advento é de concentração, de espiritualização, mas por terras transmontanas é, também, o período da apanha da azeitona que se transforma num ouro precioso, que para além de lhes regar as batatas, a couve e o bacalhau no dia da consoada, também lhes fará ganhar dinheiro para custear a vida diária.