segunda-feira, 15 de junho de 2015

IDADE "INACTIVA"

CLARA CORREIA
Com quantas idades se compõe uma vida? … e em quantas idades se divide uma existência no dito “seio familiar” ou na perspectiva nacional económica (ou economicista)? Quantas fases etárias são precisas para compor o conjunto de tábuas com que cada um tem, sem excepção e sem opção, de construir a canoa que o levará pelo rio da sua vida? … da nascente à foz?.

“Primeira infância”, “adolescência”, “maturidade”, “meia idade”, “idade activa” (como se a condição etária humana apenas fosse activada e validada pela “serventia laboral”), “terceira idade” e, designação menos conhecida e mais recente, a “quarta idade” (justificada pelo aumento da esperança de vida) … expressões que rotulam cada ciclo etário e o colocam no seu compartimento, consoante o departamento que a cada um é destinado pela Psicologia, pela Demografia, pela Economia, pela Medicina. Cada fase ou idade como um estágio para a que, previsivelmente, se seguirá; pelo menos é o que se nos é exigido por todos, pelos “nossos” (os ditos “entes queridos”) e pelos outros (ditos “os estranhos”). E quando o rio da vida desagua? … e se torna mais ameno, um merecido manto de mel a mitigar as menos fáceis experiências de uma vida quase na totalidade vivida? … as mazelas do desgaste físico (e, às vezes, mental) de uma idade que já vai em mais de “meia”, não amainam a mão nem a maldade dos que, a maioria das vezes em cobarde segredo, matam a menor esperança de digno sossego de alguém (muitos “alguém”) na dita “terceira idade” (ou “quarta”). Nunca, assim, a palavra “Lar” repugnou tanto, seja como refúgio de violência familiar/doméstica, seja enquanto reduto do desprezo a que são votados os designados “idosos” menos afortunados pela ausência de saúde e de condigna pensão de reforma! Até quando a ausência de acção contra a aflição na “idade inactiva”?

domingo, 14 de junho de 2015

DE VIDA ATRAVESSADO...

Ao ver os miúdos que vão agora para a escola, consigo reviver os episódios da minha infância, a compra
MIGUEL GOMES
dos cadernos e da sebenta, as primeiras letras, um livro da escola com um cisne a ensinar o número dois, o choro de algumas crianças no primeiro dia, o tamanho imenso do recreio… Recordo a compra de um porta-lápis, na altura com um desenho de um herói de banda-desenhada que não recordo, a ultra tecnologia do fecho metálico com íman e as canetas, lápis, borracha, afia, tudo devidamente acondicionado. O caderno novo, onde escrevia, a várias cores, o sumário, a data, a matéria, os deveres, o contorcer as letras entre as linhas e a ansiedade de procurar num cérebro vazio de experiências prévias a palavra correcta para não ter erros no ditado. O correr no recreio, a gritar e com os olhos a piscar, imitando um carro da polícia. Sentar-me na esquina do recreio, que antes dava apenas para um caminho de terra, pouco largo, que dava para os campos e montes por onde passava ao ir para casa… Os mesmos campos que tantas vezes me viram correr, por entre trigo, centeio e milho, o roçar das ervas frias e húmidas nas pernas, o sabor gélido das presas, afastar os agriões e as rãs para beber um pouco de água. Vejo-me saltar os muros, subir a “austrálias”, esperar pelo assobio de um amigo para ir brincar, jogar futebol, aos cowboys, entrar em minas escuras, quase cair a poços, roubar umas peras e umas maçãs, ficar com diarreia de tantas uvas comer, entrar nas medas de palha quando chovia, saltar de poça em poça com as galochas “olhos de sapo”, ter medo dos mais velhos, fugir, levar, atirar grampos com fisgas… Os dias de criança não tinham fim… Eram vividos como escrevo, de um só fôlego, com a certeza de no final do dia ter o cheiro de uma sopa quente, um arroz de tomate ou feijão vermelho com sardinhas, o sacrifício de lavar os dentes, o esperar pelo meu pai ao fundo do caminho e ver que era um gigante ou ouvir o bater compassado do escape da Java preta pela estrada, correr para a rua com folhas e folhas e anotar matrículas dos poucos carros que passavam, com a esperança de ganhar alguma coisa que nunca soube o que seria. Jogar aos números de matrículas, fazer cabanas com giestas, austrálias e, as mais sofisticadas, com palha roubada de medas diferentes para não dar nas vistas. Forrar o chão com folhas e ter os joelhos sempre verdes de tanto no chão do monte andar. Atirar pedras para o fundo do poço e tentar adivinhar a altura, jogar ao canhão, ao cagarila, ao espeto, ao pião, aos “Heróis da Esquadrilha”, andar de bicicleta até partir quase todos os ossos dos braços ou das pernas, além das cabeças rachadas e saradas com folhas de videira molhadas. Ir nadar ao rio, explorar todos os recônditos do caminho, afagar os cavalos da quinta e dar-lhes, a medo, uma maçã, tomar banho nu no rio, saltar de pedra em pedra molhada e com musgo da represa, atirar folhas ao rio e ver quais as que chegavam em primeiro lugar, ficar com os olhos vermelhos e a pele encorrilhada das horas passadas na água. Atalhar caminhos por caminhos desconhecidos, fugir de cães e de velhos mal encarados, ouvir insultos por apenas tirar um cacho de uvas ainda mal tingidas de vermelho, levar picadas de abelhas, fazer de conta que ouvia a professora enquanto a mente vagueava nos mundos das naves que desenhava, pintar a cara com o marcador cor-de-laranja para ter sardas, ser amigo de todos, andar à luta com putos de outros lugares, cair no chão em terra e pedra e ficar com os joelhos abertos, que não sangravam pela crosta de terra que se lhes colava, não chorar para não magoar o orgulho enquanto a funcionária nos limpa a terra e pedras dos joelhos e os colegas se riem às escondidas e fazer de conta que a tintura de iodo é mercúrio… Olhar para o céu, ver nuvens e não pensar que um dia poderíamos olhar para o céu com a preocupação dos gases nocivos, respeitar tudo e todos, lutar e sanar tudo com a troca de uma folha de couve para parar o sangue que escorre do nariz, andar de joelhos empurrando carrinhos em caminhos de terra e imaginar mundos novos de possibilidades em que o denominador é, sempre, a amizade. O orgulho e prazer de ter um carrinho novo, um iogurte ao domingo, o colo dos pais nas noites de Inverno e trovoada em que a electricidade fugia durante dias. O barulho das tonas dos eucaliptos nos troncos, o cheiro a chuva na terra seca, a vizinha aos gritos “já há luz! Já há luz!”, os gatos a dormir aos pés, as cobras a sibilar nas silvas, os pessegueiros selvagens e a pedreira desactivada onde fazíamos as nossas guerras das estrelas, justiceiros, tom sawyers, conans, três mosqueteiros, jangadas que se afundavam em vinte centímetros de água, deitar de barriga para o ar no musgo frio e sonhar alto, que idade irei ter no ano 2000? As chávenas de café negro, a boroa, a cebola e o sal enquanto as roupas secavam por cima da lareira, dividindo o espaço com os presuntos, o fontanário, as corridas de caricas, as gotas de cera ou cascas de laranja nas caricas, as pistas de terra, jogar à rodinha (confia, confia!), consertar todos os furos na bicicleta, inventar nomes para as árvores, conhecer cada milímetro do sonho, olhar nos olhos nos amigos e rir apenas porque nos apetecia, ver o corpo crescer, ver tudo crescer, sentar no muro e ver o tempo passar… As histórias têm o seu próprio rumo, podemos sempre orientá-las, mas a força do seu leito acaba por prevalecer, sulcando caminhos que pensávamos já nem os ter. Não sei que assomo de imaginação me leva a visitar locais do coração. Fico perplexo ao ver a quantidade de episódios e filmes que guardo, ainda mais com a miríade de possibilidades que as histórias assumem, com a vontade de passar a noite aqui, a dar vida às personagens, vê-las saltar de mim para o monitor, dançarem, percorrerem sozinhas todo o portátil, correndo de um lado para o outro, à procura das teclas, das letras e caracteres que necessitam para se perpetuarem ainda que por momentos. É como se gostassem de se ler, de olharem para elas e dizerem: “ah, então é assim que eu me escrevo”, como um retrato que tiramos a nós mesmos com o telemóvel e dizer “se me vissem agora, era assim que me veriam”. Creio que é hora de me deitar, estou apaziguado, calmo, com o coração palpitante e uma vontade de abraçar o mundo, de estar apenas aqui, a sorrir, com a companhia do índice de algumas histórias que tirei de mim e que repousam no sofá, sorridentes, com as pernas a balançar (são pequeninas, não chegam ao chão), com as personagens que formam uma floresta de árvores, em que cada árvore é um amigo, em que por muito que estejam distantes, possuem metros, quilómetros de raízes profundas que se tocam e que partilham o mesmo solo… O amor. Vou levantar-me lentamente, desligar o portátil, ouvir a música até final e ir devagarinho até à cama, para não a acordar, dar-lhe um beijinho no ombro, olhar para a mesa-de-cabeceira e conferir se tenho o caderno e a caneta, não vá o sonho, como muitas vezes, levar-me a outros mundos e outras pessoas, algumas que já não estão entre nós e eu, por não ter onde anotar, esquecer um recado, um outro sonho, uma mensagem ou uma paisagem. Depois deito a cabeça devagar na almofada e fecho os olhos, devagarinho, para não acordar as lembranças que estão na retina e enquanto todas as luzes se acendem e apagam na minha noite eu digo baixinho “sei que muitas das vezes não digo, mas obrigado por este dia”. Deve ser questão de minutos ou horas, até me levantar enquanto outro eu dorme, vir à sala, pegar com carinho nas histórias que deixei no sofá, cujas pernas já não balançam, que me olham com sono e eu digo: “vamos acordar, temos que vos levar a quem se esqueceu de vocês”.

sábado, 13 de junho de 2015

DADORES DE ÓRGÃOS

ANTONIETA DIAS
A investigação médica revolucionou as intervenções terapêuticas e proporcionado a cura de muitas doenças que até há bem pouco tempo o seu tratamento era completamente inacessível.
Os avanços tecnológicos na doação vieram contribuir para a realização de procedimentos terapêuticos de alta complexidade que passam pela doação do sangue (transfusões de sangue e Hemo derivados) e pela doação de órgãos.

O dador é o elemento essencial para que a nobreza deste ato seja exequível sendo a dádiva voluntária, anonima, regular e altruísta.

Para ser um dador de sangue ou de medula óssea tem de estar na faixa etária entre os 18 e 45 anos, ter cinquenta quilos de peso no mínimo, ser saudável e não ter sido transfundido.
Existe um formulário que é necessário preencher para ser avaliado pelo médico e posteriormente ser submetido a alguns testes.
Se não existir nenhuma contraindicação os dados são informatizados e guardados numa base de dados.
É absolutamente necessário manter o anonimato e a confidencialidade dos mesmos.
O CEDACE é a abreviatura de Centro Nacional de Dadores de Medula Óssea, Estaminais ou de sangue do cordão.
Trata-se de um Registo Nacional de Dadores Voluntários de células de Medula Óssea criado em 1955 com o objetivo de responder a doentes que necessitavam de um transplante mas não tinham dador familiar compatível.
Cerca de 80% de todos os doentes tem, pelo menos, um potencial dador compatível.
Como voluntário o dador não é obrigado a ceder os órgãos mas se tiver condições será uma excelente dádiva para quem necessita da sua ajuda.
Porém, é compreensível que o potencial dador tenha dúvidas e muitas vezes hesite sobre o procedimento a adotar, pelo que deve ser esclarecido para poder decidir com segurança.
Importa ainda referir que todos os procedimentos médicos que envolvam a doação são cobertos pelo subsistema de saúde do doente, assim como as viagens ou outros custos não médicos.
Apenas poderão ser imputados os tempos que necessita despender no processo de doação
A medula óssea recupera rapidamente sendo por isso possível fazer mais do que uma dádiva
O Decreto -Lei n. 83/2013 De 24 de Junho, visa assim, criar o seguro obrigatório do dador de sangue ou candidato a dador de sangue previsto na Lei n.37/2012, de 27 de Agosto, que aprovou o Estatuto do Dador de Sangue que prevê o direito ao seguro do dador, por parte do dador ou candidato a dador de sangue.

Sem este elo da cadeia não é possível tratar os doentes que dela precisam.
Com base nos elementos fornecidos pela organização mundial de saúde a percentagem de dadores de sangue ideal para um país estará compreendido entre 3 e 5%.
Existem algumas exigências no recrutamento dos dadores, sendo que para ser admitido como um potencial dador em primeiro lugar é necessário que a pessoa tome a decisão de querer ser dador e se disponibilize para tal.
É exigido ao potencial dador a comprovação e demonstração de ser saudável.
Porém outros dados deverão estar incluídos nos requisitos exigíveis, que passam por uma consulta com recolha de uma história clinica e observação medica detalhada que permitam validar as suas capacidades físicas e psicológicas bem como o preenchimento de um questionário no qual o dador terá de responder com sinceridade às questões aí constantes.

Este primeiro pilar é determinante para avançar para a fase seguinte onde se fará o despiste das doenças (HIV/II, VHC, VHB, contaminação bacteriana), que possam colocar em risco os pacientes que irão ser submetidos às transfusões ou transplante.

O risco existe é potencial mas residual, pois a transfusão de componentes sanguíneos e transplante de órgãos exigem níveis elevados de segurança, que vão desde a colheita até á utilização, obrigando a que todos estes passos sejam efetuados com rigor.
A segurança no processo transfusional implica o envolvimento de vários profissionais (médicos, enfermeiros, farmacêuticos) que direta ou indiretamente irão participar no tratamento.

Cerca de 18,8 % da população portuguesa já deu sangue alguma vez na vida.

O Transplante de Medula Óssea é a única esperança de cura para muitos portadores de leucemias e outras doenças do sangue


Importa ainda referir que a patologia dos pacientes recetores requer intervenção médica, social, ética e religiosa que não podem ser excluídas da decisão terapêutica.
Por sua vez o paciente deverá ser devidamente esclarecido de forma clara sobre os riscos relacionados, benefícios e alternativas possíveis a fim de poder decidir e preencher o documento do consentimento informado de forma esclarecida e livre.

Para se inscrever como potencial dador basta preencher um inquérito, e dirigir -se aos centros de sangue e de transplantação da área.

A doação revela um gesto altruísta, considerado como um dos maiores atos de bondada entre os seres humanos.
Atualmente existem milhares de pessoas que precisam de ter um transplante para continuarem a viver ou melhorarem a sua qualidade de vida.
Infelizmente as listas de espera para transplante de órgãos e tecidos continuam a aumentar e não se consegue aumentar o número de dadores. A única forma de resolver este problema é ser dador de órgãos e incentivar as pessoas a nossa volta que também o sejam, quanto maior for o numero de dadores de órgãos, maior será o número de vidas que se poderão salvar.

Em suma, a relevância reconhecida pela sociedade e a riqueza humana que representa torna a dádiva voluntária e não remunerada dos dadores como a excelência máxima do ser que está disponível para servir e ajudar a viver e salvar vidas sendo a sua generosidade decisiva na salvação do paciente.

“Sobre o cartão do dador de sangue envie um correio eletrónico para: cartao@ipst.min.saude.pt.
Informações gerais sobre dádivas de sangue envie correio electrónico param: gabrp@ipst.min.saude.ot

O Decreto – Lei n. 294/1990, de 21 de Setembro, no seu aertº.28, determina a criação da medalha de dador de sangue e seu certificado de atribuição, bem como o diploma e o distintivo para galardoar a dedicação inerente à dádiva benévola, anónima e voluntária de sangue.

A Portaria n.º 1075/1991, de 23 de Outubro, com nova redação dada pelo Decreto – Lei n.º 87/1997, de 18 de Abril, define a forma de atribuição destes galardões.

Assim, em função do número de dádivas realizadas, são atribuídos:

Distintivo-5 dádivas

Diploma -10 dádivas

Medalha cobreadas -20 dádivas

Medalha prateada -40 dádivas

Medalha dourada – 60 dádivas

Instituto Português de sangue. I.P.

A Portaria n.º 255/2011, de 1 de Julho-Aprova o novo modelo nacional de dador de sangue e revoga a Portaria N.º 790/2001, de 23 de julho.”



sexta-feira, 12 de junho de 2015

DIA MUNDIAL DA LUTA CONTRA O TRABALHO INFANTIL

GABRIEL VILAS BOAS
O trabalho infantil é um problema de país pobre causado pela hipocrisia e oportunismo dos países ricos. 
Com a globalização, o trabalho infantil saiu da agenda mediática, porque as agências de comunicação e de imagem das grandes marcas fizeram um enorme trabalho de cosmética que varreu o incómodo tema para os programas televisivos de menor audiência.

O problema do trabalho infantil deve ser visto a uma escala global e só terá solução se houver políticas concertadas e coerentes que o ataquem. Não vale a pena dizer que não há crianças a trabalhar em Portugal, quando continuamos a comprar bolas de futebol ou jeans feitos por crianças asiáticas, coagidas por uma situação económica débil que não permite escolha.

Um país pobre, onde falta a água potável, ruas alcatroadas, saneamento básico, instrução primária, cuidados de saúde básicos, não tem autoridade moral nem força política para exigir aos pais dessas crianças que não ponham os seus filhos pequenos a trabalhar, em caso de necessidade extrema. Não há muitos pais que coloquem os seus filhos a trabalhar duramente, antes de terem idade para isso, de ânimo leve.

Para além da destruturação económica do mundo, o problema do trabalho infantil reside no facto dos “intermediários” ficarem com uma parte pornográfica daquilo que pagamos por alguns produtos à venda nas melhores lojas dos países desenvolvidos. 

As grandes marcas mundiais já não sujam diretamente as mãos. Há sempre uma empresa, no meio, que compra sapatos, roupa ou artigos manufaturados exóticos, que trata de “negociar” (na verdade, coagir) diretamente com os cidadãos de vários países subdesenvolvidos em África, na América do Sul ou na Ásia.

Não há uma solução milagrosa, única e rápida para este problema. No entanto, é possível fazermos um pouco mais do que aquilo que fazemos. A começar pela comunicação social, que pode e deve desmascarar as empresas que se aproveitam direta e indiretamente da mão-de-obra infantil. Depois, a opinião pública tem de exercer a sua pressão moral sobre os donos dessas grandes empresas/marcas, para que deixem o comodismo à Pilatos e ajam! 

Agir é cortar nas comissões dos intermediários e pagar mais aos produtores; agir é oferecer trabalho digno aos pais destas crianças; agir é denunciar os regimes políticos corruptos que pedem dinheiro às grandes empresas e lhes oferecem, em troca, o trabalho quase escravo das crianças do seu país; agir é propor pagar em alimentos, medicamentos, vacinas, escolas, professores, junto daqueles que trabalham dez/doze horas diárias e ainda passam fome. Agir é…
O trabalho infantil é muito mais do que um problema de país pobre, é uma nódoa negra na consciência da Humanidade.

BODAS NA REPÚBLICA

Não poderia ter dado bom resultado que a implantação do regime fosse fundada num regicídio. Em nenhum
JOSÉ EMANUEL QUEIRÓS
dos seus três tempos a república foi a casa-mãe dos portugueses e muito menos, agora, se orienta pelo respeito e pelo atendimento aos mais vulneráveis e indefesos. Como se idosos, doentes e famílias da classe média sejam um empecilho de uma casta deslumbrada e afectada pelas alcatifas palacianas, como se essa massa anónima desprezível envergonhasse um alargado grupo de altos interesses que se abastece e lambuza nos peitos mirrados de um velho sistema construído em decadência permanente. Camões é o expoente da nossa pátria-mãe-língua, lembrado pelo oportunismo e pelo pretexto que as comemorações do «10 de Junho» recomendam ao cenário. Não fosse militante de alguma seita partidária, empresário de obras públicas, nem tivesse garantido assento a algum lugar de eleição de acesso às mordomias com que se autopresenteiam, e tê-lo-íamos a passar dificuldades semelhantes aos demais que se obrigam a alistar nas rotas da emigração ou se alinham nas fileiras para a sopa dos pobres. A Portugal escapam-se os ideais do império do Homem, de Bandarra, Vieira, Pascoaes e Pessoa, fundado na realização dos povos com um sentido de futuro e alimentam as gestas com obras reparadoras da existência comum. Falta senso humano movido pela certeza imperativa do atendimento às pessoas, que liberte e desenvergonhe, que inspire confiança, desperte a esperança, construa a paz e restitua ao país a dignidade nas causas essenciais. 

Aquelas que justificam a unidade política pela satisfação de cada um tal como a Lei geral no-las consagra. 

Em mais um dia de Portugal a festa é do baronato e a boda toma proporções cínicas perante a austeridade imposta aos outros. Mais patente se afigura que o país precisa urgentemente de um sobressalto cívico a por termo ao simulacro político representado nos actores em palco e a evitar a legitimação de farsantes caras-de-pau-mandados que usam a política ao serviço de algum polvo a que o povo é alheio.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

DR. ARMANDO DO CONVENTO DE MANCELOS...

DR. ARMANDO DE MANCELOS
O Doutor Armando do Convento, Médico de todos em Mancelos e não só, realizou grande parte da sua
HÉLDER BARROS
nobre e humana atividade médica, até pouco depois de meados do século passado, sendo uma pessoa muito respeitada, por todos os mancelenses de então. Foi um autêntico “Médico do Povo”, numa área geográfica que abrangia os concelhos de Marco de Canavezes, Penafiel, Lousada, Felgueiras, Celorico de Basto e Amarante, num raio de ação com epicentro no Convento de Mancelos. A pé, de comboio, de carro, ou a cavalo, arrancava a qualquer hora do dia e da noite para fazer mais um parto, ou para atender mais uma qualquer enfermidade de alguém.

Era o irmão mais velho do meu bisavô materno e devido à morte prematura deste, foi o Pai que a minha Mãe tanto precisou… Também ele enviuvou prematuramente, ficando com uma filha muito pequenina a seu cargo, a quem eu sempre apelidei de “Tia Júlia”, pois era como se fosse uma Irmã da minha Mãe, tal era a afinidade, cumplicidade e amizade entre ambas.

Com o consultório no Convento de Mancelos, onde residia, a parte mais complicada do seu ofício tinha a ver com as saídas a pé ou a cavalo, por entre caminhos e carreiros de muito difícil transito e com destino a locais ermos e de acessos bastante complicados. A vida profissional do Dr. Armando, passava ainda, por ir uma vez por semana ao Porto, pois era o Médico assistente de uma grande fábrica têxtil da zona da Foz.

Uma dessas saídas ficou famosa na família, quando no início de uma noite de tempestade, o Dr. Armando teve que se deslocar para os lados de Fervença, Celorico de Basto, com o intento de fazer um parto, que se perspetivava bastante difícil. Agarrou no cavalo, com a sua mala de instrumentos médicos e abalou mais um seu criado, por caminhos tortuosos, iluminados pelos relâmpagos, arrastados por ventos muito fortes e “refrescados” pela forte chuva que se abateu no seu caminho. Chegados ao seu destino, o parto lá se efetuou com grande dificuldade, mas com final feliz. No regresso, ensopados, cansados, sem dormir, acabaram por se perderem, por caminhos e atalhos. Após muitas horas a lutarem contra chuvas e ventos, lá chegaram à então Vila da Lixa e, reconhecendo o local, o criado do Dr. Armando exclamou: “Sr. Doutor Armando, já chegamos a terras de Portugal”, o que naturalmente provocou uma enorme gargalhada de alívio, aos dois companheiros desta penosa, mas bem sucedida jornada.

Quando chegavam amostras de medicamentos, o Dr. Armando lá arrancava para os lados de Nogueira, então uma zona bastante pobre da Freguesia de Mancelos, no sentido de distribuir os medicamentos por quem mais precisava, além de prestar os cuidados de saúde aos mais necessitados, sempre de uma forma voluntariosa e gratuita.

A última montada que teve, tratava-se de uma égua bastante brava, que o impeliu muitas vezes para o chão, provocando-lhe algumas mazelas, acabando por ter que se desfazer dela, deixando de poder realizar os seus percursos a cavalo, a que não seria estranho, concomitantemente, o adiantado da idade, deste médico humanista, que nunca virava a cara à luta, no cumprimento da sua nobre e difícil missão.

Por entre todas as histórias, existe uma bem comovente que, por envolver uma família da freguesia, da qual ainda existem descendentes vivos, me vou abster de nomear. O Dr. Armando acabava de fazer mais um parto muito difícil e, passados dois meses, a jovem Mãe acabou por falecer. Como se sabe as taxas de mortalidade infantil e de complicações pós-parto para as mães eram muito elevadas, fruto da falta de condições higiénico-sanitárias e instrumentais adequadas a um parto com as mínimas condições de higiene note-se que a grande parte dos partos ocorria no domicilio das parturientes e o acompanhamento antes e depois do parto, eram os possíveis à data. Perante a situação de um bebé sem o acompanhamento de uma Mãe, o Dr. Armando não descansou enquanto não arranjou uma Senhora na freguesia que, substituísse a Mãe biológica, na medida em que tal é possível. Um Médico num meio rural tinha uma função que ia muito além da prática da medicina: conselheiro, psicólogo, assistente social, etc.

Em tão poucas linhas é impossível dar sequer uma ideia do espírito de missão e de dedicação do Dr. Armando à freguesia de Mancelos e localidades adjacentes. Também não se pretende louvar uma atitude epitetada por alguns complexados da esquerda de “veludo”, como “assistencialista”, deste grande Homem; mas antes, relevar um espírito de missão inexcedível, com os parcos meios existentes naquela altura, em Portugal. Ao contrário do que sucede hoje em dia, os médicos não acabavam as suas carreiras, ricos monetariamente, mas, se calhar, com uma valorização humana e consciência do dever cumprido, muito superiores.

Que fiquem a saber os mestres da toponímia locais, movidos por interesses mais imediatos e mesquinhos, que o Dr. Armando do Convento foi um Homem simples, em que a sua nobre missão se sobrepôs sempre, aos seus interesses pessoais, qual “João Semana” de Mancelos!..

quarta-feira, 10 de junho de 2015

DIA DE PORTUGAL

GABRIEL VILAS BOAS
E se Portugal estivesse para acabar? Como reagiríamos? O que, verdadeiramente, poderíamos fazer? Afinal, que sentimentos nos unem a Portugal?

Por vezes, penso que grande parte de nós reagiria com a habitual resignação, que Guterres tão bem caracterizou: “É a vida!” Haveria também aqueles que fariam contas aos seus proventos pessoais: “Ai sim?! Se calhar é o melhor… E quem nos comprou?”

Mas a verdade é que também existiriam alguns milhões que sofreriam imenso. Uma dor profunda e lancinante de se perderem de si e na perda reconhecerem o grande amor de toda a vida. 

É provável que houvesse também um punhado de heróis anónimos que lutassem loucamente por impedir o fim. Talvez não fosse o suficiente, talvez fosse apenas comovedor… 

Muitas vezes, pressinto o quanto manietados estamos. As fronteiras parecem apenas uma linha no mapa, num tempo em que, descaradamente, se oferece a nacionalidade portuguesa no mercado negro a quem tenha uns dólares ou euros para a comprar. As empresas que habitam o nosso território já não são nossas, apesar do nome, apesar dos trabalhadores… 

É tão triste ver como os nossos endeusados empresários criaram tantos prejuízos nas empresas que herdaram dos pais, que, agora, as tentam empurrar/vender para as mãos angolanas de Isabel dos Santos ou para os comunistas mais capitalistas do planeta – os chineses – para fazer mais uns milhões que torrarão em Nova Iorque, Londres ou Paris, sem pudor algum.

Esses não amam Portugal. Não amam as gentes do Douro, do Ribatejo ou do Alentejo, dispensam a nossa língua e preferem o inglês; acham um horror fazer férias em Portugal e nunca valorizam os nossos rios, o nosso solo, os nossos costumes.

Tenho muita pena que não entendam o orgulho de ser português, plasmado nas canções de Mariza ou nos versos de Camões, nas fábricas centenárias que resistiram a todas as crises e mudanças, na língua falada por duzentos milhões de pessoas, na saudade dos emigrantes, na tristeza daqueles que partem… tenho muita pena, porque, infelizmente, são eles que têm o dinheiro e o poder. E eles não o sabem usar porque não nos amam!



Portugal não vai acabar! Ainda que agora apenas pareça mais um invólucro sem conteúdo, vamos resistir como sempre resistimos. Acredito muito nas novas gerações. Talvez porque nunca viveram o mito do “estrangeiro é que é bom”, eles amarão genuinamente o que é nosso e voltarão a encher o invólucro, resgatando o país dos seus avós, que um dia os pais puseram no prego!

terça-feira, 9 de junho de 2015

MARCHAS POPULARES AMARANTE 2015


Desde o ano passado que Amarante retomou as tradicionais Marchas Populares, outrora Marchas Luminosas, que decorrem, como habitualmente, no último dia de festa, domingo à noite.
A apresentação das Marchas foi feita no Largo do Campo da Feira, onde centenas de pessoas se sentaram nas bancadas montadas para o evento.
De seguida, apresenta-se um pequeno excerto do desfile, com algumas das freguesias participantes: Bustelo, Carvalho de Rei e Carneiro; Telões; Madalena, Cepelos e S.Gonçalo; Freixo; Gondar; Vila-Meã; Louredo; Vila-Chã; Ansiães e Padronelo.


Imagens obtidas a partir de câmara de telemóvel *(verifique se está a ver o vídeo em HD)
DR Ricardo Pinto