quarta-feira, 27 de abril de 2016

TESTAMENTO VITAL

SARA HERDEIRO 
Esta semana, mais de oito mil pessoas fazem chegar à Assembleia da República uma petição pautada pela defesa da despenalização da morte assistida, isto é, pela defesa da eutanásia. Um assunto que me fez lembrar de outro, de um instituto existente e regulado pela lei portuguesa mas que poucas são as pessoas que sabem do que se trata – o Testamento Vital.

O Testamento vital não é o testamento comummente falado e que consiste em regular a partilha dos bens para depois da morte do testador da forma que este deseja. O Testamento vital é completamente diferente.

É regulado pela Lei n.º 25/2012, de 16 de Julho, e consiste num documento onde o declarante manifesta antecipadamente o tipo de tratamento ou os cuidados de saúde que pretende ou não receber no caso de, por qualquer razão, se encontrar incapaz de expressar a sua vontade pessoal e autonomamente.

Este instrumento permite também a nomeação de um ou mais procuradores de cuidados de saúde, atribuindo-lhes poderes representativos para decidir sobre os cuidados de saúde a receber, ou a não receber, quando a pessoa em causa se encontre incapaz de expressar a sua vontade pessoal e autonomamente.

O Testamento vital pode ser feito por qualquer pessoa maior de idade e com capacidade plena, isto é, que não se encontre interdita ou inabilitada por anomalia psíquica e se encontre capaz de dar o seu consentimento consciente, livre e esclarecido.

Este documento é válido por cinco anos a contar da sua assinatura, podendo no entanto ser revogado ou modificado pelo seu autor a qualquer momento.

Podem constar deste tipo de Testamento disposições que expressem a vontade clara e inequívoca do outorgante, nomeadamente:

• Não ser submetido a tratamento de suporte artificial das funções vitais;

• Não ser submetido a tratamento fútil, inútil ou desproporcionado no seu quadro clínico e de acordo com as boas práticas profissionais, nomeadamente no que concerne às medidas de suporte básico de vida e às medidas de alimentação e hidratação artificiais que apenas visem retardar o processo natural de morte;

• Receber os cuidados paliativos adequados ao respeito pelo seu direito a uma intervenção global no sofrimento determinado por doença grave ou irreversível, em fase avançada, incluindo uma terapêutica sintomática apropriada;

• Não ser submetido a tratamentos que se encontrem em fase experimental;

• Autorizar ou recusar a participação em programas de investigação científica ou ensaios clínicos. 

No entanto, há limites aos Testamentos vitais, sendo juridicamente inexistentes aqueles:

• Que sejam contrários à lei, à ordem pública ou determinem uma atuação contrária às boas práticas;

• Cujo cumprimento possa provocar deliberadamente a morte não natural e evitável, tal como prevista no Código Penal que pune o crime de homicídio a pedido da vítima (artigo 134º) e o crime de incitamento ou ajuda ao suicídio (artigo 135º);

• E em que o outorgante não tenha expressado, clara e inequivocamente, a sua vontade. 

Em Portugal, a entidade responsável pela receção, registo, organização e atualização, quanto aos cidadãos aqui residentes, da informação e documentação relativas a estes documentos é o Registo Nacional do Testamento Vital (RENTEV).

De salientar, no entanto, que o registo no RENTEV tem valor meramente declarativo, pois os Testamentos vitais não registados no RENTEV são igualmente eficazes, desde que formalizados de acordo com a Lei.

ABRIL, MÊS INTERNACIONAL DA PREVENÇÃO DOS MAUS TRATOS NA INFÂNCIA

PAULO SANTOS SILVA 
Abril é o mês Internacional da Prevenção dos Maus-Tratos na Infância. 

Um problema que une várias instituições na campanha de alerta para a prevenção dos maus-tratos a que muitas crianças e jovens ainda são sujeitos. 

Sob o lema “ A melhor forma de tratar o problema é impedir que aconteça”, esta campanha visa alargar a intervenção sobre este problema a outras áreas da sociedade e sublinha o alerta que os maus tratos existem e que têm de acabar. 

Têm sido várias as iniciativas desenvolvidas ao longo deste mês, um pouco por todo o país, chamando à atenção para uma problemática que urge irradiar da nossa sociedade. Esta problemática, que assume as mais variadas formas (algumas das quais já abordadas nestas páginas), não escolhe idade, meio socioeconómico, meio geográfico ou género. Todos nós, certamente, já nos confrontamos com situações em que de alguma forma os direitos das crianças e jovens não foram salvaguardados. Estes mesmos direitos, de tão importantes que são, mereceram a atenção das nações do mundo inteiro ao adotarem por unanimidade, em 20 de Novembro de 1989, a Convenção sobre os Direitos da Criança (CDC), documento que enuncia um amplo conjunto de direitos fundamentais – os direitos civis e políticos, e também os direitos económicos, sociais e culturais – de todas as crianças, bem como as respetivas disposições para que sejam aplicados. 

Esta Convenção, não é apenas uma declaração de princípios gerais; quando ratificada, representa um vínculo jurídico para os Estados que a ela aderem, os quais devem adequar as normas de Direito interno às da Convenção, para a promoção e proteção eficaz dos direitos e Liberdades nela consagrados. Este tratado internacional é um importante instrumento legal devido ao seu carácter universal e também pelo facto de ter sido ratificado pela quase totalidade dos Estados do mundo (192). Curiosamente, apenas dois países, os Estados Unidos da América e a Somália, ainda não ratificaram a Convenção sobre os Direitos da Criança. Dá que pensar…

Portugal ratificou a Convenção em 21 de Setembro de 1990.

A Convenção assenta em quatro pilares fundamentais que estão relacionados com todos os outros direitos das crianças:

• a não discriminação, que significa que todas as crianças têm o direito de desenvolver todo o seu potencial – todas as crianças, em todas as circunstâncias, em qualquer momento, em qualquer parte do mundo.
• o interesse superior da criança deve ser uma consideração prioritária em todas as ações e decisões que lhe digam respeito.
• a sobrevivência e desenvolvimento sublinha a importância vital da garantia de acesso a serviços básicos e à igualdade de oportunidades para que as crianças possam desenvolver-se plenamente.
• a opinião da criança que significa que a voz das crianças deve ser ouvida e tida em conta em todos os assuntos que se relacionem com os seus direitos.

A Convenção contém 54 artigos, que podem ser divididos em quatro categorias de direitos:
• os direitos à sobrevivência (ex. o direito a cuidados adequados)
• os direitos relativos ao desenvolvimento (ex. o direito à educação)
• os direitos relativos à proteção (ex. o direito de ser protegida contra a exploração)
• os direitos de participação (ex. o direito de exprimir a sua própria opinião)

Para melhor realizar os objetivos da CDC, a Assembleia Geral da ONU adotou a 25 de Maio de 2000, dois Protocolos Facultativos:
• Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança relativo à venda de crianças, prostituição e pornografia infantis (ratificado por Portugal a 16 de Maio de 2003);
• Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança relativo ao envolvimento de crianças em conflitos armados (ratificado por Portugal a 19 de Agosto de 2003); 

Em Portugal, o modelo de proteção de crianças e jovens em risco, em vigor desde Janeiro de 2001, apela à participação ativa da comunidade, numa relação de parceria com o Estado, concretizada nas Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ), capaz de estimular as energias locais potenciadoras de estabelecimento de redes de desenvolvimento social. As Comissões de Proteção de Menores, criadas na sequência do Decreto - Lei nº 189/91 de 17/5 foram reformuladas e criadas novas de acordo com a Lei de Promoção e Proteção aprovada pela Lei nº 147/99, de 1 de Setembro.
Aqui se definem as Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) como instituições oficiais não judiciárias com autonomia funcional que visam promover os direitos da criança e do jovem e revenir ou pôr termo a situações suscetíveis de afetar a sua segurança, saúde, formação, educação ou desenvolvimento integral.

Certamente que já terá visto associado a este tipo de campanhas, um laço azul. Vai agora ficar a saber o porquê da escolha desta cor.

A campanha do Laço Azul (Blue Ribbon) iniciou-se em 1989, na Virgínia, E.U.A. quando uma avó, Bonnie Finney, amarrou uma fita azul à antena do seu carro despertar a atenção das pessoas. Perante a curiosidade de muitos, Bonnie Finney contou que sua neta foi vítima de violência. “E porquê azul? Porque apesar do azul ser uma cor bonita, Bonnie Finney não queria esquecer os corpos batidos e cheios de nódoas negras dos seus dois netos. O azul, que simboliza a cor das lesões, servir-lhe-ia como um lembrete constante para a sua luta na proteção das crianças contra os maus-tratos”. 

Foi assim que, um pouco por todo o mundo, se designou o mês de Abril, como o mês dedicado à Prevenção dos Maus-Tratos Infligidos a Crianças e Jovens.

Termino, desafiando-o a ver este pequeno vídeo do Conselho da Europa, que deveria ser mostrado e explorado nas escolas, junto de todas as crianças.

BREXIT

RUI SANTOS 
Vai ter lugar a 23 de Junho um referendo no Reino Unido para saber se este deve abandonar, ou não, a União Europeia. A consulta popular surge em virtude do primeiro-ministro inglês, David Cameron, o ter prometido durante a campanha eleitoral para as legislativas ocorridas o ano passado. Foi essa a forma que Cameron encontrou para satisfazer parte dos parlamentares do seu próprio partido – Partido Conservador –, assim como para evitar a ascensão do UKIP – Partido da Independência do Reino Unido – à custa do eleitorado conservador.

As principais questões que irão moldar a decisão dos eleitores dizem respeito às relações comerciais, administrativas e orçamentais; política externa e de segurança; estado social e imigração.

Embora os defensores da saída do Reino Unido pertençam maioritariamente aos conservadores e aos independentistas também no Partido Trabalhista e no norte-irlandês Partido Democrático Unionista existem sectores que defendem o abandono do projecto europeu. A liderar o «não» encontra-se Boris Johnson, o polémico conservador e presidente da câmara de Londres. Por seu turno, os defensores da continuação na União Europeia provêem principalmente das restantes alas dos conservadores e trabalhistas, do Partido Nacional Escocês, do Partido Galês e dos Liberais Democratas. O «sim» tem o condão de juntar os líderes conservador e trabalhista, respectivamente, David Cameron e Jeremy Corbyn.

Caso o «não» vença, o Reino Unido poderá adoptar um estatuto semelhante ao da Noruega – um membro do Espaço Económico Europeu que paga a maior parte dos custos regulares de adesão à União Europeia para ter privilégios comerciais – ou escolher um modelo idêntico ao da Suíça – baseado em acordos bilaterais de comércio mas não de serviços. Outra possibilidade será ficar sozinho na Organização Mundial do Comércio. Contudo, não se pode descartar a hipótese de o Reino Unido criar um modelo totalmente novo para si. Em qualquer caso, terá que estabelecer novos acordos comerciais com países não pertencentes à União Europeia e isso demoraria vários anos. Não penso que a economia britânica conseguisse aguentar todo esse tempo. Seria uma tolice o Reino Unido abandonar um mercado de 500 milhões de consumidores. Qual seria a alternativa? Por muito que custe a bastantes britânicos, o império colonial é uma coisa do passado e a ordem global económica é implacável para quem não tem escala em termos económicos. Quando no seio da União Europeia, o Reino Unido negoceia com os Estados Unidos da América, a China ou o Japão, fá-lo como membro de uma economia que vale quase 20 por cento do PIB mundial. Caso tenha que negociar individualmente, o poder negocial será bem diferente. Isso ficou bem demonstrado na recente visita a Inglaterra de Barack Obama. O presidente norte-americano deixou o aviso de que os Estados Unidos estão mais interessados num acordo de comércio com a União Europeia do que em negociar com países isolados.

Seria um enorme erro o Reino Unido abandonar a União Europeia. A sua economia iria cair e o seu papel em termos geopolíticos diminuiria igualmente. O Reino Unido representa menos de 1 por cento da população mundial e menos de 3 por cento do PIB global. Num mundo cada vez mais interdependente, fazer vingar uma voz enfraquecida não parece uma solução viável. Além disso, a libra seria mais volátil, os fluxos comerciais sofreriam desvios ou abrandamentos, e o investimento estrangeiro esmoreceria.

A imigração é um dos temas mais recorrentes nos debates internos. Os partidários do «não» partilham a opinião de que os imigrantes vivem à custa do estado social e que corrompem os valores britânicos. Infelizmente, não lhes ocorre que a livre circulação de pessoas na União Europeia tem sido vantajosa para a economia, contribui para o enriquecimento cultural e permite aos cidadãos do Reino Unido oportunidades para trabalhar e estudar do outro lado do Canal da Mancha. Para se ter uma noção mais precisa disso, há um milhão de britânicos que vivem em Espanha, 330 mil em França e na Irlanda, 65 mil em Chipre, etc. Por seu turno, a maioria dos cidadãos da União Europeia que vive no Reino Unido são jovens e qualificados. A chamada taxa de «não-actividade» – que abrange reformados, estudantes e pais que ficam em casa, bem como os desempregados – é de 30 por cento. A mesma taxa para a população do Reino Unido é de 43 por cento. Um outro dado importante é o facto de 32 por cento dos recém-chegados terem cursos superiores em comparação com 21 por cento da população nativa.

Não devo deixar de referir o tratamento que o referendo no Reino Unido está a ter por parte das instituições europeias. Aquando do referendo na Grécia sobre a permanência na zona euro, foi sempre dito que a União Europeia não previa a saída de um dos seus membros e que caso tal ocorresse, significaria o fim do projecto europeu. Não deixa de ser curioso que no caso do Reino Unido essa ideia não tenha sido ainda insistentemente veiculada pelos líderes europeus. Não é bom para a Europa e para o prestígio dos seus governantes que se possa pensar que existem diferentes formas de tratar um mesmo assunto mediante o peso económico de cada país. Se os britânicos decidirem sair da União Europeia esta terminará? Não, não vai terminar, tal como não terminaria no caso grego. A «chantagem» feita no caso grego e o «assobiar para o lado» no caso britânico é inadmissível e só vem reforçar a ideia de que a Europa carece de líderes que a saibam pensar e compreender. Apesar de não ter ocorrido com um país soberano, mas sim com uma sua parte, em 1985 a então Comunidade Económica Europeia permitiu que a Gronelândia – parte integrante do Reino da Dinamarca mas com uma autonomia muito grande –, a abandonasse. Isto é, actualmente existe um país membro da União Europeia – Dinamarca – que tem uma parte do seu território – Gronelândia – fora da União Europeia. Desde que haja vontade de ambas as partes é sempre possível prosseguir o sonho que Schuman teve para a Europa.

Era importante que a União Europeia fizesse um esforço para mostrar ao Reino Unido que o quer como membro. É claro que se pode sempre alegar que a União Europeia, ou os governos dos vários países que a compõem, não deve interferir na política interna de um Estado-membro. Contudo, o que chanceler alemã Angela Merkel fez no caso grego ao atirar para cima dos gregos a responsabilidade de aniquilarem a União Europeia, caso votassem pela saída da zona euro e consequentemente da União, foi precisamente uma ingerência na decisão de um povo. Como tal, seria extremamente proveitoso para a Europa que esta mostrasse aos cidadãos do Reino Unido o quanto eles são importantes para o destino da Europa e dos europeus.

Finalmente, não deixa de ser interessante ver o esforço que Marine Le Pen, o nome mais sonante da extrema-direita europeia, está a realizar para tentar promover a desagregação da União Europeia. Marine apoiou o governo de esquerda de Tsipras esperando que a Europa virasse costas aos gregos caso este decidissem pelo abandono da moeda única. Agora vai fazer uma visita a Inglaterra onde fará campanha pelo «não» junto de um eleitorado maioritariamente de direita – parte dele não se revê nos ideais da líder da Frente Nacional francesa. Não tenho dúvidas que para quem acredita na democracia e no sonho europeu, votar contra o lado que Marine Le Pen apoia é a única decisão possível. Foi assim com os gregos e estou convicto que também o será no Reino Unido para bem de todos os europeus.

terça-feira, 26 de abril de 2016

AS MINHAS REVOLUÇÕES

REGINA SARDOEIRA
Duas canções - senha foram o sinal de que alguma coisa mudara em Portugal. Foi há 42 anos.

A minha memória desse dia é fragmentária. Mas fui uma, entre muitos, que viu abrir-se, num surto inesperado, um mundo novo, de todo ignorado e nunca suspeitado. 
Lembro-me que estava um dia de sol - aproximadamente como hoje - e, na mercearia da rua onde vivia, falava-se em "golpe de estado". 
Fui para a escola como nos outras dias - era quinta-feira - e, passado muito pouco tempo, a direcção entendeu que os acontecimentos exigiam que alunos e professores fossem para casa. A escola fechou.

Naquele época, as notícias corriam de um modo lento e, sujeitas à censura até aquele momento, demorou algum tempo até que as pessoas absorvessem o que havia acontecido. 
Eu vi, de repente, um mundo novo a abrir-se à minha frente. O impensável, não porque algum indício mo fizesse supor, mas porque nenhum sinal me havia sido dado antes, nasceu em cada lugar, espalhou-se pelas ruas, encheu de cor as paredes e de gente as ruas e praças. Bruscamente, todos tinham um pedido, um desejo, uma reclamação a fazer; e, extraordinariamente, todos achavam que chegara, por fim, o tempo de os obterem. 
Durante algum tempo, não passei de observadora entusiasta do que estava a passar-se. Precisei de investigar, de ouvir, de ler muito, para perceber o tempo em que vivera até aí e que posição tomar daí em diante.

É curioso pensar, hoje, que vivera os meus primeiros anos numa espécie de sub-ditadura fascista, que, a meu modo, lutara contra alguns sinais dela, vivamente presentes na minha educação, sem nunca ter ouvido pronunciar a palavra "ditadura" ou a palavra "fascismo" .

Como se de uma explosão se tratasse, abriram-se, perante os meus olhos, duas realidades - a de antes, em que vivera oprimida, sem saber a que ponto essa opressão era a marca de todo o sistema, e a nova, em que um mundo ignoto se abria, abrindo-me novos desafios.

De facto, desde os dez anos de idade que eu levava a minha existência num instituto do estado, bem fechada, sem qualquer direito ou liberdade, sujeita a um regulamento desmesurado, em disciplina e restrições, rodeada por pessoas iguais a mim e por outras, maiores de idade, que nos vigiavam até limites, hoje incompreensíveis. Vivia ali e revoltava-me, sentia que a vida teria que ser algo de muito diferente daquilo que me me era oferecido, entre aquelas quatro paredes. Muito mais tarde, depois de perceber que vivi numa ditadura dentro da ditadura, que o ar de fora, parecendo mais puro, tinha todos os miasmas da atmosfera da minha clausura, o 25 de Abril revelou - me dois importantes segredos.

O primeiro, e mais imediato, foi perceber que se levantavam, para todos, novos sóis e se desdobravam novos horizontes. O segundo, tardio, foi a consciência de que, muito antes do 25 de Abril de 74, eu dera voz e corpo à minha revolução.

Passei quase sete anos naquela casa-cárcere, todos os dias escrutinada, reprimida até aos mais ínfimos pormenores quotidianos. Durante esse tempo, obrigaram-me a vestir de azul-escuro, a usar os cabelos curtos ou apanhados, a caminhar pelas ruas em formatura, de três a três. Liam a minha correspondência - a que escrevia e a que me era destinada - vasculhavam os meus armários - aliás, sempre abertos e identificados com o meu número - obrigavam-me a rezar o terço todos os dias e a estudar horas a fio sem qualquer hipótese de intervalo. E havia os castigos, se acaso o regulamento fosse beliscado - e era comer de pé, ficar sem recreio (se o havia), ir para o canto da sala, etc. 
Fui a porta-voz de um estandarte de rebelião, a inspiradora de outras rebeliões, fiquei à margem de todas aquelas que, sincera ou hipocritamente, se deixavam reprimir.

Não tive poder para eliminar o Instituto, nem para reformular as suas leis internas - espelho do estado que lhe dava o ser - mas fui educadamente "convidada a sair" - um eufemismo para expulsão - com o argumento de que eu era muito inteligente e criativa mas não me adaptava ao regulamento, sendo que os meus actos influenciavam as outras prisioneiras.

Portanto, com dez, onze, doze...e até aos dezasseis anos, apercebi-me da ditadura extrema do regime do meu colégio e fiz a revolução. Que admira que alguns anos depois tenha ficado deslumbrada com os novos tempos que Abril anunciava? Que admira, pois, que a minha cor eleita, na política, tenha sido sempre o vibrante vermelho?

Por isso, celebro o 25 de Abril, deste lado da barricada. Pois eu sei, hoje, que a democracia abriu largos portões, para todos, há 42 anos, mas que este mesmo sistema se foi desfigurando, criando outras elites, subjugando muitas minorias ( tornadas, aos poucos, maioria) e portanto, esses portões escancarados foram cerrando lentamente o tamanho da sua abertura. 
Com dez anos, percebi o sentido da minha luta e tornei-me sagaz; hoje sou muito experiente, já que consegui associar as duas vivências. 

Sendo assim, vejo à saciedade que o mundo em que vivemos se dividiu em múltiplas hostes, em guerra, esquecendo-se, por oportunismo, que "o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos" e ainda que "a cada um (deve ser dado) segundo as suas capacidades, a todos, segundo as suas necessidades". Estou a citar Karl Marx.

VARIZES, MAIS DO QUE UM PROBLEMA ESTÉTICO

MARIA DO CÉU OLIVEIRA 
As varizes afectam milhares de pessoas, e dependendo da sua gravidade causam várias manifestações que interferem de forma significativa com a qualidade de vida.

O aparecimento desta doença deve-se essencialmente a alterações do funcionamento das veias, onde as válvulas deixam de funcionar.

Para que se possa entender o que causa as varizes, e quais as suas potenciais complicações, é fundamental conhecer os mecanismos de funcionamento das veias.

O nosso sangue é transportado por dois tipos de vasos: artérias e veias.
A artéria é o vaso que transporta o sangue rico em oxigénio para as diferentes estruturas do corpo, nutrindo órgãos e tecidos.

A veia por sua vez, transporta de volta o sangue para o coração, e pulmões, para que este possa receber novamente o oxigénio.

Para que o sangue possa voltar ao coração, as veias possuem válvulas venosas que impedem seu refluxo, permitindo que o sangue siga sempre na mesma direcção. Caso essas pequenas válvulas falhem, o sangue reflui e causa a dilatação das veias devido ao aumento do volume sanguíneo.

As varizes aparecem com mais frequência nos membros inferiores: pés, pernas e coxas, porque no processo de retorno de sangue venoso dos membros inferiores para o coração existe um trabalho acrescido contra a gravidade, o que dificulta este percurso.

Apenas o trabalho de bombeamento do coração não é suficiente, e se por qualquer motivo as válvulas deixarem de funcionar, vai causar uma incapacidade do sangue de prosseguir em direcção ao coração.
Existem diversas causas para o aparecimento de varizes. Uma delas é fraqueza congénita das paredes das veias, que as torna facilmente dilatáveis pela pressão natural do sangue.

 A exposição ao calor, o sedentarismo, permanecer muito tempo de pé, o excesso de peso, o tabagismo, traumatismos dos membros inferiores, a gravidez são outros factores que predispõem o seu aparecimento. O próprio processo de envelhecimento é um fator de agravamento deste problema.

As varizes, podem ser uma das manifestações da chamada insuficiência venosa crónica.

Quando várias veias se tornam insuficientes, o sangue começa a ficar retido nos membros inferiores, causando desconforto, sensação de peso, dor local, escurecimento da pele e, em casos avançados, aparecimentos de úlceras e infecções de pele. Pode ocorrer o aparecimento de pequenos trombos denominados de tromboflebites.

A dor é a principal queixa, manifestando-se através da sensação de pernas pesadas e cansadas, cãibras e comichão. Pode ainda verificar-se edemas, que se intensificam ao final do dia ou quando ocorre uma exposição prolongada ao calor.

É necessário adoptar medidas preventivas para evitar o aparecimento desta situação.

Para isso deve-se evitar:
 A exposição a ambiente muito quente e a utilização de roupas muito apertadas que dificultem a circulação sanguínea.
 Permanecer longos períodos em pé, ou sentado com as pernas cruzadas.
O excesso de peso, e hábitos tabágicos.
A utilização de água muito quente durante o banho.

 É recomendado:
 A prática de exercício físico, por exemplo caminhadas.
 Hidratar diariamente a pele.
Nos dias mais quentes massajar as pernas com água fresca.
Na praia evitar a exposição prolongada ao calor, optando por caminhar á beira-mar.
Mais que uma questão estética, as varizes representam um problema de saúde que põe em causa a qualidade de vida das pessoas afectadas. A adopção de estilos de vida saudáveis representam a grande aposta na sua prevenção, ou diminuição do seu agravamento. 

BIRD DESPORTO

Análise da Jornada

VASCO VIANA 
Mais uma jornada da Liga Portuguesa de Futebol, na qual os vizinhos da segunda circular, de costas voltadas um para o outro, mas com semelhantes resultados recentes. Luta intensa no acesso à Europa com os candidatos Arouca, Rio Ave, Paços de Ferreira e Estoril e na luta pela permanência onde o Tondela ainda pode sobreviver e União da Madeira e Académica de Coimbra se enfrentam na Madeira na próxima jornada, decisiva para ambos os clubes.

Esperava-se em Vila do Conde, um Rio Ave mais destro nas transições ofensivas e uma das deslocações mais difíceis do Sport Lisboa e Benfica neste final de campeonato. O Rio Ave, apesar de bem organizado a nível defensivo, desiludiu no ataque, praticamente não criando oportunidades de golo. O líder, com um volume de jogo ofensivo menor que o habitual, acabou por marcar e vencer, plasmando no resultado a superioridade que mostrou em campo. Se é verdade que a zona defensiva do SLB continua a funcionar de forma satisfatória, o setor avançado denota uma quantidade menor de protagonismo, de velocidade e de dinâmica. A continuar com o ritmo exibicional recente, caso o seu mais direto opositor na tabela classificativa não perca pontos, os empates estarão sempre em equação. Pizzi rende menos que o habitual, Jonas parece deslocar-se em menor quantidade para espaços recuados, Gaitán diminuiu os desequilíbrios. A equipa encarnada acelerou o jogo no início da segunda parte, mas com duas ou três oportunidades de golo falhadas, o jogo entrou numa fase perigosa de menor intensidade ofensiva. No entanto, quando o adversário não consegue manter por momentos a posse de bola, quando não consegue sair em transição com qualidade, quando alivia frequentemente bolas com pontapé para a frente, não apenas devido à qualidade da pressão adversária mas neste caso principalmente por inoperância técnico-tática do clube nortenho, o golo da equipa que domina o jogo pode surgir. E assim foi, Jiménez, jogador tecnicamente limitado, confinado ao lugar de suplente, ironicamente está interligado às conquistas nacionais e até internacionais do Benfica (golos recentes no final dos jogos do campeonato nacional e pontapé que originou o golo de Gaitán contra o Zenit na Champions League).

O Sporting Clube de Portugal venceu o União da Madeira, confirmando a qualidade de jogo e evolução do seu capitão Adrien. A equipa continua a denotar estar entrosada, bem trabalhada nas suas dinâmicas, com pormenores de apoio ao jogo coletivo deliciosos da parte de João Mário.

O Futebol Clube do Porto venceu em Coimbra, continuando no entanto a denotar dificuldades no seu processo de transição defensiva e uma incapacidade em manter a posse quando se encontra a ganhar contra equipas de menor qualidade. Em ritmo de pré-época continuam a dar-se algumas oportunidades a jogadores como Varela, o qual não parece ter neste momento da sua carreira dimensão de jogo para continuar no clube na próxima época.

Futebol Internacional
Os três grandes da frente do futebol espanhol, todos com dificuldades, venceram os seus jogos. Com o volume de golos marcados nas duas últimas jornadas, Suárez ultrapassou Cristiano Ronaldo, Jonas e Higuain na tabela dos melhores marcadores das ligas europeias, parecendo que apenas o português poderá travar essa liderança. Em Inglaterra, o Leicester venceu de forma categórica, estando a 5 pontos do título e em Itália a Juventus sagrou-se campeã nacional em este domingo, reforçando o estatuto de equipa mais dominadora do futebol transalpino.

Topo
Decido colocar a ênfase positiva da semana desportiva no conceito descentralização desportiva. A equipa açoriana do Fonte Bastardo venceu o Sport Lisboa e Benfica no último e decisivo jogo de consagração do novo campeão nacional de Voleibol. Empatadas a dois jogos ganhos, as equipas encontraram-se no sábado na Luz, e apenas no quinto set e por um parcial apertado da 13 x 15 a equipa da ilha Terceira alcançou a terceira vitória do playoff final que lhe atribuiu o título bastante festejado, como é natural, pelos insulares. Em Futebol, o Desportivo de Chaves e o Portimonense são os principais candidatos à subida na 2ª Liga, podendo assim contribuir para a existência de mais duas zonas geográficas portuguesas (província de Trás-os-Montes e do Algarve) no panorama de equipas da principal liga nacional. As vitórias, os títulos, o acesso a campeonatos mais competitivos com maior volume financeiro envolvido (patrocínios, direitos televisivos e captação de adeptos adversários de visita às cidades investindo nos negócios locais) são pressupostos importantes para o desenvolvimento desportivo e regional.

Excelentes trabalhos de sucesso desportivo são realizados fora dos principais centros urbanos e fora dos principais clubes de referência. DR Sapo

Em Ténis, modalidade com elevado nível de competitividade e de rotação no ranking, destaca-se o acesso ao top 100 do atleta português Gastão Elias após a vitória no torneio de Turim e a vitória de Rafael Nadal no segundo torneio de prestígio da época de terra batida. O espanhol, após conquistar Monte Carlos, venceu o bicampeão Kei Nishikori em Barcelona pelos parciais de 6 x 4 e 7 x5.

Ainda no que se refere a êxitos do desporto nacional, o ciclista Rui Costa, em prova do World Tour disputada em França, terminou em terceiro lugar. O atleta natural da Póvoa de Varzim consagra-se como um top 10 do ciclismo mundial. Ainda longe dos principais favoritos às conquistas que se aproximam nas voltas de Itália, França e Espanha, Froome, Contador e Quintana, seria fantástico que o ciclista da Lampre em alguma de estas prestigiantes competições se aproximasse da segunda vaga de favoritos constituída por Valverde ou Nibali, lutando pelo acesso ao restrito pódio.

A equipa inglesa da Sky continua a dominar o ciclismo internacional. DR Skysports.

Fundo
Com uma prestigiante participação na final-four da UEFA Futsal Cup, o Sport Lisboa e Benfica foi eliminado na meia-final da prova e os atletas lusos Cardinal e Ricardinho representando os espanhóis do Inter Movistar saíram derrotados na final da competição pelos campeões russos do Ugra Yugorsk.

Ricardinho e Cardinal perdem final europeia de Futsal. DR Eurosport.

O Doping volta a assombrar o desporto internacional. Depois dos escândalos do recurso a substâncias ilegais pelos atletas russos, outra figura enfrenta uma possível violação das regras anti-dopagem. O futebolista internacional francês, Mamadou Sakho, foi afastado da equipa titular do Liverpool no início da época devido ao sobrepeso que apresentava. Enfrenta agora um processo de investigação liderado pela UEFA por deteção de substâncias dopantes encontradas em testes de rotina após o jogo da Liga Europa contra o Manchester United realizado em março deste ano. Conjetura-se a possibilidade do atleta ter ingerido involuntariamente elementos proibidos contidos em um produto utilizado para emagrecer (medicamento para aumento do gasto de gordura corporal, consumido para construir tecido muscular e manter controlada a massa gorda do atleta).

Defesa central do Liverpool investigado por recurso a substâncias dopantes. DR Sportsjoe.

Ouro
O motociclista italiano Valentino Rossi (Yamaha) venceu o GP de Espanha em MotoGP de Jerez de la Frontera. The “doctor” superiorizou-se a Lorenzo e ao rival Márquez em prova sempre frequentada pelo entusiástico público português afeto à modalidade.


A lenda do motociclismo continua a dar espetáculo aos fans. DR Foxsports.

Agenda Desportiva Semanal
Destacam-se as seguintes competições nesta última semana do mês de abril:


ü  23 DE ABRIL A 1 DE MAIO - ATP WORLD TOUR 250 DE TERRA BATIDA NO ESTORIL (PORTUGAL)
ü 25 A 27 – ESGRIMA: CAMPEONATO DO MUNDO NO RIO DE JANEIRO (BRASIL)
ü 26 – FUTEBOL: JORNADA 1 DA 1ª MÃO DA MEIA-FINAL DA CHAMPIONS LEAGUE (MANCHESTER CITY X REAL MADRID)
ü  27  – FUTEBOL: JORNADA 2 DA 1ª MÃO DA MEIA-FINAL DA CHAMPIONS LEAGUE (ATLÉTICO DE MADRID X BAYERN DE MUNIQUE)
ü 26 DE ABRIL A 1 DE MAIO – BADMINTON: CAMPEONATO DA EUROPA EM VENDÉE (FRANÇA)
ü 28 – FUTEBOL: 1ª MÃO MEIA-FINAL DA LIGA EUROPA
ü 29 DE ABRIL A 8 DE MAIO – ATP WORLD TOUR MASTER 1000 DE TERRA BATIDA EM MADRID (ESPANHA)
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segunda-feira, 25 de abril de 2016

GUINÉ-BISSAU: A MINHA DECLARAÇÃO DE INTERESSES

Inicio hoje a minha colaboração na BIRD Magazine com uma prévia mas importante declaração de interesses: sou uma apaixonada pela Guiné-Bissau. Explicará isto o facto doravante passar a partilhar convosco numa base quinzenal alguns segredos da riquíssima cultura e da vasta história daquele pequeno país situado na África Ocidental.

Mas conto-vos num primeiro momento como tudo começou.

JOANA BENZINHO
Conheci a Guiné-Bissau em Agosto de 2008 numa viagem que teve tudo para não deixar rasto nem boas memórias. Em plena época de aguaceiros aterrei no meio de uma praga de gafanhotos, já noite alta, no aeroporto Osvaldo Correia em Bissau, onde fui recebida por uma humidade altíssima e asfixiante. Encontrei um país sem luz pública, sem água corrente ou sem rede de esgotos, com estradas recheadas de buracos que nos lembravam ter existido ali em tempos algum e regos de água a correr furiosamente por tudo o que poderia ser um caminho, e apanhei imediatamente à chegada uma molha que me limpou a alma e me preparou para uma nova realidade.

No período de chuvas deste ano de 2008, que vai de Maio a Outubro (antes de se começar a falar das alterações climáticas, dizia-se que as primeiras águas caiam no dia 15 de maio, mas agora tudo mudou), foram reportados mais de 7000 casos de cólera e registaram-se mais de 150 mortes. A vida mostrava-se mais uma vez madrasta para este povo bom e tão penalizado pela história. E eu ali, involuntariamente, a viver de perto e a partilhar o drama e o medo da epidemia alastrar ainda mais neste país que conta com aproximadamente 1,7 milhões de habitantes.

Nas duas semanas que ali estive, encontrava invariavelmente grupos de crianças com um tabuleiro na cabeça cheio de bananas ou mancarra (amendoim) que assim que me viam, corriam atrás de mim tentando vender o que carregavam. Depois de vários dias de insistência e de outras tantas escusas da minha parte, lá parei a conversar com um deles que me disse necessitar de vender aquelas bananas pois o dia seguinte era o limite para se poder matricular na escola e os pais não tinham dinheiro para o fazer. O montante era insignificativo e propus oferecer-lhe o valor da matricula para o sossegar e assim poder voltar para casa, poupando-se à chuva. Respondeu com um ar preocupado, um pouco indignado até, que não poderia aceitar pois o pai ia castigá-lo se chegasse com as bananas e o dinheiro.

E foi ali que se deu a epifania que viria a moldar os meus dias. Fiquei com um cacho de bananas e ele com o acesso à educação. Esta criança, que não teria mais de 8 anos, deixou-me naquele dia o ensinamento que a dignidade e a vontade de lutar por ter futuro não têm idade, cor, credo, localização geográfica demarcada, limitações de caracter e muito menos classe social. 

Depois deste episódio procurei inteirar-me junto de alguns conhecimentos locais acerca das graves carências do sector da educação na Guiné-Bissau, com a iliteracia a apresentar números altíssimos, com escolas sem quaisquer condições, professores com salários em atraso que recorriam semanas e meses consecutivos a greves para pressionar os governantes levando assim à consequente anulação do ano lectivo por falta de tempo de aulas mínimo, professores sem formação adequada e alunos sem livros, uns e outros a não dominarem a língua oficial do país, o português, por utilização maciça do crioulo, enfim, entrei na realidade de um sector que roubava o futuro às mulheres e aos homens de amanhã.

Regressei destas férias na Guiné-Bissau incomodada e inconformada com a falta de perspectivas dos mais jovens mas, acima de tudo, impressionada com a sua vontade de inverter o curso da história que os grandes lhes queriam impor com crises políticas, guerras, golpes de estado, querelas político-militares que todos os dias lhes tentavam cercear os sonhos. Decidi sair da minha zona de conforto, fazer algo por eles e com eles e, assim nasceu em 2009, a Associação Afectos com Letras. Uma ONG gerida e dinamizada por um grupo de amigos das mais variadas profissões e espalhado um pouco por todo o lado que consagram os seus tempos livres a tentar melhorar a vida das crianças guineenses, proporcionando-lhes o acesso a uma escola com professores assíduos e com salários em dia, à educação em português, a uma refeição diária e a cuidados de saúde básicos. Passados que estão 7 anos, mais de 500 crianças estudam em escolas cofinanciadas pela Afectos com Letras, criámos uma biblioteca pública com 12 000 livros na capital, Bissau, colocámos duas descascadoras de arroz ao serviço de cerca de 1000 pessoas de duas aldeias do país (o que liberta as meninas de um processo demorado e penoso de descasca manual do arroz, podendo agora ir à escola), asseguramos o apoio em géneros a orfanatos e a hospitais do país, tendo garantido o fornecimento de 8 toneladas de antibióticos para prescrição e uso gratuito com os doentes mais carenciados e, mais recentemente, publicámos um Guia Turístico “À descoberta da Guiné-Bissau”, financiado pela União Europeia e realizado numa parceria com o Ministério do Turismo da Guiné-Bissau.

A Guiné-Bissau tornou-se assim um caso de amor. Mas também de respeito e de profunda admiração pelas suas gentes que apesar das dificuldades nos acolhem com uma dignidade, uma simpatia e uma humildade desarmantes.

Feita esta declaração de interesses, espero poder contribuir a partir de hoje neste espaço para a divulgação da riqueza cultural, social, histórica e geográfica da Guiné-Bissau, composta por um amplo mosaico de cerca de 30 etnias, diferentes culturas, dialectos, de uma fauna e de uma flora fartas e dona de geografia que esconde um arquipélago de 90 ilhas reconhecido em 1993 pela UNESCO como Reserva da Biosfera e que continuam quase desconhecidas do resto do mundo. Porque a Guiné-Bissau é muito, mas muito mais que as exaltações politicas e militares que a comunicação social internacional partilha connosco. A Guiné-Bissau é um paraíso habitado por gente muito boa, perdido entre rios e o Atlântico, à espera de ser descoberto.

MARCAS DA HISTÓRIA EM DIA DA LIBERDADE

ALVARO GIESTA 
Ainda é inevitável que nestes dias tão próximos mas que se vão afastando cada vez mais (os dias das Grandes Revoluções que mudaram a história), haja muitos que neles falem com algum ênfase e entusiasmo. Uns, porque a esses dias, que mudaram a história, devem a quebra do jugo que lhes negou a liberdade durante décadas da sua existência e às revoluções ficaram eternamente gratos; outros, conquanto as desejassem também pelos mesmos e outros motivos, as encaram hoje com alguma desilusão e desesperança, porque elas não foram mais do que uma utopia que os governantes, que se lhes seguiram na condução das rédeas dos novos governos, se encarregaram, mais e mais, de transformar as ilusões de novos e melhores dias em mega-utopias.

E o entusiasmo das comemorações desses grandes feitos que passaram vai-se desvanecendo aos poucos, nas pessoas, por outros motivos também. Ou porque, à data, não eram ainda nascidos e, para estes, a história não é mais do que uma sucessão de acontecimentos que se sucedem, sucessivamente, sem cessar (como a cátedra ensina(va) nos bancos da escola), ou porque, tendo já sido nascidos, mas não tendo sentido na pele as dores que os regimes anteriores infligiram, a memória e o conhecimento desinteressado das coisas, e pelas coisas, os atraiçoa.

Uns e outros, por aquilo que se conhece do mundo obscuro, dúbio e oportunista das sondagens de opinião, têm desses acontecimentos apenas ténues lembranças, pelas narrações ouvidas de seus progenitores, ainda próximos, por enquanto, que não, infelizmente, pela leitura útil que a maioria dos jovens de hoje desprezam, e quase abominam, fazendo das novas tecnologias que contêm milhares de documentos informativos e formativos, um mau aproveitamento e pior exploração, servindo-se delas - dessas novas tecnologias - para se desinformarem culturalmente, conduzindo-se por más pesquisas e experiências maléficas, para atingirem fins menos nobres e úteis e concretizarem sonhos de resultados perniciosos.

E, como o tempo é célere e voa, também a memória dos homens, que é curta, fugirá numa maior vertigem rumo ao abismo das sombras do esquecimento, levando a que os grandes feitos e os grandes homens caiam e se afundem, para sempre, nesse mesmo esquecimento, se não houver alguém que, de um modo útil e sério, avive essas mentes empobrecidas de saber. Falar aqui, de um modo genérico, das revoluções, não implica, necessariamente, que não se possa individualizar esta ou aquela. Mas tal não é o propósito, muito menos o desmerecimento. Apenas porque a finalidade é outra, como facilmente se deduz. Mas, ainda que o fosse, para o caso vertente, e porque a sua comemoração se realizou há curtos dias, até o podia ser.

Pois, se hoje o 25 de Abril, ocorrido ainda ontem - há 42 anos - ainda se vai lembrando com alguma falta de vigor e entusiasmo, lamentavelmente, o que acontecerá e como acontecerá, quando já tiver passado o seu século de vida? Provavelmente o mesmo que em relação ao dia da Implantação da Republica - para tanto basta ver quando meia dúzia de "gatos pingados com cara de mirones parvos" assistem (ou assistiam), sem saber muito bem o que isso é e o que isso foi, ao desfilar das tropas na Avenida da Liberdade em dia de comemorações: o ontem - o 5 de Outubro de 1910 - que meia dúzia de rapazolas a quem deram o poder da acção governativa há quatro anos atrás quiseram o facto histórico extinto e consumado, como se apagado fosse com uma simples borracha que apaga o risco deixado no papel pelo grafite do fino lápis. E o que acontecerá, amanhã, quando a memória traiçoeira dos homens fizer lavrar a indiferença sobre o dia da Liberdade? E a quem apontar o dedo acusador por esta indiferença e falta de saber que, no meu tempo, se chamava ignorância?

A meu ver, a duas instituições que têm tudo na mão para que o inverso se verifique. A primeira responsável é a escola que muitas vezes despreza o ensino do útil a favor do acessório. A segunda - aquela que não havia no tempo nem na aldeia em que eu cresci até aos onze anos - que bem podia e devia ser o "forte" veículo transmissor desse conhecimento, mas se dedica, quase exclusivamente, à transmissão de deficiente saber. E muitas vezes de falso saber. Refiro-me, evidentemente, à televisão, cujas programações abundam e abusam em telenovelas de histórias ocas e repetitivas e programas de entretenimento - assim chamados por quem e a quem convém - muitas vezes exageradamente subsidiados pelo Ministério de qualquer coisa (a que já ouvir chamar tantos nomes como Educação, Cultura, Ciência, e até Secretaria de Estado da Cultura, que mais valeria nem nome ter...), que o mesmo é dizer pelo dinheiro dos contribuintes. E o que se mostra nesses programas insossos que servem apenas para gáudio do pagode que, infelizmente, pouco mais tem para ver além da extensa publicidade que lhe injecta (à televisão) o sangue nas veias? IGNORÂNCIA! Pura, crua e nua!

Então falemos do e sobre o 25 de Abril que eu senti na pele, como muitos da minha idade o sentiram também.

Há 42 anos um golpe militar devolveu a Portugal a democracia perdida há quase meio século (desde1926). Há 48 anos que, em 25 de Abril de 1974, se vivia em ditadura com uma política sob o domínio da PIDE/DGS, inspirada na GESTAPO, roubando aos cidadãos deste país o mais nobre dos seus valores e direitos - a Liberdade - bastando apenas, para o efeito, que um dos mais de 500 mil informadores (que proliferavam pelo país) denunciassem o seu vizinho ou amigo, quantas vezes, até o familiar, da suspeita de pertencer a uma formação política clandestina. E nessas prisões insalubres de Caxias e Forte de Peniche ou desterrados para o campo de concentração do Tarrafal em Cabo Verde ou Fortes longínquos como a Fortaleza de S. Pedro da Barra em Luanda/Angola, utilizada no século XVII como entreposto de escravos em trânsito para o continente Americano, iam pais e filhos que jamais se encontravam, ainda que separados, apenas, e para anos intermináveis, por grossas paredes de alvenaria e duro granito.

Há 13 anos que, em Abril de 1974, se batiam jovens portugueses em três frentes de guerra de guerrilha nas províncias africanas da Guiné, Angola e Moçambique, para onde eram mobilizados como "carne para canhão". Por aí passei eu durante 42 meses - por terras de Angola -, de espingarda automática G3 aperrada nos punhos! Por essas terras longínquas perderam a vida 9 mil militares e 30 mil, ou talvez mais, foram feridos ou ficaram estropiados - os desgraçadamente chamados e esquecidos "DFA - Deficientes das Forças Armadas". Ironicamente, foi a guerra colonial que havia de fazer cair o chamado Estado Novo e instaurar a democracia em Portugal.

Esteve na origem o famoso "decreto da discórdia" com que as Forças Armadas determinaram a mudança da ditadura para a democracia, derrubando o regime de que eram a principal garantia e suporte. Foi este o "busilis" da questão - será esta a palavra mais adequada para definir o "cerne", o "ponto mais importante", a "essência do problema", o "motor que moveu"...? Vejamos apenas a espoleta que fez detonar o 25 de Abril, que a mais me não aventuro:

· o cansaço de sucessivas comissões de serviço em África,

· a indignação dos jovens oficiais do Q.P. (Quadro Permanente) das F.A. (Forças Armadas) ao verem os milicianos serem equiparados a si em estatuto e regalias mediante a frequência de um curso acelerado (3 semanas) para capitães, - formando os chamados "capitães de aviário" - na intenção do governo, com este "Decreto 353/73 de 13 de Julho de 1973", suprir a falta de comandantes de companhia na guerra de África - o verdadeiro detonador da revolução,

· as posições críticas, causando um forte clima de instabilidade emocional, quanto ao modelo de integração dos territórios ultramarinos no todo nacional, por parte do general Spínola, ex-governador e comandante militar da Guiné,

· a sua recusa (de Spínola) e a do General Costa Gomes, como Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, em participarem numa cerimónia de "vassalagem" dos generais a Marcelo de Caetano (custando-lhes a exoneração dos respectivos cargos),

fizeram estalar, e acertadamente, em 25 de Abril de 1974 aquilo que, em 16 de Março lhe deu início com a intentona das Caldas, conhecida por "Golpe das Caldas", com a marcha de tropas do Regimento de Infantaria 5 sobre Lisboa, acção revolucionária abortada de que resultou a detenção de duas centenas de militares.

E, em 25 de Abril de 1974, uma nova acção militar, bem estruturada e coordenada pelo Major Otelo Saraiva de Carvalho, vence a resistência do governo ditador que assombrava o país há quase meio século, substituindo as balas pelos cravos rubros da revolução.