segunda-feira, 4 de abril de 2016

CELEBRANDO OS 100 ANOS DO NASCIMENTO DE VERGÍLIO FERREIRA

«No momento exacto em que o projecto romanesco nacional, como eco do único projecto social e historicamente significante, tentava dissolver a dificuldade solar da existência no prisma de uma exterioridade redentora, Vergílio Ferreira tomou sobre si o risco de evocar sem temor, sem cansaço a noite humana intacta».
Eduardo Lourenço

ISABEL ROSETE
Falar sobre o Silêncio configura, de imediato, um paradoxo, pois falar, ou escrever, é sempre a interrupção do silêncio, como diria David le Breton. E, bem vistas as coisas, o Pensar não passa disso mesmo. Dir-se-ia que o silêncio é o envolvente universal das coisas, o pano de fundo em que elas se recortam, assumindo a sua condição de objecto. Não é preciso ser dotado de capacidades geniais, ser um contemplativo, um Filósofo ou um monge tibetano para o constatar. A modernidade, porém, com a sua dissolução mediática do mundo, mais do que qualquer outra forma de Cultura, tem horror ao aparente vazio significado do silêncio.

Os Média - em virtude da massificação que em si mesmo incorporam em prol dos índices de audiência - são, aliás, a prova visivelmente irrefutável desta tese: o único silêncio que a utopia da comunicação de massas conhece é o silêncio da avaria, da pausa emergente, da falha técnica, promoventes da suspensão da escuta e da visão, por alguns instantes, nunca aplaudidos pelos espectadores, sempre ansiosos pelo reinício da emissão. O que se instaura é, mais ainda, o cessar da tecnicidade do que o aparecimento de uma interioridade.

O ruído omnipresente, tão característico das sociedades contemporâneas, tornou-se um meio identitário, um modo de se estar ocupado e preenchido, mas não um modo-de-ser do indivíduo. A modernidade abriu caça a todas as formas de silêncio. Exorciza-o, conserva-o à distância, considera-o politicamente incorrecto. Que tremenda ilusão!
Somos incapazes de nos abrirmos a uma aprendizagem serena do silêncio, de escutar as vozes silenciosas da Terra, as vozes ermas dos campos no calor parado da tarde. Perdemos, definitivamente, a serenidade e não somos mais capazes de fruir o riso sem som, de nos determos na escuta, de nos calarmos, de percebermos que até Deus entreabre um olhar no silêncio do campo em ruínas. Enfim, de regressarmos ao silêncio fundamental[1].

Justifica-se, presentemente, a sua fobia, pois a palavra é o único antídoto para as múltiplas formas de totalitarismo que procuram reduzir a sociedade ao silêncio. É a grande estratégia dos políticos, das figuras públicas mais influentes. Mas não usam eles os totalitarismo(s), a palavra como formas de calar a voz dos que ainda escutam os desígnios insondáveis do Ser, da Vida e da Morte? O silêncio deixou de fazer parte da nossa Cultura, e o pensar virgiliano é bem a memória recôndita, mas des-velada, deste estado insuportável da Humanidade.

O silêncio tornou-se um intruso, um abismo no seio do discurso, até mesmo um factor de desconforto, qual circunstância penosa, assunto particularmente impopular nos dias que correm na agonia da demagogia barata que tanto ilude muitas das mentes ditas mais esclarecidas, que comove as massas, sedentas de ouvir qualquer coisa que soe bem, mas, no entanto, incapazes de escutar o ser essencial das palavras-de-origem, esse modo de ser da Linguagem onde a verdade e autenticidade das coisas nascem e são. A situação é, contudo, contraditória: a saturação da palavra, dos discursos eloquentes, mas vazios de conteúdo significante, das mais engendradas tagarelices, induzem, cada vez mais, ao fascínio do silêncio. Ambivalente, suscitam o amor e o ódio.

Ousar falar dele, torna-se um tema provocatório, quiçá, contra-cultural, contribuindo para subverter o conformismo pacóvio, o efeito anestesiante e dissolvente do ruído incessante, que nos impede de ouvir, mesmo a boca aberta num grito[2]. Os nossos ouvidos estão cobertos de lixo orgânico: até mesmo Deus que é um chato, tem sempre uma palavra a dizer; e as nossas casas jamais adormecem no silêncio[3].
O silêncio, todavia, também assume uma função reparadora, eminentemente terapêutica repondo, pelo discurso inteligente - de que obra de Vergílio Ferreira é dos exemplos mais iminentes de toda a Literatura Portuguesa (um bem escasso, aliás) - a necessidade vital de integridade.

Longe do silêncio imperativo, nem que seja por escassos instantes, perdemo-nos nas palavras, ausentamo-nos do fio condutor do crescente labirinto do discurso. Essa infindável imensidão do silêncio rodeia qualquer escrito, qualquer assunto, qualquer existência humana, deixando-lhe exactamente a possibilidade do seu encaminhamento ao longo de uma margem sem princípio nem fim, sem norte, sem destino. Não basta aprender a ouvir. Urge saber escutar! Mas, para escutar o mundo e o outro, é imprescindível saber partir do silêncio. Esta é uma das grandes mensagens do nosso literato-pensador, tal como foi a de Le Breton, tão inspirado na soberba escrita do Silêncio.

Movemos, em exaltação, no interior desta problemática tão inquietante quanto deliciosa, em pensamento/escrita literário-filosófica sobre Vergílio Ferreira, seguramente um dos maiores nomes da Literatura portuguesa contemporânea, celebrando os 100 anos do seu nascimento.

Aqui estamos com este Homem de cepa, de-trás-da-serra, da vertente Sul da Serra da Estrela, imersos na extensa e riquíssima estrada da Vida que nos fez/faz viver de uma forma intensa e soberanamente meditante, sempre em fusão plena com cada acto de escrita que preencheu, sempre, o seu/nosso imaginário em todos os momentos de uma existência quase sobre-humana.

Alicia-nos esse infinito desejo de passar pelos mesmos caminhos trilhados, um dia, pelo autor de O Caminho Fica Longe (1939), eivado de espírito obstinado e indagante, repleto de uma inquietação permanente, preenchido pela dúvida constante, embora não céptica, pela interrogação mais radical, a qual mantém acesa essa pequena brasa viva que alimenta todas as combustões da alma de um cidadão à margem dos rasgos mais intensos “disso” a que se chama “Civilização”, que fez da escrita uma forma de rezar e de respirar, e, da obra, o cunho marcante da sua própria Vida.

Escrever sobre Vergílio Ferreira não é tarefa fácil. Antes de mais, porque nos movemos sempre entre o enigma, o silêncio e o mistério da Vida e da Morte; porque penetramos num espaço onde a escrita atinge os interstícios da Existência, tomada na sua mais pura originariedade, nas malhas da Vida tecidas por fios de intensa solidão, de absurdo, de angústia, de náusea, de sombra, ou daquela triste alegria que, amiúde, faz despoletar um ténue sorriso na face do eterno silêncio do mundo, que assoma em cada acto de pensamento e no fluir da pena que colhe e recolhe os múltiplos arianas do Universo físico e humano.

[1] Cf. Vergílio Ferreira, Para Sempre, pp. 17, 19, 21 e 23.
[2] Vergílio Ferreira, op. Cit., p. 31.
[3] Cf. V. Ferreira, op. Cit., pp. 62 e 65.

domingo, 3 de abril de 2016

ACHAS QUE VAI CHOVER?


MIGUEL GOMES
Há que introduzir vivacidade às personagens que vivem, nascidas agora, adultas outrora e, também, renascidas porque de serenismo bastaram no ocaso a que, silêncio involuntário, foram adormecidas. Estas são algumas das que me vivem atrás do que vivo. 

“Personas agem”
O vento crepita na lareira com a força musculada de quem, de machado ao ombro, chora no desconsolo decidido entre o amor ao que vive e a necessidade de viver, cortando a madeira, golpeando entre murmuradas desculpas o tronco do que cairá e, posteriormente, arrastado por entre vegetação, seguirá caminho até que as garras metálicas de um guindaste articulado à força de comprimido ar o agarrem virilmente e o coloquem sem pudor ou respeito no costado de um camião. Ele seguirá, machadado também no íntimo de si, pelo caminho contrário, rompendo a vegetação agrilhoado à vida, porque de viver se mata e segue pensando apenas que o vento trará o consolo de umas nuvens prenhes a galgar pressões, altas e baixas, até se instalarem ali por cima do sono de um homem e se deixarem cair em fios longos e prateados de água até afogarem as mágoas de uma jorna num sono que, enquanto durar a noite, será rei e senhor das paredes de madeira que involucram o descanso de um guerreiro. 

O casaco negro apontado ao horizonte descansa merecido no muro feito de granito alinhado onde minerais são azuis, que não se sabem se paridos da terra ou reflectidos do céu. A manhã foi ligeira dia acima porque enquanto o ombro encontra descanso do reumatizado corpo, há que dar ligeireza aos movimentos torpes e falar com a terra negra, fumegante e transpirada do rodopio orbital e cansada do saturado coro de pensamentos néscios que todos os dias se precipita como uma chuva eterna, em forma de sacholadas firmes de um metal rombudo e um cabo envernizado pelas cuspidelas curtidas das mãos que nunca souberam outro carinho além da contrição e emoção de segurar a medo a vida embrionária, onde um só choro levanta preocupação maior que a bicharada toda à solta no plantio. Entre divagações o cotovelo apoiado no cabo, a mão que segura a boina negra, o suor que cai da testa deixando um rasto húmido na alva cabeça empoeirada e cai, sem preocupação, no rego aberto como um livro, deixando suspensa uma pequena onda alveolar que, depois, também ela se deixa abater, de costas e a sorrir, no negro. Não há espaço para filosofias quando não se sabe quanto nos sobra de tempos ou de dias. Por isso, enquanto escapa à fome no rápido deglutir de uma côdea de boroa, vê a seus pés o húmus e interrompe a respiração para se sentir, apenas uma vez, dono de si e escravo do chão.

O vento como companhia, assim era o quotidiano da vida, tal como o frio e cinzento amanhecer que despertavam de cada vez que a noite se espreguiçava. E assim, a voar, partia por esses caminhos, fugindo às nuvens sorrateiras dos aglomerados de gentes sem pessoas, com apenas uma mochila azul e, lá dentro, uns cadernos, folhas soltas, recortes de jornal, uma saca de pano onde “antigamente” se guardava o pão. Dizem que vendia poemas, escritos na hora, a jeitos de artesanato, caseiros dizem alguns, com olhos de pessoas num verso e palavras frescas saltadas do coração em qualquer folha branca puída, ditadas por alguém e pelos outros, que moravam nos meus olhos, do lado de lá da ilusão.

Achas que vai chover? 

Não sei... 

Mas agora, que estou prestes a acordar sonhos, queria que sim, que chovesse. 

E se chover não vou trabalhar, vou mais tarde! Vou acordar e, apenas em roupa interior, vou correr até ao monte, passando e calcando as poças de água, sem me preocupar com as pequenas pedras que se cravam nas plantas dos meus pés. Vou sentir a chuva cair no cabelo, no tronco, ombros, costas e pernas. Vou sentir os salpicos de água com terra nas costas, que se soltam dos meus pés enquanto corro. Vou parar num qualquer portão ou rede e sorver as gotas que pendem dos mesmos, tocando-as ao leve com a língua até que se desprendam. Vou atirar-me para a primeira poça de água que encontrar na terra! Vou rebolar. Vou espirrar e ter frio sem medo de ficar doente. Vou cheirar a caruma molhada, abraçar-me a pinheiros e eucaliptos e sentir o sabor frio da chuva e quente da Natureza. Vou deitar-me de barriga para o ar e olhar, com os olhos semi-cerrados, a chuva cair do céu na minha direcção e… E sabes quê? Vou rir-me! Vou rir-me alto, sem me preocupar com o que pensem! Vou rir e chorar ao mesmo tempo! Vou rir-me e engasgar-me com uma ou outra gota que entre directamente na garganta. Vou fazer regos na terra com o calcanhar, para a água escoar de poça em poça, até formar um rio que se juntará a outra poça. Vou pegar em terra com as minhas mãos, erguer-me e olhar para ela, para a terra e depois para a chuva e pensar em nada, apenas ver a beleza da chuva e da terra e sentir-me assim, sem medo de ser feliz. Achas mesmo que vai chover? E se chover, queres vir também?

TRATAMENTO DA DEPRESSÃO É POSSÍVEL

CLÁUDIA SILVA
A depressão consiste num estado prolongado de tristeza e desinteresse pela própria vida. A sintomatologia depressiva suscita perda de interesse pela realização das atividades, isolamento social, cansaço persistente e falta de energia. A depressão vem, também, acompanhada de perda ou aumento de apetite, alterações nas horas de sono e diminuição do desejo sexual. Tudo isto começa a funcionar como uma bola de neve e faz-nos acreditar que somos inúteis, incapazes e sem valor. Poderão, nalguns casos, surgir pensamentos ligados ao suicídio.

De acordo com Lucena (2014), a depressão atinge hoje quase 7% da população mundial, o que corresponde a cerca de 400 milhões de pessoas; incapacita os atingidos pela doença e constitui um peso significativo para a família. De acordo com o mesmo autor, esta doença mental atinge principalmente mulheres. Todavia, também é diagnosticada no género masculino. A depressão apresenta contudo sintomas diferentes entre os géneros. Assim, os homens tendem a ficar mais irritados, agressivos e, podem iniciar consumos; por sua vez, as mulheres, tendem a ficar mais tristes e mais isoladas. De acordo com Hauth (2015), a depressão masculina necessita de significativa campanha contra a estigmatização.

Não existe uma causa única para a depressão; todavia, podem-se considerar a conjugação de inúmeros fatores, como acontecimentos de vida significativos, fatores biológicos, traumas de infância, bullying, divórcio, maus tratos diversos, entre outros. Estes acontecimentos podem ser vividos com uma intensidade tal que parece tornar-se difícil ultrapasse a dor que provoca. As pessoas que não conseguem ultrapassar as dificuldades do passado, não são fracas, mas sim as que mais sentiram a dor ou o medo das experiências. 

É importante respeitar a dor dos outros e evitar o estigma da depressão; uma vez que este estigma constitui para os doentes uma fonte de sofrimento, com múltiplas repercussões, representa um obstáculo à concretização de projetos pessoais, um entrave no acesso aos cuidados de saúde, é capaz ainda de deteriorar a autoestima e o autoconceito da pessoa e, por vezes, faze-la duvidar da sua adaptabilidade ao seu meio ambiente.

A intervenção na sintomatologia depressiva varia de pessoa para pessoa. Cada indivíduo tem uma forma diferente, de estar na vida, e naturalmente estratégias que servem para alguns, podem não ajudam outros. As estratégias que geralmente contribuem para o afastamento desta sintomatologia, consistem em desafiar os pensamentos negativos que insistem em surgir na mente, cultivar o seu ciclo social, cuidar de si próprio, realizar atividade física, concretizar atividades que lhe gerem satisfação, manter um horário de sono regular e fazer psicoterapia. 

A realização de psicoterapia permite aos pacientes com sintomatologia depressiva uma maior consciencialização de si próprio, reforçar a autoestima, combater o isolamento social e ultrapassar atitudes, comportamentos e pensamentos disfuncionais. A recuperação do paciente depende, em certa parte, do esforço ativo do mesmo, principalmente na necessidade de modificação de atitudes, comportamentos e modo de relacionamento com os outros. 

O tratamento da depressão é possível, por isso caso sinta que a tristeza piora gradualmente, procura ajuda psicológica. O pensamento da depressão pode ser que tudo será ineficaz e que nada terá resultados; porém tal pensamento é disfuncional, a depressão pode ser tratada e as pessoas voltarem a sentir bem-estar, satisfação e qualidade de vida.

O passado pode ser visto como um cenário congelado, onde não podemos mudar nada, mas podemos olhar e perceber onde erramos ou erraram com a gente e assim termos um novo aprendizado.
Psicóloga Rosana Maria Gabriel

sábado, 2 de abril de 2016

A CONFIDENCIALIDADE NA PRÁTICA MÉDICA

ANTONIETA DIAS
Vivemos numa época em permanente transformação onde cada dia é iluminado pelos avanços nas tecnologias que se identificam com a saúde, com a condição biológica e mental dos seres humanos. 

Porém, o avanço tecnológico não pode ser separado da Ética e do Direito e a investigação científica não pode ser separada da lei nem da ética.

Sendo que, em qualquer área o conhecimento disponível só pode ser utilizado se respeitar os princípios fundamentais do Direito.

Importa, ainda referir que a protecção dos dados pessoais é um direito intrínseco e fundamental da pessoa e das ciências biológicas.

O direito fundamental de sigilo e protecção dos dados pessoais do paciente, dados estes adquiridos através da entrevista clínica no decurso de uma actividade profissional privilegiada(consulta), cuja informação obtida resulta do grau de confiança que o doente deposita no médico, tem obrigatoriamente de ser respeitado.

Para o efeito existem vários documentos publicados, destinados a fundamentar a sua preservação, dos quais salientamos o Código Deontológico da Ordem dos Médicos (2008), que é constituído por um conjunto de normas de comportamento, recomendado para a prática médica e serve de orientação nas várias questões estabelecidas em todos os actos médicos relacionados com o exercício da actividade profissional.

Este Código contém dois tipos de normas, que traduzem os princípios éticos fundamentais, conceitos estes imutáveis, e que estão excluídos de quaisquer conceitos ideológicos ou políticos.

Como exemplos destas normas, fazem parte o respeito pela vida humana e pela sua dignidade, o dever do segredo médico, o dever de solidariedade e respeito entre os profissionais, a protecção dos diminuídos e dos mais fracos e o dever de não descriminação.

Neste mesmo Código Deontológico, são ainda referidas as normas, que derivam dos usos e costumes.

“O que, no exercício ou fora do exercício e no comércio da vida, eu vir ou ouvir, o que não seja necessário revelar, conservarei como segredo.” (Juramento de Hipócrates).

Na época actual o segredo profissional adquiriu uma fundamentação mais rigorosa, focalizada nas necessidades e direitos de cidadania como uma prioridade da intimidade passando a ser entendido como confidencialidade.

A confidencialidade define a propriedade da informação, que não pode ser disponibilizada ou divulgada a indivíduos, entidades ou processos, sem prévia autorização do titular da informação, uma vez que é a garantia da protecção dos dados que são fornecidas pessoalmente aos profissionais de saúde, com base na confiança e no sigilo médico abrangidos pelo princípio ético.

“O Médico deve respeitar o direito do paciente à confidencialidade. É ético revelar informação confidencial quando o paciente consinta ou quando haja uma ameaça real e iminente para o paciente ou para terceiros e essa ameaça possa ser afastada pela quebra da confidencialidade.”

Outro documento importante de sustentabilidade do dever de preservação de confidencialidade é o Código Internacional de Ética Médica, em que a 1.ª parte se refere ao dever do sigilo médico, ao segredo e confiança.

Fazendo uma revisão histórica, verificamos que o segredo médico já vem do tempo de Hipócrates.

Cerca de 2500 anos depois de Hipócrates, a obrigação do médico de guardar segredo mantém toda a actualidade e assume-se como uma necessidade, cada vez mais importante.

Após a segunda guerra mundial, o segredo médico ficou consolidado, pela defesa dos direitos humanos, tendo como suportes de apoio:

1. Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 10 de Dezembro 1948.

Artigo 12.º: “Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação. Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem direito a protecção da lei.” 

2. Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos

Artigo 17.º: “Ninguém será objecto de ingerências arbitrárias ou ilegais na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem de ataques ilegais na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem de ataques à sua honra e reputação.”

Se o médico não respeitar estes princípios éticos, incorre no crime de violação do segredo médico, porque não cumpre o dever a que a sua profissão o obriga e desvirtua o direito do doente, lesando-o e destruído o mais elevado grau da segurança dos registos clínicos que fazem parte do segredo profissional dos médicos e que são a garantia da manutenção da informação privada do doente.

Como escreveu L. Pontes: “não existe medicina sem confiança, tal como não existe confiança sem confidências, nem confidências sem segredo.”

No âmbito da segurança informática para a protecção dos dados do utente é imprescindível que as regras de confidencialidade sejam respeitadas entre todos os intervenientes, sendo que a protecção dos dados e informações partilhadas entre o emissor e os restantes destinatários intervenientes no processo, exigem a garantia do sigilo de comunicação entre todos.

No domínio da segurança informática a confidencialidade é entendida como a troca de informações trocadas entre um emissor e um ou mais destinatários contra terceiros.

Porém, independentemente da segurança do sistema informático utilizado para o registo da comunicação, a protecção dos dados deve ser preservada por todos, seja qual for a protecção do sistema utilizado, de forma a garantir o sigilo da comunicação que é transmitida ao profissional de saúde. 

A confidencialidade encontra-se intimamente relacionada com o conceito de privacidade de âmbito restrito resultante da comunicação privilegiada (priviledged communication), entre o doente e o médico.

“Confidencialidade foi definida pela Organização Internacional de Normalização Organização Internacional de Normalização (ISO) na norma ISO-17799 como "garantir que a informação seja acessível apenas àqueles autorizados a ter acesso" e é uma pedra angular da segurança da informação. 

É obrigação do médico guardar segredo de todas as informações privadas que lhe são reveladas no decorrer da sua actividade profissional, funcionando como um direito e um dever na preservação dos interesses do doente. 

Em termos bioéticos toda e qualquer informação obtida através das palavras ou do exame físico é confidencial, só podendo ser revelada se o doente o permitir, constituindo assim o pressuposto de confiança que o doente tem no médico que o trata, subentendendo-se a existência de fidelidade do profissional que obtém a informação.

O conceito de privacidade é entendido como o controlo que a pessoa exerce sobre o acesso de outros a si próprio, sobre a preservação da sua intimidade, no decurso da prestação de cuidados assistenciais.

O doente tem o direito à preservação da sua privacidade, ao respeito pelo direito à intimidade, em todos os actos que se relacionem com o diagnóstico e tratamento clínico. 

Todo o profissional que se envolve na cadeia de atendimento clínico é obrigado a manter o sigilo pelos seus códigos deontológicos, de forma a impedir a existência de manipulação dos dados. 

O sigilo sempre foi considerado como uma característica moral obrigatória da profissão médica.

Assim, a privacidade constitui uma dimensão da liberdade de cada um, sendo vetada a intrusão por questões de carácter pessoal por parte de governos, indivíduos ou corporações a não ser que tenham sido previamente autorizadas por quem as revelou.

O doente tem o direito a ser respeitado, por toda e qualquer informação que revele ao seu médico, independentemente ou não se serem situações embaraçosas, quer sejam reveladas de forma informal ou não. 

Entre o médico e o doente existe uma relação especial e uma comunicação de dados pessoais, pensamentos ou sentimentos, que podem estar ou não relacionados com a patologia em si, os quais serão arquivadas no processo clínico do doente, cujo acesso fica reservado apenas e só fica disponível para ser consultado pelos profissionais de saúde envolvidos na intervenção do caso clínico.

A confidencialidade é uma competência de todos os profissionais e das instituições de saúde, em que a segurança da informação é a base do direito individual à intimidade e a única garantia que permite ao doente revelar dados da sua vida pessoal, porque sabe que em circunstância nenhuma serão transmitidos sem o seu prévio consentimento.

Em suma, o segredo médico é um dos direitos fundamentais dos doentes. A informação contida no seu processo clínico não pode ser divulgada sem o seu prévio consentimento devidamente esclarecido e assinado.

E por último, um alerta importante para os médicos: codificar a doença é um acto médico, porém dar essa informação a terceiros, por exemplo às seguradoras, implica uma autorização documentada, com consentimento informado esclarecido e assinado pelo doente, sem a qual essa informação não poderá ser disponibilizada. 

MODA PASSADA REGRESSA AO PRESENTE

JULIANA ROCHA
Já não é novidade para ninguém que aquilo que sai de moda hoje, daqui a uns anos estará novamente em alta e foi o que aconteceu as tão famosas "calças à boca-de-sino"! Parece que passado uns aninhos elas estão de volta. Este é um modelo especial e que pode não agradar a todas, especialmente depois de todos estes anos em que as skinny jeans foram o modelo de eleição de tantas mulheres. 

Há diversas opiniões sobre o tipo de silhueta que este modelo de calças assenta melhor. No entanto o truque para as usar são os saltos altos! Principalmente as mais pequeninas porque acaba por dar um efeito de perna mais longa e elegante. As tão famosas flares ainda que nos remetam automaticamente para os anos da nossa infância renovaram-se e estão com muito mais glam e mais equilibradas, permitindo que as adaptemos tanto a um look casual como a um look mais formal tentando optar por calças que não sejam de ganga ou simplesmente conjuga-las com um blazer e uma camisa.





Dica : As calças à boca-de-sino são o foco do look sendo que devemos de optar que as restastes peças que compõem o look sejam mais simples e acessórios minimalistas tal como t-shirts, camisas mais clássicas ou tops.

PELO TÂMEGA LIVRE DE CILADAS E PATRANHAS

J. EMANUEL QUEIRÓS
Acompanho a barbaridade do represamento do rio Tâmega desde o primeiro golpe barragista executado nos anos de 1980 com a construção do elefante branco intersectando-lhe o leito na freguesia de Alpendorada e Matos no concelho do Marco de Canaveses. 

Sem valia alguma para produção de electricidade por falta de caudal, desde 1988 a barragem e a albufeira do Torrão, como são conhecidas, servem de cenário à formação de um caldo químico ambiental, degradado e mórbido, infestado de cianobactérias produtor de metano, indiferente para a concessionária EDP, com que se abotoa nos seus contratos rendeiros estabelecidos com o Estado.

Ao tempo do segundo governo de Cavaco Silva (1986) o libelo sobre o Tâmega contou com o aval do responsável-mor pela Direcção Geral do Ambiente, Francisco Nunes Correia, o mesmo artista que anos mais tarde já como Ministro do Ambiente do primeiro governo de José Sócrates (2007) deu cobertura à monumental patranha nacional das barragens inventada pelas eléctricas nacionais no designado Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico (PNBEPH). 

Recuperando um velho plano hidroeléctrico dos anos de 1950, do tempo do Estado Novo, consignado no Plano Hidráulico da extinta Hidro-Eléctrica do Douro, o cio das eléctricas pelos rios, nomeadamente pelo Tâmega, servido no embrulho das ‘energias renováveis’ e da ‘sustentabilidade ambiental’ vergou as mais altas instâncias da Administração pública, ultrapassou o quadro legal nacional e comunitário, tratou a região como terra de codessos e engatilhou aos seus interesses os principais responsáveis locais.

O visado rio Tâmega, com as populações ribeirinhas de Chaves, Vila Pouca de Aguiar, Ribeira de Pena, Cabeceiras de Basto, Mondim de Basto, Celorico de Basto e Amarante, onde se inclui a parte baixa do centro histórico da cidade, desde então, ficaram à mercê de um grupo de interesses alargado aos partidos do arco-da-governação que se acoita nas eléctricas REN, EDP, Endesa e Iberdrola, onde lhes é garantida uma rectaguarda dourada para seus mais notáveis oficiais, preparam as decisões do Governo e lambuzam-se como querem nos peitos do Estado.

Neste pote demoníaco entraram os rendidos presidentes das câmaras dos acima referidos municípios, gente de terceiras e quartas linhas partidárias, submissos aos directórios e alinhados em tandem nos interesses que percorrem as malhas partidárias. Por eles perpassam as artes sofistas da incongruência sem vergonha, reiterando publicamente que são contra as barragens ao mesmo tempo que pedem a sua construção, assumidos na farsa e coniventes com esse perigoso garimpo predador com que farejam alguns trocados.

Com a chegada do Governo actual, a esperança sobre o Tâmega livre de barragens renasceu, não pela corrente partidária que o constitui, mas pela posição sobre esta matéria de algumas forças partidárias que o suportam. É de inteira justiça sublinhar o papel do Partido Ecologista «Os Verdes» e do Bloco de Esquerda, partidos com assento parlamentar que sempre estiveram nesta causa regional e nacional ao lado das populações mais avisadas.

Nestes anos de incerteza que pesam como uma guilhotina sobre o Tâmega, a cidade de Amarante e as populações ribeirinhas, congratulo-me com a posição da associação ecologista Quercus ao considerar recentemente que “seria um grande escândalo e um erro grave se a construção das barragens do Tâmega que ainda não foram construídas – Fridão, Gouvães, Daivões e Alto Tâmega – continuasse sem que se realizassem novos estudos de impacte ambiental”.

Focando um argumento fulcral que inviabilizaria toda a trapaça desse famigerado programa barragista, a Quercus coloca-se na esteira das conclusões do Relatório Técnico de Avaliação (Arcadis/ Atecma) (1) que a Comissão Europeia, em 2009, mandou efectuar ao famigerado PNBEPH, onde é referido: 

«Cinco das barragens previstas para a bacia do Douro (Padroselos, Alto Tâmega, Vidago, Daivões, Fridão e Gouvães) afectam a bacia do rio Tâmega como um todo e, como tal, têm o maior impacto cumulativo. Irão causar significativa deterioração da parte central da bacia do rio que está em boa condição relativa.» e 

«Comparando-se os impactos avaliados, os indicadores utilizados e a escala de avaliação, pode-se concluir que a Avaliação Ambiental Estratégica do PNBEPH tem lacunas graves e pode ser considerada como não conforme com os requisitos da Directiva-Quadro da Água.» 

Do mesmo modo, a Quercus secunda um parecer técnico de 2010 elaborado na UTAD ao Recurso Vegetal Natural e Agro-Florestal(2) do Tâmega, pelo prof. António Luís Crespí, em que, sobre o PNBEPH, é mencionado: 

«(…) este projecto forma parte de um complexo em cascata, o que o diferencia claramente de uma simples barragem com fins hidroeléctricos. Neste sentido será criado um circuito diário de libertação e bombagem de água, o que provocará mudanças constantes nos caudais das mesmas barragens. Tal fenómeno constitui um impacto extremamente negativo para o ecossistema, uma vez que não só acumula as irreversíveis perdas de biodiversidade e consequentes quebras funcionais, como ao mesmo tempo está sujeito a uma situação ambiental extremamente dramática, que põe em causa a própria resistência deste ecossistema.» 

Na posição pública da Quercus é de sublinhar uma ideia central que projecta no futuro uma síntese das consequências da construção das barragens no rio Tâmega, merecedora de atendimento e reflexão que há muito tenho tentado difundir:

“O rio Tâmega deixaria de ser um rio no seu estado natural e passaria a constituir uma sucessão de cascatas de águas represadas e mortas, inviável para todas as utilizações actuais de recreio e de lazer das populações ao longo do seu curso e passando a constituir uma ameaça permanente sobre a cidade de Amarante". 

De acordo com informações veiculadas recentemente na comunicação social, o Ministério do Ambiente reavaliou o PNBEPH e, até 15 de Abril, decidirá o futuro das barragens que ainda não entraram em construção. Pelo Tâmega, pelas populações ribeirinhas e pelo país, haja bom-senso e tome a decisão deste Governo nova andadura, contra ciladas e patranhas com que o país tem sido dinamitado.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

COSTUMA JUNTAR A BATATA E O ARROZ NO MESMO PRATO?

JOANA MALHEIRO
Em Portugal somos um povo de tradições, de costumes enraizados, principalmente no que refere à alimentação.

O Norte é uma zona de tradições próprias. É costume vermos na mesa das famílias, restaurantes ou tascas, pratos em que o Arroz e a Batata são acompanhamento da mesma refeição.

São típicos os pratos como o Cozido à Portuguesa, a Jardineira, os Rojões ou o Assado, típico de domingo, todos pratos com Batata mas que têm como segundo acompanhamento o arroz.

Pertencentes ao grupo dos cereais, derivados e tubérculos, da nova roda dos alimentos, o arroz e a batata são uma das principiais fontes de energia do nosso organismo. Fornecem principalmente hidratos de carbono, proteína vegetal em baixa quantidade vitaminas do grupo B, minerais e fibras.

Erradamente proclamados vilões da dieta, os hidratos de carbono, como o arroz e a batata entre outros, são o melhor combustível celular e fornecem energia para funções vitais (exercício, manutenção da temperatura, digestão, assimilação de nutrientes,…), contudo é importante saber que qualquer alimento engorda, se a ingestão diária do mesmo for superior às necessidades e/ou gastos do organismo, pois na grande maioria das vezes, consumimos mais do que aquilo que precisamos.

O Arroz

Alimento acessível e que tem a facilidade de poder ser combinado e introduzido em diversos pratos e iguarias bem portuguesas. No que diz respeito à sua composição nutricional é de salientar que é isento em gordura, as suas proteínas são de baixo valor biológico, contém vitaminas do complexo B e os minerais que estão na sua composição são o cálcio, ferro e magnésio. Nos últimos anos, são muitos os que apoiam o consumo do arroz integral. A diferença entre o arroz refinado e o arroz integral começa no processo de produção, Assim, a versão integral fornece vitaminas e fibras em quantidades mais elevadas. A ingestão deste cereal trará como benefícios ao consumidor como o controlo das glicemias, redução dos níveis lipídicos, redução da pressão arterial para além da maior sensação de saciedade que as fibras do arroz integral provocam a quem o ingere.

A Batata

Alimento versátil, dadas as diferentes formas como pode ser confecionada a batata tem facilidade de poder ser combinada e introduzida em muitos dos pratos e das iguarias portuguesas, além de ser um alimento acessível.

No que diz respeito à sua composição nutricional é isenta de gordura, as suas proteínas são de baixo valor biológico, contém fósforo, magnésio, potássio e cálcio, como principais minerais e vitaminas do complexo B.

São no entanto os hidratos de carbono, o nutriente que mais se destaca na sua composição, assim como o elevado teor de água. A batata possui uma versão alternativa, a Batata-doce, significativamente mais rica em vitamina A, com boas quantidades de vitaminas C, e E, com minerais como o Cálcio e o Ferro e o Selénio em evidência, possui ainda uma excelente quantidade de fibra, bem marcada, quando comparada com os restantes farináceos. Contudo o seu uso trará benefícios ao consumidor, por exemplo, ao nível da regulação intestinal.

Posto isto, é muito comum ouvirmos as pessoas dizerem: “misturar arroz e batata engorda”, contudo a diferença entre os amidos, amido da batata, ou o amido do arroz é muito reduzida, pois ambos são excelentes fornecedores de hidratos de carbono e no fim da sua degradação no organismo, ambos resultam em glicose (essencial na produção de energia do organismo), com 4 kcal/g. O importante é termos noção que ambos os alimentos pertencem ao mesmo grupo, assim, é a quantidade de hidratos de carbono consumidos na totalidade que faz diferença quando falamos nas necessidades nutricionais de cada um. E sem dúvida que a forma como estes hidratos são preparados, ou seja, os métodos e as confeções culinárias vão determinar a quantidade calórica total da refeição.

Deve certifique-se de que as suas ementas são equilibradas, e que nelas estão presentes todos os nutrientes, sendo que ¼ do seu prato deve corresponder aos hidratos de carbono, de acordo com a RDA, só assim comerá de forma saudável.

Lembre-se:

- Se não é fácil controlar a quantidade que coloca no prato, se não consegue respeitar o ¼ de prato que dos hidratos de carbono, opte apenas por um alimento rico neste nutriente de cada vez.

- Se consegue respeitar a dose de hidratos recomendada e quer usufruir do prazer de comer ambos os alimentos, respeite as quantidades e sinta-se mais feliz com a sua alimentação.

[NOTA: RDA – Roda dos Alimentos Portuguesa]

SALGADO COLOCA A BOCA NO TROMBONE

GABRIEL VILAS BOAS
Em surdina, no meio judicial, não se fala de outra coisa: Ricardo Salgadinho decidiu pôr a boca no trombone e contar tudo o que sabe sobre as relações perigosas e promíscuas entre políticos e agentes do poder económico, pondo a nu o intricado esquema que permitiu ao nosso ex. PM receber e esconder milhões de euros, no estrangeiro.

Farto de esperar um sinal positivo sobre o seu processo, Salgadinho deu ordens aos seus advogados para negociar com o Procurador encarregue do seu caso. O ex. Dono Disto Tudo esperava que a subida do PS ao governo implicasse mudanças profundas na Procuradoria e na PJ, de maneira a colocar o seu processo em banho-maria ad eternum até que prescrevesse. No entanto, o gabinete do Costa de Lisboa não conseguiu convencer os seus parceiros de geringonça a alinharem nesta megaoperação de mordaça da justiça, já que é sabida a antipatia natural dos radicais de esquerda por tudo o que cheira a dinheiro. 

Ao perceber a periclitante situação em que Costa se encontrava, Ricardo Salgadinho tentou uma última cartada: a família Espírito dos Santos indemnizaria em 50% os lesados do papel comercial do GES, o governo assumiria 25% dos prejuízos e os lesados abdicariam do restante. No entanto, as esganiçadas do BE recusaram dar o acordo a esta situação. Desesperado, Salgadinho contactou o PP para votar favoravelmente uma solução para os lesados do GES, lembrando ao ex. amigo Paulinho o favores que o BES lhe fizera quando se sentiu a ir ao fundo com o caso dos submarinos, mas Portas recusou ser a tábua de salvação de Salgadinho, lembrando-lhe que o caso dos submarinos já prescrevera e que agora já não mandava nada e por isso devia falar com a D. Assunção. 

Furioso, Ricardo Salgadinho mandou fechar negociações com a gente da geringonça e encarregou o seu advogado pessoal de estabelecer contactos com o Procurador Rosário Teixeira da Cruz, oferecendo a sua ajudar para entalar o Sócrates. Em troca, o Procurador da Operação Marquês do Pombal teria de influenciar decisivamente o juiz Carlos Alexandre Barbosa a acusar Salgadinho apenas de crimes que implicassem penas leves, ou seja, sem prisão efetiva. 

Apertado pelos prazos para formular uma acusação contra Sócrates, o Procurador afiançou ao advogado pessoal de Salgadinho que conseguiria convencer o super juiz, mas na verdade só lhe tocou no assunto ao de leve, porque o juiz Barbosa já nem o pode ver, tal a demora que o Procurador tem levado a convencer “o amigo” de Sócrates a tornar-se mais um dos seus ex. amigos. 

A semana passada, o Procurador mais acossado do país decidiu arriscar tudo: sob disfarce, encontrou-se pessoalmente com Ricardo Salgadinho e pediu-lhe que mostrasse as provas cabais que dizia ter contra e engenheiro que nem engenheiro chegou a ser. O antigo líder do “banco mau” atirou para cima da mesa documentos autênticos e confidenciais que provavam como José Paulo Pinto de Sousa era o dono de várias empresas instaladas em paraísos fiscais, para onde os amigos tinham enviado generosos donativos. 

Ao ver, finalmente, as provas por que tanto ansiava, o Procurador sorriu de satisfação e fumou um longo charuto. Quis levar os documentos, mas Salgadinho não lho permitiu. Só quando saísse a acusação que o juiz incorruptível prepara contra si! O Procurador tremeu, mas não se desmanchou. Logo após o encontro telefonou ao seu amigo diretor do jornal “Contra Manhosos” e anunciou que a acusação contra o engenheiro sairia até ao final do Verão. O diretor ainda duvidou, mas depois do Procurador Cruz lhe ter relatado os últimos avanços, não escondeu o seu contentamento por mais três meses da telenovela em capítulos que o “Contra Manhoso” publica há vários meses.