sábado, 26 de março de 2016

NA FORÇA DA PRIMAVERA

JORGE NUNO
Dava gosto ver o entusiasmo com que o macho procurava atrair a fêmea. Estando ambos no chão, sobre o passeio toscamente empedrado do jardim, o pombo rodeava-a, incessantemente, até à exaustão. A sua plumagem eriçada fazia com que aparentasse um tamanho bem maior. Evidenciava uma bela estética e graciosidade nos seus movimentos corporais, como se se tratasse de um bailarino do Bolshoi. Destacavam-se os movimentos repetitivos com a cabeça, que inclinava, como que a querer dizer: “Ó p’ra mim tão bonito!”. Devido à distância e à minha falta de audição, não ouvi o natural arrulhar, habitual nestas circunstâncias, nem observei o alisamento das suas próprias penas ou da sua potencial parceira, especialmente à volta do pescoço e na zona da cabeça, sinal carinhoso e próprio do ritual de acasalamento. Mas, se calhar, nem teria que ouvir e ver, pois o entusiasmo ia só numa direção.Ela, parecia mais interessada em seguir um caminho predeterminado, quem sabe, para descobrir umas quaisquer migalhas de pão, deixadas no caminho, e mostrava-se indiferente ao macho atrevido. Este, ao fim de vinte longos minutos, provavelmente zonzo da cabeça, provocado pelo rodopio, ainda teve forças para se afastar, voando uns vinte metros. Fiquei a observá-lo, por breves instantes. Tinha poisado sobre a cobertura da casa dos apetrechos do jardineiro. Estranhamente, parecia calmo e pouco (ou nada) preocupado com o facto de ter falhado a tentativa de corte, sem rendição da fêmea. Pensando bem, ela também deve ter uma “palavra” a dizer, já que estas aves são monogâmicas, e ter borrachos de um pombo (ou estar com alguém) pelo qual não se sente nada, creio que deverá ser desagradável.

No banco do jardim, talvez influenciado pelo “filme dos pombos” acabado de observar, um indivíduo, que aparenta ser septuagenário e esforçar-se por ter algum vigor, encosta-se à sua companheira de uma vida e, de lábios estendidos, tenta roubar-lhe um beijo, sem sucesso. Ainda não percebi duas coisas: por que será que estas cenas, com casais que já têm umas boas décadas de vida em conjunto, os faz sentir ridículos, quando as experienciam em público; por que será que há uma reação adversa, tendencialmente por parte da mulher. Ela limitou-se a esquivar-se, usando os braços para o afastar e, enquanto exibia um sorriso, repetiu duas vezes, como que a querer justificar-se perante mim, que passava junto do casal: “O homem endoidou… o homem endoidou!”. Naturalmente, não parei nem fiquei a olhar, por razões óbvias. Mas fiquei curioso e, embora isso não me diga respeito, gostaria de ter podido analisar a expressão daquele homem. Admito que ele possa ter ficado, instantaneamente, mais desiludido que o pombo “cortejador”. Afinal, custa assim tanto retribuir um beijo, quando estão presentes duas pessoas que têm muita cumplicidade, companheirismo e partilham a vida a dois, como se fosse apenas uma única vida?

Mais à frente, noutro banco, encontravam-se duas adolescentes, por volta dos treze ou catorze anos. Uma delas – a mais “espevitada” – tinha cabelo arrapazado, faces excessivamente rosadas, próprio da idade e da brincadeira, e exibia a blusa desapertada e fralda de fora. A outra, de tez clara, tinha cabelos longos, feições mais femininas e um porte ousado para o seu perfil, como quem quer libertar-se da timidez. Ambas desassossegavam um rapaz, que aparentava ser ligeiramente mais velho. Faziam-lhe cócegas; metiam-lhe as mãos no farto cabelo, desgrenhando-o ainda mais; a mais discreta veio por trás e tapou-lhe os olhos, com alguma meiguice; imediatamente, a “Maria rapaz” deu-lhe uns empurrões, como que a querer despertá-lo da letargia e afastar a amiga competidora. Afinal, estavam duas raparigas a dar-lhe uma atenção a que ele parecia não estar minimamente interessado em corresponder. Ele, sempre de olhar fixo no smartphone, que manipulava conforme podia, ia alternando entre sopros dirigidos para o cabelo comprido, que lhe tapava a visão, de modo a afastá-los, e palavras de desagrado, que deixava escapar, praguejando em puro vernáculo (que dispenso aqui a sua reprodução), mas apenas refiro que se a cena estivesse a ser filmada e viesse a ser exibida na televisão, teria, forçosamente, de ter uma bolinha vermelha no canto superior direito do ecrã, ou muitos piiiiii sobre os imensos palavrões proferidos! Até que ele decide, repentinamente, arrumar o telemóvel no bolso de trás das calças largas e de cinta descida. Já em pé, agarra na mochila e dispara, em passada larga, em direção ao portão do jardim, logo seguido de ambas as raparigas. Estas duas “pombinhas”, numa atitude diferente da do citado pombo rejeitado, denotavam uma atração pelo rapaz, e não pareciam minimamente interessadas em desistir daquele “borracho” ou “pãozinho”.

Já fora do jardim, num ponto estratégico com muito movimento de peões, encontrava-se um indivíduo de aspeto pouco ou nada cuidado, de barba por fazer, e cuja idade se devia situar nos trinta e pouco, mas até podia andar na casa dos vinte. Estava sentado sobre um cartão e, à sua frente, tinha o fundo recortado de uma garrafa de plástico, contendo poucas e pequenas moedas acastanhadas. De repente modificou-se o seu ar pesaroso, inspirador de piedade. Levantou a cabeça e, sem sair do lugar, seguiu embevecidamente a jovem empregada do café, que trabalha ali perto. Neste dia soalheiro e primaveril, tinha saído à rua sem a bata e sem o casaco, e exibia os seus fortes atributos, despertando os sentidos a qualquer mortal. A menos que se desse uma grande reviravolta, por agora, este jovem, na primavera da vida, apenas poderia sonhar. Não sei se ele sabia quem foi Steve Jobs ou se conhecia a frase inspiradora que proferiu: “Cada sonho que você deixa para trás, é um pedaço do seu futuro que deixa de existir”. Também eu fiquei a sonhar acordado. Tive um desejo fremente para que este jovem arribasse e pudesse reconstruir o que parece torto, preparando [no seu coração] a terra fértil, cultivando o melhor e poder vir a florescer para a vida, com oportunidades, confiança e alegria, consciente da capacidade da mente em operar milagres. É que o desabrochar é espectacular, na mforça da primavera!

sexta-feira, 25 de março de 2016

RESPONSABILIDADE PARENTAL

ANA LEITE
Numa situação de divórcio e existindo filhos é sempre necessário falar sobre o exercício das responsabilidades parentais. E se existem temas que nunca se esgotam, este é um deles. O que se propõe fazer é, escrutinar de uma forma mais simples, este conceito jurídico muitas vezes tão confuso e ambíguo. 

O primeiro passo é perceber o que são as responsabilidades parentais. Para o nosso sistema judicial, e nos termos do 1878.º do Código Civil, é da competência dos pais, e no interesse dos filhos, velar pela segurança e saúde destes, prover ao seu sustento, dirigir a sua educação, representá-los e administrar os seus bens. É este o conceito de responsabilidade parental que hoje em dia se aceita no nosso sistema judicial. 

O exercício das responsabilidades parentais em caso de divórcio (ou separação judicial de pessoas e bens ou declaração de nulidade ou anulação de casamento) é exercido em comum por ambos os progenitores. Assim, depois do divórcio, os pais continuam a partilhar as responsabilidades parentais, a menos que o tribunal decida o contrário. É importante referir o seguinte: o exercício conjunto porém, refere-se apenas aos “atos de particular importância”; os “atos da vida quotidiana” caba exclusivamente ao progenitor com quem o filho se encontra.

A lei dá como assente que, em caso de dissociação familiar, o exercício conjunto das responsabilidades parentais mantém os dois progenitores comprometidos com o crescimento do filho. E disto isto facilmente se percebe que, o Ministério Público não pode conferir parecer favorável a um acordo de regulação do exercício das responsabilidades parentais em que contenha a decisão de atribuir em exclusivo a um dos pais o exercício das responsabilidades parentais. Porém, caso o juiz entenda que o acordo acautela o superior interesse da criança ou do jovem, homologa o acordo de regulação das responsabilidades parentais.

O superior interesse da criança é princípio fundamental a observar no que respeita à regulação das responsabilidades parentais. Contudo, nem a lei nem os instrumentos internacionais definem o que deve entender-se por “interesse da criança ou do jovem”. Por se tratar de um conceito jurídico indeterminado, o princípio só adquire relevância quando referido ao interesse de cada criança ou jovem, em concreto. No fundo, significa este conceito, o dever de adotar a solução mais ajustada ao caso concreto, de modo a oferecer as melhores garantias de desenvolvimento físico e psíquico da criança, do seu bem estar e segurança e da formação da personalidade.

A audição de criança ou do jovem constitui uma das manifestações ou concretizações desse superior interesse. O legislador considerou que partir dos 12 anos, tem a criança maturidade e desenvolvimento psíquico e moral para decidir ou fazer parte do processo de decisão de questões que lhe digam respeito. Para concretizar este direito à palavra e à participação, o juiz deve providenciar em garantir a existência de condições que assegurem uma adequada audição da criança, designadamente evitando ambientes intimidatórios, hostis, insensíveis ou inapropriados para a idade da criança, os procedimentos sejam acessíveis e ajustados à condição de criança, ter presente a importância da existência de informação amiga da criança, o apoio para a representação por advogado, a intervenção de operadores judiciários com formação adequada, as características da sala em que é ouvida, a não utilização de traje profissional e a existência de sala de espera adequada.

Importa perceber que os pais são sempre titulares dos poderes parentais dos filhos. Nunca deixam de ser titulares desse direto (a não ser por morte ou em caso de adoção). Porém, a violação dos deveres parentais pode implicar a possibilidade do tribunal, e só este inibir os pais do exercício das responsabilidades parentais ou limitá-los nesse exercício.

Naturalmente que o tema não se esgota aqui, e dificilmente se explica um conceito jurídico com tão poucas palavras, apetece no entanto terminar com uma provocação do Código Civil: “os filhos devem obediência aos pais; estes, porém, de acordo com a maturidade dos filhos, devem ter em conta a sua opinião nos assuntos familiares importantes e reconhecer-lhes autonomia na organização da própria vida.

GERAÇÃO PRECÁRIA

GABRIEL VILAS BOAS
A precariedade no emprego é um dos grandes flagelos das sociedades atuais. Ano após ano, atinge cada vez mais pessoas, porque as teorias neoliberais fizeram, sem o dizer, da precariedade um elemento fundamental das relações laborais.

Em Portugal, por exemplo, cerca de 80% dos novos contratos são precários. É um número assustador! O grande problema da precariedade moderna é que foi feita para se tornar permanente, sem que tal fosse absolutamente necessário, mantendo o trabalhador num estado de pressão psicológica e à mercê de propostas imorais e indecentes.

Ao contrário do que se diz, a precariedade não assenta só e sobretudo numa lógica económica. As melhores empresas mundiais não mantêm com os seus trabalhadores esse tipo de vínculo laboral nem as economias de referência assentam o seu desenvolvimento nesse paradigma laboral.

Qualquer patrão sabe que o precário é um sobrevivente e que aceita aquelas indignas condições laborais por necessidade. Poucos patrões investem na formação profissional de um precário, os salários são os mais baixos do mercado, os direitos mínimos (e ainda assim aldrabados). É claro que estes empregadores apenas pretendem usar aquela mão-de-obra barata, por algum tempo e deitá-la fora à primeira contrariedade ou oportunidade de negócio. O precário é um número, não uma pessoa. Dá imenso jeito para enriquecer em tempos de prosperidade e é extramente fácil de alijar em tempos de vacas magras.

Na minha opinião, os precários são mais vítimas do novo ordenamento social que se pretende criar do que consequência absoluta da globalização. A democratização dos regimes políticos, a educação das sociedades e a constante circulação das pessoas entre países fizeram crescer no ser humano um sentimento de liberdade e igualdade que se tornou intolerável e perigosa para muita gente habituada a privilégios injustificados. Ora, antes que esses privilégios fossem discutidos corpo a corpo no competitivo mercado laboral havia que criar uma cintura de segurança que impedisse esses jovens lobos de ascender aonde o mérito os levasse. Não é por acaso que a precariedade atinge essencialmente os jovens.

As gerações que se empregaram no tempo do trabalho para toda a vida “lamentam imenso” a situação aviltante dos precários, mas não fazem nada para a alterar, pois sabem que isso significa abdicar um pouco das suas regalias, dos seus direitos adquiridos, dos seus ordenados incomparavelmente superiores. Tratam de silenciar a voz daqueles que reclamam, reduzindo ao máximo a discussão mediática do tema ou lavando as mãos do problema como Pilatos, acusando a iníqua globalização de todos os males. Não é totalmente verdade! Há claramente uma luta surda de gerações pelo rendimento do trabalho, mas com armas desiguais e objetivos diferentes – uns lutam pela manutenção de privilégios, outros aspiram a um trabalho com salário e direitos condignos.

Provavelmente vamos continuar a aprofundar este modelo de sociedade injusto, em que uns são lobos e outros cordeiros; onde uma ou duas gerações será sacrificada. Tornamo-nos demasiado egoístas e perdemos a visão periférica, onde a inteligência combinava sempre com solidariedade e humanidade.

O precário é uma espécie de clandestino laboral e social que empurramos para longe. Há-de crescer, provavelmente, na mágoa de quem o impediu de seguir os seus sonhos. A mágoa pode enrijecer caracteres e criar riqueza, mas também endurece corações que tornarão solitária e precária a nossa velhice.

quinta-feira, 24 de março de 2016

NANDINHO, O CAÇADOR DA ALDEIA

HÉLDER BARROS
Fernando, mais tratado na sua freguesia e no seu grupo de amigos, conhecidos e familiares, como Nandinho, foi sempre um solteirão, com uma vida condizente com tal estado civil. Viveu sempre com os seus Pais, só saíndo de casa para emigrar temporária e recorrentemente para a França ou Alemanha, sempre que o trabalho faltava e o dinheiro escasseava. 

Fora isso, era um “bon vivant”, boa figura, filho varão, com duas irmãs, nunca lhe faltaram mulheres pretendentes, mas por um motivo ou por outro, nunca nenhuma lhe prendeu o coração, de forma a que este se casasse com alguma. Aventuroso por natureza, gostava de entusiasmar muito as mulheres durante o período de cortejamento e, concretizados os seus intentos primários, ou não, depressa se aborrecia e procurava outra. E diz o povo e bem, “quem muito escolhe acaba sozinho, ou pouco acerta” e assim aconteceu com o Nandinho... foi ficando pela casa de seus pais e aí viveu para sempre. Com setenta anos de idade morreu a sua Mãe e ele manteve-se no seu lar acompanhando o seu Pai quase com oitenta anos. 

Como fazia umas horas no trabalho na restauração e bar, sem horário fixo, tomava conta da lida diária da casa, com grande facilidade e simplificando como os homens quase sempre fazem, ou seja, sem o esmero de uma mulher. Além dos cafés, onde gostava de ver futebol, jogar cartas ou simplesmente conversar com os amigos, tinha o vicio das mulheres e da caça, sendo que com o avançar da idade, o último começou, cada vez mais, a sobrepor-se ao primeiro... a lei da vida não perdoa! 



Todas as quintas feiras e domingos lá arrancava ele no seu velho jipe acoplado ao seu atrelado de caça, cheio com os seus cães e seguia com alguns amigos caçadores para trás-os-montes, onde verdadeiramente se divertia. Dia da caça, dia de natureza, de companheirismo, de diversão na busca da presa, no jogo do gato e do rato, de algum excesso gastronómico e alcoólico. Ali ele estava plenamente feliz, numa atividade de homens duros e que gostam dos montes, das serras, das geadas, das neves, dos ventos e de grande confraternização. O dia de caça era como que um paroxismo existencial, o zénite da diversão deste homem simples, mas com os seus requintes muito próprios. 

Uma vida de boémio, de eterno solteiro, contribuiu para o envelhecimento precoce de um homem. Noites mal dormidas, uma alimentação desregulada, uma vida com poucas rotinas, nunca é muito saudável e tem um preço que se paga com a saúde. Sempre se ouviu dizer, desde antanho, que homem bem casado é homem bem tratado, com uma garantia de longevidade média bem maior do que a opção celibatária. 

A degradação física e psicológica de Nandinho começou a ser notória, por volta dos sessenta anos de idade, com problemas de diabetes, intestinos, coração, aos quais se recusou sempre a tratar, pois a vida na sua concepção ontológica, não suportava a ideia de doença, sofrimento e do tratamento inerente. Sempre que um cão se feria, Nandinho, sabia o que fazer com a crueza da sua arma; disparava e pum, já estava. Para ele não existiam equações complexas, era em tudo sempre sim, ou, não; queres ou não queres; vais ou não vais… 

Tinha um sobrinho e afilhado deficiente mental que lhe cuidava de forma prestimosa dos seus animais, facto que muito agradava a Nandinho, pelo que este quase todos os dias, invariavelmente, dava uma volta com o sobrinho de jipe, levando-o ao café, prestando-lhe uma atenção que este muito apreciava. No fundo compreendiam-se bem um ao outro, dado que o sobrinho adorava ajudar o padrinho nas tarefas de caça e adorava ajudar a treinar os animais. 

Um dia Nandinho não se conseguiu levantar da cama, tendo o Pai e irmãs ligado aos bombeiros que o levaram para o hospital. Depois de muitas horas de observação, os médicos traçaram um diagnóstico negro, que só podia ser resolvido com uma operação à próstata e intestinos, com fortes probabilidades de um problema oncológico em estado muito avançado. 

Nandinho que sempre fora independente, livre e que só assumia os compromissos que queria, concebia a vida numa perspetiva hedonista, não quis aceitar a sentença que os Doutores lhe traçaram e decidiu resolver a situação à sua maneira… Pediu à telefonista do hospital que lhe chamasse um táxi e veio para casa pelo final do dia seguinte ao da entrada na instituição de saúde. Chegou a casa, não dirigiu palavra ao velho Pai e ancião, que assustado nem reagiu, pois já pressagiava nos seus pensamentos algo de muito mau. Nandinho dirigiu-se calma e serenamente à arrecadação, arrancou todos os adesivos, cateteres e tubos que trazia no seu corpo, pegou na sua arma favorita, carregou-a cuidadosamente, mas com convicção, como num ritual, apontou-a à cabeça e disparou… escusado será dizer que, acima do seu tronco, só restaram pedaços de carne e ossos envoltos em sangue! 

No início da década de oitenta do século passado, assisti enquanto miúdo ao filme “O Caçador”, com um elenco de luxo e recheado de jovens atores o que contribuiu particularmente para a qualidade de vencedor de Óscar de Melhor Filme do ano: Robert De Niro, John Savage, Cristopher Walker e Meryl Streep, entre outros, apresentaram um desempenho que leva o espetador para uma dimensão, de uma forma que potencia a percepção daquilo que as personagens sentem em cada momento. O filme divide-se em dois grandes momentos, e se isto é poderoso no início, em que são dadas a conhecer as personagens e o que as une e as distingue, este elemento torna-se ainda mais central quando a ação se desloca para um cenário de guerra e posteriormente para um de tortura e luta pela sobrevivência. 

O filme começa de forma lenta, como se fosse uma situação social: primeiro conhecem-se os anfitriões, depois mais umas pessoas que vão surgindo e depois sim, inicia-se a ação já com todos estes elementos em mente e, no fim, resta dar a conhecer como cada personagem lida com as suas memórias, traumas e cicatrizes – físicas e psicológicas. Aqui, na segunda metade de “O Caçador”, encontra-se o que torna este filme merecedor do prémio máximo da academia – a capacidade de dar a perceber várias dimensões, em profundidade, da mente humana, não só em uma, mas em várias personagens simultaneamente. Isto faz com que este filme possa ser qualificado quase como que um ensaio sobre a condição humana, nas suas forças e fraquezas, e aquilo que no final, realmente une e divide os seres humanos. Depois de assistir a este grande filme que me interpelou de forma marcante, ao nível das diversas formas e vivências com que a condição humana pode ser confrontada; não me sinto com moral nenhuma para julgar o Nandinho, igualmente caçador, como a personagem de Robert de Niro no filme supracitado. Nem alvitrar teorias da conspiração, ou sentenças, carregadas de lugares comuns. A condição humana de cada ser é formada pela condicionante do meio físico e social, das instâncias e das circunstâncias da sua vida. 

Penso que só nos conhecemos verdadeiramente, no medo e na coragem, na ação ou inação, na perspetiva de viver ou de morrer, na fome ou na fartura, em suma, em situações limite. No filme referido e de que muito gostei, existe uma analogia clara entre a relação do caçador de veados, representado por Robert de Niro, e as suas presas; com a sua situação de cativeiro no Vietname, em que os vietcongs obrigavam os prisioneiros, que neste caso eram igualmente amigos de infância a jogarem à Roleta Russa, enchendo o tambor do revolver até alguém tombar e ser atirado para um monte de cadáveres. Quem é o caçador, quem é a caça, questão muito relativa na nossa vida, mesmo que não seja em situações limites. 

E tudo isto a propósito do Nandinho caçador… a nossa vida tem muito que se lhe diga, e em poucas palavras, não sei explicar melhor. A propósito, a personagem que o Robert de Niro representou, também regressou a casa tranquilamente, mas não se suicidou, voltou para o Vietname para um decisivo jogo de Roleta Russa, com o seu amigo de infância que ficou lá e se viciou neste jogo mortal; por ironia do destino viria a morrer na presença do seu melhor amigo. O caçador quando voltou foi caçar, teve um veado debaixo da sua mira, mas não conseguiu disparar... mais uma cena marcante do filme. No filme a banda sonora também é uma experiência que vale a pena viver; para mim, o cinema e a música são duas formas de arte que quando bem combinadas conseguem transportar a nossa mente para outros universos... 

Há muita gente iludida, arrogante, cega pelas circunstancias favoráveis da vida; pessoas que nunca são capazes de prever o quão débil é a sua condição humana… entre a vida e a morte, existe um limite muito frágil, numa fracção de segundo tudo se pode alterar, portanto sejamos ao menos, mais humildes e não nos levemos tanto a sério, é o mínimo, digo eu! 

“O infinito é ele menos o metro em que avultamos; a eternidade é ela menos a hora em que vivemos.” ― Teixeira de Pascoaes»

A ARTE DE SER FELIZ

CATARINA PINTO
Esta crónica surgiu numa manhã cinzenta, em que eu desfolhava uma revista cor-de-rosa e esboçava um sorriso precisamente pelas dicas para se conseguir uma vida feliz… Garanto que as dicas eram fáceis de seguir… mas a minha mente ao chegar a conclusão que na arte de ser feliz não há dicas infalíveis… A partir dai as questões foram surgindo como uma cascata… e assim se alinhava a crónica da nossa Bird Magazine de hoje… A arte de ser feliz será ela acertada ou não? Seremos mesmo felizes ou vivemos na eterna utopia de encontrar o País das Maravilhas? Adoro falar e escrever sobre a felicidade, o ser feliz e compreendido, o gostar e amar o reflexo que existe no espelho. Não adianta colocar palavras negras no nosso caminho. Algo que a vida me ensinou foi a “descomplicar” … é sem duvida a melhor solução… Ser feliz pode estar numa manhã de sol de Primavera ou residir num final de tarde de chuva caótica, pode estar num trecho de música ou nas palavras ruidosas de um poema. Para uns um mistério indecifrável para outros um enigma que prende toda a atenção… O melhor de tudo ainda é seguir o coração com a razão pela mão e ser feliz….

quarta-feira, 23 de março de 2016

SOU CORAJOSA, MAS TENHO MEDO


ALINA SOUSA VAZ
Os dias que correm carregam o semblante da tristeza. Adormece-se com um peso nos ombros e o acordar fustiga de imediato a madrugada de dolência profunda.

As imagens repetidas até à exaustão do atentado em Bruxelas, os “frames” do horror sofrido das vítimas, que como nós levavam as suas vidas, não me deixam mais forte, e não me deixam mais corajosa. Sim, eu sei que a vida tem que continuar e que só sairei vitoriosa se continuar a viver. Mas não me digam para não ter medo. 

Eu tenho medo!

Cada imagem repetida leva-me a uma observação mais atenta e o pormenor esclarece o peso de cada palavra proferida de angústia, os gestos do amor que beija como se fosse a última vez, a coragem dos pais que se agarram aos filhos como se os seus braços fossem escudos às suas mortes. 

Eu tenho medo! 

Hoje, sentámo-nos todos à mesa e rimos com choros pelo meio. Fui à escola do ninja receber as avaliações finais de período, saí de lá orgulhosa. Novamente em casa, observo-os nas brincadeiras, nas brigas de irmãos. Observo-os, sugo-os e cresço com cada palavra que lançam como se nada significassem no meio de tantas outras: “mãe princesa”, “rainha”, “olá”, “és a mais bonita”, gosto de ti”… Eu tenho medo, sim! Tenho medo de perder tudo isto, porque sou filha, mulher e acima de tudo Mãe! 

Eu tenho medo!

Medo da realidade presente que nos assola e da ideia de um futuro sangrento. Bruxelas é a cidade de um país central que recebe e acolhe a maioria das instituições europeias. Fontes revelam que Bruxelas albergava as células mais importantes do Daesh e o país, na sua proporção, tem o maior número de jiadistas no autodenominado Estado Islâmico. Como pode acontecer isto desta forma, num país que é informado sobre estas ações? Somo protegidos por quem? Quando acontece estas tragédias, todas as potências se dizem unidas. Mentira! Continuaremos separados com base nos interesses económicos do armamento e petróleo. 

Cartazes anti-terroristas aclamam que nunca haverá medo perante gente que atenta a vida baseado em ideologias fundamentalistas. Eu sei que os terroristas alimentam-se deste medo! Eu sei que este sentimento inibidor e de retração aumentam a perceção de ameaça. Eu sei! Mas não sei sentir de outro modo, porque a política existente trata de tudo menos das pessoas. 

Tenho medo!

Mas eu sei que a melhor maneira de combater este medo é seguir em frente e respirar coragem, mesmo que a sombra do medo te persiga. Olhar cada manhã e senti-la no café da manhã, no trabalho, no leva e traz dos ninjas à escola, nas partidas de futebol da criançada e no sorriso bom entre os que me rodeiam. 

Eu tenho raiva, sentimento que me faz reagir, sou corajosa, mas tenho medo!

SER IDOSO NA NOSSA SOCIEDADE

JORGE MADUREIRA
Verifico que os idosos são pouco protegidos. Aqueles a que chamamos de “velhos” mais não são do que pessoas na idade da sabedoria.

Escrevo agora porque estava a ver uma reportagem sobre idosos e da sua vulnerabilidade face às vendas agressivas de que são alvo. Quem os protege? É necessário estar muito atento a este tipo de predadores e agiotas.

Mas existe também muita hipocrisia. Ainda há dias via algo que me custou a ver. Uma estrela de algumas décadas atrás a ser criticada por usar biquíni “estava velha para usar biquíni”, diziam. Todos os que agora fazem esse tipo de comentário e apreciação pensam que isso não acontecerá com eles?

Além de maus tratos (a que assistimos serenos) muitas das vezes, ainda são vítimas de preconceitos.

Assim como juventude não é privilégio, velhice não é defeito. Todos devem ser respeitados, respeitar o tempo de cada um.

Ouvimos notícias que nos dão conta de idosos que morrem sem que ninguém dê por isso. O peso da solidão a que se assiste deve ser de uma dimensão indescritível….

Deve ser um problema de consciência colectiva, pois acho que tratamos mal o envelhecimento. É necessário que haja uma maior consciência de ajuda.

Existe várias formas de violência nos idosos: violência conjugal, violência por parte de filhos e netos (toxicodependência, álcool, delinquência), entre muitas outras. A crise económica que vivemos também contribui para aumento da violência. Ela pode ser física, violência psicológica e financeira.

Com a esperança de vida aumentada, o número de idosos multiplicou-se, mas a sociedade não se organizou como deveria para eles, com justo respeito e consideração por a sua fragilidade e claro, a sua dignidade.

Verifico que enquanto jovens, somos induzidos a ignorar a velhice, como se fosse um mal a mater à distância. Quando ficarmos velhos, nomeadamente se somos pobres, doentes, sozinhos, testamos lacunas de uma sociedade programada sobre a eficiência, que por consequência ignora os idosos. Não sabemos tratar e estimar os idosos. Eles são uma riqueza, não devem, não podem ser ignorados. 

A forma como se trata os idosos diz tudo da qualidade de uma sociedade. Que lugar lhe reserva a sociedade. Temos lugar para os idosos? Há atenção para os idosos? É necessário que os idosos não sejam simplesmente descartados porque criam muitos problemas e despesa.

É um dos grandes desafios da sociedade contemporânea. Os filhos diminuem, os velhos aumentam. Existe cada vez mais uma cultura de lucro, assim sendo, os velhos são um peso. São um fardo. Cresce nos idosos a angústia de serem mal suportados, logo, abandonados.

Os idosos são mulheres e homens, são mães e pais que nos deram muito e de quem recebemos muito. O idoso não é um ser estranho. É um de nós. Se tratarmos bem um idoso, assim seremos tratados. Se não há honra para os idosos, que futuro têm os jovens?

Os idosos precisam de ser vistos como cidadão comuns. Precisam de ser tratados de igual modo e não de caridade. As pessoas que lidam e convivem com idosos deveriam estar (altamente) preparadas, e saberem o que acontece quando a pessoa envelhece. Nunca se deve isolar nem deixar isolar um idoso.

Amanhã todos seremos velhos.

terça-feira, 22 de março de 2016

O HOMEM NA SUA INUMANIDADE

Hoje vou escrever sobre cães.

REGINA SARDOEIRA
Sim, esses, os nossos fiéis amigos, os melhores amigos do homem. Acontece que, ao escrever sobre eles, e na medida em que eles jamais lerão as minhas palavras, acabarei por escrever sobre os homens. 

Muitos gostam de ter um cão. E adoptam um desses animais, dizem que entrou mais um membro para a família, dão-lhe nome próprio e apelido, educam-no, exibem as habilidades que o novo filho, filha, irmão ou sobrinho consegue fazer, e assistimos a verdadeiros excessos, em que o dono beija o cão na boca e o leva com ele para a cama, o enche de brinquedos e roupas e mantas e cestos como se ele fosse um bebé e ainda ao progressivo desinteresse, à medida que o animal cresce e já não é tão engraçado ou ainda, quando a sua natureza canina se revela e o cão se torna inconveniente e é necessário prendê -lo, castigá -lo, ostracizá -lo para fora da habitação e, no limite, atirá -lo para a rua, num local afastado e assim o retirar da sua vida para sempre. 

Todos sabem que este tipo de situações ocorre, um pouco por todo o lado, e isso diz muito acerca da nossa humanidade. E quando olho um desses cães, soltos por aí, vagueando a esmo, de olhos baixos ou então fitando-me com uma expressão dorida e um apelo mudo, ou observo o ar feroz com que me ladra aquele ser poderoso que um dono (cobarde?!) mantém acorrentado num espaço exíguo ou aquele outro, encolhido na sombra de um muro, à chuva e ao sol, de noite e de dia, a proteger de roubo bens inestimáveis, tenho vontade de alijar de mim o rótulo humano e ir ser cão, com todos esses, organizando uma revolta contra os donos. 

George Orwel escreveu uma ficção, justamente intitulada O Triunfo dos Porcos, no contexto da qual os animais de uma quinta, liderados pelos porcos, se revoltam contra o dono, conquistando todos os seus privilégios. Pode concluir-se que, no final, os porcos e os restantes animais não criaram um mundo mais justo ou harmonioso para eles mesmos, conduzidos à sua liberdade. O certo é que, despertando para a consciência da sua opressão, e não tendo ate aí uma concepção de classe, só conseguiram reproduzir o que aprenderam com os antigos donos, criando, para eles, uma sociedade tão injusta quanto a primeira.

Regressando aos cães, sobre os quais escrevo hoje, vejo perfeitamente que estes espécimes, das mais variadas raças e sub raças, cruzados e sobrecruzados para satisfazerem caprichos daqueles de quem vão ser os melhores amigos não têm já os instintos selvagens que lhes permitam sobreviver, quase humanos que são e ainda cães, algures numa zona intermédia onde a consciência é larvar e a dependência do homem que o domesticou e manipula representa a sua verdadeira natureza. 

É, pois, uma obrigação moral que os homens tomem realmente conta desses seres amáveis e capazes da fidelidade, não como se eles fossem da nossa espécie, mas na sua especificidade animal. Para que desapareçam das ruas esses despojos famélicos e carentes, para que os canis se desentupam, para que não se pratique neles a eutanásia que ainda relutamos em aceitar para nós, para que nos tornemos dignos das qualidades que eles, os cães, estão dispostos a pôr ao nosso serviço incondicionalmente. 

Quis escrever sobre os cães, os nossos, os civilizados. Passei por eles, de leve; e afinal creio ter escrito um texto breve sobre o homem e a sua frequente inumanidade.