segunda-feira, 7 de março de 2016

A PALAVRA ESCRITA: UM OBJECTO DE ARTE E COM ARTE

«ARTE E SENSIBILIDADE

1) Toda a arte se baseia na sensibilidade, e essencialmente na sensibilidade.

2) A sensibilidade é pessoal e intransmissível.

3) Para se transmitir a outrem o que sentimos, e é isso o que na arte buscamos fazer, temos que decompor a sensação, rejeitando nela o que é puramente pessoal, aproveitando nela o que, sem deixar de ser individual, é todavia susceptível de generalidade, portanto, compreensível, não direi já pela inteligência, mas ao menos pela sensibilidade dos outros.

4) Este trabalho intelectual tem dois tempos

a. intelectualização directa e instintiva da sensibilidade, pela qual ela se converte em transmissível (é isto que vulgarmente se chama "inspiração", quer dizer, o encontrar por instinto as frases e os ritmos que reduzam a sensação à frase intelectual (...)

b. a reflexão crítica sobre essa intelectualização, que sujeita o produto artístico elaborado pela "inspiração" a um processo inteiramente objectivo - construção, ou ordem lógica, ou simplesmente conceito de escola ou corrente.

5) (...).»

Fernando Pessoa, in "Carta a Miguel Torga, 1930"
________________________

ALVARO GIESTA
Escrever, para mim, depois de vencido o tenebroso pânico da página em branco, esse grande obstáculo que tantos tortura antes de por eles ser vencido, torna-se quase como um fluxo imparável de palavras que jorram como a mágica fluidez da respiração até onde algo desconhecido, na minha sensibilidade, me faz parar e voltar atrás num processo de leitura crítica sobre o que até aí escrevi, para ver se o que deixei escrito possui a qualidade necessária à minha exigente satisfação, como escrevente, e à minha ainda mais exigente satisfação, como o leitor que me leio antes de me dar a ler aos demais leitores. Mas, estes "demais" leitores não significam, para mim, o leitor comum que se satisfaz com a notícia banal do mais vulgar jornal ou com obra escrita dos vulgares "escritores" hoje muito em voga, que a submetem ao leitor sem que sobre ela tenham feito, antes, um cuidadoso trabalho reflexivo e crítico. Os leitores para quem penso as minhas obras, são aqueles que construtivamente me criticam exigindo, de mim, a maior das perfeições.

Dir-me-ão, de certeza (e quase adivinho quem o dirá), que é tão válida, como arte, a coisa feita - aqui "coisa" significa obra escrita - sob impulsos não pensados sem um mínimo de trabalho de intelectualização num processo de leitura atenta, reflexiva e crítica, do que foi escrito antes de ao leitor mais atento, e crítico também, a dar a conhecer, como a que, antes de a transmitir a outrem, «por necessidade orgânica» a reflectimos e criticamos, não só a obra como a nós mesmos, escreventes, com nova elaboração «sobre o já elaborado». Só assim se fará arte!

Este "pensar e voltar atrás" para me ler num processo de decomposição do texto a fim de sobre mim mesmo, e à minha escrita, me auto criticar, não anula nem bloqueia a minha sensibilidade, vontade e decisão sobre aquilo que me propus escrever - porque previamente o estabeleci -, tão-pouco tem por objectivo ferir a inteligência e a sensibilidade dos outros: sejam escritores, sejam leitores. Este meu processo reflexivo e crítico, de mim mesmo e da minha escrita, tão colado ao meu método de escrever como a derme à epiderme, não visa dizer aos outros que sou melhor que eles, como muitos ousarão pensar.

Este processo tem apenas um objectivo: tornar a palavra escrita um objecto de arte e com arte, raciocinando-a antes, durante e depois de a ter debitado no papel.

Porque é num trabalho de intelectualização constante, de aperfeiçoamento exaustivo retirando o supérfluo, o acessório, o pessoal (este, sem deixar de ser individual num processo de definição de estilo), rejeitando o instinto, ou seja, o que surge instintivamente no processo da escrita sem à mesma voltar para a tal análise reflexiva e crítica, que a arte nasce. Dificilmente o objecto da arte se tornará arte apenas no e do movimento primevo que lhe deu o ser. Porque, para ser arte, a palavra tem que ser, em primeira mão, sujeita à crítica intelectual de quem a escreve: não basta ser, tem que «dever ser». E isto porque dificilmente há génios resultantes de impulsos: também eles, os génios, exercem sobre a sua obra de arte, para que seja arte, operativos trabalhos de intelectualização.

Podia arvorar para mim e como se meu fosse, e genuíno, também, este modo de pensar a escrita; porém, isso seria usurpação injusta de coisa alheia porque, efectivamente, e aqui fica bem expresso, a minha escola está nos ensinamentos dos grandes mestres que leio com enlevo.

Ora, toda esta prelação visa os artifícios da palavra na poética com arte:

1. seja o poeta o "engenheiro da palavra" elaborando-a com alguma secura de linguagem e rigor construtivo, negando aquilo a que chamam "inspiração" - a vulgar "inspiração" que os vates atribuem às divas e às musas - porque, na verdade, inspiração não é mais do que criatividade intelectualizada: ou seja, converter o sensível no intelectual de ordem a que o leitor no seu movimento crítico de leitura veja, no que lê, arte;

2. seja o poeta sem alma que constrói poemas frios sob o rigor da razão, como o eram os concretistas dando valorização ao fim da poesia intimista, ao desaparecimento do eu-lírico, ao fim do verso e da sintaxe tradicional, valorizando a desmontagem das palavras incorporando-as na arte da montagem do poema, dando-lhes aspectos geométricos;

3. seja o poeta da busca e da interrogação, o poeta da procura e da tentativa de resposta neste tempo desabitado, indagando, sem revelação nem encantamento - à "inspiração" das musas inventadas, aqui me refiro -, mas com raciocínio, fazendo da poesia um trabalho intelectual, aquilo a que eu chamo um pacto-não-lírico;

4. seja o poeta sentimental que põe arte nos versos que o coração dita - mas não aquele que apenas constrói poesia ornada de chavões líricos cansados de já o serem tanto e gastos de tão repetidos, oscilando entre a falta de rigor construtivo com mestria e o excesso de retórica.

Ao ler-me, perplexo estará o leitor nesta altura, pensando que eu apenas defendia um tipo de poesia: a minha que, afinal, não é minha. A que eu escrevo, depois de a deitar ao mundo, ao mundo pertence.

É que, caro leitor, a poesia deve funcionar como um pêndulo - já de alguém o ouvi ou li e, ao mesmo, reconheço razão:

· um dia oscilará para o rigor da filosofia e da razão ou da ausência de uma e outra, como nos anos cinquenta com essa corrente de vanguarda em que três poetas "loucos" do país irmão acreditaram que a poesia era fruto de um trabalho mental e do esforço que implicava em refazer o texto várias vezes até que ele atingisse a sua forma mais adequada, excluindo dele, e redondamente, tudo o que fosse emoção e sentimento;

· outro dia aprofundará a palavra, crítica, racionalmente e com maturidade para conquistar a arte e a estética: será a obra do engenheiro da linguagem geometrizada e exacta que leva o poeta, antes do seu leitor, a reflectir nesse mistério da criação literária;

· outro dia, ainda, ela oscilará para a poesia do coração hesitante entre os olhos que veem mas também sentem e o coração que muitas vezes é forçado a sentir sem sentir coisa nenhuma, sem a grande aspiração ao reconhecimento que o rigor da criação literária exige.

É entre os limites deste movimento pendular que moldo a minha poesia sempre na tentativa de a tornar arte. Umas vezes me revelo um poeta quase sem alma em poemas frios, racionais, como que medidos sob o rigor da fita métrica e do compasso: isso é evidente em obras já publicadas como sejam "Meditações sobre a palavra", "Um Arbusto no Olhar" e "O Retorno ao Princípio"; outras vezes, ainda que o coração esteja presente no rosário de palavras, ele se ausenta do exagero usual do lirismo repetido para não cansar nem banalizar o tema cantado: isso é evidente no meu livro "Onde os Desejos Fremem Sedentos de Ser", no opúsculo "Oblíquo é o tempo" e noutros poemas que publico por aí e cujo tema é o eterno feminino.

Sem pretender fazer ruir os edifícios poéticos que por aí proliferam, uns construídos e outros em fase de construção, no seu excesso de lirismo, pretendo demonstrar que o acto de escrever poesia deve ser um trabalho de constante catarse e depuração. Controlar o fenómeno poético é o que eu proponho com as obras que vou escrevendo, se bem que outras leituras se possam fazer e diversas conclusões tirar da minha obra deixada escrita.

Em homenagem singela a Ramos Rosa, o poeta do rigor absoluto, defendo que se pode e deve dar novo uso à palavra poética, um uso que não seja apenas lírico, onde o «artefacto rigoroso da busca» e da construção e emprego da palavra no todo do edifício poético, dê verdadeiro sentido intelectual à obra construída. É que fazer poesia, é: reflectir, organizar, construir e integrar; duma forma lógica e justa, sonhando, mas materializando e intelectualizando de forma racional.

domingo, 6 de março de 2016

A RE(EDUCAÇÃO) DOS PAIS

MIGUEL GOMES

É impossível não olhar para as crianças e sorrir convencido que se não crescerem serão o futuro. Mas temo, temo pelos pais (e que legitimidade tenho eu?), pelo sistema de deseducação, pela sociedade que lhes vai pedir tudo aquilo que eles não precisam. Mas, para já, ainda longe da idade de espreitarem as etiquetas das roupas, embora a idade das marcas e tipos de telemóveis tenha vindo a diminuir, vão sentando-se no chão, atirando uns piões moderníssimos (que a TV lhes vai vendendo), rindo-se das solas dos chinelos mais desgastadas, o joelho que se apoia no empedrado chão e se esfola, os risos, tudo vai ecoando pela entrada da tarde como um claro regato de água corrente que não vai a lado algum.

Fecho a porta do carro, pé na embraiagem, ligo-o, puxo o cinto de segurança num gesto automatizado e destravo-o, nada caiu, óptimo. A rádio, perdão, as rádios, debitam (vomitam) as mesmas músicas, as mesmas notícias, hoje nem a música clássica me apetece ouvir e os CD's são também os mesmos, sempre. Desligo o rádio, nada caiu do carro, óptimo. Arranco e vou retirando ruídos e barulhos, um a um, até sair toda a capa encardida e lodosa que se foi entranhando ao longo de um dia e ficar apenas o som dos putos a atirar os peões. De repente é como se a meu lado surgisse um puto, calções gastos e joelhos esfolados, com um baraço na mão e, na outra, um pião de madeira, ouvindo o som que a minha memória vai debitando, os piões de plástico e metal a zunirem no chão, a claquearem uns nos outros e, ele, ali, esbugalhado, sem saber como ali foi parar e sem saber o que fazer com o pião que tem na mão, de madeira, com aquela ponta de metal frio, que faz cócegas quando rodopia velozmente na palma da mão.

É pouco provável chegar a casa e ligar a televisão. 

A futilidade hoje em dia parece grassar, espalhar-se como uma doença. Já não chega aquela que nasce em nós e que, na sua dose de erva daninha aceitável, se tolera, mas ainda se tem que receber, quase forçadamente, doses e doses de vazio, de sons articulados sem qualquer pejo pelo que se diz, com o único objectivo de sharingar, de ganhar espaços e audiências. Quando mais cruel e fria, quanto mais impacto aquele soco invisível nos causar melhor, quanto mais a pessoa se ache vítima, ainda que por simpatia, do que lhe é fornicado aos ouvidos melhor. E este movimento replica-se, em casa, na rua, nos transportes, no trabalho, quanto mais impacto, quanto mais visceral a anunciação melhor e assim nos vamos alimentando, de vísceras e vazio, até percebermos que, afinal, quando pensávamos estar a comer, estávamos a dar de fome a quem de tudo, até dos sonhos, se apodera lentamente.

E é assim, belicamente, que vou declarando morte ao vazio. 

Na minha trincheira só cabem umas côdeas, pão, boroa, regueifa, seja lá o que for, água, uma licorada bem preparada, seja lá qual for, e uns quantos piões, amanhados ao canto. Mantenho a cabeça baixa, nunca se sabe o que poderá surgir por aí, o tempo vai quente, consta que vai ser pior do que foi, se for mais quente, foi pior, se for mais frio, foi ainda pior, restam-me as nuvens, o Sol, a Lua, as estrelas e as fotografias de todos os bocadinhos de pessoas com gente dentro que vou guardando, emoldurando, atafulhando o que sou porque tenho medo, vá-se lá saber porquê, de deixar algum espaço de vago onde o vazio possa vir e fazer lá seu visceral trono.

Chego a casa. Já não recordo de onde saí, por onde passei, o que vi. Estaciono na rua, desligo o carro, nada caiu, óptimo. Coloco novamente a chave na ignição para fechar os vidros, vão subindo e chiando, como que resmungando e compreendo-os, afinal, quando fechados são eles que levam com o barulho do vazio. Tiro a chave, engato o carro, puxo o travão de mão, nada caiu, óptimo. 

Saio ainda a tempo de ouvir a sirene dos bombeiros a baixar o tom, cansada dos constantes avisos de risco elevado de incêndio que lhe fazem prever noites de arreliação e esforço em levantar da cama os já cansados corpos dos bombeiros. Já depois de fechar a porta vejo-o. 

Abro novamente o carro. No banco do passageiro um pião e o baraço, desembaraçado, desenleado, escorrido do banco até ao chão. 

O correio nada deixou, entro no prédio, fecho a porta com cuidado e vou subindo os degraus enquanto tacteio aquele bocado de madeira torneado pelas mãos de alguém ou de ninguém, que embora possamos conhecer que o torneou, poderá esse torneador não se saber. 

Entro em casa, pouso chaves, carteira, pão, trocados, tiro os sapatos da forma que a minha mãe sempre disse para não os tirar e vou andando até chegar à sala. Sento-me no sofá, inclino-me e pouso o pião no chão, agarro o baraço, encosto-me e fecho os olhos para me deixar sorrir enquanto os sons dos putos, os risos, tudo vai ecoando pelo final de tarde como um claro regato de água corrente que não vai a lado algum.

sábado, 5 de março de 2016

OFENSA À DIGNIDADE DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE

ANTONIETA DIAS 
A segurança de um território e da soberania passa obviamente pela segurança humana. O conflito para a obtenção de uma segurança político e social tem vários pilares nos quais se englobam os aspetos preventivos da preservação da vida, cuja visão global carece da resolução dos focos de insegurança nacional e internacional das crises que possam colocar em causa valores intocáveis como são os direitos humanos. 

Num conceito alargado de soberania existe a necessidade de aplicar arte e engenho nas decisões que visem garantir a segurança do Estado, a segurança da Sociedade, a segurança das populações e a segurança individual.

Sem dúvida, que haverá necessidade de implementar medidas de segurança preventiva, com envolvimento de fatores e de poderes do Estado que não colida com a liberdade e respeito individual dos cidadãos.
Assim, a resposta às ameaças transacionais associadas à fragilidade dos Estados e das sociedades passa naturalmente por uma atuação abrangente, multissetorial, assente em cooperações bilaterais e multilaterais dos povos neles envolvidos.

A sociedade é um sistema complexo estruturado de inter-relações sociais que unem indivíduos de forma coletiva de acordo com uma cultura partilhada entre o conhecimento fundamentado e as decisões claras sobre os destinos da vida humana.

O direito à vida e a preservação da dignidade humana, não podem ficar sobre um véu enevoado de conceitos pouco esclarecidos e em caso algum devem ser objeto de interpretações e decisões determinadas por decreto. 

Existem aspetos sociais que são intangíveis, como sejam as crenças, as ideias, os valores, a cultura cujas linhas de conduta podem ser ameaças aos desafios que teremos de vencer.
Sem dúvida, que existe uma estratégia, que se baseia na ciência e arte de promover a luz final de uma organização, destinada a estabelecer e hierarquizar objetivos dirigidos cuja meta final é salvar a vida.

Nos múltiplos fatores que possam surgir perante a crise de valores, todos temos noção de que é Sagrado o Direito à Vida e que o Homem não deve alterar o destino e evolução natural da sua existência.
Certo é, que alguns aspetos estruturais que procuram definir objetivos destinados a resolver a curto, medio e longo prazo o ciclo natural da vida humana, mesmo que isso implique praticar o homicídio, justificando este crime como um bem para aliviar o sofrimento das pessoas, não é licito que se faça.

Mas será que quem mata está preocupada com o alívio do sofrimento humano? 

Certo é, que a probabilidade de teorização da crise de valores socias que colocam em risco a vida humana é uma estratégia global que abrange a gestão económica e as suas implicações político / estratégicas que determinaram comportamentos de ameaça, colidem com valores e interesses e conduzem à formulação de objetivos prioritários de uma sociedade puramente materialista. 

Esta crise deve ser entendida como algo de permanente que pode estar mais próximo da destruição da humanidade à luz de uma necessidade simplicista, egoísta, fundada num racionalismo económico, passando a ser uma ameaça à segurança individual e social.
Os litígios, diferenças, dissensões entre a paz absoluta e a guerra absoluta têm um limiar muito curto de atuação.

O medo que normalmente vai sendo subjacente às populações cujas vidas ficam à mercê de um decisor que pode ou não ser político e à imprevisibilidade das suas determinações faz com que vivamos numa ameaça permanente, cuja questão estrutural deixa de ter sentido na nossa vida e destrói as funções vitais de uma sociedade humanista e personalista.

Sem dúvida, que Portugal tem resposta para os impulsos e para os acontecimentos mais fraturantes em situações de normalidade constitucional, passando rapidamente a um Estado de emergência cujo exercício de poder terá obviamente de respeitar o direito constitucional.

Todavia, esta noção de equilíbrio e sustentabilidade social carece de sabedoria e senso para frenar algumas mentes menos conhecedoras, que pela sua influência institucional pretendam adulterar conceitos e valores, desinformando o cidadão menos esclarecido que à luz do sofrimento apenas vislumbre uma saída nos diversos caminhos e labirintos que existem na sua vida.

Claro que os meios de comunicação social e sobretudo a televisão, cujo mediatismo e acesso mais ou menos fácil, pode servir de veículo de conceitos menos claros e de mensagens com maior ou menor disrupções que se não forem devidamente filtradas poderão ser interpretados como as únicas verdades no caso em apreço.

A complexidade que cabe numa visão estratégica associada aos fatores da atividade humana, cuja escalada de jogos e de desafios pode acabar com o equilíbrio do ecossistema , do crescimento da população e da permanência do homem na terra.

Todos nós necessitamos de bons sistemas de informação para que a atuação do homem seja o motor e o harmonizador da natureza humana.
Tem efeito, nos Estados e nas sociedades em que a decisão política gera espaço para a conflitualidade, origina naturalmente crises sociais, económicos e ambientais, deixando de ser um Estado de Paz e passa a ser um Estado de insegurança, com disrupção critica grave no equilíbrio interno e/ou externo da sociedade.

É nestes padrões que estamos a falar de crise cujos fatores intangíveis como o medos dificultam a reposição da normalidade, deixando de garantir as funções vitais básicas da sobrevivência humana com dignidade. 
A Soberania de um Estado de Direito obriga a estar atento aos fatores desestabilizadores para os conseguir eliminar, corrigindo os erros, desenvolvendo e criando metas de forma a reduzirem-se vulnerabilidades e a reforçarem -se potencialidades obtendo o nível social e humano digno de um País livre, desenvolvido e de bons costumes. 

Cabe ao Homem erudito, respeitar e implementar medidas assertivas cujo domínio será dirigido para o pilar de planeamento civil em todas as áreas, que visem manter a segurança e defesa nacional, para que os movimentos de democratização, de transições políticas, sociais e económicas qualitativamente e temporalmente abaixo das expectativas das populações não prejudiquem e muito menos tenham repercussões sociais globais que coloquem em causa a segurança e desenvolvimento da humanidade.

O aproveitamento destas liberdades que não existiam nas sociedades ditatoriais, não devem colocar em perigo a reforma do setor de segurança individual, da segurança do Estado e da cidadania.

As instituições são os pilares do Estado de acordo com as normas democráticas e dos princípios de boa governação, sendo o objetivo institucional fortalecer e criar lideranças credíveis e sólidas para que o desenvolvimento social seja fundamentado e faça parte integrante de um setor cujo processo final é manter o respeito e a dignidade profissional.

Respeitar a população sem descriminação e com total respeito pelos Direitos Humanos e pelo Estado de Direito, disponibilizando recursos e apoiando as capacidades de cada um é um dever de todo e qualquer cidadão.

Um Estado é considerado frágil quando as estruturas estatais apresentam um défice da vontade política, cujo Impacto irá incidir sobre as famílias, sobre a adaptação estratégica da sobrevivência gerando situações de resiliência que irá detiorar a entreajuda humana.

Outro pilar é o da estratégia de desenvolvimento socioeconómico que origina fragilidades nos Estados e nas sociedades favorecendo rotas menos adequadas que não protegem a segurança individual, criando situações de precaridade na capacitação das instituições, cujo conhecimento é o não saber o âmbito da segurança da defesa e da justiça social.

A construção de uma estratégia abrangente na reconstrução politica tem atores e instrumentos com doutrinas estruturadas e adaptadas, cuja janela de oportunidade desenvolve aspetos importantes no progresso e no desenvolvimento social das populações.

A visão estratégica de defesa e segurança nacional e internacional procura sensibilizar, motivar, redimensionar, modernizar clarificar, estabelecer a dignidade, reforçar as capacidades do setor da justiça mobilizar recursos na sociedade com tutelas interinstitucionais que visem a manutenção da justiça, da paz e do respeito pela lei e pela vida Humana.

Apenas as pessoas qualificadas são capazes de ajudar a construir soluções ao mais alto nível.
Um modelo credível de política séria com atuação do ponto de vista da crise estratégica é o único meio que consegue criar uma organização / instituição de confiança individual e social.

Se a confiança se quebrar não há estabilidade política nem social e muito menos Humana, sendo que ela é essencial para abrir e fechar janelas de oportunidades que são vitais no desenvolvimento social.

A missão é abrir um foco, com gestão de crise no ponto de vista estratégico na estabilidade política e no desenvolvimento social e económico com pessoas devidamente qualificadas para não se enganarem no caminho e que consigam explicar precocemente os detalhes da sua intencionalidade com debates percetíveis para a população que precisa de ser esclarecida, sendo o cujo objetivo ajudar a compreender e não confrontar ou hostilizar.

A questão da informação pública e o sucesso para uma missão tem de ser identificada atempadamente, com um quadro ajustado às realidades do país em causa e com definição das estratégias de saída na resolução dos problemas inerentes.

Garantir a segurança de quem sai e deixar instrumento para garantir a qualidade mínima para garantir a estabilidade social, fazer parte dos deveres de solidariedade social.

O mundo está melhor que estava apesar de todas as crises de segurança cooperativa, mas não podemos deixar esquecer a defesa do território e da soberania.

Em suma a Eutanásia é uma situação identificada, que não levanta surpresa numa sociedade fragilizada, que deve estar atenta ao aparecimento da aceleração rápida na queda dos direitos humanos com posições avassaladoras que poderão transformar o sofrimento da humanidade, numa determinação de morte antinatural.

Será que se está mesmo preocupado com o alívio do sofrimento humano?

Ou será que se pretende transferir o conflito social e cultural de um sistema económico sem saída para dar uma resposta com tentativa de reposição de regimes angustiantes, que criam um vazio que até agora não existia.

O alerta deve ser permanente para não sermos confundidos, com a identificação da liderança que não foi capaz de avaliar o estado final da humanidade. 

Estados frágeis conduzem a ruturas fraturantes.

Não é praticando o homicídio que se implementa a estabilidade social, nem se melhora o poder económico.
Estados colapsados são Estados falhados, são Estados frágeis economicamente cuja  vulnerabilidades e pontos fortes e básicos no exercício da governação irão dar prioridade aos domínios empobrecedores da humanidade.

Mais importantes que colocar etiquetas no Estado é resolverem com transparência e responsabilização dos recetores o drama da destruição da vida humana.

sexta-feira, 4 de março de 2016

AS ARMADILHAS DA VIOLÊNCIA FAMILIAR

RODRIGO LAPA (15 ANOS)

GABRIEL VILAS BOAS
violência familiar é um tema chocante e doloroso para qualquer sociedade. Infelizmente, os portugueses têm sido insistentemente sacudidos por notícias dilacerantes sobre mulheres mortas por maridos ou companheiros, crianças alvo de abandono, maus tratos e, agora, mortas, presumivelmente, por gente que devia cuidar delas.
Desgraçadamente, a expressão “violência doméstica” tornou-se um eufemismo, porque aquilo com que nos deparamos frequentemente são homicídios.

A violência em meio familiar têm crescido assustadoramente, especialmente no que ao grau de monstruosidade diz respeito, deixando a população perplexa e assustada, até porque verifica que os motivos dos crimes são quase sempre insignificantes.

A violência familiar é um problema muito difícil de atacar pela sociedade, pois é cometida, regra geral, por um membro da família descontrolado sobre outro familiar, sob forma de coação física, psicológica, emocional e económica.

O que o crime de Portimão, ocorrido durante esta semana, vem revelar é que não é preciso um grande historial de desavenças para levar alguém à insanidade criminosa. Outra conclusão devastadora que podemos tirar é a da premeditação. Quer no caso do jovem algarvio quer noutros casos dados a conhecer pela comunicação social, percebemos que estes crimes foram minimamente planeados, de modo a ocultar provas ou a atrasar a investigação ou a proporcionar a fuga dos assassinos.

É assustador constatar como existe instinto assassino à solta na sociedade portuguesa. Tanta gente capaz de matar ou deixar matar aqueles que lhe são próximos por uma qualquer sem razão.

Não deixo de pensar como a destruição familiar tem tornado a sociedade fria, insensível, desumana e violenta. Quando as relações terminam, os filhos tornam-se um problema que se quer varrer para debaixo do tapete, especialmente quando atrapalham as novas relações que os progenitores querem assumir. Se a isto adicionarmos a natural rebeldia da adolescência e o pouco tempo que os adultos passam com as crianças e adolescentes, temos um contexto potencialmente perigoso. A voragem das coisas quotidianas, a falta de compromisso afetivo, o pouco investimento feito no diálogo minam os laços familiares.
Apesar de uma monstruosidade ser uma exceção, a sua repetição, cada vez mais frequente, revela sintomas preocupantes.

Evitar uma tragédia como a de Portimão é também saber ler sinais, acompanhar casos problemáticos, alertar pais e mães para as várias armadilhas que as vias rápidas da vida têm.

quinta-feira, 3 de março de 2016

COMO A SAÚDE ORAL PODE REDUZIR RISCOS DE DOENÇAS GRAVES

LARA RIBEIRO
A saúde oral é determinante para a existência de uma boa saúde geral, assim como para o bem-estar psicológico e social de cada um de nós. Quando uma pessoa não goza de boa saúde oral, existe um desequilíbrio que, mais tarde ou mais cedo, acabará por se manifestar, já que a saúde oral se reflete na qualidade de vida e na sua longevidade.

Estudos comprovam que pessoas com uma boa higiene e saúde oral têm menos risco de ataques cardíacos, de AVC (acidente vascular cerebral), de contraírem Alzheimer e Diabetes tipo II. Quem diria…Nunca tinha pensado nisso? Há pessoas que não imaginam que ligações deste tipo existem. “Um dente furado”, “gengiva vermelha e a sangrar”, podem prejudicar a este nível? Podem mesmo! 

É importante pensarmos na nossa boca como um órgão que é, simultaneamente, de importância fundamental para o equilíbrio do nosso corpo e uma porta aberta à entrada de centenas de bactérias para o nosso organismo! 

A saúde oral é também muito importante no aspeto psicossocial: mau hálito, “dentes tortos”, dentes escuros, falta de dentes… Estes são, normalmente, fatores que inibem as pessoas de sorrir, de dar uma boa gargalhada, de sair à rua, de namorar, de arranjar emprego, etc. Uma boca saudável facilita a comunicação e a interação com os outros.

Infelizmente, em Portugal a percentagem de desdentados parciais ou totais é ainda muito elevada. A falta de dentes tem como consequência a deficiente mastigação dos alimentos, o que dificulta todo o processo de digestão dos mesmos e leva, muitas vezes, ao aparecimento de problemas de estômago. 

A dentição completa e bem posicionada (mordida e alinhamento dentário) são também muito importantes para o equilíbrio postural do nosso corpo. Um dos exemplos dessa importância está nos atletas que necessitam daquela condição para maximizarem o desempenho na sua atividade. Ou seja, é-lhes exigida uma boa saúde oral para terem um desempenho e performances à altura das suas ambições.

A forma mais barata de tratamento que existe é sempre a PREVENÇÃO! Consultas regulares ao Médico Dentista, idealmente de 6 em 6 meses, podem evitar muitos problemas de saúde oral, pois se as patologias forem detetadas numa fase inicial, são facilmente resolvidas. Evita-se a dor, o desconforto, o stress de arranjar uma consulta com urgência, faltar ao emprego e pagar um tratamentos mais caro, como uma desvitalização, por exemplo. Se tratada numa fase inicial, uma situação destas teria uma solução diferente: passaria, quem sabe, pelo restauro do dente, já que a cárie poderia apenas ainda ter afetado o esmalte.

Queria dizer-vos, a propósito, que a cárie é contagiosa e se existe um dente com cárie é muito provável que comece a afetar os outros dentes! Logo, prevenir é a melhor solução. 

A saúde oral está ao nosso alcance. Basta querer! O seu médico dentista pode orientá-lo(a), na obtenção do equilíbrio geral em termos de saúde, conceito com que iniciei este texto.

UM SEX-SHOP RURAL

HELDER BARROS
Uma moça das aldeias das terras de Basto, conhecida por Maria Bonita, desde muito nova, sempre gostou de dar nas vistas, quer pela sua beleza natural, quer pelo seu temperamento um pouco intempestivo e com uma personalidade muito marcada, nem sempre pelos aspetos mais positivos; enfim, desde miúda, uma jovem muito temperamental e pretensamente dominadora nas mais diversas situações.

Desde cedo, por volta dos catorze anos, começou a namorar um rapaz com quem mais tarde haveria de se casar, praticamente a seguir ao momento em que atingiu a sua maioridade. Escusado será dizer que, o seu relacionamento foi sempre marcado por muitas discussões, avanços e recuos, com Manuel Góvias, uns sete anos mais velho que ela. Mas, Maria Bonita, com o seu temperamento de jovem fêmea denominadora e caprichosa, de mais vale quebrar do que torcer, gostava de dominar as situações, ou de ficar sempre por cima, salvo seja!

Manuel Góvias, trabalhador da construção civil como manobrador de máquinas, era desde novo, um emigrante no México, onde trabalhava há muitos anos. Assim, depois de casar a sua vida continuou como antes; praticamente um mês em Portugal e os restantes a trabalhar na América do Sul, onde além de laborar muito, se divertia aos fins de semana, com as mexicanas “calientes”.

Maria Bonita, a mais nova de cinco raparigas, já veio como se diz na aldeia, fora de tempo, portanto foi sempre a menina querida, habituada a contornar as situações e a conseguir os seus intentos, através do seu charme de jovem bela e caprichosa, do seu feitio irreverente e possessivo; aliás os progenitores queriam muito um rapaz, mas saiu-lhes uma moça de pelo na venta, como se costuma dizer.

No seu percurso escolar, algo atribulado, depois de ter frequentado cursos de educação e de formação, cursos profissionais grupos de características problemáticas, Bonita sempre se conseguiu safar, quer copiando, quer enganando os professores das formas mais incríveis que se possa imaginar. Tinha no seu sorriso e no seu olhar penetrante e enigmático, nas suas cenas de mimo, sedução e de capricho, como fórmulas para contornar as dificuldades.

Basicamente, estava habituada a ter tudo o que queria, na sua relação com a Escola, com o Namorado, com os Pais, com o Rancho Folclórico local e com as suas amigas e amigos. Desarmava-os com o seu charme feminino, mimo, cenas de orgulho, amuos e outras diatribes, saindo sempre com o seu sorriso vencedor e olhar penetrante.

O Manuel Góvias, ganhava muito bem para o nível de vida português e era um ótimo marido para responder às exigências e caprichos de Maria Bonita. Por incompatibilidade de feitios andavam sempre zangados, o que Bonita usava sempre em seu favor, conseguindo tirar partido das reconciliações temporárias. Parte do tempo não se falavam, quer presencialmente, quer à distância. No entanto, foram o casal sensação da aldeia: O Manuel Góvias e a Maria Bonita. Apesar de bem casada, ela foi trabalhar para um supermercado, onde não tinha vida muito fácil, pois além de ter uma relação precária com a instituição, o ritmo de trabalho era muito forte, mormente para os novatos, a quem atribuíam as tarefas mais complicadas e onde ser colega, não significava, nem pouco mais ou menos, ser amigo de alguém. Num ritmo de autofagia dominante, cada um tentava escapar e subir na profissão de formas mais ou menos honrosas. Naquela selva, nem o capricho de Bonita se conseguia impor... o que a deixava amargurada!

Também pela sua idiossincrasia, não tinha amigos, pois todos absorviam a sua alegria enquanto precisavam dela, mas rapidamente a esqueciam e ignoravam, logo que já tivessem retirado dividendos da sua energia positiva, de menina que andava sempre com um sorriso no rosto e a fazer das suas. Praticamente, quase nenhuma das amigas do tempo de escola, mantinha a relação de amizade anterior com ela. Sempre se aproveitaram dela, gostavam do sorriso de Bonita, da sua alegria, da sua natural tendência de tomar a iniciativa e de contornar dificuldades que ela tinha sempre revelou; mas, no fundo; invejavam-na, só queriam aproveitar a sua alegria e energia, que não tinham… por isso a odiavam e a desprezavam inexoravelmente!

Maria Bonita estava a ficar cansada daquele stress da vida ativa, para o qual não estava preparada, mas o seu desgaste maior era de índole psicológico, dado que estava habituada a comandar as operações, ficando de repente aprisionada de uma forma quase lancinante.

Por outro lado, o Manuel Góvias, começou a pressionar Bonita para que esta pensasse em ter um filho, facto que ela não pretendia, pois era muito nova e queria curtir a vida, pelo menos era o que dizia a todos os que a interpelavam nesse sentido. Afinal, é perfeitamente normal, numa aldeia, moça casada, criança esperada…

Ora Bonita é que não achava piada nenhuma à ideia e mais, como não estava a gostar do seu trabalho, retomou uma ideia que sempre guardou na sua ingenuidade simples, passe a redundância: abrir uma Sex-Shop nas terras de basto, pois era um nicho de mercado, segundo ela, por aproveitar, dado que não havia nenhum estabelecimento do género aberto ao público até à data; um autêntico filão por aproveitar, na sua forma simples de pensar.

Havia então que convencer marido, sogros pais e irmãos, e as personagens ainda algo retrógradas da aldeia, pelo menos assim o pensava ela, para esta sua ideia que ia abanar a mentalidade das terras de Basto e arredores, dada a sua inovação, sentido de modernidade e pelo seu amplo mercado potencial. Claro está que, em meios pequenos tudo se sabe rapidamente, ainda mais porque Bonita costumava pensar alto, falando nas reuniões de família, no Rancho Folclórico que continuou a frequentar e em todos os lugares, onde chegava a sua alegria. Marido, sogros, família e aldeia em geral, tudo se virou contra Bonita que depois de uma experiência com muito stress laboral, teve que se aguentar com o que de pior as pessoas são formadas. Foi por isso, muito maltratada, dentro e fora de casa, junto dos seus e dos outros, traída pela sua forma simples de ser, de querer, de fazer... e finalmente descobriu que, quase nunca se pode ter a vida que se quer, pois a envolvente ainda controla muita gente!

Fernando Pessoa: “Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir - é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.”

quarta-feira, 2 de março de 2016

PALACETE PINTO LEITE - AS RAÍZES CULTURAIS QUE NÃO SE PODEM PERDER

PALACETE PINTO LEITE
DR GOOGLE IMAGE

PAULO SANTOS SILVA
Será certamente desconhecido este nome para si, caro leitor. Muito mais, se lhe disser que originalmente era conhecido por Casa do Campo Pequeno. 

Embora o nome nos transporte para a cidade de Lisboa e para a conhecida Praça de Touros (também palco de espetáculos e musicais e outros eventos), esta residência burguesa do século XIX fica situada na cidade do Porto, mais propriamente na Rua da Maternidade. Se porventura alguma vez se dirigiu por algum motivo à Maternidade de Júlio Dinis, certamente lá passou e reparou na beleza do edifício. Mandado construir em meados do século XIX pela família Pinto Leite, acabou por ganhar o seu nome. Esta família, teve uma enorme importância social e económica na cidade do Porto e no país, tendo sido variadas as vezes que fizeram donativos em dinheiro e em bens às causas em prol dos mais desfavorecidos. Tinham, inclusive, linhagem da nobreza ostentando Sebastião Pinto Leite o título de Conde da Penha Longa e a sua esposa, Clementina Libânia Pinto Leite os títulos de Condessa da Penha Longa e de Viscondessa da Gandarinha.

O autor do projeto é desconhecido, mas pelo seu estilo que se poderá denominar de neopalladiano, percebe-se as influências da arquitetura inglesa da época, num claro contraste com a influência das belas-artes francesas, muito em voga na altura. Ao construir uma casa apalaçada desta dimensão, presume-se que Joaquim Pinto Leite pretendia um espaço onde pudesse receber com todo o conforto a família, incluindo os que não residiam habitualmente no Porto. Os quartos além de confortavelmente luxuosos, eram tecnicamente inovadores uma vez que já eram servidos de torneiras banhadas a ouro e sanitários em porcelana de Sèvres. A azulejaria que cobre o edifício, era originária de uma fábrica inglesa, a Minton, Hollings & Company, de Stoke-on-Trent.

A esta altura, certamente que já se interrogou acerca do porquê desta escolha para uma crónica. Fácil. É que a Câmara Municipal do Porto adquiriu este imóvel em 1966 aos herdeiros da família, para aí instalar o Conservatório de Música do Porto, instituição de referência do ensino da música na cidade do Porto e onde este cronista que vos escreve realizou grande parte dos seus estudos musicais. No entanto, o Conservatório de Música só ocupou as instalações em 1975, no período pós-25 de Abril, de uma forma no mínimo curiosa. Sabendo os alunos que o edifício lhes estava destinado e temendo as ocupações em que esta época foi tão pródiga, mudaram-se de “instrumentos e bagagens” para o mesmo. Deve ter sido uma das poucas vezes em que os pianos serviram para outros fins, que não apenas o tocar música… 

No entanto, tudo na vida tem o seu tempo e as instalações acabaram por deixar de ter as condições necessárias e suficientes para a função a que se destinavam, tendo o Conservatório mudado para as novas instalações em 2008, que resultaram da reabilitação da Escola Secundária Rodrigues de Freitas. Desde essa data, que o edifício se encontra devoluto.

Acontece que depois de várias tentativas, a Câmara Municipal do Porto conseguiu finalmente proceder à sua venda em hasta pública, pelo valor de 1,643 milhões de euros. Este valor, cerca de um milhão abaixo da avaliação feita em 2012, implica uma cláusula que obriga o comprador a dar-lhe uso num projeto de âmbito cultural e artístico. Nem de outra forma poderia ser, digo eu. As histórias que aquele local alberga, os milhões de notas musicais que ecoaram por aquelas paredes, por aquelas salas, por aqueles jardins, a isso obrigavam. Os músicos fantásticos que lecionaram e se formaram naquela casa, a isso obrigavam. Todos nós, os que por ali passamos, não o conseguiríamos certamente ver transformado em outra coisa qualquer. 

É da Cultura da Cidade do Porto, por isso, é nosso. Pelo menos um pouco de cada um de nós, os que lá estudamos e não só, porque a Cultura é de todos e não apenas de uma elite. 

Ficamos, pois, a aguardar o que o comprador com ele irá fazer, uma vez que se compromete a fazer do espaço “um ex-libris, que passará a fazer parte do roteiro cultural do Porto”.

terça-feira, 1 de março de 2016

QUANDO A COMUNICAÇÃO GERA A DISCÓRDIA

REGINA SARDOEIRA
A palavra comunicar faz parte do vocabulário deste nosso tempo, onde múltiplos meios parecem apostar nessa característica que, atendendo ao que conhecemos sobre a nossa espécie, representa a marca essencial do ser humano. 

Comunicar, estar com, ter em comum. 

Estas e outras palavras e expressões, indicam a necessidade humana de viver e conviver com os outros - e eis aqui um pleonasmo neste "conviver com", visto que o "com" é parte intrínseca do verbo "conviver": mas é assim que nos expressamos, reforçando a nossa condição comunicacional - e, desde o nascimento, que nos vemos envolvidos em grupos, mais ou menos amplos, para reconhecermos que pertencemos à humanidade e que esta funciona como um conjunto organizado de seres que interagem, fundamentalmente, através das palavras. 

Ora, custa muito perceber, admitir e sustentar que essa capacidade que nos estrutura e garante a nossa especificidade, no seio da natureza, seja, cada vez mais, um equivoco. 

Dispomos dos meios para sermos coesos, afáveis, solidários. Temos os mecanismos racionais e linguísticos para nos entendermos, no contexto da sociedade global que formamos e das múltiplas sociedades em que a língua, os costumes, a localização geográfica nos separaram, sem contudo inviabilizarem a comunicação. Somos, em toda a parte, seres humanos, provenientes, todos nós, de um tronco genealógico comum; e as nossas diferenças específicas não deveriam constituir obstáculo à comunicação e logo ao entendimento. 

Apesar disso, fazemos a guerra. E a guerra, sabemo-lo, pode ter muitas causas e visar muitos objectivos - mas representa, sem sombra de dúvida e em primeiro lugar, a falência da comunicação. Se os povos comunicassem entre si, elevando esta prerrogativa humana ao ponto máximo (ou seja: querendo entender-se à justa medida da sua humanidade), desnecessário seria, alguma vez, pegar em armas.

Os animais, ditos irracionais, envolvem-se em combates mortíferos, é certo. Mas não o fazem gratuitamente, ou por diversão ou por ganância, antes usam a força, o veneno, as garras ou a manha para garantirem a subsistência e o território numa natureza que, deste modo, lhes programou o ser. O homem, contudo, superou a besta - dizem. Engendrou em si a consciência (de si, dos outros e de si com os outros) e com ela arvorou-se em ser supremo da natureza. Não vive, na terra, confinado a um território, para além do qual se agigantam perigos ignotos, vindos de espécies ignotas. Não; por maiores que sejam as diferenças entre os homens, o certo é que somos todos homens e logo dotados de idênticas características, pelo que é sempre mais o que nos une do que aquilo que nos separa. E acima de tudo somos, estruturalmente, uma espécie engendrada na e pela comunicação. 

Se a guerra representa o absoluto logro comunicativo (e tem havido sempre guerra no decurso da história dos homens), outro tipo de discórdias se acende quotidianamente entre grupos sociais ou indivíduos particulares. 
Somos governados, em cada país, por outros homens, como nós, que ali estão para garantirem o êxito da sociedade a que presidem, por sua vez ligada a outras, também elas desejosas de sucesso. Se, ao que parece, os governos lideram mal os povos que deveriam conduzir à felicidade, fomentando, em vez disso, discórdias e radicalismos múltiplos, provocando a controvérsia e gerando oposições em lugar de compromissos, isso significa que degeneramos enquanto pessoas e já não sabemos liderar, permanecendo isentos. 

A outro nível, enchem-se os tribunais de processos, no seio dos quais, indivíduos se opõem a outros indivíduos em querelas infindáveis, onde as acções e os procedimentos em conflito são avaliados por outro indivíduo - o juíz - que produz sentenças de acordo com o que ouve e observa na liça artificial que são as salas dos julgamentos. No final, todos perdem, do ponto de vista humano - porque usaram o discernimento, a inteligência e as palavras para proferirem juízos, pelos quais condenam ou absolvem aqueles que desconhecem (permanecendo, todavia, tão humanos, como esses que até eles chegam para serem julgados). 

Há os pais e os filhos e as famílias, núcleo motor da sociedade geral. E contudo, os pais não sabem comunicar com os filhos e os filhos, tarde ou cedo aprendem a não saber comunicar com os pais; estes, por sua vez, se algum dia comunicaram entre si, esquecem-no a médio prazo e desentendem -se quotidianamente numa existência que uniram, exactamente, em ordem à comunicação plena. Irmãos da mesma criação, procedem, mais tarde ou mais cedo como desconhecidos, ausentes da sua comum identidade de raiz. 

Quanto aos amigos, se os há, eis que inúmeras vezes geram, entre si, equívocos e atritos, usando-se uns aos outros e traindo. E apenas como hiatos de excepção encontraremos a concórdia, o acordo, a colaboração. 

Afinal, o que é isso que deste modo nos divide, aniquilando a comunicação que subsiste em nós qual marca suprema do nosso ser humano? Julgo que necessitaremos de ir bem fundo, dentro do nosso âmago e do que constitui a história humana para captarmos o gérmen da discórdia que parece ter-se tornado, muito mais do que a comunicação, a marca privilegiada da nossa natureza.