sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

NOVOS CRONISTAS NA BIRD

O mês de fevereiro trará novidades para a Revista on-line BIRD. Para além do novo grafismo, ainda em fase de testes, dois novos cronistas juntar-se-ão à equipa dos cronistas residentes.

Brevemente

FOTO DISTORCIDA DOS NOVOS CRONISTAS

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

JOVEM CORAGEM

HELDER BARROS
Esta é mais uma estória, ou uma parte muito pequenina desta, sobre um menino, um jovem adolescente aparentemente normal, mas que me interpelou de forma fulminante, pelo seu Humanismo. Tratava-se de um jovem estudante do décimo ano de um curso profissional, numa turma com trinta alunos, ou seja, trinta nacos de vida que, para alguns deles se tornara bem madrasta. O seu nome é Michel, talvez porque o seu pai está há muito tempo emigrado em França.

Com o ensino obrigatório a subir para o nível secundário, as estórias de dramas entre os adolescentes, vão-se replicar inevitavelmente. Não que eu seja contra essa obrigatoriedade, não sei é se a nossa sociedade, organização escola incluída, estão preparadas para esta situação.

Mas isso sou eu a pensar alto! Quem sou eu, haverá certamente gente muito mais preparada para abordar esta problemática que se começa a sentir nas escolas portuguesas, com repercussões em toda a sociedade, afinal está tudo ligado, o todo social é um sistema de vasos comunicantes. 

Voltemos ao Michel. Este jovem perante a prematura separação dos pais e os problemas de saúde da sua Mãe, atinentes ou não, a tal situação, tem sido um exemplo de resiliência até limites impensáveis, para um adulto, quanto mais para um adolescente.

A Mãe em resultado de um esgotamento nervoso com várias repetições, de tal forma que nunca mais se equilibrou mental e fisicamente, era uma doméstica muito pálida e magra, quase parecendo um esqueleto com gestos automatizados, fruto das elevadas doses de medicamentos que ingeria, no sentido de, pelo menos se manter em pé, na sua luta diária contra o seu ímpeto de morte.

O pai, depois de manter um relacionamento breve com ela e de a ter emprenhado, abalou novamente para França, pois já lá tinha sido emigrante, abandonando à sua sorte uma mulher frágil e com uma criança no ventre, sem qualquer explicação, mas com muita violência diária nas vertentes física e psicológica. Ele bebia muito e era mulherengo, e, deste modo, foi fácil habituar-se a uma vida solitária, de muita bebida, trabalho temporário na construção civil e de relacionamentos breves.

Da mulher e do filho é que nunca mais quis saber, nem telefonemas, nem vindas a Portugal, não enviava um cêntimo que fosse tornando a vida do Michel e da Mãe, num autêntico inferno, para uma mulher que já tinha demónios que chegassem na sua cabeça e para um jovem que tinha que gerir o caos em que a sua vida se transformou. Quando um professor está imerso numa turma de trinta alunos, nem sempre consegue aperceber-se de pequenos sinais, que dizem muito. Ademais, Michel, apesar de ser extremamente magro e de uma palidez doentia, dava uma imagem de um jovem divertido e que socializava com muita facilidade. Contudo, prevalecia na sua maneira de ser, a sua prematura maturidade. Nunca exteriorizava a dor e a sua preocupação constante, o seu instinto permanente de proteção à Mãe. De resto, tratava-se de um rapaz extremamente educado, bom aluno e de uma cortesia já fora do comum, numa sociedade juvenil extremamente individualista e arrogante.

Então a vida do Michel era mais ao menos assim: praticamente não dormia, pois, a sua progenitora também não devido ao seu desequilíbrio nervoso; portanto estava sempre num estádio de vigília, fruto das variadas tentativas de suicídio da sua progenitora, que ele, quase miraculosamente sempre obviou de forma heroica. A mãe tentou-se esganar, tomar comprimidos em excesso, atirar-se da janela abaixo, mas sempre o Super-Michel conseguiu assistir a tempo de evitar qualquer tragédia.

Assim, a sua vida pessoal era uma tragédia, não dormia, mal comia, mantendo-se sempre alerta e atento para o seu mais importante desígnio: a vida da sua Mãe doente. Olhava-se para ele e não se conhecendo o seu historial de vida, ninguém diria, que este simpático aluno que tanto sofria e que tinha por baixo da sua capa de normalidade, um coração e uma atitude perante a sua vida sofrida, de Super-Homem.

Por muito mal que esteja a escola pública, esta ainda é um esteio social que funciona em consonância com a comissão de proteção de menores, permite reforços alimentares e acompanhamento psicológico a estes alunos; mas claro, perde nos rankings, para as escolas privadas. Para mim, Michel, nome ficcionado de uma história quase real, se não fosse a minha subjetividade natural, é um herói da escola pública portuguesa. Deveria pertencer a um qualquer quadro de mérito, mas isso pouco interessa à nossa sociedade, em que cada um vive virado para o seu umbigo e casos destes, não se enquadram em quadros de mérito convencionados para um putativo sucesso. Para os colegas, embora fossem quase sempre solidários, Michel era mais um, no meio de tantos e jamais vislumbrariam no sorriso tão simpático, qualquer problema familiar ou pessoal. Mas integravam bem o seu colega numa escola de que me orgulho, muito por estes casos com que me vou deparando... isto é serviço público, não são números!

Com o passar do tempo, os nossos Super-heróis da adolescência, aqueles que voam e tudo, são substituídos por seres humanos comuns na sua aparência, mas extraordinários na sua presença Humana... que grande lição de Vida que este Michel nos dá, vestida de uma simplicidade incrível! O que mais nos surpreende a todos os que querem ver, é que ele tem sempre um sorriso apaziguador para nós todos que lidamos com ele. 

E, numa altura em que cada vez mais pessoas fazem tatuagens de anjos na pele, criando o belo sentido estético, é bom saber que ainda existem anjos por dentro, revelando o Belo que há nos seres humanos, como nesta epifania aqui revelada.

Qualquer semelhança desta estória com a realidade... trata-se de pura ficção, pois já não devem existir seres assim tão nobres na sua simplicidade, na sociedade atual! Por certo, este personagem foi criado por um delírio de que fui acometido...

À ESPERA DA MORTE, AO LADO DO CANCRO

Cancro, palavra maldita que nos leva a refletir sobre a vida humana, o que é, o que fazemos cá e, sobretudo, qual a nossa missão, enquanto seres efémeros.

Susana Dias escreveu, em 2009: “durante este ano aprendi a ser uma doente oncológica. Nome maldito, o
Susana Dias rapou o cabelo em 2009
cancro tem um estatuto especial dentre as doenças temíveis. Mata milhões de pessoas por ano em todo o mundo, e muitas vezes de forma fulminante. Daí, (e apesar de nos últimos anos o desenvolvimento de novos fármacos permitir a cura e aumento da esperança de vida dos doentes) ser uma doença deveras estigmatizante, em que a sociedade sentencia o doente com uma pena de morte, nem que seja social. Por esta razão muitas pessoas evitam o doente, não querem incomodar, às vezes até mudam de passeio para não se cruzar com ele. Como a ignorância impera, vaticinam-se diagnósticos, preconizam-se tratamentos, idealizam-se fábulas médicas à distância do doente, e este, sem recurso, transforma-se em coitadinho, figura esquálida e macilenta, de olhos encovados, vivendo numa espécie de limbo. Este é o mau caminho.

É urgente ultrapassar preconceitos. É imperativa a aproximação ao doente, ele precisa de conforto e de apoio. A ideia de que se incomoda quem faz tratamentos violentos como a quimio protege mais quem não quer dar o primeiro passo, quem tem medo de quebrar barreiras do que quem está doente. A única opção para quem está ao lado de alguém doente é aproximar-se, sem medo, investindo no carinho, na transmissão de confiança, de optimismo para que o seu sistema imunitário afectivo o proteja da vulnerabilidade física intrínseca à doença. Porque o ser humano é estruturalmente um ser de diálogo, de comunicação, de relação com o outro, não deixemos que essa sua apetência se esgote nos momentos agradáveis e “fáceis” da nossa existência. Mais difícil mas, simultaneamente mais profundo e transformador, o encontro como outro em estado de doença, abre caminho a uma troca de experiências inefáveis, a um desvelamento de receios e angústias mas também de qualidades até aí desconhecidas, num caminho de auto conhecimento para ambas as partes. Não se confundindo apoio com violação de privacidade, o encontro com o doente, é um sublime gesto de amor.”

Em janeiro de 2015, a Susana dava conta da sua «última consulta», que ainda assim deixa marcas para a vida: “Quando saí do IPO, depois de receber a notícia da alta, o vento frio e a chuva fizeram-me apressar mas não resisti a voltar-me para um último olhar para aqueles edifícios que conhecia agora de modo tão familiar mas que em tempos me pareceram labirínticos. Nos meus olhos cabiam todas as memórias que guardo ciosa e silenciosamente daquele hospital onde vivenciei a ténue linha que separa a vida da morte”.

E quando o cancro não tem cura? E quando acompanhamos alguém às urgências hospitalares com uma ligeira indisposição e, chamados ao gabinete médico, na esperança de ouvirmos que se tratou de uma qualquer infeção, gastrite, quando, numa questão de segundos, vemos a presença da morte à nossa frente?
Até que a morte nos separe 
Relato médico: “Fizemos todos os exames de despiste e encontrámos já várias metástases no fígado, elucidativas de um cancro, algures entre o estômago e o intestino. A partir daqui, a medicina nada mais tem a oferecer em termos de cura, apenas no alívio da dor e do bem-estar do paciente, nestes seus últimos dias, horas de vida.”
Como dizer isso a uma pessoa extremamente lúcida, em plena faculdade mental? Impossível dizer, era como tirar um doce a uma criança, era contribuir para o agudizar do seu equilíbrio emocional, já dele debilitado.
Alguém que se senta ao nosso lado, diariamente, com uma cor pálida, um ar triste, onde temos de sorrir, quando só nos apetece chorar, onde temos que estar sempre presentes, quando nos apetece fugir para um lado, onde nos dissessem que tudo não passou de um pesadelo!
Cancro, palavra maldita, que vai tirar a vida a uma pessoa que era tão alegre, que já resistiu a tantos problemas, enfim…
Como levantar a cabeça, diariamente, quando não temos qualquer vontade para o fazer, onde sentimos sugarem-nos a energia positiva, envolvidos numa nuvem cinzenta, recheada de melancolia e dor?
Tentar entender a dor dos outros é fácil, o problema é quando ela recai sobre nós, quando sentimos que nos retiram o chão para caminharmos na direção da paz interior. Difícil, muito difícil…


(este texto foi escrito no âmbito do Dia Mundial da Luta Contra o cancro. Lembre-se, hoje é ele, amanhã pode ser você). 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

CHEGOU O GRANDE DIA DO CASAMENTO

PAULO SANTOS SILVA
Este nome, abreviado de Jakob Ludwig Felix Mendelssohn Bartholdy, muito provavelmente será desconhecido de uma boa parte dos meus leitores. Ou talvez não, como adiante se verá…

Mendelssohn foi um compositor, pianista e maestro alemão do início do período romântico, nascido na cidade de Hamburgo, no dia 3 de fevereiro de 1809. 

Nascido no seio de uma família judia notável (que mais tarde se converteria ao cristianismo), Felix cresceu num ambiente de intensa efervescência intelectual, ao qual não seria certamente alheio o facto de o seu avô ser um conhecido filósofo judaico-alemão da época. Sendo o seu pai um banqueiro, é fácil de perceber que terá procurado dar aos seus três filhos, a melhor educação possível. Ao renunciar à religião judaica, a família mudou-se em 1811 para a cidade de Berlim. 

Felix Mendelssohn foi considerado uma criança prodígio, tendo começado os seus estudos de piano aos 6 anos de idade, com a sua mãe. Terá começado os seus estudos de composição aos oito anos e composto a sua primeira obra (um quarteto com piano), aos 13 anos. 

Com 20 anos de idade e apenas alguns após a sua avó lhe ter oferecido uma cópia do manuscrito da Paixão Segundo São Mateus de J. S. Bach, Mendelssohn fez um arranjo da obra e apresentou-a pela primeira vez, desde a morte do compositor em 1750. O sucesso foi de tal ordem que lhe valeu o reconhecimento do seu talento, bem como levou a que a música de Bach passasse a ser novamente tocada na Alemanha e na Europa. 

A sua morte, tal como a de outros compositores já aqui abordados nestas crónicas, encontra-se envolta em algum mistério. Há uma tese que aponta para uma paixão não correspondida pela soprano sueca Jenny Lind, que terá recebido uma carta de Mendelssohn confessando o seu amor por ela e implorando que fugisse com ele para os Estados Unidos, ameaçando-a que caso não o fizesse, se suicidaria. Aparentemente, Jenny terá mesmo recusado e a carta terá sido destruída pelo seu marido. O certo é que alguns meses depois deste episódio, a 4 de novembro de 1847, com 38 anos de idade, Felix Mendelssohn estava morto.

A sua obra, inclui dois concertos para piano, um concerto para violino, cerca de 100 lieder (canções) e duas oratórias (São Paulo e Elijah), entre muitas outras. No entanto, aquela que terá atingido maior notoriedade, foi a suite Sonho de Uma Noite de Verão, onde se pode ouvir a célebre Marcha Nupcial que me faz duvidar se este compositor será assim tão desconhecido para os meus caros leitores.

Ora ouça, a ver se tenho ou não tenho razão…


Não queria terminar esta crónica sem parabenizar aquela que é, provavelmente, a mais antiga associação cultural em atividade ininterrupta em Portugal – o Orfeão do Porto. 

Fundado em 1910, completa hoje 106 anos de idade. Fui seu coralista e maestro assistente em variadas ocasiões. Fui membro do Grupo Etnográfico, onde integrei a tocata, fui dançador e ensaiador. Fui professor de Canto, na sua Escola de Música. Fui membro da Direção, como adjunto das Atividades Culturais. Parte da minha infância/juventude, foi passada nas mais diversas atividades do Orfeão, onde fiz amigos para a vida e com eles passei momentos inesquecíveis. 

Embora longe há alguns anos, sei que continuam de forma resiliente, a sua atividade em prol da cultura e da Cidade do Porto. 

Bem-hajam!!!

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A HONESTIDADE DE QUEM LÊ

REGINA SARDOEIRA
Existem sem dúvida muitos critérios para classificar as obras artísticas, uns, nítidos e precisos, outros, menos acessíveis à compreensão do vulgo. Há livros galardoados (falemos de livros) e autores erguidos às alturas da genialidade, e contudo escassamente lidos e compreendidos, e outros, que jamais ficarão na História da Literatura, e no entanto são chamados de best-sellers (porque muito vendem) e à custa dos quais riquezas e reputações se vão construindo.

Não irei falar desses critérios específicos, os dos críticos e analistas literários, nem sempre acessíveis, porque naturalmente técnicos, e os do leitor comum, quantas vezes enganado pelas falsas prosápias do escrevente. Mas tecerei alguns comentários sobre aquela que considero uma das características mais relevantes da obra literária, marca, por excelência, da qualidade extrema do escritor e que é a honestidade. Honestidade, simultaneamente intelectual e ética, honestidade, enquanto sinal da verdade intrínseca do texto, da assumpção dos limites e mesmo da narração marcada por elipses ou lacunas. Explicar-me-ei. A maior parte das vezes o escritor assume uma postura de omnisciência: ele é dono das personagens que cria, entra-lhes na pele e na alma e logo sabe tudo sobre os seus pensamentos, sobre o seu passado e futuro, sobre as suas razões, convicções e sentido da existência. É evidente que, se acontece tal omnisciência, é na exacta medida em que o escritor se multiplica nas suas personagens, elas são os seus alter-egos no todo ou na parte e, por isso, quando as retrata, é de si mesmo que, no fundo, o autor fala, é a si próprio, afinal, que ele traça um destino ou faz apelo a um passado. Não direi que esse tipo de narrativa não prime pela honestidade, desde que o autor admita que se retratou a si, disfarçado ou disperso pelas múltiplas pessoas que envolveu na trama: porque cada um de nós só pode falar de si e a escrita é um solilóquio, um enunciar-se ao mundo, usando este ou aquele disfarce, este ou aquele pretexto criativo, esta ou aquela metáfora inventiva. Porém, quando agora aludo à honestidade intelectual do escritor, tenho em mente uma obra que li duas vezes nas últimas duas semanas, uma obra a que apenas cheguei depois de a ter visto transposta para o cinema, e percebo que nunca antes tinha acedido a uma experiência de leitura tão autêntica, tão profundamente verdadeira, tão parecida com a vida, nas suas antíteses, nos seus conflitos, nas suas omissões, e de onde está absolutamente arredado o carácter de omnisciência do escritor que nos fala na primeira pessoa, mas que nem de si parece conhecer a chave perfeita que conduziria o leitor ao seu retrato fiel, enquanto personagem da história.

A obra tem o título simples de O Leitor (Der Vorleser) e foi escrita por Bernard Schlink, escritor alemão, não particularmente conhecido entre nós, mas subitamente presente nas livrarias depois do (relativo) sucesso do filme homónimo. A história é aparentemente vulgar: na Alemanha dos finais dos anos 50, um jovem de 15 anos conhece uma mulher, vinte anos mais velha, envolvem-se numa relação amorosa, de absoluta descoberta para o jovem que se une a ela com enorme intensidade afectiva. A mulher gosta que o jovem (estudante do liceu) leia para ela; e, durante todo o tempo que a relação dura, o rapaz lê-lhe os clássicos desde A Odisseia até Guerra e Paz e criam uma rotina diária em que o amor e a leitura se enleiam. Um dia, porém, inexplicavelmente para o jovem, a mulher desaparece, sai da cidade onde ambos viviam sem deixar carta, morada ou referência e o rapaz sente a frustração e o desespero naturais perante um corte tão abrupto. Os anos passam e um dia, quando ele é estudante de Direito, o professor leva os alunos a assistir ao julgamento de seis guardas das SS, condenadas por crimes cometidos nos campos de concentração e mais tarde aquando da saída dos campos, no final da guerra. E ele descobre, no meio das acusadas, a sua amante perdida! Percebe, gradualmente, no cenário do julgamento, que essa mulher, por quem sentiu o primeiro amor e a quem primeiro se entregou, é analfabeta, uma analfabeta incapaz de se assumir como tal e que, por isso, lhe pedia que lesse, disfarçando os verdadeiros motivos; entendeu uma série de sinais, que na altura não levou em conta, e soube que o orgulho e a iliteracia da sua amante a forçavam a mudar de emprego, sempre que se sentia ameaçada com uma promoção, por exemplo, e a necessidade de exibir habilitações que não tinha. Entendeu que, do mesmo modo que fugiu da cidade onde se conheceram porque a Companhia de Eléctricos onde trabalhava lhe propôs uma promoção, com a consequente exigência de saber ler e escrever, também deixara antes o emprego na Siemens e alistara-se como guarda nas SS, apenas porque abrira a oferta e não lhe exigiram qualquer habilitação. Percebeu, com horror mesclado de pena, que no tempo em que se amaram, ela tinha um passado de funcionária de Auschwitz, que seleccionava prisioneiras para os fornos crematórios, com a precisão e o profissionalismo de quem cumpre apenas o dever inerente à profissão e que não hesitou em deixar morrer 300 mulheres presas numa igreja em chamas, apenas porque era guarda e tinha como dever…guardá-las! Viu a mulher a confessar ter escrito o relatório que a incriminava, apenas para não se sujeitar ao teste caligráfico, proposto para decidir da sua autoria, pois aceitar semelhante teste era confessar-se analfabeta, e viu-a ser condenada a prisão perpétua, por orgulho, por vergonha, por embotamento. A história não termina assim, porque o jovem, tornado homem, nunca mais se libertou da impressão profunda que aquela mulher lhe instilou no ser, no tempo em que se relacionaram. Ela foi sempre o modelo pelo qual aferiu as suas relações futuras; e nenhuma delas durou porque nenhuma das mulheres seguintes tinha as peculiaridades da primeira. Não conseguiu visitá-la na prisão; mas, alguns anos depois, começou a gravar cassetes com leituras de livros e a enviar-lhos, e percebeu, ao fim de anos de envios, que ela aprendera a ler sozinha, escutando as cassetes e comparando as palavras ouvidas com os caracteres impressos dos livros que ia requisitando, pois ela começou a escrever-lhe pequenas cartas, às quais no entanto nunca foi capaz de responder. Por fim, quando após vinte anos de prisão lhe concederam o indulto, foi a ele que contactaram, pois era o único elo conhecido que a prendia ao mundo de fora. Contrafeito, ele visitou-a; percebeu que a mulher envelhecera, viu-a descuidada, decadente e não conseguiu demonstrar-lhe o afecto que ela decerto esperava. No dia em que ele deveria ir buscá-la à prisão, e depois de lhe ter arranjado casa e trabalho, a mulher suicidou-se na própria cela.

Conto a história porque sei que a importância da obra não reside nos pormenores ou no enredo, mas sim no modo como o autor se questiona, questionando-nos, no modo como ele não julga a sua heroína e nos impossibilita essa hipótese, no modo como ele admite ter traído ou sonegado aquela que efectivamente amou a vida inteira, mas a que não conseguiu dedicar-se, que não foi capaz de salvar da pena de prisão perpétua, mesmo sabendo que poderia intervir, pois apenas ele percebeu que a aceitação da responsabilidade principal no julgamento vinha do facto insólito de ela não querer, mesmo no extremo, admitir que era iletrada… Conto a história porque sei que os verdadeiros leitores, aqueles que não se limitam ao enredo mas querem sempre ir mais fundo, transcenderem-se ou transcenderem a própria trama, lerão o livro uma e muitas vezes, chegando à conclusão que é necessário estudá-lo, reflectir nele, sabê-lo de cor (quem sabe?). Conto a história porque depois de ver o filme (duas vezes) também já li o livro outras tantas, primeiro de um só fôlego, depois em pequenas doses, e percebo que o livro não trata disto ou daquilo em exclusividade, mas vai directo aos sentimentos humanos, aos valores, às contradições que são a componente intrínseca das personagens, do seu autor e também nossas, e que lê-lo é um importante exercício de auto-aprofundamento. E vou mesmo ao ponto de transcrever alguns dos parágrafos do seu capítulo final:

«(…) A intenção de escrever a história da Hanna e a minha surgiu pouco depois da sua morte. Desde então, esta história escreveu-se muitas vezes na minha cabeça, de cada vez sempre um pouco diferente, de cada vez sempre com novas imagens e fragmentos de acções e de pensamentos. Assim, para além da versão que escrevi, existem muitas outras. A garantia de que esta é a verdadeira é o facto de que a escrevi, enquanto as outras ficaram por escrever. Esta versão podia ser escrita; as outras não.
De início queria escrever a nossa história para me libertar dela. Mas a memória negou-se a colaborar. Depois notei que a história me escapava, e quis recuperá-la pela escrita, mas também isso não fez com que as recordações surgissem. Há já alguns anos que deixei esta história em paz. Fiz as pazes com ela. E ela voltou por si própria, detalhe a detalhe, e tão redonda, fechada e orientada, que já não me entristece. Durante muito tempo pensei que era uma história triste. Não que agora pense que seja alegre. Mas penso que é verdadeira; por isso, a questão de saber se é triste ou alegre não tem nenhuma importância.
De qualquer modo, é nisso que penso quando calha vir-me à cabeça. Contudo, quando estou magoado reaparecem as mágoas antigas; quando me sinto culpado, volta a culpabilidade de então; e no desejo e na nostalgia de hoje, esconde-se o desejo e a nostalgia de ontem. As camadas da nossa vida repousam tão perto umas das outras que no presente adivinhamos sempre o passado, que não está posto de parte e acabado, mas presente e vivido. Compreendo isto. Mas por vezes é quase suportável. Talvez tenha escrito a história para me livrar dela, mesmo que não o consiga. (…)»

Bernhard Schlink, O Leitor, Edições Asa, 2009, p. 143

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O PÂNICO DA PÁGINA EM BRANCO


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«São precisos dois para dançar o tango. Aqui surge-nos (...) o seu parceiro de escrita, que lhe fica desde já apresentado, (...): o leitor. Mas como? Não é a escrita sobremaneira um labor solitário, de alguém que se debate contra uma página em branco (Ah!, a angústia da página em branco...) no esconso duma mansarda, ao cimo duma escada interminável a cheirar a mijo de gato? Talvez a velha ideia romântica da mansarda tenha o seu quê de verdade - porventura de verdade cénica -, mas a solidão irrefragável do escritor é quase sempre falsa.» - Mário de Carvalho in "Quem Disser o Contrário é Porque tem Razão", Porto Editora, 2014
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ALVARO GIESTA
Quantas vezes eu me encontro frente à página em branco, muito principalmente nesta "missão" quase messiânica de, às segundas-feiras de todas as semanas, fazer sair a minha crónica na Revista BIRD, e entro em pânico por ausência (não do tema, que esse é desde o início definido), mas da palavra certa para o começo, pela dificuldade de encontrar a frase que me servirá de arranque e será impulso para me empurrar ao longo do papel, tal acção dos pistões do motor que contribuem para o andamento do carro.

Quanto ao tema, muitas vezes ele é inspirado no manancial de pensamentos de muitos escritores, outras vezes com recurso aos tabloides, até mesmo a certas notícias naquelas revistas que se leem por aí. Às vezes recorto notícias de jornais que me vão servir de "mola inspiradora" para a crónica a escrever. Portanto, o problema do tema quantas vezes fica resolvido por aqui. O pior não é o tema, disse-o no início desta crónica.

O pânico da página em branco assalta-me e aflige-me, às vezes até me inibe de, por dias seguidos, conseguir escrever, levando-me a pensar e a dizer que "desta vez não sou capaz"... oiço tanta vez a minha própria voz a dizer-me isso mesmo.

Nessas alturas a criatividade - repare-se que eu aqui não digo inspiração -, para dar início ao que me propus escrever, falta-me e o receio de defraudar o meu parceiro de escrita - o leitor - atormenta-me tanto quanto me assusta a página que continua em branco.

Há por aí quem diga que, quando escrevem, para si o fazem. Nada mais falso. Quem escreve, escreve sempre para o outro, para o destinatário que pretende sujeitar a si sem o subjugar, sem que seja à medida do leitor impingindo-lhe o produto: o leitor inteligente e criativo que não se quer ver diminuído, de imediato rejeita esse escritor, que assim se desprestigia.

Não há musas que me ajudem a escrever porque não acredito em musas. E sou avesso a falar em inspiração, quando às musas ou outra divindade estranha atribuem a força da escrita. A inspiração simplesmente não existe. Existe é a criatividade; existe o acto de criar. Um acto nobre, com mais nobreza ainda se, quando o fazemos, o executamos de corpo inteiro, com arte, com o pensamento naquele que vai ser o nosso mais severo julgador: o leitor.

Porque o escritor, quando escreve, não é para si que o faz, mas para o leitor que o julga. O bom leitor. E, este bom leitor, espera do escritor um espírito crítico que o leve a distanciar da falange vulgarizadora que escreve sem crivo banalidades do senso comum (não confundir senso comum com bom senso).

É isto que me aflige. Saber como começar a escrever nesta página em branco que me agonia e me faz entrar em pânico e recear que não consiga conduzir as ideias - que muitas vezes são turbulentas - ao longo da folha de papel de ordem a levar comigo o "par da dança" a que se refere o escritor Mário de Carvalho: o leitor.

As musas, como disse, não existem, como não existe a inspiração. Existem, sim, uma variedade de fontes externas que permitem exercitar a imaginação do escritor, que ajudam o poeta a criar, e a criar com arte, com a tal arte que fuja às banalidades e que seja capaz de prender, a si, o leitor durante todo o percurso da escrita.

Ramos Rosa, na Antologia "Cantoário" publicada em 2000, escrevia: «Ao contrário do que muitos pensam, o poeta não escreve a partir de imagens formadas na mente ou na imaginação. Essas imagens surgem ao nível da escrita, embora correspondam a um imaginário latente no inconsciente do poeta. Daí a primazia do poema». Ele próprio dizia, quanto a si, "o que determinava, essencialmente, a sua poesia, era a própria criação poética".

O homem ao criar põe no que cria engenho e arte sem estar sujeito a qualquer entidade inspiradora. É esse pânico de não conseguir criar, com engenho e arte, que me atormenta frente à página em branco antes de nela começar a verter a ideia.

Depois das primeiras ideias fluírem, as palavras correm vertiginosamente ao longo do papel - às vezes em catadupa que, de caneta em punho, tenho dificuldade em as acompanhar! Assim continuo a "obra" a partir do nada, fazendo-a crescer à medida que vai saindo da sombra, dando a possibilidade à palavra de adquirir valores diversos dos que comummente lhe são atribuídos.

Obra assim feita a partir da página em branco, comparo-a à criação do mundo a partir do caos - o ponto gerador de todas as coisas: ganham, assim, um e outro - o branco da página e o caos - significado e poder.

domingo, 31 de janeiro de 2016

VEM TER COMIGO

MIGUEL GOMES
O Sol vai aquecendo lentamente e timidamente, apesar do periélio, a manhã de Inverno que se faz amanhecida aspergindo luz encostas acima até se encontrar com a hora de almoço. Vou caminhando lentamente, por vontade e necessidade, com as mãos nos bolsos, por vontade e necessidade ainda, pelo emparedado caminho que me habituei a gostar como a pele que permite manter íntegra a amálgama carnal que piloto enquanto habito neste orb.

O mundo parece mais pequeno, agora, os muros mais baixos e a distância de mim à minha própria sombra vai subindo, sem que isso signifique que a escuridão projectada esteja mais longe da luz desejada.

Concentro os passos em planos de três, vá-se lá saber porquê, um, dois, três, reinicia, um, dois, três, reinicia, sem qualquer motivo aparente e na tentativa de descobrir uma razão, dou por mim a pensar no ditado que três foi a conta que deus fez, por isso, nesta matematicalidade talvez exista um sentido que não descobri. Embora as ruas se concentrem inalteráveis, é impossível não perceber que existe uma dificuldade maior em altivar o caminhante, como o fazia antes, desenvoltamente, a cada passada, erguendo-se silenciosamente acima dos muros e subindo, sempre, transformando o passeio num constante futuro que se visiona apenas quando se é criança. Hoje, sábado, domingo?, que dia é hoje?

O Sol aquece e ilumina, a minha sombra persegue-me, as mãos nos bolsos do casaco de malha. Olho para o lado e cumprimento, como sempre, a trejeito tímido, uma e outra pessoa, jovem antes, velha agora, bom dia ou boa tarde, boa noite raramente porque apesar de solarengo, a noite quando se destapa e sai da cama com firmeza chega fria como o olhar de muita gente que ainda não amanheceu.

Sem que me aperceba, tacteando a parede, vem atrás de mim uma criança. Devo levar uns bons dez metros de adianto e, ao perceber que vem distraída, paro a marcha e olho para trás. Traz um sorriso tranquilo, um olhar indagador e as mãos a fazerem cócegas a pequenos tufos de musgo ainda orvalhados apesar do Sol. Quando está prestes a chegar até mim afasto-me, talvez eu pareça invisível a uma criança, mas não o sendo, há que ter a preocupação de não atrapalhar a marcha de quem no presente se move tendo como futuro a próxima fenda entre pedras do muro que ladeiam o caminho ou o mais confortável tudo. 

Sigo, a pé, atrás dela. 

Bom dia aqui, bom dia ali, assobio silenciosamente meia dúzia de músicas que gosto. O caminho vai fazendo-se normalmente, o Sol aquecendo a destapada cabeça e a inusitada criança no seu caminho passa a ser a minha curiosidade.

Percorro os seus mesmos passos e, por vezes, quando não há casas a espreitar, afago um e outro tufo de musgo, ficando depois a saborear com o tacto a água um pouco mais densa que ficou no indicador e polegar. O percurso termina quando o vejo parar. Olha para trás, vê-me, sorri e estende a mão para mim. Aparentemente sem saber das novidades perigosas deste belicista mundo, sem qualquer receio de um adulto, faz sinal para continuar em direcção a ele e ao chegar à sua beira, estendo o braço e ao tocar na sua cândida e alva mão, sinto apenas o húmido toque de um musgo verde escuro que deixa na imaginação um dia de Sol por cima do nevoeiro que, por momentos, se interpõe entre mim e a janela, mas apenas por momentos, pois ainda que em pé, em casa, a espreitar o cinzento nevoeiro por detrás do vidro, onde a esforçada respiração se condensa a cada baforada de um calor que ainda não esmoreceu. Ainda. 

Pisco os olhos. Faço de conta que o húmido nos dedos não é do vapor de água que acabei de limpar, mas sim do musgo que aquela criança desejou que eu conhecesse e, rapidamente, atrás agora da cortina, piscando novamente os olhos sem desvanecer a visão, o Sol nasce de novo e a manhã apresenta-se radiosa e radiante, por vontade da necessidade.

Perdido agora, desabituado ao vai e vem daquilo que não volta, descanso o olhar encostado a um pilar, enquanto vejo o rio de água borbulhando pelos paralelos. 

Há uma pequena folha que passa. Depois um barco de papel. De seguida vários. 

Levanto as golas, tiro os óculos e sigo "rio" acima até, depois de uma curva, ver um puto abrigado por um guarda-chuva, sentado numa pedra que a chuva não chegou a molhar, a dobrar cuidadosamente um papel e a escrever "vem ter comigo", antes do papel ganhar forma e ele o colocar no ribeiro de água turva que passa neste pedaço de terra. Vejo o barco seguir e ele, curioso, dá-me o guarda-chuva e diz-me, "vou ver onde eles passam". 

Esqueceu-se de umas folhas, sento-me na pedra seca, guarda-chuva entre o ombro e a cabeça, dobro as folhas de papel e escrevo "vem ter comigo" antes de o colocar no ribeiro... 

Fico a acompanhar o movimento e quando levanto o olhar, alguém caminha para mim, de olhos semicerrados pela chuva, golas levantadas e mãos nos bolsos.

sábado, 30 de janeiro de 2016

NO MEU GALHO, EM NOITE FRIA DE INVERNO

As nossas escolhas geram o inferno na Terra ou o Céu na Terra.
Santa Hildegarda de Bingen (1098 – 1179)
Monja e abadessa beneditina alemã, mística, teóloga, pregadora, escritora de livros de medicina natural, poetisa e compositora, proclamada Doutora da Igreja pelo Papa Bento XVI, em 2012.

JORGE NUNO
A tarde fria de inverno transforma-se rapidamente num sombrio lusco-fusco, ao ver desaparecer de vez os últimos raios de sol por detrás da serra de Nogueira. Caminho a pé, em direção a casa, olho ao longe e ainda consigo descortinar os picos mais altos da Sanábria, tingidos de branco sujo, de uma neve que teima em ficar por muitos meses. Ajeito o cachecol em volta o pescoço, como se olhar para a neve me fizesse sentir ainda mais o desconforto do frio, ou como se a minha voz interior me avisasse para não facilitar, para evitar problemas futuros, sabendo que eu encaro as vacinas, incluindo a da gripe, como uma treta, por me julgar um super-homem, acima de qualquer doença. Olho instintivamente para o relógio. Mas são ainda dezassete horas e já é de noite!

Enquanto caminho, sinto no ar o agradável cheiro a lenha queimada nas lareiras e, de repente, lembro-me de questionar por onde andará agora o imenso bando de estorninhos que me habituei a ver em todos os fins de tarde de verão, vindos dos campos para pernoitar nas velhas e bem cheirosas tílias da praça Cavaleiro de Ferreira, mesmo no centro da cidade, entre alegre e aguerrido chilrear. Coisa fina, pernoitar na cidade! Para novamente, pela alvorada, partirem para os campos, ricos em alimentos. Dizem que os estorninhos-malhados estão por cá no inverno e os estorninhos-pretos permanecem todo o ano, mas por que será que só me dou conta deles, qualquer que seja a espécie, ao crepúsculo, durante o verão? Não é meu hábito andar distraído, mas algo se passou. Mas por que me lembro agora desta espécie de comportamento gregário? Será pelo fascínio dos seus movimentos coletivos de rara beleza, com mudanças rápidas de direção, como que a prepararem-se para a grande viagem sazonal, à procura de outro habitat, num jogo de sobrevivência e procura de bem-estar coletivo?

Entre deambulações mentais, vejo-me mecanicamente a marcar o memorizado código para abrir a porta do prédio. Pouco depois… a jantar, e ainda são só dezoito horas! E eu que tantas vezes, intimamente e sem o referir, criticava os mais idosos por jantarem tão cedo!

Tal como um dos estorninhos, hoje apetece-me ir cedo para o meu galho e adormecer logo para começar cedo o meu novo dia, com energias renovadas para os próximos atos criativos, sejam eles quais forem. Estranho, pois sei que não precisaria de partir cedo para os campos em demanda de alimento, nem obrigatoriamente ficar na cidade, ir para o emprego, picar o ponto e dar, profissionalmente, o meu contributo ativo. Mas não me sinto estorninho, porque não tenho a companhia contagiante dos outros estorninhos. No entanto, hoje, no meu galho, rejeito o computador, a internet e as redes sociais (com canários, papagaios, cegonhas, abutres, melros, gaviões, cisnes, pelicanos, patos, beija-flores, avestruzes, caturras, gaivotas, corujas, pavões… mas muito poucos estorninhos para formar um bando estonteante). Rejeito também o televisor, a rádio, o leitor de CD’s, o MP 3, o instrumento musical com dois teclados, pedaleira de baixos, caixa de ritmos e orchestral conductor, ou um ou mesmo dois livros.

Baixo as persianas térmicas até meio, para poder deixar entrar os primeiros raios de sol de inverno, que surgem do lado de Babe, e servirão de natural despertador, já que os galos não abundam nas redondezas e os vidros duplos abafam qualquer ruído exterior. Deito-me, apago a luz e reflito sobre as aprendizagens do dia e, por fim, poder agradecer ao Universo por essas aprendizagens.

Vêm-me à mente, em catadupa e sem nada forçar, uma série de coisas. Curiosamente, as perguntas parecem melhores que as respostas. Por que razão no escuro vejo melhor? Sim, comigo parece resultar, no escuro muitas vezes faz-se luz! No escuro dou mais importância à luz. E como se fez uma noite negra, mesmo sem estarmos em lua nova, e como negro se transformou o meu país! Queixas? Não, não é meu timbre. Prefiro acender a candeia, do que me queixar da escuridão. Mas sinto que tenho que ir mais fundo. Serão o medo e a culpa os dois principais inimigos do homem? O que acontece quando o homem se libertar de sentimentos de culpa, que lhe foram inculcados durante séculos e, decididamente, perder os medos? As sociedades, os governos e modelos económicos vigentes continuarão a agir como até aqui? Por que será que a nossa maior fraqueza é a dependência, do que quer que seja ou de quem seja, permitindo, passivamente, que sejam cometidos abusos? Por que razão não agimos de uma forma mais interdependente, numa relação recíproca, de tratamento igualitário, não para criar lucro a alguns mas para gerar verdadeira riqueza, que reverterá em benefício de todos? Será que eu não serei mais do que uma forma de vida, mas uma experiência mais ampla de vida, como energia em movimento? E que essa energia, num plano vibracional mais elevado, trará mais autoconsciência? E que essa energia afetará, inevitavelmente e por simpatia, outra energia que esteja próxima? E que essa vibração em ascendente conduz à mudança? Estaremos mesmo a aproximarmo-nos rapidamente da Idade de Ouro da Iluminação? Então por que razão fica a perceção que tudo nos parece tão negro neste planeta em expiação, que aparenta ficar pior a cada dia que passa? Não estará cada vez mais gente a conseguir ver no escuro? Não estaremos já numa fase de mudança de consciência coletiva, pela evolução natural de tanto olhar e não aceitar indefinidamente a escuridão? Até que ponto a cocriação, que advém da paixão, será a força motriz para alterar o statu quo? Quanto custa ir da apatia à empatia? Precisarei de evocar o meu lado sagrado, o que me conduz à minha verdade mais íntima, para dar contributos nos atos criativos comuns e estimular a mudança? A vontade ou necessidade de que a verdade interior esteja de acordo com a vivência exterior não levará as pessoas ao questionamento e a querer corrigir assimetrias? É aqui que entra o conceito de que a vida é um processo de andar em círculo, mas pensando nisso como uma espiral ascendente?

Estranhamente, um aperto de bexiga leva-me a esfregar os olhos e a “despertar” lentamente, como quem acaba de acordar de um sonho não menos estranho. Viro-me para a direita e fixo o olhar no relógio luminoso. Faltam três minutos para a meia-noite. Levanto-me, vou à casa de banho e logo me sinto um pouco mais aliviado. Espreito pela janela, sem esperar ver nada de especial a essa hora da noite, numa cidade que fica quase deserta a partir do fecho do comércio, mas no ar sinto o persistente cheiro agradável a lenha queimada e o frio cortante, com reflexos no vidrado do asfalto, visível sob o número reduzido de candeeiros acesos da rotunda e, contíguo, através do arraial luminoso que provém do túnel.

Dirijo-me novamente para a cama e reparo que é precisamente meia-noite. Começa um novo dia. Hesito, por momentos, entre o adormecimento ou ficar desperto. Mesmo desperto, posso decidir se quero prolongar a noite negra ou se quero antecipar a alvorada e ver raiar, entre as barras das persianas, os raios de sol que indiciam um novo dia, uma nova oportunidade. E como tudo seria mágico e simples, se um enorme bando de estorninhos saísse dos seus galhos e se juntasse, com as suas mirabolantes danças aéreas, para dar corpo à visão coletiva do ansiado novo dia.