sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

QUANDO SER FAMOSO SE TORNA OBJETIVO DE VIDA

GABRIEL VILAS BOAS
Infelizmente a cultura da Fama começa na escola, onde o importante passou o ser o sucesso em vez da aprendizagem, a quantidade em vez da qualidade, o número em vez da pessoa.

Ser conhecido, ser famoso tornou-se o grande objetivo de vida de centenas de milhares de pessoas. Por causa dele, elas são capazes de sacrifícios enormes, alguns completamente desproporcionados face aquilo que pretendem alcançar.

Ouço diariamente as conversas, os sonhos, os objetivos de vários adolescentes e jovens e não deixo de me interrogar: seremos todos assim tão vaidosos? Como não é claro para eles que só alguns (muito poucos) alcançarão a glória pretendida? Não faltam exemplos de gente triturada e esmagada pela cruel máquina de fazer estrelas instantâneas.

A Fama é como o canto das Sereias: sedutor, poderoso, irresistível… implacável! As suas características não a recomendam a toda a gente nem toda a gente a elege como única deusa do seu altar. O problema é que a Fama se tornou num fator imprescindível ao triunfo social de qualquer indivíduo.

Para qualquer lado que nos viremos sentimos o intenso perfume da Fama: no facebook, na televisão, nas revistas de sociedade. O importante é que falem de nós. Mal ou bem, é quase irrelevante, desde que falem.
Ora, nem todos nós sentimos esta irresistível atração pelas câmaras. Cada ser é único e não pode ser formatado por uma cultura da Fama que lhe assalta a alma, que lhe consome as forças e os valores, para em pouco tempo o vomitar para fora da engrenagem, pois já outros esperam impacientemente a sua vez no carrossel das vaidades.

A afirmação e triunfo pessoais podem ser alcançados por outros caminhos! Há pessoas que desejam trilhar essa estrada alternativa, mas a cultura dominante desaconselha uma escolha livre e pessoal.

Não censuro quem elege ser famoso como objetivo de vida, mas revolta-me que a sociedade em que vivo tenha desenvolvido uma espécie de ditadura da imagem, onde quem quer seguir outro caminho está out.

Uma sociedade livre e madura promove a diversificação, não constrange, não impõe. Gosto da ética e da estética, mas, se tivesse de escolher, não hesitaria em optar pela primeira. Precisamos do belo e do bom e já agora também necessitamos do feio, do erro e da dúvida. A nossa liberdade tanto se afirma na aceitação como na rejeição de modelos apelativos, mas essencialmente totalitários.

A Fama promete-nos uma glória concentrada em cinco minutos. O que queremos fazer com todo o resto?

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

S. GONÇALO DE AMARANTE FEZ A PONTE

S. GONÇALO  EM PROCISSÃO
HELDER BARROS
No passado dia dez de janeiro, foi um domingo muito chuvoso. Caiu muita água em Amarante e podem, quem sabe, ter sido lágrimas vertidas em abundância por São Gonçalo, por muitos lhe chamarem agora de Beato Gonçalo. Ou talvez não, porque canonicamente essa designação é a teologicamente mais correta. Acontece que, eu sempre que vou a algum lado, admito que tenho uma certa vaidade em falar da nossa Terra, Amarante, e, não raras vezes, me dizem com entusiasmo: “Amarante, a terra de São Gonçalo”, ou, “São Gonçalo de Amarante é o maior!”.

Os meus pais, antes de eu nascer, em meados dos anos sessenta, viveram na bela cidade de Aveiro, também conhecida como a “Veneza” Portuguesa. O meu pai foi Oficial de Justiça naquela terra, no Tribunal de Trabalho, até ter sido transferido para a Cidade do Porto. Recorda a minha Mãe que, o nosso São Gonçalo de Amarante, era muito conhecido e reconhecido por aquelas bandas. Quando a minha Mãe dizia que era de Amarante, as pessoas mais simples, lavradores, comerciantes e pescadores, abriam o seu semblante e muitos havia que, já tinham vindo a Amarante pagar promessas ao nosso Padroeiro, pois para eles, o São Gonçalo que tinha valor, era o de Amarante, mais nenhum! 

O nome de Amarante é indissociável de São Gonçalo, tal facto pode também ser verificado, por exemplo, no Brasil. Existem diversas paróquias, com o nome de Amarante e que têm como Orago, São Gonçalo. De tal forma é o fenómeno importante que, recebi o programa das festas para o São Gonçalo de Amarante de Niterói. Foram colonos Portugueses que levaram para o outro lado do atlântico essa nossa Fé no nosso São Gonçalo de Amarante, que quiseram vincar essa sua ligação umbilical… existia na sua mente um vinculo natural, da Terra ao Santo e vice-versa, falar de uma é falar do outro, numa relação de reciprocidade direta.

Fiquei triste por ver que na nossa Cidade, no dia 10 de janeiro, que até coincidiu com um Domingo, o culto cristão e pagão já não é nada do que já foi. Sinal dos tempos, dirão uns, laicização da sociedade, dirão outros. Não sei, pouco me importam os motivos, que serão sempre de vária ordem. Continuo a pensar é que Amarante, não pode descurar o seu turismo de carácter religioso. Em Amarante, dez de janeiro, ou no domingo imediatamente seguinte ao dia dez, deveria haver sinais de festividades, nas duas componentes em cima referidas. Não ouvi um foguete sequer, não ouvi os Bombos, a Fanfarra, a Banda de Música… que se passa amarantinos… penso que, poderíamos atrair alguns forasteiros, para beneficiar com o culto do nosso renomado Padroeiro, a restauração, a hotelaria, enfim, poderíamos fazer muito mais, até coisas que ainda não foram feitas, como diria Pedro Abrunhosa: valorizar os doces tradicionais nesses dias, a nossa gastronomia de excelência e a nossas ofertas museológica e da hotelaria. 

Uma paróquia como São Gonçalo e São Veríssimo necessita de um Pároco a tempo inteiro, não podem ser assim desvalorizadas. Esse terá que ser um potenciador de Amarante, na senda do São Gonçalo de Amarante. Dizem alguns que, São Gonçalo era de Vizela: correto, mas foi a Amarante que ficou associado e onde quis fazer obra, onde parou na sua viagem e se tornou de simples eremita, um verdadeiro catalisador desta Terra que tanto amamos. De facto, tenho que confessar que, quando me dizem que sou de Amarante, terra de São Gonçalo, sinto um enorme orgulho, nesta bênção que nos foi transmitida de geração em geração. Façamos todos mais por Amarante e por São Gonçalo; é Beato bem sei, mas para mim é e será sempre São Gonçalo de Amarante; não reneguemos o nosso passado, nem os nossos antepassados…

Inevitável será referir que, este dia de São Gonçalo deste ano, coincidiu com um dia de Inverno pesado e de trabalhos, de prejuízos para os comerciantes, o que se lamenta e se deve remediar na medida do possível. Mas eu não atribuo às diatribes meteorológicas um valor de neutralização das festas em honra de São Gonçalo: os preparativos, os programas são realizados muito a montante no tempo, depois se no dia se não puder fazer a festa… cancela-se, ou adia-se, como num jogo de futebol… não se trata de nenhum drama!

Vejo, no entanto, com agrado que as confeitarias e pastelarias locais, estão a tomar medidas no sentido de recrear o famoso doce de São Gonçalo, fazendo com que este se divulgue pelos residentes e turistas. São pequenos detalhes que deverão no futuro fazer toda a diferença, todas as terras se orgulham dos seus doces tradicionais e nós somos demasiado ricos também nessa área, para desperdiçar tanto potencial, que também é turístico!

Amarante, dez de janeiro, é o dia de São Gonçalo de Amarante, por muito que o desvalorizem, terá que haver um Amarantino que se levante, para relembrar esse facto, quanto mais não seja, em memória dos nossos antepassados!

Citação de Teixeira de Pascoaes, que criou a filosofia da saudade: “A Saudade é a lembrança saudosa do passado projectada em esperança no Futuro"

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

CARTA ABERTA A ANTÓNIO ANTUNES, TAMBÉM CONHECIDO COMO TONY CARREIRA

Amarante, 20 de janeiro de 2016

Meu caro António Manuel Mateus Antunes (também conhecido por Tony Carreira):

Começo esta missiva por uma declaração de princípios. Não sou seu fã, nem tenciono ser, uma vez que não me revejo de todo na sua proposta musical. Por tal motivo, certamente, nunca me terá a assistir a um concerto seu. Mas por paradoxal que isto possa parecer, admiro-o. Admiro a sua persistência, admiro o facto de os seus espetáculos serem extremamente profissionais, ao nível de som, luzes e da qualidade dos músicos que o acompanham. Admiro o facto de arrastar multidões atrás de si, em cada concerto que faz. A culpa não é sua. O Tony faz o seu trabalho e as pessoas gostam. Ponto. Tanto quanto sei, também é de admirar a forma como trata pessoal e profissionalmente os que o acompanham. É precisamente por todos estes motivos que, também eu me sinto insultado e indignado pelo facto de lhe ter sido recusado receber uma condecoração que o Governo Francês entendeu atribuir-lhe, na Embaixada de Portugal em Paris. 

Essa recusa tem um nome – Embaixador Moraes Cabral, enquanto responsável máximo pela mesma. Diz o Senhor Embaixador que “a condecoração deveria ser entregue num local do país que homenageia o artista”, uma vez que "seria um bocadinho estranho que uma condecoração francesa fosse imposta na Embaixada de Portugal e porventura até por mim... pois não é essa a prática corrente". Acrescenta, ainda, que “lamenta se o cantor Tony Carreira se sente melindrado com esta atitude pois não houve qualquer intenção, mas apenas atuar de uma forma consistente com a prática internacional que tem regras".

Eu e muitos portugueses, é que lamentamos que o nosso país seja representado em Paris por este Embaixador. Mas vamos a factos.

Em primeiro lugar, concorde-se ou não com a atribuição, não estamos a falar de uma condecoração qualquer. Estamos a falar da Ordem das Artes e Letras (Ordre des Arts et des Lettres, em francês), que é uma condecoração concedida pelo Ministério da Cultura da França para recompensar "as pessoas que se distinguem pela sua criação no domínio artístico ou literário ou pela sua contribuição ao desenvolvimento das artes e das letras na França e no mundo".

Em segundo lugar, a “prática corrente”, a “prática internacional que tem regras”. Será corrente e terá regras. Pena é que já tenham sido quebradas em 2004, aquando da entrega da mesma condecoração à fadista Mísia, que por sinal já demonstrou o seu desagrado pela situação. Já para não falar em Siza Vieira, João Fernandes, Paulo Cunha e Silva e o encenador Joaquim Benite (por duas vezes), que foram condecorados e cujas cerimónias aconteceram em solo português. 

Alguém lhe deve uma retratação e um pedido de desculpas. Não apenas um “nunca consegui cumprir um dos meus sonhos sociológicos que foi assistir a um concerto de Tony Carreira, porque me dizem que é um dos acontecimentos que um sociólogo deve observar." Não chega. À Sociologia o que é da Sociologia, ao Ministro o que é da sua alçada política. 

Termino como comecei. Não sou nem passei a ser seu fã. Mas o meu respeito por si como pessoa, artista e português, esse aumentou.

Atenciosamente,
Paulo Santos Silva


terça-feira, 19 de janeiro de 2016

DR.º ALMEIDA SANTOS

Há pessoas que passam pela nossa vida e, de uma forma ou outra, nos marcam. Uma delas partiu hoje, aos 89 anos de idade, o Dr.º Almeida Santos.

Corria o ano de 2001 e, em pleno 7.º ano, tive a oportunidade de ir ao Porto em representação da Escola EB 2 e 3 de Amarante e, pelo distrito, ser eleito secretário da Mesa que iria presidir, nesse ano, à Sessão Parlamentar – A Escola e a Assembleia. A ida a Lisboa foi fantástica, quer pelos colegas de outras escolas do país, quer pelos professores que nos acompanharam. 
Todavia, o dia 11 de junho de 2001 ficaria na minha memória pela entrada, pela primeira vez, na Casa do Povo, na Assembleia da República. A Dr.ª Julieta Freitas fez o favor de nos mostrar toda a Assembleia por dentro, antes de iniciarmos uma longa jornada parlamentar. Foi um dia preenchido. Lembro-me, particularmente, dos temas em destaque pelos jovens parlamentares – a queda da Ponte Entre os Rios e todas as suas implicações.


No final desse dia recebo um diploma de participação das mãos do Dr.º Almeida Santos, que elogiou, com um largo sorriso, o nosso trabalho, a nossa postura. A seu lado, o Dr.º Guilherme de Oliveira Martins, outro grande nome da cultura portuguesa.

Hoje, o Dr.º Almeida Santos partiu fisicamente. Ainda assim, é grande a obra política e social que deixou e que a todos nos deve orgulhar. Até sempre!


CERTEZAS ERRÓNEAS

REGINA SARDOEIRA 
Por dentro do ser, persiste o de fora do ser, enquanto ilusão ou metáfora da sensação falseada no gume do olhar.

Nunca saberemos o que são as coisas - meras transcrições de apontamentos, visíveis nos torvelinhos vários do tecido complexo da alma ou do corpo

Dizemos alma, como se a alma fosse o etéreo disperso no côncavo do ser; e contudo, a anima permanece nos poros da pele, alimento das veias, matéria nutricional da vida de todos. E o corpo, pesado e térreo, apenas flutua em píncaros de ousadia porque a anima lhe eleva o torso caído, em melancolia ou mágoa.

Nada sabemos; e todavia arriscamos elevar a voz, em verdades que supomos serem a certeza das coisas e dos seres, sedentos de arrimo no dealbar da luz, em cada manhã.

De outro modo, não ousaríamos erguer os pés e andar, no torvelinho inventado pela nossa cupidez. Mais vale não ter, não querer, não falar e sobretudo não ouvir, deixando de lado a necessidade do aplauso, do acordo ou do panegírico, evitando ajuizar ou apor rótulos na testa daqueles que jamais saberemos.

A melancolia é um lago onde o vazio espelha as suas cores opacas de negritude e medo (ou então é, do grego, μελαγχολία – melagcholía; de μέλας – mélas, "negro" e χολή – cholé, "bílis); e logo se esvai a poesia extrínseca ao estado dito de alma e no entanto enquistado no corpo como bílis e negrume e tudo se pulveriza numa estranha consciência de que mais vale afastar o surto de líquido, feito viscosa regurgitação de humores empestados, onde a alma entorpece e não ousa triunfar da decrepitude instalada pelo oceano negro da bílis.

Pensamentos aleatórios, estes, que hoje saem da ponta dos meus dedos; e contudo absolutamente lógicos, porque ser aleatório e forçado à regra, pela racionalidade estulta dos homens é, afinal, a verdade da vida.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

DOS LIMITES DA LITERATURA ERÓTICA ÀS FRONTEIRAS DO PORNOGRÁFICO

«Entre a concha  da minha mão / se acomodem / os teus seios rijos / e rosados, // entre as tuas nádegas / fecundas / os dedos das minhas mãos / se percam / se afundem / se passeiem, // e entre elas sem receio / nunca fiquem / acomodados»

«Docemente os dedos / desçam... // desçam / logo abaixo da cintura, / e se percam / onde o quente e sedoso é bem maior, / quais sedas de rainha // Aí em baixo onde o nada / é o topo da loucura, / penetre a espada / sem bainha / subindo em ti a cavalgar / até se fazer dia pela alta madrugada»

«A língua, do teu pescoço / extasiada / desce… // ...desce aos poucos aos mamilos / intumescidos / onde permanece demorada / e esquecida, / para logo mais abaixo / se passear / na morna maciez / humedecida / do teu fruto, numa entrega / devagar, // entre espasmos involuntários / gritos abafados / e gemidos»

«Tão pouco as mãos se aquietam / nesta azáfama de dar // Afoitas e atrevidas / descobrem / o final e o princípio / necessário / para a onda do teu corpo / rebentar // E o mel na minha boca / agridoce / qual veludo, flutua… // Minha língua sobe / até à tua boca / serpenteando por ti toda / sem parar, // o meu corpo cola-se / e tanto mais faminto / à tua pele… alva e nua»

in "O Ventre das Palavras" (1.ª parte)
__________

ALVARO GIESTA
Em Março de 2014, quando me propunha publicar o livro de poesia erótica "O Ventre das Palavras" - coisa que até à data não aconteceu por decisão exclusivamente minha -, fiz-me proceder a um estudo sobre os "Limites do termo Literatura Erótica e a diferença entre Pornografia e Erotismo", levado pela dúvida que compõe a 1.ª parte dessa minha obra (da qual transcrevi, acima, quatro poemas).
Isto é: se ela é ou não erótica ou se vai além disso podendo ser classificada como pornográfica na sua 1.ª parte onde eclode um «amor-paixão» ditando uma «poesia erótica nitidamente fálica» onde «a libido corre livre e solta como um rio em avalanches e nomes como mãos, dedos, flancos, ventre, nádegas, (mamilos, línguas, gemidos, gritos) e sexo» num léxico «marcadamente erotizado» onde «a mulher é o centro do universo, entendida como receptáculo e fonte do prazer dos anelos do "eu" poético que se assume orientador desse prazer» respondendo a mulher, «ao desígnio masculino, submissa por vezes, mas não passiva, que se faz sujeito activo no envolvimento dos corpos.» (aqui, entre «aspas», palavras do prefácio por Dr.ª Maria Jorgete Teixeira, Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade de Lisboa).
Foi, não como complemento desta obra sobre a qual aos estudiosos, um dia, quando publicada, compete a crítica, mas para minha aprendizagem e esclarecimento que sobre tal dúvida me debrucei neste estudo exploratório - DOS LIMITES DA LITERATURA ERÓTICA ÀS FRONTEIRAS DO PORNOGRÁFICO.

I - As duas grandes questões a equacionar: o que é literatura erótica e o que é literatura pornográfica?
Qual a diferença entre literatura erótica e literatura pornográfica e, no caso de haver diferença, quando é que a pornografia pode nunca ser considerada como literatura - duas dúvidas que eu reduzo a uma só questão, sem a tornar, a meu bel-prazer ou por puro egoísmo, universal: dos limites da literatura erótica às fronteiras da pornografia.
Comecemos pelo significado do termo: a pornografia é tornada termo no dicionário, pela primeira vez, em 1899, por Cândido Figueiredo com designação no termo francês "pornographie". Mas, já por volta de 1800 surge como sendo "o estudo (da saúde pública) sobre a prostituição". Com nobreza, em meados do século XIX, passou a designar a ARTE produzida na antiguidade: a pintura e a escultura de nus mesmo quando retratavam temas obscenos.
A raiz de "pornographie", em francês, é de origem grega que já tinha palavras como "pórne" (=prostituta), "pórnos" (=que se prostitui) e "pornographos" (=autor de escritos sobre a prostituição), sendo que prostíbulo era a casa onde se praticava a prostituição, seja, era o bordel. Já o termo português "prostituição" vinha do latim "prostitucione" (=acto ou efeito de se prostituir ou prostituir); no sentido mais lato do termo: devassidão, vida desregrada. Este introito para dizer que todos estes termos comportam a "ideia de comércio", de "compra e venda", de preço (do latim "pretium") e que a palavra "prostituta" (em latim "meretricem") queria dizer "mercadoria (exposta)". Difícil não é de adivinhar, em termos de significado, a comparação que se possa fazer hoje à exposição, como se de mercadoria exposta (em vitrines) para venda se tratasse, das meninas de vida fácil nos bairros da Luz Vermelha de Amsterdão e outras cidades da Holanda.

Antes de me alongar na consideração a fazer se tudo o que há de escrita pornográfica é "sempre" literatura pornográfica, analisemos o termo "erotismo". De origem grega "erotikós" fez escala no latim "eroticus" e significava o "que tem amor, paixão ou desejo intenso". Logo, não designa aquilo de que se vai servir para fazer negócio; não comporta o termo a "ideia de comércio" tal qual assim era em pornografia. No século XVI a palavra "erotismo" passeia-se entre nós nos poetas e romancistas, mas tem uma certa dificuldade em impor-se e vingar devido à censura da igreja e dos governos autocráticos e ditadores. Anda à revelia principalmente na pena dos poetas... aos poucos vai encontrando o lugar a que tem direito na literatura.
"Erotikós", do grego, deriva de "Eros" (=deus grego do amor), (Cupido na mitologia romana) - esclareça-se, principalmente aqueles que, por ignorância etimológica, dizem que uma e outra palavra (erotismo e pornografa) são a mesma coisa. "Erotikós" nunca teve a carga negativa das palavras derivadas de "porné" ainda que se referisse, também, ao desejo sexual, mas aquele ligado ao amor e não ao comércio.

II - Agora a grande dúvida: as fronteiras entre o erotismo e a pornografia.
No campo da classificação cultural, onde é que o mundo contemporâneo coloca a fronteira entre o erotismo e a pornografia? Situação nunca pacífica na classificação do que é erótico e do que é pornográfico tendo em conta de que, aquilo que o escritor pretende com a sua escrita ficcional é excitar o leitor, interessar o público, distraí-lo por aquilo que de bom e excitante lhe pode transmitir com os versos ou com o romance. Sempre com uma dupla finalidade,  ainda que a primeira possa morar, a maior parte das vezes, num segundo plano:
- tornando-se célebre, ter um nome, tornar-se imortal;
- ganhar dinheiro com a obra e guindar-se, na atmosfera literária.
Então, poderá o leitor argumentar, tendo em vista o que significa a palavra "pornographie", atrás detalhadamente escalpelizada, que afinal o erótico também faz comércio e, fazendo-o, erotismo não é mais do que uma forma encoberta e mais doce de dizer pornografia? Jamais!
Oh mentes abjetas, estais tão equivocadas, digo eu, com esse vosso pensamento! O erótico é a sublimação mais alta do amor, com ARTE, sem vender o corpo - coisa que o pornográfico faz.

Contudo, convenhamos que nem sempre é fácil definir a fronteira entre erótico e pornográfico e nem sempre é possível estabelecê-la com clareza. O senso comum, que nem precisa ser erudito, costuma estabelecer essa fronteira servindo-se das cenas de sexo explícito que a pornografia teria e o erotismo não tem; mas, nem sempre isso é verdade; logo, é enganoso. É que, se o erótico também pode ser explícito, nem sempre o pornográfico o é. A demonstrar como verdadeira a primeira premissa, toda a 1.ª parte da obra aludida, da qual fica uma amostra nos poemas que antecedem este texto,  talha explicitamente o erótico com palavras, ainda que desenhadas com arte, como se vê no acto sexual na sua abertuta:

«Que o teu corpo submisso / ao meu / rebelde se encaixe, // e em concha teu ventre / se curve / e desfaleça // Que teus olhos se fixem / sem ver / ao olhar sob mim o tecto, // e logo tuas mãos se fechem / crispadas / e ansiosas / por apertar em si e guiar / o falo erecto»

« Que meus flancos / ao meio / tenham a frescura que desejas / e logo nasce, / quando me afagas / e prevalece em ti / a espera e o desejo // Meu estro se afunde em tua carne... / se perca, / ganhe asas / e voe / sem disfarce // Soerga-se o corpo em vagas / de calor, // e a ardência no meio das tuas coxas / vergue a mim / a tua obstinada / vontade»

O melhor princípio, mas também este depende de quem faz a apreciação e a distinção, é o de que se há tratamento artístico, se há arte nos versos do livro poético, no enredo do romance, no argumento do filme, nos traços da pintura, se há divinização e sublimação do corpo, se há esplendor e felicidade instantânea, se há a fuga ao efémero do amor físico mas, ao contrário, há a homenagem ao amor, ao ser de carne e osso  - pois este, aqui, cumpre a função da arte, logo, é o seu papel na distinção original - o objecto, em mãos, é erótico; se a finalidade primeira e última da obra em apreço é apenas excitar o "freguês" e ganhar dinheiro com isso, se é negócio, se é ideia de comércio, se é compra e venda, então aqui a designação é pornográfico.
Isto remete-nos ao princípio do argumento onde se falou, na parte I, do aparecimento do termo francês pornographie cuja raíz é de origem grega nas palavras porné (=prostituta) e pórnos (=que se prostitui) e pornographos (=autor de escritos sobre prostituição); já o termo português "prostituição" vinha do latim prostitucione (=acto ou efeito de se prostituir; devassidão; vida desregrada). E onde se disse também, que qualquer que seja a raiz do termo (francês ou português), ali ficou expresso que todos estes termos trazem em si a "ideia de comércio", de "compra e venda".
Na altura de fazermos a classificação, de levantarmos a cancela e estabelecermos o limite e a fronteira, surge todo o tipo de argumentação e complicações na definição de uma e outra forma de literatura. E a ideia persiste: o que é erótico, para um, pode ser e tantas vezes o é, pornográfico, para outro.

Temos assim que, as fronteiras entre erotismo e pornografia, entre o que não é pornográfico e o que é obsceno, entre a literatura quer erótica, quer pornográfica, e a outra que não é nada disto, porque nem sequer literatura é, são das mais turvas, onde mais nevoeiro e neblina existe. E porquê? Eis a minha opinião de observador crítico:
Porque a perversidade das pessoas no julgamento que fazem, o esterco do pensamento e julgamento humano, as ideias enviusadas e mesquinhas e anquilosadas que lhes emolduram a moleirinha com teorias perversas e obliquantes a intentos enviusados e a terceiros, quantas vezes está no espírito turvo e ignorante do mau leitor, desse mau leitor, do mau observador, daquele que por perversidade distorce o que é verdadeiramente bom literariamente e emoldura o ruim que, aquilo que de literário tem, é nada, sequer esboçada contém tímida ideia do que se quer erótico ou não erótico. Julgam-se autores filósofos, quando na realidade são um fraco arremedo de autores, em tentativa forçada de o serem cómicos. Lugar aqui, de relevância, pela negativa, aos organizadores de antologias a versar o tema erótico - que de erótico pouco tem a escrita desses integrantes - na tentativa única de extorquirem, a esses incautos, mais uns cobres. Mas isso será assunto para segundas núpcias quando a disposição permitir escrever acerca desses livros, em concreto.
O cómico a que aludi algumas linhas atrás nesta explanação, nada tem a ver com aquele que, no uso da sua profissão nobre, faz rir por ser comediante em defesa de uma boa causa. Por isso, e para ressalvar algo de injusto que possam pensar quanto ao cómico, a que me referi, aqui fica a minha admiração pela sua arte de comediante, de distrair quem muitas vezes traz a vida de preocupações cheia. O meu desassossego, também, por aqueles que se julgam ter, de tudo, todo o conhecimento, esquecendo-se de que, sendo o mesmo ilimitado, melhor seria reconhecer a ignorância como a maior fonte da sabedoria.

III - Ínvias são as fronteiras da justiça e do julgamento literário!
A literatura erótica, de fronteiras muito indefinidas, está situada entre dois géneros bem diferentes entre si: de um lado, a literatura romântica, no sentido moderno do termo; do outro lado, a literatura pornográfica. E é exactamente esta fronteira existente, sem se saber onde, entre estes dois géneros literários que é de difícil localização.
No percurso entre romantismo e pornografia há marcos indesmentíveis no historial destes géneros. Tomemos, como exemplo, "A Dama das Camélias" de Alexandre Dumas Filho: o que aqui temos é uma bela história de amor. O erotismo em Margueritte - a personagem sem máscaras da Dama das Camélias tem uma vida ousada e vive à custa de homens mas é transformada pelo amor - serve apenas e só para ilustrar o retrato social da época e a força de uma paixão avassaladora. Ou a poética "As Palavras do Corpo" de Maria Teresa Horta: o que aqui temos é a essência da mulher ardente no que ela «tem de mais profundamente belo» - o seu erotismo.  Porém, noutros - e fácil agora é de definir em tantos livros que por aí habitam os escaparates das livrarias e o atulhado dos hipermercados onde vivem abafados, sem poderem respirar, entre pilhas de bacalhau e múltiplas grades de bebidas, a inebriar a sede de corações femininos, quando solitários - a pornografia tem fronteiras bem definidas com o erótico: são descrições nuas e cruas do acto sexual explícito e com foros aberrativos e luxuriantes em que a depravação explícita e a linguagem francamente atrevida e obscena, nos anunciam a obra como pornográfica sem margem para dúvidas.

Mas, a finalidade deste texto não é entrar na análise de obras de terceiros mas sim, a partir da sua leitura e estudo, tomar conhecimento de como ficcionam ou descrevem a realidade, ainda que ficcionada, e adquirir, com eles, a aprendizagem necessária para daí emitir opinião sobre o que julgo ser erótico e/ou pornográfico.
O erotismo, em meu entender naquilo que em tudo é diferente do pornográfico, deve, com a arte merecida, enquadrar-se nas emoções da vida humana. O erotismo deve,  na sua genialidade, comportar-se como expressão de sentimentos, de emoções reais da vida humana e não apenas de instintos que visem matar a fome sexual ao corpo e encher os bolsos às editoras e autores. Um erotismo intenso mas explicável, no uso das palavras talhadas com arte, fugindo ao grosseiro e ao ordinário, um erotismo enquadrado no contexto social de cada época e na real dimensão dos sentimentos humanos. Um erotismo que dê um bom livro, e que, como no dizer de Oscar Wilde, esse bom livro seja «aquele no qual a vida se enquadra».

Mas, jus seja feita à pornografia - quando fiel à sua vocação sem cair no ordinário, no vil, no torpe, no degradante, na baixeza moral, no abjecto, no pus e na podridão - desde que desnude a verdade séria e crua; longe de nos "rebaixar" leva-nos ao conhecimento, ao equilíbrio mental de quem andou muitas vezes de mente vendada e olhos cegos. Tal como se trata uma mulher que se desnuda, que se oferece e que consente, sem sequer se pensar em a rebaixar, antes dar-lhe a atenção que nos merece no acto da sua oferta, assim a pornografia nos pode conduzir à suprema sabedoria.

Mas, caímos na repetição do gesto e do conhecimento: difícil é dizer e com alguma dificuldade se dirá porque é que certa obra é erótica e outra o não é.
E, ao aventurarmo-nos em respostas, que seriam dúbias, tropeçaríamos com monstros da literatura actual que não saberíamos classificar. Porque, desviando-se de todos os artifícios literários que ajudam a definir a obra, negando análises e rejeitando imagens, repetindo e repisando continuamente a mesma estratégia de escrita, imprimindo às obras um verdadeiro sentido pornográfico pelas cenas escabrosas detalhadas, eles vão exercer sobre o leitor sugestões incontestavelmente cegas, poderosas e sensacionais. Tal leva-nos a pensar que, se há literatura nessas obras pornográficas, a mesma é má.

Isto leva-nos ao início do ensaio: como definir a literatura erótica sem nos ficarmos pela etimologia. Caberia em tal definição qualquer obra que tratasse do amor? Como atrás foi dito, se há amor na obra erótica ele que cumpra o seu papel de arte na distinção original da literatura erótica. Porque esta, na senda do princípio etimológico, exige tratamento artístico abominando toda a grosseria de palavras e todo o papel de negócio, de comércio com o sexo explícito. Mas... e se o erotismo em poesia também se revela pela presença explícita de vocábulos, perde aqui terreno para a pornografia? Onde termina a fronteira de uma literatura e começa o limite da outra? Difícil é esta resposta. Revela-se, tantas vezes, impossível de dizer!
Há obras de pura ficção e outras de pura erudição difíceis de classificar na literatura erótica. Porquê? Porque se pela acção da obra sobre a imaginação do leitor e as sensações que nele despertam, numa linha que fuja ao sexo explícito com palavras e gestos obscenos e execráveis - porque aqui seria pornografia pura-, ela possa ser classificada como "erotismo", como classificar a obra que trata exclusivamente de amor? Com dificuldade se não aceitaria na classificação de erótica; há quem lhe chame outro nome: sensual. E o que é sensual não é erótico? E o erótico, não é sensual? Ou é um erótico mais brando, mais doce, mais suave? Um erótico com um PH menos elevado?
Porque sendo uma, obra de ficção e ela nos impele a sentir as sensações físicas potenciadoras do amor, e a outra, tratando o mesmo amor de uma forma infinitamente erudita, não podem ter a mesma classificação? A classificação de "erotismo". Uma - a de pura ficção - que, embora actuando nos sentidos do leitor pela imaginação, respeita o exercício da palavra com arte, e a outra - a obra erudita - que se debruça sobre o amor como uma ciência, têm fronteira para uma ser uma coisa e a outra, outra coisa diferente?


Tudo se confunde e nada se define. Qual é a verdade da literatura erótica? Ou, em vez de literatura erótica, uma é literatura excitante, para que a que trata do sexo explícito com palavras e gestos obscenos abranger a classificação de erotismo? Existe ou não existe literatura erótica? Ou, por outras palavras, o que é erótico é pornográfico? E tudo o que é pornográfico deixa de ser literatura e passa a ser outra coisa qualquer como, por exemplo, filosofia pornográfica? Venha o diabo e escolha ou analisemos isto por duas partes: o que é literatura e o que é erotismo?

domingo, 17 de janeiro de 2016

FOTOGRAFIA DESVANECIDA

MIGUEL GOMES
Vejo-o apoiado no balcão. Separam-nos poucos meses de idade e muitos, muitos anos de vida separados, mas, ao mesmo tempo, juntos na cumplicidade que fica sempre que deixamos para trás os portões, outrora altos, da escola primária. Desde que o encontrei na fisioterapia, cada qual na sua função, eu de paciente impaciente e ele de benevolente bombeiro, que pensei para mim mesmo em guardar no telemóvel a fotografia de grupo, tirada no 2º ano, ou 2ª classe como prefiro dizer, nos degraus de acesso à porta de entrada da minha querida escola primária.

Noutros anos o, agora grande, balcão onde apoiamos cada um de nós um cotovelo, teria parecido enorme, um pouco como o muro que separava os dois edifícios da mesma escola, onde o desnível e o saltar para chegar em primeiro lugar à fila de distribuição do leite pareciam tarefas dignas dos ainda escassos e poucos afoitos super heróis que a televisão a preto e branco apresentava. 

Enquanto o tempo saboreia os cabelos brancos e se lembra de ser menos tempo, vamos respondendo sem falar às perguntas que inevitavelmente os olhos fazem quando se cruzam. Pouco há a dizer que mais do que um olhar, uma palmada nas costas, um aperto de mão firme e sentido e um desviar de olhar das cadeiras repletas de tempos e pessoas cicatrizadas, não sei se pela vida, se pela morte que nalguns casos parece tardar em chegar, não me pareça por falta de vontade, mas porque simplesmente, nalguns casos, parece vir alegre e pacata pela vida acima, cercando e colhendo os dias, um de cada vez, no lento padecimento de um corpo que se carcome por dentro, de dentro para fora, até se escoar o tempo na sua última hora.

Aumento a fotografia no ecrã usando dois dedos. Acredito que ao fazê-lo acaricie a mesma. Faço-o com o cuidado e carinho com que a professora fazia a cada um de nós, pirralhos inocentes, como que chovidos por nuvens de um céu outrora mais perto. Estamos perfilados, três filas em três degraus, meninos, meninas, professora e embora não os consigamos ver, andam por ali a volitar sonhos imensos em forma de corridas em redor da escola, caminhadas longas até casa, caminhos de terra e regos fundos de água seca, milheirais e laranjeiras.

Despeço-me, a vida encarrega-se certamente de nos cruzar mais à frente, nem que seja noutros igualmente volvidos 34 ou 35 anos, tu ficas por aí a escoltar de forma solene andarilhos, bengalas e muletas, suportando corpos de gente que não desiste. Eu vou andando, esforçando-me para não mancar, fazendo de conta que a porta do carro é o postigo que abro para o cãozito sair e vir bater-me nas pernas com o rabo enquanto olha para trás de mim e tenta perceber se é único que me consegue ver. Entro no carro, sento-me com cuidado, vergo-me numa vénia ao volante enquanto acomodo a almofada entre o banco e as costas. Fecho os olhos umas poucas vezes até surgir à minha frente a horizontalidade preferida e adequada para este novo dia azul que se pariu do céu após vários dias cinzentos de chuva, dou à chave contente, o painel ilumina-se, mas os meus olhos estão já na porta da escola, sobe-me o olhar pelas escadas por falta de coragem para o fazer pelas pedras salientes e, depois, alçar a perna sobre a grade, vão lestos pelo recreio, dão duas voltas à escola com os olhos a piscar alternadamente como os carros de polícia da balada de Hill Street, sobem os degraus sem se apoiarem no grosso corrimão de madeira e entram de rompante na sala cheia de ganapos. Estão com os olhos enfiados na sebenta, algumas línguas bailam de um canto da boca para outro, as mãos habituadas a pegarem em carros e caricas ou em bonecas de trapos e noutras mãos a bailar ao som do bom barqueiro, bom barqueiro, deixai-me passar, agarram o lápis e seguem solenemente o tracejado da primeira letra. 

Alguém buzina. Entro na auto-estrada, ligo os faróis. Volta-se o olhar para o caderno e chega a memória, sem cansaço, no requinte dos detalhes, dizendo-me que sim, é verdade que o dois parece-se mesmo com um patinho. Depois riem-se, olhar e memória, da caneta de filtro cor de laranja que utilizei para desenhar sardas na minha própria cara, das fichas de cor azul, dos problemas recortados do livro pelo picotado como pequenos bilhetes para um conhecimento hoje doutrinado. Alguém me ultrapassa, a deslocação do ar abana o carro. 

A fotografia desvanece, desbloqueio o telemóvel, o ecrã ilumina-se e lá estamos todos novamente, alinhados, inocentes e orgulhosos. Vem a tempo o tempo de me ver acordar com a pequena erva que a professora me coloca no ouvido, enquanto todos os meus colegas se riem da soneca que tirei sobre a carteira de madeira e tampo inclinado. Aperto as mãos no volante com força, como se sentisse a rugosa e áspera mesa, o sulco onde colocava o lápis e o circular buraco no centro onde, soube-o mais tarde, se colocar o tinteiro, coisa passada que a este passado não pertence. Paro. Desligo o carro. A dor espreita, mas de momento não estou disponível para ela, entretido que estou a pensar na caminhada de logo, à noite, por entre os muros de pedra que vi mingarem enquanto eles me viam crescer, imaginando e sentindo a sacola a bater nas costas, sem qualquer preocupação estética e estilística que assombrasse a igualdade de cada um de nós, putos, nos carreiros que fazíamos com as galochas nos caminhos moles de terra molhada, na esperança de um chã quente quando a mãe abrisse a porta de casa, um pão em forma de flor, a sacola aberta numa cadeira e os livros humedecidos sobre a mesa, as mãos pacientes da matriarca a tirar-nos as calças molhadas, a descalçar as meias e o apertar com as mãos os pés esbranquiçados da humidade que se secou à pele, a roupa pendurada nas costas de uma cadeira virada para o aquecedor a gáz, enquanto um testo tilintava numa dança sobre o tacho e o vapor se levantava com preguiça de subir pela chaminé e ver-se ali, entre o céu e o meu sonho. Saio do carro, bato a porta, não há ferrolhos ou despreocupações, tudo hoje se fecha e enclausura ao medo do que por aí anda, ainda que não se veja, sendo lá o que seja.

Deito mais um olhar à fotografia e bloqueio o telemóvel, caminhando despreocupadamente com a ignorância do conhecimento que dispenso.

sábado, 16 de janeiro de 2016

A PEDRA DE AMOLAR DA VIDA

JORGE NUNO
Em cada mudança de ano repetem-se sorrisos, abraços, um extremar de simpatias com amigos reais e virtuais, e a manutenção de alguns rituais apelidados de tradições. Entre estes, estão as doze passas de uva e a manifestação de desejos ocultos (ou não), na esperança milagrosa, para não lhe chamar ilusão, que “agora sim, neste novo ano, se realizem…” para, tendencialmente, daí a poucos dias se entrar, novamente, nas rotinas habituais. Afinal, já passaram quinze dias e quanto à dieta, para reduzir o peso… nada; é aquela atividade física salutar em grupo, arrastada (propositadamente) para ter início logo após a passagem de ano, a pretexto de se aproveitar para queimar calorias… ficando agora a desculpa de não haver tempo, sequer, para se ir fazer a inscrição no ginásio; ficou a vontade de mudar de emprego, por falta de realização pessoal e por já não se suportar mais a arrogância do chefe, assim como ficou o C.V. por enviar para outras empresas… por não se ser capaz de ousar e preferir “não trocar o certo pelo duvidoso”; quanto ao deixar de fumar… apenas se acaba de mudar de marca de tabaco, já que a Tabaqueira resolveu, para já, extinguir quatro marcas, a juntar a algumas dezenas já descontinuadas, prevendo-se alterações a curto prazo no SG Gigante e SG Filtro, assim como novo aumento no preço do tabaco (que poderia ser tão ou mais encorajador para deixar de fumar do que a genuína vontade intrínseca).

Parece evidente não haver fórmulas mágicas, mas creio que esse alcançar dos objetivos depende da “fibra” de cada um: há pessoas que definem os seus objetivos e tudo fazem para os alcançar, com imenso esforço pessoal; outras manifestam uma ténue vontade, na expetativa que as coisas aconteçam, e ficam o resto do tempo a queixar-se, ou a desculpar-se, pelo facto de tudo ter ficado na mesma, ou pior; encontram-se, também, algumas excepções de quem consegue muito, parecendo que tudo lhe cai do céu, com um dispêndio mínimo de esforço, seja com recurso a deploráveis atropelos indiscriminados, à frequente exibição do emblema partidário ou apenas deixar fluir, e esperar que as coisas, simplesmente, venham a acontecer (sem conotação com passividade). Essa “fibra” – que se traduz no perfil de cada um, e que varia, naturalmente, de pessoa para pessoa – ficou muito bem expressa por George Bernard Shaw (e que me serve de guia há muitos anos): “A vida é uma pedra de amolar: desgasta-nos ou afia-nos, conforme o metal de que somos feitos”.

Sempre me vi um lutador e ao fim de mais de 60 anos questiono-me se estive certo, quando me via, em limite de esforço, a “remar contra a maré”, mesmo com bastantes vezes a obter sucesso, o que me fazia experienciar, depois da “tormenta” uma sensação agradável de alívio, por achar que teria chegado a “porto seguro”. É que a vida ensinou-me muita coisa e agora vejo as coisas sob outro prisma. Adoro a palavra “fluir”, e nesta fase da vida é o que me apetece – deixar fluir – podendo dar-me ao luxo de, mesmo sabendo aquilo que quero, acreditar que aquilo que acontece é o melhor para mim. É que há coisas estranhas, que tantas vezes nos escapam. É a mulher que faz um esforço tremendo para engravidar, sem conseguir, para logo após ter desistido de lutar por esse objetivo, sem ansiedade e a fazer a sua vida normal, acabar por receber a boa-nova, através do teste de gravidez positivo; é o homem, que fez tudo ao seu alcance para obter aquele lugar a que tanto aspirava, vê-se desalentado ao ver esse cargo ser ocupado por outra pessoa, e quando já está conformado, surge-lhe uma oportunidade de emprego ainda melhor. Os exemplos poderiam ser muitos…

Quando em 2012 criei um dos meus blogues, neste caso com o endereço http://jorgenuno-art.blogspot.pt/, fiz questão de colocar na capa os seguintes pensamentos orientadores:

– Tal como Paulo Coelho... gosto de "imaginar uma nova história para a minha vida e acreditar nela";
– Tal como Kant... gosto de "acreditar em milagres, mas não depender deles";
– Tal como Júnior Montalvão... admito que "a inspiração vem de outros [de aquém e do Além], mas a motivação vem de dentro de mim";
– Tal como Albert Schweitzer... admito, por experiência própria, que "se amar o que faço, então serei bem sucedido" e que "o êxito não é a chave da felicidade, mas a felicidade é a chave do êxito";
– Tal como Madre Teresa de Calcutá... gosto de pensar que "a Vida é um sonho, daí que o procure realizar" e que "a Vida é mistério, daí que o procure aprofundar";
– Tal como Santo Agostinho de Hippo... admito que "a fé significa acreditar naquilo que ainda não vejo, e que a recompensa por essa fé é ver aquilo em que acredito";
– Tal como Wallace Watles... admito que "a mente grata espera continuamente coisas boas e a expetativa torna-se fé";
– Tal como Lao-Tsé... admito que "quando perceber que não há falta de nada, o mundo pertencer-me-á";
– Tal como Joemar Rios... gosto de pensar que "o tamanho das minhas bênçãos são determinadas pela grandeza das minhas virtudes";
– Tal como Michael Neill... admito que "estar totalmente atento ao que existe é estar contente e estar contente é ser abençoado por tudo o que acontece na vida"
– Tal como Osho... gosto de "usar as minhas energias para tornar um mundo mais belo, mais poético e mais saudável" e admito que "não se pode ser um criador se não se for um meditador";
– Tal como Mahatma Gandhi... tenho consciência que "precisamos de nos tornar na mudança que desejamos ver no mundo."
– Tal como Fernando Sabino... admito que "no fim de tudo dá certo, e se não deu certo é porque ainda não chegou ao fim".

Pode ser que contribua para nos transformar positivamente, conseguir uma melhor dosagem dos desejos e objetivos, obter um pouco mais de sucesso pessoal e profissional (com um pouco menos esforço), ajudar a enfrentar a pedra de amolar da vida e fazer-nos rejubilar por ela nos afiar, quando anteriormente nos desgastava.