quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

VIEMOS CANTAR OS REIS, A VÓS QUE BEM O MERECEIS


PAULO SANTOS SILVA
“O Dia de Reis, segundo a tradição cristã, seria aquele em que Jesus Cristo recém-nascido recebera a visita de "alguns magos do oriente" (Mateus 2:1) que, segundo o hagiológio, foram três Reis Magos, e que ocorrera no dia 6 de janeiro. A noite do dia 5 de janeiro e madrugada do dia 6 é conhecida como "Noite de Reis". A data marca, para os católicos, o dia para a veneração aos Reis Magos, que a tradição surgida no século VIII converteu nos santos Belchior, Gaspar e Baltazar. Nesta data, ainda, encerram-se para os católicos os festejos natalícios - sendo o dia em que são desarmados os presépios e por conseguinte são retirados todos os enfeites natalícios. Em Portugal e na Galiza, o bolo-rei ou bolo de Reis possui grande tradição e é confecionado com um brinde e uma fava. A pessoa que encontra a fava deve trazer o bolo de Reis no ano seguinte. Por todo o país as pessoas costumam «cantar os reis» ou as «reisadas» de porta em porta. São convidadas a entrar para o interior das casas e oferecidas pequenas refeições com doces, salgados, charcutarias, vinhos, etc. Neste dia eram também muito comuns os autos dos Reis Magos, peças de teatro popular. No Brasil, geminado culturalmente com Portugal, esta tradição tem muito do que se faz no velho país. A festa é comemorada com doces e comidas típicas das regiões. Há ainda festivais com as Companhias de Reis (grupo de músicos e dançarinos) que cantam músicas referentes ao evento, as conhecidas festas da Folia de Reis. Em alguns países, como Espanha, é estimulada entre as crianças a tradição de se deixar sapatos na janela com capim antes de dormir para que os camelos dos Reis Magos possam se alimentar e retomar viagem. Em troca, os Reis magos deixariam doces que as crianças encontram no lugar do capim após acordar. A tradição também consiste em comer o Bolo de Reis. Na França e em Quebec (no Canadá), come-se o Galette des Rois (Bolo de Reis), que contém um brinde no seu interior. O bolo vem acompanhado de uma coroa de papel e quem encontrar o brinde na sua fatia, será coroado e terá de oferecer o bolo no ano seguinte.” Feita esta introdução, que agradeço ao Sr. Wikipedia, começo por lhe desejar um EXCELENTE 2016, cheio de Saúde, Amor e Paz. Acredite, caro leitor, que com estas três coisas, arranja todas as outras!... Posto isto, vamos ao que interessa… A fava e o brinde, desapareceram graças À ASAE. O que não desapareceu, foi a tradição de cantar os Reis ou as Janeiras. Cada vez mais utilizadas pelos grupos desportivos, recreativos e culturais, como forma de angariar fundos, passarão a ser presença habitual à porta de casas mais abastadas ao longo deste mês. Algumas dessas casas, serão certamente vítimas de uma verdadeira overdose de visitas, não querendo certamente ser presenteadas com coisas como:

Se não nos abrir a porta Comete um grande engano Esta casa cheira mal Aqui mora um cigano!


Ou mesmo: Se não nos abrir a porta Fica escura como breu Esta casa cheira a mofo Aqui mora um judeu!
Por isso, se faz parte desta elite, prepare a carteira, recheie-a bem, porque eles vão andar por aí!!! Não são mal-intencionados. Não querem fazer mal a ninguém. Querem apenas angariar alguns fundos mais, para levar a cabo a sua missão. No entanto, tenha cuidado porque há por aí muito gato a fazer-se passar por lebre!...
Para não dizer que não lhe canto alguma coisa agradável, termino dedicando-lhe a seguinte quadra e sem ter de oferecer nada em troca:
Ai viva lá, Senhor Leitor Ai raminho de salsa crua Ai debaixo da sua cama Ai põe-se o Sol e nasce a Lua!

SARDINHA, PÃO, CARTAS E LEGUMES – O FIM?


DR GOOGLE IMAGES
Toda a gente sabe, que o peixe e os legumes fazem parte de uma boa alimentação, assim como o pão. E as cartas, o que fazem neste título?
Antigamente, havia o forno a lenha, onde, uma vez por semana, se cozia o pão, que antes levedava na gamela e depois era envolto de uma folha de couve para ser levado à cozedura. Todos esperavam por esse dia da semana para comerem um pouco, nem que fosse a côdea mais dura, que até os dedos enfarruscava. Tudo isto parte de testemunhos, pois as gerações foram mudando estas tradições, onde uma sardinha já não é para três pessoas.
Hoje, as buzinas anunciam a chegada do padeiro, do peixeiro, da vendedora de legumes e até do carteiro. Porém, não estarão estas visitas ameaçadas de chegar, mais cedo ou mais tarde? Vejamos: o peixe, o pão e os legumes podem ser comprados num só local, a qualquer hora do expediente das grandes superfícies comerciais. Estará o gato condenado a não mais receber a sua habitual sardinha moída, ou o bebé a não mais receber a fatia de pão? O carteiro, esse, vai trazendo as contas para pagar, se bem que o débito direto até a isso pode pôr termo. Já ninguém escreve cartas de amor, só se fossem de ódio pessoal que estimam pelo outro!

Post scriptum:
A buzina acordava qualquer sonolência. A professora queria preparar para o jantar arroz de feijão vermelho e sardinhas. “- Façam lá este exercício, que venho já!”, dizia ela. A “Inha” colocava o peixe no frigorífico com sal até ela se ir embora.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

RICAS FÉRIAS DO PROFESSOR

REGINA SARDOEIRA
Há alguns dias tive a oportunidade de ler (mais) um texto de análise sobre o trabalho dos professores e respectivas férias. 

Num tempo em que a informação percorre avassaladoramente todos os canais possíveis, pela qual toda a gente sabe tudo acerca da vida de todos, espanta-me sobremaneira que ainda se especule acerca de um tal assunto. Espanta-me que, tendo a esmagadora maioria das pessoas frequentado a escola, não tenha sido ainda absorvido por todos o carácter especifico dessa profissão. Espanta-me que a categoria destes profissionais não tenha sido ainda reconhecida como pertencendo ao topo e não à média (ou abaixo dela) e que ninguém tenha verdadeiramente compreendido o que é ser professor. 

Sei bem que nem todos os professores chegam a esta profissão por terem uma intrínseca vocação, quer dizer, por sentirem que ensinar é a tarefa essencial para justificar-lhes o sentido da existência. Mas sei o mesmo acerca dos médicos, por exemplo, que não acedem à carreira por sentirem uma ânsia incontrolável de salvar vidas. E, apesar disso, os médicos têm um elevado estatuto social, ao contrário dos professores. 
Apesar da possível ausência de vocação por parte de alguns docentes - e o mesmo é válido para os médicos - a verdade é que só no contacto efectivo com os revezes do ofício (ou com as compensações) é que o trabalhador pode aperceber-se do significado real da sua tarefa - seja ela ensinar ou curar. Começar seja o que for é perceber o caminho que há -de ser trilhado e apenas esse caminho poderá demonstrar se a vocação encontra, seja em quem for, o modo de expressar-se. 

Serve este intróito para exprimir a extrema perplexidade que me acomete quando me perguntam se estou de férias - só porque os alunos as têm - ou se, em Junho, entro de "férias grandes" - só porque, uma vez mais, os alunos deixam de ter aulas durante um período mais ou menos longo. 

Não, em Dezembro, de facto, não entramos de férias no último dia de aulas. Temos, pelo menos, três dias para reunir e dar as notas, depois vem o Natal, mais tarde o Ano Novo e eis que, nos primeiros dias de Janeiro já estamos ao serviço (este ano foi no dia 4, porque, de acordo com o calendário, ao dia 1 - feriado - seguiu-se um fim de semana. Este tempo em que eu, por exemplo, não fui à escola, chama-se interrupção das actividades lectivas; e caso me tivessem chamado para qualquer trabalho de escola eu teria que comparecer. Sei que muitos dos meus colegas tiveram trabalho na escola, em tempo de interrupção lectiva. 
O mesmo se passa com os restantes períodos em que os alunos ficam de férias (eles, sim, nós, não) e, temos direito a usufruir de 22 dias de férias, de facto, no verão, geralmente em Agosto ou muito próximo desse mês, por causa dos exames, e, por causa da organização do ano escolar, nunca podemos repartir as férias, como sei que fazem outros profissionais. 

A realidade é esta, muito simplesmente. 

Mas, pela parte que me toca, e pelo que vejo todos os dias à minha volta, na escola, tenho que admitir a necessidade absoluta de maiores pausas - quer para nós, professores, quer para eles, alunos. O nosso trabalho é duro e intenso. Obriga-nos a lidar, hora sobre hora, com turmas de 30 ou mais alunos e, seja qual for a matéria e o programa que temos que leccionar, precisamos de motivar esse número de jovens para aprender. Noventa minutos é o período de cada aula: agora, pensem um instante. Será possível manter grupos de 30 jovens atentos e reféns do nosso ensinamento durante 90 minutos? 

Eu sei que não, por experiência; mas também porque li estudos científicos sobre o problema da atenção. Percebo (em mim e nos outros) o modo como a capacidade de fixar o pensamento e os sentidos numa questão, numa conversa, numa música é frequentemente interrompido por ínfimas sugestões exteriores ou não. Compreendo perfeitamente que um aluno, mesmo que queira, tenderá a abstrair-se com muita facilidade e muitas vezes, no decurso de uma aula. 

Também sei que, por mais interessante que seja o assunto a tratar nas aulas, por mais que eu me desdobre em múltiplas estratégias, por mais que percorra a sala ininterruptamente para atingir todos os alunos, há lacunas por preencher, alunos distraídos ou interessados noutras actividades e, invariavelmente, um suspiro de alívio é sentido logo que os 90 minutos se cumprem. 

Como resulta evidente, aulas de 90 minutos, deste modo movimentadas - falo de mim, incapaz que sou de me sentar à secretária e daí debitar a matéria, ou de ligar o projector e apresentar powerpoints sistematicamente, ou de ditar apontamentos ou sei lá que mais - levam a um profundo cansaço que, algum tempo à noite não atenua, tanto mais que o trabalho vem para casa e obriga-nos a pensar e a planear o que faremos no dia seguinte.

Toda a gente sabe ainda que os alunos devem fazer testes, pelo menos dois por período. E então, para cumprir essa obrigação, é necessário, primeiro, elaborá -los a tempo de serem impressos na escola e, depois de feitos, é obrigação nossa corrigi-los, normalmente em casa, a horas mortas, roubando tempo ao sono - porque, nós, sendo humanos, tendo uma vida para além da escola, realizamos as tarefas e as funções comuns de qualquer ser humano. Por isso, sim, eu sinto, como muitos dos meus colegas sentem - todos?! - que mais interrupções ou um ritmo mais suave - ou mais normal - seria benéfico para ambas as partes. 
Porque, não duvidemos, também os estudantes são sobrecarregados com horários demasiado preenchidos, com uma avalanche de matérias, com um volume excessivo de trabalhos etc.; e, se forem realmente bons e aplicados, não lhes sobrará muito tempo para o imprescindível descanso. 

Dir-me-ão que é assim mesmo a vida: trabalho e mais trabalho, uma cruz. E eu objecto que não deveria sê-lo, que dado o nível actual da civilização, o lazer há muito que deveria ter sido instituído como a regra da vida humana. 

O lazer, sim, o tempo óptimo para usufruir da existência sem a subjugação a tarefas extenuantes e muito pouco gratificantes, a muitos níveis. Objectar-me-ão que a nossa economia é demasiado débil para permitir tal usufruto. E eu refuto, afirmando o contrário. 

Existe uma realidade económica e financeira chamada PIB - produto interno bruto - que corresponde, tanto quanto sei, à soma monetária de todos os produtos e serviços contabilizados num determinado tempo e num determinado país. Há algum tempo fiquei a saber que para a Saúde vão 6% do PIB e, mesmo considerando o facto de tal percentagem corresponder a vários milhões de euros, a cifra pareceu-me demasiado baixa, se pensarmos na distribuição dos restantes 94%. Para a Educação julgo que o valor atribuído será menor, rondando os 4% o que equivale, de novo, a alguns milhões de euros. Feitas as contas, estes dois importantes pilares da sociedade, usufruem de 10% de um total, sendo evidente que muitos milhões são atribuídos a sectores de menor relevância, desperdiçados, ou, muito simplesmente, desviados. 

Logo, resulta claro que aos professores e aos alunos, bem como a todos os que intervêm neste sector prioritário de qualquer sociedade, poderia ser dada uma condição de vida muito superior - bastava distribuir correctamente as percentagens do PIB. 

Desse modo, as escolas poderiam ter melhores condições, mais funcionários, mais professores, para reduzir o número de alunos por turma, a investigação acerca dos cursos oferecidos aos alunos, mediante as necessidades, poderia ser efectivamente levada a cabo, os vencimentos poderiam subir, criando novas oportunidades a uma classe esmagada e desprestigiada, os horários poderiam ser reduzidos, dando aos professores tempo para serem pessoas comuns e para poderem especializar-se, como devem e nem sempre podem e, talvez, então, falar das férias dos professores pudesse fazer sentido. 

Mas, esta minha reflexão, utópica, mas viável, se acaso as pessoas percebessem a importância da educação (e da saúde, etc.), a encontrar eco um dia, teria como corolário a conquista feita pelo homem da sua humanidade. E, nesse preciso momento, deixaria de haver equívocos acerca da abundância de férias de que, efetivamente nós, professores, não desfrutamos agora.

CHUVA, Ó LINDA CHUVA

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2016, que será o Ano do Macaco na China, começou com muita chuva. Uns queixam-se dela, outros acalcam-se com ele, até porque as plantações precisavam dela.
À semelhança do sol, a chuva, a neve, são importantes para a biodiversidade. A lareira começa, por estes dias, a ser o ponto de encontro de avós, pais e filhos.
Porém, as imagens dos locais de cheia não deixam de ser impressionantes, sobretudo quando se vê perder o trabalho de uma vida inteira em frações de segundo. A questão é: será a culpa do caudal do rio/mar, que já existe há milénios, ou da construção humana, que nem sempre é pensada da melhor forma, olhando-se apenas para os benefícios, sem colocar na balança os prós e contras?
Assim, é importante ver a chuva não como um estádio depressivo, em que as pessoas ficam retidas em casa, nos trabalhos com mau humor, queixosas, mas como um estádio meteorológico, onde umas boas galochas, uma boa gabardina nos pode tirar desta apatia e nos levar a, quiçá, explorar a natureza. A chuva molha, pois molha, mas chegados a casa um bom banho quente, uma chá de gengibre e vai ver como o seu equilíbrio físico e mental se reestabelece.
Sinta-se bem consigo mesmo (a).

Post scriptum:
Lembro-me dos dias chuvosos na escola, que ainda assim eram dias de alegria: tínhamos que ir esperar o/a professor(a), abriga-lo (a), para que pudesse rumar à sala sem estar molhado. Havia depois dias em que ia mesmo ao carro da professora, porque ela se havia esquecido do guarda-chuva no seu Fiat Cinzento.


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

O TEMPO E AS ESTRATÉGIAS DOS BONS E DOS MAUS MALANDROS

Uma senhora pergunta ao médico:
- Doutor, sexo anal engravida?

Responde o médico:
- Mas claro, minha senhora! De onde pensa que vem a maioria dos nossos políticos?
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ALVARO GIESTA
Há muitos anos escrevi esta anedota que um velho amigo de Angola, há muito residente em Carcavelos, me contou, como introito de um artigo de opinião para o Webjornal Balaio de Notícias, de Sergipe, Brasil, para onde escrevia na altura, a que dei o nome "A estratégia: dos bons e dos maus malandros". Ao mesmo tempo, mais ou menos sobre o mesmo assunto, embora com outras cambiantes, escrevia um outro, como alternativa ao primeiro, com o título "A fome do poder", e que destinei que fosse, também, apresentado ao jornal impresso (ora extinto) Notícias do Barreiro para onde eu também escrevia. Acabou por ser o segundo o eleito para o citado Webjornal, publicado na sua edição n.º 81, enquanto que o mesmo artigo, apresentado também ao jornal português, morria às portas da redacção, ao que penso por tecer algumas considerações criticas sobre um político, que se julgava o dono do poder, da democracia, da verdade, numa palavra, o dono do Povo. Morria o artigo e evaporava-se (evaporaram) este autor das colunas de opinião do (ex)Notícias do Barreiro para quem escrevia apenas pelo prazer de escrever, portanto, a custos zero.

O passado

O artigo "A estratégia: dos bons e dos maus malandros" ficou na gaveta, não a fazer a criação de caruncho mas, a fermentar, a levedar como requer a farinha com que se fabrica o pão, para a ocasião mais adequada - ela surgiu anos depois: aquando do anúncio da candidatura (tão desejada então) do professor Cavaco Silva às presidenciais de 2006. E escrevia eu, nesse ano e nessa altura, a propósito destas eleições presidenciais, na "Estratégia: dos bons e dos maus malandros" em versão adequada à nova realidade de 2006, que também publiquei no Brasil, onde já fervia a campanha de recandidatura à presidência de Lula da Silva, no já citado órgão de imprensa: «Para a sua candidatura ter o peso que merece e "empolgar", (que hoje para as coisas sérias, os políticos já se habituaram em transformar em festas), o País numa campanha pré-eleitoral à altura deste candidato de peso político (a Cavaco Silva me referia, então) - a quem as sondagens dão (davam, voltando ao tempo passado) a maioria absoluta logo à primeira volta (!?) (a exclamação e a interrogação a mim pertenciam) - nada melhor do que ter, pela frente, um candidato como Mário Soares, apesar dos vários "apesares"».

E continuava o artigo: «Mário Soares (ao tempo das presidenciais de 2006 era apenas um nome, que a idade não perdoa), que fez vibrar emoções que catapultavam massas, que mais das vezes se lançavam de olhos fechados para a frente de combate na certeza convicta da defesa do ideal socialista.» Também nesse meu escrito dizia que Mário Soares «já não é (não era, repondo o tempo passado) o elo que une, mas o divisor que divide (dividia, ao tempo de 2006) um partido: o "seu" partido socialista. E "seu" porque se julga (julgava, ao tempo) o único dono dele (do PS). Porque a sua "sede de poder" (ao tempo em que eu escrevia esse texto) cega, surda e muda se sobrepõe/sobrepunha ao bom senso, culpa dos seus vertiginosos mais que oitenta anos, para não reconhecer competência ao seu velho, mas bem mais novo do que ele, camarada de tantas lutas políticas no exílio: o "o crucificado" socialista Manuel Alegre.»

Acrescentava eu em tom interrogativo nesse artigo de opinião de então, acerca do "velho lobo" da política que se julgava o "dono" do "seu" PS: «Será a fome desmesurada do poder que leva Soares a não reconhecer competência ao velho companheiro de muitas lutas, Manuel Alegre, ou será porque ele se julga o dono da democracia que entende usar quando lhe apraz e lhe dá jeito, ao apregoar mais de seis décadas de militância contra um regime extinto (e referia, a seguir, dos dados cronológicos colhidos do ensaio publicado em 2004, no Público, por Pacheco Pereira), desde que "em 1942, altura em que entrou para o PCP e de onde foi empurrado em 1951, por não convir à ideologia do mesmo, passando depois, sucessivamente, pelas organizações de oposição moderada e anticomunista em 1954", ou porque se julgou arauto da democracia "denunciando o crime da morte de Delgado em 1958 e denunciando onze anos depois (em 1968) a hipocrisia do regime no "Portugal Amordaçado" que escreveu após esse ano até fundar, em 1973, o "seu" Partido Socialista", passando uma esponja, como lhe convinha, pelo "ano de 1969 quando demonstrou esperança em Caetano de que ele era capaz de liberalizar o regime salazarista" (pura utopia enquanto houvesse guerra colonial)?»

Reflexos do passado no tempo presente

Apregoar 60 ou 40 anos de actividade política, como então e hoje, não confere direitos, ao apregoador ou apregoadora, de se considerar melhor que os seus adversários, não para a condução dos destinos do País como se pretende fazer crer aos incautos, mas de controlador daqueles que têm nas mãos a sua condução, obrigando-se ao garante do cumprimento do que está instituído constitucionalmente. Em contraponto, aqui está quem ontem se arvorava no melhor que o outro e hoje o único capaz de garantir tudo sobre todos - leia-se: Mário Soares (versus) Maria de Belém.

Lembram-se (?) dos resultados finais que ditaram os portugueses, para citar apenas os três primeiros dos 6 candidatos às urnas - que 13 foram os "gulosos aventureiros" a anunciar candidatura naquele longínquo ano de 2006: Cavaco Silva 50,54 %, Manuel Alegre 20,74 % e Mário Soares, que se arvorava vencedor, não apenas contra o candidato da direita mas, também, e principalmente, contra o seu camarada de trincheiras, com a estrondosa derrota de 14,31 %. De que lhe valeu, em 2006, a gula, a ganância, a fome do poder, a sede da cadeira presidencial que aquecera, já, durante 10 anos, no interregno de tempo desde 1986 a 1996? Serviu-lhe apenas, e só, para destronar o seu velho amigo e camarada de tantas lutas democráticas contra o anterior regime? Não! Serviu, também, para ajudar a sentar em Belém quem, desde essa data até hoje, favoreceu sucessivos governos nos desgovernos e práticas de actos de má gestão que levaram o País à bancarrota e à penúria a maioria dos portugueses.

Isto, para dizer que hoje, em 2016, em termos de ausência de lucidez, ganância e falta de escrúpulos na corrida ao assento de Belém, é tão igual à de ontem, 2006; ontem, dez anos de loucura tão igual à de hoje nesta corrida ao palácio-cor-de-rosa para estadia de luxo de cinco anos, ainda que haja quem iluda os eleitores, com as suas promessas românticas, da devolução do palácio-cor-de-rosa ao povo se o povo o eleger Chefe do Estado. Desiludam-se os que ainda teimam viver do e no sonho e da ilusão das promessas.

As evidências do presente

Hoje, o "Cavaco" que inquieta já não é o Cavaco Silva que atormentou aqueles que têm sempre prontos o dedo para colocar em riste na acusação; já não é aquele que inquietantemente governou ou depois fiscalizou, como lhe convinha; já não é este que se despede desta longa estadia de dez anos com marcas assaz negras na sua derradeira meta presidencial, ou aquele que antes fora o divino salvador da Pátria graças aos divinos dinheiros de Bruxelas, mal colocados, pessimamente distribuídos e, pior que isso, nunca fiscalizados; já não é o condutor e gestor sábio que se quis, então, útil a um destino que se queria sério a um país e para um país que caminhava - e de que ainda não levantou completamente a cabeça - a passos largos para o desânimo e inconformismo, quase se limitando a acolher (então e ainda agora) de braços cruzados ou pendentes, a desgraça de todos os dias, esperada de cada vez que se adivinhava (e ainda hoje se teme) o primeiro ministro ou o seu ministro das finanças públicas a vir à liça a dar a notícia de mais um buraco a fazer ao cinto ou a dar o dito pelo não dito nas promessas eleitorais que o guindaram ao poder.

Hoje, o gestor, está prestes a ceder a cadeira do poder a um sábio sofista, a quem a grande maioria chama "o professor" ou o analista político. Eu chamo-lhe "o sofista" - aquele que convence o povo pelo dom da palavra. Aquele que, como outros opositores se lhe dirigem, não tem a craveira política de 40 anos ao serviço da causa pública para ser um bom presidente. E não terá os tais 40 anos de saber político, o que não quer dizer que, por não tê-los, não possa vir a ser um bom Chefe do Estado.

Embora, ainda ontem (refiro-me ao último dia do ano de 2015), quando o ouvia em entrevista no telejornal da estação televisiva que há 15 anos o lança para o poder de/a Belém, depois de eu ter espremido as suas ideias programáticas vertidas no dito jornal (ele é quem chama "ideias" ao que não disse, pois eu chamo-lhe "coisa-nenhuma") concluí o que, daí a pouco, dois analistas concluíram: o sofista (o termo é meu) e professor Marcelo do programa eleitoral disse nada. Disse menos do que deita um limão seco depois de bem espremido!

O que ele quis nesse sábio não-dizer, foi agradar a gregos e troianos para não perder as simpatias de todos os quadrantes: da esquerda à direita e aos indecisos. Sabe ele bem (!) que tem que granjear a simpatia de todos os eleitores, mas muito principalmente daqueles que duvidam e hesitam se vão ou não votar naqueles que dão razão à resposta do médico àquela senhora que lhe perguntou se "sexo anal engravida" - é que destes depende também a garantia de eleição, à primeira volta, do professor Marcelo.

Sem pretender desvirtuar o artigo, digo: expectante, sou daqueles que penso que a grande maioria dos outros candidatos são políticos igual àquilo que o ânus da anedota expele - com todo o respeito para a substância expelida que apenas incomoda pelo mau cheiro, mas garante, pelo alívio que o nobre órgão dá à tripa, quando a expele, a perfeita saúde ao corpo todo.

Face a isto, o que resta ao povo: escolher o "sofista" que "cometeu o crime" de prender durante 15 anos as massas ao pequeno écrã? escolher quem diz que é o/a único/a garante que a constituição se cumpra, sem convicção de o ser, ou antes, com a convicção de que, se não é coisa-nenhuma é, pelo menos, coisa-poucochinho, coisa-pequenina, coisa-sem-perfil para cumprir e fazer cumprir a constituição que jura, coisa como caldo-de-galinha-sem-sal que se dá ao doente anémico iludindo-o que cura, na certeza de que esse caldo-sem-sal serve apenas para iludir o paciente? ou escolher qualquer coisa julgada útil do resto que sobra igual ao produto que o nobre órgão se atreveu a expelir?

A finalidade objectiva de qualquer destes últimos, para além da busca feroz pela cadeira do poder, é colocar o adversário do outro lado da barricada, erguendo as suas bandeiras afinadas pelo mesmo diapasão, com desprezo absoluto para os verdadeiros interesses de todos os portugueses.

O tempo dos figurantes e dos figurinos

As chamas inflamadas ainda agora estão no princípio: não tardarão a incendiar ânimos e a fazer decidir indecisos mesmo do lado da barricada donde nunca os houve. As pessoas de hoje já não são pequenas de inteligência. E sabem decidir e separar o trigo do joio para que a semeadura dê bom pão. As pessoas de hoje já não são os labregos, os pategos e os borregos doutros tempos!

Vai longe o tempo em que os labregos e pategos, escondidos numa ignorância vergonhosa e envergonhada, embarcavam a penantes e calcantes manhã cedo ainda longe de romper a "alba" - com a devida vénia ao género literário da poesia provençal - para aplaudirem Sua Excelência o Presidente do Conselho, de passagem nas suas "precárias" saídas, não mais longínquas do que para os lados da Batalha ou de Alcobaça, das poucas que se lhe conheceram. Esses labregos, desse «Portugal Profundis», lá iam eles vaidosos nas suas faixas brancas de cruzados onde se estampava a rubra Cruz de Cristo, enquadrados pelos esbirros da União Nacional, qual manso rebanho de cordeiros com os olhos pregados ao chão que os possantes carneiros não deixavam encarar de frente a luz do dia.

Longe vai o tempo em que esses borregos, ensinados a balir sempre a mesma canção monocórdica "Sim, Senhor Presidente", calcorreavam os tais caminhos, pedregosos ou enlameados, caísse chuva ou espessa neve ou soprasse agreste vento, para irem "deitar o voto" a mando do senhor Doutor ou barão Fulano de Tal da paróquia. E sempre o mesmo voto. Dormisse já, o votante, o sono eterno à beira do cipreste, ou andasse a fazer pela vida nas longínquas áfricas ou distantes brasis. Desses, nem a borrega-cônjuge ou borrego-descendente precisava de "pôr-a-cruz" no quadradinho, que há muito o tal doutor ou barão a desenhara na perfeição.

Era assim o «Portugal Profundo» de outros tempos para lá das escarpadas montanhas levantadas até onde o céu é mais próximo e mais azul e das planícies eternas estendidas, qual muro de Berlim, a separar os labregos, os pategos e os borregos dos figurantes e figurões que ontem, tal como hoje, formam a faustosa civilização dos presumidos, convencidos e vaidosos maus políticos que se julgam bons e mais honestos que os outros, só porque são citadinos e ostentam um canudo.Sopram agora novos ventos que os portugueses de hoje já não são "parva intelligentia" nem desprovidos de olfacto - cheiram à distância se os novos ventos trazem nas asas os prometidos bons aromas ou os cheiros dos produtos defecados tão iguais aos que tais políticos exalam.

domingo, 3 de janeiro de 2016

BOM 2016, TODOS OS DIAS

“És perança” 

MIGUEL GOMES
A esperança parece espreitar de cada vez que as nuvens soltam as mãos e, afastando-se, deixam que o céu noturno e escuro exiba a escuridão polvilhada de luz, como se uma atenta e bondosa cozinheira, de avental mascavado de sabores e cores de outras receitas, afundasse uma mão na bacia onde descansam infinitos flocos de fé e a tirasse, em seguida, fechada e prenhe, com pó a soltar-se acompanhando o movimento do braço como a flamejante cauda de um cometa, para a espalhar sobre a vítrea mesa da cozinha. Estaremos abaixo da mesa, crianças, como que a brincar com os pequenos brinquedos que nos dão adultos, crianças ainda, sem saberem que olhar para cima, acima e por dentro de nós mesmo, é o brinquedo que nos permitirá ter esperança.

Na noite de ano novo, quando as badaladas se vão repetindo ao redor do berlinde azul esverdeado que é o nosso, salpicamos o céu noturno de estrelas que atiramos ao ar, aspirantes de cozinheiros e aprendizes de agricultores, semeando no firmamento uma limitada infinitude de pontos luminosos que ribombam como trovões, fugazes, ascendendo rapidamente como a nossa vontade para bruxulearem no auge e, depois, como os nossos dias em vidas que por aqui perpetuamos, deixando-se cair de costas, levados e lavados pelo vento e pela noite, num pendular e, por vezes, espiraldado movimento, de olhos fechados, com o resto de luz que nos sobra depois da explosão, e com o sorriso típico de criança que vamos esquecendo no percurso, de vida e de faúlha, para cairmos já esmaecidos e invisíveis por tão negros ausentes de luz.

Temos a aspiração de aspirar, por isso vamos querendo foguear artificiamente na noite em que prometemos deixar para trás parte de nós, erguendo-nos do casulo que nos pariu para sermos qualquer espécie de esperança. Mas a esperança, seja pela falta de polvilhadores, seja pela proliferação de profissionais do amedrontamento que pintam o dia que se segue com as mesmas ideias e sonhos urdidos que existiam antes do esperançoso vislumbre do céu noturno, com as passas na mão, o copo na outra, os pés firmes no chão e um efeito de não sei o quê a palpitar onde em tempos morou o coração, acaba por se esvair como a trémula centelha que restou da explosão que originou a própria esperança.

O dia seguinte, em sequência do anterior, continua a acrescentar a esperança aos nossos dias, embora com menos protuberância, vai renascendo como se seguisse os mesmos passos orbitais nos nossos astros. 

Existirá vida antes da esperança? Como um lançamento à vida de um desafio, nasce baixo, lento, até harmonicamente se tornar melodioso per si. A esperança como respirar, como o bater sincronizado com uma fonte inesgotável de certeza, um coração que ganha vida pela própria vida, como o renascer que soluça no medo e é resgatado pela esperança.

A esperança, o renascer, a certeza da mesma em nós leva-nos ao término de uma jornada em crescendo até se tornar inaudível, invisível, apenas palpável pela serenidade do olhar de quem se sabe imortal. Assim é o renascer da esperança: Ser esperança.

É fácil deixar que o embalo deste calor ainda morno que a esperança pariu leve-me para fora de um caminho de terra, calcado por animais e gentes, em labuta ou assim a modos de vida, como quem luta. 

Vou enchendo o alforge com histórias que não vivi, encosto a um lado o pão que me resta, falta-me o bagaço, mata-bicho, mas sobeja-me em sofreguidão de uma aldeia perdida, um local ermo, como são todos os locais para onde nos dirigimos, mais cedo ou mais tarde, em busca do nosso lugar. O silêncio e o som dele mesmo. O antagónico e o complementar. Uma criança chora. Um colchão range e eu sei que alguém se sentou ao lado dela, colocando as mãos nos cabelos, afagando o amor para que, lentamente, vá afastando o medo e exorcizando monstros, enquanto as lágrimas secam e se deixam adormecer, elas também, pelo carinho.

Um corpo acocorado vai raspando entre paralelos, arranca ervas como quem cata a cabeça de um petiz com piolhada. Alguém resmunga. Conversas que se têm com aparelhos estranhos. O corpo acocorado, arrasta pernas numa coreografia que ninguém aplaudirá, ouve passos e já nem levanta o olhar, ainda que o levantassem a ele. Está habituado a deitar corpos à terra, emoldurados numa redoma de madeira, cetim, a falar com eles enquanto eles, a rigor vestidos, se deixam sentar ainda confusos da recente condição de ser e não ter corpo. Acocorado. Como quem tivesse sustentado a vida e, cansado, ou acordado, decidisse sucumbir ao peso da carga e manter-se assim, acocorado, longe dos olhares que nada perscrutam, porque não há solidão maior que olhar para os olhos de quem quer que seja e não ver vivalma. Como quem abre uma porta de madeira e esta se desprega das dobradiças de couro, sem ferrolho ou trave, na esperança de ver e ouvir o lume crepitar numa lareira onde um caldo se aquecia e ver, apenas, o negro que sobrou depois da ausência de corpos terem incendiado o abandono. Há uma esperança que alimenta a vida. 

Uma noite ainda por viver. A calmaria descansa enquanto a tempestade se afoita e corre mundo, montada na ignorância humana, queimando e agredindo, para se colher, esperançosamente, a calma que ressoará quando o último foguete arder no ar e os nossos rostos, juntos, virem apenas a luz que somos.

sábado, 2 de janeiro de 2016

MALUCOS DA BOLA

JORGE NUNO
Nesta fase de transição de ano, seria muito fácil abordar as loucuras que se cometem a pretexto do Natal e da Passagem de Ano, tais como: os exageros alimentares e, particularmente, o consumo de álcool; as roupas, as viagens ou uma simples noite num hotel, onde quase não se chega a dormir; as loucuras cometidas por muitas autarquias com iluminação de ruas e fogo de artifício, a atingir valores exorbitantes...

Loucuras, sempre foram cometidas; umas maiores, outras bem menores, com menos expressão, mas nem por isso deixam de se apelidar de loucuras. E normalmente até começamos bem cedo. Lembro-me de nos primeiros anos da escola primária ter a “pancada” pelos cromos da bola, como qualquer outro miúdo, com uma tendência para “ir ao céu”, quando via e conseguia um cromo em falta de guarda-redes (GR). Como tinha alguma dificuldade em comprá-los, usava subterfúgios com vizinhos e companheiros de escola, entrando aqui a troca – com variação do número de berlindes, caricas ou de outros produtos afins, consoante a raridade do cromo que pretendia –. Era um delírio quando, mesmo sem caderneta, conseguia, entre muitos outros: o Américo (GR) ou o Hernâni, do F.C. Porto; Travassos ou Vasques, do Sporting C. P.; Costa Pereira (GR) ou Cavém, do S. L. Benfica; Vital (GR), do Lusitano de Évora; Serrano (GR) do Torreense; Abalroado, da CUF – Companhia União Fabril (um clube que se manteve na 1.ª divisão durante 22 anos consecutivos e que “morreu” na época de 1975/76, com o acontecimento do 25 de abril de 1974)… Também o clube de futebol da sucursal da Empresa Fabril do Norte – onde joguei (com a braçadeira de capitão) –, após o referido acontecimento também viria a encerrar, tal como a própria fábrica, por ter cessado o apoio, que era dado pelo anterior regime, e pelo crescimento da produção nos países asiáticos. Como curiosidade, a Casa do Operário da fábrica, além do clube de futebol federado, dispunha de uma orquestra típica, um rancho folclórico e de um grupo de teatro, com a sala de espetáculos a ser inaugurada, em 1966, pelo grande Francisco Ribeiro (Ribeirinho). Estas eram saudáveis loucuras, tal como o eram, à época, jogar-se futebol, por amor à camisola, unicamente com um número nas costas e com o emblema do clube na parte da frente, junto ao coração.

No regime salazarista, surgiu a ideia dos três efes – Fado, Futebol e Fátima –, que eram considerados os três pilares do regime, a simbolizar os valores portugueses, mas que muitos acusaram da intenção de desviar as atenções dos reais problemas do país e, outros, chamavam-lhe mesmo o “ópio do povo”. Em 2003, alguns brincalhões apropriaram-se do slogan para dizer que “Fátima” era a Felgueiras (acusada de peculato e de abuso de poder, e posteriormente absolvida), que com o “saco azul”, tanto financiava o partido como o clube de futebol da cidade, onde era presidente da autarquia; que este era o nosso fado (pelas situações recorrentes em inúmeros locais do país) e… acabava-se com um “viva o futebol!”. Também é indiscutível haver uma relação entre Fátima e o futebol, senão vejamos: na procissão das velas, no Santuário, em cada 12 de maio, costuma haver um sentido adeus à passagem da Virgem, com acenos de lenços brancos; já vi isso muitas vezes no decorrer de jogos no Estádio José Alvalade, levando à saída de treinadores como José Peseiro; o grau de exigência dos benfiquistas é de tal modo elevado, a ponto de os lenços serem mostrados aos jogadores e à equipa técnica, mesmo em jogos da pré-época, por alusiva “falta de ideias, soluções e entusiasmo”; como não podia deixar de ser… também no Porto, como bons portugueses, são muito “devotos” e, no último jogo do ano, perante a derrota em casa frente ao Marítimo, brindaram, com lenços brancos, o treinador Julen Lopetegui.

Mas a loucura maior – que já não é só a de loucos por bola, mas de loucos da bola –, aí está, a envolver os jogos (“em casa”) das equipas A de futebol sénior dos três “grandes”, com valores astronómicos anunciados na CMVM!

Contudo, antes quero referir que a Deco Proteste, em 2013, desaconselhou a subscrição de um empréstimo obrigacionista no montante de 45 milhões de euros, intitulado “Obrigações Benfica SAD 2016”, pelo risco ser muito elevado, já que “as contas da Benfica SAD são débeis”. Foi, precisamente, a Benfica SAD a primeira a deixar o país perplexo com o meganegócio com a operadora NOS; vendia, a esta, os direitos televisivos e de multimédia por 400 milhões de euros, por três anos, renováveis até 10 anos, a iniciar na época 2016/2017, incluindo também a cedência dos direitos de transmissão e distribuição da Benfica TV por 3 anos, renováveis até 13 anos; lembra-se que o clube já tem um contrato com a Companhia Aérea Emirates, até ao final de 2017/2018, no valor de 8 milhões por época (podendo chegar aos 10 milhões) devido a publicidade nos equipamentos; no contrato com a NOS ficou de fora a questão da publicidade, o que coloca o clube numa boa posição para renegociação futura.

Para nosso espanto, quase de seguida, F. C. Porto – Futebol SAD anuncia outro contrato, aparentemente, ainda melhor, com a concorrente MEO/Altice; os valores envolvidos são de 457,5 milhões de euros, pelos direitos televisivos e de multimédia por 10 épocas, a iniciar em 2018/19; inclui também publicidade estática, por 10 épocas, e nas camisolas por 7 épocas e meia, a partir de janeiro de 2016, além da cedência dos direitos de transmissão do Porto Canal, por 12 épocas e meia.

Já depois de dados a conhecer os outdoors na 2.ª Circular, em Lisboa, com “Nem Champions, nem Taça, nem cérebro, nem liderança, nem poupança. As mentiras já Doyen. O Sporting está em risco. Acordem!”, visando o presidente da Sporting SAD, e quando se estava à espera de ver um “Calimero” derrotado, vexado, rezingão, a disparar em várias direções, eis que é anunciado mais um fabuloso contrato, aparentemente, ainda melhor que qualquer dos outros dois apresentados pelos clubes rivais. Foi assinado com a NOS, e anunciado o valor de 446 milhões de euros pelos direitos televisivos e multimédia, por 10 épocas, com início em 2018/19, incluindo também a publicidade estática e virtual (que ainda não está regulamentada em Portugal e, como tal, ainda não pode ser considerada legal); a publicidade no equipamento por 12 épocas e meia, a partir de 1 de janeiro de 2016 e a cedência, por 12 épocas, dos direitos de transmissão e distribuição da Sporting TV; simultaneamente foi anunciada a renegociação, com a PPTV – Publicidade de Portugal e Televisão, S.A., de Joaquim Oliveira, dos direitos televisivos e de multimédia para as três épocas, de 2015 a 2018, no valor de 69 milhões de euros, o que pode configurar um encaixe financeiro total de 515 milhões de euros.

Mesmo sabendo que estes valores não estão detalhados e são globais, não deixam de ser números deveras exorbitantes para a nossa dimensão futebolística; mas para que se fique com uma ideia da sua relatividade, cada um destes três “grandes” recebe pelos direitos televisivos e de multimédia, assim como da publicidade, aproximadamente metade do que recebe o último classificado da Premier League (inglesa). Então? As operadoras estão loucas ao fazerem estes avultados investimentos? Talvez não; são empreendedoras e acreditam na rentabilização, revendendo direitos para outros países, em vários continentes, e valorizando o mercado da publicidade. E então os pequenos clubes da 1.ª Liga portuguesa? Para os pequenos (como sempre) sobrará umas migalhas, pois também ajudam ao espetáculo, mas mesmo assim prevê-se que possam receber o triplo do que amealham atualmente. Agora, será bom para todos (e para a própria indústria do futebol), que os respetivos presidentes dos clubes se deixem de loucuras, relacionem-se entre si com civismo, não incendeiem as claques, não se ponham a fazer compras de passes de jogadores de valor e ordenados incomportáveis, e amortizem as dívidas e abatam os elevados passivos, atualmente capazes de levar à falência um qualquer clube, mesmo que histórico.

Malucos por bola? Sempre houve e haverá. Até a minha gata “Ronalda” – assim apelidada, não por associação ao “nosso” CR7, mas ao brasileiro, “o verdadeiro Ronaldo” (como disse José Mourinho, com provocação) – mesmo gorda como está, quando encontra qualquer uma das três bolas ultraleves anti-stresse (que esconde habitualmente) é uma alegria e corre, sofregamente, durante uns bons minutos, para depois retomar a vida pachorrenta de quem só “come e dorme”.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

DESEJOS, OBJETIVOS E PROMESSAS

PROMETO FALHAR
GABRIEL VILAS BOAS
Eis a única promessa que estou seguro que cumprirei, apesar de não fazer nenhum gosto nisso. Por muito minimalistas ou cuidadosos que sejamos, haverá sempre alguma coisa que não cumpriremos, das diversas resoluções, umas mais secretas que outras, que, por estas horas, tomamos.

E como isso se tornou banal! Tão banal que trocámos de palavras para não parecer tão mal e passámos a falar de “desejos”. Ora, ninguém se sente responsável por desejos, cujo esforço de concretização fica a cargo dos outros e das circunstâncias. Uma promessa compromete-nos de uma forma quase absoluta e traz consigo a sombra do fracasso ou da desonra.

Se quiséssemos ser sérios falávamos de objetivos, que já não têm aquela carga dramática, mas também não são merosdesejos de ocasião. Hoje é dia deles, como ontem foi dia de “balanços” e há uma semana dia de ser bom. O perigo das convenções é brincar irresponsavelmente às coisas sérias, que assim passam anos sem serem abordadas com seriedade.

Claro que é bom ter desejos grandiosos e filantrópicos; claro que é importante traçar objetivos ambiciosos e realistas para um período temporal da nossa vida; claro que é salutar ter a coragem de nos comprometermos com uma ou outra ação relevante e desenvolvermos verdadeiros esforços para a cumprirmos. Normalmente as promessas têm esta “chatice” de poderem ser verificadas pelos outros, mas o crescimento pessoal precisa de compromisso.

Passando à frente a parte dos desejos (cuidado com o que desejas, pois alguns podem cumprir-se!), sempre achei muito interessante delinearmos objetivos para a nossa vida e definirmos um período de tempo para a sua consecução. Claro que o dia 1 de janeiro é o pior dia do ano para tal exercício, pois, quando chegar a altura de os levarmos a sério, vamos sorrir para a nossa consciência e dizer: “Aquilo foi tudo brincadeirinha de 1 de janeiro!”, “Champagne a mais, entusiasmo do momento!”.

Como daqui a dois/três dias regressaremos à garrafa de água e o almoço já não terá sobremesa, será a altura indicada para estruturar os nossos objetivos do ano. Devem ser poucos, realistas e duros. As categoriais são as do costume: objetivos relacionais, afetivos, laborais, económicos, de saúde. Se não exagerarmos na carga, arranjaremos trabalho para muitos meses. Uns conseguiremos cumprir, outros não. Quando daqui a 365 dias chegar o dia oficial dos balanços, já temos matéria para refletir. E nesse caso, estou certo, não arquivaremos as conclusões nos baús da memória.

Ter objetivos, ter foco é uma das maneiras mais salutares de viver e crescer. Se quisermos aumentar o dramatismo ou demonstrar compromisso, sempre podemos transformar um ou outro em promessa. Claro que podemos falhar, mas só seremos uns falhados se não tentarmos. Como diria Samuel Beckett: “Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.”