domingo, 20 de dezembro de 2015

NOITE BRANCA

“Pré sépio”

Os dias acumulam nuvens cinzentas e a noite espreguiça-se bem mais cedo pelo céu adentro como dona e
MIGUEL GOMES
senhora de um tempo onde moram as lareiras acesas. O vento atiça pinhais, a caruma comprime-se sob os pés, folhas resilientes de eucaliptos resistentes aproveitam a boleia do ar esvoaçante para o seu baptismo de voo.

Um muro baixo de um tijolo fino parece abanar quando as duas mãos de puto içam o corpo e os joelhos primeiro e as biqueiras das botas depois embatem nele, até conseguir alçar uma perna primeiro, outra perna depois, e cair com estrondo no amontoado de caruma, mato, cascas de batata e restos de comida que as raposas, ouriços-cacheiros e outra bicharada do monte não comeram.

A terra exibe peladas graníticas em todos os locais não cobertos pelo húmus e aspirantes a húmus e os locais menos percorridos, onde a erva, verde após as chuvas, menos calcada exibe um padrão de virgindade atrativo a quem busca o mesmo nesta altura do ano. A desvantagem de um caminho menos ou nunca percorrido é a quantidade de giestas que se espreguiçaram para lá do usual e mesmo os matos e fetos parecem aproveitar a ausência de hominais para estenderem a ramalhada urticante. 

A vantagem de um caminho nunca percorrido é a possibilidade de qualquer passo que se dê ser o início de um novo caminho, a construção da estrada nova a cada ano, sempre por atalhos diferentes até chegar onde repousa o melhor, mais entufado, mais almofadado musgo de sempre, um segredo bem guardado.

Até chegar à recompensa, na orla da antiga pedreira, há que pender passadas lentas e firmes, não se caia a inocência num buraco mais esburacado, e também para admirar os cantos que se calam quando um ramo seco, dos poucos que ainda restam, se parte e anuncia a presença de mais do que os habituais animais. Ali, parado, o silêncio da natureza na forma de pinheiros que rangem e ventos uivantes por entre troncos, os pés já molhados pela humidade que vence a fronteira de couro e plástico e se encosta às meias grossas, uma mão sai do bolso e repousa num feito maior, sem beligerância, num gesto inocente de pedir licença ao inanimado afasta do caminho a planta e escuta atento o silvo das nuvens a roçarem umas nas outras no desafio de ver quem delas se choverá primeiro. Por entre passos e descasos, a crista do cedro ao longe, a mão suja entra no bolso e desenterra de lá um saco de plástico à medida que se aproxima da orla da pedreira. O manto verde e fofo convida a descalçar, mas a razão rápida se sobrepõe à imaginação e segreda ao ouvido da consciência os avisos decorados por anos e anos de infância. “tu vê o que vais fazer, o presépio não precisa de musgo!” ou “é melhor que não te sujes, este tempo não ajuda a secar nada!” ou ainda “só tens essas botas secas, vê se queres ficar em casa nas férias”. E posto isto, com um joelho na saca aberta sobre o musgo, na oração de perdão por escalpelar a terra arrancando-lhe o musgo pela raiz, vai-se enchendo o outro saco de plástico com cuidado suficiente para não se rasgar, o saco ou o tapete musgoso acompanhado do pedido de desculpas.

Já em casa, com as figuras perfiladas a aguardar nos tacos encerados há dias, estende o plástico, depois a velha e semi-apodrecida tábua de madeira (na verdade eram dois velhos tacos encontrados na lixeira plantada pelos poucos habitantes ainda existentes no meio de outra pedreira abandonada), o plástico aberto para fechar o caminho à humidade e, por fim, o musgo, ainda com o mesmo cuidado. 

“Não adianta empurrarem, eu escolho quem coloco primeiro”, as figuras rezingavam ansiosas por subirem para o presépio, enquanto a criança pegava uma a uma a ornamentalidade em forma de pastor, vaca, burro, até cão havia, o berço, José extremoso e orgulho, Maria preocupada ainda por não ter pouso para parir, mas confiante nas palavras de Gabriel, outro pastor, ainda outro pastor e, por fim, apeia-se a realeza, acomoda-se a cáfila junto da vaca e do burro, todo o bafo animal é necessário para aquecer quem ainda não nasceu, os reis magos vão para trás dos pastores e irão, sei-o depois movido pela curiosidade de os espreitar quando não estou, colocar nos bolsos dos pastores os tesouros destinados à criança, fieis depositários das riquezas do mundo e, ombro no ombro, plebe e realeza, esperarão pacientes, descansando dos centos de dias passados na caixa de sapatos como longa caminhada pelas estepes guiados por um astro que brilhava dentro deles, que chegue o Salvador.

A ceia pouca importância tem, perde algum tempo a ver o vapor que se solta das pencas e batatas cozidas, esmaga um ovo cozido contra o azeite, cebola e alho picado, faz desenhos na mistela e reza baixinho, “quem dera que todos possam ter comida à frente, família e amigos ao lado e este calor morninho dentro”.

Os mais velhos sairão para a missa, boinas e gorros, cachecóis garroteados ao pescoço, casacos estreados longos e quentes, passos na noite fria até à larga porta da igreja. 

Adormece no sofá, enfeitiçado pelas tremeluzentes luzes do pinheiro, mirado pelos ocupantes do presépio que se cutucam e trocam olhares de ternura, até Maria, a quem José acabou de tapar com a própria capa os ombros, ergue o olhar de pré-mãe ternurenta para a criança que se entrega ao sono como ela a Deus.

Os minutos passam, gestos estremecidos de quem dorme e arrefece porque a manta caiu.

As luzes deixam de tremeluzir, o relógio da cozinha sustém a respiração e os ponteiros, o tempo para e levanta-se para abrir a porta da rua, por ela entra um vulto ou ninguém, vai lesto pela sala, afaga a testa de Maria e nos seus braços deposita a última figura do presépio enquanto com um gesto faz surgir pequenas palhas na manjedoura dos animais que servirá de berço, depois, sorrindo, levanta-se, pega na manta de trapos, tapa a criança que dorme e deposita-lhe um invisível beijo na testa ao mesmo tempo que com a invisível mão afaga o peito que se erguia sobressaltado por algum pesadelo, para o ver agora, sossegado e com um esgar de sorriso, a sonhar que um dia Deus lhe entraria pela porta da cozinha e a sua casa seria o seu coração.

sábado, 19 de dezembro de 2015

ETERNAS COBOIADAS



JORGE NUNO
Mesmo no final dos anos 60, no salão de baile de uma coletividade nos arredores da cidade de Coimbra, enquanto no palco o grupo musical (de que eu fazia parte) proporcionava uns momentos de descontração, através da dança, reparei que se tinha gerado uma enorme confusão, com empurrões e alguns socos, a que se juntou mais uns quantos “pugilistas” de ocasião, não para separar aqueles dois jovens engalfinhados pelas emoções (leia-se ciúmes) e algum álcool, mas sim para “ajudar à festa”. Com olhares cúmplices e alguns acenos de cabeça, acabámos de imediato aquele slow, para desagrado dos casais que se queriam manter agarradinhos. Quando era suposto aproveitar-se a ocasião para um apelo à ordem na sala, com recurso a um dos microfones, iniciei, sozinho, com a minha irreverência ou falta de sensatez, o tema de abertura de Bonanza – a popular série de televisão, de cowboys, com personagens simpáticas, onde predominava a lei do oeste –. De imediato, acompanharam-me os restantes membros do grupo, mesmo sem qualquer ensaio. Sinceramente, nunca vi uma briga acabar tão rápido! O problema foi a sala em peso ficar a protestar contra os músicos, mas isso resolveu-se bem com… outro slow. Se dúvidas houvesse, ficou provado que a música tem um efeito benéfico no comportamento das pessoas.

Mas lembro-me de muitas outras coboiadas – de outra índole –, e desta vez bem mais recentes, que passo a relatar.

Registo duas ocorrências no parlamento de Taiwan, em 2013, e com a diferença de dois meses, em que houve lutas violentas e imperava a força muscular dos socos e pontapés, denotando conhecimento de artes marciais, sempre com o envolvimento de deputados apoiantes do partido do governo e deputados dos três partidos da oposição. Uma, por causa da votação que daria lugar a um referendo que permitiria a construção da quarta central nuclear na ilha e, outra, ao pretender-se “mexer” numa taxa sobre transações comerciais, aprovada um ano antes.

No Knesset, parlamento israelita, tendo sete partidos com assento parlamentar, entre trabalhistas, sociais-democratas, ultranacionalistas (2) e árabes (3), o ambiente é permanentemente escaldante, embora me tenham dito – quando estive em Jerusalém, no exterior do edifício – que era o lugar mais frio do planeta, por ter “120 [deputados] abaixo do zero”! Motivações não faltam para posições extremadas e imagine-se o que foi, em 2014, o debate até à aprovação da “Lei da Governabilidade”, que como o próprio nome indica, visa contribuir para a governabilidade do país, e exige um maior número de votos para que um partido participe no “jogo político”, ficando também a ideia de haver a intenção de prejudicar as três formações políticas que representam os cidadãos árabes (a menos que se unissem).

No parlamento japonês, em 17 de setembro de 2015, também houve perda de compostura. Os deputados da oposição tentaram impedir, pela força braçal, a aprovação de um projeto de lei que permitiria ao país, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, enviar tropas para conflitos armados no exterior, deixando de ter uma Constituição pacifista. Esta sessão, com o propósito da oposição poder defender o ideal pacifista, foi tudo… menos pacífica.

No Brasil, em 10 de dezembro de 2015, houve “cenas tristes” com deputados, pasme-se, do Conselho de Ética, a gerar muita confusão, com muitos empurrões [há quem diga, alguns tabefes], como forma de defender ou impedir o afastamento de Eduardo Cunha do cargo de presidente da Câmara dos Deputados, até ao seu julgamento [terá sido apanhado no caso Lava Jato, com indícios de corrupção e lavagem de dinheiro, à data de 20 de agosto de 2015]. Nem valeu o apelo do presidente do Conselho para que os deputados se comportassem com moderação e ainda mais por se estar no Conselho de Ética. Como se isto não bastasse, o deputado Manoel Júnior, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro, pelo Rio de Janeiro, terá alegado em defesa de Eduardo Cunha: “Gostaria de saber quem foi a cabeça iluminada que pensou nisso [o afastamento]. Se foi por ter processo no Supremo, mais de 150 parlamentares teriam que ser afastados”. Agora sou eu que digo: “Valeu, meu irmão!”. 

No parlamento do Kosovo, a oposição assegurada pelo partido Vetëvendosje [Autodeterminação] liderou (e lidera) o movimento de protesto para “exigir a renúncia dos acordos sobre a normalização das relações com a Sérvia”, pois querem que a independência unilateral, proclamada em 2008, seja uma realidade aceite pela Sérvia, assim como também exige o fim do acordo, concluído este ano com o Montenegro, acerca das fronteiras de ambos os territórios. Assim, como forma de bloquear os trabalhos do parlamento kosovar, por diversas vezes, deputados da oposição lançaram gás lacrimogéneo, ovos e usaram apitos para impedir o normal funcionamento das sessões. Em 14 de dezembro de 2015, um parlamentar voltou a introduzir e a despoletar uma granada de gás lacrimogéneo no parlamento, forçando, mais uma vez, a interrupção dos trabalhos.

No parlamento da Ucrânia, em 15 de dezembro de 2015, registaram-se cenas de pancadaria entre deputados apoiantes do primeiro-ministro e apoiantes de Poroshenko [presidente da Ucrânia]. O primeiro-ministro foi interrompido por um deputado da oposição, que lhe levou um ramo de flores, agarrou nele e retirou-o à força do púlpito do parlamento. Claro, seguiram-se os habituais empurrões, murros e até puxões de cabelo (de que o primeiro-ministro Arseniy Yatsenyuk se livrou… por ser careca!). Sobre este caso fica a ideia: “ Se alguém te oferecer flores, é porque te quer levar ao colo!”.

Bem… todos estes relatos fazem com que os deputados portugueses pareçam uns piegas, copinhos de leite, em que o maior desconforto atual será a azia de alguns, já que parece não haver dúvidas quanto à manifesta indiferença com que ouviram os comentários do Paulo Morais, na qualidade de candidato à presidência da República, a prometer que irá forçar o parlamento a legislar sobre a corrupção e a dizer que o maior antro de corrupção no país é a própria Assembleia da República (AR). Mas se alguma vez as coisas azedarem, der mesmo para o torto, e os deputados acharem por bem resolver as divergências à trolhada, então a AR deverá ter um impecável sistema de som, sem falhas, para que de imediato se possa fazer ecoar o tema da série Bonanza. Pensando melhor, porque há um número apreciável de deputados jovens (nascidos muitos anos depois da série ter terminado), e até para aprenderem como custa engolir mentiras, deverá ser anunciada a banda Xutos e Pontapés, para ficarem com as antenas no ar, e ser passada a canção Só à Estalada, da Ruth Marlene. Será gratificante ver como os ânimos serenam logo!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

A CARTA DE UM SÍRIO AO PAI-NATAL

Querido Pai Natal,

"Ali"
Escrevo-te não para te pedir algo, mas para te agradecer. Agradecer o extraordinário dom de estar vivo e ter junto de mim a minha família.
Há meses, eu e a minha mulher tivemos de tomar a decisão mais difícil das nossas vidas: reunir a totalidade das nossas economias e pagar a um traficante do medo humano uma viagem de barco, para atravessar o mar mediterrâneo, de maneira que pudéssemos ficar a salvo autoproclamado Estado Islâmico. Foi uma decisão difícil e arriscada, pois não tínhamos muito dinheiro e sabíamos que viajaríamos em condições muito inseguras. Nunca senti tanta angústia como naquelas longas horas em que baloiçámos ao sabor das ondas do destino, num bote a abarrotar de gente perdida e desesperada. Famílias inteiras, como nós, que arriscavam a sua vida e dos seus filhos, numa desesperante tentativa de fugir da morte que todos os dias os senhores da guerra nos prometiam certa.

Miraculosamente chegámos à europa do sul, onde fomos acolhidos com algum afeto, mas logo nos disseram que não podíamos ficar. Não tinham lugar para nós. Por isso, tive de explicar às minhas filhas que teríamos de caminhar por estradas desconhecidas, subir montanhas, comendo apenas uma vez por dia.
Passámos por diversas cidades e alguns países. A minha filha mais velha (tem nove anos) não compreendia o ódio, o desprezo, a raiva, com que nos trataram na Hungria. Não nos queriam e fizeram questão de no-lo demonstrar, tratando-nos como animais perigosos. Na Eslovénia também já nos tinham dito que não tinham nada para nos oferecer e trataram de nos apressar o passo.
À medida que os dias passavam, a descrença e a desilusão apossavam-se de mim. Com poderia ser esta a europa da liberdade, da defesa dos direitos humanos, da fraternidade e da solidariedade que via e lia na internet? Falo mal inglês, mas entendia o suficiente para perceber quanto desprezíveis éramos para os europeus. Que desilusão, Pai Natal!

Eu que andei anos a contar às minhas filhas que aqui, na tua terra, tudo era diferente: não havia pessoas más; não havia fome, nem desprezo nem ódio. Todavia, só quando chegámos a Viena de Áustria é que podemos sentir alguma fraternidade no olhar das pessoas.
A cidade era linda, com os seus monumentos, as suas igrejas, os seus teatros. Parecia um paraíso, onde tudo funcionava perfeitamente. Nós éramos a novidade!

Em cada dia que passava, chegavam mais imigrantes sírios. Famílias inteiras como nós! Apesar de toda a boa vontade austríaca, percebi imediatamente que apenas nos poderiam oferecer auxílio de emergência. Não seria fácil sair do nosso acampamento de refugiados e encontrar emprego e normalizar a nossa vida. A língua também era um problema e as nossas filhas estavam cada vez mais silenciosas, tristes, sem esperança.
Até que nos primeiros dias do outono, uma caravana de anjos, certamente requisitados por ti, surgiu com os seus trenós modernos multicolores e puxados a potentes renas. Abeiraram-se de nós e, pela primeira vez, em muitas semanas, as minhas filhas voltaram a sorrir. Falavam delicadamente, sorriam com doçura e propuseram-nos um pequeno paraíso: viajar para Portugal, onde nos esperava uma casa, comida, roupa, um emprego para mim, e escola para as nossas filhas mais velhas.

Nem sabia onde ficava Portugal, mas aquela generosidade, deixou-me de lágrimas nos olhos e só podia aceitar. Disse-lhes que sim várias vezes, e de todas as maneiras que o meu corpo conseguia expressar o nosso agradecimento.

Quando chegámos a Lisboa e depois à pequena cidade nos seus arredores onde vive a família que nos acolheu, percebi que se tratava de um país com dificuldades económicas. No entanto, eles fizeram questão de nos integrar rapidamente e providenciar para que nada nos faltasse.
Entretanto passaram dois meses e ontem chegaram os primeiros refugiados oficiais a esta terra que passei a amar como minha. Estou certo que ouvirei novamente a nossa querida língua, embora o português me soe maravilhosamente.

Ao contrário do que cheguei a temer, este ano passaremos um Natal feliz, em paz e em família. Ganhámos novos amigos e revimos outros que julgávamos perdidos. Daqui a uma semana é o Natal. Não te peço nada! Agradeço-te os anjos que me enviaste a Viena, onde agora a neve cai e as igrejas se enchem de belas canções de Natal.

Em Viena, Budapeste ou Berlim, não te canses de enviar os teus presentes em forma de humanidade e generosidade, aos meus conterrâneos. 

Ali, um sírio abençoado

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

CELEBRAR O NATAL É UM DIREITO

ANABELA BORGES
Aproxima-se o Natal.
A quadra festiva, para mim – que faço parte do grupo de pessoas que adora o Natal –, representa, acima de tudo ESPERANÇA. Não consigo entender a ideia de muitas pessoas, a quem não falta nada, de dizerem – à boca cheia – que detestam o Natal; que-assim-que-assado-que-mais-isto-e-mais-aquilo. Com argumentos que lhes enchem as bocas de embaraços, como se foram insectos a entupi-las e elas a cuspi-los, aos engasgos. Não entendo, usem os argumentos que usarem. Falam de barriga cheia, literalmente.
Natal só é tempo de hipocrisia se fizerem dele um tempo hipócrita. Muitos dos que dizem que o detestam, também estão a ser hipócritas. E bem podiam esses juntar-se, em fila, no presépio, a engrossar a carneirada do pastor, pois, se acham que estão a ser diferentes, estão – única e simplesmente – a copiar outros, que se julgam diferentes. Isto que aqui digo é confuso e não é para perceber. E não faz diferença, porque não presta para nada. Pessoas assim não prestam para nada.
Já, de outro modo, entendo que uma pessoa que nunca teve direito a um verdadeiro Natal – em união, alegria, partilha – deteste o Natal. Essa pessoa, de facto, não tem motivos para gostar do Natal. Mas pode ser que a vida ainda lhe proporcione um. E então – a esperança – essa pessoa poderá, ainda, vir a descobrir o que é verdadeiramente o Natal, e não terá motivos para odiá-lo mais.
     
Daí que mantenho a opinião de que todo o ser humano, independentemente da sua cor, nacionalidade ou crença, deveria ter direito a pelo menos um dia de Natal por ano.
Seja, com isso, um dia de luz, união, alegria, calor, partilha – ESPERANÇA.
 
Conto: «O NATAL DE ANNE FRANK»
É isso que procuro mostrar no meu conto “O Natal de Anne Frank”.

«Outro Natal.
“SEXTA-FEIRA, 24 DE DEZEMBRO DE 1943
[…] Estamos presos nesta casa como leprosos, o que é principalmente difícil durante o Inverno e nos feriados do Natal e do Ano Novo.
[…]
Sexta-feira à noite, pela primeira vez, na minha vida, recebi um presente de Natal. […] Miep fez um bolo delicioso, com as palavras «Paz 1944» escritas em cima, e Bep contribuiu com uma fornada de biscoitos à altura de um dos melhores padrões do pré-guerra.

O Dia D: também Anne soube do “Dia D”, pela rádio, e isso não a libertou…

1944-1945. Auschwitz e Bergen-Belsen. O último Natal de Anne.
Anne tem 15 anos. Apesar de viver “mergulhada”, “No topo do mundo, nas profundezas do desespero”*, continua a procurar formas de ser feliz.
[…]
O historiador do Holocausto Yehuda Bauer lança três novos mandamentos, a serem tomados como lição: “Não serás um criminoso; Não serás uma vítima; Não serás um espectador”.
Se é a vida tão frágil, no regerem-se os homens pelas contas do calendário, então devia cada um, independentemente da religião ou do lugar onde nasceu, ter direito a pelo menos um dia de Natal por ano. Uma noite de luz, de calor, de alegria, de esperança.
Anne Frank também nos ensinou isso»**.

Sejamos nós esse Natal.

Notas:
*Uma frase famosa de Goethe.
Citações do livro “Diário de Anne Frank”, escrito por Annelies Marie Frank.


**Excertos do conto de Anabela Borges, da colectânea LUGARES E PALAVRAS DE NATAL 2015, da editora Lugar da Palavra.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

NÓS SOMOS OS “VOTOS DE UM FELIZ NATAL”

ALINA SOUSA VAZ
É Natal, outra vez! Como o tempo passa à velocidade de um TGV, que coisa! 

As festas pronunciam-se; as ruas brilham, os cânticos entoam, o comércio regozija. 

O corrupio começou e as pessoas tentam, por quinze dias, disfarçar sentimentos amargos que as envolveram durante o ano; gasta-se muito, porque a mesa tem que ser farta, o brinquedo para a criança tem que fazer a diferença e o presente oferecido o melhor do mercado. É evidente que cada família se supera de acordo com as suas possibilidades, mas nestes dias há o esforço da superação, por parte de todos, porque os hábitos de celebração são, já há muitos anos, sinónimos de gastos supérfluos influenciados por uma indústria comercial que nos bombardeia em cada piscar de olho.

Celebremos o Natal, então! Mas celebremos com a consciência tranquila colocando na preparação da festa da família traços simples, mas cheios de amor, de vida! Pois, se assim não for, não estaremos todos a ser hipócritas? As guerras não cessam, as crianças são maltratadas, desalojadas devido às lutas entre as diferentes culturas e religiões, abusadas, violentadas, exploradas, e tudo isto sob o nosso olhar cúmplice! Com tudo isto, como poderá ser a celebração do Natal em plena felicidade?

É urgente o Natal, mas um Natal onde se festeje a esperança! O pinheiro que simbolize a força da natureza que há em cada um de nós; a decoração que seja o colorido que embeleza a nossa vida, as luzes a nossa bondade e generosidade tornando-nos iluminação para os outros; a estrela-guia o caminho certo para a prática do bem; o sino o entoar da nossa mensagem de entreajuda. Na ceia de Natal que haja muitos sorrisos, porque estás em paz e entre os que mais amas, mas sorri com a alma cheia, porque sabes que noutra mesa há pessoas que celebram, também, a esperança com um pouco do recheio que lhes foi oferecido por ti. Escreve o teu postal de Natal, personaliza a tua mensagem, cria, repensa o teu presente, coloca sentimento e o teu toque pessoal…Tudo o resto pode ser muito, e belo e grande, mas repleto de um grande silêncio e vazio. 

Neste Natal, a celebração verdadeira só existirá se todos juntos formos os “votos de um Feliz Natal” e não nos esquecermos de convidar o aniversariante!

Feliz Natal para todos os que amam a vida!


terça-feira, 15 de dezembro de 2015

SONDAGENS

REGINA SARDOEIRA
Desde que passei os olhos pelo Jornal de Notícias, no passado dia10 de Dezembro e vi, no alto da primeira página, as percentagens de uma recente sondagem na qual, alegadamente, 52% dos portugueses quereriam Passos Coelho como Primeiro-Ministro, contra 37% a favor de António Costa, que me tenho questionado, com alguma perplexidade, sobre o fenómeno "sondagem".

Em primeiro lugar, vejamos: que interessa e a quem interessa, levar a cabo uma sondagem agora, que a situação governativa de Portugal está decidida? Que espécie de jogo ou de brincadeira fútil conduziu a semelhante entretenimento? Mais: quem paga estes exercícios frívolos de suposta auscultação do povo? 

As sondagens são, normalmente, realizadas, telefonando para uma amostra de cidadãos. Faz-se a pergunta: "Quem acha que deveria ser primeiro-ministro de Portugal?" E o cidadão interpelado diz o que lhe passar pela cabeça no momento. 

Multiplica-se o processo pelo número de pessoas consideradas amostras do povo português, que respondem o que lhes ocorrer na hora, procede-se a um tratamento estatístico e estabelece-se, deste modo, a respectiva percentagem. 

Os leitores dos jornais, chamada que foi a sua atenção no topo da capa do jornal, vão inteirar-se do teor da sondagem e ficam, desde logo, reféns de uma opinião. E poderão pensar: se 52℅ dos portugueses pensam assim, alguma razão haverá; quem sou eu para discordar? 

Ora, a sondagem baseia-se apenas numa amostra - portanto num pequeno número de pessoas - e as percentagens, grandes ou pequenas, dizem respeito a esses que responderam e não a todos os portugueses. A estatística não é uma ciência exacta e o seu método é probabilístico, logo, tais resultados, mesmo que não tenham sido viciados, não se revestem de qualquer valor. 

Generalizando a questão, podemos ter a certeza do carácter manipulador das sondagens, pois apresentadas ao público, antes das eleições, por exemplo, vão dirigir os votantes, em especial os indecisos, neste ou naquele sentido, consoante os valores percentuais. Por essa razão, tais actos deveriam ser cuidadosamente evitados, quem sabe mesmo proibidos, para que a liberdade de decisão pudesse ser realmente efectiva. 

Sei bem que a liberdade não passa de uma ilusão e que, se não forem as sondagens, outros mecanismos de persuasão mediática vão apontando o caminho a quem vota ou exerce outro direito democrático. Mas que possamos, ao menos, ficar isentos de aberrações como esta em que, por mero divertimento, alguém gasta o seu tempo a realizar inquéritos sem o menor interesse prático. 

E ocorre-me questionar. 
Por que razão, tais inquiridos (se o foram) preferem o ex-primeiro-ministro ao actual? 

De um, é sobejamente conhecida a frieza - sim, a frieza - de funcionário diligente ao serviço dos chefes estrangeiros. Frieza e subserviência, já que a sua postura foi sempre com a cerviz curvada para fora do país, em bicos de pés para ombrear com os seus maiores. Ficou também bem documentado o cinismo com que, por exemplo, apontou aos jovens licenciados o caminho da emigração, apodando-os de "piegas", ou o modo cruel com que foi condenando a chamada terceira idade a um destino indigno ou, quem sabe?, à morte prematura. 

A falsidade com que prometeu mundos e fundos, sabendo que não poderia cumprir e negando, desse modo, as promessas, logo que se levantou no pódio, aliada à tendência contínua para mentir, com mais descaramento à medida que ia ganhando autoconfiança, são factores que qualquer um, mesmo entre os menos atentos, pôde observar, já que o homem revestiu-se de absoluta e total impunidade e deixou de ter pejo de mentir às claras. 

Mas o povo português é masoquista, basta analisar a história recente, basta ler os seus heróis literários e observar o género dos seus ídolos, sejam do passado ou presentes ainda ao virar da esquina. O povo português tende a preferir o que o prejudica, o que o faz andar carrancudo, critica e espalha azedumes a torto e a direito sobre aqueles que o vão lesando, mas logo a seguir, a sua ânsia de sofrer atira-o para novos ou para os mesmos verdugos do seu fado. Sim, fado: não é ao acaso que esta é a canção nacional por excelência. 

Apenas a vontade de sofrer, para ser possível erguer lamentações, pode levar o povo português ( ainda que nas linhas pouco credíveis de uma sondagem) a preferir maioritariamente um ex-primeiro-ministro notoriamente cruel. A querer a continuação da tortura, do cinismo, da mentira. 

Relativamente ao actual primeiro-ministro é demasiado cedo para que ele possa ser preferido ou rejeitado. É demasiado cedo para que seja alvo de uma sondagem, onde se estabelece uma comparação absurda com alguém que já mostrou quem era. Por outro lado, é demasiado tarde para chamar o antigo e fazê -lo substituir o actual, já que, por maior que seja a flexibilidade da democracia, tais reviravoltas não fazem sentido. 

Por outro lado, um homem apenas - o primeiro -ministro - não é, por si só, o responsável por tudo o que acontece, de mau ou de bom, num país. Há um elenco de personagens a ele associadas, há uma assembleia representativa da vontade de todos os cidadãos, há dezenas de pessoas e de instituições que, no seu conjunto, determinam o rumo do país. Decerto, o primeiro-ministro não é tão importante como querem fazer-nos crer, não vivemos numa monarquia absoluta, o primeiro-ministro não é o rei, e nós, o povo, não somos os seus vassalos. Por isso, para quê tanta agitação em torno de um só homem? Para quê este culto absurdo da personalidade, seja ela a de Pedro Passos Coelho ou a de António Costa? 

A verdade é que semelhantes atitudes não fazem sentido. Mas a manipulação é soberana no mundo em que vivemos e sê-lo-á, enquanto consentirmos. E o sofrimento dará uma cor cinzenta e um tom melódico lúgubre ao nosso temperamento, enquanto insistirmos em ser masoquistas. 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

SOBRE UM ELEITO -MÁRIO DE SÁ CARNEIRO- O POETA DA DISPERSÃO

E sinto que a minha morte -
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.
Mário de Sá-Carneiro in Dispersão
_____________


ALVARO GIESTA
Assim escreveu no seu primeiro título de versos - DISPERSÃO - o autor duma obra em que a morte - quer em verso quer em prosa - ia ser o seu único mote de desenvolvimento. Fundamenta-se a poética do modernista MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO, reflectindo-a com base no pensamento de dois célebres pensadores acerca da tragédia e da psique: ARISTÓTELES, filósofo, que dividiu a poesia em lírica, elegíaca, épica e dramática e FREUD, o criador da Psicanálise, quando nos diz que a paixão narcisista se arrisca à infelicidade, porquanto, fascinar-se demais com a imagem de si próprio é condenar-se a uma futura auto-repulsa. Assim ocorre com o eu-lírico do poeta da DISPERSÃO.

Mário de Sá-Carneiro manteve, durante a vida, uma dupla luta: "consigo e contra si". E o fio condutor dessa luta foi sempre, e delirantemente, "a persistência no erro, no engano fatal": «Eu fui alguém que se enganou / E achou mais belo ter errado...» e, ainda, laconicamente suspira «Ó grande Hotel universal / Dos meus frenéticos enganos, / Com que aquecimento-central, / Escrocs, cocottes, tziganos», em ELEGIA. Se em DISPERSÃO erra: «Se me olho a um espelho, erro / Não me acho no projecto.», em QUASI «De tudo houve um começo... e tudo errou», e em RODOPIO há «Ruínas de melodias, / Vertigens, erros e falhas», também em PIED-de-NEZ a persistência do erro existe: «O Erro sempre a rir-me em destrambelho / Falso mistério, mas que não se abrange...». Mesmo quando se refugia no abrigo de Paris, sempre o erro a bater-lhe à porta e a martelar-lhe a consciência: «Paris: derradeiro escudo, / Silêncio dos enganos», em ABRIGO.

Regressando ao pensador ARISTÓTELES, primeiro, antes de a FREUD se fazer referência, mais adiante, sabemos que o "ERRO" (hamartia) desempenha papel importante na poética da tragédia grega; parece haver incidências da concepção aristotélica da poética da tragédia grega na lírica de Sá-Carneiro. Vejamos a longitude do pensamento trágico-poético e o "como" da inspiração do poeta da DISPERSÃO para lavrar os seus versos.

Para o filósofo, uma boa tragédia teria como objecto da sua mimese (=simulação de...) a acção de homens superiores, os quais, em virtude de algum decisivo erro de julgamento, passariam da fortuna para o infortúnio. É o revés da sorte: a transformação dos sucessos dos protagonistas no seu contrário que deve dar-se pela passagem do desconhecer ao conhecer, acrescentando-se-lhe a catástrofe. Depois desta reviravolta das principais personagens, suscita o terror e a piedade dos espectadores que assistem ao drama com a finalidade de purificar essas emoções - é o efeito catártico, depurativo. Tal a lírica de Sá-Carneiro.

De início, o sujeito-poético vê-se como superior: medita em nada menos do que «coisas geniais», em PARTIDA; é «chama genial que tudo ousa», em ESCAVAÇÃO, em «dor genial» se eteriza, em ÁLCOOL. É megalómano: vê-se como ser superior, mesmo na "poesia da dor" - «O grande sonho - ó dor! - quase vivido...», em ÁLCOOL. É um presumido, um presunçoso, um vaidoso. Veja-se em PARTIDA, a sua excessiva autoconfiança: «A minha alma nostálgica do Além, / Cheia de orgulho, ensombra-se entretanto. / (...) / Doido de esfinges o horizonte arde, / Mas fico ileso entre clarões e gumes!... / (...) / Alastro, venço, chego e ultrapasso; / (...) / O meu destino é outro - é alto e é raro». Neste excesso de vaidade se irá perder e esse pedestal, por si erigido sem enxergar as suas limitações, irá ruir e o poeta com ele se destruirá.

Pretende, exageradamente, o eu-poético de Sá-Carneiro, "entregar-se ao delírio com facilidade" e felicidade, desde PARTIDA: «É suscitar cores endoidecidas, / Ser garra imperial enclavinhada, / E numa extrema-unção de alma ampliada, / Viajar outros sentidos outras vidas». Em DISPERSÃO é onde mais se assiste ao êxtase, ao arrebatamento do sujeito que vive imerso em sensações alucinadas. Em ÁLCOOL: «Batem asas de auréola aos meus ouvidos, / Grifam-me sons de cor e de perfumes, / Ferem-me os olhos turbilhões de gumes, / Desce-me a alma, sangram-me os sentidos».

É com o recurso a um processo de associações diversas dos sentidos (audição + visão + olfacto), chamado sinestesia - tão próprio do SENSASIONALISMO DO ORPHEU de que Sá-Carneiro é congênere, que o poeta pretende exagerar, exacerbar as suas obsessões: «Nem ópio nem morfina. O que me ardeu, / Foi álcool mais raro e penetrante: / É só de mim que ando delirante- / Manhã tão forte que me anoiteceu.», em ÁLCOOL. Verifica-se aqui, sem margens para dúvidas, de que o Eu-poético tem pleno conhecimento do processo de degradação a que está exposto, a que se expôs com as suas práticas negativas. E delira, quando se "revisita", como em INDÍCIOS DE OURO se vê: «Oh! Regressar a mim profundamente / E ser o que já fui no meu delírio...».

Foi o engano funesto em pretender-se superior ao mesmo tempo que se é frágil; foi o terrível equívoco de entregar-se em excesso às suas próprias obsessões sem nunca equacionar as suas fragilidades; foi o entusiasmo e o delírio de entregar-se aos seus excessos de vida sem nunca medir consequências; foi o exaltar-se em demasia e o confundir-se com a própria divindade, que o fez cair do pedestal quando reconheceu o erro. Porque, Mário de Sá-Carneiro não deixando de ser poeta, era apenas uma pessoa, embora como tal se não tivesse analisado: vinham-lhe, no sonho alucinado do Eu-poético, «saudades de ter sido Deus». Achou-se, com tal presunção e vaidade, o senhor capaz das grandes coisas, das «coisas geniais» e deste pensamento se encantou e dele se tornou prisioneiro e em ser superior se arvorou em seus versos, mesmo nos da dor: quão enorme era - foi - o seu sonho megalómano(!)... quão sem medida eram - foram - as suas fragilidades que nunca soube/quis equacionar. Duas fraquezas, dum ser que se julgava superior, tão grandes como a sua queda, no abismo que teve por nome: suicídio.

Esta ousadia trouxe-lhe, como consequência, a frustração no Eu-poético e nele, em pessoa, e assim «se dá o movimento de ascensão e queda análogo à tentativa insensata de o herói mítico alcançar o sol.» (MOURÃO-FERREIRA). «Vêm-me saudades de ter sido Deus...», «(...) fui-me Deus / No grande rastro fulvo que me ardia». Eis aqui o homem que se desejava superior, admitindo depois não se encontrar à altura daquilo que almejava em vida para si e a infelicidade que daí resultou e o fim com a tragédia do suicídio.

Manifestações esquizofrénicas em Sá-Carneiro achou-as o célebre neurologista EGAS MONIZ dois anos antes do seu suicídio, quando em 1914 por este foi consultado numa das suas vindas a Lisboa, sendo então estudante em Paris, ao dizer ao clínico, para referir as manifestações de dor que o atormentavam «Sabe doutor, por vezes sinto um desdobramento da minha pessoa, não apenas psicológico mas físico (...)». Parece haver nestas palavras por si ditas, sem grande necessidade de recorrer em análise profunda aos seus versos, um pensamento delirante no poeta, mais alucinado que delirante que, numa manifesta ausência de identidade, fazia crer na existência de um enorme fosso entre a infância e a maturidade: planava, o Poeta-entre-si, enquanto tal e entre Ele e o Outro numa tentativa de fuga por inadaptação ao mundo em que vivia.

O "Eu-lírico" pairou sempre entre o Eu-ideal e o Outro, entre o tédio e a insatisfação nunca se reconhecendo em lugar algum. O "Eu-lírico" pairou sempre como se fosse uma morte em vida encontrando lugar na sua exaltação. Há em Mário de Sá-Carneiro uma histeria masculina instável e incapaz de alcançar o inalcançável «Além». Paira - não voa, muito menos se fixa - entre o Eu-ideal, Ele e o Outro na tentativa de encontrar o azul, o brilho, o infinito, o sol... «Quase / Um pouco mais de sol - eu era brasa / Um pouco mais de azul - eu era além / Para atingir faltou-me um golpe de asa...», em QUÁSI. A que «golpe de asa» se refere o autor de DISPERSÃO? À proeza? À coragem? Para «atingir» o quê? Nesta altura de manifesta depressão, a sua poesia é a tradução das tentativas frustradas nessa busca do absoluto, da estética perfeita que já tentara na narrativa novelística. Não conseguindo pousar na realidade por incapacidade absoluta de reconhecer as suas fragilidades, "não conseguindo, (por isso mesmo e devido a isso), ser nem atingir", pairou no intermédio ficando-se pela idealidade vazia e negativa, muito aquém do triunfo e da chama do «Além» onde se queria e do Absoluto habitante e dono desse "Além", o tal «Deus» que queria ser.

A sua poesia revela desdobramento do Eu e dispersão de personalidade: «Por sobre o que Eu não sou há grandes pontes / Que um outro, só metade quer passar» em ÂNGULO e «Quero reunir-me, e todo me dissipo-/ Luto, estrebucho ... Em vão! / Silvo p'ra além», em ÁLCOOL. Revela ainda recusa do real e fuga à realidade: « Não sinto o espaço que encerro / Nem as linhas que projecto: / Se me olho a um espelho, erro- / Não me acho no que projecto» em DISPERSÃO e «Afronta-me um desejo de fugir / Ao mistério que é meu e me seduz» em PARTIDA, ou «Onde existo que não existo em mim?» em ESCAVAÇÃO e «Irrealidade em mim ondeia / ... -Ao meu redor eu sou Rei exilado» em DISTANTE MELODIA. Revela também um pensamento delirante e alucinado: «Imagens, formas, sons luzes / Que volteiam dentro de mim» em RODOPIO e «Sou estrela ébria que perdeu os céus / Sereia louca que deixou o mar / Sou templo prestes a ruir sem deus, / Estátua falsa ainda erguida ao ar» em ESTÁTUA FALSA. Depois toma consciência da sua incoerência e dos seus delírios «E eu que sou o rei de toda essa incoerência / Eu próprio, turbilhão, anseio por fixá-la», em A QUEDA e «Oh! regressar a mim profundamente / E ser o que já fui no meu delírio...» em ESCALA, antes de cair na depressão que o leva ao fim de si mesmo: «E cinzas, cinzas só, em vez de fogo... / - onde existo que não existo em mim?» em ESCAVAÇÃO ou «Nada me expira já, nada me vive- / Nem a tristeza nem as horas belas» de ALÉM TÉDIO e «Um pouco mais de Sol - e fora brasa / Um pouco mais de azul - e fora além / Para atingir, faltou-me um golpe de asa / Se ao menos eu permanecesse aquém...» de QUASI.

No poeta existiu esta dupla tendência: amar-se a si mesmo (o culto do eu) e odiar-se e desprezar-se ao mesmo tempo (auto aniquilamento). Sabemos que toda a paixão narcisista se arrisca à infelicidade. É da psicanálise e bem explícito no conhecido dualismo da concepção freudiana. Aqui se regressa ao nosso citado criador da psicanálise que nos diz que, fascinar-se demais com a imagem de si próprio é condenar-se a uma futura auto-repulsa.

A nossa pendular existência, segundo FREUD, explica-se pelas «pulsões sexuais», com base no princípio do prazer, comandadas pela libido e pelas «pulsões do eu» ou «pulsões de autoconservação», indutoras das diversas atitudes de autodefesa do indivíduo. E, nas «pulsões do eu (ou) de autoconservação», em oposição às «pulsões da vida» existem as «pulsões da morte», designada pelo sombrio vocábulo de «Thanatos». Para Freud, as «pulsões da morte (ou) de destruição» são as pulsões por excelência, pois elas buscam a eliminação total das nossas tensões. Assim, a tendência do aparelho psíquico é a de reduzir ao máximo as excitações do organismo (embora seja impossível tal redução por completo) e, daí, o impulso ao "Retorno ao Princípio", a um modo não-orgânico da existência - a «dispersão total» de que fala Mário de Sá-Carneiro.

Mas outro pormenor decisivo de Thanatos é a «compulsão à repetição» que, num mecanismo mental movido por forças que se localizam «para além do princípio do prazer» se liga à pulsão da morte. Logo, repete-se o que é doloroso num trauma porque se busca, em vão, anulá-lo. Torna-se num fracasso a tentativa de lidar com o que é doloroso, o que nos conduzirá à morte através da autodestruição. Assim Sá-Carneiro se pôs termo a si mesmo. Narcisismo, Thanatos erotizado e compulsão à repetição, são formas íntimas do Eu-poético do autor de DISPERSÃO.

O indivíduo narcisista pode passar do amor-a-si-próprio ao seu-autodesprezo - é o segundo estágio - até se deixar atrair pela ideia de morrer, vendo na sua própria morte as cores sedutoras da libido que voltara, do início, para a sua própria pessoa - é o último estágio.

No trágico da obra de Mário de Sá-Carneiro, desde DISPERSÃO, o Eu-poético sabe que o seu destino não é dos melhores mas não consegue escapar-lhe, autodestruindo-se, com o seu próprio punho, um sem número de vezes, até que o assina com o seu próprio suicídio.
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Artigo, aqui completo, que serviu de nota de abertura, em versão reduzida, à Antologia "Sob Epígrafe - um tributo a Mário de Sá-Carneiro, editada pela Temas Originais, Coimbra, em 1.ª edição, 2014.

domingo, 13 de dezembro de 2015

MEMÓRIAS DE NATAL

CATARINA DINIS PINTO
Independentemente de tudo eu adoro o Natal. É verdade que me traz nostalgia mas traz sem dúvida, a minha memória e ao meu coração, aqueles que são para mim dos melhores momentos da infância.

O Natal vivido na infância é tão diferente do que vemos hoje em dia… não importa a década, a maneira de olhar para é que se modifica a medida que crescemos… depois tudo modifica e só nós é que sabemos se aceitamos isso ou não.

O meu Natal significava férias, muitos doces, muitas tropelias, prendas e família… Não posso deixar de relembrar que a família tenha sofrido algumas alterações, existiam pessoas tão próximas a mim que ao longo dos anos me foram deixando um pouco mais só ou não… A verdade é que sinto que nenhum deles partiu de verdade e está aqui no meu coração, de certa forma celebramos o Natal juntos. Continua a estar na tarde onde a minha avó e a minha mãe preparavam a melhor aletria do mundo, rabanados, arroz doce. Recordo-me de nessa tarde nunca parava de brincar aos doutores ou professores com os meus nenucos e barbies. O meu pai chegava a meio da tarde do trabalho e com ele trazia sempre um bolo-rei que os seus patrões ofereciam os empregados. Como eu amava desembrulhar e ajudar a coloca-lo no prato.

Neste dia, até as batatas cozidas, a couve e o bacalhau pareciam ser feitos de doce… é impressionante mas neste dia eu comia sem birra, sem problemas… Recordo-me de vermos televisão ainda a preto e branco nas mais antigas memórias e num dos Natais a prenda foi mesmo uma televisão a cores que estava sempre avariada ….

Depois chegava a hora de ir dormir, era ai que eu fingia que ia para a cama e fechava os olhos…Sabia que não existia Pai Natal mas insistia que isso não era um problema, afinal podemos sempre imaginar, e pedia aos meus pais para imaginarmos que quem trazia as prendas era o menino Jesus. Assim mal estivessem as prendas na sala, alguém batia a janela do meu quarto, para dar sinal que as prendas tinham chegado…Voava até elas e já ninguém me conseguia por me a dormir…. O que eu queria mesmo era brincar… Depois de algumas negociações lá ia dormir para um maravilhoso dia nascer… o dia de Natal (que durante muitos anos íamos para a casa da outra avó e tios em Mondim de Basto). Claro la ia eu carregada com os meus novos brinquedos…

Pura saudade destes tempos desmedidos, um tesouro em meu coração, são estes instantes de um dia que ainda hoje me fazem sorrir no Natal… 

Eu penso, se me fizeram feliz porque não poderei eu fazer o mesmo pelos meus filhos? E encher o seu coração de memórias. Para terminar deixo um pequeno poema, escrito por mim em nome de todas essas memórias.

Natal dos meus natais...Em que o meu menino Jesus esperava tal como eu... A tua chegada... Natal de alegria, Hoje revivido com saudades. Sei que existem amores mais fortes que o tempo ou o calendário. e em segredo no meu coração Mais um Natal que rimos, Brincamos, construímos casas de bonecas construímos sonhos
que um dia sonhamos..


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