terça-feira, 8 de dezembro de 2015

JURAMENTO DE HIPÓCRATES

REGINA SARDOEIRA
A 6 de Dezembro de 2015, quinhentos e sete novos médicos fizeram o Juramento de Hipócrates.
Para quem não sabe, Hipócrates (ou Ἱπποκράτης) é considerado o pai da medicina. 
Nascido numa ilha grega, os dados sobre a sua vida são incertos ou pouco fidedignos. Parece ser verdade, no entanto, que viajou pela Grécia e que esteve no Próximo Oriente.

Nas obras hipocráticas há uma série de descrições clínicas pelas quais se podem diagnosticar doenças, tais como a malária, a papeira, a pneumonia e a tuberculose. Para o sábio grego, muitas epidemias relacionavam-se com factores climáticos, raciais, dietéticos e com o meio onde as pessoas viviam. Muitos dos seus comentários nos Aforismos são ainda hoje válidos. Os seus escritos sobre anatomia contêm descrições claras, tanto sobre instrumentos de dissecação, quanto sobre procedimentos práticos.

E os médicos iniciados juraram, em conjunto, o seguinte:

“Prometo solenemente consagrar a minha vida ao serviço da Humanidade. 
Darei aos meus Mestres o respeito e o reconhecimento que lhes são devidos.
Exercerei a minha arte com consciência e dignidade.
A Saúde do meu Doente será a minha primeira preocupação.
Mesmo após a morte do doente respeitarei os segredos que me tiver confiado.
Manterei por todos os meios ao meu alcance, a honra e as nobres tradições da profissão médica.
Os meus Colegas serão meus irmãos.
Não permitirei que considerações de religião, nacionalidade, raça, partido político, ou posição social se interponham entre o meu dever e o meu Doente.
Guardarei respeito absoluto pela Vida Humana desde o seu início, mesmo sob ameaça e não farei uso dos meus conhecimentos Médicos contra as leis da Humanidade.
Faço estas promessas solenemente, livremente e sob a minha honra.”

Uma grande confiança no ser humano, vinda do eco destas palavras, nasceu em mim. E no entanto, qualquer uma destas promessas, firmadas numa jura solene e pública, testemunhada por várias centenas de pessoas, para além de cada um deles próprios, os médicos, individualmente considerados, e os colegas, ali presentes e em juramento, tal como eles, não será fácil de cumprir.

«Consagrar a vida ao serviço da Humanidade».

Somos Humanidade e deveria ser prática comum de todos nós, consagrarmos a nossa vida a nós mesmos e à nossa condição. E contudo muitas vezes afundamo-nos no egoísmo e no preconceito, retirando ao outro a nossa consideração. Mas os médicos, não somente estes que agora iniciam a sua carreira, mas todos os outros que um dia proclamaram um juramento idêntico, ficam vinculados, pela sua honra, a esta gigantesca tarefa. Não será um pouco excessivo que os médicos devam fazer semelhante juramento, pelo qual se comprometem, em nome de todos, no foro individual e também social, enquanto os outros alijam de si tal responsabilidade?

Creio que os jovens médicos, ontem reunidos na Casa da Música, no Porto, e em clima de festa, sentiram as palavras do Juramento e que, após seis anos de trabalho árduo, desejam firmemente estar à altura. Senti nas posturas que presenciei, no longo desfile pelo palco da sala Guilhermina Suggia, onde, um a um, receberam o documento que lhes permitirá exercer a sua missão, um grande sentido de responsabilidade, um porte sereno, mas decidido. Apesar disso, não pude deixar de pensar: "E depois? Passado este limiar, junto à porta de uma tremenda aventura existencial, presos ao juramento que lhes exige a " consagração da vida ao serviço da Humanidade", ter como "primeira preocupação a saúde do doente", guardar respeito absoluto pela vida humana desde o seu início, mesmo sob ameaça " (...), imersos num dia a dia trepidante, sujeitos a más condições de trabalho e mesmo à sobrecarga horária, tiranizados por chefes eventualmente já esquecidos do seu próprio juramento ou mentores pouco atentos às necessidades de jovens, deste modo lançados da esmagadora teoria para uma prática desmesurada, não acabarão desesperados, não chegarão a soçobrar? "

A medicina é uma arte, diz o juramento de Hipócrates. Justamente, a cerimónia decorreu numa casa da arte (e a música é, pelo seu carácter etéreo, abstracto, matemático, a essência de todas as artes), foi antecedida por um concerto de piano, cujos protagonistas - para além de Pedro Burmester, o executante - foram, por esta ordem, Bach, Mozart e Beethoven, e na sua intervenção o Bastonário da Ordem dos Médicos, comparou a Medicina à Música, realçando o carácter ético, mas também estético do magistério médico. Esta ênfase posta na plenitude que a arte configura, coroada, no concerto, pelas ondas altissonantes da sonata n° 14, opus 27 ( ou Ao Luar) , de Beethoven, esse gigante ou semideus, a compor, em surdez absoluta, melodias sublimes, revelaria, se tais meandros da iniciação à arte médica fossem do conhecimento de todos, o significado intrínseco do que é, verdadeiramente, ser médico. 

Poder-se-á ousar sê-lo apenas porque a sociedade, pelo menos a nossa, decretou que é um curso "com saída" ou porque uma enorme capacidade de trabalho possibilitou ao candidato as classificações requeridas pelos numerus clausus? Poder-se-á, porventura, supor que ser médico é aceder a um elevado estatuto económico-social, assim, num passe de mágica? 

Ler e ouvir o Juramento de Hipócrates, meditar nas palavras ancestrais do Pai da Medicina e tentar perceber o que faz o mundo brutal em que vivemos e um sistema de saúde decadente e elitista desses jovens sérios e respeitáveis que, desse modo solene, prometeram honrar a sua arte, é entrar a fundo no atoleiro a que o homem conduziu a Humanidade a que pertence. 

Quero acreditar na Humanidade e gostar dos Homens. Quero olhar os jovens e ter esperança num mundo melhor, feito pela vontade dos seus espíritos ainda incólumes, onde os valores, outorgados por nós, sejam o norte da vida de todos. Mas, a seguir, contemplo a realidade, vejo como se pervertem os ideais e como o jovem amadurece e endurece na selva monstruosa onde quotidianamente esbarra e onde precisa de se defender. Não sei porque havemos de viver prevenidos uns contra os outros, individual e colectivamente, porque havemos de nos olhar desconfiados e com a agressividade ou o tédio à flor da pele. Mas é este o leitmotiv da Humanidade e é por essa razão que a cerimónia sublime do Juramento de Hipócrates a que tive o privilégio de assistir, me extasiou, tanto quanto me encheu de sentimentos de profunda apreensão.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

OS ILIMITADOS CAMPOS DO LIMITE

«Nos últimos séculos, perdemos a sabedoria dos limites. A Ciência e o Estado moderno convenceram-nos de que não temos de aceitar incapacidades ou fracassos. A Ciência encontraria as soluções, e o Estado aplicá-las-ia para benefício de todos. Exigimos estar garantidos contra tudo, porque cremos que é possível estar garantido contra tudo.»  - Rui Ramos (Diário Económico / 20050914)

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ALVARO GIESTA
Assustou-me o tema proposto a mim mesmo, quando me decidi escrever sobre ele. E assustou-me por várias razões se bem que, a mais assustadora e que sempre me contrariou é aquela em que, por limite, habitualmente se associa, logo, ao campo da matemática, nomeadamente ao comportamento de uma função à medida que o seu argumento se vai aproximando de determinado valor.
E confesso que sou mais afeito aos versos e às coisas das letras do que propriamente às teses da matemática. Confesso que sou mesmo avesso àquilo que fui obrigado a estudar no liceu até à possibilidade que tive de enveredar por uma alínea de letras. Nunca me dei bem com funções de duas ou mais variáveis, com progressões, com teoremas, com axiomas, com cálculo diferencial e trigonométrico, menos com limites e derivadas.

Preferi sempre, mesmo para além dos limites impostos pelas planificações sujeitas à calendarização das matérias relativas ao ano que frequentava, aquilo que ia para além desses limites. Era nisso um explorador nato para fora dos limites que, com limites, me impunham. Tinha sempre, mesmo à revelia dos mestres, a mania de pesquisar conhecimentos para além dos limites impostos, desde que o assunto dissesse respeito a tudo quanto fosse literatura.
Recordo-me que, tendo sido aluno em meados dos anos sessenta, em Angola, dum sábio mestre, hoje conceituado reitor da Universidade Fernando Pessoa, o professor doutor Salvato Trigo, onde poucas possibilidades havia em termos de acesso a livros eruditos, para além dos escolares, eu recorria às suas indicações e conhecimentos e os encomendava, a pagar contra-reembolso postal, a uma certa e muito famosa livraria, hoje extinta, sedeada em Lisboa ali para os lados da Rua Poço dos Negros. Outras vezes recorria aos seus conselhos e os mandava ir, sob o mesmo processo de pagamento, duma outro lá longe no Brasil. As poucas moedas que juntava, muitas vezes surripiadas aos meus velhotes sem disso se aperceberem ou disso não se quererem aperceber, pois já sabiam o destino que as pratas tinham, serviam para isso mesmo: encomendar, livros idos da metrópole, à Progresso Editora da Rua do Poço dos Negros, à Sá da Costa do Largo do Poço Novo e a outra de S. Paulo, de que esqueci o nome, sob conselho do dito mestre; livros que por lá ficaram a apodrecer depois duma fuga precipitada a que levaram as políticas de Abril. Eram esses os meus limites de coscuvilheiro...

Isto para dizer que o limite e o seu significado é amplo, porventura sem limite, o que me leva até mesmo a pensar que não há limite para o limite, como o não há para o fim da linha do horizonte quando julgamos que ele termina ali onde a nossa vista alcança, quando, afinal, o limite do horizonte é mesmo indefinido.

Já Bernardo Soares, quando em todas as horas do dia e da noite cultivava o limite e a ausência dele, naquele seu estado de estar «entre a vigília e o sono», o longínquo e a vida marítima, a sensação primeira que lhe nasce é uma sensação de «Indefinido» pela ausência de limite para o longínquo e para a vida marítima por esses mares além, que sabia sem limite, e que Fernando Pessoa, na «Mensagem», explora levado pela vontade, sem limite, de descobrir o mar que é português.
Pensemos no desafio das abstractas sensações de Alvaro de Campos e de Fernando Pessoa ortónimo, pegando nelas como tema poético «desfiando-as» e desafiando-as até às suas últimas possibilidades para além da névoa e do «Indefinido» que nos dá Alvaro de Campos na sua Ode Marítima «Olho prò lado da barra, olho prò Indefinido» e interroguemos: o que é isso senão, a ausência da distância, o limite inalcançável, o limite-ilimitado?

Em «Os Meus Domínios», Edgar Morin dizia que «o que limita o nosso conhecimento permite o nosso conhecimento e o que permite o nosso conhecimento limita o nosso conhecimento», o que lhe permite afirmar que «o conhecimento é sempre tradução e construção». Numa palavra, e para terminar esta curta crónica que os "limites" que (me) são dados impõem, se deduz que não há limite para o conhecimento. Nada se sabe em concreto, em definitivo, mesmo dentro dum limite, pois todo o conhecimento está em constante construção para além das fronteiras das capacidades do homem.
As exigências do presente actual com vista a desvendar e aprofundar o presente mais avançado, a que chamam futuro, o tal que não existe como nos lembra Agostinho da Silva, não param de crescer levando Edgar Morin a ultrapassar aquilo que ele julgava ser limite ao seu conhecimento.

Miserável seria o homem que se contentasse em satisfazer-se com as (suas) limitações. Deixava de ser o ser-pensante e comportar-se-ia como o bicho irracional que rasteja em busca da própria cauda.

domingo, 6 de dezembro de 2015

PORO DE SOL

MIGUEL GOMES
Vejo o por do Sol várias vezes por dia, quando vou de carro e ele se esconde atrás de um monte ou de um amontoado de edifícios, mas nada se assemelha a quando caminho num local qualquer, preferencialmente um pouco a subir e, se puder escolher, que tenha terra e cascalho, para eu sentir as pedras comprimirem-se e esmagarem cascalhando-se umas nas outras, num sussurro que comparo ao bater do meu coração, vulgo músculo que por vezes esqueço possuir. 

O caminho ligeiramente inclinado, a minha perna com dificuldade em esticar refugia-se da dor, fazendo-me mancar e, até aqui, este balancear me faz sentir, por breves momentos, como que embalado pela temperatura amena, estranhamente amena para esta época do ano.

A recta longa, para quem se desloca a pé, convida-me a alinhar o caminhar com o caminho, fecho os olhos, o Sol bate-me na cara, aperto o casaco e coloco as mãos nos bolsos. Por momentos, caminho como se ascendesse a algum tipo de estágio intermédio entre esta vida e uma outra, qualquer, por aí, onde quer que o vento nos leve quando a vida se cansar de nós. 

Aproveito cada momento para fechar os olhos, alinho-me novamente com o caminho, continuo a mancar e a perpetualidade da dor assusta-me. 

Somos frágeis, sempre frágeis. Novamente de olhos fechados, já depois de caminhar, aproveito para me encostar a um muro e sentir o calor que emana da pedra. 

Será que os muros fecham os olhos para apreciar o Sol? 

Ou ficarão como eu, a desejar ser nuvem para poder perder-me na frontalidade das pressões, ser peso sobre a terra, mais que a terra sobre o chão que a sustém, como se a órbita que obriga a compreensão fosse tão elíptica quanto a triangularidade santíssima que me faz adormecer a cada manhã quando toca o despertador?

Pronto, vacilo silabicamente, confesso a minha aspiração, a poder caminhar sempre de olhos fechados, sentir os pés lentamente ascenderem por uma escada invisível, apenas porque não abro verdadeiramente os olhos e continuo a pensar ver uma realidade matizada, e seguir universo dentro já depois deste sistema planetário, sempre de olhos fechados, para assim poder ver o Sol interior que habita algures fora de mim e se esconde nos recônditos olhares animais e hominais quando abro os meus olhos.

Os dias curtos fazem-me encurtar a caminhada.

Começo e termino uma frase como quem busca um esconderijo onde poder armar a sua fogueira, cobrir-se com uma velha manta de trapos, adormecer e aí, de olhos cerrados, poder continuar a admirar a astralidade solarenga que tanto procuro enquanto, vadio, um canito qualquer se aproxima e fazendo-se de convidado se deita a meu lado. Confesso que as palavras me dão conforto e também refúgio, nelas caminho de olhos abertos sempre para poder narrar o que vejo de olhos fechados.

Na neologisidade encontro os tijolos com que tento construir o meu mundo, mas apenas consigo escrever o que consigo desenhar daquilo que imagino, pois onde estou não tenho mão que obrigue os dedos agarrarem uma caneta, ocupados que estão a contar as estrelas para me dizerem, animados, como petizes em resposta pronta na carteira de madeira da escola da vida, quantas estrelas tem deste lado da vida.

Caminho, sempre, ainda que repetidamente, para ir ao teu encontro e, aí, ciente de nunca ter abandonado o meu lugar, descobrir enfim a luminosidade que procuro e ouvir, ao chegar-me perto dela, feliz, dizer-me “abre os olhos, chegaste a casa”.

sábado, 5 de dezembro de 2015

SER VOLUNTÁRIO, SER SOLIDÁRIO

JORGE NUNO
Esta é a minha 24.ª crónica quinzenal, prestes a cumprir-se um ano de colaboração voluntária com a BIRD. É curioso o facto de eu não sentir falta de tema, sempre que me coloco em frente ao meu PC, mesmo que parta sem tema, como acontece tantas vezes. Desta vez, poderia: brincar com a desconfortável azia provocada pela mudança nas cadeiras do poder em Portugal, com as tão apregoadas “costas do povo” e com a “inevitabilidade de se aceitar a dura realidade dos factos”; ironizar com os discursos dos líderes dos países mais poluidores do planeta, em plena Cimeira do Clima, em Paris e que, com alguma hipocrisia, tentam demonstrar preocupação com as alterações climáticas e com a dificuldade em encontrar estratégias a adotar, na mesma altura em que têm aviões dos seus países a bombardear, intensamente, poços e refinarias petrolíferas, paióis de munições e outros alvos suscetíveis de causar graves danos ambientais; ou outro tema, bem mais agradável, como realçar e louvar as políticas do reino do Butão, designado como o “reino da felicidade”, que faz deste pequeno país, a leste dos Himalaias, o menos poluente na Terra, a fazer-me lembrar o personagem central do meu romance As Animadas Tertúlias de Um Homem Inquieto – o Filó – com os seus comentários junto de amigos, a propósito do Butão (quando, provavelmente, esse rol de amigos até desconhecia que houvesse um país com este nome): “(…) o rei declarou que a política do reino deve estar ligada ao bem-estar das pessoas e, neste país, parecem levar muito a sério a ‘felicidade interna bruta’, que será tão importante como o PIB, onde a economia e o crescimento económico é apenas uma parte da equação. Cá, fica-se com a ideia que só interessam os números, consolidação de orçamentos, estatísticas, rácios financeiros… as pessoas são completamente esquecidas. Vive-se numa era de capitalismo desumano… sem compaixão (…)”.

Como facilmente se vê, haveria aqui muita matéria-prima para escrever esta crónica e, com exceção das partes mais sérias, acredito que até seria possível fazer soltar uns sorrisos, sempre bem-vindos, para adoçar a vida. Mas não. Intimamente, prefiro abordar o voluntariado e a sua importância na sociedade, mesmo conhecedor do risco de banalização da comemoração “imposta”, com natureza diversa, dia após dia e ao longo de todo o ano, como chamada de atenção para determinado assunto ou problema. É que hoje está a decorrer o Dia Internacional do Voluntário, dia que foi instituído pela ONU em 1985, com o objetivo de “fazer com que, ao redor do mundo, sejam promovidas ações de voluntariado em todas as esferas da sociedade”. Segundo o dicionário – que consulto frequentemente –, a palavra “voluntário” significa: “que se faz de livre vontade” (…) “que procede espontaneamente” (…) “pessoa que se compromete a cumprir determinada tarefa ou função sem ser obrigada a isso”. Para a ONU, “o voluntário é o jovem ou o adulto que, devido ao seu interesse pessoal e ao seu espírito cívico, dedica parte do seu tempo, sem remuneração alguma, a diversas formas de atividades, organizadas ou não, de bem-estar social, ou outros campos (…)”. Resumidamente, é dito e sabido que “os voluntários são pessoas ou grupos que, sem remuneração, ajudam a melhorar a qualidade de vida do planeta. Dedicam parte da sua vida para ajudar a resolver problemas da sua região, indivíduos que se sensibilizam com as causas sociais e estão dispostos a dar alegria, carinho e amor para quem está a precisar de apenas sorrir”.
Relacionado com o voluntariado, a ONU, no ano 2000, estabeleceu 8 objetivos do milénio:
1 – erradicar a extrema pobreza e a fome;
2 – atingir o ensino básico universal;
3 – promover a igualdade entre sexos e a autonomia das mulheres;
4 – reduzir a mortalidade infantil;
5 – melhorar a saúde materna;
6 - combater o HIV, a malária e outras doenças;
7 – garantir a sustentabilidade ambiental;
8 – estabelecer uma Parceria Mundial para o Desenvolvimento.
Recomendava Osho (filósofo oriental): “Use as suas energias para tornar um mundo mais belo, mais poético e mais saudável”. Os voluntários enquadram-se nesta filosofia de vida. É evidente que nem é necessário ter elevadas qualificações, pois qualquer pessoa pode ser voluntária. Numa breve retrospetiva, constatei que mais de metade da minha vida exerci voluntariado no associativismo, particularmente no juvenil, com promoção sistemática de atividades e eventos culturais e desportivos, culminado com as minhas funções docentes numa universidade sénior. Nestas funções, tenho consciência que, com dedicação e criatividade, doei energia e contribuí, com o meu entusiasmo e algumas capacidades, para que pessoas seniores procurassem não falhar aqueles momentos, que valorizavam. Como retorno, tive a sensação de uma experiência gratificante e enriquecedora, devido à influência positiva no contacto humano e na partilha do conhecimento, que fez realçar o valor da amizade e o interesse da socialização, o que me deu uma enorme satisfação pessoal, reforçada pela reconhecida utilidade social de esta atividade.

Li, algures, que “o primeiro passo para a cidadania plena é o compromisso com o voluntariado” e, in Cadernos de Lanzarote [1995], de José Saramago, com a acutilância que lhe era conhecida: “Creio no direito à solidariedade e no dever de ser solidário. Creio que não há nenhuma incompatibilidade entre a firmeza dos valores próprios e o respeito pelos valores alheios. Somos todos feitos da mesma carne sofrente. Mas também creio que ainda nos falta muito para chegarmos a ser verdadeiramente humanos. Se o seremos alguma vez (…)”.

O meu lado humanista e poético leva-me a acreditar nos homens de boa vontade como forma de transformar a sociedade, começando pela ajuda desinteressada ao próximo. O meu “bem-haja” a todos aqueles que dedicam algumas horas semanais com gestos de cidadania ativa, sem estar à espera de algo em troca.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

"VIVER É DESENHAR SEM BORRACHA"

GABRIEL VILAS BOAS
Esta extraordinária frase de Millôr Fernandes sempre me inspirou, nunca me causou medo.

Quando olho para a vida vejo uma oportunidade, não um sacrifício ou uma rotina. Claro que a vida tem rotinas cansativas e muitas das oportunidades que se nos deparam não têm o brilho sonhado, mas isso só acontece às vezes. Se nos quisermos inquietar um pouco, podemos perguntar à nossa preguiça o que fizemos no intervalo dessas vezes.

No entanto, o meu objetivo não é inquietar o espírito, mas provocar a imaginação. Por isso volto ao desenho. Aquele que se faz sem borracha, onde todas as imperfeições são impressões digitais inapagáveis. E ainda bem que o são. A identidade de cada indivíduo constrói-se de muitas coisas banais, alguns momentos extraordinários e também de experiências traumáticas. Poder retocar a vida, submetendo-a a um photoshop hipócrita é um suicídio de personalidade.

Viver é arriscado? Quando nos demitimos de pensar, quando deixamos de amar, quando perdemos o interesse em aprender, provavelmente sim! Arriscamos torná-la um embuste enfadonho. De contrário, é um prazer imenso.

Há medida que vamos construindo a tela da vida, podemos admirá-la, transformá-la, receber elogios e críticas… só não podemos apagar nada do que fizemos. Apagar algo (por mais doloroso que seja) era destruir um pouco de nós. Não gosto disso.

A vida é para se assumir por inteiro. Uma vida sem erros nem falhas é algo que que soa a fraude. Talvez por isso admire tantos os artistas. Não porque têm a «mania» que são diferentes, mas porque têm a ousadia de serem eles, de se exprimirem com originalidade, sem receio do ridículo, porque não usam o tempo para atacar ou amesquinhar os outros, mas para criar. Fazem-no sem medo da crítica, sem medo do erro.

Viver não é arriscado! Deixar de viver é que é um desperdício. De oportunidade, de tempo, de inteligência, de talento, de sabedoria. Passar pela vida, deixando a nossa página em branco é imperdoável. E, mais importante que os outros gostem ou não do desenho, é nunca largar o lápis, preenchendo cada espaço que o Tempo permite com o traço inconfundível da nossa mão. Afinal, só interessa viver quando somos o único dono do nosso destino, o capitão-mor da nossa alma.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

OS DIAS DA DOENTINHA

O Dia Internacional das Pessoas com Deficiência comemora-se anualmente a 3 de Dezembro.
Em 2015, o tema é "A inclusão importa: acesso e capacitação para pessoas de todas as habilidades".

ANABELA BORGES
Lá abaixo, ao fundo do caminho, quase a chegar à antiga linha de caminho-de-ferro, era a casa da Doentinha. 

Essa era a minha casa também. Vou refazer esta frase: é a minha casa também. Uma casa que habitámos uma vez nossa, nunca deixa de ser nossa, porque há um fio de memórias que nos prende a ela, bem ou mal, a essa casa que, alguma vez, nos guardou.

A Doentinha morava nessa casa, lá no fundo do vale. Antigamente, a descida era de terra e pedras toscas, fazendo o caminho difícil, sobretudo no Inverno, quando caía geada.

A Doentinha era uma pessoa muito feliz, porque as pessoas que a rodeavam procuravam, à sua maneira fazê-la feliz. E ela, notava-se, foi feliz, sobretudo na infância e juventude.

As pessoas da vizinhança, de uma maneira geral, respeitavam a Doentinha, uns por terem medo de Deus, outros porque viam nela um ser puro, inocente, uma espécie de “santa”. Os primeiros achavam que havia ali uma maldição de Deus (por isso, havia que temer); os segundos achavam que ela tinha sido abençoada por Deus (por isso, havia que louvar). Pois, se era diferente dos demais, ali tinha de haver alguma coisa, mas era mão de Deus certamente. 

Assim, poder-se-iam separar dois grupos de gente em relação à doentinha: os que evitavam passar perto dela, com receio que tivesse alguma reacção, algum repente de corpo ou voz que os tolhesse; e os que se acercavam da casa, como numa romagem, para a olharem nos olhos e lhe falarem, na esperança de verem concedida uma bênção, uma graça divina. Em dia de muita sorte, poderia haver quem conseguisse da Doentinha um toque de mãos. E as pessoas diziam, “Minha menina, meu anjinho”, maravilhadas com aquele bem divino.

Tudo isso seria mais ou menos intenso, dependendo do estado de espírito da Doentinha, “dos nervos”, como diziam as pessoas, já que podiam encontrá-la num dia em que estivesse uma candura, atenciosa; ou, pelo contrário, muito zangada, com os humores alterados. E era fugir quando a “menina”, estivesse assim, pois corria com qualquer um aos gritos e à sapatada, que, diziam as pessoas – por respeito – era “dos nervos”, da doença.

Então ninguém levava a mal a Doentinha estar assim alterada, porque aquilo eram momentos maus, e era Deus. Era então que os que a temiam fugiam de lá passar, e os que a adoravam voltavam, pacientemente, noutra altura. Sempre voltavam.

A Doentinha, disseram os médicos aos seus pais, teria uma vida muito curta, porque a cabecinha dela ia ficar velha rapidamente – contas feitas, calculavam os médicos, viveria até à puberdade e daí não passaria. A Doentinha ultrapassou o meio século.

Os professores não a quiseram, porque era muito irrequieta e perturbava o silêncio sepulcral da sala de aula dos anos 60 do século passado. Na catequese ainda andou e decorava todas as orações com primor, mas ninguém a segurava sentada e quieta. 

A Doentinha era muito boa a decorar coisas, orações, cantigas e lenga-lengas.

A sua escola era a aprendizagem da vida diária: os momentos passados com os pais e os irmãos, com a vizinhança, a ajudar na lida da casa e a fazer pequenos recados.

Era uma figura bela de se ver, trazia a cabecita sempre inclinada sobre o ombro esquerdo, menina imaculada como um botão de rosa. À sua maneira, a Doentinha era feliz. E inocente.
    
Já no séc. XVI, Gil Vicente retratou personagens com deficiência, como é o caso de Joane, o Parvo, (“Auto da Barca do Inferno”), chamando a atenção para o facto de haver ali uma inocência latente, uma ausência de maldade – “per malicia não erraste / tua simpreza te abaste”. Querendo, com isso, mostrar que os doentes, “pobres de espírito” como eram, muitas vezes, designados, mereciam uma dose, digamos, de tolerância, e mereciam, isso fica claro na obra, a misericórdia de Deus (sendo o destino final do Parvo embarcar na Barca da Glória). 

Só que não se trata de uma questão de tolerância, mas, sim, de direitos. E, na minha humilde opinião, digo aquilo que me habituei a usar na vida, quase como um lema: só somos verdadeiramente correctos e justos se nos soubermos colocar na pele do outro. 

Actualmente, o mundo ocidental está mais evoluído, mas ainda existe um longo caminho a percorrer no que toca ao acesso e capacitação para pessoas de todas as habilidades.

Hoje, a Doentinha já não está entre nós. Mas no lugar onde ela jaz há sempre rosas brancas e velas acesas

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

ACREDITAR ...

CATARINA PINTO
O ato de acreditar é uma religião em si. É um ato altruísta, de misericórdia, de coragem, de fé… Todos nós acreditamos em algo… mesmo que esse algo seja um vazio enorme dentro do nosso coração ou a mais maravilhosa luz do amanhecer da vida… 

Nós acreditamos no simples facto de acreditar em algo e vamos vivendo assim… Acreditamos que a chuva sempre vai trazer a calma, paz e serenidade aos nossos dias; Acreditamos na inocência de um novo dia, de um renascer, de uma nova oportunidade, caminhamos sem receio para a ideia do desconhecido que nos quer abraçar;

Acreditamos na vida, na morte, na breve escuridão da solidão; o negro se vão dissolver, entre o vento e encontraremos o caminho da paixão, da amizade, a beleza das borboletas a esvoaçar.

Acreditamos na fé humana, nos deuses, na natureza, no oculto. Dá-nos vida, as crenças e os mitos elevando-as para além da lua espelhada no céu de estrelas. Acreditamos que nosso coração é provido de asas para voar entre palavras e sonhos, que somos cada letra da nossa própria história.

Acreditamos no acreditar que evoluímos, que evoluímos, nós transformamos para chegar mais além de tudo, de qualquer labirinto a montanhas…

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A MINHA CRENÇA

REGINA SARDOEIRA
Não tenho a certeza se concordo com a obrigatoriedade dos exames, neste ou naquele momento da vida escolar dos jovens.

Num tempo em que a escolaridade obrigatória era a 4ª classe do ensino primário, o exame era o requisito essencial para ter um diploma: o único ou o primeiro de muitos. Fiz o exame da 4ª classe. Como prossegui estudos, realizei, um pouco depois, o exame de admissão ao liceu. Uma vez aí, ingressei no primeiro ciclo. No segundo ano havia exame, mas as minhas notas altas, obtidas na frequência, dispensaram-me de o fazer. Mais tarde, e decorridos três anos, impunha-se um novo exame, desta vez dividido em duas secções - letras e ciências. Dispensei do exame a letras e fiz as provas das disciplinas de ciências. Nos últimos anos do liceu, fiz dois exames - grego e latim…mas dispensei das orais.

Mais tarde, fiz o exame de aptidão à universidade; e ingressei noutro sistema de ensino.

Desde o início, habituei-me a fazer as cadeiras por frequências, evitando quase todos os exames. Os que, apesar disso, precisei de realizar deram-me dispensa da oral - excepto dois. Como nada me treinara para o questionamento directo, face a face, habituada a transmitir os conhecimentos por escrito, correram-me mal esses dois exames - a meio das provas desisti e precisei de os repetir - por escrito, sem orais.

No meu percurso universitário houve um ano fora do vulgar. Nem exames, nem aulas, nem sequer divisão de anos: não importava ser do primeiro, do terceiro ou do quinto ano. Havia temas, grupos e seminários. Foi esse, segundo a minha perspectiva de então, o ano mais interessante de todo o meu curso. Para concluí-lo com êxito bastou-me escrever dois trabalhos: um, integrado no tema “A Ideia de Mundo” (escolhi Nietzsche); o outro, sobre “As Obras de Juventude de Karl Marx” (escolhi a alienação).

A avaliação dos trabalhos era feita pelo grupo do seminário, constituído pelos alunos respectivos e pelo professor. Depois de cada um ler o seu texto, fazia-se o debate, e os alunos (em paridade com o professor) diziam da sua justiça. No final a nota era votada (o professor era uma parte do todo) e obtinha-se a classificação.

Ainda hoje, se tivesse poderes a este nível, seria este o tipo de ensino e de avaliação pelo qual optaria.

Escusado será dizer que o sistema de ensino tem mudado – demasiadas vezes. Escusado será dizer que, actualmente, o sucesso é aferido por provas estereotipadas e que alguns exames, todo-poderosos, arrebatam professores e alunos, esmagando a importância de outras matérias não sujeitas a exame. Escusado será dizer que o mais importante não são as competências demonstrados pelos alunos, em dois ou três anos, mas o resultado desses exames que determinam uma classificação a qual, por sua vez, permite jogar a lotaria dos cursos.

Esta cultura do exame nacional, este método de atribuição de supremo valor a certas disciplinas programáticas em detrimento de outras – “não tem exame nacional, logo não é importante” – gera autênticas crises no contexto escolar. Os professores seguem meticulosamente o guião, mesmo que tenha falhas ou seja excessivo ou inexacto, pois, quanto mais elevadas forem as classificações dos seus alunos, submetidos a uma correção anónima, tanto mais prestígio lhes é atribuído; os alunos focam-se nas matérias que serão alvo de exame, entram na onda do stresse dos docentes e passam a viver para aquelas duas horas e meia em que jogam todo o esforço de dois anos ou três.

Seja lá o que for que afirmem acerca da importância e da justeza destes métodos, deste sistema de classificação, pelos quais os alunos mais «marrões» atingem altos valores e entram em medicina, por exemplo, sem saberem tão pouco porquê, enquanto os verdadeiramente cientes do que significa ser médico não atingem semelhante benefício, por lhes faltarem umas décimas, eu, envolta no sistema, por ser professora, não sou capaz de lhe descobrir o equilíbrio.

Mais: penso que algum vício, alguma desonestidade se acoita em certos locais e que os exames são mostrados aqui e ali, para que certos privilegiados obtenham melhores classificações. E exemplifico.

No ano lectivo passado corrigi provas de exame nacional de filosofia. Alunos ocultos em severo anonimato.

Eram três envelopes, o que significa que pertenciam a três escolas diferentes.

O exame era banal, seguia, por isso, o guião, se exceptuarmos o último grupo, onde era questionado, em alternativa, o tema dos valores – estéticos ou religiosos. Posso garantir que, decerto, nenhum professor de filosofia enfatizou esses assuntos, dado que, em primeiro lugar, são tema do 10º ano, mesmo do final do ano e, como o programa é extenso e árduo, praticamente ninguém aprofunda muito essas dimensões dos valores. Em segundo lugar, há muitos anos que não inseriam, nas provas de exame, qualquer questão acerca desse domínio.

Logo, foi com surpresa que alunos e professores viram esse tema questionado em exame, e, em duas das escolas cujos testes corrigi, os conhecimentos demonstrados eram vagos e muito diminutos. Porém, a terceira escola tinha todo o segredo bem desvendado e as respostas (não somente a este assunto mas a todos os outros) estavam tão certas e precisas, tão estereotipadas e idênticas que, de imediato senti que, por detrás daqueles «sucessos» todos haveria a mão de um treinador bem informado, cheio de recursos, quem sabe… um adivinho.

Fiquei irritada com aqueles alunos-máquina, pois me apresentaram provas absolutamente exactas, de acordo com os critérios e a quem fui obrigada a atribuir excelentes classificações. Ao mesmo tempo, senti-me confrangida pelos restantes que, não tendo usufruído da vantagem de um treinador tão eficiente, não debitaram a matéria com tanto acerto e a quem, por essa razão, precisei de dar notas baixas. Como é evidente, nem uns nem os outros tiveram culpa: aos primeiros, alguém lavou o cérebro, os outros tiveram que puxar pela própria arte!

Não sei então o que hei-de pensar desta corrida ao exame e à nota, desta competição desenfreada em que se julga e é julgado em função de uma escala numéria de onde o valor qualitativo parece estar excluído. Quando me dizem que este processo de selecionar alunos, com base nas médias, é o método possível, sou obrigada a concordar, visto que ele reproduz o sistema global da sociedade em que vivemos que aposta nas competências padronizadas e condena à marginalidade a excepção e a criatividade. Vejo que os jovens já perceberam a necessidade de obter bons resultados, custe o que custar, se querem entrar neste universo selvagem e competitivo que lhes cerceará o futuro, caso optem pelos seus sonhos mais queridos.

Exames?! Sim, eu fiz exames e sobrevivi. Mas não foram eles que me possibilitaram entrar no curso que quis, nem precisei de nenhuma média específica para chegar aqui ou ali. O mérito, se o tenho, devo-o a mim mesma e à necessidade que sempre tive de investigar e de descobrir, pelos meus meios, o conhecimento.

Durante, praticamente, todo o tempo em que sou professora, pude encaminhar os alunos na descoberta de si mesmos, através da filosofia; mas agora, se quero mesmo que eles obtenham excelentes classificações no exame que podem querer fazer no 11ºano (para evitarem outro, tido como mais difícil – e também não consigo digerir esta troca), preciso de lutar contra o tempo e fazê-los «papaguear» muito bem a matéria, seja ela Kant ou David Hume, ou Stuart Mill ou Descartes e outros temas onde a certeza nunca poderá encontrar-se, mas para a qual tenho que forçar a porta, sob pena de (como já aconteceu) as classificações que atribuo no final de cada ano, e cuja média representa o trabalho feito em dois anos, serão muito diferentes da que o exame lhes facultará.

Julgo que este tempo que vivemos é de crise total e de muitos e variados oportunismos; mas também se respiram hoje emanações de fim de vida. Sendo assim, esta crise arrastar-nos-á para precipícios nunca dantes adivinhados e muitos de nós não vencerão a derrocada. Porém, quem não soçobrar, quem vier a seguir, terá que varrer os desperdícios e arrumar os escombros e erguer do vazio um novo tipo de humanidade. Eis no que, veementemente, creio.