sexta-feira, 20 de novembro de 2015

UMA PARIDADE MAL PARIDA

GABRIEL VILAS BOAS
Há dias vi o filme “As Sufragistas” que recordava o começo da luta das mulheres inglesas pelo direito ao voto. Foi há cem anos e foram precisos dezasseis para que esse direito lhes fosse efetivamente outorgado. Ontem, o jornal O Público fazia manchete com um estudo recente que referia que as mulheres portugueses ainda gastam o dobro do tempo em atividades domésticas que os seus companheiros. Quando li a notícia fiquei surpreendido, pois esperava que a diferença fosse maior. Em 2002 o fosso era realmente maior, mas a aproximação tem sido feita a passo de caracol.

O século XX marca a conquista, em muitos casos dolorosa, de direitos fundamentais das mulheres, em sociedade que eram dominadas pelos homens. 

Colocar na lei a igualdade é fundamental, mas a paridade não se decreta, constrói-se. É uma responsabilidade que cabe tanto ao homem como à mulher e está muito dependente da educação, através do exemplo, que os adolescentes e jovens recebem. 

A lei pode ajudar imenso, ao ser imperativa em determinados casos concretos e, sobretudo, ao fiscalizar as arbitrariedades cometidas ao nível da disparidade salarial entre homens e mulheres. Hoje um salário médio de um homem é superior, em cerca de 130 euros, ao de uma mulher. Mais do que um problema de mentalidade de quem emprega, acho que se trata duma falha de quem regula. 

Homens e mulheres são seres diferentes e, obviamente, têm inclinações naturais para fazer mais umas tarefas que outras. Por isso espanta-me tanto que, num lar, 92% das mulheres tratem da roupa como 82% dos homens se ocupem, em exclusivo, das reparações.

Se a questão da paridade não oferece filosófica discussão, então tem de ter tradução prática. Desgraçadamente, o meio família ainda é um triste palco desta (dis)paridade. Os homens portugueses dedicam oito horas semanais às tarefas domésticas, mas a necessidade impõe que as mulheres tenham de lhes dedicar dezassete. Esta diferença ainda é muito grande. Além da educação dos filhos para a paridade, as mulheres devem “exigir” que os seus companheiros cumpram aquilo que defendem (74% dos homens acha que as tarefas lá de casa devem ser repartidas igualitariamente). É uma luta difícil, porque é também uma luta de poder e de transformação de mentalidades. Saber negociar é uma arte tão ou mais útil como saber seduzir. 

É verdade que os casais mais jovens dividem mais e melhor as tarefas domésticas, mas recusou-me aceitar que tenhamos de esperar décadas para sincronizarmos direitos e deveres. É possível fazer mais e melhor nesta área. Recordo, por exemplo, o extraordinário contributo que as diversas monarquias europeias podem dar, ao permitir que seja a princesa a tornar-se rainha, quando é a mais velha, e não que esse lugar fique reservado para a esposa do jovem príncipe, mesmo que este seja o mais novo dos irmãos. 

Na esfera profissional, penso que o problema não se resolve com quotas, que além do mais até podem ofender a dignidade das mulheres e criar situações muito injustas. Implementar a paridade passa antes pela valorização da meritocracia. Homens e mulheres devem ter uma situação de partida igualitária e serem objeto de uma avaliação justa e imparcial. Depois, se houver mais mulheres a mandar ou mais homens a com salários superiores, não há como invocar mais a injusta paridade que nos atrasa civilizacionalmente. 

A paridade de géneros revela muito acerca dos valores fundamentais de determinada sociedade.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

"OS ANJOS DE PEDRA", A MAIS RECENTE OBRA DE ANABELA BORGES

Paralelamente à escrita, Anabela Borges é professora de Português. 

Anabela Borges nasceu em Telões, Amarante, onde reside actualmente. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. 

Em 2011, foi vencedora do prémio literário “Conto por Conto”, com o conto “A Tundra (cemitério de memórias)”, com a chancela da Alfarroba Editora. 

Em 2012, o seu conto “A Pergunta (fim de linha)” foi distinguido com o prémio “melhor conto” pela Pastelaria Studios Editora, valendo-lhe o prémio da publicação de um livro da sua inteira autoria, que resultou na publicação da anthologia de contos “Até Ser Primavera”. 

Tem participado em diversas colectâneas, essencialmente com contos e poesia. A cada ano, desde 2012, publica um conto de Natal. 

Participa no projecto da Revista online Bird Magazine, com uma crónica semanal. 

Anabela Borges no lançamento do seu último livro,  "AS FAMÍLIAS DOS ANIMAIS"
“AS FAMÍLIAS DOS ANIMAIS”, fábulas em verso, da editora Lugar da Palavra, é o seu primeiro livro infanto-juvenil, ou seja, para todas as idades! 

2015: 


“Os Anjos de Pedra”, obra que agora se publica, narrativa de inspiração inesiana, desfia uma sequência de solilóquios de Inês de Castro e de Camões (que, como se sabe, tratou o tema n' “Os Lusíadas”) e que, à beleza do modo de dizer antigo, associa o olhar do homem dos nossos dias. 

Uma pequena obra que não é uma obra pequena.

Questionada sobre o que trata a narrativa, Anabela Borges declara:

Trata-se de uma narrativa a duas vozes (a de Camões e da própria Inês) sobre a mui nobre e grandiosa (segundo muitos creem, única no mundo) rainha póstuma, Inês de Castro. É uma obra que me é muito cara, já que a tenho escrita há quase três anos e só agora (depois de apreciá-la, cuidá-la, ‘ouvi-la’) me decidi a publicá-la.
A obra virá a lume com a chancela da EDIÇÕES SEM NOME, pela mão do meu caríssimo editor Luiz Pires Dos Reys. A apresentação estará a cargo do estimado Poeta José Emílio-Nelson.

Lançamento da obra:
DIA 21 DE NOVEMBRO, SÁBADO, PELAS 16:30, NA BIBLIOTECA MUNICIPAL ALBANO SARDOEIRA, EM AMARANTE.


LIBERDADE VS. FUNDAMENTALISMO

CATARINA PINTO
Gostaria eu de escrever algo de diferente esta quinzena, mas na verdade não consigo deixar passar em branco a minha oportunidade de fazer uma breve reflexão sobre a liberdade versus fundamentalismo. Mais do que políticas, mais do que religiões, oriente ou ocidente esta a tão aclamada liberdade e o assombroso fundamentalismo. Não adianta ocultar o que se passou em Paris, o que se passou em países africanos como o Congo, Nigéria, do médio oriente como o caso do Líbano, Iraque… puro fundamentalismo que procura destruir a liberdade a ferro e fogo, com violência, morte, extermínio total…Está é a parte mais difícil de procurar compreender ambos os lados…

Depois da segunda guerra mundial a Europa reconstrui-se em rascunhos e ideais de criar um lugar mais ou menos paradisíaco (tendo em conta os horrores da guerra), procurar demonstrar que tinha aprendido com os erros passados, e este novo lugar seria povoado de valores como a liberdade, a igualdade, o humanismo… e talvez esse seja mais um dos erros ou ilusões… 

Pessoalmente a liberdade é um bem tão difícil de conseguir e só com bastante luta e força lá chegamos … o fundamentalistas que se sobressaem pela sua frieza, sem escrúpulos ou valores apropriados a civilização europeia…Eles estão sempre a espera de um motivo para destruir.

E donde vem os financiamentos? Pois é… mais uma vez erros e o mundo inteiro é culpado… uns porque o financiam outros porque o sabem e fecham os olhos, deixam que as coisas sucedam, o que também é crime. Eles conquistam territórios obviamente com poços de petróleo, porque a areia só não dá dinheiro, conquistam território com artefactos históricos valiosíssimo, destroem o que esta a vista e depois vendem outras peças no mercado negro … num futuro próximo ainda as iremos ver… escravizam o semelhante, ainda estão ligados a redes de órgãos e de prostituição… e tudo isto é em nome de um deus?... E ainda conseguem ter uma revista digital….até onde nós chegamos…

Para concluir vou só deixar uma breve nota…nos últimos tempos temos assistido a discussões nas redes sociais, e que são criadas do nada e explodem como bombas… mas sem conteúdo… contra a própria liberdade de cada um… devíamos deixar de comentários, senão estivermos de acordo devíamos passar em branco… cada questão tem a sua importância, não é o que se passa lá fora que vai retirar a devida importância aos problemas internos e vice-versa… todos os dias há flagelos que só nós sabemos e conhecemos… guardemos silêncio e a introspeção como sinal de respeito pelo mal do mundo…depois do silêncio, atuemos…

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

AOS MEUS ALUNOS

ALINA SOUSA VAZ E OS SEUS ALUNOS ESTRANGEIROS 

10 anos dedicados ao ensino. 10 anos de instabilidade. Mas,10 anos com muitas histórias para contar.

Se me via a fazer outra coisa, sim, mas, provavelmente, seria uma outra pessoa. Trabalhar com jovens é das experiências mais gratificantes, percebes que a força que vive dentro deles te atualizam e te ajudam a compreender e a viver o presente, também, e ainda, de forma intensa. 

As horas lecionadas em conteúdos científicos são, de facto, uma mais-valia para a evolução da sociedade e do ser humano, pois a partir deles adquirimos novos conceitos, pontos de vista, técnicas, procedimentos e ferramentas. No entanto, e porque, hoje, parece que vivemos um pouco à sorte de cada um, imprimo sempre na ação do ensino-aprendizagem um olhar humanitário descomplexado, onde todos os intervenientes na sala de aula são figuras importantes, independentemente da sua origem, opinião e classe social. 

Observo-os…, e interiormente há uma dedicação a cada um de forma diferente, porque as suas essências são diferentes. Os estudantes são uma explosão de sentimentos; as reivindicações a par das suas lutas morais constroem a sua personalidade, por vezes rebelde. Confesso que esta rebeldia, sempre que fundamentada, me fascina. Aqui percebo a força interior de cada um, a forma como olham para além de si mesmo e o debate do “eu” e do “outro” começa como base para um crescimento mais sólido e só depois se inicia o percurso para as aprendizagens científicas. Consciencializá-los dos seus direitos e deveres é, na minha ótica, prepará-los para o futuro, pois só assim se tornarão cidadãos mais conscientes. Esta tarefa não é fácil e sinto que só mais tarde me reconhecem… Porém, não desisto!

Celebrar o dia do estudante é termos conhecimento que no 17 de novembro de 1939 um grupo de estudantes da antiga Checoslováquia lutou heroicamente contra as tropas nazis que atentavam contra a liberdade do povo deste país. As universidades do país foram fechadas na madrugada de 17 de novembro e as forças nazis invadiram a sede da Federação Central de Estudantes Checoslovacos matando dirigentes e levando centenas de estudantes para campos de concentração. O Dia Internacional dos Estudantes foi criado em Londres em 1941, pelo Conselho Internacional de Estudantes, a atual União Internacional de Estudantes, com a participação de 26 países.

Neste dia promove-se encontros entre estudantes de diferentes nacionalidades e enaltece-se a importância dos estudos e dos estudantes na construção da sociedade. Na experiência que me toca, a abertura das universidades ao exterior foi e continua a ser fundamental; o estudante de ERASMUS, por exemplo, para além de beneficiar de uma experiência gratificante a nível académico, adquire, também, ferramentas que irão contribuir para a construção de uma Europa mais unida na diversidade cultural, linguística e educacional.

Neste momento, que vivemos ainda com a dor dos acontecimentos em Paris, é urgente darmo-nos oportunidade de conhecer melhor o outro, para que o receio do desconhecido não se instale e o nosso juízo de valor não seja simplista. Logo, ser estudante é ter oportunidade para crescer/evoluir no contacto com as outras ideologias, religiões e culturas e querer um mundo melhor nas mãos. 

terça-feira, 17 de novembro de 2015

ILÍDIO SARDOEIRA - AINDA O CENTENÁRIO

REGINA SARDOEIRA 
Revisitando a homenagem que Amarante fez a Ilídio Sardoeira, em 1990, nos dias 25, 26 e 27 de Maio, fui buscar recortes de jornais e outros documentos dessa altura. Encontrei este texto, publicado no Jornal de Amarante, no dia 3 de Maio de 1990, o primeiro de uma série, pela qual eu, enquanto parte integrante da equipa da Polis Projecto-Cultural, associação da época que desenvolveu o plano de acção desse fim de semana, me propus dar uma resposta às questões: Quem foi Ilídio Sardoeira? Quem é Ilídio Sardoeira? 

Em ano de centenário, pareceu-me oportuno recuperar este texto genuíno, vindo da minha própria infância.

"Quem foi Ilídio Sardoeira? Quem é Ilídio Sardoeira? Duas perguntas. Uma só resposta? Vejamos. 
O que ele foi esgota-se na linearidade comum da vida, perde-se no buraco insondável da morte. Mas o que dele é a memória nos outros, o testemunho nas acções e nas obras, condu-lo ao presente, encaminha-o para o futuro, projecta-o na imortalidade. 

Viver é durar - e perdurar . E todos participamos desse destino, porque todos deixamos um rasto: somos nós mesmos e a memória do que fomos.

Ilídio Sardoeira existiu num espaço/tempo finito, compreendido entre Canadelo, 12 de Novembro de 1915 e Vila Nova de Gaia, 30 de Novembro de 1987. Nestas duas datas, nestes dois espaços, se inscreve o destino do homem: datas-limite, espaços da raiz e do fruto. Onde entendê-lo melhor, na raiz ou no fruto? Ou ainda nos interstícios que foram o caule e a flor, as ramificações e a seiva de outras aventuras humanas? 
Porque tudo realmente conta, só no todo encontraríamos a versão humana objectiva e integral. Mas ainda que fossemos capazes de seguir, passo a passo, dia a dia, o percurso do homem através das terras, das gentes, nas circunstâncias várias do tempo, também ele vário e conturbado, mesmo assim poderíamos dar, com segurança, o perfil humano coeso e justo? 

A resposta é um rotundo não e nem outra poderia ser. Porque existe o insondável, aquilo que apenas a ele pertenceu no segredo do seu íntimo, aquilo que, de si mesmo, talvez jamais ele o tivesse sabido. 
Estou todavia fascinada pelo espaço /tempo limite, pela raiz e pelo fruto, pelo princípio e pelo fim. Vejo-o melhor entre as escarpas rudes, a terra amarela, a carqueja e a ardósia da aldeia serrana de Canadelo e o nevoeiro indeciso do Douro, os barcos rabelos, os néons do Croft, do Cockburn, do Sandeman e a Ribeira, o casario em cascata do Porto da Sé e o comboio no seu vai-vem entre capitais - vejo-o melhor aqui, porque foi nestes pontos-limite que partilhei com ele a intimidade e o tecto. 

Fui muitas vezes a Canadelo. Não havia luz eléctrica e a estrada, poeirenta, esburacada, entre pinhais e terra amarela, acabava muito antes da aldeia. Para chegarmos a casa, era preciso ir a pé, inevitavelmente seguidos por um grupo de garotos descalços e maltrapilhos que engrossava à medida que chegávamos ao destino - era a "escolta" como costumávamos chamar-lhes. Depois, atravessávamos a rua principal da aldeia - um caminho rude, interceptado, aqui e ali, por espessas camadas de mato como prolongamento das cortes dos animais domésticos, em coabitação pacifica com as gentes. 

A nossa chegada era um acontecimento porque raros eram os visitantes e nós conseguíamos ser ilustres...à nossa passagem abriam-se portas e bocas e o meu pai era saudado pelo diminutivo que nunca lhe retiraram os conterrâneos: "Então como passa sr. Luisinho?" 

Chegávamos à casa, térrea e caiada, com um passeio alto a acompanhar toda a fachada e o típico telhado de ardósia; entrava-se pela cozinha, negra de fumo, chão de terra batida e o grande lar onde as panelas ferviam ao lume doirado e quente. E "ele" lá estava, no meio das mulheres, vestidas de negro, com lenços na cabeça, que acorriam em bando para ajudar nas lides. Sorridente, orientava os preparativos da refeição, dava sugestões, provava os petiscos - e havia sempre umas graça, um dito de malícia inocente na sã convivência com o povo de que ele era filho. 

Cumprimentava-me, oferecendo a face lisa (Olá, rouxinol!) e continuava na azáfama da cozinha, entre a algazarra do mulherio que tinha nesse dia refeição farta garantida. 

Ao canto da lareira, pequena, magra, vestida do negro das viúvas, com o rosto marcado pela idade e pelas mágoas da vida, sempre silenciosa, a mãe do poeta, desse homem, imenso e pequeno como tudo o que é grande, dava poucos sinais de vida. Como se tivesse entrado, definitivamente, num mundo apenas seu, ali ficava, no calor das brasas, um pouco alheia, talvez só. Assim vejo a minha avó, essa mulher do povo, mulher de Canadelo autêntica, desconhecedora das letras, rude até ao fim - e no entanto a mãe sempre querida, sempre homenageada, do homem culto, do sábio, do artista delicado e sensível . 

A casa, mais para dentro, primava pela simplicidade: soalho de tábuas, paredes caiadas, um ou outro quadro na sala principal - o retrato do meu avô que nunca conheci, um desenho representando um rosto feminino, uns cadeirões rústicos...e era tudo. 

Ficávamos pouco tempo dentro de casa. Era verão, estávamos de férias e havia muito que ver lá fora. Ele, quando se libertava do tumulto culinário, acompanhava-nos. Subíamos ao Calvário por uma escarpa rochosa - perto, havia o lavadouro público, onde as mulheres batiam a roupa em alarido; e lá vinha um chamado pelo "Sr. Doutor" que parava e queria saber coisas da vida daquela gente que ele conhecia bem e tratava sempre pelo nome próprio. Numa levada de água cristalina, apanhávamos agriões frescos; nas silvas que bordejavam os caminhos, colhíamos as amoras selvagens e negras. E ele mostrava-nos a paisagem esplendorosa, vestida apenas com o fulgor virgem dos começos, os recantos, as pedras, a vida palpitante e túrgida. 

Encontrávamo-lo ali, naquela terra quente e rude, completo, irmanado consigo mesmo; era o familiar compreensivo que nos ouvia a tagarelice e a impertinência, o professor que nos ensinava os segredos da terra, o poeta que nos levava até aos sítios da sua inspiração. 

Não evoco grandes conversas, ele não nos fazia discursos, deixava-nos entregues à infância e à inocência e conduzia -nos, sem que déssemos conta, à descoberta. 

Das brumas da minha própria infância, na memória desses passeios, pela aldeia ainda rude, ainda pura, eu evoco a raiz do poeta, o embrião do homem da ciência: evoco, com a sensibilidade, porque saber como foi, não sei. O que faz de um homem, poeta? Como sai um, de entre muitos, da rudeza das origens, enquanto outros ficam, para sempre, em estado bruto, unidos à pedra, tecidos no húmus? 

Ilídio Sardoeira, em Canadelo, era o irmão da terra o amigo de cada pessoa, que o cumprimentava com a veneração devida ao sábio, com o amor devido ao irmão; e todos sabiam que quem ali passava era grande. De estatura baixa e voz suave, a sua presença marcava pela bonomia - nenhuma pompa, nenhum sinal exterior de fausto ou de vaidade: porque toda a riqueza lhe vinha da terra e de dentro.

INTIMIDADE

Outro me sei e outro me descubro, 
calcurreando o mato e alevantando
voos azuis de gafanhotos cautos
fomes de répteis, cegos, avivando,


Cresce-me o corpo à terra e enraíza, 
como se terra e corpo, ou mãe e filho, 
à gestação primária regressassem. 
Cacho de cepa ou espiga sã de milho


comigo compartilham como irmãos; 
e jorro de água viva, sobre pedras, 
batido pelo sol, sabe-me ao riso


da criança que fui, depois do choro. 
Outro me sei e outro me descubro
por este chão de cardos que nem piso.


Ilídio Sardoeira, Poemas (1952) "

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

SOBRE A POÉTICA DA GUERRA



«(...) Um grito de silêncio morre / impotente / no fundo da garganta (...) / o silêncio abate-se sobre nós (...) /o que fica depois disso? / as marcas da dor, o sangue / vertido / e o silêncio do vazio» - in "há o silêncio em volta", de Alvaro Giesta, Edições Vieira da Silva, 2012

[este texto, sobre poética de guerra, retrata, apenas e só, o sentimento do seu autor aquando envolvido, por questões de dever à Pátria, na Guerra Colonial, anos 70 a 74]

ALVARO GIESTA 
Lavrado em livro sobre a guerra de guerrilha, dos anos 60 a 70, são estes versos colhidos no livro sobre poesia de guerra "há o silêncio em volta", que me parecem apropriados, como mote, para explicar a razão da dor e do silêncio após a morte, no corpus do tema escolhido, embora fora do contexto, porque diferente, do que é hoje esta maldita guerra traiçoeira e terrorista, norteada por uma (falsa) fé que se julga ser a única justa à face da terra.

Antes de entrar no tema, deixem que vos diga que a melhor homenagem que podemos fazer aos que morrem barbaramente assassinados por mãos terroristas, é o silêncio em oração, ainda que muda, e a negação ao medo. Deixar-se possuir por essa dor e respeito pelos que são assassinados, é dever; mas, também é obrigação negar o medo aos que matam indiscriminadamente, porque negá-lo, é não ter medo de viver. E a função do poeta, num tempo de guerra, é esta: viver as nossas inquietações, a nossa procura, o nosso tempo de ausência, a nossa revolta, o nosso desassossego, quantas vezes a nossa descrença no mundo, mas, também, a nossa tentativa de resposta.

Quando se anda numa guerra, como aquela em que eu andei, mais traiçoeira do que as guerras clássicas, sendo ela guerra de guerrilha, onde nunca se sabe de onde vem a bala traiçoeira, nem onde está a mina que pisamos, onde está o arame de tropeçar com que vamos accionar a armadilha ou a emboscada mortífera que à saída do trilho para a clareira à nossa frente, com o capim a rasar-nos à altura dos ombros, nos varre sem dó nem piedade, a morte é o convívio que parece impossível e quantas vezes nos servimos do sentir poético - seja até na recordação do último aerograma que enviámos à namorada, ou da última carta recebida dela, ou da mãe que lá longe por nós reza - para ultrapassarmos a barreira do medo, da dor, do luto que ficou por aqueles que tombaram.

É nessas alturas que a poesia da ausência, que a poesia da falta, a poesia da raiva e do medo, nos nasce na alma e gravamo-la na mente, que as mãos estão ocupadas em segurar com firmeza a espingarda, e os olhos em constante observação da linha do horizonte, sempre pronta a desvendar-nos o reflexo incandescente que sai do tapa-chamas das armas do inimigo ou a tentar desvendar a surpresa no interior da mata fechada e traiçoeira, que se estende a meia dúzia de passos do trilho onde progredimos.

É nestas alturas, e voltando à força dos primeiros versos "Um grito de silêncio morre / impotente / no fundo da garganta // O silêncio abate-se sobre nós", que o silêncio estilhaçado, ou antes, os silêncios vários, fazem (ou fizeram) cortina no tardar em dizer o que mais tarde se conta. É este jogo da palavra-silêncio na narrativa crítica que imprime à poesia de guerra - neste caso concreto, à ex-guerra colonial - permanentes movimentos que importam não esquecer e divulgar. E haja quem os divulgue...

É por isso que, a este tempo de falta, a este tempo de ausência, a este tempo da dor, só consigamos dar corpo ao silêncio até aí existente, ao fim de algumas décadas, porque até aí faltou a coragem de o dizer, de o deixar expresso por palavras escritas para a posteridade, amordaçadas pelo receio, pelo medo do julgamento que nos possam fazer. É o mundo das mentalidades tantas vezes em julgamentos injustos, porque não passaram por lá, porque não enfrentaram a morte, porque não enfrentaram a dor de ter de matar para não morrer. É a injustiça dos homens a julgar os outros homens, a julgar aqueles que tiveram a coragem para escrever da guerra em que andaram envolvidos e de que saíram, tantas vezes, mutilados no corpo, e outras, tão graves ou mais do que aquelas, mutilados no cérebro e esmagados na alma.

As imagens da guerra e da morte ficarão tristemente indestrutíveis, como assombrações perenes, gravadas no cérebro do ex-combatente e no peito ferido, onde penduraram a cruz de guerra pelos feitos em combate, muitas vezes cobardes, mas descritos como valentes. Peito que sangrará de dor até ao juízo final.
«Rastros de sangue vermelho / nos braços decepados / do capim... // O matraquear da kalashnicov / trouxe o susto / e o medo misturado na raiva / e na dor // Os heróis em mortalha repousam / os ossos desfeitos / no silêncio da capela / sobranceira à morte / e ao medo // Ouve-se o rastejar traiçoeiro / do inimigo / e quase em cima de nós / o bafo quente da morte // Tortura-nos a noite... // O som das rajadas / vindas sabe-se lá de onde / esfrangalha-nos os nervos, / e a mina traiçoeira / destrói / o desgraçado que a pisou» - in "há o silêncio em volta"
São estados de alma difíceis de escrever no verso; são ambiências duras de roer, revoltas interiores que provocam depressões, trazem raiva e traumas para toda a vida, pela perda impossível de remediar; são isso tudo numa amálgama de sentimentos difíceis de descrever e de esquecer. São isso tudo, que nunca são um sentimento único, que provocam torrentes de versos difíceis de entender.

Em guerra, a morte é o mote neste convívio que parece impossível. E, não fosse o sentir poético do combatente, que não tem que ser, necessariamente, poeta, não fossem até, muitas vezes apenas ténues lembranças de amor e de sonho, que nunca o abandonam, ou dificilmente o abandonam, talvez até as únicas que o mantiveram sóbrio e mentalmente saudável, nesta terrível travessia que lhe foi imposta, teria o combatente ensandecido, desertado ou, até mesmo, muito simplesmente apontado à cabeça a sua arma de combate. Esse tempo de ausência, esse tempo de raiva e desespero nesta guerra absurda, esse tempo do vazio e da interrogação ao mesmo tempo, e da desilusão, também, de inquietação e desassossego numa mistura de medo e até de respeito pelo inimigo que está à nossa frente, ainda que oculto, sabe-se lá onde, esse tempo quase nunca é de ódio porque, se ódio houver, é contra aqueles que nos põem na mão a arma e nos empurram para a frente de combate sem sabermos bem para onde vamos e porque vamos, ainda que nos tenham incutido na mente o sentimento de pátria. Quantas vezes o arrependimento, sem saber como nem quando desistir...
«Desperto... / minhas mãos frias / crispam os dedos inertes / no gatilho da espingarda // Debaixo da mira / numa linha que dificilmente erro, / o alvo / Um corpo negro, / meio nu... // Apenas o cobrem os restos daquilo que foi / um camuflado zambiano / Veste no rosto, / encimado por um chapéu também camuflado, / uma raiva sombria / Para ele nós somos o invasor, / o inimigo a abater que importa liquidar / ainda que connosco tenha aprendido / rimas de civilização // Nós somos o invasor que (ele) quer / expulsar / destruir / aniquilar // E ele, para mim, o inimigo de ontem / será o amigo de amanhã / a quem eu quero abraçar» - in "há o silêncio em volta"
Essa inquietação surda, esse desassossego e descrença, essa falta do motor da busca como resposta à nossa inquietude, essa falta de apoio de um porto de abrigo que seja o lenitivo para os nossos momentos aflitivos em combate, que seja o local onde, no fim de cada combate, nos pudéssemos recolher e meditar, ainda que se transforme, às vezes, numa quase tentativa de resposta, molda-se-nos numa simbiose de revolta e vazio. Num nada existencial nas nossas vidas e para as nossas vidas... num indizível lamento de quase falta de fé. Essa raiva e dor que sentimos quando vivenciamos a guerra numa mistura de sentimentos de difícil compreensão, esta raiva silenciosa amordaçada na garganta, compartilhamo-la também, e quantas vezes em primeira instância, com quem já cá não está entre nós; porque sabemos que daí não haverá a crítica mordaz e injusta; porque esse alguém também lá andou anos a fio na guerra, não fazendo, contudo, a guerra; ou, então, fica no segredo das gavetas, anos a fio, até que se perca o medo do tal julgamento injusto e saia para a rua no formato de livro. Essa angústia, esse medo de dizer pelo tal julgamento, muitas vezes injusto, que nos possam fazer essas mentalidades tacanhas, cobardes e conservadoras, que possam fazer, neste caso, a um ex-combatente da guerra colonial, que é sempre um ex-combatente sem nome, mas com rosto, deixam ficar essas memórias no papel escondidas bem no fundo duma gaveta, que não no esquecimento.
«Este silêncio inquieta-me. Há horas que aqui estamos, deitados, com a arma a nosso lado, à espera que o grupo de guerrilheiros, anunciado ontem à noite numa Top Secret, como infiltrado a partir da Zâmbia, aqui passe. Lá ao fundo, corre o Kwango. Rio rico em diamantes, que já vem das terras altas do Alto Chicapa. E penso em ti, pai. Naquele teu conselho. Mais aviso do que conselho:- «não te deixes matar; ficas proibido de morrer!». «Sim, pai.» - Prometi-te que não me ia deixar matar e vou cumprir o prometido.

Doloroso é este silêncio aterrador. É manhã cedo. Ou, melhor dizendo, é o dia ainda longe, à espera de sair da noite. Estas noites africanas são quentes na época das chuvas, e frias na altura do cacimbo. Hoje está uma noite quente. Abafada. Não sopra lufada de ar. No céu da madrugada, ainda os restos de sangue do incendiado vermelho que encerrou a noite. Sinto os pelos, pelo corpo, arrepiados, eriçados. É o medo e uma premonição maldita a inquietar-me.

Fomos lançados de madrugada, mais pela noite dentro do que, propriamente, pela madrugada. Agora esta espera desesperante. Tal como o comandante do grupo de combate planeou, mal fomos largados, instalámos uns metros para dentro da mata como se por automatismo. Tudo sincronizado. À retaguarda fiquei eu instalado, pai, com a minha secção de proteção à retaguarda. O cabo Dias, lembras-te? Aquele de quem te falei tanta vez quando eu dava instrução no RI 21, o tal filho do teu amigo do colonato da Cela… sempre tão eficiente e tão operacional! O perfil, exacto, que deve ter um combatente. Ele é que devia comandar o pelotão e não este alferes(zito) emproado, recém saído do seminário. É um medricas… e a guerra não se compadece de medricas, sabes bem disso! O "meu cabo Dias", esse, sim, sempre tão operacional…. nem era necessário precisar-lhe onde instalar o morteiro.

«Furriel fico aqui… por detrás desta máscara é o ideal.» Dizia-me, ele, por sinais, batendo no ombro a designar-me pelo posto e levando a mão ao rosto, mascarando-o, para depois levantar o polegar em riste, a que eu correspondia com o mesmo gesto.

Era assim, pai, o filho do teu amigo. Um herói. Mas os heróis também morrem e dalguns, nem sequer fala a história. Apenas, na lembrança dos amigos, a sua imagem. E do valor, se algum lhe reconheceram, somente fala a cruz de guerra entregue ao pai ou ao filho que o pai não conheceu. Esse teu amigo, pai, esse pai do meu maior amigo que tive na guerra e a quem numa ocasião fiquei a dever a vida, recordará hoje, o filho, nesse pedaço de ferro em forma de cruz, sem valor e já sem préstimo, que lhe deram em imponente parada militar,. Era assim, meu pai, foi assim o filho do teu amigo. Um herói.

Começa a doer-me o corpo da posição tão incómoda imposta pelas regras de segurança. Doe-me o corpo, mas fervilha-me o cérebro. Nasce-me, aos poucos, uma poesia. Prometo dizer-ta, meu pai, quando nos encontrarmos. Após esta guerra acabar. Mesmo que um de nós já cá não esteja, ou se ambos já cá não estivermos, fica prometido, aqui, sem a necessidade de testemunho notarial, que hei de ter um herdeiro que a há-de dar à luz. E nós, ambos, onde quer que estejamos, vamos ter conhecimento dela. Disso podes ter a certeza. Prometo-te. E o prometido é devido e cumpre-se. Este cumprir-se-á! Estejamos onde estivermos…

Está a amanhecer. Este silêncio dá cabo de mim. Tento lembrar-me das coisas que me contavas no início desta guerra. Nos meus onze anos, ouvia-te, quando regressavas a casa no final de cada campanha de seis meses de ausência nas matas, do norte e do leste de Angola ao serviço do instituto de cartografia, a chamada Missão Geográfica de Angola. Longe de nós; da mãe e dos meus dois irmãos. Estavas um perito em mapas, dizias por brincadeira. Tu, que andavas esse tempo todo agarrado ao volante de uma Hanomag ou de um Unimog, o chamado "burro do mato", a conduzir um engenheiro geográfico. Contavas-me o que agora eu observo nesta maldita e traiçoeira guerra.

«Havia árvores caídas / pontes abatidas / e mortos na picada // Havia corpos inchados do calor, / esventrados... / órgãos retirados e braços decepados // Havia o cheiro a morte e a traição // Ali apenas as moscas varejeiras / tinham vida / e apressadas teimavam em tomar conta /de cada cadáver // Sob os corpos armadilhados, / a mina antipessoal / paciente / à espera de fazer mais mortos // Havia a raiva e a dor / e a sementeira de corpos pelo chão» - in "todas as folhas têm chão"

Corpos decepados, esventrados (...). Puta de pátria que teus filhos desprezaste um dia…» - - in "todas as folhas têm chão"

domingo, 15 de novembro de 2015

ACOMPANHADO

MIGUEL GOMES
O vento atira as nuvens na nossa direcção. O espanta espíritos espanta-se com as formas nubladas e tilinta-nos o entubado som ecoando por entre as memórias do que por aí vem.

Levantas a tua caneca fumegante e ergues o braço, convidas, levanto a minha e sorrindo brindamos ao que quer que seja que nos une. O banco de jardim, inclinado, transformado em banco de alpendre, brilha ostensivamente a camada de verniz recente e ilumina-se quando a velocidade vertiginosa do longínquo raio chega ofegante na sua eterna ânsia de chegar antes do ribombar do trovão.

Balanço o banco como sempre digo para outros não o fazerem. Ris-te. Lá vem vento novamente, o teu cabelo esvoaça e suspiras quando uns poucos se metem entre os teus lábios e o chã de cidreira, com açúcar obviamente, e os beberricas inadvertidamente. Nada mais faço que ver-te pelo canto do olho e rio-me sozinho, baixinho, levando a caneca à boca na esperança que não me vejas escarnecer, mas tens trejeitos de quem se adivinha, dás-me um encontrão no cotovelo que me faz balançar no banco e na agilidade típica de um leão-marinho entorno um pouco sobre mim, engasgando-me, tossindo, e deixando escorrer um pouco da minha cevada pelo canto da boca até se aventurar pelo pescoço e esmorecer ao alcançar o espaço vazio entre o meu peito e a camisa de flanela.

A vida tem sempre forma de se fazer surpresa e surgir como quem se esgueira por entre um corredor vazio sem que a vejam e nos salta para os braços, abraçando-se ao pescoço e cruzando as pernas nas nossas costas. Por falar em costas, podias lembrar-te que me doem as minhas, penso, mas deixo passar a incúria com o rosto aberto, os óculos tortos e o casaco de malha, azul, molhado pelas pingas que se deixam precipitar quando a isso a gravidade as convida.

Era capaz de ficar a ouvir este silêncio para sempre, noto em mim uma certa melancolia, uma nostalgia, típica de quem se sente imortal e na sua intemporalidade faz de conta que um ano é um dia e um dia é aquele momento em que o arrepio do Outono nos lembra que atrás das fumegantes chaminés ao longe, vem espevitado e austero o Inverno.

Há tempo para tudo, diziam-me, só não há tempo para o próprio tempo. Coitado, penso, envolto nas voltas que se transladam pelo sistema solar, sorrindo a tempos de outros planetas e a astros de outros planos sem tempo de ser o próprio tempo.

Está a escurecer embora me pareçam ser horas do Sol, acima deste tapete cinzento e azul negro, brincar na heliocentricidade e decidir de que lado da vida se deseja pôr. As nuvens revolvem-se e parecem formar, vale-me a imaginação, uma espécie de invertida agitação marítima, onde ondas de tufos cinzentos com tonalidades diferentes se precipitam sem saberem onde rebentar ou em que praia desabar. 

Vejo-me assim, entre dois mares, o que me foge dos pés onde quer que pense e o que me alcança independentemente da terra firme que procure.

Endireito-me no banco, as pernas da frente fazem um barulho seco e oco ao baterem no chão de madeira já gasta. Cruzo os pés, pouso a caneca que fumega ainda timidamente, já sem a cevada, na pequena grade de madeira onde me apoio quando é a minha vez de soçobrar e destapo os braços, prendendo a manta entre o queixo e o pescoço. O caderno anima-se quando me vê pegar na caneta e sem ajuda da brisa abre-se para me receber, exibindo as folhas amareladas de cor e de sabor, fechando os olhos na saciedade prévia de quem se saber ir ser escrito e, nisto de escrever, pouco importa o quê, mas sim o quanto, venha a mim o vosso reino, maravilhoso. Olho apenas uma vez mais em redor, a chávena órfã, o banco ímpar, a serenidade de um tempo que se quer a arfar escorrido por dentro de um corpo que a terra há-de comer.

De caneta entre os dedos, caderno sobre os joelhos, prendo melhor a manta com o queixo e imaginando-me acompanhado, começo a escrever assim: “O vento atira as nuvens na nossa direcção…”

sábado, 14 de novembro de 2015

A DIABETES...

No dia 14 de Novembro comemora-se o dia Mundial da Diabetes.

ANTONIETA DIAS
A Diabetes mellitus (DM) é uma doença crónica, que exige um acompanhamento médico multidisciplinar com terapêuticas mais ou menos agressivas, conforme o grau de severidade com que se instala esta doença e com maior ou menor precocidade com que é diagnosticada.

Sendo só por si uma doença crónica, invasiva, com fatores de risco marcados e com potencialidade de atingimento de vários órgãos alvo, o que fragiliza e deixa muitas vezes as pessoas debilitadas, incapacitadas e dependentes de terceiros.

Tem sido desde que foi conhecida alvo de grande investigação médica, destinada a tratar, minimizar sequelas e sobretudo a prevenir o seu aparecimento.

A insulina foi descoberta em 1921 por Frederick Banting e Charles Best e revolucionou o tratamento desta doença tão complexa, que mobiliza imensos profissionais de saúde para responderem às necessidades dos cuidados prestados a estes doentes.

 Estes pacientes exigem milhares de decisões individualizadas e de grupo para serem tratados adequadamente.

 Os dados do observatório Nacional da Diabetes, publicados em 2014, revelam que a prevalência da diabetes na população portuguesa com idades compreendidas entre os 20 e os 79 anos (7,8 milhões de indivíduos) foi de 13.0%, isto é mais de 1 milhão de portugueses neste grupo etário sofre de diabetes.

 Esta doença tem vindo a aumentar sendo a percentagem nos homens de (15.6%) e nas mulheres (10.7%). 

 Nos Centros de Saúde existe uma consulta específica e consta-se que a procura por parte dos pacientes têm vindo a aumentar (6.1% em 2011 e 8% em 2013), sendo a tendência a subir ainda mais.

  Em Portugal a diabetes de tipo 1 em 2013, atingiu 3262 indivíduos (crianças e jovens) com idades compreendidas entre os 0 e os 19 anos, o que corresponde a uma prevalência de 0.16%.

A diabetes é uma doença crónica que afeta uma percentagem muito elevada da população, sendo uma preocupação cada vez maior por parte de todos os responsáveis da Saúde em Portugal que têm contribuído com várias recomendações e orientações fundamentais destinadas a prevenir e a minimizar as sequelas desta doença.

Assim, e de acordo com os conhecimentos científicos vigentes até a data e que se mantém em permanente investigação, apesar de a diabetes ser uma doença conhecida desde a antiguidade egípcia, a investigação científica só se iniciou em finais do século XIX, tendo as múltiplas investigações realizadas revolucionado conceitos, tratamentos e moldagem de comportamentos incríveis.

Mas, apesar de todo o investimento efetuado, nem sempre estes objetivos são conseguidos e constatamos que é urgente implementar medidas mais agressivas, mais eficazes, destinadas e dirigidas para estes grupo de doentes que nem sempre despertam para a gravidade potencial da sua doença e muitas vezes não colaboram de forma mais assertiva, o que determina que não se envolvam tanto quanto deviam nos planos de tratamento que lhes são propostos pelos vários profissionais especializados para os tratar ficando assim mais suscetíveis para adquirirem complicações tardias que poderiam ser evitáveis.

 Se conseguirmos motivar os diabéticos de forma a criar rotinas diárias e estilos de vida saudáveis, iremos de certeza contribuir para diminuir os efeitos mais nefastos desta doença.

Apesar de todo o investimento dos programas de saúde emanados da Direção Geral de Saúde dirigidos para estes doentes nem sempre são concretizados os seus objetivos.

Não chega sinalizar, é preciso cuidar, prevenir e tratar envolvendo os doentes em programas terapêuticos individualizados, eficazes e de aplicabilidade prática.

A educação dos diabéticos é fundamental, contudo, constatamos que a percentagem de diabéticos que adere as terapêuticas propostas é muito baixa.

 Apesar das recomendações sobre a frequência da monotorização das glicemias capilares destinadas ao controlo e ao ajuste adequado das terapêuticas, menos de 30% dos doentes diabéticos de tipo 1 o fazem.

  Quanto aos registos efetuados, cerca de metade são adulterados, ou porque não são determinados ou porque o doente os tenta ajustar para valores mais aproximados dos padrões normais.

 A ministração da insulina falha em 25 a 30% dos casos.

 O exercício físico é de fraca aderência, os programas alimentares nem sempre são cumpridos, pois os níveis de adesão são baixos.

 E se falarmos da adesão ao tratamento nos diabéticos de tipo 2 constatamos que ainda é mais reduzida.

 Leona Miller em 1972 promoveu um ensaio em Los Angeles destinado à educação dos diabéticos, cuja terapêutica conseguiu reduzir os dias de internamento de descompensação da diabetes de 5,4 dias /ano para 1,7 dias /ano, o que foi um secesso.

Todavia, enquanto não conseguirmos envolver o diabético nos programas terapêuticos, na efetivação do exercício físico e na mudança dos seus hábitos nutricionais, fazendo com que a partilha da responsabilidade das decisões entre os pacientes e os profissionais seja uma realidade, a gestão desta problemática não será minimamente obtida.

Em suma, educar é transmitir heranças culturais eficazes e assertivas, é desenvolver aprendizagem de técnicas específicas, com modelos de auto – aprendizagem, de regras padronizadas centradas no ensino clássico, com modelos de intervenção individualizados identificando as vantagens e desvantagens de cada um deles.

 Adaptar a cada situação programas de ensino planeados para estilos de vida cuja teoria seja facilmente concretizável fará com que os modelos planeados e os conteúdos programados desenvolvam aprendizes mais eficazes.

Só assim conseguiremos prevenir muitos casos de diabetes de tipo 2 e diminuiremos as complicações tardias da diabetes de tipo 1 e dois.