sábado, 7 de novembro de 2015

EM FORÇA… NA TERCEIRA IDADE

JORGE NUNO
Há poucos dias atingi, oficialmente, a chamada terceira idade. Pode parecer estranho e soar a falso, mas esse facto encheu-me de uma genuína alegria. Durante alguns anos, como professor numa Universidade Sénior, encorajei os meus alunos a um envelhecimento ativo, por acreditar nas suas potencialidades e tendo em vista, sempre, a melhoria da qualidade de vida. Numa sociedade inclusiva, como entendo que deverá ser a nossa, devem ser “dadas” oportunidades aos idosos. E na eventual ausência dos convenientes apoios formais, essas oportunidades devem ser “conquistadas”, a partir das bases, por iniciativa dos próprios. Há que cuidar da manutenção da saúde física e mental, como também de prolongar a autonomia e independência, mantendo ou recriando, cada um, os seus objetivos – bem pessoais –, de acordo com as suas tendências, capacidades e talentos.

Hoje, sinto que é isso mesmo que procuro fazer. Se apregoei a “aprendizagem ao longo da vida” e estive envolvido em projetos nacionais que tornaram isso possível a muitos cidadãos, hoje mantenho essa postura de entusiasta pela aprendizagem, apesar da minha condição de aposentado. Se o culto pela leitura esteve sempre presente na minha vida, hoje está mais do que nunca, pela minha maior disponibilidade. Tenho sobre a minha secretária dois livros, que vou intervalando na leitura, além da permanente consulta do dicionário. Um deles é “Um Cérebro Sempre Jovem”, de Tony Buzan, em que na introdução, pode ler-se algo surpreendente: Pare de pensar que cada ano que passa o aproxima mais dos seus terríveis “momentos seniores” (…). É um erro completo partir do princípio de que o seu cérebro se deteriora com a idade: existem dados científicos que o comprovam. A verdade é que tem de cuidar do seu cérebro, tal como qualquer outra parte do seu corpo, para o manter em bom funcionamento (…). Mantenha o seu cérebro ágil e em forma, e ele terá um desempenho tão bom quanto pretende. Conseguirá, de facto, ser capaz de o manter à prova de idade. 

Vi reforçada a perceção, que sempre me tinha acompanhado, de que deveria fazer um bom uso do cérebro, a começar por ter que o exercitar sem descanso. Foi nesta perspetiva que optei, há uns anos, por aderir ao “novo acordo ortográfico”, mesmo sabendo da discordância dos puristas da língua e de todos aqueles acomodados, pouco ou nada sensíveis a qualquer mudança, seja ela qual for, e do imenso investimento e embaraço pessoal que isso implicaria, para mim. Comprei um novo dicionário, com as palavras escritas “corretamente” segundo o novo acordo. Ao mesmo tempo, adquiri o livro “Saber Usar a Nova Ortografia”, de Edite Estrela, Maria José Leitão e Maria Almira Soares. Como sempre fui um homem de ação, escrevi, escrevi, escrevi… e de uma pessoa que estava numa posição confortável, passei a ser uma das “pessoas que são constantemente assaltadas pelas dúvidas linguísticas mais elementares” e pelas dúvidas relacionadas com a capacidade do meu cérebro, que aparentava perder qualidades. É esta uma das razões do aparecimento do meu segundo romance, que intitulei “O Milagre da Memória” (ainda não editado). E também do aparecimento do segundo livro, que adquiri e está atualmente, de forma permanente, em cima da minha secretária – “500 Erros Mais Comuns na Língua Portuguesa”, de Sandra Duarte Tavares –, que tem um curto e delicioso prefácio de Ricardo Araújo Pereira, e que aqui deixo um breve excerto: A minha profissão é escrever textos humorísticos. (Interpretá-los é apenas um acidente, muitas vezes na dupla acepção de acaso e desastre). O meu trabalho é escrever palavras num papel e esperar que elas façam rir alguém. Ou seja: tentar provocar uma convulsão física violenta noutra pessoa. Trata-se de procurar produzir em alguém o efeito das cócegas, mas sem lhe tocar. Os erros de linguagem, a menos que sejam propositados, dificultam-me a vida. Falar ou escrever com erros equivale, no meu caso, a beijar mal, ou a fazer cócegas que magoam. Por isso, junto da secretária onde trabalho, tenho vários livros de pessoas que me ajudam a parecer um pouco menos analfabeto (…). 

Mais uma vez, sinto – mesmo que conte apenas a intenção de me instruir e parecer “menos analfabeto” – que estarei no bom caminho. Sinto também que a minha ousadia, experiência e alegria de viver, como sénior, me está a dar um retorno fabuloso. Receber uma imensidão de mensagens e muitos telefonemas, por parte de familiares e de amigos, a felicitar-me em dia de aniversário e em que entro em força… na terceira idade, são entendidas como uma bênção – a de estar rodeado de amigos –. Fiz uns cálculos rápidos (lá está… é preciso exercitar o cérebro!) e cheguei à conclusão de necessitaria de cerca de 8 horas para responder a todas essas mensagens, caso gastasse 2 minutos com cada. Eu sei que "para os amigos há sempre tempo" (mensagem escrita num relógio de sol existente em Portalegre) e, aos poucos, levei uma semana a responder a cada um, e espero que a memória não me tenha atraiçoado. Foi mesmo um dia inesquecível. Com tantas amizades a felicitar-me – o que fez aumentar o meu bem-estar –, e com todo o meu empenhamento em dar bom uso ao cérebro, lembrei-me do programa de humor acutilante do Ricardo Araújo Pereira, que surgiu por altura da última campanha eleitoral para as Legislativas, intitulado “É Tudo Muito Bonito, Mas”. É que três acontecimentos neste dia de aniversário, em que tudo é [ou parece] muito bonito, mas há sempre um “mas”… tornaram mesmo o dia inevitavelmente inesquecível.

Caso 1 - Ao sair da garagem com o carro, estacionei por breves instantes no exterior. Logo a seguir, três “idosos” (provavelmente um pouco menos idosos que eu próprio), com ar quem vem à feira da cidade, mesmo que não seja dia de feira, olhavam insistentemente para a minha viatura e para mim, com um sorriso ainda mais enigmático do que a da Gioconda. “Devem estar a confundir-me com o anterior presidente da câmara”, pensei e sorri-lhes, o mais educadamente que consegui. Pouco depois, quando fui à mala do carro, descobri que tinha um dos pneus traseiros completamente em cima do passeio, excessivamente alto. Com é possível não ter dado por isso?

Caso 2 – Resolvi oferecer uma prenda a mim mesmo – um candeeiro flexível para a minha secretária, substituindo o bonito candeeiro existente, mas pouco prático –. Antecipadamente, tinha recortado um bocado do panfleto, com o produto, de uma conhecida cadeia de hipermercados. Não encontrando o produto, dirigi-me ao responsável de loja e mostrei-lhe o recorte, para que me dissesse onde o poderia encontrar. Olha espantado para o recorte e diz: “Mas hoje não é quinta-feira. Tem por trás alguma coisa do “Halloween”? – virou e tinha mesmo. Havia concordância, o que o deixa ainda mais confuso, e é então que se lembra de perguntar, como quem já sabia a resposta, e fê-lo com um sorriso semelhante ao dos citados “idosos”: “Bô… não me diga que guardou o jornal do ano passado?

Como é possível isto ter acontecido?

Caso 3 – Apesar de estar um céu muito nebuloso e escurecer mais cedo, resolvi passar o resto do dia em contacto com a natureza e fui até ao Parque Natural de Montesinho, onde se estava perante uma paisagem protegida, deslumbrante e incomum, pela arborização e tons ocre a castanho avermelhado das folhas, em pleno outono. Aproximando-se a hora de almoçar, fui à bonita aldeia (recuperada) de Montesinho, para um repasto com gastronomia regional. Como não via ninguém e o restaurante da aldeia estava fechado, dirigi-me à casa do Povo, onde me disseram: “Agora é tempo de castanha e eles foram por ela!”. Antecipo, mentalmente, o “como é possível?”. Sim, como é possível, uma pessoa com esta experiência de vida, acreditar que o único restaurante da aldeia estava à sua [minha] espera… em tempo de fartura de castanhas? Em vez de um repasto típico, numa aldeia transmontana bem caraterística, acabei no centro comercial da cidade (único sítio onde se poderia encontrar um “restaurante” aberto, de uma qualquer cadeia defast food) a comer um “calzone italiano”, já por volta das 16h30, o que representaria 17h30, se não tivesse havido a mudança da hora no dia anterior.

Dia inesquecível, a mostrar que estou em força… na terceira idade, e que, apesar de tudo, a minha experiência de vida valorizou, mantendo em alta o lado positivo.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

EU SEI, QUE O TEMPO NÃO PÁRA

GABRIEL VILAS BOAS
O tempo não voa, não corre nem está parado. O minuto sempre terá sessenta segundos, a hora sessenta minutos e o dia vinte e quatro horas. No entanto, sempre refutámos esta verdade irrevogável, porque ela é supinamente aborrecida. Talvez por isso passemos a vida a falar sobre o tempo psicológico, isto é, aquele que verdadeiramente nos interessa, aquele que discutimos, lamentamos, dizemos que é pouco ou muito, que passa depressa ou devagar.

São os nossos estados de alma que determinam a passagem do tempo que nos interessa. Nesse sentido falamos em aproveitá-lo ou desperdiçá-lo, como se ele não continuassem a transcorrer sossegadamente, imperturbável aos nossos humores.

Ouço frequentemente “Não tenho tempo”, no entanto ele é infinito. Todavia, não ter tempo para fazer determinada tarefa, exercer um cargo ou desempenhar um papel depende muito da gestão que fazemos das horas, dias, meses que todos dispõem.

É possível cumprir horários e prazos, não acumular serviço por fazer, deixar de andar constantemente a correr. É possível deixar de elevar o stresse ao limite. Basta uma boa gestão, com regras simples e eficazes.
O primeiro passo é estabelecer prioridades. Há tarefas que são mais importantes que outras assim como há aquelas que são objetivamente urgentes e há aquelas que devemos ter a coragem de rejeitar.

De seguida, há que ganhar o hábito de pensar a médio prazo, o que na prática significa planear horários, semanas, meses. Ser capaz de ter uma visão macro e micro das tarefas que certamente nos esperam, sem esquecer que há que descansar, divertir, corresponder a qualquer imprevisto, que as circunstâncias ou os outros por certo nos imporão.

No entanto, o plano poucos problemas resolverá se não aprendermos a calcular realisticamente o tempo que cada compromisso nos tomará, procurando sempre evitar atrasos. Estas aprendizagens demoram sempre algum tempo e implicam que mudemos alguns hábitos.

Anda em permanente stresse quem não delega tarefas e confia que os outros são perfeitamente capazes de dar conta do recado. Por outro lado, há tarefas inúteis que insistimos em realizar ou há muito devíamos ter eliminado. Decidir, escolher, confiar.

A gestão do tempo é também uma prova de inteligência. Nem todas as tarefas tem que ficar feitas com perfeição. Algumas têm simplesmente que se fazer e pronto. Outras há que exigem o nosso melhor: atenção, concentração, mais tempo.

É fácil cometer este erro, mas ele surge abundantemente. O perfeccionismo na hora e no sítio errado só atrapalha.

Depois há pequenos truques que esquecemos de aplicar: aproveitar os tempos mortos em que temos forçosamente de esperar, no médico ou na paragem do autocarro, para fazer tarefas obrigatórias como ver o e-mail é um deles. Outro é saber agrupar tarefas, pois essa atitude impede que algo importante fique por fazer ao mesmo tempo que não dispersa perigosamente o nosso foco.

Por último, um aspeto muito negligenciado, especialmente pelos pais: interromper quem fala connosco. Ele vai ter de recomeçar, certamente com pior humor, e algo importante na sua comunicação corre sérios riscos de se perder.

Saber gerir satisfatoriamente o tempo de que todos dispomos é uma sabedoria ao alcance de todos ainda que poucos a possuam.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

CORES DA INFÂNCIA

ANABELA BORGES
Creio que nunca nenhum lugar me será tão caro como o lugar onde nasci.

Eu nasci nas fábricas.
Entra-se num caminho com uma antiga guarita de um lado e a velha fábrica de laminados do outro, ali à tasca do Varejão, sobe-se primeiro e depois desce-se, sempre sem virar. É aí que se encontra a casa dos meus pais, aninhada no vale fundo, um pouco antes de se chegar à antiga linha de caminho-de-ferro, actualmente transformada numa moderna ecopista.
Quando alguém da minha cidade ou arredores me pergunta “de onde és?”, prontamente respondo “eu sou das fábricas”. Toda a gente da minha cidade e arredores sabe onde é.

E volto a ser a menina franzina de bochechas coradas, os olhos grandes e pardos, curiosos, e cabelos finos de melenas voando ao vento mesmo quando não faz vento.
Eu sou essa.

E corro: à venda da Lisinha, que está hoje desabitada, junto dos altos portões vermelhos das fábricas, a comprar um quilo de arroz para a minha mãe, um quartilho de vinho para o meu pai e cigarros para o senhor José.
Brinco pelo caminho. Tudo é oportuno para brincar, tudo está à feição para o efeito: bichos, plantas, paus, pedras, pneus, máquinas abandonadas das fábricas. Desperdícios das fábricas. Sim, desperdícios das fábricas sempre foram bons para brincar: serrim, fitas e folhas de madeira, pneus, máquinas abandonadas. Úteis desperdícios. As fábricas tinham desperdícios úteis para as minhas brincadeiras.
A dona Elisinha diz-me, “Estás muito bonita hoje, menina”, e eu faço aquele sorriso de orelha-a-orelha – aquele que faz com que a senhora diga a toda a gente que eu sou muito educada – e sigo, feliz, prestes a correr e a brincar, prestes a não perder tempo. “Vai lá, menina, vai lá”, a Lisinha a despedir-se, mas eu já sou de costas, o sorriso fofo que ficou com ela, os cabelos finos de melenas ao vento.
Volto para casa, corada. Entrego as coisas à minha mãe. Vou levar os cigarros ao senhor José. Recebo a gorjeta.

Podendo, vou novamente brincar.
Logo me chamam outra vez – menina de recados, “Belinhaaa!”.
Menina de recados, corada, veloz, que facilmente me perco com as coisas que, repetidamente aparecem no caminho, cada pormenor descoberto como novo, como diferente, um achado.
Desta vez, é para ir à venda da Isaurinha, que é hoje a tasca do Varejão, mesmo ao lado da velha guarita abandonada, buscar um quarto de broa e três trigos de cantos.
Lá vou eu a correr, os cabelos voadores e a saca de plástico, cheia de vento, posicionada, como asa, para trás do meu corpo.
A dona Isaura diz-me, “Estás tão crescida, Belinha, os teus olhos já olham por cima do balcão”, e eu olho-me de alto a baixo, espreito novamente para a Isaurinha e constato que é verdade, que, apesar de me pôr em bicos-de-pés, já consigo ver por cima do balcão. Peço-lhe uma chiclet do troco – por vezes, a minha mãe deixa-me – e poupo a gorjeta do senhor José para outra idêntica ocasião.
E vou embora, saltitando, cantarolando uma qualquer cantiga de brincar, ou alguma canção da moda, das que dessem na televisão ou se ouvissem na rádio.
Volto para casa. Entrego a saca à minha mãe.
Nem olho para trás. Breve, chamam por mim, para mais um recado, alguma coisa esquecida, que faça falta no fechar-se o dia – se fosse tarde, e a Lisinha ou a Isaurinha já tivessem fechado as grossas portas envelhecidas das suas vendas, nós chamávamos por elas e elas vinham atender-nos na mesma.

Olhando à distância, estão lá os lugares, mas são já outros, e as pessoas outras. Nunca serão as mesmas, as pessoas, nem eu.   

Corro, a livrar-me de mais um recado. Ou é isso, ou não tarda, chamam-me para jantar.

E eu ainda quero brincar.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

OUTONO: INSPIRAÇÃO OU DEPRESSÃO?

ALINA SOUSA VAZ
A diversidade do ser humano e as suas diferentes particularidades fazem-me, sem dúvida, olhá-lo com “olhos de ver”,… talvez seja da idade, é que isto a partir dos trinta tem, realmente, outro fascínio. 

O relógio bateu as 9 horas da manhã, e dou por mim naqueles 5 minutos antes de começar o meu dia planeado na noite anterior. Sentada no café, à porta de casa, observo o corrupio do entra e sai das pessoas que, normalmente, costumo ver por ali e, sepultada no meu silêncio, permito-me ouvir o zum zum do palavreado dos outros. O fascínio começa aqui: há pessoas que são uma beleza, outras, uma mão cheia de personalidade, muitas, um céu aberto de futilidade, e há aquelas que, todos os dias, são verdadeiros queixumes ambulantes! A estas últimas, não lhes consigo não achar graça, porque sei, que, apenas, não sabem olhar o mundo com outros olhos. Que podem elas ser, se nunca ninguém as ensinou a ser? 

Vivemos tempos difíceis e a realidade é dura! Não haja ilusões nos acordos empoeirados entre políticos. O que se está a passar é histórico no país, estejamos atentos, mas a esperança de ter uma vida melhor, apenas, está em cada um de nós. Eu também reclamo, óbvio: custa-me sentir que sou nova demais num sistema que não absorve as minhas habilitações, odeio sentir que não tenho oportunidades concretas, porque o meu pai não se vende a amigos de ocasião e esmoreço quando vejo o tempo a passar e o sonho a abrandar. 

Mas naqueles 5 minutos, por entre os queixumes, apercebo-me que há mil sonhos a viverem em mim e se um tende a demorar, há outros que já se personificaram e me transformaram no que sou, seja lá o que isso possa significar. E nesse preciso momento, percebo que necessitaria de outra vida para a realização de todos. 

As palavras dos que se lastimam parecem ter saído, todos os dias, das mesmas páginas do dicionário; crise, falta de dinheiro, o emprego não desejado, a doença, a dor, as birras dos filhos… e até o cinzento dos dias de outono são motivo de mergulho nas profundezas do que se não tem. 

Não há forma de passar pela vida sem problemas. A verdade é que para uns é mais fácil do que para outros, sabemos disso, mas, também, são os que passam pelas maiores dificuldades que se tornam mais fortes. A cura pode estar na forma como abraçamos o dia a dia; as coisas mais simples da vida são a força motriz que nos empurra a seguir em frente. 

Procuremos olhar a vida com olhos positivos, pois, muitas vezes, as dificuldades são criadas pelos muros que construímos à nossa volta. Em época outonal atreve-te a mergulhar na floresta mais perto de ti. Sente o cheiro das raízes profundas que se agarram à terra escura libertando a folha para mais uma regeneração do ciclo da vida. Sente a energia da mudança, inspira-te nos degradés das folhas caídas. 

Liberta-te do que te apoquenta e procura, também, a renovação da tua vida!

terça-feira, 3 de novembro de 2015

ILÍDIO SARDOEIRA - UMA QUESTÃO DE HERANÇA

REGINA SARDOEIRA
Sou sobrinha de Ilídio Sardoeira. E também, afilhada. Sobrinha, porque o meu pai, Luis Sardoeira, era o seu irmão; afilhada, porque ele foi escolhido para me nomear - e chamou-me Regina. 

Duas heranças decorrem, pois, destes simples factos, inscritos na minha génese como pessoa: a primeira, biológica, a segunda, social. 

Antes de perceber a primeira, fui muito sensível à segunda. Saber que o meu padrinho era um ilustre professor e escritor que me atribuíra este nome cheio de simbologia - eu sempre soube que Regina é o mesmo que Rainha - constituiu, na minha infância, um orgulho e um privilégio. Devo-lhe, pois, esta herança onomástica e a obrigação que senti sempre, de mim para mim mesma, de fazer jus ao nome que ele me outorgou. 

Esteve quase sempre longe, quando eu era criança, e trocávamos cartas, amiúde. Essas cartas (costumava pedir-lhe que as escrevesse à máquina, dada a relativa ininteligibilidade da sua caligrafia) ressoam na minha memória. 

No primeiro ano do ciclo preparatório (assim se designava, na altura, o ano que marcava a saída da escola primária e a entrada num universo mais amplo de matérias e professores), no primeiro período, fui menos bem sucedida a Ciências e a Desenho. E ele, mestre da efabulação pedagógica, comparou as minhas aprendizagens às da sua cadela, cujo nome esqueci. E dizia: "Com as suas quatro patas, curtas e desajeitadas, posso aceitar que ela não tenha grande facilidade em desenhar. Mas quanto às ciências, não lhe encontro motivos para não melhorar!" 

Soube, na altura, que não teria desculpas. Afinal, apesar de poeta, o meu padrinho era um homem da ciência: não me era lícito desiludi-lo! 

Creio que as minhas vitórias nos primeiros anos da vida escolar foram também uma espécie de herança, pois, tal como ele, acabei enveredando por áreas múltiplas do saber, ainda que não tivesse consciência disso, durante muito tempo. 

Um dia, veio a apoteose do meu sucesso escolar; e, numa festa de família, em minha honra, ele discursou, declarando: "Estamos aqui, este ano, para festejar o teu triunfo; espero que não tenhamos que voltar cá, para o ano e desfazer a festa!" 

O meu sentido da responsabilidade ficou refém desta mensagem. E, quando fui brindada com alguns desaires escolares, as palavras dele ecoavam no meu cérebro: "oxalá não tenhamos que vir aqui de novo para desfazer a festa"...e porfiava por conseguir estar à altura do elevado padrão do meu nome e de tão ilustre apadrinhamento. 

Visitava-o muitas vezes. Conhecia-lhe a sabedoria enciclopédica (eu dizia que falar com o meu tio era o mesmo que folhear vários livros), gostava de me passear pelos títulos da sua vasta biblioteca e, sempre que permanecia na casa dele por mais que um dia, ficava num quarto repleto de estantes, por sua vez, repletas de livros, entre os quais me sentia reconfortada. E era extremamente agradável acordar numa casa recheada de arte, de beleza, de cultura, onde conheci sempre animais de estimação - o meu tio nunca teve filhos, mas projectava nessas criaturas a sua afectividade... e ensinava o periquito a falar, permitindo-lhe que voasse pela casa e observando que ele não fugia, entrando livremente na gaiola quando queria comer ou beber e levava o boxer, Robi, ao Café Mucaba, partilhando com ele o açúcar - ouvir a música sempre suave, sempre emanando acordes subtis, num apelo franco ao deleite e à criação e saber que o homem da casa se levantava cedo e dava os seus passeios e depois se dedicava ao trabalho intelectual, em estreita partilha com a companheira da vida... Simples, não é? Mas de simplicidade se foi fazendo a vida deste homem modelar e são dele estas sábias palavras:

Não sei coisas difíceis 
Nem as faço nos versos, com palavras. 
Difícil é ser simples
E é vestir as coisas de tal jeito
Que quem as veja, julgue que são nuas. (Ilídio Sardoeira, Poemas, Edições Gaivota, 1952)

A compreensão da outra herança, a biológica, aquela que me diz que partilho com ele o sangue, chegou muito mais tarde e nada, nessa consanguinidade, tem a ver com traços fisionómicos ou estrutura corpórea. Sinto-a, isso sim, no modo como encaro a profissão que acabei por seguir, sem o ter desejado, à partida, no fluido que perpassa de mim para os alunos e me tem tornado referência: ele também foi deixando marcas indeléveis pelas escolas do país e eu soube -o, exactamente, quando, em 1990, fiz parte da equipa que o homenageou. De todos os pontos do país, desde o continente até aos Açores, surgiram antigos alunos a querer dar testemunho do legado do mestre, pessoas pela vida de quem ele havia passado há décadas e contudo sentiam ainda em si o sortilégio das aulas, onde ele pontificava, qual alquimista.

Nunca assisti, de facto, a uma aula do meu tio, Ilídio Sardoeira, mas vislumbrei o sortilégio. Fui muitas vezes visitá-lo, ansiosa por ouvi-lo discorrer, querendo respostas para um tropel de questões e sentindo que elas poderiam vir-me desse homem sábio, afável e discreto. Muitas vezes, movida por um entusiasmo incontrolável, chegava junto dele e, depois do seu cumprimento ligeiro (olá rouxinol!), quando lhe dava conta do que ali me levara, especificamente, percebia que era eu quem mais falava, enquanto ele me escutava, pacientemente, com um meio sorriso benévolo. Quando me ia embora, reflectia: "Estive ali duas horas, fui lá para ouvi-lo e, afinal, falei quase sempre!" 

Sim, ele tinha esse dom raro: sabia ouvir, não abafava o pensamento e a voz dos interlocutores com a altitude do seu conhecimento, sabia sondar e fazer emergir, do fundo da mente, o solilóquio ancestral da sabedoria. E os verdadeiros professores são esses, todos esses que não sucumbem à oratória, à frase feita, ao chavão, e sabem trabalhar a mente fértil do discípulo que, na medida em que foi conduzido a si próprio, jamais esquecerá a lição. 

Percebo hoje que, ao meu modo, sou herdeira dessa vocação que testemunhei em directo, quando ele sabia ouvir e me conduzia com subtileza; percebo que travei, ao longo dos anos, uma batalha árdua com as mentes juvenis dos meus alunos, desbravando-lhes o terreno, quantas vezes rude ou pleno de rebeldia e auto-suficiência , e que, se ganhei batalhas, foi porque me ocultei, para que do outro lado rebentasse a seiva.  
Sou herdeira dele, do meu tio e padrinho Ilídio Sardoeira, não porque das suas palavras saíssem sentenças condutoras dos meus passos, mas porque o sangue nos uniu, deixando em mim a sua marca. 

Lembro-me de ter assistido a um colóquio sobre Teixeira de Pascoaes, em Vila Nova de Gaia, orientado por ele (sim, porque Ilídio Sardoeira foi um grande conhecedor do poeta amarantino que hoje cumpre o 138° aniversário de nascimento, o maior do seu tempo, e viajava pelo país em múltiplas efemérides, conferências e seminários acerca do poeta das Sombras) e de me ter parecido impossível, depois da peça de piano, magistralmente interpretada que abria o programa, haver lugar para qualquer deleite na comunicação do meu tio - por mais erudita que fosse. 

Mas depois ele subiu ao palco. 

Era de baixa estatura, tinha uma voz apagada (sofria de asma), não usava gravata, mas uma muito simples camisola de gola alta. Junto do piano, parecia prestes a sumir-se através do arcaboiço austero do instrumento. Porém, quando começou a desbravar, numa linguagem clara e exacta, os meandros sinuosos do poeta solipsista do solar de Gatão , o fascínio da execução da pianista começou a esbater-se, a esbater-se... até se desvanecer completamente. 

Havia muitos jovens na sala que, tal como eu, ali estavam para sorver a sabedoria do mestre e poder (quem sabe?) aceder à chave que abriria a fechadura e por fim a porta de acesso à compreensão do escritor. Foi esta a imagem que Ilídio Sardoeira utilizou - "Quero dar-vos uma chave para que possais, vós mesmos, entrar na obra do poeta" . 

Mas eis que, sentados nas filas da frente, uns homens, literalmente enfatuados e vestidos de fato, decidiram interromper o orador com fraseados pomposos, querendo (fui-o percebendo) retirar protagonismo ao homem do palco ou saltarem eles próprios para a ribalta. Ilídio Sardoeira, com o seu meio sorriso, entre o afável e o sarcástico, ia entrando no jogo que aqueles senhores urdiam contra ele, pleno da paciência que sempre o caracterizou. Mas os jovens, ali presentes porque aquele era o seu mestre e eles queriam aprender, percebendo o intuito dos velhos enfatuados, talvez sedentos do protagonismo que muito pouco interessava ao orador, não lhes consentiram as sucessivas interrupções, batendo palmas ruidosamente, sempre que um fazia menção de tomar a palavra, impedindo-o, por essa via de completar a intervenção, e reduzindo-os, por fim, ao silêncio, quando declararam: "Queremos ouvir o Dr. Ilídio Sardoeira, por isso estamos aqui, não sabemos nada de Pascoaes e viemos aprender!" 

Sim, também herdei dele esta espécie de destino. Eu, que ali estava, tinha cerca de 25 anos e evoquei, em puro espanto, a minha própria experiência de conferencista incipiente, quando algum tempo antes, aceitei falar de Nietzsche num colóquio e quase fui tragada pela inveja de um colega da faculdade, a querer protagonizar a sessão , a interromper -me constantemente com questões à revelia dos objectivos do programa . Pensei então, naquele momento, em que a assistência jovem arrasava o desplante dos enfatuados, que a simplicidade com que pode fornecer-se a chave para a compreensão de uma matéria, tida como difícil, seja Nietzsche ou Pascoaes, é negada e decerto repelida pelos académicos que querem ser obscuros, achando que isso é ser profundo! 

Evoco uma das obras do meu tio, intitulada A Origem da Vida, que não ousei ler durante muito tempo. Assustavam-me as fórmulas químicas, a linguagem científica que eu, crendo-me vocacionada para as humanidades, me habituara a rejeitar e, afinal, compunham o livro. Um dia, enchi-me de coragem, abri A Origem da Vida, e fui acometida de profundo espanto: a vida, nas suas fantásticas explosões originais, pulsava nas páginas amarelecidas daquele volume com o vigor turbilhonante dos inícios! As fórmulas, afinal, eram pedaços da poesia épica com que o pedagogo mostrava o vigor da evolução! 

Quando o reencontrei, depois da minha epifania, e tentei elogiar-lhe a obra-prima, eis que ele me interrompe o entusiasmo, declarando: "Oh, esse livro está ultrapassado, já há outras teorias..." 

A modéstia, essa lição que, finalmente, sinto que aprendi, extraída, a ferros, da minha arrogância juvenil, quando publiquei o primeiro livro e lhe chamei O Olhar do Leão, ostentando a minha fotografia, a negro, no centro da capa branca e achando que iria salvar o mundo, a modéstia brilhava no meu tio Ilídio Sardoeira no momento em que lhe ofereci o livro, deslumbrada comigo própria e o vi, sem perceber o que via, atirar o volume ao chão, realizando, no gesto, a crítica que eu merecia, de que talvez precisasse, mas que ele preferiu omitir. 

Os livros que escrevemos, eu e ele, não nos levaram aos píncaros da fama, não tiveram a promoção mediática de muitos best sellers medíocres; e eu vejo que também herdei do meu tio, Ilídio Sardoeira, esta tendência para ficar longe da ribalta, não querendo disputar, à cotovelada, nenhuma espécie de protagonismo. 

Não herdei do meu tio, Ilídio Sardoeira, um único bem material, não tenho um só livro da sua biblioteca, um disco da sua colecção de clássicos, uma peça das suas obras de arte, um móvel, uma jóia, um bibelot. 

Curiosamente, não estranho este fenómeno, não fico revoltada e nunca fiquei por saber que um homem sem herdeiros legítimos, de sangue, não tivesse dotado a sua sobrinha /afilhada, Regina Sardoeira, de heranças materiais, após a sua morte. Julgo percebê-lo. Também herdei dele esta capacidade de entender o inabitual. E regozijo-me por saber que ele quis ir mais além da convencional doação, na linha da consanguinidade, e dotar uma biblioteca e um museu do seu espólio, e, ao mesmo tempo, creio que, um dia, que ainda não chegou, neste ano e neste mês do centenário do seu nascimento, o véu será levantado para fazer justiça , por fim, àquele que nunca quis sobrepor-se, em vida, ao tamanho da sua estatura física.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

NOVEMBRO, 2

“...dia eleito da saudade”, assim lhe chamou o nosso querido e saudoso Poeta .

ANTÓNIO PATRÍCIO 
Saudade de vivos por alguém que partiu sem hora prevista e, acima de tudo, a mágoa e a impotência de não ter impedido essa partida. O homem vive envolto em espinhos de impotência perante a morte fria e cruel. Na sua impotência inventa desculpas, traça conjecturas, mas não consegue parar a marcha silenciosa e mordaz da morte. O homem existe para a vida e, perante a morte, sente-se um falhado. Desde que o homem tomou conhecimento de que era possuidor de memória iniciou o culto dos mortos, é certo, a princípio com ritos simples vindo, ao longo dos tempos, a aperfeiçoá-los, enriquecê-los e a torná-los cada vez mais dignos, honrando-se por ter vivido, na esperança de uma sobrevivência consoladora.

A estes ritos de veneração do corpo juntou-lhe exaltações ao espírito no sentido de aliviar e orientar uma nova vida, seja ela na presença do Pai, eterna e de luz, ou uma reencarnação terrena e efémera sujeita às mesmas contingências, vicissitudes e ilusões.

Mas, a morte, que à primeira vista parece ser uma coisa natural, assim como a vida, não o é. A morte como a vida não são coisas naturais. Para acontecer vida são necessárias uma imensidão de premissas todas imbuídas das mesmas intenções, procedimentos e princípios e, ainda, a aceitação suprema da Mãe Natureza. Quando a morte acontece assiste-se precisamente ao oposto, excepto no que diz respeito ao consentimento da Força Superior – Mãe Natureza – que, queiramos quer não, nos suporta como passantes usufrutuários dos benefícios terrenos.

As saudades que os vivos comungam pelos mortos vêem-lhe destes momentos terrenos e são tanto mais fortes quanto mais acentuados são os laços de sangue, a vivência e a convivência. E, o homem, chora estas perdas em cupiosas lágrimas que gelam ao bater nas pedras frias e silenciosas das sepulturas, moradas terrenas dos invólucros do espírito.

As preces, mais ou menos em surdina, enchem os espaços e os soluços provocados pela comoção calam as palavras e, os olhares, falam mais que as línguas. As flores, as mais variadas flores, vão-se desfolhando consoante o Sol as abrasa, a brisa passa ou as bátegas da chuva as castiga. As lamparinas tremeluzentes afogam-se na sua própria lava e partem, elas também, para uma morte lenta e não anunciada. As estrelas juntam a sua luz ao luar e, devagar, vão envolvendo o tempo na frialdade marmórea de um campo onde a alegria não encontrou espaço e o silêncio é senhor.

É o Outono, na sua faceta misteriosa, que chora a dor e o abandono ao som de sinos badalando sonoras notas desoladas lembrando ao homem quanto efémera é a sua permanência sobre a terra. É a voz do vento, soprando entre pinhais e penedos sonhos, amores e desamores, sussurrando ao homem a sua sina: - És pó...
São os vivos a perderem a máscara da sobranceria e a tomarem consciência da sua pequenez e da sua igualdade nos sete palmos e meio da sua residência eterna.

Saudade, dia da saudade, em que os vivos choram tristes e desolados a morte e, os mortos sorriem, entre batalhas de flores, homenageando a Vida.

O ESCRITOR E O DESTINATÁRIO

Vamos partir de uma obra erótica, seja romance ou poética, escrita num estilo aceitável sem ofensa à moral pública. E perguntemos ao autor que se propõe escrever a obra o que deve ter em mente:

· Distrair o público, interessá-lo, ganhar dinheiro ou atingir a fama?
· Quanto a interessar o público, seria preferível o "sim" ao invés do "talvez" para o distrair; quanto a ganhar dinheiro com a obra, tal só será conseguido se prender o público a si, interessando-o pela leitura. Quanto ao ficar imortal com a obra, é sempre uma incógnita.

Eis o eterno problema sem resposta a estas inquietantes perguntas!

ALVARO GIESTA 
Quem escreve tem que ter em mente que o mais importante é interessar o leitor. Seja em que tempo for, sem o sujeitar a modas e sem impor ao leitor o seu gosto pessoal; seja hoje, amanhã ou daqui a cem anos. Há por aí muitos que dizem que, quando escrevem, para si próprio o fazem. Nada mais falso. Quem escreve, escreve sempre para o outro, para o destinatário que pretende sujeitar a si sem o subjugar, ainda que temporariamente, sem o diminuir, escravizando-lhe a atenção para que lhe gabe a escrita ou, doutro modo, escrevendo à medida do leitor que pretende lisonjear, recebendo, como moeda de troca, igual galhardete. Se assim for, diminui o leitor comum que o lê e desprestigia-se, a ele, como escritor. Se assim for, apenas ao "seu leitor", que o bajula, interessa o "produto" que lhe impinge, rejeitando-o o leitor inteligente e criativo.

Quando o leitor comum, e não aquele "seu leitor", abre o livro que tem nas suas mãos e se dispõe a lê-lo, não é a ele que compete decidir se o vai ler até final. Não. É ao escritor, ao autor que lhe compete levar o leitor até ao termo do livro, através da sua arte de escrita.

Aqui, na acção do autor que talha o objecto da sua arte, é que difere a boa leitura da má. Mas, os leitores também têm algo muito importante a dizer no seu acto de leitura. E é isto que faz com que haja muito mais literatura má do que literatura boa.

Note-se que ao dizer que o autor tem que sujeitar o leitor a si pela maneira como o conduz no enredo da escrita, nada tem a ver com ditadura. O leitor tem sempre o direito de escolha e de oposição. Tem sempre o "poder" de poder dizer se aquele livro lhe serve ou não, lhe agrada ou não, o prende ou não à leitura. E compete-lhe abandoná-lo no primeiro contentor do lixo que encontra ao dobrar da esquina. É o papel ingrato do escritor que não tem como cobrar ao leitor o seu acto de rejeição. O escritor está sempre amarrado de pés e mãos ao leitor. É o escritor que é prisioneiro do leitor que deve ser bom leitor, inteligente e criativo leitor, que deve comprometer-se, com honestidade, com a sua boa leitura para não enganar aquele que escreve mal (muitas vezes que se diz seu amigo do peito) fazendo-o pensar que é um bom escritor, o que não acontece em mais de 50% dos leitores.

São eles, esses maus leitores, muitas vezes com responsabilidades académicas pelo "canudo" que dizem ter defendido em tese universitária e prémios que ostentam dizendo ter recebido, também empurrados pelos negociadores editoriais para uma crítica baralhada que mal sabem fazer embrulhando o que leem do autor em frases curtas "tipo mensagens por telemóvel", a dar-se a si próprio a sapiência que não têm, que trazem enganados os maus escritores, dizendo-lhes que "são bons" enquanto lhes interessa aos fins que têm em vista. São esses maus leitores que fazem proliferar a má literatura, são esses maus leitores que fazem com que esses maus escritores nunca cheguem a ser os bons escritores merecedores de figurarem nos anais da literatura. E isto porque os críticos literários, aqueles que honestamente, e eu sublinho o termo, honestamente, desempenham o seu papel, é que são os decisores da verdadeira opinião.

Parece evidente que quando eu me comprometo fisicamente com uma leitura de um bom livro, dificilmente me separo dele. E, se o faço, por momentos e por várias vezes durante o processo de leitura, logo o recomeço, porque esse fio condutor, entre criador e leitor, se se perdeu, foi por uma das duas razões: por qualquer situação alheia ao processo de leitura ou para parar em análise e meditação a que o enredo me conduziu, na certeza de que, recomeçando, voltarei a parar mas sempre no tempo de quem me parou. O tempo do autor. O tempo do criador da obra que me prende a si.

Se, contudo, a obra é uma mera especulação sem interesse, é um "produto" que o escritor me pretende impingir, a mim, naquilo que ele me considera eu ser "consumidor", parcialmente me comprometerei com ela numa análise superficial e breve a deixarei ao abandono no seu espaço menos útil das minhas prateleiras, ou dela farei oferta à biblioteca do bairro que alimenta, apenas, curiosidades de leitores de ocasião.

O escritor, se quer merecer o título de verdadeiro escritor, deve exercer sobre o leitor um sem número de impressões variadas mas, sempre, de resultados positivos. Nunca procurar produzir no leitor emoções negativas nem embaraçosas para que ele não feche o livro a meio do mesmo e o abandone de vez.

O escritor devia prever, na sua arte da escrita, a possibilidade de causar impressões boas ao leitor. E eu digo: na sua arte de escrever. Objectar-me-ão, e sei que há muitos escritores que o farão, que as verdadeiras obras de arte se fazem sem cálculo previsto; que é o instinto criador que prevê sem necessidade da razão prever o que julga ser imprevisível e imponderável; que a verdadeira obra de arte é feita sem dela haver, previamente, consciência formada. Pois, será. Mas eu creio que um bom escritor não é o génio que escreve febrilmente sob a ordem das Musas; tão pouco será aquele que improvisa, de qualquer modo, em qualquer tempo e em qualquer situação ou lugar, a obra que o vai tornar célebre. Até escreverá sob a inspiração das Musas ou dos Deuses, se bem que eu não acredite em tais divindades. Até escreverá febrilmente, produzindo com facilidade e sem retoques o que escreve, mas o cálculo, a arte e o método têm sempre uma palavra a dizer.

domingo, 1 de novembro de 2015

SANTÍSSIMA TRINDADE

MIGUEL GOMES
Não irá longe a alvorada agora que comecei a sonhar. Meti pés ao caminho, com permissão deste último, sem me preocupar com o lodaçal típico do pré-Inverno, nem tão pouco se os passos respeitavam ortografias recentes, não fosse eu visto a caminhar sem a permissão de caminhar segundo regras por quem deseja que nossos passos sejam todos iguais.

Creio ter atravessado três longas rectas e já na nona curva sentia-me prestes a encontrar uma quarta, recta. Embora não a soubesse ali, chegava-me aos sentidos o forjado percurso de quem marca hora com o destino e este se atrasa. Cabendo-me pouco mais e, em verdade, pouco menos, que a basicidade vital com que me brindo a cada passado, um pouco arqueado pelo peso da leveza do ser, vou na esteira de uma urze enquanto me lembrar que por detrás dos meus olhos moram a violeta claridade de versos e personagens que, creio, moldaram as mesmas suas vidas por entre linhas condenadas a serem escritas.

Não se cansa o cansaço com futilidades. 

O que ele deseja agora é descansar, talvez encostado a uma meda de feno, cobrir-se de colmo e adormecer com o olfacto carregado de rememorações prazerosas ondem cabem, ainda, outros corpos habitados por mais audazes espíritos que a vontade saloia de alimentar o corpo, cirrosar o fígado, cobrir as peles com peles de outras sebes e orlar a existência com uma aura resplandecente de nada.

Ainda as estrelas bruxuleavam baixinho por respeito ao dia que se punha, já os caminhos pareciam abrir passagem para quem se quisesse ver percorrido por onirismos catalogados pela natureza e não pelo homem, porque este último sonhava apenas o que lhe diziam para sonhar e se algum, na certeza da coragem, ousava sonhar diferente, todos lhe diziam para esquecer tal pesadelo.

Faço uma pausa para me ajustar à invulgar compleição de quem por mim passeia.

Em palhas deitado, em palhas dormindo, o metamorfismo montanhoso parece aspergir sobre ele o calor que se solta das pedras antes que este se estufe nas altitudes da bolha gasosa que nos envolve. Dorme como um anjo. Na verdade, não sei quem dorme, se ele, se eu, convidado a escrever passagens de vidas que tenho minhas por serem de outros.

Dormindo à noite se prepara o dia que aí vem. 

Amanhã será dia de finados, de todos os santos, dos mortos e das vendedoras de flores em baldes largos de plástico, ladeados por colunas de velas de todas as cores e luminosidades. As portas dos cemitérios rangerão pouco habituados à procissão anual de assear pedras tumulares. Uma lápide básica terá apenas a pedra fina de granito toscamente trabalhado com uma inscrição em forma de coração, feita certamente com rebarbadeira em mãos destreinadas de polidor, e um bilhete em papel desbotado, dentro de invólucro de plástico com dizeres já apagados pelo Sol, ficando apenas o sulco que a caneta empurrada por punho trémulo deixou e o ainda gravado, tenho saudades tuas pai.

Vazios há muito, os cemitérios avivam-se para receberem a sensação de ausência que este mundo brinda a quem se julga mortal, voltam entes queridos partidos para afagar a saudade de quem por cá se julga imortal e ladeiam com o invisível amor todas as datas assinaladas pelos dias de partida.

Hoje sonhou que tinha estado no céu, que o céu não era o céu, e isso era o mais curioso. Sonhou que o feno onde se deitava era a penugem de uma fénix que renasceria não das cinzas, mas do ar fresco que a cristalinidade da sua inocência permitiria queimar, que o colmo que o cobre era na verdade a ausência que por breves momentos se fazia presente e o presenteava, de facto, com a implantação de pensamentos de dias vindouros que o permitiriam contornar dias e noites como simples estradas sem destino, porque o destino, sabia-o ele agora, apesar de dormir, é deixar de existir para poder Ser e isso, saberá quando acordar, fará mover montanhas e permitirá a omnipresença do indivíduo em todos os locais onde vai, mas onde não está.

Dorme. 

Eu estou quase a acordar. 

No amanhecer das minhas pálpebras, instantes antes de me saber neste mundo, novamente, reflicto na personagem sob o colmo, nas pessoas peregrinas da saudade, no mercantilismo da dor e na ocultação de uma verdade tida como mentira. 

Vou acordar sobre a fraga que vê, ao fundo, serpentear um fio de água onde desejo molhar os pés e baptizar-me novamente. 

E, depois, irei ajoelhar-me no chão, colocar as mãos na terra, fechar os olhos.

Perguntar-te-ei: - Porque te moves tu, montanha, pela fé dos homens? E sem que me respondas, pelo calor mineral que sobe pelas palmas das minhas mãos, ouvir-te-ei dizer: - Movo-me porque tenho fé nos homens.