quarta-feira, 21 de outubro de 2015

AMANHECER NO GERÊS

TERESA ALMEIDA SUBTIL
Ao despertar qualquer varanda é palco de contemplação, um convite à evasão dos sentidos: é o apelo da natureza, é a emoção que nos pendura sobre o verde talhado a várias altitudes, é a neblina matinal que nos toca num arrepio de madrugada. 

Não conseguimos ver o rio porque as árvores se lhe entregam e entrelaçam como se fora um romance de encantamentos. Não conseguimos vê-lo, mas ouvimos o seu palpitar impetuoso, o seu cantarolar entre os seixos que vai arredondando em massagens de corrente e vai fazendo caminho na direção de um destino infinito que lhe pertence. Talvez seja esta noção de movimento perene que nos prende ao momento, sabendo que a vida se vai fazendo de pequenos passos e, se não soubermos aproveitá-los, ficaremos com as mãos cheias de coisa nenhuma.

Pressinto um toque romântico que me eriça a pele ao reescrever a poesia do olhar, agora maduro, mas que - aqui - já foi tão verde como as folhas que teimam em manter a tonalidade primaveril ou como os veados que dominam graciosamente a paisagem e desfrutam de total liberdade. Passaram por mim tantas estações, alguns apeadeiros dissonantes, mas é gratificante redescobrir este bosque imaculado. E ao correr da pena deixo cair algumas gotas de orvalho matinal, este pulsar em que me sinto e confundo, como se fosse um pássaro que se enche de audácia e esvoaça para o sítio onde se sente feliz. 

As palavras são, assim, esse poleiro de assombros e evasões. É verdade que tropeçamos em estados de alma que nos dizem que somos muito mais que nós mesmos, que não cabemos no sítio onde estamos e, por isso, voamos - nas palavras. 

Embrenhados na serra, descobrimos fontes dispersas, pausas revigorantes. Há quem nunca esqueça as sedes da Guiné e vá abraçá-las e desfrutar do seio líquido da terra (a guerra gritará sempre na alma de quem a viveu). 

Atrevo-me a dizer que experimentamos uma subtil intimidade com a natureza no rumorejar que nos acompanha, eco de fios de água a serpentear por ali. Parecem tão puros como os sentimentos. Depois, nos meandros da objetiva, surgem azuis intensos, verdadeira alquimia de vida e de amor. 

Na serra do Gerês há partes selvagens e intocáveis. Ali a natureza é ela mesma em toda a sua biodiversidade. Sabemos que o parque nacional Peneda Gerês é considerado pela UNESCO como Recurso Mundial da Biosfera. 

De facto, é grande a variedade e a riqueza vegetal devido às variações de altitude e às influências oceânica e continental. A cabra, o cavalo e a vaca surgem soltos como companheiros de jornada. 

E, de repente, o Outono abre portas, tão lentamente, como se os deuses sussurrassem baixinho um poema escrito em requebros de beleza, um poema que é terra, que é alma, que é vida. 

No Gerês experimentamos, também, um sentido duro de existir, ao vacilarmos nas curvas onde o fragaredo se mostra na iminência de ruir. As penhas parecem empurradas, em desequilíbrio permanente, como um país a doer. E dizem que os demónios vociferam em cascatas alucinantes. 

Debruço-me nos miradouros e deixo-me enfeitiçar. Olho e ouço cantares altivos de montanha e esculturas cinzeladas de espanto.

Por aqui se respira e se entende a presença e a alma poética de Torga:

“Serra!
Há qualquer coisa que em mim se acalma,
Qualquer coisa profunda e dolorida
Traída, Feita de Terra e alma.
Uma paz de falcão na sua altura
A medir fronteiras!
- Sob a garra dos pés a fraga dura,
E o bico a picar estrelas verdadeiras.”

Parto com fome de voltar, para saborear a magia do amanhecer no Gerês, este desejo insubmisso de acordar em lençóis de neblina, em beijos humedecidos, nesta sensualidade a derramar-se à flor da pele. Parto com uma agradável sensação de leveza, sentindo em pleno o ser físico e espiritual que somos, em qualquer momento e em qualquer lugar.

PELA LIBERDADE DE LUATY BEIRÃO

ALINA SOUSA VAZ
As palavras que vos escrevo estão carregadas de emoção. Cada uma verbaliza o sentimento de admiração pela coragem e bravura de Luaty Beirão, jovem luso-angolano, de 33 anos, preso por ser considerado um ativista perigoso que preparava uma rebelião e um atentado contra o Presidente Angolano.

Contra este encarceramento, Luaty, está há 30 dias em greve de fome, por considerar que, como prevê a lei angolana, deve aguardar julgamento em liberdade. 

Apesar de ser considerado filho do sistema angolano, pois seu pai trabalhou para a Fundação Eduardo dos Santos, o ativista não aceita que um país como Angola, ocupando o 2º lugar de maior produtor de petróleo da África subsariana, deixe a sua população viver em estado de calamidade e tenha a pior taxa de mortalidade infantil do mundo. 

Luaty luta por esta urgência e por considerar que o Presidente e líder do MPLA, José Eduardo dos Santos, está há muito tempo no poder e que, sob a sua chancela, a filha Isabel dos Santos é a mulher mais rica de África, com 3,2 mil milhões de dólares.

A minha voz não é “poderosa”, mas tem sentimento consciente que chegue para me juntar a esta causa… de impedir que a luta de política do ativista faça dele um mártir da causa da liberdade e da justiça.

Admiro aqueles que, sem a dita máquina do sistema, conseguem erguer o seu trabalho e se fazerem ouvir. Admiro a força dos irreverentes cívicos! Admiro os jovens que não pegam apenas na cruz com a mão para a beijar, mas que a carregam!

LUATY BEIRÃO
DR Google images
Uma única pessoa pode fazer a diferença, quando um se levanta, vários o podem seguir.

Se tu acreditas, levanta-te!!!

Pela Liberdade de Luaty,

“Faças o que fizeres, junta-te a nós / Na tua área amplia a nossa voz / Mesmo que queiras jogar este jogo sem estar na linha da frente / agarra no papel e move mais gente/ Jornais, blogs, cartazes e panfletos / Daremos tanta luz ao caso e romperemos o medo/ Quando a injustiça se torna lei rebelião é um dever / Vem-te manifestar e contestar o poder”: Canção do poeta luso-angolano Bruce G, 30 anos.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

AMOR, MEU GRANDE AMOR


“Quando não conseguires vislumbrar a alma de alguém, afasta-te e depois regressa.” 

Boris Pasternak


Amor, amor, amor, o que é o amor?

Não há como responder, porque não há outra palavra para simbolizar o que, feito sentimento humano, estabelece uma ruptura feroz entre o conceito e a expressão.

Chamar-lhe-ia antes egoísmo, ou a necessidade de agarrarmos um outro, chamar-lhe-ia narcisismo, ou o desejo de termos um espelho, no qual nos víssemos sempre a nós mesmos, nos olhos do outro, chamar-lhe ia miséria, porque é carência de um outro, sem o qual nos sentimos meios, chamar-lhe-ia luxúria porque não resiste ao derrame dos fluidos carnais e ao apelo dos impulsos mais básicos, chamar-lhe-ia posse, porque desde que dizemos amar, acorrentamo-nos a outrem e obrigamo-lo a acorrentar-se a nós, chamar-lhe-ia loucura porque acreditamos que com o outro vamos conseguir a união perfeita, a simbiose, o encontro… ah o amor, que não o é, porque não resiste aos encontrões da diferença e da individualidade, ao aguilhão do despeito, à bizarra manifestação do ciúme, ao tédio dos gestos rotineiros, ao sorriso dos outros e à partilha, à distância do pensamento e do corpo… o amor que substituímos com a facilidade de trocar peças de vestuário, o amor que cantamos hoje a um e amanhã a outro, quantas vezes usando a mesma melodia gasta, o amor eterno que se esboroa nuns míseros dias, o amor verdadeiro que espeta, quando pode, a farpa da mentira no corpo do amado, o amor puro empestado de mesquinhos pensamentos recônditos, o amor elevado, enterrado dia a dia numa espécie de lama turva, o amor santificado e logo entregue aos poderes satânicos, amor viúvo, amor traído, amor encurralado, amor esquecido e violado, perdido e escorraçado…

Ah como eu gosto de olhar a face felina do meu animal de estimação e ter a certeza que ele não me ama e que tão-pouco o finge, porque não sabe, nem pode jamais aprender, a arte maldita da astúcia dos homens!

Não amam os felinos? E já discordo de mim mesma porque observo a atitude do pequeno animal que vive comigo e sinto que ela – porque é uma gata – me distingue. Sinto que há uma espécie de egoísmo instintivo pelo qual depende de mim e me procura – e nunca disfarça, quando quer de mim o alimento, e me olha com a intenção gravada nos olhos e nos gestos ou quando se refugia nos seus lugares secretos em fuga da minha presença, mas também não disfarça quando me procura para a aninhar-se e se encosta a mim numa intimidade cheia de afecto.

Por isso, foragida do amor humano, esse, que crava contínuas garras de insolência, perfídia e mentira na pele de quem se entrega, absolutamente, descubro o olhar terno desse pequeno ser e sei que ali, recôndita e decerto nunca desvendada, paira uma alma simples que nenhum contágio humano pode perverter.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

DAS PALAVRAS ÁCIDAS - QUANDO O BOATO IMPERA

“Com finas roupagens o boato infiltra-se, corrói, alicia, destrói e, impassível, constrói uma realidade palpável de factores intimidantes, dissuasores, opressores de variados sabores e diferentes cores.

Com fino trato ou calão, segue de mão em mão e cresce, cresce… até que encontra a companhia e enamora-se. Em simbiose perfeita congregam vontades, potencializam estratégias e o poder surge com fausto e espavento. Pobre em talento, é porque é. Assim fortalecido agride os diferentes. Colado à escuridão promete e tira o pão. Senhor do mundo espelha o terror.

Neste jogo do faz de contas vacilam os incautos, ponderam os tementes, ousam os fazeres do Boato. Em tal chinfrineira, quem toma a dianteira? O Boato? A Companheira? E viverão felizes para sempre?”

Martins de Sousa, pensador

ALVARO GIESTA
À guisa de crónica, fingindo estar a escrever para quem me (não) lê, que os de boa audição me escutam, recordo por vezes certas coisas que, com muita mágoa reconheço pecado e da “mea culpa” me penitencio, que indulto não peço.

Acodem-me à memória certas injustiças feitas, umas com maior razão que outras, que indignam muitos: os que não estão por dentro do que as motivou e ousam pronunciar-se, sem conhecer a realidade dos factos, posicionando-se sempre do lado de onde pensam poder tirar maior proveito movidos pelo interesse e pelo “habitué” da escova e graxa, mas também pela (má) influência de terceiros que, seguramente, só conseguem viver alimentando-se da intriga e alimentando-a com o seu próprio veneno de língua viperina e suja; e os que, não conhecendo esses reais factos, se calam, cobardemente, sem emitirem qualquer juízo de valor, mesmo que seja o mero argumento jurídico“in dúbio pró réu”, com medo da retaliação desses outros tão hábeis na condução de conflitos, quase contribuindo para a ajuda do esticar da corda que contém o laço, à volta do pescoço pronta a estrangular o nó de Adão do desgraçado que teve a desdita de se aproximar do fruto proibido. E à memória me assaltam, também, certas difamações caluniosas que, dia a dia, são o objectivo daqueles que delas se servem para vingar na vida, fazendo do atropelo do seu semelhante o seu“modus vivendi” para vencer, que de outro modo não sabem. Falta-lhes o saber ser com honestidade e verdade, valor que deveria ser herdado do berço que não tiveram à nascença.
Uns, com os seus gritos furibundos e na posse de (duvidosos) factores de opiniões e crenças, vertem o fel do boato que aguça o gume da maldade com vista a tornar-se o mais poderoso elemento do progresso humano. As suas paixões, poderosas, facilmente se tornam colectivas, e alteram, mais das vezes, a justeza das opiniões, impedindo de ver as coisas como elas são na realidade e de compreender a sua génese. Vestem-se de finas roupagens, imiscuem-se com o boato, que corrói, constroem dele uma (falsa) realidade palpável de factores dissuasores que intimidam e que oprimem.
Outros, por preguiça mental, inércia ou medo de retaliações, não cuidam saber da realidade dos factos, o que tem como principal inconveniente a conivência, tácita, da proliferação da injustiça, pois que, das opiniões baseadas em explicações erróneas e distorcidas, admitindo-as como verdadeiras e definitivas, não se atrevem a procurar outras. Porque, procurar conhecer entre o verdadeiro e o falso - fazer uso dessa faculdade com que o homem discorre, julga e se distingue dos outros animais -, dá trabalho e incomoda muita gente. Esses apóstolos ferventes e fervorosos do boato negam-se, à partida, a procurar a verdadeira verdade admitindo, como certas e válidas, as premissas falaciosas que lhes contam nas costas dos injustiçados. Tanto mais gravosos quando estes têm cargos de chefia e poderes de decisão.
E depois ainda há os restantes que se escondem cobardemente, por detrás da sombra que disfarça o medo e furta a coragem de vir à liça defender o justo. Porquê? Simplesmente porque lhes interessam ter um reino de medo, de calúnia e boato… simplesmente porque lhes interessam ter o rastilho que propaga o fogo e faz detonar a bomba… simplesmente porque também engordam do veneno que lhes corre nas veias… simplesmente porque se defendessem a verdade, ficariam rapidamente sem assunto para alimentarem a intriga. E os boatos crescem de tal ordem que acabam em verdade o que na realidade é mentira.

Mas pior que todos estes, são aqueles que com as suas palavrinhas de “putas mansas” inebriam, com o boato e a mentira, quem tem o poder da decisão e que, levados no canto da sereia, se deixam influenciar e decidem mal. Junta-se o fel ao veneno e transborda a taça. Coitados destes! São fracos chefes! Serão, no futuro e sempre, chefes de nível zero.

Se aos primeiros lhes falta a dignidade para se saberem guindar na vida pelo seu valor e, cobardemente, ferem e matam com o aço afiado e frio do boato e da calúnia, os segundos cavam a sua própria sepultura levados pelo canto inebriante da sereia que vomita a mentira, encoberta pelo veludo macio das palavras meladas e melodiosas da diva, pois à hora menos pensada“transforma-se o amador na coisa amada”. Estes, serão o Salvador Allende atraiçoados pela ambição política daqueles, os ditadores Pinochet, a quem o primeiro deu a mão. Resta a estes últimos, aos tais chefes que preferem o “ouvi dizer…” sem a coragem de por o dedo na ferida de quem a tem, o poder do padre que lhes ministre o sacramento da extrema-unção.

domingo, 18 de outubro de 2015

LETRAS NUM DOMINGO CHUVOSO

“Voltar ao que serei” 

MIGUEL GOMES
Volto ao que sou, deitado, com a luz do candeeiro como Sol, cabeça apoiada na almofada, revivendo alguma história à medida que as letras secam no papel. Tentei, já duas vezes em dias consecutivos, escrever no computador, mas não consegui. Preguiça? Talvez sim, talvez não. 

Aqui, neste meu novo caderno, estou mais perto do que pretendo, faltam apenas a chuva lá fora, as paredes de xisto, granito ou madeira, a luz trémula de uma vela, o telhado em madeiro ou colmo, as brasas a adormecerem na lareira apagada e uma manta de retalhos sobre mim.

Esta semana tive a oportunidade de andar pela Serra do Caramulo em trabalho, perdido em locais acessíveis apenas por veículos todo o terreno. Enquanto percorri, abaixado, as minas de água, pensava se seria capaz de morar por lá, onde o silêncio é o único som que se ouve. Passei por casas que, de casas ostentam apenas o nome, parecendo esquecidas do próprio tempo. De repente, uma senhora, não muito idosa, sai de casa com o cão atrás, daqueles cães que nunca souberam o peso de um cadeado ou o tecto frio de uma casota, seguindo em direcção a um retalho de terra, xistosa e saibrenta, cultivada onde apenas a insistência do homem, aquele com h grande, faz nascer uns troços de couves, batatas, cebolas, tomates, algumas vagens e pouco mais. Fico a olhar a senhora, ultrapassada agora pelo cão, sempre a farejar, como que confirmando que os mesmos cheiros de sempre não saíram de local. Imagino o que será viver assim, mas rapidamente volto à realidade ou pelo menos o que pensamos sê-la.

Creio que não deve existir nada melhor que trabalhar, labutar, dar forma a algo que não existia antes. Olho para as paisagens que me circundam e penso, para mim mesmo, porque seremos nós incapazes de tratar o planeta, ou pelo menos a porção dele que calcamos, como um jardim? 

Que valores desvalorizados se erguem acima da nossa própria sobrevivência e dignidade?

O que nos impede de amarmos o ventos, o ar que respiramos, a mão calejada que nos saúda na berma de uma estrada desconhecida? Quanto vale a vida? As vidas?

Vejo essa máquina aterradora cilindrar pessoas, daquelas que nos elevam ao que somos, inocentes, apenas porque não conseguem subir a bordo de um navio fadado para naufragar, ao qual chamam sociedade.

Andamos, na rua, neste empedrado irregular que é a incerteza das nossas vidas a cada manhã que adormecemos, vamos olhando para quem por nós passa, corremos também, seguimos os trilhos que todos seguem, corremos mais, cada vez mais, sem sabermos para onde, porquê, sem nos preocuparmos com as que caem, nem os socalcos onde uns tropeçam, sem aplanar o caminho, sem ter a humildade de saudar uma das muitas flores que a maioria pisa. 

Inspiro. 

Corremos lado-a-lado, quase de mão dada, corpos que se roçam sem se aproximarem, mãos que se tocam sem se entrelaçarem, sorrimos esgares disfarçados de sorrisos, para que o mundo saiba que sim, estamos felizes. Mas nós algumas vezes pensamos no que somos? No que queremos de nós, dos outros, do nosso jardim, das palavras que plantamos no coração das pessoas? Que ilusão é esta a que muitos pretendem chamar vida? Inspiro novamente.

Há algo de estranho no ar, a familiaridade com as nuvens, o espaço que respiro é o mesmo que alberga todos os sorrisos que florescem na noite, quando o corpo se desprende do corpo, há um caminho, um trilho antigo e agora descoberto, onde as lágrimas que brotaram floriram, sonhos que se julgavam adormecidos, uma estrada que nos leva ao cerne de nós mesmos, onde nos encontramos e onde todos os rios desaguam.

A senhora leva um braçado de cenouras, o cão deteve-se num cheiro novo, mas logo a alcança correndo. As chinelas negras levantam pequenas nuvens amarelas e o cão abana o rabo, como tantas outras vezes.

Imagino as couves, segadas, entrarem numa panela negra onde ferve água, aquecida numa cozinha com paredes de xisto e uma chaminé alta e escura. 

Em cada local que passo há sempre algo de mim que me saúda, que me deixa mais feliz, mais interrogativo, com ânsia de ser algo que descubro a cada dia, com o desejo de ir onde não estou, encontrar outras partes de mim em faces desconhecidas, mas familiares.

Já algumas vez pensaste se todos, sem excepção, fossemos família? Tolerantes, respeitosos, sem pejo em afagar o cabelo de alguém a quem a desilusão mordeu, sorrindo, acenando, abraçando corpos e almas a cada reencontro, perguntando com carinho “estás triste?” e fazer uma pequena careta apenas para ver nascer, numa cara entristecida, um sorriso?

sábado, 17 de outubro de 2015

MENOPAUSA NÃO É SINÓNIMO DE ENVELHECIMENTO

ANTONIETA DIAS
Menopausa é um dos ciclos vivenciados pela mulher que se caracteriza por um conjunto de sintomas e de transformações psíquicas, emocionais, fisiológicas e muitas vezes profissionais. 

Sendo certo que nem sempre faz parte dos momentos mais agradáveis para a mulher, havendo algumas que a aceitam como um fenómeno natural, estando devidamente preparadas e elucidadas das alterações que vão sofrer, outras porém enquadram esta fase da sua vida como uma série de eventos turbulentos e por vezes até a consideram traumatizante.

Porém, esta fase da vida não pode ser associada ao envelhecimento, porque as transformações cognitivas e morfológicas desencadeadas no corpo, na alma e na mente embora exijam uma adaptabilidade muito especial, representam só por si uma experiencia maravilhosa vivenciada pela mulher.

A menopausa é precedida de um período designado peri menopausa caracterizado por irregularidades dos ciclos menstruais, designadamente do fluxo e da periodicidade que podem durar cerca de um ano, até que se instala definitivamente.
Os afrontamentos "calores", experienciados podem variar desde 1 episódio por semana até cerca de 50 por dia e durarem aproximadamente 5 anos.

Os afrontamentos surgem em cerca de 75% das mulheres que os relatam da seguinte forma: "tenho suores, fico vermelha no rosto, durante a noite não aguento o calor na cama, irrito-me facilmente, quer no trabalho, quer no seio da família e choro muito mais". 

Relativamente às mudanças fisiológicas as perturbações na bexiga " sensação de ardência ao urinar”, micções frequentes sobretudo de predomínio noturno, são sintomas muito comuns.
A nível da pele e mucosas surgem sinais de envelhecimento, aparecem as rugas, a diminuição da elasticidade e consistência da pele, a pele fica mais seca, surgindo alterações dérmicas, nomeadamente o acne tardio, por vezes um prurido cutâneo e uma certa fragilidade vascular resultantes da diminuição dos níveis de estrogénios.

Também a distribuição pilosa se altera, manifestando-se pela presença de cabelos mais finos, mais enfraquecidos, com quedas mais ou menos acentuadas, enquanto que noutras zonas corporais podem mesmo proliferar mais, aparecendo no mento, no buço e regiões malares.
Por sua vez, as unhas tornam-se mais duras, mais espessa e mais secas, podendo até alterar a sua cor habitual.

No que se refere à mucosa oral podem existir alterações do paladar, fragilidade vascular, manifestada por gengivorragias, halitose, boca seca, hipersensibilidade às mudanças de temperatura ao calor e ao frio e por vezes perda de peças dentárias. 

A mastodinia (dor mamaria), descrita pelas mulheres como uma sensação de " seios mais sensíveis e edemaciados " tensão mamária”, são outros sinais transmitidos como eventos desagradáveis e que motivam o recurso à consulta medica, pelo receio de uma neoplasia da mama.

A nível do aparelho sexual, cerca de 50% das mulheres referem secura e prurido vaginal, devido ao fato das paredes vaginais se tornarem mais friáveis finas e secas perdendo a sua elasticidade.

O apetite sexual, a dispareunia (dores associadas à relação sexual), diminuição da libido são queixas muito comuns nesta faixa etária.

A perda anual de cerca de 4% da massa óssea, origina alterações nos ossos, nos músculos e articulações, sendo a osteoporose frequente na menopausa.

Um numero significativo de mulheres revelam mialgias (dores musculares), astenia, cansaço fácil levando a um quadro clínico caracterizado por perda progressiva da coordenação, da força muscular, perda da mobilidade articular e rigidez, criando a sensação de uma fadiga constante e um cansaço generalizado. 
Acrescem ainda as perturbações do sono (insónias), enxaquecas, dores de cabeça frequentes, alterações do humor, retenção de líquidos " sensação de edema, o aumento de peso e da tensão arterial por retenção de líquidos, consequência também das alterações hormonais.

Esta sintomatologia é precedida de uma fase de transição que surge por volta dos 45 anos ainda na passagem do período reprodutivo para o não reprodutivo que geralmente começa cerca de dez anos antes da menopausa.

A pré- menopausa é despoletada pela diminuição na produção das hormonais sexuais femininas, que são responsáveis pelas mudanças verificadas no corpo da mulher e por um certo encurtamento do ciclo menstrual que passa de 28 para 26 dias por exemplo, com posterior alargamento do intervalo dos ciclos menstruais e do aumento do fluxo.

A nível dos valores hormonais constata-se que quanto mais elevado estiver o valor da FSH, mais próximo está o período da menopausa na mulher. 

Recomendações destinadas a minimizar os efeitos desagradáveis deste ciclo de vida:
Estimular a prática de exercício físico, prescrevendo uma serie de atividades desportivas de acordo com as preferências da mulher, sendo que o tempo por cada sessão não deverá ser inferior a 30 a 45 minutos dia, cujo objetivo é manter um bom tónus muscular, a manutenção do peso e o fortalecimento ósseo, minimizando o risco de osteoporose.

Com o envelhecimento o volume muscular diminui e é substituído por gordura, o metabolismo torna-se mais lento e surge um acréscimo de gordura que se deposita principalmente na região abdominal, beneficiando também com a prática desportiva.

A nível alimentar, deve-se estimular a mulher para a necessidade de usar diariamente na sua alimentação sementes de linhaça, aumentar o consumo de cálcio e outros alimentos como soja, peixes e legumes. 

As bebidas alcoólicas, o café, devem ser evitadas, reduzir a ingestão de gordura, dos açúcares e aumentar as quantidades de água ingeridas ao longo do dia são hábitos saudáveis e muito importantes nesta fase da vida da mulher.

A mulher deve ter alguns cuidados com a sua beleza, cuidar da pele dos cabelos, das unhas, evitar produtos à base de queratina e fazer suplementos de colagénio para manter a pele e as articulações firmes.

O uso de terapêutica hormonal de substituição foi muito usado, mas atualmente não é aconselhado, apesar de minimizar os sintomas da menopausa. 

Podem ser prescritas isoflavonas da soja, nutrientes vitamínicos, dieta rica em fruta e vegetais e reforçar a alimentação com alimentos ricos em cálcio e vitamina D, como o leite e derivados, sardinhas, leguminosas, cereais integrais e legumes de folha verde. A quantidade de ingestão de sal e proteínas, deve ser diminuída assim como se devem evitar a ingestão de bebidas alcoólicas e café, pelo risco cardiovascular e de cancro da mama.

A exposição solar diária de pelo menos quinze minutos por dia ajuda a repor os níveis de vitamina D.
Andar a pé subir e descer escadas são também práticas diárias que devem ser fortemente incentivadas.
Outra recomendação que deve ser feita à mulher é que evite estar muitas horas sentada, que mantenha atividades desportivas três vezes por semana, sendo preferidas as que exijam fazer carga (corrida, dança musculação durante 30 a 45 minutos para preservar a massa muscular, a manutenção do peso, estimular a força óssea e reduzir o risco de problemas cardiovasculares.

Afim de reduzir o risco de incontinência urinária e fortalecer a musculatura pélvica deverá ser aconselhada a fazer exercícios que produzam a contração muscular durante cinco segundos e relaxando durante outros cinco segundos.

Estes exercícios deverão ser realizados ao longo do dia em séries de três e devem ser feitos dez exercícios por dia. 
Os estrogénios tópicos aplicados duas a três vezes por semana, diminuem o desconforto vaginal, provocado pela secura e permitem uma atividade sexual normal.

Em suma, a menopausa não deve ser vivenciada como o período de envelhecimento do corpo da mulher, mas sim deve ser entendida como mais um ciclo de vida da mulher enriquecido por parâmetros de beleza, de fortalecimento e intervenção social. 

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

SOMOS O QUE COMEMOS?

"EXPERIMENTAÇÃO DE SUSHI, POR GABRIEL VILAS BOAS"


GABRIEL VILAS BOAS NA FEIRA DO CHOCOLATE
Somos aquilo que comemos?

A alimentação é um elemento estruturante da nossa vida, mas está longe, na minha opinião, de ser o mais decisivo.

É verdade que a alimentação se tornou num dos sete pecados capitais dos tempos de modernos e, por conseguinte, numa fonte de preocupação para milhões de pessoas, quando as opções erradas de todos os dias puseram a saúde em perigo.

Gordos, muitos gordos, diabéticos ou anoréticos perceberam claramente quanto a alimentação determina o seu estado físico, psíquico, emocional e a sua autoestima. Pensarão, várias vezes, com algum pesar, que se tornaram naquilo que comeram ou ainda comem, como se a comida fosse uma espécie de prisão que os torna infelizes. Quando recuperam o seu bem-estar e equilíbrio físico e menta, graças a alterações estruturais na sua forma de se relacionar com a alimentação, continuam convictos que “são aquilo que comem”, só que agora com um sorriso na face.

No entanto, esta ideia está longe de ser partilhada por uma larga maioria de pessoas para quem a comida evoca sentimentos bem diferentes.

Antes de mais, comer é uma fonte de prazer que muitos conseguem desfrutar sem danificar a saúde; para outros, uma oportunidade de conviver ou fazer negócios; há também aqueles que tornam a comida campo fértil para vivenciar experiências únicas e exóticas. Há quem viaje através dos sabores do mundo.

Talvez estes também possam dizer: “Somos aquilo que comemos”, mas seguramente estão a atribuir à frase um sentido bem diferente daqueles que queimam penosamente calorias no ginásio.

Acho muito interessante termos a noção de quanto uma boa ou má alimentação pode marcar profundamente a nossa vida por longos anos, mas está unicamente nas nossas mãos determinar o papel que lhe cabe.

Não gostaria nada de ser conhecido por aquilo que como. Sou muito mais do que isso!

Apraz-me a ideia que tudo aquilo que saboreio é tão-somente um parceiro misterioso que me ajuda a descobrir os recantos maravilhosos da vida e não um déspota que a comanda.

Como em tudo na vida, os erros repetidos e acumulados deixam-nos cada vez menos opções válidas.
A comida exerce sobre nós um fascínio irresistível, mas não admite erros!

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

MULHERES DA ALDEIA

Van Gogh pintura a óleo duas camponesas a tirar batatas

HELDER BARROS
Estávamos nos anos oitenta, em Mancelos, na Gateira, na Quinta da Aldeia, e Luísa era uma Mulher fora do comum. Vivia sozinha, nunca casou, só com os seus gatos, cães, ovelhas, coelhos, porcos e galinhas. Numa casa muito velha, típica das aldeias de então, onde predominava o granito e a telha vermelha típica, vivia Luisinha, como eu a gostava de tratar, com os seus animais, para ela a sua única e verdadeira família... de resto, não conhecia outra. Trabalhava à jornada, ou à jorna como ela dizia, em casa da minha avó, Casa da Aldeia, e noutras casas, designadamente, ajudando os caseiros das diferentes quintas, em troca das refeições e de alguns víveres.

Andava sempre descalça, pés rijos como solas e gostava de beber um copito. Este era o seu único vício que paulatinamente se transformou numa dependência. A imagem que tenho dela é a de uma mulher vestida de negro, com vastas rugas resultantes de uma vida difícil e solitária, com cestos de fruta à cabeça, ou com uma enxada ou forquilha em cima dos seus ombros.

Cozinhar mal sabia, pois o que gostava era de trabalhar na terra, ao ar livre, não ficando atrás de qualquer homem, no que diz respeito, à força e ritmo de trabalho, fosse este qual fosse. Tinha uma relação estranha, pelo menos do meu ponto de vista, para com os animais. Parece que estabelecia uma linguagem própria com estes, dado que na sua relação com eles, o entendimento de todos era quase perfeito. Se fosse preciso ajudar uma vaca a parir, lá vinha a Luisinha cheia de coragem, com a sua forma sui generis de acalmar e de lidar com os animais. Quando estava em casa os animais andavam atrás de si, como se ela fosse um deles. Apanhava cobras à mão e dava-as às galinhas para estas as comerem, só funcionava como e para os seus animais, vivendo com eles, quase vestindo o papel de um deles… afinal, só os animais a compreendiam e estimavam verdadeiramente a sua companhia…

De quando em vez, ia à missa, mas dizia que não a entendia... nunca estudou, foi abandonada em pequena e a aldeia tratou de a acolher e ajudar. No entanto, dizia em tom quase profético que o mundo estava perdido e que devia estar para acabar, pois as pessoas não viviam como os animais. Tinha medo de trovoada, por isso invocava recorrentemente a Santa Bárbara. Gostava muito de crianças, talvez por estas falarem mais à sua alma e ela as entendesse melhor, por isso gostava de se meter comigo e soltava sempre uma boa e alegre gargalhada, quando eu fazia as minhas traquinices.

Próximo do final da sua vida, a minha Mãe tentou junto da segurança social que ela fosse internada num lar, pois estava doente e vivia em condições muito complicadas. A sua cama era de mato, pois se lhe dessem um colchão queimava-o na lareira, era assim que estava habituada a dormir. Quando a minha Mãe e os técnicos da segurança social se dirigiram à sua casa para conversar com ela, esta não contente com o rumo da conversação, correu toda a gente à pedrada, acabando por morrer no meio dos seus animais e sem a presença de ninguém. Os vizinhos que costumavam lá passar para lhe darem a alimentação diária, encontraram-na morta, com os animais muito tristes, resignados e órfãos da sua protetora.

Bem sei que esta é uma história triste, um retrato negro das mulheres rurais, mas foi uma pessoa que me marcou pela sua forma de ser rebelde e quase selvagem... afinal a vida tornara-a assim. Se era feliz à sua maneira, não o sei dizer, apenas recordo o seu sorriso feliz sempre que me via. Uma pessoa amiga de animais e de crianças, que se contentava com as pequenas coisas da vida que nos fazem felizes e que a maioria das pessoas banaliza, deve viver pacificada com o mundo. Ficou alcoólica, o que poderia ter sido um refugio, se calhar para a sua infelicidade, mas no convívio que tinha com os outros, o vinho era uma partilha quase obrigatória e deveria aquecer aquela alma solitária. Tornou-se relativamente comum, para ela, beber com os outros, desde tenra idade, em que já estava só e que já trabalhava como jornaleira.

Não possuía documentos e não se deixava fotografar, pois tinha medo que a máquina fotográfica lhe roubasse a Alma. A Luisinha apareceu na aldeia em criança, abandonada por uma mulher pobre e quando faleceu desapareceu na sua campa rasa, pois nem uma fotografia, nem qualquer documento identificativo, deixou para a posteridade. Há vidas que parecem castigos supremos dos Deuses; encarnações de seres que só conhecem a dor da solidão, da miséria e da incompreensão dos outros. Pessoas que se recusam a estar registadas em papeis, que lhe não dizem nada...

Um exemplo marcante de uma mulher rural, profundamente ligada à terra e aos seus ciclos, que estranhava a vila e a cidade, onde se sentia perdida e deslocada. Para mim ficou o seu sorriso fácil e a gargalhada em resposta às minhas traquinices. Queria morrer com os seus animais e na sua pobre casa; estes eram os seus amigos mais chegados e que melhor a compreendiam e estimavam. A minha Avó sempre lhe ofereceu um quarto confortável, mas ela repetidamente recusou: “tinha que tomar conta dos seus animais”. A felicidade é um estado de espírito muito difícil de alcançar e muito volátil e há tantos que em muito não a conseguem e outros tantos que em pouco a alcançam, embora de forma sempre relativa e momentânea.

Luisinha, jaz agora numa campa rasa do cemitério de Mancelos, que nada tem que a identifique, mas afinal não foi sempre assim que quis ou foi obrigada a viver e a morrer?... ou melhor dito; a vida ensinou-a a ser assim, quase no limite do selvagem... quem sou eu para a julgar, quando a vida a colocou sempre no lado mais difícil, precário e solitário que possamos, hoje em dia, sequer imaginar. Em comparação com os dias de hoje, a Luisinha seria como que um sem abrigo urbano atual, mas na aldeia, em que as pessoas recusam os normativos sociais, votando-se a uma vida em contracorrente e a um abandono total do seu ser.

No dia internacional da mulher rural fica aqui a homenagem a uma Mulher que viveu da terra, com a terra, e, sempre, sem medo do seu peso...