quarta-feira, 22 de março de 2017

ANDREW LLOYD WEBBER

PAULO SANTOS SILVA
Corria o ano de 1948, faz hoje precisamente 69 anos, quando nasceu em Londres um dos mais importantes compositores de música para teatro – Andrew Lloyd Webber.

Não sendo uma opinião consensual, visto que muitos consideram a sua obra demasiado comercial, é inegável que Lloyd Webber já conquistou um lugar de destaque no panorama musical, mais que não fosse pelo impulso que deu ao que atualmente se denomina de teatro musical ou, de forma mais simplista, musicais.

Nascido no seio de uma família de músicos (o pai foi compositor, a mãe professora de piano e o irmão mais novo violoncelista), Andrew enveredou pela composição sendo o responsável por muitos dos espetáculos que se mantêm ainda hoje em cena (alguns há mais de 20 anos…) na Brodway (Nova York) e no West End (Londres). Certamente que ninguém acreditará que se mantêm e com casas cheias, apesar de não terem qualidade… 

São várias as obras de Lloyd Webber que atingiram grande notoriedade. Umas pela novidade, outras pela espetacularidade e outras até, pela controvérsia. Neste último grupo, destaca-se Jesus Christ Superstar, um musical em forma de ópera-rock, com libreto e letras de Tim Rice, companheiro de várias aventuras. Embora tenha sido apresentado em 1970, como um álbum conceptual em cuja história se destaca as lutas políticas e pessoais de Judas Iscariotes e Jesus, o sucesso que alcançou obrigou a que fosse encenado para a Broadway em 1971 e desde então tem sido apresentado em todo mundo. A ação decorre, na maior parte, conforme a descrição que consta na Bíblia, sobre a última semana da vida de Jesus, começando com a chegada a Jerusalém e terminando com a Crucificação. Em toda a obra, transpira uma atitude moderna, recorrendo amiúde à utilização da gíria nas letras e alusões irónicas ao contexto de vida do momento em que foi criada, ao mesmo tempo que uma visão algo política dos acontecimentos, aparece retratada. Grande parte da trama é focada na personagem de Judas, concedendo-lhe uma importância que talvez não lhe seja atribuída na Bíblia. Entre outros aspetos, terá sido esta opção que terá provocado grande parte da controvérsia que a obra causou, ao ponto de ter sido condenada por vários grupos religiosos. Já agora e a título de curiosidade, no álbum original, a personagem de Jesus foi interpretada por Ian Gillan, à data o vocalista dos Deep Purple (Smoke On The Water…) e que mais tarde colaborou com os Black Sabbath!... Quem diria!...

De entre as outras obras de Andrew Lloyd Webber a merecerem destaque, encontramos José e O Deslumbrante Manto de Mil Cores (mais uma incursão pelos textos bíblicos), Evita (onde se conta a história da grande heroína do povo argentino, Eva Perón), Cats (uma história construída a partir de vários poemas do escritor T. S. Eliot sobre gatos) ou O Fantasma da Ópera (baseado no romance homónimo do escritor Gaston Leroux). O seu projeto mais recente, consiste na adaptação de um filme de 2003, denominado de School of Rock.

A sua obra, granjeou-lhe um enorme reconhecimento pessoal, ao ponto de em 1992 a Rainha de Inglaterra lhe ter atribuído o grau de cavaleiro, passando a ser chamado de Sir Andrew Lloyd Webber. Cinco anos mais tarde, foi-lhe concedida nova honraria. Foi nomeado Barão Lloyd Webber de Sydmonton, no Hampshire. 

Os prémios que os seus espetáculos e as suas músicas ganharam, foram inúmeros. Destacar uma das suas canções, não é tarefa fácil. Ainda assim, deixo-lhe como sugestão, a única canção de Lloyd Webber que ganhou um Oscar de Melhor Canção – You Must Love Me do filme Evita, interpretada por Madonna e que arrebatou o prémio em 1997.



O ARMÁRIO DOS MEDICAMENTOS

VERA PINTO
Lembram-se dos célebres armários metalizados com portas de espelhos que decoravam a maioria das casas de banho? Esta imagem faz-me viajar no tempo e regressar à infância. Não havia uma casa de um familiar ou amigo que não apresentasse estes armários tão práticos. Práticos sim, muito práticos! Funcionavam como três em um: farmácia, pois era o local utilizado para armazenar os medicamentos e outros produtos de saúde, como espelho e, como objecto de adorno e decoração. Ninguém me convence que não era moda da época. Com o passar dos tempos os padrões de decoração mudaram substancialmente, o conhecimento evolui e estes armários parecem ter entrado em extinção. Tenho que confessar que de decoração não percebo muito, mas em matéria de conservação de medicamentos sou mestrada. Escolher a casa de banho como o local da casa para o armazenamento de medicamentos é um grave erro que felizmente tem vindo a ser corrigido pela maioria das pessoas. Os medicamentos são criados com a finalidade de nos auxiliarem no tratamento, prevenção e diagnóstico de doenças e não para nos prejudicar. Para que tal seja alcançado, temos de respeitar o medicamento, obedecendo às suas condições de conservação e armazenamento, de modo a garantir o cumprimento do prazo de utilização estabelecido. Segundo o Formulário Galénico Português (FGP), o prazo de validade corresponde ao período durante o qual o medicamento ou qualquer outra preparação mantém as características e os padrões de qualidade pré-definidos. Na Farmácia, as condições de iluminação, temperatura, humidade e ventilação das zonas de armazenamento respeitam as exigências específicas dos medicamentos, de outros produtos farmacêuticos, químicos, matérias-primas e materiais de embalagem. Para além disso estas condições são verificadas e registadas periodicamente, fazendo jus as recomendações descritas no manual de boas praticas farmacêuticas. A partir do momento que o medicamento sai do controlo farmacêutico, estas noções devem ser interiorizadas pela população sob pena da ineficácia do tratamento adquirido. O prazo de validade inscrito na embalagem do medicamento só é valido se as condições de conservação do mesmo forem respeitadas e nunca se deve utilizar um medicamento fora da validade. Utilizar um medicamento fora da validade pode ter duas consequências: na melhor das hipóteses o medicamento não produz efeito. Contudo, dependendo da finalidade do medicamento seja para o controlo de uma infecção, controlo de pressão arterial ou medicamentos para o coração, a toma de um medicamento fora do prazo poderá fazer a diferença entre a vida e a morte. Na pior das hipóteses além de não fazer efeito, poderá ter efeitos secundários adversos, na medida em que o princípio activo pode estar de tal forma deteriorado que poderá causar intoxicação. Em suma, para garantir a correta conservação dos medicamentos, estes devem ser guardados num armário fechado, devidamente identificado, num local limpo e seco, ao abrigo da luz e da humidade e sempre longe do alcance das crianças. Desta forma devido à humidade e às alterações de temperatura, o armário de medicamentos não deve estar em locais como a cozinha e a casa de banho. A despensa ou o quarto poderão ser melhores escolhas para o seu armazenamento e devemos periodicamente fazer uma revisão à farmácia doméstica, de forma a descartar medicamentos que estejam fora da validade ou que já não necessitamos. Estes medicamentos nunca devem ser colocados no lixo comum ou esvaziados pelos esgotos domésticos. Devem ser entregues na farmácia no sentido de serem reciclados.

terça-feira, 21 de março de 2017

O TEMPO DAS HIENAS

BRUNO SANTOS
Há uns anos, apareceu na Europa um movimento – chamemos-lhe assim – com o nome de Zeitgeist, uma palavra da língua alemã que pode ser traduzida por Espírito do Tempo. O principal instrumento de comunicação deste movimento foi um documentário, um filme, com o mesmo nome, produzido por Peter Joseph, que abordava, na mesma linha argumentativa, temas como a História do Cristianismo, os ataques de 11 de Setembro, a Federal Reserve, a Guerra e aquilo que ficou conhecido por NWO, a sigla inglesa da Nova Ordem Mundial.

O filme teve um impacto muito significativo em certos meios internacionais e ajudou, de algum modo, a estabelecer e promover uma leitura da História que não era comum encontrar-se nos ambientes ortodoxos do mainstream que, normalmente, veiculam uma narrativa histórica estabelecida de acordo com padrões ideológicos pré-definidos, que servem de cimento psico-político e psico-social à mais poderosa estrutura de poder instalada no mundo, que é, de facto, uma Religião que dá pelo nome de Protestantismo, e cujo Deus, o seu instrumento mágico, espiritual e operativo fundamental, é o Dinheiro.

A verdade é que, sob a aparência de uma sociedade laica, totalmente dessacralizada, com Instituições “profanas” depositárias do Poder terreno e corporizadas num Estado que se afirma separado das Igrejas e dos cultos confessionais, aquilo a que realmente assistimos é uma exímia e poderosíssima expansão global do poder Protestante, que soube, como nenhuma outra religião, adoptar as transfigurações simbólicas e mitológicas adequadas no sentido de conferir aparência secular e profana a estruturas que, na verdade, assentam em rituais, símbolos e arquétipos religiosos, alguns dos quais mágicos, cuja origem se estabeleceu in illo tempore.


Estas e outras matérias têm alimentado, ao longo dos anos, algumas teorias da conspiração cuja credibilidade é muitas vezes posta em causa, quer pelo excesso de imaginação dos seus adeptos e divulgadores, quer pela inexactidão histórica, factual, científica ou até filosófica, dos pressupostos em que essas teorias assentam. Contudo, este princípio não é generalizável a todas essas teorias conspirativas.

Existem hoje leituras correctas, embora ainda marginais, do curso da História e dos diferentes movimentos sociais e políticos que se foram sucedendo e influenciando, leituras essas rigorosas e verificáveis nos principais postulados, que até há bem pouco tempo eram designadas depreciativamente como Teorias da Conspiração e relegadas para as margens do discurso, onde a fantasia e os excessos fabulosos habitam.

Recorde-se, por exemplo, que a RTP 2, um canal público de televisão, chegou a transmitir, no ano de 2006, um documentário com o título de Loose Change, no qual se coloca em causa a versão oficial sobre os atentados de 11 de Setembro de 2001, nos Estados Unidos, defendendo a teoria, sustentada em provas documentais e testemunhais, que se tratou, na verdade, de um ataque terrorista “interno”.
Mas já antes, em 1998, a fabulosa indústria de mitos da Califórnia lançara um dos mais perturbadores filmes do final do século XX, The Truman Show, um verdadeiro hino à Teoria da Conspiração, que coloca os mais ínfimos e íntimos detalhes da vida de um cidadão, e as suas dimensões sociais, psicológicas e ontológicas, no plano irredutível da ficção. Este extraordinário filme nada mais conta, afinal, do que a Verdade.

Dá-se hoje um caso curioso, cuja exploração mediática atingiu proporções inéditas na História recente, com o novo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O discurso elaborado pelos media e difundido à escala global, tratou de fazer passar a ideia de que o fenómeno da sua eleição fora um lapso da democracia e da História, um erro escatológico baptizado com o nome de Populismo, entronizado como Inimigo pelo mainstream, ridicularizado na sua consistência programática, na sua habilitação funcional para o exercício do Poder, até na sua preparação e, portanto, legitimidade, intelectual, filosófica e científica para assumir a liderança de uma grande potência económica, cultural e bélica como é o caso dos Estados Unidos. Nada mais errado, contudo. O Think Tank que elegeu Donald Trump é dos mais consistentes e competentes da História, e a sua doutrina filosófica, de matriz esotérica e com milénios de Tradição, é na essência um dogma religioso. Um dos poucos que, neste momento, pode fazer frente ao Protestantismo na luta pelo domínio das almas que habitam este mundo.

Comete-se demasiadas vezes o erro de se pensar que a Religião é uma escolha individual, que ser ou não ser religioso é uma opção que resulta do livre arbítrio de cada um. Diz-se, erradamente, que o Estado, as organizações ou os indivíduos auto-intitulados laicos, ateus ou agnósticos, são estruturas ou organismos vivos e conscientes não religiosos pelo facto de negarem, não validarem, ou simplesmente ignorarem a existência de Deus. Acontece que Deus não pede licença aos Homens para existir. Ele Está, quer se queira, quer não, tanto no plano simbólico como operativo, na dimensão espiritual ou material, criadora ou destruidora, chame-se ele Javé, Adonai, Grande Arquitecto, Cristo ou, simplesmente, Dinheiro. A Religião é uma pulsão inata do ser humano, integra a sua matriz psíquica e espiritual primitiva, e não deve ser confundida com os fenómenos mediadores, eclesiásticos, iniciáticos ou outros, através das quais se manifesta e materializa.

A televisão, as redes sociais, a comunicação social, os hipermercados, estádios de futebol, centros comerciais, os partidos políticos, as instituições do Estado, são utensílios mágicos e evangelizadores de um dogma religioso com rituais estabelecidos sobre a mesma matriz mitológica e simbólica de qualquer outro credo. O seu Deus presente é o Dinheiro, pois é ele o símbolo máximo da Ética e da Transfiguração Protestantes.

Em resumo, e não entrando em detalhes de natureza simbólica que constituem o corpo ritual de associações secretas, ou discretas, como agora se diz, espalhadas em rede por todo o mundo ocidental, e mais além, é isto que justifica que o Partido Trabalhista holandês, onde milita o nosso amigo do Eurogrupo de nome impronunciável, um torcionário liberal e fundamentalista da austeridade e do Dinheiro, use como símbolos identificativos o Punho e a Rosa, representados em suma abstracção simbólica no 9 e no 18, respectivamente, exactamente os mesmos símbolos que encontramos em organizações políticas que julgamos nos antípodas daquela ideologia torcionária e fundamentalista aos pés da qual Portugal foi esmagado, como é o caso do Partido Socialista, por exemplo. Desengane-se, contudo, quem pensa que se trata de mera coincidência. Trata-se, na verdade, da partilha de uma certa filiação iniciática, ou contra-iniciática, de matriz religiosa não eclesiástica, ou seja, laica, mas cujo universo simbólico é o mesmo.

Quando a maioria de nós olha para uma chave de fendas vê um utensílio de trabalho cuja função consiste e apertar e desapertar parafusos. Esse é o valor operativo do símbolo que está de acordo com uma hermenêutica da ascendência, a visão benigna do mundo e da vida que coloca o Homem e os seus símbolos num caminho da evolução rumo a estados superiores de Consciência. Mas a chave de fendas pode ser também usada como arma e com ela cometerem-se crimes que atentem contra a própria vida. Essa é a face operativa do símbolo que revela a visão maligna do mundo, essa visão da entropia contra-iniciática que coloca o Homem no caminho da involução, fazendo-o descer a estados inferiores de Consciência, excessivamente próximos da barbárie, ou mesmo encarnando, integralmente, a barbárie.

O nosso tempo revela esta contradição com particular acuidade. São demasiados aqueles que se camuflaram com a pele do cordeiro e se esconderam atrás de símbolos de valor mágico ancestral mas que, na realidade, são lobos famintos em busca de uma saciedade que só encontrarão com o final dos tempos, na coroação do modelo involutivo que veneram.

APARIÇÃO: O RETRATO



REGINA SARDOEIRA
Embora não seja, de facto, possível explicar uma obra de arte (seja qual for a expressão usada), a verdade é que as interpretações são inevitáveis. Considero importante deixar o campo absolutamente livre a quem observa; e contudo uma sucessão incontável de ideias e de sentimentos ligam-me, inextrincavelmente, a este quadro que intitulei Aparição. 

Para além de ter sido a obra homónima de Virgílio Ferreira, no centenário do seu nascimento, o pretexto desencadeador de uma hipótese de partilha de palavras, de pensamentos e de acções a ocorrerem no futuro, e de esse futuro nunca ter acontecido, o desejo de tornar a pessoa ainda presente, apesar da inevitável perda, levou-me a querer pintar-lhe o retrato. 

De posse de uma pequena fotografia tipo passe, iniciei o esboço. Durante algum tempo, a tela permaneceu quase em branco pois eu sei, por experiência, que não é no desenho que obtenho o ser daquele que retrato, mas depois, quando acrescento cores e matizes, sombras e luminosidades. 
O acto de pintar um retrato tem o seu tempo. Por essa razão demorei meses a iniciar a composição propriamente dita, fiz um primeiro enquadramento recorrendo à técnica da colagem, rodeei o esboço de imagens, palavras e símbolos, uns, decerto óbvios, outros, obscuros - que de obscuridade também é feita a essência de um homem. 

A seguir, comecei o retrato. E, quando, ainda incipiente, a figura dele se apresentou e o olhei, de longe, percebi que o afogara num oceano de papéis colados e envernizados e que era, pois, urgente, dar-lhe liberdade. 

Arranquei os pedaços que não resistiram ao meu esforço, desta feita destrutivo, cobri com tinta aqueles que ficaram e, bruscamente, no centro da tela, o homem retratado revelou -se. Soube que lhe captara o ser, deixei-o estar à minha frente, nessa brusca aparição; e foi então que percebi a inutilidade de inventar-lhe o busto que a fotografia não me revelou. 

O espaço vazio, por debaixo do rosto sugeriu-me, vagamente, a hipótese de um reflexo. Mas, arredei a sugestão aquática e, recorrendo à espátula, rapidamente, criei o cenário (tido, no momento como exemplar) dos livros antigos e da vela com o seu halo de luz difusa. 
Estava criado o retrato, aparecia o homem, fisicamente perdido há um ano atrás e ali presente em apoteose. 

O trabalho de burilar os contornos do rosto acrescentou-lhe realismo, sem lhe tirar presença. E a vela ganhou um rasto branco de cera, a escorregar sobre os livros como que a desintegrar-se numa fusão com outros materiais. 

Uma representação de simbologia óbvia? Sim, decerto. Quis fugir, primeiro, ao livro, aos poemas de cuja metáfora fiz colagem; mas o homem retratado mostrou-me angústia e libertei-o da matéria onde o havia submergido. Surgiu uma pessoa, viva e expressiva, a impor a sua presença no meio dos livros antigos que sobrepujou, para limpar a obscuridade da luz bruxuleante da vela e erguer-se no azul da manhã. 

É desta aparição que falo quando intitulo, deste modo, o quadro. É esta espécie de poder que evoco quando percebo que trouxe à vida, de novo, o homem que dela se ausentou há um ano atrás. A outra aparição, contida no livro homónimo de Virgílio Ferreira, esteve connosco (comigo e com ele) dias antes do acontecimento - limite que retirou o homem retratado da presença dos vivos. 
Entreguei o quadro (a custo, confesso, porque ele é a minha criatura) para devolver o homem, Adão Campos, à Biblioteca da Escola Secundária de Marco de Canaveses; mas não me atrevi a seguir a minha criação, presentificando-me lá, no dia em que alunos e professores vão homenagear post mortem aquele que foi (que é?) o espírito do lugar. A minha presença pecaria por excesso e se palavras quisesse dizer elas não me sairiam. 

De um modo íntimo, cuja natureza só poucos lograrão entender, eu estou lá, nessa aparição de um homem que se me revelou e cuja presença etérea senti em todos os dias que expus o quadro à frente dos meus olhos. E eu desejo que o lugar que lhe derem nas paredes do espaço a que ele, em vida, deu significado pleno, seja honrado e perdure.

segunda-feira, 20 de março de 2017

ARES DE PRIMAVERA

CLARA CORREIA
Ei-la que chegou! … a Primavera, pois! … quanto mais não seja a reboque da implacabilidade do calendário que dita ao Tempo que é chegado o tempo de nova estação e … assunto encerrado! … mau grado os eventuais caprichos de outro tempo, o meteorológico, a meter-nos na linha no que respeita à nossa modesta e legítima ambição de pôr os casacos, não pelas costas, mas para trás delas. Não obstante, o sol, quando não lhe é tirado o protagonismo pelas nuvens, prolonga a sua anterior, e invernosa, “visita de médico” … e agora até parece, e ainda bem, utente do SNS nas urgências e no auge da gripe.

Somos mediterrânicos, benza-nos Deus! … e quem nos tira o Sol, tira-nos tudo e mais alguma coisa, nomeadamente, a vontade de não nos encafuarmos nos centros comerciais onde, como no mar (e como escreveu Sophia de Mello Breyner), não há estações do ano, mas com a agravante de também não haver condições de vida para a chamada “luz natural”, nem condições acústicas para se propagar a melodia do vento, nem, tão pouco, as imprevisibilidades paisagísticas da serra ao longe, excepcionalmente bem delineada por ausência de neblina, ou de um hipnótico crepúsculo carmim-electrizante a encher-nos as medidas dos sentidos e da objectiva da máquina fotográfica.

Pois a verdade (e esta verdade, além de absoluta, merece ser celebrada por ser anual) é que, mais tarde ou mais cedo, e mais ou menos pela altura pascal, todos nós damos um ar da nossa graça primaveril (abafada pelo Inverno), seja no sumiço dado às golas altas e nos pedaços de pele exposta a flirtar os raios solares, seja nos comentários inevitáveis à meteorologia, que passam, finalmente, a barreira da monotonia e do pessimismo e, sendo Primavera, aumenta o risco de serem acompanhados por um largo sorriso … primaveril, claro está! Há, e haverá sempre (claro esta, também!) espíritos impermeáveis a estes preâmbulos de “silly season” e, sem qualquer presunção de julgamento, terão a sua própria razão e direito de opção. Apanhemos, enfim, a onda do renascimento sazonal da Natureza, por excelência, e renovemos a nossa alma, as intenções esquecidas, as relações esmorecidas e conceitos já com mofo, não só da humidade do Inverno mas também da mente, se esta resiste à mudança … e à esperança, a precisar, também ela (a nossa esperança) dos ares de Primavera!

DESENVOLVER UMA MOTIVAÇÃO “IMPARÁVEL”

Como é que pode desenvolver uma motivação imparável, idêntica à de um fisioculturista profissional?

NUNO AREAL CARVALHO
(http://nunocarvalhofitness.com/desenvolver-uma-motivacao-imparavel)
A Musculação não é nada fácil. Dizer que qualquer pessoa pode ter êxito na musculação, é um verdadeiro mito, porque nem todas as pessoas têm os genes e, mais importante, a motivação para ter sucesso neste tipo de desporto/atividade física.

Não chega ter a “altura ideal” ou “células musculares grandes” para ter sucesso na musculação. Acima de tudo, vai precisar de ter uma motivação e força de vontade revestidas de aço para aguentar o esforço.

Sem esses dois elementos, lamento mas não vai durar muito tempo neste mundo. Eu já vi muitos promissores fisiculturistas, desistirem porque, simplesmente não encontraram ou deixaram de ter a motivação e garra para continuarem o seu percurso.

Quando um fisiculturista em ascensão e de elevado de potencial, desiste do halterofilismo, sentimos que é uma perda para o mundo do bodybuilding em geral. Porquê? Porque este é um mundo onde não entra muita gente, em primeiro lugar.

O mundo do culturismo moderno só vai progredir e evoluir se cada geração estiver interessada em investir uma enorme quantidade de recursos pessoais nele.

Então, se você precisa de motivação ou se precisa de uma razão para permanecer como um fisiculturista, aqui estão algumas chaves que valem a pena registar:
Musculação é saudável – Vivemos num mundo cada vez mais sedentário. A vida moderna tem ensinado ao Mundo que é preferível ficar em casa do que levantar e fazer exercício. Tudo o que nos rodeia é feito para minimizar o nosso esforço físico tornando-nos cada vez menos activos. A implicação disto é ver a multiplicação de certas doenças pelo mundo.

Felizmente a Organização Mundial de Saúde há muito que vem a afirmar que o exercício físico regular é a chave para combater as doenças. O Síndrome metabólico, que é o precursor de colesterol elevado, elevados níveis de glicose no sangue e pressão arterial elevada, podem ser corrigidos através da prática de exercício regular.

Que tal apenas medicação para a pressão arterial, etc?

Sim, existem medicamentos para certas doenças. Mas na maioria dos casos, a principal causa destas doenças mais comuns, é o estilo de vida de uma pessoa. As pessoas estão a morrer porque não se exercitam.

As doenças cardíacas têm vindo a aumentar desde o final dos anos setenta. O levantamento de peso e o treino da resistência, no geral foram provados ser muito benéficos aos indivíduos que necessitam de fortalecer o seu sistema cardiovascular.

Treino de resistência não apenas mantém o seu ritmo cardíaco como também dilata os vasos sanguíneos e incentiva o desenvolvimento de mais artérias e veias no seu corpo.
Disciplina – se você acha incrível que alguns fisioculturistas tenham bíceps com cerca de 70cm, ficaria ainda mais espantado com o nível de disciplina que esses atletas têm para serem capazes de alcançar bíceps desse tamanho.

A musculação exige uma extrema disciplina, física e mental. Esta disciplina geralmente estende-se a todos os aspectos da vida de um fisiculturista, desde a forma como ele cuida da sua família, até a forma como lida com o seu trabalho.

Desde que você se concentre especificamente no Fisioculturismo, se esforce ao máximo para alcançar resultados e esteja constantemente a instigar os seus limites, garanto que nesse percurso, vai desenvolver uma disciplina de aço, digna dos fisioculturistas profissionais – vai adorar a forma como a sua visão vai mudar, assim como a sua vida!!!
O Fisioculturismo vai torná-lo competitivo – fisiculturistas profissionais são conhecidos por serem muito calmos e discretos no que toca aos seus regimes de treino. Apesar da aparente humildade de muitos fisioculturistas profissionais, a maioria deles são extremamente competitivos, vivendo e respirando musculação, dia após dia.

Novamente, esta mudança essencial na mentalidade de um fisiculturista pode ser benéfica para qualquer um. Ser competitivo é uma coisa boa! A competitividade também torna possível às pessoas, sair das suas zonas de conforto muito mais facilmente.

A competitividade também ajuda a desenvolver um pensamento mais positivo.

A maioria dos fisiculturistas vivencia o sentimento de derrota de uma forma ou de outra. E acha que eles se deixam vencer por esse sentimento de fracasso? A maioria nunca pára de tentar!! De cada vez que você insistir em treinar repetidamente padrões de exigência mais elevados, vai ver que se vai tornar cada vez mais resistente em desistir ou ceder ao sentimento de fracasso.

Os verdadeiros fisioculturistas não desistem, melhoram com o tempo!

Claro que existirão sempre campeões que vieram antes de nós, mas isso não significa que a geração mais recente não tenha o que é preciso para alcançar o mesmo. Mais cedo ou mais tarde, essa “elite de campeões” vai reformar-se (muitos já o fizeram), e de modo a que este seja um ciclo com continuidade, é necessário o surgimento constante de “sangue novo”.

Não pense por um minuto que não terá um lugar no fisioculturismo. O seu lugar já foi garantido a partir do momento que tomou a decisão de se comprometer com este desporto! Por isso, não perca a esperança e vá para o ginásio treinar com toda a garra que tem dentro de si!!

A MULHER NA GUINÉ BISSAU

JOANA BENZINHO
No mês de março celebramos o dia da mulher em todo o mundo e, se em alguns países há quem se questione sobre o porquê de se celebrar tal efeméride, por a mulher ter nos dias de hoje um papel relevante e de (pretensa) igualdade na vida social, noutros continua bem premente a necessidade de relembrar a cada minuto as origens da comemoração desta data e a necessidade de batalhar por mais direitos e por mais igualdade para o sexo feminino. 

Vem isto a propósito da Guiné-Bissau e do facto de esta data ser feriado nacional naquele país e de permitir que homens e mulheres fiquem em casa neste dia e reflictam um pouco sobre a importância da efeméride.

Com um mosaico de mais de duas dezenas de etnias e credos religiosos distintos, é traço comum a quase todos a relevância do papel atribuído à mulher na sociedade. Historicamente podemos referir a Rainha Okinka Pampa, "chefe máxima" do arquipélago dos

Bijagós, idolatrada ainda hoje por ter defendido o seu povo do jugo colonialista com grande destreza, ao ter assinado um acordo muito benéfico para os Bijagós. 

Já aquando da luta de libertação, várias foram as mulheres a assumir posições de grande relevância na guerrilha e nas fileiras do PAIGC de Amilcar Cabral como Titina Silá, Teodora Cardoso ou Carmen Pereira, entre outras.

Independente de nomes mais sonantes e com papeis mais ou menos essenciais na história do país, a verdade é que a mulher guineense em geral granjeia um enorme respeito na sociedade e assume um papel de grande relevância no contexto económico e social do país. Habitualmente é a mulher guineense que gere o magro orçamento familiar e que se desdobra em várias funções para obter os recursos que lhe vão permitir criar e educar os seus filhos.

Na etnia Bijagó, encontramos uma sociedade marcadamente matrilinear, com a mulher a ter um papel da maior relevância, a presidir a cerimónias religiosas ou a dirimir conflitos na sociedade, a escolher o marido ou a pedir o divórcio, a ficar com a guarda das crianças ou a iniciar os mais novos nos distintos rituais animistas.

Mas apesar de tudo, ainda encontramos a mulher subalternizada numa ou outra etnia, limitada ao papel de dona de casa com acesso muito restrito à educação, ao mundo do trabalho ou uma vida social livre e paritária.

É talvez da síntese destas realidades tão diversas existentes na Guiné-Bissau que se torna necessário dar a este dia a importância de um feriado de cariz nacional. Na verdade, o dia da mulher na Guiné-Bissau lembra que a igualdade de direitos e de oportunidades é um projecto ainda em construção que exige muita reflexão e que é uma luta que se deve continuar a travar diariamente. Aqui como no resto do mundo.

OS ALUNOS DE QUE VOS QUERO FALAR

ALINA SOUSA VAZ

Quando lemos com vontade, sem escolhas de gêneros textuais, lemos simplesmente pelo gosto e o prazer de ler, conseguimos aflorar a emoção, a inteligência e até a graça escondida. Daí a grande importância do ato de ler. Lemos para nos informar, para pesquisar, para conhecer e porque não para sorrir! Daí a temática de hoje rodear o sentimento tornando o texto até um pouco piegas. 

A universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro está em comemoração e não há melhor momento de palavrear acerca dos alunos, aqueles que enchem as ruas do campus universitário, os corredores dos edifícios, as salas e bares com a sua alegria eufórica própria da idade. A cor que transportam nas suas vidas jovens ajuda a colorir cada estação que veste e despe de uma graciosa beleza natural a UTAD, uma das universidades mais bonitas do país. 

Os alunos de quem vos quero falar são aqueles que sem darem conta ainda me preenchem enquanto profissional do ensino, neste caso do ensino superior. Ser professora é tentar contribuir para que os estudantes imaginem, criem, inventem, analisem e possam dessa forma efetivar uma aprendizagem de qualidade. Ser professora é tentar formar cidadãos que não tenham medo de se colocar diante de uma situação que não lhes é satisfatória, criticando, opinando, impondo-se de forma correta usando o poder da palavra. Ser professora é ensinar-lhes a diferença da expressão “à vontade não é à vontadinha”, pois só desta forma conseguirão ser eles próprios sem nunca contrariarem a regra apropriada de uma sala de aula. Ser professora é ser um tudo…mas principalmente é ensinar-lhes a sonhar e a nunca desistirem!

Os alunos de quem vos quero falar são aqueles que, mesmo com o passar do tempo, nos tocam com demonstrações de apreço, não por determinada matéria que lhes tenhamos ensinado, (que dizem sempre que gostaram, por vezes por simpatia) mas pelas trocas de experiências, reflexões e orientações. Esta abordagem enfatiza os determinantes culturais, históricos e sociais da condição humana, permitindo pressupor, segundo Luria (1979) que “a grande maioria dos conhecimentos e habilidades do homem se forma por meio da assimilação da experiência de toda a humanidade, acumulada no processo da história social e transmissível no processo de aprendizagem’. Daí, o sucesso da aprendizagem dos estudantes depender muitas vezes e em grande parte da forma como mediamos essa informação, da objetividade e da utilidade que consideramos que o aluno lhe vai dar, e neste ponto, para mim, reside a chave de todo o mistério.

Os alunos de quem vos quero falar não são apenas números mecanográficos, são fonte de inspiração! Eles são ar fresco, renovação de ideias e as suas criações são sublimes! Adoro ler o que escrevem, os blogues que criam, as empresas que fundam, os estudos que procuram e os trabalhos que executam, imprimindo-lhes sempre qualidade e glamour! Adoro os seus sorrisos, por vezes tímidos mas conquistadores, quando procuram e não desistem estando sempre atentos à primeira oportunidade. Adoro quando acredito na rebeldia e mais tarde se revela em algo de bom. Adoro!

Disse que o texto seria piegas, mas com orgulho os vejo evoluir e a imprimir nos seus percursos o ensino construtivista que beberam outrora nas interações sociais e intelectuais no percurso universitário, porque Ensinar é promover encontros! 

domingo, 19 de março de 2017

P A I

MIGUEL GOMES
Aperto as mãos e faço força para que os braços não me escorreguem. 

Encosto a cara ao blusão velho, cujo cheiro consigo distinguir na memória e fecho os olhos. O barulho da mota soluça pela noite, tenho uma lágrima presa pelo frio e o sorriso congelado na felicidade de imaginar, ainda hoje, a mota negra a ribombar por uma estrada imaginária em direção ao céu.

Nada há que prenda mais à vida do que as mãos calosas de um pai, o cheiro a barba desfeita, o pegar no pincel às escondidas e imitar o gesto paternal, afagar a face barbeada e olhar, de baixo para cima, a imensidão de um ser que, saberemos depois, imitamos os gestos mesmo quando, muito mais tarde, nos confundem como irmãos. O tempo encarrega-se de nos parir para a vida, vamos subindo os dias como que se fossem ainda aqueles muros de pedras mal amanhadas e musgosas, cuja integridade se dilui um pouco como a espuma da barba quando a água se esvai pelo lavatório. 

“Ali ao fundo, vês?” Pergunto-te como se estivesses ali mesmo ao meu lado. Não o estás da mesma forma que os outros transeuntes, mas para mim é como se estivesses, ali e em todo o lado, porque me habituei a ver esta irrealidade que nos tenta içar ao infinito como se pelos teus olhos vislumbrasse e, mesmo assim, como os pequenos presentes de Natal ou os sacos de amêndoas de chocolate que escondias nas mangas do sobretudo, todo o insondável mistério da vida se augura como uma longa, por vezes lenta, caminhada de descoberta das nossas próprias mãos, das nossas próprias mães, dos nossos próprios pais. Sei bem a que sais, nas cãs e no silêncio em que pronuncias todas as milhares de páginas que leste e eu, filho, que nem sei como entrar nesta coisa a que chamam vida, ainda tímido sou a tarde de sábado que te convida: “Como é, vamos ao café?”

“Ali ao fundo, vês?” Pergunto de novo. Há um pai com os pés na água fria do mar, um sorriso que oscila na maré deste sábado de manhã, uma criança, talvez eu, que experimenta a areia fina cujo tempo depositou com carinho e caminha, não com medo, talvez curiosidade de sentir entre os dedos dos pés a facilidade com que foge de nós o momento em que juntos, pela cumplicidade, parecemos sós.

Sabes o quão estreita parece a vida, mas é por isso mesmo que, no crepitar sôfrego da vela sobre o pavio onde ouvíamos as noites sem electricidade, me faço mais homem. 

De eterno temo-lo a Ele e d’Ele, os olhos, os teus, são a porta de entrada para a recordação do que serei quando a vida me vier trazer mais Vida e, como tu, me pegar ao colo e me deixar adormecer porque a noite caiu e a maré terminou. É agora que sei quem sou, os dias ásperos de quem a própria transpiração suou, a terna carícia que surgia quando me fazia adormecido. Este mundo é pequeno demais para sermos pai e filho.

“Sem nada para falar, para tudo te dizer”, escreveste um dia como se todo o conhecimento se resumisse às vezes em que olhamos juntos, ainda hoje, páginas distintas de um só livro. De quanto vazio precisaremos todos para apenas assim sentirmos, sabermos, que é de facto desta forma que temos tudo?

Assiste-me a circular tendência de me ver família de mim mesmo. Sei que no início era o verbo e este, no infinitivo, conjuga-se assim pai: eu amo. Eu, pai, amo-te.

ERROS DE PERCEPÇÃO

MOREIRA DA SILVA
Na comunicação política está muito em voga a utilização de vocábulos que originam diferentes interpretações, consoante as necessidades de poderem afirmar, mais tarde, que se disse o contrário daquilo que se entendeu, como é o caso da decisão irrevogável que vem a ser revogável ou do erro de percepção quando se diz que o acordo é um não acordo. Há infindáveis exemplos deste tipo de malabarismo comunicacional.

Quando a Presidente do Conselho das Finanças Públicas é acusada de ter afirmado que os 2,1% do défice no ano passado foi, em certa medida, um «milagre», o que aconteceu foi um erro de percepção, pois o que quis dizer é que duvida da sustentabilidade das medidas governamentais e que é preciso uma nova política económica menos dependente da despesa pública e dos humores da política europeia.

Quando o dirigente máximo da federação dos sindicatos dos professores deixa de aparecer diariamente nos telejornais é um erro de percepção do cidadão, pois não significa que está tudo bem no mundo do ensino, mas apenas que não é conveniente, por questões tácticas, fazer muitas ondas, como fez durante mais de três décadas.

Não é pelas esquerdas da esquerda, não pedirem a demissão do governo português, nem organizar grandiosas manifestações de protesto, que está tudo bem no mundo laboral, que já não existe precariedade, nem falsos recibos verdes, nem desemprego com taxa de dois dígitos, nem diferença salarial entre homens e mulheres, nem o ordenado mínimo tão pequeno e as pensões e reformas escandalosamente reduzidas, nem há fome e miséria no país, mas tão só um erro de percepção, pois o que existe é uma questão táctica eleitoral, por não ser útil criar problemas ao governo.

Outro erro de percepção é o roubo das armas na PSP, pois não é pelas esquerdas da esquerda não pedirem a demissão da ministra da administração interna, que a ministra não seja a responsável política de tal furto. Num passado recente, um ministro da mesma pasta pediu a demissão, quando considerou que a sua autoridade ficou diminuída com o envolvimento de pessoas que lhe são próximas nas investigações da “Operação Labirinto”, que visava casos de corrupção na atribuição e vistos “gold”. 

Também não é pelos protestos veementes, dos partidos à esquerda no espectro político português, quanto à não divulgação, pelo governo anterior, das estatísticas referente aos dez mil milhões de euros, que foram transferidos para «offshores», que a importância do nome dos beneficiários, de tais depósitos, diminui. É apenas um erro de percepção! Mas que se divulgue, com urgência, os nomes de tais privilegiados, mesmo que o sigilo bancário aconselhe a não o fazer. O interesse nacional está primeiro!

O «outdoor», de grandes dimensões, do maior partido que apoia o atual governo, a vangloriar-se pelo cumprimento do défice imposto pela União Europeia é outro erro de percepção, pois não quiseram gabar-se, mas tão só informar os portugueses de tal feito. Embora tenha criticado o anterior governo, de só ter em atenção o malfadado défice.

A utilização de um discurso agressivo, soez e radical, no pior estilo «socrático», usado e abusado pelo atual primeiro-ministro no parlamento é também um erro de percepção e uma opção política, que está condicionada pelos partidos à sua esquerda.

A aprovação numa RGA (formada por duas dúzias de estudantes, na sua maioria bloquistas), do cancelamento da Conferência "Populismo ou Democracia", que um Professor Universitário ia proferir na Faculdade de Ciências de Lisboa é mais que um erro de percepção, pois foi também a promoção da censura, o desprezo pela liberdade de expressão e uma cobardia intelectual. Já são muitas, as intimidações duma «esquerdelha abjeta», ao funcionamento de instituições independentes. Com um travo amargo a PREC.

POR TODA A PARTE MULHER GENTE

JOANA M. SOARES
Por toda a parte a tua semente, mulher gente. Li esta frase algures no emaranhado de caminhos da internet, precisamente na semana em que o deputado polaco do parlamento europeu, Janusz Korwin-Mikke, recebeu as sanções por ter afirmado em plenário parlamentar que as mulheres são mais fracas e menos inteligentes do que os homens.

Estes factos – não alternativos – aconteceram no dia 2 de março de 2017. 2017. Na vanguarda do século XXI, palavras escancaradas à luz dos chamados tempos modernos.

Muitos abriram a boca de surpresa. A eurodeputada espanhola, Iratxe García, perplexa, ainda lhe gritou qualquer coisa, mas insuficiente para o tamanho do discurso calamitoso. 

Esta crónica poderia ser a enaltecer o papel da mulher, que são muito boas, que fazem contas de multiplicar em todas as suas tarefas. Mas não. É um texto simples. De um ser humano para outro ser humano. Não é o género, é uma questão de pele e osso. 

A mim surpreende-me a brandura do castigo europeu. Pergunto-me se fosse uma mulher a dizer esse tipo de disparate. O que aconteceria? Parece-me pouco uma multa e uma suspensão.

Que tal serviço comunitário na Nigéria onde ainda hoje, neste 2017, meninas são genitalmente mutiladas? Que tal voluntariamente procurar mulheres escravas por esse mundo fora, vítimas de tráfico humano? Que tal escrever teses sobre grandes mulheres que assinam feitos históricos como a Bertha Lutz, que descobrem fórmulas químicas como Marie Curie , que foram prémios Nobel como Malala Yousafzai ou A escritora Doris Lessing. Ou simplesmente como as mulheres que me rodeiam e são meritórias em tudo o que fazem com a pele e os ossos que trazem. 

Arregaçar as mangas para esta mentalidade que nos assusta e ameaça. 

Safou-se a Holanda, a dar um suspiro de alívio nesta europa à deriva, que meteu a extrema direita na lamparina do génio e continua livre, a boiar num melting pot que a caracteriza.

TODOS OS DIAS, PAI

NETUCHA CAMPOA
Quando nasci, o meu pai levou pela mão o meu irmão, que ainda não tinha três anos, a ver a mana que tinha sido "feita" por encomenda dele. No caminho foi questionando o nosso pai: " Oh papá, as mamã para serem mamã vão para o hospital e os papás para serem papás o que fazem?"

Passados 24 anos, quando tive o meu filho, calhou - me por companheira de quarto uma enfermeira desse mesmo hospital. Esse facto levava a que fossemos visitadas com frequência por colegas suas. Uma delas, desiludida com o género masculino, indignava-se: " Nós, mulheres sofremos 9 meses de gravidez, sofremos para parir, continuamos a sofrer para amamentar, e eles ainda têm o nome pomposo de pais!"

Muito mais do que uma "modernice", esta de se ter dias para comemorar tudo, o pai deixa-nos marcas para todos os dias. A todo o momento (ainda que sem o fazermos de forma consciente ), estamos a comemora - lo, a honra - lo, a lembra-lo ou, nos maus exemplos, a querer esquece - lo .
Há pais para todos os gostos e também alguns para todos os desgostos.

Tenho a sorte de ter tido um pai de que me orgulho ao ponto de o ter como o meu herói! Este ano pela 1° vez tenho um filho feito pai. E no meio, o pai dos meus filhos e o pai dos meus netos. 

Cada um tão diferente dos outros, tanto no desempenho funcional como na transmissão de afectos, de valores, de incentivo, de segurança, de exemplos de vida. Cada um à sua maneira, tentando fazer o melhor, porque cada um ama os seus filhos acima de tudo e sabe que o seu papel é fundamental na estruturação da pessoa que é o seu filho. E ser pai é isso mesmo, seja progenitor ou adoptivo! Parabéns pais!!!!

sábado, 18 de março de 2017

ROMARIAS QUARESMAIS: UMA VIAGEM DE FÉ

«OS ROMEIROS»
CRÓNICA DE CARLA LIMA
Depois do enterro do Entrudo, vem a Quaresma e com ela começam as Romarias na Ilha de São Miguel, principalmente, mas que já começa a acontecer em outras ilhas do Arquipélago dos Açores. A origem das Romarias vem do tempo do tremor de terra em Vila Franca, em 22 de Outubro de 1522, que provocou muita destruição, dando origem a procissões realizadas todas as quartas-feiras, à noite ou de madrugada para a Ermida de Nossa Senhora do Rosário construída naquela localidade em memória da catástrofe, sendo por isso a devoção à Nossa Senhora do Rosário o fundamento principal destas procissões, em que se pedia a sua protecção.

Obedecendo à tradição, as romarias são compostas unicamente por homens, que durante sete dias percorrerão a pé todas as localidades da Ilha, por vezes através de maus caminhos, por devoção, cumprimento de promessas, reabilitação ou por motivos de consciência, parando nas Igrejas e Ermidas em que se venere Nossa Senhora, para fazerem as suas orações, e oferecerem os seus sacrifícios, que não são poucos, em obediência, em cansaço, em desconfortos, ao sol, à chuva e ao vento.

Até aos nossos dias, as romarias e os estatutos dos romeiros sofreram muitas alterações, corrigindo situações e proibindo alguns abusos, mas o essencial é que mesmo com alterações, continua a ser uma tradição, cada vez com mais adesão popular. Muitos emigrantes vêm de propósito do Canadá e da América para participar nas romarias.

Depois de meses de encontros e de preparação chega o dia da partida. Com o cajado na mão, saem da Igreja da sua localidade, cantando em altas vozes a Avé Maria, e lá vão os Romeiros em busca de todas as Igrejas e Ermidas da Ilha onde haja uma invocação à Virgem.

Pernoitam em casa das pessoas que os queiram receber. É tradição dos proprietários proporcionar-lhes banho, comida e dormida em camas lavadas e até alguns oferecem-se para lavar-lhes os pés como sinal de respeito.

Sete dias passados, eis que de novo os Romeiros entram na sua Igreja Paroquial e onde se despedem uns dos outros, findando assim uma jornada de introspecção e penitência que os marcará para a vida.

Cada rancho tem um Mestre. O Mestre é a primeira de todas as figuras do Rancho. É ele quem preside ao auto processional, quem dirige as orações, quem oferece, quem suplica a Deus e à Virgem as inúmeras preces de que vem incumbido. Ao Mestre deve-se obediência, a quem antigamente se beijava a mão de manhã e à noite, e é ele quem dá o sinal de descanso e a ordem para se recomeçarem as preces. O seu lugar é no fim do Rancho, a meio das alas que os Romeiros formam pela estrada fora. É o primeiro que se ajoelha, é o último que à noite se recolhe a descansar, é o primeiro que na madrugada seguinte se apresenta para a nova caminhada. É ele quem pede ao anoitecer, na freguesia ou Vila onde chegam, pousada para os Romeiros, é o que agradece os favores recebidos, é o responsável por qualquer anormalidade que se dê entre os Romeiros, e é o ultimo a receber favores ou regalias.

Hierarquicamente abaixo do Mestre, há o Procurador das Almas, que tem o seu lugar a meio do Rancho, porque é ele que pela estrada fora dirige as preces e pede a aplicação delas, é quem recebe durante o trajecto os pedidos de diferentes pessoas, para orações aplicadas a diversas intenções; daí o nome de Procurador, e das Almas porque de quando em quando, manda todo o Rancho rezar por elas.

A terceira figura do Rancho é o Guia, que vai à frente de toda a Romaria, porque é o mais conhecedor dos caminhos, das veredas e das ribanceiras, dos mais curtos atalhos por onde todo o Rancho terá de passar para chegar até todas as Ermidas e Igrejas espalhadas pela Ilha. Costuma ser uma pessoa mais velha, geralmente batida em longos anos naquela caminhada.

Nenhuma destas figuras usa porém algo que as diferencie dos outros. O traje é igual para todos, consistindo geralmente num colorido lenço regional atado ao pescoço, num xaile, e uma cevadeira às costas, presa por uns cordéis aos ombros, cajado ou bordão numa mão e um Rosário pendurado na outra.

A comida, que para alguns pouco mais varia do que pão e queijo, levam-na na cevadeira, e dá até meia jornada. As famílias vão ao seu encontro entregar-lhes a comida para o resto da viagem.

Não só pela sua persistência ao longo dos séculos, mas também pela originalidade de certos elementos que lhe são inerentes, é um fenómeno etnográfico de grande interesse.

Muita coisa se pode dizer sobre os romeiros. Mas só se percebe e sente-se o que é um romeiro, sendo crente ou não, quando passamos por um rancho e ouvimos o entoar das suas preces. Quase que conseguimos sentir as suas dores e a sua fé e por uns breves momentos aqueles homens com os seus cânticos e os seus pés feridos fazem-nos sentir que ainda há esperança…

“A verdadeira viagem da descoberta consiste não em buscar novas paisagens, mas em ter olhos novos.”
Marcel Proust

GESTOS DE CIDADANIA E CONSTRUÇÃO DE MOINHOS

JORGE NUNO
Entre as múltiplas atividades que promoveram o meu crescimento, registo, com agrado, a dedicação de cerca de 30 anos da minha vida à educação e formação de adultos, alguns envolvendo uma complexa diversidade cultural na escola. Pode soar a autoelogio, mas não deixo de referir que quase na totalidade desse tempo senti-me motivado, com iniciativa na procura da inovação, tendo-me envolvido em projetos de importância estratégica para o país, abrangendo este setor, mas particularmente para as pessoas – os verdadeiros destinatários dessas estratégias –. Tinha consciência de que por trás do meu ganha-pão estava o interesse social da atividade realizada. Talvez como resultado desse meu crescimento sustentado, enquanto pessoa, encarei esta atividade com profissionalismo e espírito de missão. Tive mesmo genuínos momentos de alegria interior quando fui professor nos primeiros quatro anos de uma universidade sénior, até mudar de região e de panorama.

Não tenho dúvida que políticas erradas, a começar pelo “deitar abaixo” projetos em marcha com provas dadas, passando também pelo desinvestimento público no setor, até se sentir o vazio que fica, o desencanto dos agentes da educação e da formação, o baixar de braços, apatia generalizada, o crescimento do voyeurismo através da TV e de outros programas da treta, com os canais televisivos a baixar o nível qualitativo dos programas, numa competição desenfreada para obter as maiores audiências… Sabemos que a vida é feita de altos e baixos, ficando agora a ideia que estaremos perante um novo fôlego, com o atual Presidente da República (PR) portuguesa a deixar transparecer que a quer puxar para cima. 

Lembro-me de ter lido algures que “quem não promove a cultura por uma questão ‘cultural’ não quer que os outros pensem cidadania”. Lembro-me da minha persistência em querer passar a mensagem que a cultura pode levar a que sejamos interventivos na sociedade, para que haja mais vontade de sermos atores, declinando a ideia de sermos meros espetadores passivos. Mais cultos, não permitiríamos a continuidade da existência de mecanismos de esbanjamento dos dinheiros públicos, pois seríamos mais vigilantes e exigentes. Mais cultos, não nos deixaríamos enganar pela demagogia e por populismos extremistas. Mais cultos, não permitiríamos que a democracia fosse mal-usada, a ponto de a tornar frágil, já que instituições fortes e credíveis seriam sustentadas por pessoas responsáveis, com caráter, exigentes consigo próprias e com os outros.

Acabei de ler numa nota de rodapé de um canal televiso, sem saber mais pormenores, que o presidente americano quer diminuir o investimento federal nas artes e nas humanidades. Durante a campanha eleitoral, quando confrontado com uma notícia de 1998, que dava conta de ter afirmado que seria simples ser candidato pelo Partido Republicano “porque os seus eleitores são burros”, não desmentiu (apesar da notícia poder ser falsa) e terá dito que não se importava nada que estúpidos e ignorantes votassem nele, desde que, com isso, contribuíssem para sua eleição. Muitas outras notícias, eventualmente falsas, colocadas nas redes sociais, terão contribuído para atrair eleitores indecisos e pouco esclarecidos. Vitorioso, em tempos de mudança, continua a ordem para a construção dos muros.

Contrastando, tenho vindo a ser surpreendido, pela positiva, pelo atual PR de Portugal. Uma das últimas surpresas relaciona-se com a devolução (não doação) de 45 mil euros que sobraram da sua campanha eleitoral, paga com dinheiro dos contribuintes. E fê-lo, entregando 20 mil euros à Associação de Solidariedade Social e Recreativa de Nespereira, uma IPSS de Cinfães, que ele considerou ser um dos concelhos mais carenciados do país, sendo essa quantia destinada à aquisição de uma carrinha de apoio domiciliário; entregou também 25 mil euros ao agrupamento de escolas de Mogadouro, destinado ao investimento num laboratório – que não tinha –, ficando a saber-se que este agrupamento ficou em último no ranking das escolas, ao nível de ensino secundário. Houve logo quem comentasse publicamente o assunto, referindo-o como “esmola presidencial”, de querer um povo “venerador”, que “a generosidade do Presidente pode ser uma precipitada e pouco informada beatitude”… Todos sabemos que não é da competência do PR efectuar este tipo de financiamento e que nada o obriga a seguir as pisadas e a ter a postura dos seus antecessores. Os mais esclarecidos sabem que o ranking das escolas é de uma tremenda injustiça, por compararem realidades diferentes. Os mais esclarecidos não aceitam que as IPSS tenham a importância que têm hoje, particularmente no interior desertificado, quando os governantes têm ferramentas para possibilitar aos setores público e privado desenvolver essas regiões, criar riqueza e minimizar a pobreza e o isolamento das populações. Também os esclarecidos chineses, através de um seu provérbio milenar, sabiam e sabem que “quando sopram ventos de mudança, uns constroem muros, outros constroem moinhos”.

O MILITANTE ELECTRÓNICO

JOSÉ LO FERREIRA
A internet apresenta-se-nos como um dos meios de comunicação mais rápidos e eficazes da atualidade. Permite a transmissão de informações de forma instantânea, seja politica, laboral, cultural, cientifica ou de lazer. No campo político, é possível utilizar a internet para promover e divulgar eventos, propostas ou objetivos, bem como mobilizar cidadãos para essa causas.Esta nova realidade, sendo positiva, veio descaracterizar e lançar um enorme desafio, à forma de fazer política que defino como militante eletrónico. A participação cívica pode a partir desse momento ser realizada sem que o fator distância seja problema. 

A internet democratiza e possibilita a todos intervir cívica e politicamente . O que não dispensa o alargamento da base social de apoio para umas eleições cujo futuro depende da participação ativa, é mesmo a proximidade dos seus atores, e, neste particular a militância de rosto humano, não pode nunca ser substituída pela militância eletrónica e suas consequências, sobretudo numa altura em que por cansaço ou comodismo a maioria prefere a quietude.

BRITISH REALPOLITIK: SERÁ THERESA MAY UMA DEMOCRATA?

TIAGO CORAIS
Já aqui escrevi da necessidade de semearmos os “Guardiões da Democracia” e esta semana tentarei responder às minhas dúvidas sobre se a Theresa May DEFENDE E PROMOVE OS VALORES DA DEMOCRACIA.

Para mim, uma pessoa que defenda e promova os valores da Democracia, vê-se principalmente na forma como respeita o estatuto da oposição, as leis, as minorias, fomenta a diversidade de opiniões, a liberdade de imprensa e principalmente investe na formação dos seus Cidadãos fornecendo os intrumentos para que sejam capazes de ter um livre pensamento.

Theresa May foi uma “soft” apoiante da manutenção do Reino Unido na UE, não por convicção mas por táctica partidária. Mais, eu nem acredito que ela tenha votado dessa forma, pois a sua agenda como Ministra da Administração Interna sempre foi controlar os números da imigração no Reino Unido. Criou leis que dificultam os imigrantes de conseguirem o visto permanente, definiu até que para continuarem a viver no Reino Unido teriam de auferir um salário de pelo menos £35,000 ano.  Já foram muitas as pessoas vítimas destas leis e ao contrário do que poderíamos pensar também foram quadros qualificados e integrados na Sociedade Britânica. É impossível que quem tenha esta obsessão pela Imigração apoiasse a manutenção na UE. As intenções dela sempre foram ser Primeira-Ministra. SER DEMOCRATA É SER AUTÊNTICA, THERESA MAY NÃO FOI E NÃO É.

Uma das primeiras iniciativas como Primeira-Ministra foi visitar a Escócia e falar com a líder do Governo Escocês dando uma mensagem de que iria ouvir e “construir” um Brexit com todos os membros do Reino (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte). A mensagem era de União e Respeito pelas partes. No entanto, sempre disse que “Brexit means Brexit”, levando com que os mídias brincassem com essa expressão, publicando caricaturas com os seus ministros apresentando os seus planos orientados da mesma forma, ou seja, planos com chavões e vazios de ideias. “Brexit means Brexit” dava sinais do que poderia acontecer o pior e se no dia seguinte entendi o voto dos Britânicos, convicto que iriam encontrar uma saída que unisse o Reino Unido, quando começo a ouvir os primeiros discursos da Theresa May não gostei e percebi que ela seria Nigel Farage de saia, que não quer saber da Escócia porque o seu Partido não tem expressão lá.   SER DEMOCRATA É DEFENDER A UNIÃO DO SEU POVO. THERESA MAY NÃO QUER SABER DA UNIÃO.

Com Theresa May, o Partido dos Conservadores tornou-se um partido radical, irresponsável e populista como o UKIP.  Defendendo que os resultados do Referendo foram muito claros e que têm que respeitar a escolha democrática. Um “cliché” que tem muito de inverdade, não só os resultados não foram assim tão claros, com uma diferença apenas de 4%, quando na Escócia, na República do Norte e Gibraltar votaram pela manutenção, para não falar que em Londres, Bristol, Oxford, Cambrigde, Manchester, Leed, York, Liverpool que também votaram pela permanência na UE. Para quem não sabe os Cidadãos originários dos Países da Commonwealth puderam votar, mas os Europeus a residir no Reino Unidos e os Britânicos a viverem fora do Reino Unido não lhes deram a oportunidade de ter voz numa matéria que deve existir um consenso alargado na sociedade. Se Theresa May e os Conservadores fossem um partido democrático, no mínimo aceitariam a proposta que por duas vezes a rejeitaram no Parlamento, em que os Cidadãos Europeus a residir no Reino Unido teriam o direito a continuar a viver aqui e não seriam a moeda de troca. SER DEMOCRATA É DEFENDER OS VALORES HUMANISTAS, THERESA MAY NÃO QUER SABER DOS BRITÂNICOS A RESIDIR FORA DO REINO UNIDO, QUANTO MAIS DOS EUROPEUS A RESIDIR NO SEU REINO.

Numa Democracia Parlamentar, como a é no Reino Unido, o Parlamento e o estatuto da Oposição são para respeitar. No entanto a Theresa May, entende a sua função como Primeira-Ministra, como a única que pode “ditar” as regras, desvalorizando totalmente o Parlamento. Isto foi evidente na forma como ela gostaria de gerir o Brexit sem debatê-lo na Casa da Democracia. Foi forçada pelo Supremo Tribunal a fazê-lo, no entanto pressionou a sua bancada a seguirem as suas directrizes e não aceitou nenhuma proposta apresentada pelos deputados. Em todos os Parlamentos dos restantes países Europeus será votado o acordo da saída do Reino Unido da UE e Theresa May queria que isso não acontecesse no Reino Unido. Afirmou mesmo, que se a votação do acordo for chumbada que não iria propor nenhuma alternativa à UE. Prefere nenhum acordo a um mau acordo. SER DEMOCRATA É RESPEITAR O PARLAMENTO, O ESTATUTO DA OPOSIÇÃO E PRINCIPALMENTE NEGOCIAR RESPEITANDO TODAS AS PARTES. THERESA MAY SÓ SABE IMPOR.

Muito mais exemplos poderia aqui partilhar para chegarmos à conclusão que Theresa May no mínimo tem um défice muito grande sobre o que é ser uma Líder Democrata. A Democracia vai muito para além do voto e por isso é importante que os nossos parceiros Europeus que vão sentar-se à mesa das negociações com o Reino Unido tenham muito cuidado. Aos Europeus que residem no Reino Unido aconselho a todos para que tenham voz se inscrevam nos Partidos Britânicos (como estou filiado no Partido Trabalhista recomedo este mas o mais importante é estar inscrito num) e participem de forma activa, porque numa DEMOCRACIA A PARTICIPAÇÃO DOS CIDADÃOS É FUNDAMENTAL.

sexta-feira, 17 de março de 2017

ENVELHECER: QUANDO? AGORA?

GABRIELA CARVALHO
Nesta crónica escrevo-vos sobre uma experiência de “hoje”, uma conversa com um dos meus “utentes” que me fez reflectir, mais uma vez, sobre como é que EU quero ENVELHECER… Sou uma felizarda por poder, diariamente, contactar com uma população que me enriquece de histórias e de vivências e me permite desde muito cedo, pensar e repensar o que quero para aquilo que chamamos de “ser velho” / “velhice”.

«Envelhecer acontece desde que nascemos, apesar das pessoas dizerem que primeiro “crescemos” e depois “envelhecemos”», diz-me “Ele” num tom de voz forte.

É uma frase simples, mas que muda significativamente o curso da nossa vida. Isto é, se considerarmos que efectivamente primeiro crescemos e depois envelhecemos, talvez quando formos preparar este “envelhecimento” o tempo urja e não seja tão fácil vivenciá-lo.

Em contrapartida, se tivermos consciência que desde que nascemos iniciamos o longo processo de envelhecer, a forma como nos preparamos e o vivenciamos torna-se necessariamente diferente.

Neste aspecto “estávamos de acordo” e para nós pareceu-nos fácil de entender! Ambos em idades muito diferentes…

«E a reforma? Essa é que trás mudanças… muitas mudanças…!» e respirou profundamente! Sobre essa experiência, particularmente não posso falar… disse-lhe eu. Mas sabe, quando estive 3 meses em casa por motivos de saúde, senti a “dificuldade” de “não estar no activo”. Não demorou a responder-me. «E sabe porquê? Sabe? Porque foi apanhada de surpresa, porque não se preparou… acontece a muitos, não se prepararem para a reforma!» Comparação talvez exagera temporalmente, mas com algum sentido!!!

De facto, o envelhecimento assume um papel mais significativo quando a pessoa transita para a reforma. Existem muitas alterações associadas a este processo, sendo exemplo a perda ou alteração de papéis sociais, como o de trabalhador para o de reformado. E a palavra “reformado” assume sempre uma conotação menos positiva, particularmente quando este novo estatuto se concretiza de forma passiva.

Assim, muitas vezes vemos pessoas singulares e/ou casais cujo papel de reformado lhes permite vivenciar toda uma panóplia de experiências que os seus empregos lhe limitavam: passear mais, conhecer outras realidades, estar mais tempo com a família e os amigos… No entanto, existe o outro grupo, cuja reforma trás uma perda de contactos sociais significativos e condu-los para o isolamento, para o sentimento de vazio e até de inutilidade.

Em que grupo me posicionarei?

Foram cerca de 15 minutos de conversa, mas daquelas que me encheu a alma e me permitiu mais uma vez sentir-me uma felizarda por poder, diariamente, contactar com uma população que me enriquece de histórias e de vivências e me permite desde muito cedo, pensar e repensar o que quero para aquilo que chamamos de “ser velho” / “velhice”.


“Mais do que acrescentar anos à vida, a Terapia Ocupacional proporciona vida aos anos.”

PROCEDIMENTOS DA CONTRATAÇÃO PÚBLICA

ANA LEITE
O Código dos Contratos Públicos (C.C.P.) é, no fundo, o conjunto de regras e princípios que regulamentam os procedimentos de direito público, destinados à celebração de determinados contratos. A escolha do procedimento para a celebração dos contratos públicos pressupõe a ponderação da sua adequação ao objeto da contratação. Embora a escolha entre o ajuste direto, o concurso público e o concurso limitado por prévia qualificação não está dependente da demonstração de requisitos materiais previamente fixados na lei, ao contrário do que acontece com o procedimento por negociação e o diálogo concorrencial, o decisor deve enunciar a motivação da sua escolha para que seja possível sindicar a prossecução do interesse público, ou o respeito pelos princípios definidos no n.º 4 do artigo 1.º do Código: transparência, igualdade e concorrência.

A decisão de contratar inicia o procedimento e pode aglutinar um conjunto de outras decisões instrumentais que são relevantes para a contratação, tais como a escolha do procedimento de adjudicação, a aprovação das peças de procedimento e a nomeação do júri, ou omissão, nos casos de ajuste direto. A decisão de contratar cabe ao órgão competente para a decisão de autorizar a despesa inerente ao contrato a celebrar O legislador não se preocupou, no código dos contratos públicos, em dar uma noção de cada um dos procedimentos adjudicatórios de contratos administrativos. A exceção a esta orientação prende-se na noção de ajuste direto no artigo 122.º.

O ajuste direto é um procedimento pré-contratual através do qual a entidade adjudicante convida diretamente uma ou várias entidades à sua escolha a apresentar uma proposta. Desta noção, retira-se que o ajuste direto compreende duas hipóteses: o ajuste direto sem qualquer consulta prévia ou ajuste direto com convite a uma entidade e o ajuste direto com convite a várias entidades ou a vários interessados – podendo aqui ocorrer uma fase de negociação. O concurso público está previsto nos artigos 130.º e seguintes do C.C.P., e embora o código não o defina, a noção de concurso público não se fasta da que constava do artigo 47.º, n.º 2 do Decreto-lei n.º 59/99, de 2 de março: “O concurso diz-se público quando todas as entidades que se encontrem nas condições gerais estabelecidas por lei podem apresentar proposta”. O C.C.P. prevê as seguintes modalidades de concurso público: concurso público normal (artigo 130.º e seguintes) e concurso público urgente (artigo 155.º a 161.º). 

O concurso limitado por prévia qualificação está regulado nos artigos 162.º a 192.º. e consultadas as Diretivas europeias, que justificaram a aprovação deste código, podemos dizer que, é o procedimento “em que qualquer operador económico pode solicitar participar e em que só os operadores económicos convidados pela entidade adjudicante podem apresentar propostas”. 

O procedimento de negociação constitui um procedimento pré-contratual em que as “entidades adjudicantes consultam os operadores económicos da sua escolha e negoceiam as condições do contrato com um ou mais de entre eles”. O artigo 29.º do código enuncia os casos em que é admissível o recurso a este tipo de procedimento. Isto porque a negociação como meio de adjudicação de contratos é contrária ao princípio da concorrência. Este procedimento está regulado nos artigos 193.º a 203.º do Código dos Contratos Públicos.

Por fim, encontra-se regulamentado ainda o diálogo concorrencial (artigos 204.º a 218.º). Este procedimento foi introduzido com a transposição das diretivas comunitárias. De acordo com a Diretiva 2004/18/CE, o diálogo concorrencial “é o procedimento em que qualquer operador económico pode solicitar participar e em que a entidade adjudicante conduz um diálogo com os candidatos admitidos nesse procedimento, tendo em vista desenvolver uma ou várias soluções aptas a responder às suas necessidades e com base na qual, ou nas quais, os candidatos selecionados serão convidados a apresentar uma proposta”. Nos termos do n.º 1 do artigo 30.º do C.C.P., o diálogo concorrencial é aplicável “quando o contrato a celebrar, qualquer que seja o seu objeto, seja particularmente complexo, impossibilitando a adoção do concurso público ou limitado por prévia qualificação.” 

Os critérios de escolha de procedimento adjudicatório estão regulados nos artigos 16.º a 33.º do código. Com este novo código é abandonada a ideia segundo a qual, nos termos da anterior legislação, os procedimentos pré-contratuais eram escolhidos em função do valor estimado do contrato a celebrar. Agora, na escolha do procedimento deve ser considerado o valor do contrato, a escolha em função de critérios materiais e a escolha em função de outros critérios – nomeadamente tipo de contrato e entidade adjudicante.

quinta-feira, 16 de março de 2017

FÁTIMA E A PONTE

HELDER BARROS
Fátima era uma jovem estudante que tinha chegado à Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, oriunda de uma pequena aldeia do interior do distrito de Aveiro. Uma caloira perdida numa cidade grande, tendo em conta a dimensão do nosso país, com a maior academia, cerca de quarenta mil estudantes, no final dos anos oitenta do século passado. Já tinha visitado várias vezes a cidade do Porto, particularmente no caso de consultas médicas dela ou dos pais. Era filha única e como tal, a sua saída de casa, ainda que fosse para estudar e melhorar os seus conhecimentos gerais perspetivando um futuro melhor para si, deixava os seus pais muito tristes e perdidos, afinal, ela era a menina dos seus olhos. Uma filha que resultou de várias gravidezes, várias resultaram em abortos espontâneos e ou provocados, e, assim que nasceu, os médicos ditaram que a Mãe não se poderia submeter a uma nova gravidez, pois colocaria a sua vida e a de um eventual feto em risco. Ficou filha única e como tal, era o centro de atenções da família. Na sua terra as suas virtudes eram conhecidas por todos, fruto de uma educação cuidada e zelosa que os seus pais lhe concederam com muito amor e afeto.

Vinha todas as semanas para o Porto de autocarro e, chegando à Ponte de D. Luís, aos domingos à tarde, ficava sempre fascinada com a sua imponência e paisagem que a perspetiva do segundo andar dos veículos pesados de passageiros, permitiam. Assim, os horizontes de ocaso para o lado do mar que, contrapunham às águas fundas do Rio Douro a montante e a cascata de casario das Fontainhas, nas arribas fundas e de grande declive, eram de tal forma mágicos que, a sua atração pela Ponte e por aquela paisagem, faziam com que sempre que podia, Fátima viesse a pé da Residência feminina de estudantes da Rua Miguel Bombarda, transversal da muito comercial e universalista Rua de Cedofeita, até aquela imponente estrutura metálica que tanto a atraía e fascinava, pela sua dimensão, beleza e pelo abismo que criava no interior mais profundo da sua consciência, imersa no ambiente oculto e opaco dos seus medos e fantasmas… até parecia que conhecia aquele local desde sempre, de outras vidas, pensava para si... 

Tratava-se de uma rapariga simples, da província que, à custa dos múltiplos estímulos da vida académica, acordou para uma realidade que, até então, não era a sua. O seu nome foi dado pela madrinha que tinha uma grande fé na Nossa Senhora de Fátima e que, com a alegria de ter uma afilhada, quis dar-lhe o nome da santa que tanto venerava. Não era bonita nem feia, nem alta nem baixa, uma rapariga absolutamente normal. Durante o primeiro ano do curso, por via da sua condição de caloira, participou em muitas atividades com os “Doutores” e “Madrinha” de praxe. Passou de um estado de pureza, conforme à sua vida simples na aldeia, para uma voracidade de tudo querer experimentar, na magia que a noite infunde naqueles que a ela se rendem, mormente, nos primeiros tempos. A experiência de trocar uns beijos com uns rapazes depois de uma noite de copos e de danças exóticas, quase libertadoras, assumia uma dimensão de tal euforia nela que, mais parecia que a vida estava toda ali, se resumia naqueles momentos de êxtase. Nunca tinha vivido tão intensamente nada, pelo menos era o que, erradamente pensava, ludibriada pelo despertar dos sentidos, no vigor da sua juventude em estado virgem. 

O primeiro ano não correu muito bem em termos académicos, o seu curso era duro e obrigava a muito estudo. Fátima começou a deixar-se embalar pelas noites, não frequentando as aulas, primeiro da parte da manhã, mais tarde, nem matinais nem vespertinas… Um curso de matemática, quase sem números, só letras, numa simbologia complexa com axiomas incompreensíveis à primeira, segunda, terceira… e muitas vezes, “n” estudo para nada. Os pais iam perguntando se o curso seguia bem. Ela encolhia os ombros e respondia o clássico - “mais ou menos” -, que dá para tudo, para dizer que está a correr bem, mesmo sendo real a situação oposta. Os pais, gente simples mas honrada, confiavam em pleno na filha e com algumas dificuldades, foram respondendo sempre aos pedidos crescentes das semanadas que ao longo do ano letivo foram aumentando. Estranhavam e questionavam o valor sempre em crescendo das mesmas, mas a necessidade de muitas fotocópias para estudar, deixava-os até contentes, afinal a filha fartava-se de estudar, era uma menina muito aplicada, afogada de papeis e livros no seu quarto na residência de estudantes. 

Estávamos agora no segundo ano de curso, no limiar do início da queima das fitas, nos finais do mês de abril de 1993, Fátima nos últimos dois meses, deixou de ter menstruação. Começou a deprimir, com fortes possibilidades de estar grávida, não sabendo ao certo quem seria o Pai, embora desconfiasse que fosse do Pedro, do quarto ano do curso, para ela o maior candidato; afinal, foi com ele que teve mais relações sexuais, pelo menos, das que se conseguia lembrar. O curso seguia mal, tinha muitas cadeiras para fazer do primeiro ano e mais ainda do segundo que, ainda estava a correr pior. Praticamente não abria a boca em casa, por mais que os pais puxassem por ela, não saia nada. O ambiente estava pesado, Fátima remoeu a sua dor em solidão. Viveu os seus dias consecutivamente como que procurando sair dum túnel sem saída. Poderia estar o dia muito luminoso e claro, mas, na sua mente, só restava um negrume que se instalou e se tornava sempre mais escuro, tirando qualquer réstia de sentido à sua vida. Para ela cada vez mais ganhava forma, a ideia de que, não havia réstia de esperança que lhe valesse. 

Havia, porém, uma coisa que lhe atenuava a sua dor, um pensamento compulsivo naquela ponte que a atraía para o abismo. Fátima começava a ir, logo de manhã, para a ponte atravessando-a de um lado para o outro. Começava a parar várias vezes no meio da mesma. Várias vezes, pessoas, principalmente, as mais velhas, interpelavam-na dizendo-lhe coisas do género: “Menina não se deve ficar parada a olhar para o rio no meio da ponte, só atrai ideias más…”. Maria, sorria levemente e envergonhada, seguindo a sua viagem sem destino, nem direção. Às vezes quando dava por si já andava na marginal marítima de Vila Nova de Gaia – o mar, as ondas a baterem na penedia, serenavam de alguma forma o seu sofrimento. 

Começou a pesquisar sobre pessoas que se suicidavam na ponte D. Luís e já sabia que as correntes marítimas a conduziriam para norte, em caso de chegar ao mar. Sabia que existia um herdeiro da fama e da prática do saudoso “Duque da Ribeira”, um velho pescador que, sempre que era alertado para alguma queda fatal, tentava de imediato recolher os corpos, o que aconteceu muitas vezes. Outras vezes, em virtude da força das correntes que as marés provocavam, era impossível a recuperação dos corpos, entrando os mesmos na corrente marítima que os haveria de aportar a uma praia a norte da Foz do Rio Douro. 

Cada vez mais isolada e deprimida, nem sequer conseguiu gozar a queima das fitas. A única noite em que saiu, andou perdida no recinto dos jardins do Palácio de Cristal, no meio da confusão de estudantes, uma enorme multidão, mas sem conseguir ver ninguém. Foi fazer uma visita noturna à ponte que tanto a atraía. Para ela estava perfeito, de noite, ainda tornava o ambiente mais propício. Colocou os braços na grade da ponte e debruçou-se sobre as águas ainda mais negras da noite e a atração que sentia era fantástica. Sentia uma vontade incontrolável de mergulhar naquelas águas escuras que tinham para ela, tanto de mistério, como de vontade de as penetrar profundamente até à morte. Este pensamento compulsivo que não a largava, consistia nos únicos momentos de paz e de libertação que a pacificavam de uma forma inexplicável e paradoxal, fazendo tudo esquecer, dando esperança à sua libertação do mundo dos mortais. 

No dia do cortejo da “Queima das Fitas” sentou-se num muro a beber cerveja, consumida pelo seu desejo de mergulhar no Rio Douro, da saltar daquela ponte mágica, pelo menos, era assim que a considerava. Havia ali um misto de vertigem e de vontade de saltar no precipício, uma estranha aliança entre a tríade do medo, do precipício e da vontade de voar para a escuridão das águas. Um portal libertador de uma vida sem perspetivas, para umas águas profundas e escuras, da dimensão da sua inquietude. No final do dia, estavam a acabar de passar os últimos carros do cortejo, Fátima seguiu com um olhar fixo e vazio, quase que num estado de hipnotismo, dos Clérigos para a Ponte, com uma vontade inabalável de se mandar da mesma abaixo. Assim, chegou a meio da ponte, do lado a juzante da mesma, avançou a grade sem medo algum e ficou pensativa a olhar para baixo. Vários carros passaram e apitaram no sentido de ela sair da posição em que se colocou, de acordar do seu pesadelo. Um autocarro que vinha em sentido contrário, de Gaia para o Porto, ainda parou, mas já Fátima tinha feito um salto para a morte. 

A diferença entre estarmos vivos ou mortos consiste numa linha muito ténue. Ninguém, de forma honesta, poderá afirmar que nunca pensou em suicídio. Jamais poderia criticar um suicídio de uma pessoa que esteja numa estado de desesperança total, como Fátima. Afinal, por vezes, é apenas uma questão de circunstância, de termos ou não meios para realizar um ato de loucura. No caso de Fátima, ainda por cima, existia um fascínio por saltar da ponte, tudo na sua vida num determinado momento se conjugou para um salto de morte. Conheci esta jovem e nunca me apercebi desta vontade de precipício que aquele ser tinha dentro de si, quase sempre a vi sorrir e viver de forma arrebatadora nas noites da grande cidade… nunca sabemos o que vai na mente de uma pessoa, por mais ou menos próximos que sejamos dela… Fátima viria a dar à costa numa praia quase junto à foz do Rio Ave. O seu desejo consomou-se, a sua última viagem foi mesmo como ela imaginou. A vida é mesmo uma dádiva, mas nem todos estamos em condições de a receber, porque esta às vezes parece que nos reserva estranhos desígnios que não conseguimos controlar… a diferença entre viver ou morrer, neste caso, resumiu-se a um salto no escuro…