terça-feira, 31 de janeiro de 2017

IMPOSTOS 2017

RUI CANOSSA
Caro leitor da BIRD, hoje vamos falar de um dever que há muito já se habituou. Pagar impostos. De facto, as nossas obrigações implicam andarmos atentos, inclusive para podermos beneficiar com aquilo que a Autoridade Tributária (AT) permite.

Assim, tenha em atenção o seguinte. Tem até ao dia 15 de fevereiro para validar as faturas que aparecem na sua página do e-fatura para poder beneficiar das deduções no IRS relativas aos rendimentos de 2016. De facto tem de aceder ao e-fatura, introduzir os seus dados como o número de contribuinte e colocar a sua senha para poder aceder à sua página. Depois só tem de dizer, clicando nas figurinhas do lado direito a que consumo correspondem as faturas que lá aparecem. É muito intuitivo e vai beneficiar com isso. Se tiver na família alguém que não perceba nada disto que acabei de dizer, ajude essa pessoa para que possa beneficiar em pleno dessas possibilidades. Se verificar erros, pode reclamar entre 1 e 15 de março.

A entrega do IRS vai ter este ano, um único prazo, quer para os trabalhadores dependentes, quer para os trabalhadores independentes e as restantes categorias de rendimentos. Ora tome nota, o prazo único decorre entre 1 de abril e 31 de maio, tanto para as declarações em papel como para quem opte pela declaração eletrónica. A partir deste ano também, a AT vai disponibilizar no Portal das Finanças uma declaração provisória por cada regime de tributação (separada ou conjunta) e donde constam os elementos que serviram de base ao cálculo das deduções à coleta e a liquidação provisória do imposto.

Reembolsos e pagamentos. O Estado tem de processar os reembolsos de IRS até 31 de julho, enquanto que os contribuintes que tenham ainda de pagar imposto ao fisco tem de o fazer até 31 de agosto, sob pena de terem de pagar coimas.

Só mais uma coisa. A Autoridade Tributária e Aduaneira tem conhecimento de que alguns contribuintes têm recebido mensagens de correio eletrónico nas quais se solicita a regularização de dívidas fiscais. Nessas mensagens é pedido que se descarregue um ficheiro através do link que é fornecido. Estas mensagens são falsas e devem ser ignoradas. O seu objetivo é convencer o destinatário a descarregar um ficheiro com conteúdo malicioso.

Em caso algum deverá efetuar essa operação, pois trata-se de “Phishing” que quer dizer pesca em inglês, é uma forma de fraude eletrónica, caracterizada por tentativas de adquirir dados pessoais de diversos tipos; senhas, dados financeiros como número de cartões de crédito e outros dados pessoais. Tenha muito cuidado.

NA CAMA COM O ESCOCÊS

ELISABETE SALRETA
Todos os dias ela tem um ruivo à espera.

Abre a porta de casa e é sempre recebida com o mais caloroso dos olhares e de uns braços que se transformam num abraço apertado, daqueles que preenchem todo um coração sequioso, perdido, na lonjura do dia que se passou. Aqueles poucos segundos que passam nos braços um do outro, são um eterno renovar de uns votos sem necessidade de renovação. Já têm um selo a sangue que os une para a eternidade da vida. Chama-se amor.

Mas este é diferente porque nem a morte os separará. Enquanto existir a lembrança dele, é eterno. São assim os amores verdadeiros onde não existem separações possíveis. Não existem traições, porque quando estão juntos, o momento é só deles e nada mais existe. O mundo simplesmente esfuma-se à sua volta deixando-os rodeados de uma aura de brilho.

Olham-se nos olhos e vêm a alma um do outro e conhecem-na tão bem. São velhos viajantes do tempo e esta vida é apenas mais uma renovação de tão apertado laço unido num silêncio e abençoado com o pó das estrelas. Consagraram-se num amor sem limite que vai muito além do plano terreno.

A sua união é invejável, pois é de uma pureza transversal a todos os sentidos.

Beijam-se a todo o momento, com o olhar e partilham a sua cumplicidade com gestos quase impercetíveis e todos que dizem – estou aqui! Mas sabem que o outro está sempre lá. O cordão que os une, invisível aos demais, é muito forte.

Quando inicia o serão e se sentam no sofá, ele aproxima-se dela e embrenha o nariz no seu cabelo. Passa-o por entre os dedos daquelas mãos claras de pelos ruivos e acerca-se das suas orelhas. Lambe-as e mordisca-as com uma suavidade que advém desse amor tão profundo. Fico a imaginar os segredos que com ela partilha naquele momento em que sente o seu cheiro e a abraça uma e outra vez. Ficam ali por muito tempo, expressando todo o seu amor num momento só deles. Os seus beijos são muito calorosos e ambas as mãos passeiam pelos seus corpos num vai e vai de delicias.

Impossível de descrever este amor, deixo apenas uma ponta do véu levantada ao vosso olhar. Saibam que o amor verdadeiro é possível entre uma tutora amada e o seu gato, eterno namorado.

O príncipe das terras altas, o ruivo Óscar.

AS PALAVRAS

REGINA SARDOEIRA
Escrever sobre as palavras, com palavras, é, potencialmente, um paradoxo. Porém, é o tema sobre o qual, hoje, me apraz reflectir. 

Li, nas duas últimas noites, um livro de Stefan Zweig, cujo título principal é O Medo, mas se multiplica em vários contos.

Tal como na minha adolescência, quando lia às escondidas as obras deste autor austríaco dos inícios do século XX - diziam-me que elas não eram para a minha idade - também agora sinto o poder galvanizante das suas palavras. Hoje, provavelmente, procuro em Stefan Zweig outras sensações e releio-o porque sei de que modo ele foi (é) um escritor notável. Mas não tenho a certeza se a emoção que me acontece agora será essencialmente diferente do que me apaixonava quando tinha treze anos. 

Naquela altura, bebia nele um novo universo, nem sempre inteiramente familiar - que sabia eu da vida e do mundo com treze anos? - mas de uma intensidade tamanha que bem podia deixar escapar hiatos de compreensão: essas lacunas em nada prejudicavam o poder da fruição e o desejo de pegar nos livros que me estavam interditos e mergulhar em mundos fantásticos.

Continuei a relê -los, infatigavelmente; e, certos assuntos que a minha tenra idade e a minha educação rígida não absorviam, naquela época, foram, aos poucos, desvendados. Ora, se desocultei já os segredos, por que razão a eles regresso e continuo a experimentar sentimentos profundos quando leio as palavras inflamadas e precisas de um autor, tão perdido no tempo? 

É, exactamente, o uso certo das palavras, o modo como as tramas são criadas e apresentadas ao leitor, a argúcia de cada frase e a arte de me enviar, enquanto leitora, para os universos do escritor, acrescidos a uma beleza metafórica e a um domínio prodigioso do dom de escrever que tornam esta leitura uma aventura ímpar. 
Stefan Zweig soube escrever acerca de inúmeros temas e produziu biografias, contos, poemas, principalmente, textos curtos e obras extensas. Mas fosse qual fosse o género ou o tema, sempre tratou as palavras com suprema mestria. Nunca traiu o ofício - se é que escrever é, realmente, um ofício. (Agora que penso nisto, percebo que sim, entendo que a escrita, cujo material são as palavras é, de facto, um ofício; e ainda que, para dominá-lo, é necessário saber como se faz.) 

Escrever, e fazê -lo com a majestade de Stefan Zweig - e de muitos outros bons oficiais da escrita - exige um trabalho exaustivo que leva toda uma vida. Não basta ir à escola e aprender o modo correcto de usar a gramática, a sintaxe e a semântica. Não basta estudar as regras de composição da poesia, do romance, do conto ou do ensaio. É necessário ter uma predisposição (decerto inata) para observar o mundo, quer se trate das paisagens naturais ou humanas, quer incida nas atitudes fortuitas dos seres individuais, nos gestos com que se enunciam perante nós, nas peculiaridades, ou mesmo no jeito vulgar de ser. Mas também é necessário praticar, praticar muito. Essa prática envolve duas tarefas essenciais: o cultor das palavras, ou seja aquele que quer exprimir-se perante o mundo, usando esse veículo de comunicação, precisa de mestres; e eles estão, inteiramente, nas páginas dos bons livros. Quem quiser aprender a escrever, dando corpo ao talento que talvez possua, nunca o conseguirá se não fizer um intensíssimo trabalho de leitura. Lendo, absorve, aos poucos, a melodia encantatória da articulação das palavras em frases e logo em textos. Lendo, aprende a escultura das obras coesas, observa a pincelada exacta que une uma palavra a outra, apreende a arquitectura rígida dos sons e esvai-se na melodia harmónica do sentido. Une, nesta missão, todas as artes; e é por essa razão que a literatura oferece ao que a cultiva um campo indimensionável de sugestões, de cores, de sons, de linhas e volumes. Ao mesmo tempo e, provavelmente, imitando um mestre, a princípio, é necessário escrever, escrever muito. Escrever e pôr de lado, decerto rasgar e tentar de novo: o escritor precisa de encontrar a sua voz única, precisa de emancipar -se da influência do mestre e fazer a sua própria caminhada. 

Trata-se, por isso, de um ofício. Escrever, artisticamente, não é, tenho a certeza, comunicar uma mensagem, ser guia, servir de ajuda. Quem a tal se dedica faz manuais técnicos, e o escritor não é, meramente, um técnico, não é um artífice de regras de viver ou de slogans interesseiros. 

O escritor verdadeiro escreve porque antes leu. Escreve porque compreendeu que aquele que escreveu o que ele leu necessitou urgentemente de fazê -lo. E se sentir igual premência saberá que chegou a sua hora. 
Cuidará então de fazer sair o que armazenou em si; e as palavras certas acorrerão, umas vezes em ritmo jorrante, outras em penosa procura - porque nem sempre é fácil, mesmo para o iluminado, verter pensamentos em palavras. 

Hoje é difícil deparar com fenómenos extraordinários de arte e ofício como o que encontro nos livros de Stefan Zweig. Ou de Doistoievski. Ou de Saramago. (Quem puder e souber que acrescente nomes à lista.) Hoje é tudo descartável, feito à pressa ou por simples oportunismo. E dizem que o livro vai acabar e talvez já tenha acabado e um Stefan Zweig, um Dostoievski, um Kafka (...) sejam dinossauros extintos cujos nomes despertam somente uma curiosidade de museu. 

Por mim, continuo a deleitar -me com as palavras e amo todos aqueles que as usam com respeito - ou seja, criando universos tangíveis com essa matéria inestimável. E creio firmemente que o mundo tem empobrecido ao usar com leviandade o dom que nos foi outorgado, enquanto humanos, e que é, exactamente, a única conquista que realmente nos torna excepcionais no mundo a que pertencemos. Falo das palavras, é claro.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

COMO TER SAPATILHAS AJUSTADAS AO SEU PÉ

FÁTIMA LOPES CARVALHO
Para ser capaz de quantificar as sapatilhas de acordo com os parâmetros de ligeireza e flexibilidade de uma sapatilha de corrida, a revista Journal of Foot Ankle Research; publicou um artigo que esclarece quias as principais características de uma sapatilha e ajuda a esclarecer mediante pontuação o seu grau de minimalismo.
Existem uma classificação que assenta em 5 pontos:

PESO – é uma das características mais importantes de uma sapatilha e pode variar muito de modelo para modelo.
·         5 = Menos de 125g
·         4 = Entre 125g e 175g
·         3 = Entre 175g e 225g
·         2 = Entre 225g e 275g
·         1 = Entre 275g e 325g
·         0 = 325g ou mais.

ALTURA DO TACÃO TOTAL
·         5 = Menos de 8mm
·         4 = Entre 8mm e 14mm
·         3 = Entre 14mm e 20mm
·         2 = Entre 20mm e 26mm
·         1 = Entre 26mm e 32mm
·         0 = 325g ou mais.

DROP – calcula-se medindo a altura da meia sola na zona do calcanhar e a zona dos metatarsos. Se subtrairmos a altura do tacão à altura dos metatarsos obtemos uma medida que nos indica o ângulo de caída dessa sapatilha. Esta medida é indicada na etiqueta da sapatilha.
·         5 = Menos de 1mm
·         4 = Entre 1mm e 4mm
·         3 = Entre 4mm e 7mm
·         2 = Entre 7mm e 10mm
·         1 = Entre 10mme 13mm
·         0 = 13mm ou mais.

ESTABILIDADE E CONTROLE DE MOVIMENTO – são vários dispositivos cuja função é ajudar o pé tais como: contrafortes rígidos no calcanhar, palmilhas internas elevadas, elementos de tensão, peças plásticas presentes no mediopé, meias solas de diferentes densidades.
Assim a pontuação é de acordo com o número presente destes dispositivos
·         5 = Nenhum dispositivo
·         4 = 1 Dispositivo
·         3 = 2 Dispositivos
·         2 = 3 Dispositivos
·         1 = 4 Dispositivos
·         0 = 5 ou 6 dispositivos

FLEXIBILIDADE – a sapatilha é avaliada mediante a sua capacidade de flexão longitudinal e torsional.
Flexibilidade longitudinal
·         2.5 = Mínima resistência à flexão (é possível enrolar a sapatilha mais de 360º)
·         2.0 = Pequena resistência à flexão (flexão máxima de 360º): a parte dos dedos é capaz de torcer até ao calcanhar.
·         1.5 = Moderada resistência ao dobrar-se a sapatilha. A zona dos dedos não toca o calcanhar mas forma um ângulo de pelo menos 90º
·         1.0 = Grande resistência ao dobrar a sapatilha, a zona anterior e posterior formam um ângulo entre 45 e 90º
·         0.5 = Forte resistência à flexão, a zona anterior e posterior formam um ângulo máximo de 45ª
·         0 = Extema resistência à flexão
Flexibilidade torsional
·         2.5 = Mínima resistência à torção (é possível enrolar-se sobre si mesma)
·         2.0 = Pequena resistência à torção
·         1.5 = Moderada resistência à torção
·         1.0 = Grande resistência à torção
·         0.5 = Altíssima resistência à torção
·         0 = Extrema resistência à torção
Para obter um índice de minimalismo da sapatilha deve-se somar as pontuações das diferentes medidas e o valor total deve ser multiplicado por 4.
Assim uma sapatilha cujo peso é: 280g atribuímos uma pontuação de 1, altura de sola de 30,02mm pontuamos com 1; drop o tacão mede 18mm e a zona dos metatarsos 8mm logo o drop é de 18-8=10mm pontuamos com 2; se não apresentar elementos pontuamos com 5 e se a nossa sapatilha flexiona moderadamente e também se torce com relativa facilidade pontuamos com 1,5 em longitude e 1,5 em torção logo: 3+2+2+5+3=15*4=60% de minimalismo.
Esta sapatilha com este índice de minimalismo é extremamente ligeira, baixo drop sem presença de dispositivos de ajuda na contenção do pé e facilmente se dobra, este tipo de sapatilhas é indicado para corredores eficientes, para corridas rápidas, competições, corredores mais minimalistas.
E se o resultado do índice de minimalismo for 16%, como se caracteriza essa sapatilha?
Estas sapatilhas apresentam muito peso, muita altura de tacão e drop, apresenta vários elementos de contenção e estabilidade e é difícil de dobrar logo são indicadas para pés mais pronados, corredores pesados e corridas de longas distâncias.


CUIDAR DA PESSOA IDOSA

 “Tudo que  vive precisa ser cuidado para continuar a existir.
Uma planta, uma criança, um idoso,…o planeta terra…
Assim, o CUIDAR é a essência da vida humana.
Vive do amor, da ternura, da carícia e da convivência”.

Boff

MARIA CERQUEIRA
Todo o ser humano tem direito a ter uma vida longa, digna, ativa, livre e participativa. Contudo, não é isso que verificamos no nosso dia-a-dia. Os comportamentos e as práticas de discriminação, são uma constante na nossa sociedade, é uma prática injusta e desleal.

Quer queiramos ou não, as últimas décadas assistiram a alterações sociais aceleradas, com reflexos muito concretos no modelo de família. Novos valores e novas atitudes perante a sociedade emergiram, muitas das vezes em contradição com os valores e as atitudes daqueles que agora são idosos.

Agora reformados e com as limitações próprias da idade, espera-os um mundo diferente. Um mundo construído por famílias cujo circulo se estreita, sobrando pouco espaço para os idosos, que de um momento para o outro se vêm dependentes.

Quando o estado de saúde e monetário o permite, muitos são os idosos que preferem manter a sua própria casa, mas, quando a saúde os atraiçoa, quando a morte leva a companhia de uma vida, a solidão é uma constante, o abandono e muitas vezes maus tratos… a situação agrava-se, a separação da sua casa, do seu espaço, é dolorosa, é ali que guardam o espólio de toda uma vida, é por ali que pairam as suas memórias. Até porque deixar a sua casa é uma espécie de confissão: já não são capazes de cuidar de si próprios sozinhos.

O idoso exige dois ingredientes cada vez mais raros no mundo atual: recursos e carinho. Como profissionais dos cuidados de saúde primários, todos os dias encontramos pelo nosso caminho idosos tristes, infelizes, com sentimentos de desamparo que os leva a viver de uma maneira melancólica, não se preocupa com a morte, podendo esta até ser um alívio…um doce alívio. 

Na nossa área de abrangência profissional, encontramos diferentes situações. Por um lado a família que assume o cuidado ao idoso, pois acha que cuidar de alguém que se ama não é uma tarefa, mas sim algo natural, muitas vezes sente-o como uma obrigação, é o devolver o carinho e o cuidado que sempre receberam. O conforto e a felicidade do idoso é um bem precioso que querem manter, em casa, no aconchego do lar. Este é o modelo de família que todos desejariam ter.

Por outro lado temos famílias completamente ausentes, sem tempo devido aos seus afazeres profissionais. Nas zonas mais desertificadas os jovens emigram, estabilizando as suas vidas noutro país e os idosos ficam por aqui…sozinhos, doentes, sem esperança…Vêm no enfermeiro que os vai visitar um conforto, uma réstia de esperança, uma ajuda…é esta visita, por mais curta que seja que o mantém ligado à vida…

Cuidar significa zelar pelo bem-estar, saúde, alimentação, higiene pessoal, atenção, precaução, dedicação, carinho e responsabilidade. Cuidar é servir, é oferecer ao outro os seus serviços, é perceber a outra pessoa como ela é e como se mostra, os seus gestos e o seu diálogo, a sua dor e as suas limitações. Esse cuidado deve ir além dos cuidados com o corpo físico, pois além do sofrimento físico decorrente de uma doença ou das limitações próprias da idade, há que se levar em conta as questões emocionais, a história de vida, os sentimentos e emoções da pessoa a ser cuidada.

Na relação de ajuda a prestar ao idoso, pela família, pelas associações, centros de saúde, apoios sociais, centros de dia e de convívio, deve ter em conta duas atitudes fundamentais:
Saber ser, que engloba a capacidade de análise das suas emoções, tomada de consciência dos seus valores, aptidões para agir, altruísmo, sentido de responsabilidades e ética.
Saber fazer, esta atitude requer várias qualidades, tais como, a capacidade de prestar cuidados, a escuta, a empatia, o respeito, a congruência e a clareza. Ainda podemos sublinhar algumas qualidades suplementares, como sensibilidade, atitude positiva, transmitir força e ânimo, confiança em si próprio, criatividade, facilidade de adaptação, intuição e humor.

A esta duas atitudes eu acrescentaria uma terceira que é fundamental e que se tem vindo a perder de uma forma assustadora nas atuais sociedades que é o Saber respeitar. A família, a comunidade e a sociedade precisam dignificar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo a sua liberdade, autonomia, bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida.

A comunicação é o elemento fundamental numa relação com a pessoa idosa. O idoso tem necessidade de conversar; isto para ter a certeza que não está sozinho, que alguém o ouve, que lhe dá atenção, que mostra disponibilidade para ele…este momento, por mais curto que seja, é único, é de plena satisfação, é de partilha e de prazer. É necessário manter sempre uma atitude carinhosa e tranquilizadora, é no processo de comunicação que devemos demonstrar as nossas expressões de afeto. 

Esta etapa da vida é preenchida por muitas lacunas criadas pela desconfiança, desespero e perda de esperança. O importante é ouvir as pessoas com atenção, mostrar interesse e paciência, muitas vezes, este momento reduz o nível de desespero que a pessoa idosa está a vivenciar, transmitindo com segurança que as coisas podem mudar para melhor, despertar no idoso a vontade de viver, aumentar a autoestima e o sentimento de segurança e, deste modo, levá-lo a desenvolver atitudes positivas face às suas capacidades. Devemos proporcionar ao idoso ocasiões para crescer no plano pessoal e encontrar um sentido para a sua vida. O aumento da esperança de vida implica o aumento da qualidade da mesma.

Mais do que sozinho em casa é enfrentar a agonia da solidão…

SINTO ORGULHO

RITA TEIXEIRA
Sinto muito orgulho de ter nascido, crescido e ainda viver no cantinho à beira-mar, juntinho ao oceano atlântico. Orgulho no meu Portugal! Ver o reconhecimento, internacionalmente, em várias vertentes, dá cá uma vontade de gritar bem alto: Sou portuguesa! Sou de Portugal! 

Porém, nem tudo é um mar de rosas. 

Há quem denigra a imagem deste paraíso. Sinto repugnância pelos políticos que também são reconhecidos internacionalmente, pela corrupção, que fez deles autênticos milionários. São autênticas aberraçôes da nossa sociedade. Fazem as leis, sem conhecimento prévio, pouco se importando com a maldade infligida nos outros. Será que têm consciência dau dos resultados? 

Ver para crer! 

Quantos dos sem abrigos poderiam serem cidadãos completamente integrados na sociedade se as leis tivessem o reflexo de quem andou no terreno, antes de promulgarem as leis? Quantas famílias tentam instituicionalizar seus familiares. Só que há uma lei a permitir que esses viciados, cuja mente não consegue discernir qual a melhor decisão, quanto mais aceitar a ajuda.

Qual a diferença entre um jovem de dezassete e de um jovem de vinte e um anos, para decidir se deseja ou não o internamento numa instituição? 

Parece que não há nenhuma, não parece? Mas há. A família tem todo o direito de internar o jovem de dezassete anos e o outro jovem já tem idade para decidir se quer ou não ser ajudado. 

Pois é, salve-se quem quiser. Fico muito revoltada, ai fico sim, por conviver com pessoas, que agora são meros farrapos atirados às lixeiras. Não aceito.

A GRAVIDEZ E A SAÚDE ORAL - MITOS E VERDADE

INÊS MAGALHÃES
A gravidez é um estado na vida da mulher onde as alterações hormonais são muito grandes e, como tal, estas também se vão manifestar na cavidade oral, mostrando repercussões a nível da sua saúde oral.

Ainda existem muitos mitos em relação a este tema.

A gravidez não enfraquece os dentes, pois o cálcio que está presente nos dentes da mãe, de forma estável e cristalina, não está disponível para a circulação sistémica, de tal modo, não ocorre perda de cálcio para o bebé e os dentes não vão enfraquecer por esta causa. Pode sim haver, durante a gestação, um agravamento das condições da má saúde oral, o que pode levar a um aumenta da incidência de cárie dentária, mas por si só a gravidez não o provoca.

Devido às alterações hormonais, a gengiva sangra mais facilmente, podendo mesmo doer, a situação agrava-se se não existirem cuidados adequados de higiene oral.

Em caso de dor de dentes a grávida não se deve automedicar. Esta deve consultar um Médico Dentista para que lhe seja prescrita medicação ou efetuados os tratamentos dentários adequados que solucionem a situação dolorosa.

Em relação aos tratamentos, esta pode fazer qualquer tipo de tratamento dentário, mesmo que necessite de anestesia, pois uma infeção oral é mais prejudicial para o bebé do que o tratamento dentário em si. No entanto, o ideal seria fazer uma consulta de medicina dentária antes de engravidar, a fim de evitar infeções orais durante este período.

Estas consultas devem ser de curta duração e de preferência no período da manhã, sendo mais indicado o segundo trimestre da gestação.

No que diz respeito à higiene oral, esta, ainda é a medida preventiva mais eficaz para evitar infeções da cavidade oral.

Sabe-se que a mãe pode infetar o bebé por meio de microrganismos provenientes de doenças infeciosas como a cárie dentária e doenças periodontais.

Assim, o nível de higiene oral da grávida pode influenciar a saúde oral do bebé.

EMMANUELLE RIVA E JOHN HURT – O OLHAR DOS ATORES PERANTE A BÁRBARIE HUMANA

ANABELA BRANCO DE OLIVEIRA
A especificidade cinematográfica fica incompleta só com palavras. É muito difícil contar um filme através de palavras porque se esquece o valor do som, da música e do ritmo. É muito difícil contar por palavras a luz e as tonalidades de uma paisagem, a duração de um plano de ternura ou de medo, a expressão e o olhar dos atores. É difícil traduzir por palavras a força magnética que os atores exercem sobre nós! Eles constroem personagens inesquecíveis e nós assistimos a uma misteriosa metamorfose! Na nossa memória visual e íntima, eles jamais se desligarão das personagens que interpretaram.
Senti esse tipo de metamorfose e de atitude no passado dia 28 com a notícia do falecimento de Emmanuelle Riva (1927-2017) e John Hurt (1940-2017). Partiram os dois no mesmo dia e foram protagonistas de dois filmes que me marcaram profundamente. Emmanuelle Riva tornou-se a essência de Hiroshima mon Amour, de Alain Resnais, em 1959 e John Hurt tornou-se o Winston Smith de Nineteen Eighty-Four, de Michael Radford, em 1984. Dois atores que me transportaram de uma forma inexorável para o mundo literário de Marguerite Duras e George Orwell. Para mim, estes dois atores são, acima de tudo, estes dois filmes.
Deixaram-nos no mesmo dia! E deixaram-nos num período da nossa história em que precisamos muito de rever Hiroshima mon amour e Nineteen Eighty-Four. Porque são duas visões da barbárie humana. O rosto e o corpo destes dois atores tornam-se, nestes dois filmes, armas contra o esquecimento, a repressão e o extremismo. São obras que refletem sobre o medo e o avolumar da desumanidade no mundo, pela ascensão ao poder de ideologias despóticas que legitimam, por todos os meios, a sua superioridade.
Em Hiroshima mon amour e em Nineteen Eighty-Four, Elle e Winston representam a luta pela legitimidade do amor, a luta pela dignidade humana sem extremismos e sem preconceitos. Eles são as vítimas da barbárie e o símbolo de uma resistência altamente dolorosa contra essa mesma barbárie. Eles são os protagonistas de duas indiscutíveis reflexões sobre as consequências dos totalitarismos e dos extremismos.
No rosto de Emmanuelle Riva, espelha-se a inevitabilidade dos amores simples mas proibidos, a construção dos afetos, num mundo retalhado pela guerra, pelo ódio e pelo preconceito. Emmanuelle Riva concentra nos seus gestos e olhares, os amores proibidos pelo oficial alemão, durante a ocupação nazi em França. Concentra o sofrimento das mulheres perseguidas pela depuração da pós-libertação. Concentra, em Hiroshima, a reflexão sobre as consequências da bomba atómica e a decisão da escolha da vontade humana. Enquanto mulher, representa a inevitabilidade e a beleza do amor como primordial resistência.
No rosto de John Hurt define-se a vontade de lutar contra a tortura, a uniformização dos gestos humanos, a manipulação coletiva e a vigilância implacável! Ele concentra, nos seus gestos e olhares, uma força que tenta preservar o seu amor com Julia. Concentra, no seu rosto, a luta desigual contra a tortura, contra aqueles ratos que são os instrumentos macabros de uma sórdida lavagem cerebral. Ele é a força máxima de uma luta desigual contra sociedades totalitárias e contra o poder quase indestrutível do manipulador supremo. E nós vivemos num mundo de subtis manipuladores supremos.
Dois atores magníficos, protagonistas de sequências intensas. Quero partilhar convosco duas dessas sequências. Serão, ao mesmo tempo, uma homenagem ao seu talento e uma chamada de atenção para que, por um lado, a História de invasão nazi e a Bomba de Hiroshima não se repitam e, por outro lado, para que a terrível e distópica visão de George Orwell nunca seja uma realidade total. Porque ela existe, nos nossos dias, de uma maneira bem mais sofisticada mas igualmente incapacitante.
E escolho os grandes planos do rosto de John Hurt que definem o horror, o medo, a inevitabilidade de uma lavagem cerebral, a negação de um sentimento individual perante a manipulação suprema de um resistente que perpassa toda a sequência da tortura da gaiola dos ratos. A resistência de uma personagem à bárbarie de um regime. São planos rápidos, intensos, detalhados que nos fazem sentir a terrível experiência da personagem.
E escolho os olhos de Emmanuelle Riva que nos revelam a dimensão dos sentimentos e das emoções que troca com o seu amante japonês. É o seu corpo e o seu rosto que enunciam o que se passou em Nevers. É no olhar de Emmanuelle Riva que nos apercebemos da inevitabilidade da memória sobre o que se passou em Nevers e são as mãos dela que nos transportam para as mãos que arranham as paredes da cave de Nevers. E, na cave de Nevers, lambendo o sangue das unhas, Emmanuelle encarna as mulheres perseguidas pela depuração cruel construída no ódio da guerra. E temos duas mulheres, dois rostos, dois momentos chave em dois espaços diferentes: Nevers e Hiroshima.
John Hurt celebrizou-se através de outras personagens em Allien, O Oitavo Passageiro, O Homem Elefante, Harry Potter e a Pedra Filosofal, entre outros. Para mim, será sempre o Winston. Emmanuelle Riva celebrizou-se em Thèrèse Desqueyroux, Blue, entre outros. Em Amour, de Michael Haneke (2013) voltei a encontrar nela aquele olhar e aquela serenidade que exige o cumprimento do amor. Mas, para mim, ela será sempre a mulher de Hiroshima e a mulher de Nevers.
Nessa metamorfose entre ator e personagem, estes dois atores foram duas armas contra a bárbarie. Para que nada desse mal se repita.


domingo, 29 de janeiro de 2017

O COLO DA AVÓ

CARLA SOUSA
Uma avó pode ser uma segunda mãe que pode mimar à vontade o neto.
O seu papel não é o de educar mas o de proteger, ensinar e mimar.
A avó é uma contadora de histórias e pode melhorar a relação com os progenitores quando conta histórias deles próprios.
Pode fazer com que os seus netos conheçam o passado dos pais e trazer com isso uma aproximação e entendimento entre os mesmos.
Um dos papéis mais clássicos é o de mimar e dar aquilo que não deram aos seus filhos e aquilo que muitas vezes os pais proíbem.
Os avós não são os responsáveis pelas crianças… Quem deve educar é o pai e a mãe. Quem deve dizer o que é correto e errado é o pai e a mãe.
Para as crianças, os avós transmitem confiança e valores.
Quem não se recorda de ir aos domingos visitar os avós?
Ser avó significar um colo afetuoso e uma comida maravilhosa. Ela sabe dar-nos uma palavra de conforto e um cuidado inigualável.
A minha avó transmitiu-me sabedoria, o gosto pela comida e foi muitas vezes a minha segunda mãe. Claro, que tudo isto à maneira dela.
Levou-me à escola e esteve sempre presente quando os meus pais não estavam.
Hoje, a sua cara está diferente, com mais rugas, a saúde mais frágil…E agora é ela que quer mimo e atenção.
Nos dias que correm, com os pais tão atarefados e ocupados com o trabalho, os avós são extremamente importantes. Garantem suporte, podem cuidar e brincar com os netos pois os pais nem sempre têm tempo.
A relação que se pode estabelecer em criança com uma avó pode ser única e influenciar positivamente o desenvolvimento da criança. Quanto mais contactos tiverem, maior será o conhecimento mútuo e maiores serão as oportunidades de realizarem atividades juntos.
A avó tem o dom de estar atenta ao neto. Conhece os seus gostos e desejos. E está atenta às suas queixas e problemas.


TRABALHAR NO DELICIOSO MUNDO DA PEQUENADA

LÚCIA LOURENÇO GONÇALVES
De facto, cada vez mais sinto que sou uma das privilegiadas que, mesmo não exercendo a minha atividade profissional diretamente com as crianças, a todo o momento chegam-me aos ouvidos os seus risos genuínos, as suas vozinhas animadas e cheias de vida… A esperança em estado puro!

E passar pelos corredores da Instituição e receber uma criança que, literalmente “voa” para os meus braços, confiante e segura, uma das melhores experiências que vivo com alguma frequência.

Despertar nestes seres tão especiais, pequenos mas intuitivos e muito sensíveis a tudo o que lhes é exterior, este tipo de entrega manifesta, é uma delícia e um privilégio!

Claro que estes “anjinhos”, também se transformam em autênticos “diabretes” quando se trata de traquinices, e nem sempre facilitam a vida a pais e Educadoras… São crianças!

Traquinas, doces, imprevisíveis na sua inocência infantil, ou porventura na sua manhosice já bem treinada...

Sim! Porque estes seres angelicais, por vezes de “anjos” apenas têm o aspeto… Pois na sua tenra idade, alguns e porque lhes é permitido, aprendem cedo a manobrar os adultos a seu belo prazer.

Porém, trabalhar no “reino da pequenada” pode transformar um dia cinzento num outro multicolor, e para que tal aconteça, basta que estejamos dispostos a ser contagiados pela magia de ser criança! 

E entre trabalhar num espaço onde o único som seja apenas o do teclado do computador ou dos telefones a tocar… Ah seguramente não existe dúvida na escolha.

Sou sim, uma privilegiada porque em cada sorriso e em cada abraço que recebo e dou: existe amor, simplesmente!

O REGULA - ADEGA REGIONAL

CRÓNICA DE ANTÓNIO REIS
Depois de uma breve visita por terras do concelho de Penafiel, fomos a um dos pontos mais antigos da humanidade nos arredores do Porto, o Dólmen da Portela, na freguesia de S.ta Marta. Um monumento megalítico construído III séculos antes da era cristã. Local preservado e conservado, assim como de fácil acesso a todos aqueles que admiram a arte que ficou registada pelos povos que passaram pela Península Ibérica e deixaram um legado que deu origem ao que somos hoje.

Deste ponto histórico seguimos por rua e ruelas bem conservadas e totalmente empedradas, sem quebra do lugar “sagrado”/histórico onde estávamos, encontramos a adega regional “O Regula”, num cantinho da aldeia de Rande, também este estabelecimento com um traçado arquitectónico preservado e conservado, tal como a sua construção original há mais de um século.

Já a coberto das telhas seculares da adega regional “O Regula”, num dia cinzento a ameaçar chuva por aquelas bandas do concelho de Penafiel, fomos recebidos por um prático e profissional funcionário de malga na mão direita e caneca na mão esquerda de onde “escrrichava” um tinto negro que levado à boca pintava os lábios aos homens e limpava o batom às mulheres. Acomodados numa das salas, com capacidade para cerca de trinta pessoas, esperava-nos uma mesa farta com as chamadas entradas para almoço. E um branco verde para ajudar a garganta a dar o “nó”, as tantas iguarias regionais.

Depois de um compasso de esperas pelos convivas de momento, eis que é chegado o prato principal que nos levaria até aquele local, lá longe, mas tão perto, dos olhares citadinos. Um arroz de lampreia acabadinho de fazer, solto e a fumegar, o qual, mesmo depois de tão apetitosas entradas, foi possível arranjar um lugar no “bucho” para arrumar o apreciado gaspacho que por esta altura do ano trás forasteiros do Douro ao Minho à procura de tão apreciada gastronomia.

Acabando mais um dia de lazer gastronómico na Quinta da Aveleda com um vinho da casa e um queijo forte, tudo produzido naqueles hectares de terreno virados para a “varanda” da cidade de Penafiel, desde 1870.

Uma refeição na adega regional “O Regula”, lugar de Rande, freguesia de Milhundos, concelho de Penafiel, pode rondar um preço médio de €15 por pessoa, numa ementa especial do período do ano. Todos os outros pratos de bacalhau ou carne rondam entre o €7 e os €10, acessíveis aos mais comuns dos mortais, mesmo que não passem pelo Dólmen da Portela.


AS ENTERNECEDORAS REDES SOCIAIS

LUÍS ARAÚJO
As redes sociais são das coisas mais enternecedoras que há, porque quando pensamos que o que está ali é uma amálgama de bites e bytes, subitamente apercebemo-nos que estamos na presença de algo com emoções, não fossem burras como penedos e até me fariam verter uma lágrima aqui e ali. Um ou outro cibernauta mais distraído pode ainda não se ter apercebido disto, mas é frequente sabermos que as redes sociais se emocionaram com aquele vídeo do panda num zoológico qualquer de um pais de leste (as redes sociais são muito sensíveis a animaizinhos enclausurados), ou que se chocaram com a ultima revelação feita por um concorrente de um reality show. Ora, eu com estes sentimentos todos das redes sociais apercebo-me que sou um bruto insensível, pois animais em zoológicos não me emocionam e a única revelação de um concorrente de um reality show que me chocaria seria ouvi-lo recitar o abecedário completo. Mas nestes dias apenas se fala em duas coisas, o Trump e a Tesla, dois assuntos do mais aborrecido que há. Falar do nóvel presidente dos Estados Unidos tem o mesmo interesse que falar do ultimo reality show da Teresa Guilherme, depois dos 64 anteriores já está tudo dito, sobre o homem da peculiar cabeleira loura, que por acaso até já foi a Teresa Guilherme da televisão americana, já estão também esgotados todos os insultos possíveis e imaginários que a língua inglesa permite, o que até nem terá sido nada difícil atendendo à vacuidade das ideias apresentadas. Falar de Trump não é só aborrecido, é penoso, e limitativo, pois só existem dois tipos de pessoas, as civilizadas, que andam revoltadas com tudo o que o homem diz e faz e as atrasadas, que andam excitadas com tudo o que o homem diz e faz. Dialogar com as primeiras é como coçar uma ferida, dialogar com as segundas é como saltar da frigideira para o lume, quando achamos que já batemos no fundo, aparece alguém que está a escavar no lodo. Surpreendente seria encontrar um apoiante de Trump que tivesse completado a instrução primária a saber a tabuada e conseguisse escrever duas linhas completas sem dar erros gramaticais, mas parece-me que é mais fácil acertar no euromilhões 6 semanas consecutivas. Quanto à Tesla, ora é a instalação da fábrica em Portugal, ora é o inicio de comercialização dos potentes carros elétricos em território nacional que ocupam o tempo das redes sociais. Ora, falar da Tesla é quase tão aborrecido como conduzir os seus próprios carros, pois apesar da grande excitação das redes sociais, não passam de carros elétricos que se conduzem sozinhos, uma coisa tão emocionante como comer uma francesinha vegetariana com cerveja sem álcool. Claro que ao pôr toda a gente a comprar carros elétricos vai acabar por criar um muro entre o resto do mundo e os países árabes - que dentro de poucas décadas terá que beber petróleo e comer areia - e a instalação de uma qualquer industria em território nacional será sempre benéfico para a nossa depauperada economia, mas isso não impede que a Tesla seja o bocejo do mundo automóvel. De repente fiquei com saudades de vídeos de pandas em jardins zoológicos

AGORA, QUE TODO O TEMPO MORREU

MIGUEL GOMES
Vou caminhando por entre as palavras, há um labirinto imenso de onde não quero sair, a dimensão onde tridimensionalmente me acometo às letras e as guardo, para mim, apenas, sem saber delas onde pousar lesto o pé e devagar o olhar. 

Cá dentro, na caixa onde se inspira um bater compassado, vou tecendo de olhos no céu um arco de volta perfeita, cabendo na palma das mãos a luz que invoco à gravidade do astro que um dia sonhei brilhar. Não há pausas na vida quando ela se senta ao sol, parada, contente, como um punhado de flores que se sabe feliz por não ser gente. 

Floresça a realidade por fruto de imaginação, quando nada há a dizer tudo se escreve pois infla soma e esvai-se psicose no direito a ser-se mesmice. 

Quem nunca pesadelou no que já disse? 

Esqueço-me de vós, mãos, porque vos trago em concha na tentativa de vos encontrar pousadas sobre os meus ombros. Quantas palavras da nebulosidade condensaram os pensamentos ascensos? 

O Sol permite-se descansar no meu colo e enquanto tomo conta dele, passando-lhe, com cuidado, a mão sobre a cabeça cujos cabelos labaredam no final da manhã, o dia vai madrugando ainda que se faça noite dentro dele, do Sol ou do mim.

Olho o céu que me permite sonhar com dias sob um céu de todas as cores.

Acordo estupefacto e na ironia do despertador, cuja passividade horária me abala, sinto-me mais nuvem e menos cal, onde se abrasem água e terra, mineral e sal, tu e eu.

Da minha janela não vejo nada. 

Sonho com o descerrar da cortina que me permita ver o que sonho. Há-de haver a encosta, que a minha alma tanto gosta, e um cantinho de terra onde nascem as sementes que me plantaram. 

Há-de acabar por fim o vítreo do futuro que oscila entre ontem e hoje, para deixar que a tarde desensolarada se permita estender a sombra pelo meu corpo abrigado e vá, pé ante pé, aquecendo-me de dentro para fora. Fecho-as, mãos, agora, que todo o tempo morreu e vou, caminhando, do silêncio semeado ao canteiro de onde me plantei, quase por acaso, quando por mim mesmo, ingenuamente, sonhei.

sábado, 28 de janeiro de 2017

UMA PEDRADA NO CHARCO

JOÃO MONTEIRO LIMA
De tempos a tempos fala-se dos vencimentos dos titulares de cargos políticos e de cargos públicos como sendo exorbitantes. 

Foi assim recente com o vencimento que iria auferir o ex-Presidente da Caixa Geral de Depósitos.

Não sou dos que pensa que os políticos e os que desempenham altos cargos públicos ganham miseravelmente mas também não alinho na populista campanha de que são muito bem pagos.

Penso antes que os cargos políticos e os cargos públicos deveriam ser balizados pelo vencimento do Presidente da República, mas penso também que este vencimento deveria ter aumentado.

Estou consciente da dificuldade de fazer passar esta ideia, ainda para mais nos dias que correm, em que os políticos são vistos de lado (em muitos casos por culpa dos próprios e em todos estes também por culpa nossa, de todos, que elegemos este e não outros para desempenhar os cargos que ocupam). Mas se pensarmos de mente aberta, sem qualquer complexo de principio, poderemos pensar de forma diferente.

Pensemos pois que poderemos dar o nosso contributo, ou que nos pedem para dar o nosso contributo na vida política ou pública mas que o vencimento que auferimos na nossa actividade profissional não é acompanhado na actividade que pretendem que desempenhemos. Olhar para o desempenho destes cargos como uma “missão” (como tantos gostam dizer) será demagogia, pois poucos são casos em que o espírito de missão é total.

Um gestor que aufere um determinado vencimento porque motivo estará disponível para prescindir de vencimento para ser presidente de junta ou de Câmara? O mero gosto pela actividade não chegará seguramente. Despender de tempo, predispor-se à uma exposição pública e a sufrágio diário e ainda perder vencimento arrasa a ideia de missão, daí chamar de demagogo a quem diz que está nestes cargos por puro espírito de “missão” 

Voltando ao aumento dos vencimentos, penso que poderia potenciar uma diminuição do risco de corrupção, pois por vezes a corrupção é motivada por “necessidades financeiras” que levam a que as pessoas se deixem corromper.

Talvez um dia, quando os políticos e os detentores de cargos públicos provem que não são todos e iguais e que pagando melhor teremos melhores políticos e gestores públicos se possa avançar neste sentido, até lá será sempre uma pedra no charco defender aumentos para os políticos.

ENCERRAMENTO DE UNIDADES DE SAÚDE. QUE IMPLICAÇÕES NA ASSISTÊNCIA AOS DOENTES?

ANTONIETA DIAS
O encerramento dos hospitais e dos Serviços de Atendimento Permanente (SAP) desencadearam mudanças estruturais no acesso, igualdade e liberdade no acesso dos utentes aos serviços de saúde.

Esta medida foi implementada, muito provavelmente para reduzir os custos, bem como tentar “minimizar”” o défice resultante de uma política de saúde muitas vezes inadequada, conduzindo a desperdícios, repercutindo-se longo dos últimos anos, num grave prejuízo para os pacientes, que muitas vezes não “são salvos”, por inacessibilidade de acesso a instituições e terapêuticas mais adequadas

Tais medidas poderão ser implementadas por questões puramente economicistas, colocando em risco a vida dos doentes deixando um vazio no acesso aos cuidados de saúde e desprotegendo os pacientes mais distantes dos grandes centros.

Esta reorganização e centralização dos serviços hospitalares não tem contribuído para minimizar os custos com a saúde, mas tem servido apenas, para aumentar o sofrimento dos doentes, e nalguns casos até tem impedido claramente o acesso à assistência médica, que tem sido agravada pela falta de recursos financeiros dos doentes que estão cada vez mais empobrecidos, e acabam por “morrer” isoladamente “sós” abandonados nos seus lares. 

Os legisladores têm-se esquecido de alguns detalhes demasiadamente importantes e que agravam ainda mais este problema, como seja a falta de transportes no interior, a precaridade económica, a distância, o isolamento social e a idade avançada dos pacientes.

A permanente dificuldade e bloqueio no acesso aos serviços de saúde contraria o respeito pelos direitos e liberdades fundamentais, previstos na Constituição da República Portuguesa.

Um governo que promova uma política de saúde em que os mais carenciados se vêm coartados e impedidos de recorrer aos serviços públicos por carências económicas, é um governo, manifestamente insensível ao sofrimento e coloca em causa a garantia dos direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos, contempladas na Constituição.

O Estado de direito democrático vigente em Portugal pressupõe o respeito, a preservação da dignidade da pessoa humana e uma sociedade estruturada de forma livre, justa e solidária. 

Tendo em conta estes pressupostos, é uma obrigação da Nação proporcionar igualdade de acesso dos doentes aos cuidados de saúde.

Não é concebível ter doentes tenham tempos de espera no atendimento de urgência dos hospitais superiores a 3 horas, não estando aqui comtemplado o tempo que o doente demora a chegar do seu domicílio ao hospital mais próximo.

Todos nós sabemos que independentemente deste grande constrangimento que podemos até classifica-lo como desumano, em que o sofrimento vivenciado pelos pacientes, que “desesperam” para ser observados e tratados, gerando situações insustentáveis e inaceitáveis, acresce ainda que determinadas patologias (enfarte agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral…etc., etc.), se não forem assistidos atempadamente, inibem os doentes da utilização de terapêuticas que para além de diminuírem o risco de vida, minimizam as sequelas resultantes dessas mesmas doenças.

Se considerarmos que a sociedade portuguesa é uma sociedade livre e igual para todos os portugueses, este direito inalienável, de preservação e de assistência na doença que compete ao Estado, tem de ser respeitado.

Os pacientes têm que ter tratamento igual para a sua patologia, independentemente do local de residência, não podendo ter tratamentos diferentes só porque habitam em meios urbanos ou em meios rurais.

Importa, ainda referir que a permanente descomparticipação dos medicamentos tem onerado ainda mais o acesso aos cuidados de saúde. 

Neste momento assistimos a uma panóplia de punições, onde a institucionalização dos custos quer transformar a medicina em matemática.

Qualquer profissional responsável pela assistência e pela defesa do direito à vida tem necessariamente que se unir aos pacientes mais pobres, aos mais desfavorecidos, aos mais carenciados e muito particularmente aos doentes que necessitam de cuidados diferenciados e não os têm.

A defesa permanente de uma política de saúde que proteja integralmente os cuidados necessários para curar ou minimizar as sequelas é uma evidência que deve ser plenamente cumprida. 

Lamentavelmente, e apesar de todas estas medidas de contensão de necessidades básicas de proteção individual, a despesa pública continua a aumentar, deixando em aberto uma exigência que implica uma reflexão sobre a política de saúde adotada nos últimos tempos, e repensar se este é o melhor caminhamos a adotar…

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A ENGENHOCA HOLANDESA

RUI SANTOS
A Holanda vai a eleições no dia 15 de Março. Um novo parlamento e governo, surgirão do escrutínio. Estas não vão ser umas eleições como as anteriores que ocorreram no país que viu nascer Erasmo de Roterdão ou Hugo de Groot. Desta feita, é o xenofobismo e o isolacionismo que vai a votos. Toda a campanha eleitoral assenta na relação entre os holandeses e os imigrantes, nomeadamente aqueles que professam a fé islâmica.

A ascensão do PVV (Partido para a Liberdade) de Geert Wilders tem sido meteórica nos últimos meses. Desde o Outono de 2015 que a esmagadora maioria das sondagens prevê a vitória do PVV. Apesar dos resultados dos vários estudos de opinião revelarem uma intenção de voto no PVV, o canal televisivo NOS, divulgou a 18 de janeiro, uma sondagem onde a vantagem do PVV face ao VVD (Partido Popular para a Liberdade e Democracia) diminuiu ligeiramente, e uma sondagem do Instituto IPSOS, de 19 de janeiro, dá um empate entre aquelas forças políticas.

Estes novos estudos injectaram um novo ânimo no VVD e Mark Rutte, o seu líder e actual primeiro-ministro, tem procurado por todos os meios estancar a perda de eleitorado. A última iniciativa foi a carta aberta que escreveu aos holandeses, onde convida todos aqueles que se recusem a adaptar, e sejam críticos dos valores inerentes à sociedade holandesa, a abandonarem o país. Para Rutte, as ameaças que são feitas à comunidade LGBT e o assédio realizado às mulheres ocidentais, são alguns dos exemplos do desconforto cada vez maior dos holandeses face à comunidade muçulmana. Esta proposta é suficientemente abrangente para dela excluir todos os muçulmanos que acatem a forma social do país. Não é contra uma religião específica, mas sim contra alguns indivíduos. Não refere comunidades de origem específicas para nela poder incluir todos os holandeses que se foram radicalizando nos últimos anos.

Mas como é que se chegou a este ponto na sociedade holandesa? Bem, deve ser feita uma distinção entre o processo de integração como tal e a política de integração. O processo, como tal, tem uma instituição e dimensão cultural. A integração institucional refere-se a um aumento na participação da imigração na sociedade de acolhimento, enquanto a integração cultural, ou aculturação, é geralmente entendida como o nível em que os imigrantes adoptam os valores dominantes na sociedade de acolhimento, identificando-se com eles. Na política holandesa, a promoção da participação dos imigrantes foi um objectivo, enquanto a aculturação não o foi. Os imigrantes foram reconhecidos como comunidades separadas e foram incentivados a desenvolver as suas instituições generosamente suportados pelo Estado.

Olhando para as últimas décadas, observa-se que a política de integração holandesa passou de uma não-interferência, para uma política na qual os imigrantes têm que preencher certos e determinados requisitos para poderem fazer parte da sociedade holandesa. O foco das políticas de incorporação dos imigrantes foi deslocado do grupo para o indivíduo, de minorias étnicas para imigrantes individuais, de cultura para cidadania, ou, em termos de filosofia política, a partir de uma abordagem comunitária predominantemente democrata-cristã para uma abordagem individualista liberal.

É preciso ter presente que o sistema eleitoral holandês tem a peculiaridade de favorecer a existência de vários partidos no Parlamento. Desde o início do século XX que nenhum partido consegue ter a maioria absoluta. Como tal, o PVV até pode ganhar as eleições mas não conseguirá formar governo. Não se vislumbra qualquer coligação que se possa formar entre o PVV e os restantes partidos. Se em Portugal surgiu uma «geringonça», porque não uma «engenhoca» holandesa? Tudo indica que seja o VVD de Mark Rutte a ser chamado a formar governo em coligação com outras forças partidárias. Caso isso aconteça, o que eu espero, resta saber como se comportará Geert Wilders e o seu eleitorado mais fiel. Uma coisa é certa, a relação entre os europeus e a comunidade islâmica está ferida de morte na Holanda.

O FANTASMA DE MONTALEGRE E SATANÁS COM AS CALÇAS NA MÃO

JOAQUIM DA SILVA GOMES
A sociedade oitocentista portuguesa, principalmente a rural nortenha, ficou marcada por alguns acontecimentos que se tornaram célebres. Merecem ser agora recordados dois deles, devido ao mediatismo que então alcançaram. 

O primeiro ocorreu em 1885 na freguesia de S. Vicente de Chã, no concelho de Montalegre, terra actualmente conhecido pelas suas actividades centradas na questão do “sobrenatural”, dinamizadas pelo conhecido Padre Fontes. 

Nesta freguesia existia um lavrador que era conhecido pela sua astuciosa valentia. Forte e robusto, tinha o hábito de trabalhar nos campos até longas horas da noite. Como na época, sem luz eléctrica, a escuridão é que marcava as frias noites do Inverno montalegrense, todos se admiravam com a coragem e o destemor deste lavrador. Segundo o jornal “Cruz e Espada”, de 31 de Janeiro de 1885, este lavrador ”Não era medroso, affrontava os mistérios do silêncio, ignorava o sobrenatural e, sobretudo e o mais provável, confiava no seu braço de boa tempera para affrontar visões”. 

A valentia deste lavrador era tema de conversa de toda a freguesia. Aliás, até nas freguesias vizinhas de S. Vicente de Chã eram muitos os que comentavam esta coragem do lavrador.

Perante esta fama, não faltava quem lhe quisesse pregar partidas, de forma a testar a sua real valentia. Foi por isso que, no final do mês de Janeiro desse ano de 1885, três jovens da freguesia resolveram embrulhar-se em lençóis brancos e, pegando numas velas, correram em direcção do lavrador que, durante a noite, executava sossegadamente os seus trabalhos de lavoura!

Perante esta provocação, o lavrador desatou a correr para casa, facto que provocou enorme risota aos três jovens. Orgulhosos, conversavam entre si acerca do susto que o homem tinha apanhado, preparando-se para, no dia seguinte, contar o episódio a toda a freguesia de S. Vicente de Chã!

Regressado a casa, o homem ainda pensou em pegar na caçadeira e dirigir-se ao campo mas, de repente, decidiu enfrentar os fantasmas “cara a cara”. Então, resolveu também ele embrulhar-se num lençol e, com velas em punho, apareceu de surpresa aos três fantasmas! Estes, perplexos com o que lhes estava a acontecer, correram a toda a velocidade pelos campos, fugindo rápido e para bem longe da presença do fantasma!

O problema é que o lavrador, agora vestido de fantasma, correu tanto que conseguiu apanhar um desses rapazes, que se encontrava calçado com uns enormes tamancos. 

Depois de o identificar, deu-lhe uma reprimenda, mas deixou-o partir sossegadamente. No entanto, o susto que o jovem apanhou foi de tal forma violento, que acabou por lhe ser fatal. Segundo o jornal acima mencionado, o jovem esteve três dias em casa, doente, findo os quais, “dava a alma a Deus, assaltado de pavores, ardendo em febre e a tiritar no leito”.

O segundo episódio que aqui quero apresentar ocorreu em Vila Verde, em 1884. 

Os finais do século XIX ficaram marcados por momentos de crise económica, de crise social e ainda de alguma conflituosidade política. Era uma época em que a economia, pouco lucrativa, centrava-se numa indústria quase inexistente, num comércio externo deficitário e numa agricultura com bases rudimentares. Os portugueses, aqueles que podiam, emigravam para o Brasil, enquanto os outros limitavam-se a sobreviver no Portugal marcadamente rural.

A região do Minho estava marcada por um ambiente económico baseado no contrabando, onde a fuga aos impostos e a ruralidade da nossa economia era uma constante. Por isso, quando se falava em inspector das finanças ou em comissário da polícia, as pessoas parece que viam o diabo! Foi o que aconteceu em Vila Verde, no dia 6 de Junho de 1884.

Estavam várias pessoas no café do senhor Ferreira Braga quando, de repente, viram um homem a abrir a porta e a espreitar sorrateiramente para dentro do estabelecimento. Mal viram esse senhor, as pessoas que se encontravam dentro do café desataram a correr como uns autênticos desalmados. Fugiram, uns pelas janelas e outros para o telhado, apavorados que esse senhor fosse o comissário da polícia, que na altura assustava tanto como “Satanaz”!

De facto, o senhor Pimentel, o tal que entrou no café, apenas pretendia dirigir-se à casa de banho, uma vez que se encontrava desesperado para fazer as suas necessidades fisiológicas. Abrindo a porta devagar e colocando a sua cabeça dentro do estabelecimento, as pessoas desataram a correr, porque viram um homem com uma pêra: “É o commissario da polícia – diziam umas almas bemfazejas que se achavam n’aquella sala…” (1). 

Mal ouviram estes desabafos, gerou-se uma tal confusão que, uns “correram para os telhados a procurar refugio nas casas visinhas, onde há gritos de – aqui d’el-rei ladrões – outros procuraram esconder-se em sítios occultos; e ainda outros, precipitando-se sobre um telhado de vidro que põe em estilhas, vêm cair n’uma garrafeira que fica nas trazeiras da casa e próximo da cosinha!”.

Estupefacto com toda esta situação, o senhor Pimentel, de calças na mão, observava todo este alarido, também ele preocupado e sem perceber muito bem o que estava acontecer. Mais à frente é que o senhor Pimentel compreendeu que foi a sua maldita pêra que causou toda esta situação! 

Para “grandes males grandes remédios”. Por isso, o senhor Satanás, perdão, o senhor Pimentel, decidiu cortar a sua pêra pelo “tronco”, para evitar que a mesma causasse novas confusões. 

__________________
1) – Jornal “Cruz e Espada”, de 7 de Junho de 1884.