terça-feira, 26 de setembro de 2017

17 COISAS QUE APRENDI EM 17 ANOS

INÊS LOPES
Este mês, no passado dia 19, celebrei o meu 17.º aniversário. 

17! Tão poucos anos e ao mesmo tempo tantos. Dentro da minha cabeça parece imenso tempo. Talvez porque nestas idades carregamos tanto dentro de nós: tantas dúvidas, tantos sentimentos, tantas descobertas... A vida pesa-nos. E no meio de tanta confusão interior, existe um espaço reservado para as coisas que consideramos mais importantes. Olhamos para mais longe e chegamos à conclusão de que ainda temos muita vida pela frente, mas a vida que fica para trás nunca é em vão, e já nos ensinou mais do que aquilo que pensamos poder aprender algum dia. 

Eu sei que em 17 anos já aprendi MUITO! Aprendi com as pessoas, aprendi com o mundo e aprendi comigo. Aprendi coisas que jamais abandonarão o meu ser. 

Assim, decidi desafiar-me a mim mesma e tentar listar as 17 coisas mais importantes que aprendi ao longo destes anos.

Deixo, aqui, a lista das “17 coisas que aprendi em 17 anos”:

- Não procrastinar é uma das melhores decisões que podemos tomar ao longo da vida.

- Acreditar sempre nas nossas intuições pode levar-nos por caminhos incertos, mas que não se compara a nenhum outro caminho.

- Dizer às pessoas aquilo que sentimos realmente por elas proporciona uma paz interior que mais nada consegue proporcionar.

- Dinheiro gasto em livros, concertos ou viagens nunca é desperdício, devido às sensações que provocam na nossa alma.

- Pessoas negativas não merecem aquilo que temos de mais precioso: o tempo.

- Devemos lutar sempre por aquele sonho que parece impossível de alcançar, pois ele só “parece” impossível... Não é.

- Todos os males que passam por nós servem para tirar algo de bom.

- Por vezes, o silêncio diz mais do que qualquer palavra. 

- Os nossos sentimentos são sempre válidos, e merecem a dedicação que lhes for necessária. 

- O melhor da vida são momentos e sentimentos, devemos respirá-los profundamente e usá-los para definir quem somos. 

- A comparação com outra vida, ou com outra pessoa pode trazer (apenas) infelicidade.

- Se dermos sempre o nosso melhor, nunca poderemos sentir desilusão ou angústia. 

- Devemos tratar-nos da mesma maneira que trataríamos alguém que amamos. 

- Opiniões de outras pessoas são importantes, mas não podem impedir-nos de sermos aquilo que desejamos. 

- A vida começa a ter um significado na sua plenitude a partir do momento em que nos aceitamos a nós próprios. 

- Por vezes, é necessário tirar um tempo para estarmos sozinhos. Para fugirmos do mundo, e nos encontrarmos. 



- A vida não é uma corrida. Não há nenhum sítio para ir, nem nenhum sítio para estar. Apenas existe um momento que nos é concedido para ser vivido.

DAS MARIAS - PROPRIETÁRIAS E DE OUTRAS MARIAS

PEDRO MONTERROSO 
Num episódio recente, numa pesquisa genealógica dos “Registos de Baptismos” anteriores a 1900, que hoje se encontram digitalizados e disponíveis no site do Arquivo Distrital do Porto[1], deparei-me com documentos de um valor imprescindível, para quem quiser fazer um rastreio dos seus antepassados. Alguns destes estão ainda em bom estado, outros estão mais deteriorados, seja pela passagem do tempo, seja pelo descuido no tratamento arquivístico. Hoje, todos podemos aceder a documentos que, para tal, teríamos antes de fazer marcação nas instâncias responsáveis pela manutenção dos arquivos, esperar dias e, com tempo limitado, poder, finalmente, ter acesso a parte da história das nossas famílias, para lá das nossas bisavós (batizados, casamentos, óbitos…).


Nos ficheiros, sobre os quais debruço a minha análise, do século XIX, atento, desde logo, à letra cuidada e até caprichosa do pároco da freguesia. Em abono da verdade, invejo-lhe a caligrafia, por comparação aos meus gatafunhos, que só são salvos pela ascenção da datilografia. Nos livros anuais de batismo, repetem-se as Marias. E os Maneis, portanto. Há uma certa equidade em relação ao género na repetição dos nomes atribuídos, seguindo-se a legitimidade da mesmas, a hora de nascimento e o nome dos pais e respetivos padrinhos.

Por defeito de fabrico, quero dizer, de socialização e formação, dou-me conta de questões que são subjacentes aos documentos, encontrando-me com o pensamento andejo na significação das palavras. Não deixo atentar no tratamento pessoal, aquando dos batizados dos indivíduos em questão e de como esta questão pode, por exemplo, ser extrapolada para a época contemporânea.

A legitimidade dos filhos é uma expressão em desuso na atualidade, fruto da laicização social e da perda da força moralizadora da Igreja Católica. Os ilegítimos, a menos que tenham sido legitimados por um casamento a posteriori, por um pároco, que a troco de algo (não há almoços grátis, lembrem-me!), daria legitimidade social, teriam de viver com o peso da marginalização social. A designação da prole nascida dentro dos laços do matrimónio, era indicada nestes documentos, assim como as profissões dos progenitores, onde se poderá vislumbrar, desde o nascimento, a posição social da recém-nascida.

Ou seja, Maria, com a desvantagem de ser mulher, teria sorte na vida se fosse legítima, não sendo filha de Guilhermina mas de Senhora Dona Guilhermina, proprietária de terras. O marido de D. Thereza, Jozé não-sei-quantos-nomes, não seria certamente lavrador ou tecelão ou jornaleiro. Tão-pouco, como o outro do livro que o pároco lia, poderia ser carpinteiro, mas, sim, proprietário ou industrial, com três ou quatro ou cinco nomes de família, que mui notavelmente lhe ilustravam o estatuto social. Maria, logo à partida, como qualquer Manel, seria filha de um título e não meramente de duas pessoas. Título esse que constava nos nomes de família, que abdicaria em prol do marido após o casamento, sendo o garante de propriedade de um Manoel, industrial.

Já a outra Maria, nascida em mil oitocentos e picos, era filha de Manoel, lavrador e de Anna, lavadeira, enquanto que a Albertina, era filha de Jozé, jornaleiro e Justina, fiadeira. Todos ao serviço de proprietários rurais, que eram os pais de Maria não-sei-quantos-nomes. Por cada novo nado vivo, que dava entrada no livro da freguesia, repetiam-se os autografados nomes, do padrinho e da madrinha, num Portugal rural e feudal que o pároco da freguesia copiosamente resgistava e abençoava. Todos apadrinhados pela Exma. Sra. Dona Guilhermina, proprietária, abaixo assinado, dona dos confins da freguesia de Santa Maria de não-sei-onde, na comarca de nenhures, num país chamado Portugal.

Diz-se que a família tivera relação com barcos negreiros idos para o Brasil, mas isso não me confessa a história, e muito menos estes documentos. Apenas que era excelentíssima, senhora e também dona de três títulos que precediam o nome Guilhermina que à época estaria de moda. Entre as Claudinas, Josefinas, Albertinas, Marinas, Armandinas e Afonsinas estariam todas as outras Marias com nomes terminados em “ina”, permitidos pela onomástica portuguesa. Restam algumas Catarinas, Carolinas e Cristinas. Como que no seguimento, da lei[2], de que “tudo que vicia começa pela letra ‘C’” também os nomes estarão viciados por este mistério!

Tendo estes registos prestado-me auxílio para fazer o rastreio dos meus antepassados até meados do século XIX, tiveram de ser interrompidos, pela dificuldade de rastrear a origem de certos elementos da família, que teriam vindo de outras freguesias. É que, às vezes, lá vinha um forasteiro de outra freguesia, dar continuidade à família, para que tudo não acabasse em relações incestuosas. Tudo parecia mais fácil se se pregasse sempre na mesma freguesia, entre famílias conhecidas, que culminava tudo numa grande família, numa diversidade singular de toda a família Oliveira, ou Pereira. Ou dos Santos, ou Silva, ou Ferreira.

O “Zeitgeist”, conceito alemão para “espírito da época”, ou por outras palavras, os sinais do tempo, pode ser ser vislumbrado também nestes documentos, embora haja muito que ficou por contar. Há, no entanto, histórias diluídas em contos, que as avós ainda contam, um tanto difusas, outro tanto imaginadas, enfim, que poderiam ser mais e melhor registadas. Para falar de todas as Marias, e não apenas das Marias-proprietárias, das quais, a história já reza suficientes ladainhas. É nosso dever conhecer a história, que é uma forma de saber donde vimos e para onde vamos.

Como exemplo admirável na história mediática portuguesa, e na história em geral, sugiro a visualização do trabalho de Michel-Marie Giacometti, realizado por Alfredo Tropa, apresentado e divulgado pela RTP, com o título de “Povo que canta”. Nesta série, apresentada durante três anos pela televisão pública, o etnolólogo francês, junto com a sua equipa e equipado de uma bibliografia e um rigor de investigação, pouco comum no contexto do Estado Novo, faz uma recolha de cantos populares portugueses, de norte a sul do país, que nos leva a refletir sobre os percursos da nossa identidade, enquanto povo. Nesta série, é recuperada uma boa parte da memória musical popular, desses que de outra forma seriam esquecidos, mas que tanto contribuíram para a nossa identidade coletiva. Para que não caiamos repetidamente no perigo de não conhecermos as nossas raízes enquanto povo – diferenciado por questões de classes sociais, de género, de gerações, com com a falsa ideia de que somos uma massa homogénea. Das Marias e dos Maneis, dos Faustinos, Claudinas e Albertinas, pouco fica narrado na história, conquanto, isso seja uma decisão nossa, numa sociedade que, ainda hoje, continua muito desigual, também pelo preconceito de olhar para si mesma.

Vírgilio Ferreira afirmava que a eternidade dura, enquanto não se é esquecido, remetendo para a memória dos homens a responsabilidade do eterno, memória essa, que, quer queiramos, quer não, será sempre e invariavelmente efémera, dado o tempo de vida dos homens. Mesmo 100 gerações, na escala da Vida, no seu conceito mais amplo, se resume a menos que a duração de vida de certas árvores. No entanto, há que colocar o eterno, enquanto objetivo. Será, talvez, mais razoável medir a eternidade da memória dos homens, como Vinícius de Moraes mediu a duração do amor, que é eterno enquanto dura[3]. Pois, então, que ousemos que ele dure e que nele caibamos todos.

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[2] “Tudo que vicia começa pela letra C”, vídeo de Ricardo Mallet, que deu origem ao texto, com o mesmo título que, falsamente, se atribui a Luís Fernando Veríssimo. https://www.youtube.com/watch?v=5NoXW48uw1Y

[3] Vinicius de Moraes, Soneto da Fidelidade, 1960, http://www.releituras.com/viniciusm_fidelidade.asp

VENHO DE LONGE

REGINA SARDOEIRA


Venho de longe
o perto nada me diz
por ele desvairo
por ele me arrasto
por ele rodopio
em circunvoluções de inépcia

sim venho de longe
das longínquas estrelas
(talvez desvanecidas)
dos fundos oceanos
(decerto enegrecidos)
do alto das montanhas
(se calhar mergulhadas
em névoa entretecida)

o perto
não tem poder para agarrar-me
nele me vou perdendo
(sombriamente)
como um eco de mim
um simulacro de rosto
uma sombra
uma esfinge

vou para longe
nessas sendas ignotas
(até de mim própria)
em desvios agrestes 
por rochedos inóspitos
e areias movediças
arrastarão meus passos

o perto
causa-me náuseas
trepido de ansiedade
bocejo de angústia
(o perto)
tem o travo das lágrimas
e o gosto do sangue
e arde
e dói
como espartilho gasto


venho de longe
(porque sou de longe)
vou para longe
(porque é lá que pertenço)
e quando estou perto
(neste perto de aqui)
é o longe que anima
os meus passos
de agora

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

44 ANOS DE GUINÉ-BISSAU

CRÓNICA DE JOANA BENZINHO
Celebrou-se, ontem, o 44.º aniversário da independência da Guiné-Bissau, declarada unilateralmente pelos combatentes do PAIGC nas colinas de Boé, no Leste do País, tendo sido a pioneira entre todas as ex colónias portuguesas.

Esta independência da Guiné, muito invejada à época pelos outros territórios ultramarinos, trazia com ela todos os sonhos do mundo, não tivesse sido idealizada e burilada pelo grande homem da história da África Ocidental, Amílcar Cabral.

Já não viveu para a saborear, traído que foi por um dos seus que lhe ceifou a vida na Guiné Conacri, 8 meses antes deste dia, mas tudo fez para que ela acontecesse. 

44 anos passados, não tenho qualquer pretensão ou mesmo legitimidade para julgar se os guineenses estão melhor ou pior, apenas me cabe constatar que quatro décadas de independência foram claramente insuficientes para assegurar o mínimo de bem estar e de futuro aos seus cidadãos. 

Os ensinamentos e desejos de Cabral, apesar de serem uma constante na discursata oficial de todos os quadrantes sociais, militares e políticos, ainda esperam por quem os consiga por em prática. Os cidadãos, na sua grande maioria jovens, encontram no seu país escassas oportunidades de acesso aos bens mais básicos como à alimentação, à educação ou à saúde. Os salários são baixos, quando existem e são pagos, e os bens essenciais são comercializados a valores ocidentais, incomportáveis para muitas das magras bolsas guineenses. O Estado é frágil.

Mas o país, a independência, a soberania são bens inalienáveis e inquestionáveis e representam um enorme motivo de orgulho para os seus. Comove-me sempre ao ver o sentimento com que as crianças, desde tenra idade nos jardins infantis, de olhos fechados e mão ao peito cantam a plenos pulmões o hino nacional: "Viva a pátria gloriosa! | Floriu nos céus a bandeira da luta | Avante, contra o jugo estrangeiro | Nós vamos construir | Na pátria imortal | A paz e o progresso!"

São estas meninas e meninos, "as flores da nossa luta e a razão do nosso combate", como dizia Amílcar Cabral, que irão um dia herdar os destinos deste país. Aos avós e pais das muitas crianças guineenses, em mais este aniversário, ficam os votos de que façam da Guiné um país melhor, apetecível, de onde não se tente fugir numa onda migratória de contornos incertos por falta de oportunidades junto dos seus. Que consigam ser o garante da paz, do progresso e da estabilidade da Guiné-Bissau, não defraudando os preceitos inscritos no seu hino e permitindo aos mais novos sonhar um futuro de sucesso para si e para a Guiné-Bissau.

A FREE WORLD OF STRINGS

CAROLINA CORDEIRO
One of my favourite university Professors once told me that I should only write about the things that I know. And I’ve been faithful to this premise ever since. No matter how fictional my sentence is, its basis will always be of truth. And, bearing that in mind I’ll write you today about my holiday’s experiences. I will start with my last, since it is the one which is most alive in my self: my stay in Pico Island and what I have learnt about the world of strings to which I was introduced by the Cordas Festival. 

For those who know me, this is not news: I love Pico Island. Had I not been born in S. Miguel and given the possibility of choosing my birthplace, unquestionably I would have chosen Pico. Not that it’s more beautiful than my island but I would have, gladly, been born there. Naturally, you may think and say that had that happened I would not feel the same. Who knows? The fact is that Pico’s beauty lies not only by being the island of the highest Portuguese mountain — one I have never climbed but wish to do so, quite soon; nor because of its gorgeous black lava rocks contrasting with the bright red windows and doors, but it’s the island’s aura. Even if you don’t believe in such a thing, rest assured that you will feel something extra coming from the soil as you walk by. I cannot explain it better than this: a feeling comes from within the earth core, travels up to surface and enters your body like love and passion do. And, as such feelings, it consumes you as no other.

When you are a tourist, there are still a lot things you can do to improve your stay. A lot more information could be given, for isntance. However, I’ve been coming and going to Pico, for different reasons, and I can, hands down, tell you that it has changed — for the better — in the past five years. Why? Art came in to being in Madalena and it has been growing and spreading around the streets of this island. When you are part of something new, you are always afraid. But, nonetheless, you try and you push and you grow and then something magical happens: you make dreams come true. This is what MiratecArts has done to me.

Last year, I participated in the first Cordas World Music Festival as the winner of the literary short-story contest. But that was not the “wow” factor. The “wow” part was meeting people from other places and see how the artists enchanted the audience with their string melodies. If last year was a “wow” year, then this year I have no adjective for it, since it transcended my expectations. Apart from the local and already known artists like Rafael Carvalho, Luís Alberto Bettencourt and Ruben Bettencourt, I (and those who were lucky to attend the concerts at the new Madalena’s auditorium) have met artists from Brazil (Maninho), China (Lu Yanan), Mozambique (Michel William), Cape Verde (Tcheka) and Israel (Eran Zamir). I have met the way they are gentle, creative and giving people not only throughout their own personalities but also about their music. What a sound! I could go on about what memories and which chords (no pun intended!) they have struck in me but that would be attempting to reach a level I am not able to. I can only say that I and the audience — “we few, we happy few” — and our minds were blown away and can only hope for the same for next year’s festival, which is already in the making. If you are planning to pay a visit to the Azores, around September, please check if there is a way to stop by Pico Island so that you can be part of this Cordas Festival. It’s worth every penny you spend on the flight ticket because the festival is open to the public and it’s free. Free! Can you imagine that? Having these artists (some have never been to Portugal before) performing in a tiny middle atlantical island for free? Yep! It’s Cordas Festival. It’s what MiratecArts offers you: art for everyone, in every possible way, for free. Free!

DEFINITIVAMENTE, TALVEZ

DIANA RAMALHO
Talvez não precisemos de razões e nos bastem os ideais.
Talvez as ideias que levam às ações sejam mais do que meios
e consigamos atingir os fins usando só o que o inconsciente nos mostra
mas raramente somos capazes de perceber.
Quem sabe.
Talvez seja mesmo amor ou estejamos perto dele, sem o saber.
Porque hoje acordei a pensar em ti mas,
por outro lado, não me recordo se sonhei contigo.
Não sei se somos feitos de saudade mas a saudade faz parte de nós
e chega a tornar-nos parte dela.
Não sei, sequer, se é sempre nossa.

Definitivamente, é amor.
Ou isso, ou estamos perto dele. No fundo, eu sei.
Somos feitos de saudade que não é nossa,
de saudade que se começa a fazer sentir quando começamos a ser dela.

Tenho saudades tuas.
Talvez acabe por matá-las ou elas me matem a mim.
Definitivamente, não precisamos de razões.
Eu amo-te e acordo a pensar em ti como se tivesse sonhado contigo.

domingo, 24 de setembro de 2017

CRÓNICA. CINEMA. CULTURA

JOÃO PINTO
Uma vez o Woody Allen disse naquele que é um dos seus clássicos que sentia que a vida era dividida entre o horrível e o miserável e que eram essas as duas categorias, onde o horrível são os casos terminais, e os cegos e aqueles que jamais voltarão a andar, e que o miserável são todos os outros, e que nos devíamos dar como gratos pela sorte de nascermos miseráveis.

Nascemos em berços estranhos onde se ecoam notícias de um "homem" laranja, de mísseis e de diplomacias bélicas que retiram qualquer sentido diplomata da expressão em si. Mais do que nunca existe um bombardeamento de informação que alude a massas mudarem de opinião conforme a subserviência que é pixelizada seja onde for, como for e sobretudo a quem convém. Não usamos os recursos para fundamentar mas sim para alimentar uma opinião mal formada acerca de tudo o que nos rodeia. É estranha a geração que é alimentada por sonhos fabricados por aqueles que com eles irão lucrar. Ainda mais estranho é perceber que esta alienação não atinge uma geração mas sim um mundo delas. Sem esquecer o mundo daqueles que diariamente se contrariam à formatação e que contribuem para tanto que para o povo parece tão pouco. Esses que são os esquecidos, pois não têm em mente aquilo que parecem ser os pontos fulcrais no final do dia: lucro e luzes. É fácil esquecer que essas luzes conseguem cegar qualquer tipo de liberdade que supostamente nos é dito termos. É por isso que é importante projetar uma visão abrangente sobre tudo o que nos envolve. E sobretudo, ser capaz de olhar para além do panorama geral. Ser capaz de olhar para o que está à nossa frente da nossa própria forma, por mais promiscua ou insignificante que possa parecer, se há coisa que o cinema nos pode ensinar, é que nada é insignificante se for olhado da forma certa. Este texto, crónica ou o que quer que seja não vem a propósito de cinema, vem a propósito de cultura, e do quão desprezada ela é. Não falando de dinheiro ou de percentagens mas falando da mentalidade perante o cultivo do nosso futuro.

Começava eu a redigir sobre o Woody Allen. Lembro-me de ver o Manhattan pela primeira vez e como qualquer filme do Woody Allen me fascinar por o quão comum qualquer linha de diálogo poderia parecer não fosse ela escrita por quem foi. E que qualquer beco de Nova Iorque tinha a sua história, o seu traço e a sua própria vida. Pois não se tratavam de diálogos comuns, mas sim de temas comuns, do nosso quotidiano. Pequenas conversas e pequenos momentos que se projetam ao comportamento do humano. E pouco a pouco pela história do cinema e francamente de qualquer forma de arte se percebe que se pode tornar o comum em matéria merecedora de ser apreciada, desde que não caia no erro de ser vulgar. O comum e o vulgar, o banal são diferentes. E cabe-nos a nós perceber isso. Perceber que a nossa pequena contribuição para um mundo voraz está na facilidade inquietante do atrevimento de pensar. Pensar em desassossego. Transformar o pouco que está à nossa volta numa ideia que virá ou não a promover-se perante todos nós. E se tal não acontecer, promover-nos a nós mesmos. Quer seja o perfeccionista Kubrick com a sua inquietude na representação do comportamento humano e nas odisseias do mesmo, o colorido Wes Anderson com histórias que fazem trazer ao de cima todos os elementos por vezes esquecidos pelo público na sétima arte, o peculiar David Lynch cuja imaginação será apenas compreendida pelo próprio, seja o cinema feito onde for, como for, de que ano, género ou temática abordar há algo em comum que se retira de qualquer obra, e é de que qualquer tema, qualquer ideia, sem pensar no tamanho da mesma, é um contribuinte para aquilo que enquanto humanos vamos tentando fazer, ou pelo menos deveríamos. O afastamento da ilusão de que tudo o que está à nossa frente é o que acontece. Pois bem, nós vê-mos uma fração imaginária daquilo que acontece à frente de uma câmara. Não nos ousemos a esquecer o que está por trás dela. Vamos praticar a ousadia de nascermos miseravelmente capazes.

MAIS UM VERÃO QUE FINDA

LÚCIA LOURENÇO GONÇALVES
Pois é, foram-se as férias, os deliciosos passeios à beira-mar, as visitas às zonas históricas do nosso belo país, as agradáveis noites na varanda a ouvir o grasnar das gaivotas paralelamente ao ruído do trânsito da rua do lado. Enfim, foi-se o verão!

Voltamos às ruas entupidas de trânsito, às buzinadelas impacientes de quem tem pressa em chegar ao destino… Volta-se à, por vezes opressiva, realidade!

Às mochilas, manuais e cadernos dos elementos mais novos da família. E para que tudo se programe, não podem faltar os horários escolares presos com iman’s em forma de letras coloridas na porta do frigorífico. Afinal, o fim do verão traz consigo mais um ano letivo, mais um degrau na caminhada académica dos nossos filhos.

Adeus roupas estivais, já se agradecem umas peças de roupa um pouquinho mais aconchegantes.

E parece que o verão começou ontem, contudo já terminou, e nesta luta quase desenfreada de o aproveitar ao máximo, nem damos conta do tempo que se esvai sem pedir licença… E tudo se repete dia após dia, ano após ano.

Então, o céu vai acinzentando, o belo azul com que nos brindou nos últimos meses também se vai despedindo… e a bruma torna-se dona e senhora do início das manhãs. Eis-nos no outono!

Assim é a vida, feita de ciclos que se sucedem. Nós, já “formatados”, automaticamente saímos de um e entramos noutro sem quase pensar nos planos que, por falta de tempo, falhamos. Outro verão chegará e o que neste não concretizamos é transportado para o próximo e, assim vivemos na expetativa, algo que tem o poder de encurtar os meses de espera até o verão seguinte!

É COMPLICADO

CARLA SOUSA
É complicado crescer, mudar e seguir em frente.

Muitas vezes as pessoas queixam-se de que “a vida é complicada” mas, não fazem nada para mudar o que realmente complica.

Por vezes são problemas atrás problemas de aparente difícil resolução, e há quem entre no modo “queixinhas” e se vitimize perante as circunstâncias. Ou, por outro lado, faça de conta que nada existe. Sobreviver, aguentar não é nada bom. O importante é mudar para poder ser feliz.

Convém perceber que quem muito se queixa, mesmo quando lhe são apresentadas soluções, é porque realmente não quer mudar. Ou seja, quer continuar no estilo de vida que lhe causa stress e sofrimento.

Vivemos numa sociedade demasiado exigente e consumista que vende a felicidade. As pessoas tentam comprá-la e acabam por se sentir felizes por efémeros 5 minutos (às vezes nem a isso chega).

Mudar para ser feliz causa medo. Por isso muitas pessoas preferem continuar na depressão, infelicidade, frustração e complicação.

O medo do desconhecido é um travão para alguns. Existe o medo da adaptação a um novo trabalho, pessoas, estar sozinho, novo namorado, nova casa …

O ser humano tem uma tendência para perceber e avaliar mais aquilo que é negativo. É dado mais ênfase ao que pode correr mal do que ao que pode correr bem.

Mudar para algo desconhecido, que nunca se experienciou também pode ser aterrorizante sobretudo porque a pessoa não sabe exactamente o que aí vem.

Mudar exige paciência e persistência. Exige também capacidade de sonhar e acreditar.

Quando algo se complica na vida e já tentamos de tudo para o resolver. (não esquecer que quando o problema é com duas pessoas têm de as duas querer resolvê-lo. “Um tango não se dança sozinho”). Mais vale seguir em frente. É um ataque ao ego pois pode ser doloroso o sentir que se falha.

No entanto, não se esqueça do seu potencial. Se quiser tudo se descomplica. Só não vem num estalar de dedos! São necessárias força e determinação para se alcançar a felicidade e estabilidade.

sábado, 23 de setembro de 2017

UM PAÍS DE VANGUARDA

(Primeira parte)

JORGE NUNO
Senti um genuíno interesse na leitura de “Conquistadores – Como Portugal Criou o Primeiro Império Global”, de Roger Crowley. Este autor, que escreveu diversas obras de história, também nesta procurou avidamente o rigor, sendo inevitável que teve, para tal, de efetuar uma vasta investigação, baseada numa imensidão de documentos da época e traduções existentes. Inicialmente, não dá mostras de pretender enaltecer as qualidades dos portugueses, enquanto povo de vocação marítima, pois retrata muitas das suas fraquezas, ocultadas nos livros convencionais da história de Portugal. No entanto, acaba por relatar “como uma das nações mais pequenas e pobres da Europa pôs em movimento as forças da globalização que hoje dão forma ao mundo” e viveu a sua época de ouro no século XVI, temida (pelo poder dos canhões da artilharia marítima), respeitada (pela ousadia e também pela oportunidade de comércio) e odiada (tanto pelos muçulmanos, face à obstinada cruzada para “o extermínio do islão e propagação da cristandade sob um monarca universal[1]”, e por todos aqueles que perdiam direitos e influência, à medida que as naus portuguesas iam avançando rumo à expansão territorial e comercial). As iniciativas do rei D. Manuel I – que viria a assumir o título de “rei de Portugal e dos Algarves, Senhor do Comércio, da Conquista e da Navegação da Arábia, Pérsia e Índia” – tiveram a bênção papal, com direito à “posse perpétua das terras conquistadas aos infiéis, onde outros reis cristãos não tivessem reivindicações”.

É certo que naquela época houve um enorme esforço na construção de naus, canhões de bronze e outro armamento, angariação de tripulação e preparação das viagens, mesmo fazendo uso do ouro da Guiné e dos bens de judeus expulsos. Essas viagens realizavam-se em condições difíceis: elevado risco; desconhecido; hostilidades encontradas; insuficiente provisão de água doce e falta de lugares para abastecer; falta de géneros alimentares frescos e, principalmente, de citrinos, que tanto dizimaram tripulações. Mas com as boas notícias trazidas da Índia, no regresso de Vasco da Gama (mesmo que a viagem ficasse ensombrada pela perda de dois terços da tripulação), também houve um excelente trabalho na ocultação de segredos – obtidos com muito sangue, suor e lágrimas – e na divulgação dos êxitos, que chegaram aos pontos estratégicos da Europa e, em particular, Veneza, Génova e Florença, que detinham o monopólio do comércio de especiarias (vindas por terra, até ao Egito).

No final daquele reinado, ao nível de imagem exterior, Portugal estaria no auge, muito favorecido pelo comércio florescente, que seria fruto de um “projeto, simultaneamente, imperial, religioso e económico”. Tal, foi sustentado pela influência dos padres, monges e cavaleiros da Ordem de Cristo e dos astrólogos reais, mas acima de tudo pela obstinação de um monarca que, tendo herdado a coroa do primo – D. João II – acreditava “num destino messiânico” e predestinado a estes feitos. Arrogando-se “ter herdado o manto do seu tio-avô – o Infante D. Henrique, ‘O Navegador’ –, invocou obediência à sua missão divina” para prosseguir, perante a oposição da nobreza. Agora, seria um país ainda mais forte do que o de D. João II, anterior monarca que teve o arrojo de discutir e fazer aprovar o tratado de Tordesilhas, com os reis católicos Fernando de Aragão e Isabel I, “regateando a posse do mundo”, que dividido em dois seria pertença de Portugal e de Espanha, mais uma vez com a bula papal.

Entre imensos factos surpreendentes, realça-se a iniciativa e o secretismo de D. Manuel I no envio de emissários “a Henrique VII, em Inglaterra, ao rei Fernando de Aragão, em Espanha, a Júlio II [papa], a Luís XII, em França, a Maximiliano I, sacro imperador romano, convidando-os a participar numa cruzada naval pelo Mediterrâneo até à Terra Santa”, mas em que houve falta da resposta esperada. No entanto, D. Manuel I manteve firme a ideia de “destruição do bloco islâmico”, rotulado de “infiéis”. Em julho de 1505, “o papa concedeu a D. Manuel I um imposto de cruzada que poderia ser cobrado durante dois anos e remissão de todos os pecados para quem nele participasse”. Convenhamos, seria reconfortante e uma atenuante para quem participasse nestes ferozes combates, saber que todo o mal causado a outrem ficaria livre da condenação divina.

(Continua...)
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[1] Uma xilogravura de 1514 mostra-nos o rei D. Manuel I no trono, tendo à sua direita e esquerda, respetivamente, as armas do reino e a esfera armilar e, ligado ao ceptro real, uma fita com “DEO IN CELO TIBI AVTEN IN MVNDO” (A Deus no Céu e a Ti na Terra), o que faria a “ligação entre o terreno e o divino, perspetivando-o como um soberano universal a “aspirar ao título de imperador de um reino messiânico cristão”.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A PERDA DOS NOSSOS ÍDOLOS

RUI DE LEÓN
Como músico, e como fã incondicional da música, posso com orgulho afirmar que os anos 90, foram para mim, a época de ouro, uma vez que ouvi, cresci com as tendências rock/grunge que fervilhavam na altura. Bandas de Seatle como os Nirvana, Soundgarden, Pearl Jam , numa "onda" mais funk, rock-alternativo e punk os Red Hot Chili Peppers entre outros grandes artistas marcavam a história da música.

Porém , por influência familiar, sempre tive um "background" musical mais amplo que percorre Leonard Cohen, Frank Sinatra, Rolling Stones, The Beatles, Louis Armstrong , Led Zeppelin entre tantos outros. No panorama nacional na altura, gritavam os Ornatos Violeta, os Silence 4 e os Moonspell. 

Apesar deste "cocktail musical" sempre me identifiquei mais com o rock/grunge , que posteriormente, teve um papel fulcral enquanto músico. 


Toda esta descrição que apresentei serve para abrir a porta ao tema que realmente quero abordar. A perda dos nossos ídolos, e como isso afecta o panorama da música actual.

De 2015 a 2017, foram anos desoladores quanto à partida, entre muitos, precoce de diversos ícones de vários géneros musicais. Aqueles que para muitos marcaram a sua geração, partiram e deixaram um vazio não só a nível musical mas também na forma como influenciaram as suas vidas com histórias controversas, estilos de vida e muitos pela ação social e de intervenção que exerceram.


Hoje em dia, embora com maior facilidade para gravar um álbum e distribui-lo digitalmente, tendo cada vez mais artistas, é por outro lado mais difícil se destacar por entre tamanha massa de novos talentos. E no meio de outras conjunturas, aquilo que me apercebo, e acaba por ser mais uma opinião pessoal do que um facto, os maiores meios de difusão de música parecem ter um espectro mais estreito, um género musical comum, que roçam o kizomba e os ritmos latinos. Parece assim haver menos margem de manobra para a continuação do legado daqueles que já partiram. 


Como exemplos temos o legado de Scott Weiland, vocalista e compositor Norte-Americano ex-vocalista dos Velvet Revolver, ficou mundialmente conhecido com os Stone Temple Pilots. A forma controversa como Weiland lidava com o mundo do espetáculo e a forma singular como se apresentava em palco marcaram uma geração e deixaram o seu nome gravado no mundo rock/grunge com a explosão do som de Seatle. Foi encontrado sem vida no autocarro da tour que realizava nos EUA em Dezembro de 2015.


Outra grande referencia de rock/grunge que perdeu a vida em Maio de 2017 foi Chris Cornell ,um dos grandes impulsionadores do movimento grunge de Seatle nos anos 90. 


Fez parte dos Soundgarden, Temple of a Dog (juntamente com Eddie Vedder) e Audioslave. Para mim, sempre foi um ídolo, talvez uma das maiores referências vocais e sem dúvida uma das maiores influências no meu trabalho. Foi com choque que o mundo da música recebeu a notícia da sua partida prematura. 

Segue-se Chester Bennington, vocalista dos famosos Linkin Park (rock alternativo, rap rock, rock eletrónico). Perdeu a vida a em Julho de 2017. Bennington ainda deu voz aos Stone Temple Pilots, continuando o legado deixado por Weiland. 


Dentro de outros géneros musicais presenciamos a partida de Leonard Cohen, autor de Im your Man e Hallelujah, aos 82 anos. Deixa-nos uma invejável carreira tanto como cantor como compositor. 


Outro gigante da música, George Michael faleceu em Dezembro de 2016. Para muitos a cara dos Wham com a música Last Christmas, marcou uma geração com os seus êxitos musicais e com uma vida controversa. Deixou uma legião maciça de fãs destroçados .


Não poderia deixar de falar do grande "camaleão dos palcos" , o grande David Bowie. Um artista sem precedentes, com uma discografia tão diversa e rica que marcou gerações de forma tão intensa e impregnada. Deixou o mundo perplexo e em choque em Janeiro de 2016 quando foi confirmada a sua morte , dias após o lançamento do seu último trabalho "Blackstar" 


Todos estes artistas, com estilos distintos, personalidades fortes e detentores de um enorme talento, deixaram a sua marca de inúmeras formas, tocando as mentes e corações de gerações. 


Gerações estas que, embora em crescimento exponencial na música, não parecem continuar uma história começada por estas Estrelas. 

O mundo da música está mais pobre e, claro , a lei da vida é certa, e muitos dos nossos ídolos partirão. Cabe a nós mantermos a chama bem acesa e não deitar por terra o que anos atrás começaram. 

O rock , rock/grunge marcou toda uma geração e transportou-nos tantas vezes para lugares que nuca visitamos, ajudou-nos a atravessar períodos conturbados e marcou para sempre a história da música. 


Assim termino esta crónica, "puxando a brasa à minha sardinha" e apenas dizer "long live the grunge".

O ESTATUTO JURÍDICO DOS ANIMAIS – O QUE FAZER PERANTE O ABANDONO?

ANA LEITE
Perante o hipótese de encontrar animais abandonados, surge sempre a questão de como agir, o que fazer e qual o nosso dever em ajudar aquele animal.

De facto, com a aprovação da Lei 8/2017 – Estatuto Jurídico dos Animais -, os animais deixam de ser coisas, passando agora a ser reconhecidos “como seres vivos dotados de sensibilidade e objeto de proteção jurídica”. Como tal, a nova lei refere que “o proprietário de um animal deve assegurar o seu bem estar e respeitar as características de cada espécie e observar, no exercício dos seus direitos, as disposições especiais relativas à criação, reprodução, detenção e proteção dos animais e à salvaguarda de espécies em risco, sempre que exigíveis .” No caso de o “proprietário” do animal não conseguir assegurar estas questões, a lei considera que o mesmo está a incorrer numa infração.

Assim, na possibilidade de “apanhar” alguém a cometer um crime de abandono de animais, devemos angariar o máximo de provas para poder denunciar o referido crime. Apesar de se tratar de um crime público, para abrir o respetivo procedimento criminal, é necessário haver conhecimento da existência do crime. Facto que muitas vezes impede de se fazer a devida investigação, e assim poder aplicar a consequência jurídica ao agente do crime. O atual código penal não deixa dúvidas, quando estabelece no seu artigo 388.º que : “Quem, tendo o dever de guardar, vigiar ou assistir animal de companhia, o abandonar, pondo desse modo em perigo a sua alimentação e a prestação de cuidados que lhe são devidos, é punido com pena de prisão até seis meses ou com pena de multa até 60 dias.” Desta forma, deverá procurar reunir o máximo de provas – testemunhal ou documental, como fotografias do acontecimento. O denunciante não paga nenhuma taxa ou sobre ele não recaí nenhuma represália, podendo vir a participar no processo apenas como testemunha do crime que presenciou.

Porém, na possibilidade de encontrar algum animal, e depois de tentar perceber se o animal estará perdido ou abandonado, chegar à conclusão que o mesmo está abandonado, existem diversos procedimentos que poderá adotar, como por exemplo, contactar uma associação de animais ou um canil municipal, ou poderá sempre tentar encontrar alguém que faça uma adoção responsável.

Devemos todos lembrar-nos que o abandono de animais é crime. E se é crime temos todos que denunciar, para haver a devida investigação e a consequente acusação e punição.

AMBIVALÊNCIA SENTIMENTAL

GABRIELA CARVALHO
A difícil tarefa de ver os filhos crescer... Oh sentimento complicado este!!!

Quando são pequenos e choram, pedimos para que cresçam e se expressem de forma a que entendamos o que nos querem dizer... mas quando efectivamente crescem... como é tão bom, tão bonito e, simultaneamente tão difícil vê-los crescer!

A pequena com os seus 3 anos lá entrou para o jardim de infância. MUITO ORGULHOSOS seguimos com ela até à escolinha, mas sempre com o coração apertado de medos, de incertezas, de dúvidas...

Entramos e logo percebemos que, a pequena estava «mais feliz do que nós»! Bolas, apesar de sabermos a importância da entrada para o jardim de infância, apesar de confiarmos naquele jardim de infância, apesar de termos a lição bem estudada de que "está na idade"; é o nosso ser minúsculo que segue ali, de mochila às costas! E como cresceu...!!! Nesse momento o estômago contrai, os olhos enchem-se de lágrimas que com muita dificuldade controlamos e percebemos que a mudança está presente

Pedimos-lhe que siga os seus sonhos, mas se possível que estejamos por perto os acompanhar; pedimos-lhe que cresça, na medida em que os nossos braços continuem a poder abraçá-la e que o nosso colo continue a ser o «único» com a medida certa; pedimos-lhe que seja feliz, garantindo que tudo faremos para que assim seja...

Mas, é de facto difícil, ver os filhos crescer...

Com o brilho da felicidade e de todos os medos possíveis e mais alguns, disse-lhe que já íamos embora. Ela ficou e olhou-nos com aquela vontade de abraçar o mundo e de viver cada segundo intensamente, que tanto a caracteriza. E nesse olhar fugaz a professora pergunta se não quer ir dar um beijinho à mãe. E eis que responde prontamente: «NÃO É PRECISO. ADEUS MÃE. VAI TRABALHAR, VAI TRABALHAR...» ... e eu vim!

VOA ALTO, CHEGA LONGE E NUNCA DEIXES DE SONHAR!

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

UM PARADOXO CHAMADO ISALTINO

RAUL TOMÉ
Nas últimas semanas tem-se assistido, nomeadamente, nas redes sociais a um enorme burburinho em torno da candidatura de Isaltino Morais à câmara municipal de Oeiras. Ora, cumpre desde já alertar os leitores que não existe aqui qualquer intuito de índole eleitoralista nem de defesa da personalidade em questão.

O que aqui se pretende é fazer uma reflexão acerca da sociedade em que vivemos e sobre o que entendemos como Estado de Direito no que concerne à reposição dos direitos de cidadania de todos (e sem excepção) os cidadãos 
Será moralmente questionável a recandidatura de Isaltino Morais? Eventualmente será! Mas aqui já entramos no campo da individualidade de cada um, pelo que tecermos juízos de valor acerca das atitudes de terceiros, por norma, nunca abona a nosso favor.

No caso de Portugal, por exemplo, contrariamente a outros países, a pena de morte foi abolida em 1867. Portanto, concorde-se ou não, a privação da liberdade foi uma das formas encontradas para punir os cidadãos pelas suas falhas. 

Todavia, se um cidadão é julgado, condenado e cumpre a pena que lhe foi atribuída, ser perpetuamente julgado em praça pública vem, apenas e só, provar uma eventual falência do sistema judicial e a total hipocrisia da sociedade em que vivemos.
Por um lado, os cidadãos acusam a justiça por nunca condenar individuos detentores de elevados cargos políticos sempre que surgem indícios de corrupção. Por outro, não acreditam que a justiça tenha sido suficientemente dura e eficaz quando pune tais comportamentos.

É por isso que urge a necessidade de, enquanto cidadãos ponderarmos, de facto, que sociedade queremos.
Onde está aquilo que apelidamos de (re)inserção social?
Não acreditamos nós que a privação de liberdade possa ser requalificante para os indivíduos? Então porque a aplicamos se não a vemos per si como justa? Porque não pensamos noutras formas de punição quando esta não nos satisfaz?
Teremos nós cidadãos o direito de condenar perpetuamente os indivíduos quando Portugal aboliu a prisão perpétua em 1884? Será justo que os indivíduos sejam condenados a uma dupla pena, a judicial e a social?

No exemplo que aqui trazemos importa recordar que Isaltino Morais foi condenado a dois anos de prisão por fraude fiscal e branqueamento de capitais, não lhe tendo sido atribuída nenhuma pena assessória, nomeadamente, a inibição de ocupação de cargos públicos.
Nesse âmbito, tendo pago à sociedade pelos delitos cometidos, os cidadãos têm de adquirir plenos direitos, não só por parte das instituições mas também por nós enquanto sociedade que se quer inclusiva.

No caso em apreço e fazendo jus ao adágio popular, "quem está dentro do convento é que sabe o que lá vai dentro", cabe aos cidadãos de Oeiras decidir, não com base nos preconceitos mas sim na razão e na igualdade de direitos de cidadania, se Isaltino deverá ou não ser reeleito.

AS REDES SOCIAIS

ARTUR COIMBRA
As redes sociais são, hoje em dia, uma realidade incontornável para quem procura a informação mas, sobretudo, o comentário e a opinião sobre os acontecimentos, sejam numa dada localidade, no país ou no mundo.

Substituindo um pouco o secular diário pessoal das nossas infâncias, em cujas páginas o leitor ia apondo os seus textos, os seus poemas, os seus desenhos, as suas análises ao que se passava à sua volta, as redes sociais constituem, na actualidade, a forma como os cidadãos vão reagindo ao momento, em cima das ocorrências. Alvitrando, julgando, avaliando, aplaudindo ou censurando. Acabam por se transformar na voz dos que não têm voz no dia-a-dia dos jornais ou, genericamente, da comunicação social, cada vez mais reduzida ao papel de porta-voz dos grandes interesses políticos, económicos, culturais ou desportivos deste país.

Assim, as redes sociais assumem um imprescritível espaço de promoção da cidadania e da própria democracia, enquanto mensageiras da representação do pensamento de cada português, que, de outro modo, jamais conseguiria obter a amplificação que aquele meio proporciona.

E quem diz democracia, diz liberdade. É inquestionável que as redes sociais representam a legitimação da liberdade de cada cidadão colocar na net tudo o que lhe vai na alma. E é exactamente no exercício desse sagrado benefício que, paradoxalmente, reside o perigo do sistema, que é enorme. 

Ninguém questiona o direito de qualquer cidadão a exprimir, sem peias, as suas opiniões, as suas críticas, os seus desejos, os seus fantasmas, desde que assuma, lealmente, a autoria do que escreve e publica. Já se contesta esse direito desde que praticado a coberto do anonimato, ou de falsas identidades, ou de perfis falsos, como é comum no mundo virtual, sobretudo em épocas eleitorais.

As pessoas sem escrúpulos transferem para as redes sociais as suas taras, as suas perversões, a sua podre maledicência, a sua desonestidade intelectual, no fundo, a sua cobardia. Que outra designação não pode ter quem, anonimamente, em textos ou comentários, denigre e achincalha respeitáveis pessoas, permite-se julgar quem não conhece, humilha e ofende quem não está de acordo com as suas ideias, vilipendia e insulta quem lhe dá na real gana, porque, no fundo, escreva o que escrever, ninguém é penalizado pela estrumeira que lança na Internet. 

Ao contrário do que acontece nos media, que têm directores e coordenadores que filtram devidamente o espaço opinativo, nas redes sociais reinam, quantas vezes, o caos e a anarquia, releva a linguagem de estrebaria, impõe-se a voz do ataque, da injúria, da difamação, dos sentimentos mais primários, na perspectiva de que ninguém descobrirá a respectiva autoria. E ninguém paga pelos delitos que, com a mesma linguagem, seriam penalizados na imprensa. 

Nas redes sociais campeia gente sem princípios, sem valores, sem disciplina. Falta aí certamente uma autoridade que vele por comportamentos adequados a uma vida em sociedade, pautada por paradigmas de respeito, de ética, de rectidão, de probidade.

Faz falta uma entidade reguladora para as redes sociais, mas que exerça, de facto, essa importante missão disciplinadora, e não a farsa que são os reguladores da comunicação social, ou da electricidade, ou dos combustíveis, ou do que quer que seja, e de que ninguém lobriga a utilidade para os cidadãos. 

As redes sociais são, em suma, um espaço de democracia e de liberdade, mas também de cobardias, de ataques pessoais, de libertinagem, muitas vezes a coberto de perfis falsos que pervertem o que a Internet tem de imensamente positivo!

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

DIZ-ME O QUE TENS E DIR-TE-EI QUEM ÉS!

MÁRCIA PINTO
Apesar da revolução de mentalidades que tem ocorrido ao longo dos anos é ainda notória uma estratificação da sociedade!

Contudo, é importante perceber que todos os aspetos de uma sociedade, economia, política, área social, cultural, etc. – estão interligados. Deste modo, os vários tipos de estratificação não podem ser considerados de forma independente. Por exemplo, as pessoas que têm uma posição económica favorável, normalmente, desempenham posições profissionais valorizadas socialmente.

Assim, existem sociedades em que, mesmo usando toda a sua capacidade e todos os seus esforços, o indivíduo não consegue alcançar uma posição social mais elevada. Nesses casos, é como que se fossem rotulados logo à nascença, independentemente da sua vontade e sem hipótese de mudança. Assim, carrega consigo, para toda a vida, a posição social herdada.

Felizmente, na nossa sociedade, há indivíduos que nascem numa camada social mais baixa e conseguem alcançar, com o decorrer do tempo, uma posição social mais elevada.

No entanto, continuamos a ser mais valorizados pelo que temos do que pelo que somos. As pessoas hoje em dia só se preocupam com o dinheiro e bens materiais, passando para segundo plano os sentimentos do outro. Valorizam mais o físico e a aparência desvalorizando o caráter!

O mundo de hoje infelizmente é um mundo vazio onde falta afeto, respeito, educação, amor…Coisas tão simples que se foram perdendo ao longo do tempo. O individualismo e o egoísmo são a marca dominante do comportamento coletivo. Prevalece o culto do prazer e da satisfação imediata dos desejos. Ser honesto deixou de ser valorizado pois vivemos num tempo em que só os espertos conseguem chegar mais longe!
É importante, não deixar de usar nas nossas vidas a simplicidade e a humildade, que ao contrário do que o que a maioria pensa, não significa ser pobre, mas reconhecer o valor do outro, subir com dignidade e pelo nosso esforço.Precisamos estabelecer critérios pelos quais deveremos pautar os nossos comportamentos.

Neste sentido, os pais e educadores têm papel fundamental, na medida em que devem ser exemplo para os filhos e educandos. Ensinar que vale a pena ser honesto, É inadiável ensinar com palavras e, sobretudo, com exemplos que é importante construir um mundo melhor, mais comunitário e solidário.

DEPOIS DO FIM DO MUNDO TUDO FICA BEM

RAQUEL EVANGELINA
Este texto é para ti. Sejas tu quem fores. Podes ser aquele(a) que se sentou na cadeira do consultório e a quem o médico informou com um ar pesaroso que a situação é mais grave que o que se pensava. Podes ser aquele(a) que batalhou tanto por um determinado lugar e por muitos esforços que faça parece que nunca te é dada a oportunidade. Podes ser aquele(a) que está de luto porque acabou de perder alguém que lhe era muito. Podes até ser aquele(a) que por muito bom que seja vê a pessoa com quem está escapar-lhe pelos dedos e não percebes o porquê. Acho que toda a gente passa ao longo da vida por estas situações, se não passar por todas, passa em duas de três pelo menos. 

Um dia descobres que estás doente. Pensas porque é que te aconteceu a ti, porque é que tens que ser tu a passar por essa provação. Pensas na morte, mesmo que não queiras lá no fundinho a ideia de que pode ser o fim do jogo para ti aparece. Deprimes e isolas-te. Não porque culpes as pessoas que te rodeiam mas porque não queres que elas vejam que não és tão forte quanto queres mostrar. Que choras e que tens medo. E de qualquer forma elas não te vão dar a cura então para quê incomodá-las com batalhas que não são delas? As pessoas que realmente se importam contigo passam a vida a fazer perguntas. E tu não estás com disposição de nada, muito menos de interrogatórios. 

No trabalho esforças-te por ser o melhor que podes. Pões a vida profissional acima da pessoal, dás a cara pela instituição que representas e és uma pessoa ambiciosa. Mas mesmo assim nada acontece. Vês outros ficar com as tuas vitórias, tirar proveito dos teus esforços e começas a desmotivar. E é nesse teu momento de fraqueza que começas a ser criticado(a). Como é que alguém sempre tão prestável, tão disponível, de repente deixa de o ser e baixa o seu rendimento laboral? E se ninguém reparou até agora na tua prestação acredita que reparam logo assim que ela baixa. E continuas sem motivação e completamente infeliz porque foste ultrapassado(a) por alguém com mais ambição e sem medo de “passar por cima” dos colegas. Ir para o trabalho passa a ser uma obrigação e não algo que te seja prazeroso. Ficas frustrado(a) e se não podes gritar ou reclamar com os teus superiores por teres o emprego em jogo farás com os que estão em casa e não têm culpa nenhuma.

O teu pai morreu. Quem diz o teu pai, diz a tua mãe, o teu filho, o teu avô, quem quer que seja que te é próximo e muito importante. Choras porque há perdas que não há volta a dar e a morte é decididamente uma delas. Fazes o teu luto mas por vezes é difícil deixar ir. A última vez que falaste com essa pessoa discutiram. Gostavas de lhe dizer que a discussão foi uma estupidez e ela morreu sem que lhe dissesses o que realmente querias, que gostavas muito dela. Isolas-te, achas que nunca vais ultrapassar essa pessoa não estar mais lá. Recordas os momentos com mágoa. Não porque foram maus mas porque foram bons e não voltam.

E falando em perdas o que te aconteceu enquanto elemento de um casal? Porque é que a tua relação te dá mais motivos para chorar do que razões para te orgulhares de ter essa pessoa ao teu lado? Um dia chega e berra contigo todas as frustrações externas a ti mas tu perdoas porque está numa fase má e não quer dizer que não te ame. Um dia começa a criticar que estás mais isto ou aquilo e pensas que realmente a culpa é tua, que te desleixaste e que és indigno(a) da pessoa que tens e inferior a ela. Bate-te uma vez. E sim isto também acontece com vítimas homens, apesar de em menor número. Ficas magoado(a) mas perdoas, conheces quem tens, apenas perdeu a cabeça e não torna a fazer o mesmo. Se calhar até fizeste por merecer. E vais tentando manter através de cacos o relacionamento, vais sustentando-o com base no teu amor unilateral porque Deus te livre de viver sem aquela pessoa. Porque no fundo ela te ama e tudo o que viveram já foi tão bonito. E se algo está mau a culpa decididamente é tua, nunca do outro(a).

A questão é que por vezes achamos que é o fim do mundo. Não vamos sair da doença, não conseguimos arranjar outro emprego, nunca conseguiremos ter novamente as pessoas que já foram e não conseguimos viver sem o nosso grande amor. Todos nós passamos por esses fins de mundo. Eu já passei e a minha visão é mesmo a de que sim por vezes é o fim do mundo mas passado um tempo está tudo bem. Não é o fim do mundo como o conhecemos, é apenas o fim de alguns mundos nossos mas depois fica tudo bem. Portanto não te deixes abalar pela doença. Há tantos que a vencem. Tu és mais forte. Não tenhas medo de juntar quem te rodeia e dizer que tens alturas que choras. Todos o fazemos e por vezes por coisas mínimas. Eu sei que vou soar um pouco lunática agora tendo em conta a economia do país mas se não estás bem no emprego sai. Haverão outras oportunidades profissionais e se és dedicado(a) elas aparecerão. Relativamente a quem perdeste honra-lhes a memória. Pensa que onde quer que estejam não estarão de certeza interessados na discussão e sim em tudo o que viveram de bom contigo. E quanto ao amor acredita que há vida depois daquela pessoa. Se não consegues aguentar mais vai embora. Não porque já não a ames mas porque te amas, se não o fazes deves fazer, mais a ti. 

Esta minha crónica não te vai trazer saúde. Não te vai dar um emprego novo. Não te traz nem quem já partiu nem o teu amor de volta. Mas espero que te traga esperança. E a ideia de que depois do fim do mundo tudo fica bem. A ti. A mim. A todos. 

NA IDADE DOS PROJETOS...?

ELISABETE RIBEIRO
Estamos no início do ano letivo. Para muitos uma nova escola, para outros uma continuidade. 

Este início é recheado de adaptações quer ao funcionamento do estabelecimento de ensino quer ao agrupamento. Entre reuniões e sub reuniões, ordinárias e extraordinárias vou tomando conhecimento do número de Projetos existentes para desenvolver, com os alunos, ao longo do ano.

A característica básica de um projeto é a de ter um objetivo partilhado por todos os envolvidos, que se expressa num produto final e que terá, necessariamente, análise, reflexão, monitorização e divulgação dos resultados dentro do circuito escolar. Contudo, quando nos deparámos com turmas mistas, um ensino quase personalizado, ausência de apoios educativos que respondam às necessidades efetivas das dificuldades reais, metas curriculares a atingir, programas extensos, que tempo nos sobra para fazer registos, grelhas, análise de resultados, relatórios finais e afins deste mar de exigências dos projetos? É que não é um nem dois... é mesmo a roçar a mão cheia!

Agora questiono: será tão importante assim o desenvolvimento destes projetos, que dizem " visam a promoção e sucesso escolar dos alunos", quando nos debatemos com a falta de tempo para lecionar o programa curricular? 

O ensino não terá virado um poço burocrático onde, o que importa mesmo é o papel que diz que se fez, dando um acumulado de papeladas, tornando os docentes, secretários? 
Opinem!

terça-feira, 19 de setembro de 2017

O IMPERATIVO KANTIANO E A VIDA REAL

REGINA SARDOEIRA
Há uma certa formulação do imperativo ético kantiano que, numa espécie de obsessão humanista, tentei levar à prática crendo ser possível alcançar, por ele, uma forma de perfeição ética e levar a vida na tranquilidade de quem encontrou o porto. Escrevê-lo-ei aqui para que me entendam melhor, possam tirar as vossas próprias conclusões e, eventualmente, ajudar-me a ver claro.

«Age de tal maneira que uses a Humanidade, quer na tua pessoa quer na pessoa de outrem, sempre e exclusivamente como um fim e nunca como um meio." (Immanuel Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes)

Uses a Humanidade, diz Kant, porque efectivamente nós vivemos em turbas medianamente organizadas e não temos outro remédio senão usarmo-nos uns aos outros no trato efectivo da sociabilidade; mas usamo-nos também a nós (quer na tua pessoa) sempre que nos embrenhamos em opções que não nos identificam e com elas nos amarramos ao quotidiano, crentes de que esse é o nosso fim, de que esse é o nosso papel. Mas, diz o imperativo kantiano usa-te, a ti e aos outros, sempre e simultaneamente como um fim e nunca como um meio… Faz o que tens a fazer, mas nunca saltes por cima de ti enquanto fim, não te uses como escada, trepando sobre a tua cabeça, para atingires fins que te afastam de ti, como fim, e onde não passarás de um meio para os teus enganadores interesses; usa os outros, mas vê neles um fim em si mesmos, ou seja, seres com autonomia e vontade que não podem ser os degraus por onde treparás até à tua própria realização pessoal!

Eis aqui a explicação possível deste imperativo ético de uma moral, dita formal, pois não assenta em pressupostos materiais sendo, por isso, também ela, enquanto moral, um fim em si mesma.
Expliquemo-nos melhor: há um certo número de regulamentos éticos, visto que a ética é uma ciência normativa, que visam obter certas e determinadas finalidades com a sua prática e, nessa linha de orientação, faz-se isto ou aquilo com o intuito de obter esta ou aquela compensação material, no sentido, não apenas estritamente físico ou palpável, mas também de cariz sentimental ou psicológico.
Nesta linha inserem-se, por exemplo, as morais epicuristas cujas máximas visam a obtenção da felicidade e, por isso, são regras de moderação e fuga ao sofrimento que não têm valor em si mesmas, mas apenas pelo efeito que produzem. "Sofre e abstém-te" é uma máxima da moral estóica, aparentemente colocada na linha oposta da epicurismo mas, apesar de tudo, com ela convergente, visto que, consideram os estóicos, o sofrimento e a morte são inevitáveis pelo que, aceitá-los como componente intrínseca da vida é uma máxima, senão de obtenção de prazer, ao menos da predisposição para a ataraxia. Por outro lado, ao abstermo-nos dos excessos, inúteis e provocadores de maior sofrimento ainda, podemos atingir uma espécie de serenidade beatífica capaz de propiciar a tranquilidade ao ser humano.
Estes são dois exemplos das morais consideradas materiais, pois, em ambas, o fim a atingir determina o meio a utilizar, ou seja, a conduta a seguir e logo o conjunto normativo que a tal poderá conduzir.
Por oposição a elas, a moral kantiana e o seu imperativo categórico representam um fim em si mesmos, quer dizer: o dever, base de todo e qualquer código moral, é, por ele próprio, um fim, impõe-se à consciência de todo e qualquer humano, inscrito numa certa e determinada estrutura social, que ele é compelido a aceitar, visto nela nascer e nela se ir tornando cidadão consciente e responsável. E a própria liberdade decorre do cumprimento da lei visto que ela é engendrada pelo ser humano dotado de autonomia -que significa,literalmente, ser capaz de estabelecer as próprias leis pelas quais se rege – sendo um paradoxo erigir leis e depois evitar cumpri-las ou violá-las decisivamente. E, mesmo o argumento segundo o qual não nos coube a nós, sujeitos individuais, a regulamentação do mundo a que pertencemos, o simples facto de admitirmos viver numa certa e determinada comunidade obriga-nos, em consciência, ao cumprimento das suas leis específicas.
A regra de oiro da moral kantiana é, com efeito, a universalidade, mas uma universalidade estribada também nas linhas do imperativo categórico, pois enuncia-se do seguinte modo:

«Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal». (Immanuel Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes.)

AS CRIANÇAS CÁ DE CASA

ELISABETE SALRETA
Quando se tem uma casa cheia, além do trabalho inerente ao bem-estar de todos, existem as brigas, os ciúmes e afins. Quando um dos filhos é um bebé especial, a coisa complica à séria.

Cá em casa, os desentendimentos passam-se a qualquer hora e em qualquer lugar. Até em cima da mãe, com a mãe a dormir.

Numa casa com crianças, a privacidade deixa de ser um dado adquirido. Portas fechadas são um insulto. A hora da refeição, uma festa.

Aqui, as crianças são gatos. Mas funciona da mesma forma. Para mim, são crianças com 3 anos ou menos, pois o seu comportamento assim se assemelha.

Acordamos, e existe o retardatário, aquele que não se quer levantar apesar da zorra que já existe no hall. A gritaria é constante, e até aqui se vê até onde vai o ciúme e o facto de se ser o irmão mais velho o que lhe dá um certo poder. Como se trata de duas meninas, as discussões, os insultos, e os ataques, são frequentes. O mano, do meio, assiste impassível, a ver se não lhe calha uma chapada perdida numa discussão fervorosa. Elas, são as únicas que gritam, ele, só de dor. Elas, despeitadas, descarregam no pobre as frustrações das lutas perdidas. Saliente-se que ele pesa mais que elas duas juntas, mesmo assim, ele apanha. Um verdadeiro gentleman.

A bebé quer impor-se e tenta enfrentar a mana mais velha. Esta, sabida, e sabendo que a pequena não vê, dá-lhe um berro que a faz mudar de direção. Não sai do sítio. Apenas espera que a pequena por la passe e diverte-se com o atabalhoar da pobre.

Mas há dias em que a pequena está terrifica e morde-lhes. Parece que se quer vingar dos sustos e chamadas de atenção. Nessa altura os gatos velhos fogem para o sítio mais alto que conseguem e juntos, ficam a ver a pequena desesperada à procura deles, chamando para brincar. Ou para a próxima luta.

Na hora da refeição, existem dois pratos. O rapaz come com qualquer uma, elas juntas, nunca. Mulheres!

Quando a mãe ou a mana humana comem, e se não lhes é oferecido um miniprato, elas cheiram a nossa boca para terem a certeza de que comem o mesmo. A pequena come o que comemos e adora ovo mexido ou gema do ovo estrelado.

Depois chega a hora da cama. Cada um tem o seu lugar, com a mãe no meio. A gata mais velha não pode ver a mais nova pois rosna e bufa sem parar. A pequena esconde-se, encostada às costas da mãe, onde adormece quentinha e com uns beijinhos extras quando a mãe se vira.

A mana velha precisa de mimos extra e continuados durante a noite. Simula mamar no pescoço da mãe como se de um gatinho se tratasse. Mas por uma questão de estatuto ou pura vergonha, os outros não podem ver. Tem de ser com a luz apagada e com os outros a dormir. Ele fala toda a noite. Que se passará pela sua cabecinha? A pequena ronrona, feliz. Depois de tudo pelo que passou, merece.

São uns chatos, mas eu não saberia viver sem eles!

MORRER E PAGAR IMPOSTOS

RUI CANOSSA
Segundo Samuel Johnson e também Benjamin Franklin “só há duas certezas na vida: morrer e pagar impostos!”.

De facto, na nossa vida, a inevitabilidade da morte só se compara à inevitabilidade de pagar impostos. Os impostos diretos, como o IRS, que incide sobre o rendimento das famílias, o IRC, que incide sobre o rendimento das empresas e o IMI, que incide sobre o património. Depois existem os impostos indiretos pois só pagamos se consumirmos. Assim, temos o maior deles todos que representa sozinho um terço dos impostos em Portugal, o IVA, Imposto sobre o Valor Acrescentado, cuja taxa maior é de 23%, o IUC, Imposto Único de Circulação, Imposto Sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos, etc. Estes são alguns dos mais visíveis aos olhos dos contribuintes, mas há tantos! Sabia que quando está a usar uma simples pen drive está a pagar uma compensação devida pela reprodução ou reprodução de obras? Ou que quando vai à farmácia está a pagar, ou a ajudar a pagar uma taxa de comercialização e regulação do INFARMED e a contribuição sobre a indústria farmacêutica? Nos aeroportos está a pagar uma taxa de aeroporto, e os turistas pagam impostos e até na publicidade? Nas SCUT e nas autoestradas pagamos portagens… A lista é mesmo grande e eu ainda não cheguei onde queria. 

E o rendimento disponível das famílias? Este é calculado pela soma dos rendimentos, ou seja, salários, rendas, juros e lucros, aos quais vamos deduzir os impostos indiretos, o IRS, IRC ainda as contribuições obrigatórias para a Segurança Social. Depois desta operação de aritmética é que temos o rendimento disponível para consumir e se sobrar algum poupar. E os impostos sobre o consumo têm vindo a subir. 

Se estivermos a ouvir com atenção as notícias anunciam com todo o entusiasmo algum decréscimo da carga fiscal nos escalões inferiores do IRS, alegando um aumento do rendimento das famílias, uma devolução do rendimento às famílias! Mas, se é só para alguns escalões o resto fica na mesma. Mais, se os impostos indiretos, alguns invisíveis, vão aumentar, os preços vão aumentar e o meu rendimento real, o meu poder de compra, a quantidade de bens e serviços que posso adquirir com o meu rendimento vai diminuir!

E entretanto vem aí o Orçamento de Estado para 2018 e o que se fala é que se vai reduzir o défice orçamental até 1% do PIB, numa operação aritmeticamente impossível, dada a pressão para diminuírem a receita e aumentarem a despesa. Quem é que vai pagar a conta? Já estou a ver somos nós nos impostos sobre o consumo. Lembro a frase de Margaret Thatcher: “ Jamais se esqueçam que não existe dinheiro público. Todo o dinheiro arrecadado pelo Governo é tirado ao orçamento doméstico, da mesa das famílias”



Tenham uma vida longa e próspera, ah, e a pagar impostos.