sexta-feira, 24 de novembro de 2017

O FUTURO DOS NUTRICIONISTAS NO SNS

DIANA PEIXOTO
Atualmente, no total do Serviço Nacional de Saúde (SNS) temos cerca de 400 nutricionistas, para quase 11.000.000 portugueses. Destes 400, temos apenas 100 nos centros de saúde, estando os restantes profissionais nos hospitais.

Sabemos que é um dos objetivos traçados para o segundo mandato da bastonária da Ordem, Alexandra Bento, fazer aumentar a presença de nutricionistas no SNS; sabemos também que a criação da figura do nutricionista escolar é outra das pretensões da Ordem.

Num panorama em que o excesso de peso e obesidade estão a aumentar na população portuguesa, em que, ao todo, existem 4,5 milhões de portugueses com excesso de peso, dos quais 1,4 milhões são já obesos, eu digo que esta devia ser uma preocupação e pretensão de TODOS NÓS, enquanto pais, educadores e enquanto pessoas que vivem hoje num ambiente altamente obesogénico!

Entretanto, o Sr. Secretário de Estado Adjunto e da Saúde, Fernando Araújo, deixou anunciado durante o Congresso da Ordem dos Nutricionistas (decorrido esta terça e quarta no CCB em Lisboa), que o Ministério da Saúde quer efetivamente contratar mais ‘’algumas dezenas’’ de nutricionistas para os centros de saúde já no próximo ano, estando a decorrer negociações em sede de discussão do Orçamento de Estado. ‘’Várias propostas que estão a ser analisadas no âmbito do Orçamento de Estado para 2018 e a expetativa é poder aumentar em cerca de 50% o número de nutricionistas nos cuidados de saúde primários’’ – anunciou.

Esperemos que o que o Sr. Secretário de Estado Adjunto e da Saúde, Fernando Araújo, deixou anunciado venha a concretizar-se e que, sabendo que as plataformas online são locais privilegiados para falsos profissionais proliferarem, se acabe de uma vez por todas com o exercício ilegal da profissão de nutricionista, urgentemente e para bem de todos nós.

CONTINUANDO A EXPLORAR O COACHING...

JOSÉ CASTRO
Na sequência da crónica anterior, retomo a pertinência do Coaching na sua Vida. Em primeiro lugar, devo distinguir o Coaching de qualquer outra prática, seja Terapia, Psicologia, Mentoria, Consultoria, etc. Todas elas têm razão de ser e muitas vezes são complementadas com Sessões de Coaching.

Mas o Coaching apresenta algumas especificidades, tais como:

· Está centrado no presente e futuro, ou seja, nos objetivos a concretizar pelo Coachee (cliente).

· Não dá “soluções” mágicas, nem conselhos, nem faz julgamentos!

· É uma prática pró-ativa, antecipando-se à superação de “eventuais” desafios.

· Provoca no Coachee reflexões profundas, que podem originar mudanças de paradigmas.


Por outro lado, o Profissional do Coaching, o Coach:

· Não polui o “mapa mental” do Coachee com o seu “mapa mental.”

· Respeita a “essência” do Coachee!

· Não ensina, facilita a autodescoberta.

· Eduz do Coachee respostas para os dilemas que quer superar.

· Incentiva o Coachee a concretizar objetivos intermédios, até ao objetivo final.

· Promove no Coachee a sua autonomia e seu bem-estar.

· (…)

Perante o descrito, pode o leitor imaginar (melhor seria que experienciasse) que o ambiente vivido numa Sessão de Coaching, é extremamente profundo, emocionalmente intenso e poderosamente libertador! Entra-se num espaço-tempo diferente!

O Coach tem o dever e a responsabilidade de criar um ambiente psicológico propício, de elevada empatia, de escuta profunda (global), confiança, respeito, lealdade, integridade, profissionalismo e ética! O Coach respeita na íntegra a totalidade do Ser que tem na sua frente, com o seu passado, as suas experiências, as suas emoções, os (falsos) fracassos e sucessos da sua vida pessoal, familiar e profissional. O Coachee é que é o centro da atenção! Quantas vezes o silêncio do Coachee tem um significado mais profundo do que todas as palavras já proferidas! Quantas lágrimas já rolaram, quantos sorrisos já surgiram, todo o corpo “grita” silenciosamente o que vai na sua essência (linguagem corporal), que (a maioria da vezes) é abafado pelo tom da sua voz (cheia de filtros!).

Facilitar que o Coachee aceda à sua essência, sem medos, remorosos, culpas, vergonhas; promover o “renascimento” de um novo Ser; potenciar no Coachee a busca do Sentido e Propósito de sua Vida; eduzir dele os seus objetivos (que sempre teve), seus sonhos (dos conscientes), é a verdadeira Arte e Ciência do Coach! Levar o Coachee a esta autoconsciência e autogestão e permitir que ele transmute “os grãos de areia” limitadores e se supere continuamente, é o desafio mais sublime do Coach!

Mas o Coachee não se iluda! Ao Coach cabe ajudá-lo a preparar o “caminho”, mas é ao leitor, potencial Coachee, que o tem de percorrer, com entusiasmo, compromisso, determinação e disciplina! Se chegar ao fim do caminho é o objetivo, é ao longo deste que ocorrem todas as “transformações” que nos dão a certeza que afinal estamos Vivos e não apenas existimos!

NOVAS REGRAS BANCÁRIAS A PARTIR DE 2018

JOÃO RAMOS
Na primeira metade de 2018, os bancos sofrerão um “rombo” na sua rentabilidade contabilística, em virtude das alterações impostas pelo novo standart de contabilidade internacional, que abrange mais de 120 países, incluindo Portugal. No novo sistema, os bancos deverão contabilizar as perdas esperadas e não as efetivamente incorridas, como ocorria no passado. O IFRS 9 classifica os empréstimos em três fases: Quando o empréstimo é contraído – primeira fase- o banco deve reservar provisões para os próximos 12 meses de empréstimo. Se, por algum motivo (exemplo desvalorização de um imóvel) ocorre um aumento do risco de incumprimento – fase 2- então o banco será obrigado a assegurar provisões que cubram a totalidade do empréstimo. Caso se confirme o incumprimento, entram entra-se na fase 3, com a instituição bancária a registar as perdas no seu relatório e contas. Nas regras acuais, os bancos contabilizam apenas a rentabilidade dos créditos de maior risco, sob a forma de juro superiores, embora não apresentem as provisões necessárias, para a sua cobertura, o que aumenta os riscos de perdas elevadas e instabilidade financeira. Na prática, em média, os bancos da União Europeia terão de aumentar as suas provisões, na ordem dos 13%, estimando-se que os seus rácios de capital baixem cerca de 0,45 p.p., embora existam instituições com “tombos” ainda maiores, segundo a Autoridade Bancária Europeia. Apesar da aplicação se estender por um período de 5 anos, as agências de rating, temem que o aumento das provisões acima do necessário retire financiamento à economia e agudize as recessões. Para lá desta questão que importa sobremaneira a Portugal, pela baixa capitalização empresarial, as novas regras poderão voltar a exigir novas recapitalizações, em instituições bancárias, como a CGD ou o Novo Banco (que seriam dadas com aval do Estado). A redução da rentabilidade também constituiria um novo fator de desinteresse para os potenciais interessados, o que reduziria ainda mais a margem de manobra das instituições e obrigaria a nova intervenção do Estado. Esta é uma situação que deveria alertar o governo e banco de Portugal para as eventuais necessidades que o nosso sistema financeiro possa vir a apresentar, no futuro.

A LENTE AUMENTATIVA DO CIÚME

“Os ciumentos sempre olham para tudo com óculos de aumento, os quais engrandecem as coisas pequenas, agigantam os anões, e fazem com que as suspeitas pareçam verdades.” Miguel de Cervantes

LUÍS PINHEIRO
Antes de começar a explorar este tema, quero desde já estipular que o ciúme é uma emoção como qualquer outra, pertence é ao ser humano, e em termos evolucionista tem o propósito de dar resposta a uma situação de ameaça, real ou não, de perder uma relação ou posição num relacionamento significativo.

O ciúme é considerado por vários autores uma espécie de medo, que está inteiramente relacionado com o desejo de conservar algum tipo de conquista. Poderá ser considerado normativo o ciúme, quando o mesmo é passageiro, ou seja, quando a pessoa vive essa experiência mas não fica focada nessa ideia. Outra dimensão que limita o ciúme normal é fato dele ter sido provocado por uma situação específica e real. Este ciúme surge do desejo de manter o relacionamento e não pelo sentimento de traição ou de possessão sobre o outro.

São essas duas barreiras que separam o ciúme normativo do patológico, ou seja, o ciúme patológico começa a aparecer quando os pensamentos que lhe têm por base são irrealistas ou infundados. Existe um universo de razões que pode levar a este tipo de ciúme contudo tende a ter como origem o sentimento de inferioridade e insegurança, onde o indivíduo se sente desprezado e descartado pelo outro sem se ter baseado em fatos concretos.

Num extremo o ciúme patológico pode estar associado ao desenvolvimento de um distúrbio de personalidade conhecido por “Perturbação de personalidade Paranoide”, onde a desconfiança e a suspeição face aos outros são características centrais que interferem com o seu modo de pensar, sentir e naturalmente de agir. Neste sentido tende a interpretar as intenções e ações dos outros como ameaçadoras, sendo difícil adotar outras explicações alternativas para os seus comportamentos.

Tende a ser bastante comum, que pessoas com ciúme patológico apresentem uma compulsão por verificar constantemente as suas dúvidas chegando ao ponto de invadir a privacidade da outra pessoa com o intuito de validarem os seus pensamentos disfuncionais. A monitorização do parceira/o nas redes sociais, o controlo pelas chamadas e mensagens do telemóvel, o remexer nos pertences da/o parceira/o tendem a ser comportamentos bastante presente no quotidiano destas pessoas. Estes comportamentos tem apenas o prepósito de alivar os sentimentos de dúvida e de insegurança provocados pelos pensamentos disfuncionais que por sua vez leva a criação de esquema que mantem o próprio comportamento.

Depois de toda esta informação negativa que explorei é importante salientar que este comportamento tem solução. Mas para isso a pessoa deve aceitar e reconhecer que o seu sofrimento advém de um distúrbio mental, e consequentemente necessita de um tratamento psicoterapêutico e em alguns casos psicofarmacológico. É neste momento que a/o parceira/o tem um papel chave, em perceber o funcionamento desta psicopatologia e ajudar a ultrapassar os esquemas de pensamento desadaptado.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

FANTASMAS DE NOVEMBRO

ANABELA BORGES
Chegando o mês de Novembro, só penso em coisas tristes.
Começa com os Finados. Depois, são os dias, que, num repente, ficam pequenos, frios e cinzentos. Até parece que a transformação se dá como num passe de magia: de um dia para o outro, sem aviso, passa-se do doce tempo outonal para os rigores do Inverno.
Excepto este ano, que vai demasiado seco e soalheiro para a época, de tal modo que eu ando espantada por chegar a este ponto sem ter usado gola alta, e isso sim, é um feito sem precedentes na minha vida.
De qualquer modo, em termos de relógio biológico o Novembro está lá. É mais fraquinho, mas está lá.
O frio e a diminuição de luz custam-me muito. Custa-me na alma, já referi que fico triste, e custa-me no corpo, que fico tolhida do frio e cheia de dores nas articulações.
Nem sei dizer se esse doer é mais forte para a alma ou para o corpo. Mas lá que fico psicologicamente afectada, lá isso fico.

Afecta-me sobretudo a falta de luz. Não é a falta da luz própria da noite, se é que me faço entender. Não, que eu até aprecio esse encanto especial que tem a noite, esse mistério que nos envolve em silêncio, esse segredo, esse abismo. Não. Refiro-me à falta de luz dos dias. Os dias de Novembro não costumam ter luz. E isso faz-me falta como o pão para a boca. Costumam passar-se dias e dias e dias de penumbra. E eu só vejo os meus fantasmas de Novembro. É necessário manter as luzes das casas acesas durante o dia. O ar enche-se de uma aragem cortante. E os pássaros vão transformando os seus piares em medos e anseios, até se calarem de vez.
Ah, como é bela, ao olhar, a bruma que se espalha sobre o rio, sobre a serra! Mas quão inconveniente ao corpo e à condução do automóvel. Tudo pode ser belo em Novembro, quando observado pela janela…
Se pudesse, baixava uma lei: proibia-me de sair para trabalhar em dias de frio e sem luz.
Resolveria assim grande parte dos meus problemas, já que, chegando o bom tempo, a minha produtividade aumenta muito, e assim poderia trabalhar em dobro para compensar. 

São cinco da tarde, a “hora dos mágicos cansaços”*. O trânsito circula com a dificuldade de fim de tarde.
A música grita pop na rádio, mas estou aqui sem ouvir a música, sem me concentrar nela. Não fosse isso e já teria mudado de estação. Desligo.
Sou de estar concentrada em pensamentos nenhuns de fim de tarde. Sou de estar em espera, absorvida pelo tempo.
Automóveis sobem e descem a rua, e por vezes param, em fila.
No ar, solta-se ainda uma ou outra ave frivolenta. A tarde pinta-se de cinza. Baixa a claridade. É fosca, a tarde.
As luzes dos automóveis vão-se acendendo. As luzes da cidade também. E com elas acende-se a nostalgia. Acende-se um cansaço antigo, compenetrado.
Não tardará que todo o movimento rouco da cidade esmoreça até não passar de um bramido. Não tardará que as pessoas recolham do dia, embora ainda mais tardiamente que os pássaros, que esses, nos seus afazeres, são mais precavidos que os homens, e não lhes são favoráveis escuridões ou aragens frias.

*Verso de Florbela Espanca.

ELOGIO AO PENSAMENTO

LUÍSA VAZ
A grande vantagem das crónicas é que podem ser um relato, podem servir para contar uma história ou uma estória, podem versar a nossa especialização, a nossa formação profissional ou podem ser simplesmente um emaranhado de linhas com palavras aparentemente soltas que à partida só façam sentido para o seu autor mas que possam vir a ser descobertas pelo leitor mais cedo ou mais tarde.

E hoje não me apetece falar nem escrever sobre Política - essa minha paixão eterna que tem estado de uma forma muito activa muito presente na minha vida nos últimos meses. Voltei à política activa, às campanhas, aos programas e tudo isso me preenche mas hoje, tal como o Governo em funções, quero ser mais abstracta que concreta.

Quero pensar o geral e chegar ao particular, ou o nada para chegar a algum lado. Porque posso, será? Porque me apetece? Porque a Filosofia também faz parte da vida? Porque devemos parar para questionar ou simplesmente porque nem tudo tem que ser baseado na “vida real”? Porque a nossa única inspiração não deve ser essa ou porque acho que tenho o direito a divagar através da escrita de vez em quando? E tenho e é bom por isso vaguemos apenas através da palavra escrita, deixemos que os dedos pressionem as teclas e as palavras surjam e vão formando frases que vão formando parágrafos e por consequência, texto.

Vamos corrigindo os erros que o sublinhado vermelho tão rapidamente indica que estão lá porque não há nada pior que um texto com erros, com gralhas ainda pode ser perdoado mas erros não, isso é mau demais e o respeito por nós mesmos e pelos nossos putativos leitores exige-nos pelo menos isso.

Chego a meio do texto. A minha mente vagueia pelo caso da jovem americana que está em prisão perpétua porque foi vendida como escrava e quem a comprou abusou dela de todas as formas e feitios possíveis até ao dia em que ela pegou numa das armas que ele tinha em casa e o matou sendo a paga que a sociedade dá a esta jovem, que à época tinha 16 anos e uma vida de humilhação e dor, é uma sentença perpétua. Justiça, há? É possível que alguém não considere que esta jovem precisava era de conforto e acompanhamento psicológico? Penso nas inúmeras denúncias de assédio sexual que têm surgido e pergunto-me se está tudo doido? Se as pessoas não sabem viver com o poder e se o desejam apenas para subjugar o Outro?

Penso no empenho das pessoas nas suas relações pessoais, nos casos de sucesso, de insucesso e nos altos e baixos. Nas lutas quotidianas seja por estabilidade emocional ou profissional ou outra ou ambas e até que ponto as pessoas estão dispostas a ir para a conseguirem.

Penso no estado do país e em como uns são claramente beneficiados em função de outros cujo papel é sustentarem essas benesses sem nada mais do que impostos receberem em troca.

Penso na forma como nos tentam manipular com as taxas do Sal ou a transferência do Infarmed para o Porto por uma razão meramente eleitoralista e que só vai causar transtorno e chatice.

Penso na chuva e no quão bom é que finalmente caia embora ainda um pouco a medo mas é melhor assim.
Penso…simplesmente penso e eu quero acreditar que isso continua a ser uma das maiores virtudes do Ser Humano e que há muitos que se esquecem que têm essa capacidade por ser mais fácil viver na ilusão de que tudo é fácil e simples.
Penso porque é o que sei fazer melhor e desta vez foi este o resultado Inusitado, inesperado mas espero que sirva para vos lembrar que o grande milagre da Vida é que sejamos capazes de pensar pela nossa cabeça e sermos os únicos responsáveis pelas nossas decisões e atitudes.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

J´AI MENTI

Virginie Madeira  (Auteur),‎ Brigitte Vital-Durand  (Auteur)
Elle est absente à son histoire comme elle avait autrefois été absente au procès de son père : dans un livre-témoignage, Virginie Madeira, qui a aujourd'hui 21 ans, raconte sans la moindre trace de colère ou même d'émotion comment elle a menti, à 14 ans, en accusant son père de l'avoir violée pendant plusieurs années. Le ton est froid, les phrases lapidaires : "Je savais que mon père était en prison mais je ne le savais pas. Je n'arrivais pas à l'imaginer. C'est compliqué à comprendre mais je n'arrivais pas à me rendre compte que mon père était en prison ; pour moi, on ne met pas les gens en prison s'ils n'ont rien fait." 

Un jour du printemps 1999, pour que son amie Mélanie "s'intéresse à elle", Virginie Madeira lui raconte sous le sceau du secret que son père a "abusé" d'elle. "...
Il faudra plusieurs années pour que Virginie Madeira se décide à avouer son mensonge. Un jour d'été, en 2002, un an après la condamnation de son père, elle s'assoit sur le lit de sa mère qui se repose. "Tu sais, ce n'est pas vrai tout ça, lui dit-elle simplement. - Oui, je l'ai toujours su... Je suis contente que tu aies le courage de m'en parler, répond sa mère. - Je crois qu'il faut faire sortir papa", conclut Virginie Madeira...

Ce livre laisse une étrange impression d'absence, de carence, de silence. Jamais Virginie Madeira ne trouve le moindre fil qui lui permettrait de comprendre ces longues années d'indifférence au sort de son père et au monde qui l'entoure... (Anne Chemin - Le Monde du 21 septembre 2006)

Virginie Madeira avait 14 ans quand elle a raconté à l'une de ses copines de classe que son père avait «abusé» d'elle, comme on disait dans les feuilletons américains qu'elle regardait goulûment à la télévision. Aujourd'hui, sept ans plus tard, elle publie un livre - coécrit avec la journaliste Brigitte Vital-Durand - pour crier publiquement : J'ai menti (Stock). Mensonge, son enfance déchirée depuis l'âge de 6 ans par les mains paternelles. Mensonges, les caresses et les viols pendant que la mère travaillait ou dormait. Mensonges, les «déclarations» extirpées de sa bouche immature par la directrice du collège, les enquêteurs et le juge d'instruction. Mensonges, les accusations confirmées devant la cour d'assises. Et lui, le père, qui vient de passer plus de six ans en prison et reste privé de ses droits civils, attend que la justice lui rende son honneur. Encore stupéfait de ce qui lui est arrivé, Antonio Madeira répète et répète encore : «Ma fille n'était qu'une gamine. Avant de croire les enfants, il faut mener des recherches approfondies.» Sa femme le coupe : «Ils ont cru bien faire.» Il s'incline devant l'évidence : «Ils ont cru bien faire.»...

Elle explique maintenant que, du début à la fin de cette histoire, ado placide, elle était totalement passive, dans un état second, «une sorte de bulle, comme dans un film». Tout le monde à l'époque lui dit que son histoire est vraie, même les experts, qui ont décelé un hymen endommagé. Elle reviendra au réel en retrouvant enfin sa maison, le 25 juin 2002. Au début de l'été, elle va voir sa mère dans sa chambre : «Tu sais, ce n'est pas vrai, tout ça.» La mère évoque les examens gynéco : «Il y a eu quelqu'un ?» Virginie dit que non, elle ne comprend pas. «Il faut faire sortir papa.»...

Question d'honneur. Pour le reste, les quelques amis, la maison de 300 mètres carrés, l'entreprise, la réputation, «on a tout perdu», soupire Antonio Madeira. Mince et sec, il secoue le front. Encore une fois, les mots lui manquent. Sa femme prend le relais : «Tu te souviens, tu citais ce proverbe portugais. La vérité, c'est comme l'huile qu'on jette dans l'eau, elle finit toujours par remonter.» Ils n'en veulent pas à leur fille : «Elle était si jeune, dit sa mère. On a juste du chagrin.» La nuit est tombée. Une fois de plus, sa mère supplie : «On t'a travaillée pour que tu ne changes pas d'avis ou tu as perdu la tête ?» Virginie dit qu'elle ne sait pas. Sa mère pleure : «Elle ne sait pas, elle ne sait pas !» La fille la regarde avec tendresse. Son livre explique que la justice ne doit pas se laisser aveugler par les certitudes. (Jacqueline Remy - L'Express du 21 septembre 2006) --Ce texte fait référence à l'éditionBroché.

"PARA ENSINAR HÁ UMA FORMALIDADE A CUMPRIR - SABER"

PAULO SANTOS SILVA
Há 172 anos atrás, mais precisamente no dia 25 de novembro de 1845, nascia numa casa da Praça do Almada na cidade da Póvoa do Varzim, um dos maiores vultos da literatura portuguesa – José Maria de Eça de Queirós. Filho de um magistrado nascido no Rio de Janeiro e de uma portuguesa nascida em Monção, o romancista terá visto os seus pais casarem quando já tinha 4 anos, uma vez que a avó materna não teria dado o seu consentimento para o enlace. Assim, os pais de Eça apenas casaram seis dias após o falecimento da avó. 

Devido a algumas contingências de uma infância atribulada, Eça de Queirós foi entregue aos cuidados de uma ama, até ser internado no Colégio da Lapa no Porto, de onde saiu aos dezasseis anos para cursar Direito na Universidade de Coimbra. O seu pai, magistrado formado nesta Universidade, foi o Juiz Instrutor do processo de Camilo Castelo Branco, tendo também passado pela Relação, pelo Supremo Tribunal de Justiça e presidido ao Tribunal de Comércio. Além de deputado, fidalgo cavaleiro da Casa Real, par do Reino e do Conselho de Sua Majestade, foi ainda escritor e poeta. 

Entre os vários amigos que fez em Coimbra, destaca-se o grande Antero de Quental. É nesta época que os seus primeiros escritos são publicados na Gazeta de Portugal, tendo sido mais tarde publicados postumamente na obra intitulada Prosas Bárbaras. 

Terminada a licenciatura em Direito, foi tempo de rumar a Lisboa onde exerceu a advocacia e o jornalismo, tendo chegado a diretor de diversas publicações. Entre 1869 e 1870, fez uma viagem de seis semanas a terras do Oriente, tendo assistido à inauguração do Canal do Suez. Desta viagem resultaram muitas notas que viria a aproveitar em obras tão emblemáticas como O Mistério da Estrada de Sintra e A Relíquia. 

Regressado desta viagem, ingressou na Administração Pública tendo sido Administrado do Concelho de Leiria. Foi nesta cidade e neste período que escreveu aquela que é considerada a sua primeira novela realista e sem dúvida das mais polémicas – O Crime do Padre Amaro. Bastaram apenas três anos para ingressar na carreira diplomática, tendo exercido as funções de Cônsul de Portugal em países tão diversos como Cuba, Inglaterra e França.

Terão sido os anos passados em Newcastle e Bristol na Inglaterra, os mais produtivos em termos literários. Foi neste período que surgem obras como Os Maias e A Capital. Esta obra, escrita numa prosa hábil e realista, relata a história da ambição social, profissional e pessoal da personagem principal, Artur Corvelo, que é acompanhada ao longo do seu amadurecimento emocional e consequente resignação à triste realidade. Viria a ser terminada pelo seu filho e publicada postumamente, em 1925. Manteve, também, a sua atividade jornalística, ainda que de forma esporádica, através da rubrica “Cartas de Inglaterra”, publicada nas colunas do Diário de Notícias. A sua última obra, A Ilustre Casa de Ramires, foi publicada em 1900, ano em que faleceu na sua casa de Neuilly-sur-Seine, perto de Paris, onde exercia funções diplomáticas como Cônsul, desde 1888.

Teve direito a honras de Funeral de Estado, tendo sido sepultado no Cemitério dos Prazeres em Lisboa, de onde foi mais tarde transladado para o Cemitério de Santa Cruz do Douro, em Baião. 

Juntamente com Ramalho Ortigão, assinou em 1871 as célebres Farpas. Estas publicações mensais, foram uma notável crítica à sociedade da época. Através de textos onde se utilizava a crítica e a ironia, satirizava-se com muito humor à mistura, a imprensa e o jornalismo partidário ou banal. Também a Regeneração, e todas as suas repercussões, não só a nível político mas também económico, cultural, social e até moral; a religião e a fé católica; a mentalidade vigente, com a segregação do papel social da mulher; a literatura romântica, falsa e hipócrita não escapavam à acutilância dos autores. As Farpas foram um novo e inovador conceito de jornalismo - o jornalismo de ideias, de crítica social e cultural. 

Eça de Queirós, publicou as suas “Farpas” em 1890, numa compilação à qual deu o título de Uma Campanha Alegre. Ao revisitar o conteúdo da escrita de Eça de Queirós, somos confrontados com uma quase assustadora atualidade. Se tem dúvidas, deixo-lhe alguns exemplos:

“Em Portugal a emigração não é, como em toda a parte, a transbordação de uma população que sobra; mas a fuga de uma população que sofre.” in Uma Campanha Alegre (As Farpas) 

“Hoje que tanto se fala em crise, quem não vê que, por toda a Europa, uma crise financeira está minando as nacionalidades? É disso que há-de vir a dissolução. Quando os meios faltarem e um dia se perderem as fortunas nacionais, o regime estabelecido cairá para deixar o campo livre ao novo mundo económico.” in Distrito de Évora

Ao ler estes escritos, diria que Eça de Queirós faria 170 anos hoje, se fosse vivo?...

A CIDADANIA E OS CRÍTICOS DO MULTICULTURALISMO

RUI SANTOS
Com o estabelecimento de indivíduos etnicamente diferentes nos países de acolhimento, os governos viram-se confrontados com uma série de novas questões, de novos problemas até então não colocados pela sociedade. Algumas dessas recentes situações prendiam-se com o conceito de cidadania, como por exemplo, quem é cidadão, o que significa ser cidadão e como é que se pode aceder à cidadania.Stephen Castles e Mark J. Miller têm opiniões claras sobre este assunto: «In principle the nation-state only permits a single membership, but immigrants and their descendants have a relationship to more than one state. They may be citizens of two states, or they may be a citizen of one state but live in another. These situations may lead to ‘transnational consciousness’ or ‘divided loyalties’ and undermine the cultural homogeneity which is the nationalist ideal (Castles e Miller 2009: 44).

Vasco Graça Moura defende que o conceito de cidadania implica um conjunto de representações e comportamentos. As representações referem-se à pertença do cidadão a uma comunidade política estruturada de determinada forma, dotada de um sistema de valores e com uma identidade proveniente da consciência coletiva. Estabelece-se um conjunto de direitos e de deveres, isto é, uma ligação jurídico-política. Os comportamentos pressupõem a existência de uma visão do mundo, uma visão da comunidade a que se pertence, uma participação social de acordo com as regras jurídico-políticas vigentes (Moura 2013: 19).

Por parte dos imigrantes, as prioridades não se colocam na mesma ordem que os governos as põem. Se estes dão maior enfâse à abordagem conceptual de cidadão e cidadania, os imigrantes têm outra ordem hierárquica nas suas preocupações, como referem Castles e Miller: «The first concern for immigrants, however, is not the exact content of citizenship, but how they can obtain it, in order to achieve a legal status formally equal to that of other residents» (Castles e Miller 2009: 44).

Frequentemente as perspetivas multiculturais são criticadas por se apoiarem em essencialismo, que as identidades consideram como algo fixo e imutável; daí que uma concepção semelhante argumente que todas as identidades merecem respeito, que os seus modos de vida são legítimos e tem direito a ser valorizados e reconhecidos. Não se deve esquecer que há estilos de vida e comunidades que mantém tradições e rituais que atentam profundamente contra os direitos tão básicos como os direitos humanos e que se perpetuam e consolidam porque não se costumam sujeitar a análises e debates em situações de igualdade e liberdade.

O modelo multicultural é posto em causa por vários pensadores. Uma das críticas de que é alvo diz respeito ao conceito de sociedade multicultural. Como afirma Stephen Castles: «O termo sociedade multicultural é frequentemente utilizado como sinónimo de “sociedade multicultural multiétnica”, ou seja, uma sociedade em que convivem lado a lado grupos que possuem diferentes línguas e culturas. Nestes termos, a grande maioria das sociedades do mundo actual é multicultural (apesar de umas o serem mais que outras). No entanto, este facto nada nos diz acerca das atitudes das populações face a outros grupos, ou das políticas públicas direccionadas às minorias. Uma sociedade multicultural entendida neste sentido pode ser atravessada por relações intergrupais altamente conflituosas, como a África do Sul durante o regime do apartheid.» (Castles 2005: 133). O mesmo autor adverte que o conceito de “multiculturalismo” pode ser subvertido em algo que não esteja presente nas intenções que levaram à criação daquele modelo de integração. O caso dos Estados Unidos da América, onde as relações entre os diferentes grupos étnicos não são consideradas como fazendo parte das atribuições do Estado, é um exemplo disso mesmo, no entender de Castles: «Os apoiantes americanos do multiculturalismo defendem a inclusão, na história, na educação e na cultura nacionais, do papel desempenhado pelos americanos nativos, pelos afro-americanos, por outras minorias e pelas mulheres. Mas esta visão do multiculturalismo também é utilizada frequentemente pelos seus opositores. O multiculturalismo é assim rejeitado porque, argumenta-se, legitima o separatismo, o relativismo cultural e mesmo o fundamentalismo, sendo assim considerado como ameaça à modernidade, ao secularismo e à igualdade sexual. Os analistas desta veia sustentam que o multiculturalismo produzirá provavelmente uma sociedade segmentada e conflituosa.» (Castles 2005: 134).

Quem também refere que o multiculturalismo encontra muitas vezes dificuldade na sua implementação e concretização é Will Kymlicka, que considera existir um conjunto de fatores que podem, ou não, contribuir para o seu sucesso:

a) Relações étnicas – O multiculturalismo funciona melhor se as relações entre o estado e as minorias forem vistas como uma questão social e não de segurança. Se o estado entende os imigrantes como uma ameaça à sua segurança, o apoio ao modelo multicultural diminui, assim como as oportunidades dadas às minorias para apresentarem os seus problemas.

b) Direitos Humanos – A adopção do modelo multicultural pressupõe que os Direitos Humanos são adoptados por todas as comunidades étnicas e religiosas. Grande parte das reações contra o multiculturalismo devem-se ao receio, por parte dos ocidentais, em relação aos muçulmanos devido à sua falta de vontade em abraçarem normas mais liberais e democratas.

c) Controlo de fronteiras – O multiculturalismo é mais controverso quando existe o medo por parte dos cidadãos da perda de controlo sobre as suas fronteiras – quando países enfrentam vagas inesperadas de imigração ilegal ou de asilo político – do que quando os cidadãos sentem que a entrada no país é mais controlada.

d) Diversidade dos grupos de imigrantes – O modelo multicultural funciona melhor quando as comunidades minoritárias são distintas em termos de proveniência, religião, etc. Quando se não verifica isso, as relações entre as comunidades tendem a polarizarem-se.

e) Contribuição económica – O apoio ao multiculturalismo está relacionado com a percepção que a maioria tem relativamente às minorias. Quanto mais estas contribuem para a sociedade em termos económicos, maior será o apoio (Kymlicka 2012: 2).

De acordo com os críticos, as políticas multiculturais originam novas formas de exclusão social. Os esforços para incorporar institucionalmente grupos étnicos podem levar à formação de elites constituídas por líderes étnicos que podem não representar as suas comunidades. Além disso, o próprio reconhecimento das comunidades étnicas pode ser difícil devido à enfâse dada às diferenças culturais entre os diversos grupos étnicos. Também a heterogeneidade de diferentes comunidades étnicas não é muitas vezes tida em conta. As identidades étnicas são, no pensar dos críticos do multiculturalismo, incorporadas de forma a irem ao encontro das expectativas da cultura dominante.


Leitura de apoio:

Castles, Stephen (2005): Globalização, Transnacionalismo e Novos Fluxos Migratórios. Lisboa: Fim de Século.

Castles, Stephen, e Miller, Mark J. (2009): The Age of Migration. Basingstoke: Palgrave Macmillan.

Kymlicka, Will (2012): Multiculturalism: success, failure, and the future. Washington DC: Migration Policy Institute

Moura, Vasco Graça (2013): A Identidade Cultural Europeia. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

10 PALAVRAS ALEMÃS QUE SÃO REALMENTE POESIA

PEDRO MONTERROSO
https://multikultivarberlim.wordpress.com/2017/10/30/palavras-alemas-poesia/
Se no texto anterior comecei por falar em poesia e me deixei levar pela praticidade, neste quero focar dois pontos: a ideia de que há palavras alemãs que são realmente poesia e, segundo, desconstruir um pouco aquela ideia de que o alemão é uma língua que é matemática e pouco criativa.

Para tal, deixo-vos 10 palavras em alemão que vos poderão desconstruir essa ideia. Tenho então a esperança que este texto cumpra aquilo a que se propõe e que não acabe piorando o que se propôs a melhorar!

1) A primeira palavra significa exatamente isso “verschlimmerbessern”, significa “piorar-melhorar”, ou seja, seria aquele ato de melhorar alguma coisa, mas fazendo uma bela m… Lembram-se daquela senhora espanhola que tentou melhorar um quadro de Cristo? Têm dúvida das boas intenções dela, quando “melhorava” aquele quadro? Bom, o que ela fez, foi exatamente o que é “verschlimmerbessern”.

2) Talvez, nesse caso, devesse refletir um pouco mais. Às vezes é assim, temos uma “Schnapsidee“, ideias daquelas quando bebemos um shot de aguardente ou de um licor forte, e decidimos pôr mãos à obra.

3) Viajar, por exemplo, pode surgir de um impulso advindo de uma noite de schnaps (shots de aguardente). Às vezes porque não temos tempo, ou condições económicas, ou porque os deveres familiares nos prendem, deixamo-nos apenas a vislumbrar o horizonte, conquanto, com muita vontade de ir onde vão os aviões, sonhando com o que haverá do lado de lá – as gentes, os sabores, as cores… Em alemão existe uma palavra que traduz essa sensação, chama-se Fernweh.

4) Se, tal como o Forrest Gump, não pensamos mas simplesmente vamos, e seguimos esse ímpeto de seguir os passos, indo sempre em frente, descobrindo novos lugares e caminhos, então saberão o que é Wanderlust. Essa sensação é tão partilhada, por tanta gente, que a língua inglesa a adotou no seu léxico.

5) Mas quem disse que os alemães não têm também saudades? Têm, e até têm uma palavra que significa algo muito semelhante: Sehnsucht. Se os portugueses, desenvolveram esse sentimento na confrontação com o mar e com a dor da partida, outras sociedades/grupos em outros lugares, também sentiram a dor da distância.

6) Uma vez que falamos no Tom Hanks, lembro-me do filme o náufrago. Com a “Sehnsucht” que ele tinha do mundo que deixou para trás, perdido numa ilha no meio do mar, sozinho, começou a falar com uma bola, que lhe chamou Wilson e que se tornou a sua melhor amiga. Ora, o que o Tom Hanks, estava a fazer era “Kopfkino” (cabeça-cinema), deixando levar-se pela imaginação de tal modo que a sua cabeça fazia os seus próprios filmes.

7) Provavelmente, nessa ilha, teve realmente muitas vezes a sensação de solidão, tanto quando olhava o mar, como quando ia para a floresta fazer as suas caçadas. Aí, sozinho no mato, sentia muito provavelmente uma sensação que só uma palavra alemã pode descrever tão bem: Waldeinsamkeit, que é a sensação de se sentir unicamente só no mato.

8) São nestas deambulações, que por vezes nos deixamos levar, que nos deparamos com sonhos que nos levam a um Luftschloss (castelo de ar) e que nunca serão realizáveis.

9 e 10) Para tentar cumprir aquilo a que me propus no início deste texto, deixo-vos aqui com duas palavras, que poderão não parecer tão poéticas. Mas peço-vos 1 minuto de atenção.
Já imaginaram se o sol fosse uma menina e se a lua fosse um menino? Para um falante de português, dificilmente isso terá acontecido. Desde pequenos tendemos a atribuir um género masculino ao sol e um feminino à lua. Porém, em alemão as coisas mudam, o sol tem o artigo feminino (die Sonne) e que a Lua tem o artigo masculino (der Mond). Imaginem como poderia ser interessante fantasiar um encontro entre o sol, uma mulher loira e brilhante e a lua, um cavalheiro misterioso que surge tímido, por detrás das nuvens. Não é tudo isto poético?

O SISTEMA DE ENSINO E A FORMAÇÃO INTEGRAL DO INDIVÍDUO

"A aquisição da cultura significa uma elevação constante, servida por um florescimento do que há de melhor no homem e por um desenvolvimento sempre crescente de todas as suas qualidades potenciais, consideradas do quádruplo ponto de vista físico, intelectual, moral e artístico; significa, numa palavra, a conquista da liberdade.E para atingir esse cume elevado, acessível a todo o homem, como homem, e não apenas a uma classe ou grupo, não há sacrifício que não mereça fazer-se, não há canseira que deva evitar-se. A pureza que se respira no alto compensa bem fadiga da ladeira. " 
Bento de Jesus Caraça, A Cultura Integral do Indivíduo, Editora Gradiva, 2008


REGINA SARDOEIRA
Não me tornei professora de imediato, logo que terminei o curso, porque, de facto, não era para aí que eu tendia. Pelo contrário.
Fiz uma experiência isolada, de professora de Francês, numa escola preparatória em Braga, antes mesmo de ter a licenciatura e, ao contrário de outros que começaram a leccionar, antes de concluir os estudos e puderam prosseguir, eu não quis. Mais: nesse ano, prometi a mim mesma, nunca mais leccionar, nunca mais ser obrigada a postar - me à frente de uma turma para ensinar fosse o que fosse.
Percebi, durante esse ano lectivo, que estava tudo errado no sistema de ensino. Vejamos, então , o resumo do que me aconteceu. 
Estive, logo na primeira semana do ano, numa acção de formação, cujo objectivo era mostrar aos docentes como ensinar francês a crianças dos 5° e 6° anos. E era assim: no primeiro ano de ensino da língua, o professor nunca falava português, exprimia - se exclusivamente em francês, procurando, através de gestos ou outros sinais, que os alunos o entendessem e repetissem o que iam entendendo. No primeiro período, a leitura e a escrita não eram permitidas, limitando - se o ensino da língua à oralidade. Era necessário recorrer a múltiplas formas, gráficas ou ilustrativas, para que eles tivessem uma ideia da sonoridade da nova língua e fossem assimilando os nomes para os objectos ou as fórmulas comuns da conversação no quotidiano. No segundo período, iniciava -se, então, a leitura e a escrita, e o recurso predominante era um livro - um manual - que seguia a vida de uma família - os Dupont - com destaque para duas crianças e um cão : Robert, Nicole e Patapouf.
Começava, então, outro tipo de luta. Se, no período anterior, era difícil tornar as frases perceptíveis, recorrendo a imagens e gestos, quando se passava à leitura e à escrita as dificuldades redobravam. 
Os alunos já conheciam os protagonistas do seu instrumento de trabalho. O objectivo, doravante, seria aprenderem a tratar, por escrito, todas as designações, antes papagueadas. E isso exigia - lhes um esforço para o qual não estavam preparados. 
Sabiam que "sim" , em português, soava "ui", em francês; que, quando se apontava a imagem do menino, dizendo: "C'est Robert", lhes soava "Sé Rober". E por aí adiante. 
Durante o resto do ano foi uma luta para lhes fazer assimilar, agora correctamente, ao contrário do que havia, naturalmente, acontecido nos três meses anteriores, a fonética diferente da língua e a sua grafia. 
E eu concluí. "Muito bem: efectivamente, uma criança aprende, primeiro, a falar e imita os sons que ouve, até conseguir assimilar a língua e formular, ela própria, frases originais. Mas, com dez anos, já conhece a escrita, já sabe ler na sua língua materna e, com toda a naturalidade, interioriza os sons da língua estrangeira,visualizando -os, mentalmente, à semelhança do modelo conhecido. E então, "oui" é "ui" ; "C'est Robert" é "Sé Rober". Dificilmente se habituavam a escrever estas e outras palavras e expressões de modo correcto.
Pelo que observei nos alunos do 6° ano, a necessária aprendizagem, com a reversão dos defeitos que três meses de oralidade haviam criado, da fonética e grafia correctas não era conseguida de forma completa. E os resultados dos alunos ou a motivação para a aprendizagem de uma língua estrangeira eram diminutos.
Alguns diziam -me: "Não quero aprender francês, porque não vou para França! " Eu argumentava, dizendo -lhes ser necessário e importante conhecer outras línguas, falava -lhes de cultura geral, etc. Mas mediocremente os ia convencendo. 
No final desse ano frustrante, por esta e por outras razões, percebi que o ensino deve dar aos alunos instrumentos que permitam facilitar - lhes a compreensão de si mesmos e dos outros; e que, mais especificamente, aprender uma língua desse modo, contribuindo para a criação de imagens mentais distorcidas das palavras, mais tarde corrigidas, constituía um erro. E foi por isso que, a certa altura, decidi esquecer o método presenciado na acção de formação do início do ano e recorrer à língua materna para lhes explicar as diferenças. 
Eu era muito jovem, na altura, mas aquela experiência permitiu - me compreender as deficiências alarmantes de um sistema de ensino retrógrado que, apesar de tudo, era apresentado como novo e inovador. Percebi que nada mudara, de essencial, relativamente aos métodos usados no meu tempo de estudante do liceu e, provavelmente, ainda antes. 
Alguns anos mais tarde, já concluído o curso, e depois de uma experiência profisissional pouco interessante, aceitei, com alguma preocupação, tendo por critério essa primeira experiência docente, regressar ao ensino. 
Para meu desespero, o meu horário tinha turmas de 5° e 6° ano, a quem leccionaria Português, e outras de 10º e 11º, a quem daria Filosofia. Mas, contrariamente às piores expectativas, esses primeiros anos de ensino, em nada se compararam à minha experiência de Braga. Durante anos pude dar aulas ao meu modo, principalmente quando assumi em pleno a minha função de professora de Filosofia. 
Compreendi que o programa me permitia amplas abordagens e ainda que poderia pôr o aluno no centro, estimulando nele a capacidade de pensar por si mesmo, construindo a sua própria visão do mundo, em ordem a uma posterior integração humana e social. Aboli o manual : éramos nós - eu e os alunos - que o íamos fazendo, aula após aula, registando cada lição num caderno, cuja leitura era o ponto de partida para o dia seguinte (ainda conservo esses cadernos, onde cada aluno da turma resumia, e comentava, porque eu estimulava -os nesse sentido, o cenário das aulas.).
Lembro - me da preocupação dos meus alunos quando surgiu a obrigatoriedade das provas globais e eles perceberam que, contrariamente aos colegas, não seguíamos um manual e até divergíamos na calendarização dos conteúdos. Ora, a prova seria igual para todos e corrigida, sob anonimato, por qualquer um dos professores. Eu sossegava-os: "Não se preocupem : no fim, perceberão que estão em vantagem!" 
E assim foi: as melhores notas das provas globais eram as dos meus alunos! 
Aos poucos, porém, tudo foi mudando. As "inovações " introduzidas transformaram o ensino da Filosofia numa fraude : já não era necessário aprender a pensar autonomamente, a crítica fora abolida, chegaram os itens de escolha múltipla e os enunciados, repetidos, de cor, a partir do manual, garantiam boa nota no exame nacional (ele próprio, uma tremenda aberração. ).
Enquanto pude, lutei contra esse estado de coisas. Quando deixei de o conseguir e fiquei em minoria, num contexto de aceitação passiva do descrédito da autonomia do pensamento, não somente em Filosofia, mas no sistema de ensino como um todo (porque eu fui observando sempre o que se passava à minha volta ), arrumei armas e bagagens e voltei a sentir o incómodo da minha primeira experiência de professora, do manual de Francês, "Je commence", e da família Dupont, com o Robert, a Nicole e o Patapouf. 
Soube então que tudo terá que mudar, principalmente os "programas" das "disciplinas " , a atitude e formação dos professores e até os espaços das aulas, onde todos se sentem desconfortáveis e alienados. A vida começa, exactamente, à saída dessas salas descaracterizadas, com mesas, cadeiras, secretária, quadro (que até pode ser interactivo ) projectores de vídeo, etc. Fui percebendo que os powerpoints ficaram, progressivamente, obsoletos e arrumei-os; que mostrar filmes era uma manobra de diversão e que dificilmente poderia estabelecer -se uma articulação entre o filme e a "matéria" - e deixei - os para trás; que de pouco servia apelar à capacidade crítica ou construtiva dos alunos porque, no final, o importante, mesmo, era saber os conteúdos, de cor, embora escassamente compreendidos. 
Ainda tentei ser a professora de outros tempos ou (quem sabe?) a do futuro. Uma vez por outra, dava uma aula viva, questionava os alunos, mostrava -lhes o seu próprio poder e a vantagem de descobrir novos rumos. Percebia, nessas horas, um fulgor diferente nos olhos dos jovens, habitualmente baços e vazios. Eles diziam - me : "Gostámos muito desta aula; porque não são todas assim?" Era obrigada a reconhecer :"Eu sei. Mas deste modo é impossível dar o programa e preparar-vos para o exame."
Eu sabia que estava a enganá -los e que nenhuma daquelas aulas, extraídas de um manual desfasado da vida, tinha o mínimo interesse . Eu sabia que o objectivo do ensino não pode ser o resultado, ou seja, as notas obtidas nos testes, nos exames e as médias. Cheguei a dizer -lhes, perante a estupefacção geral, que ficaria muito orgulhosa deles caso tirassem zero no exame e bastante desgostosa se tirassem vinte. Houve alunos que me compreenderam e fizeram as provas pela própria cabeça : mas os correctores, comandados por critérios, descritores e demais orientações, não deram a esse esforço a menor oportunidade. 
Agora observo a escola a partir de fora. Vejo exactamente o mesmo: hordas de estudantes desmotivados, hordas de professores sem esperança, o tempo útil passado em salas com filas de estudantes sentados e o professor à frente. Nada de muito importante acontece nessas salas, com esses protagonistas. E creio que todos o sabem. Porque aquilo que realmente conta está fora das salas de aula, no mundo complexo e em contínua e avassaladora mudança, e muito pouco do que é ensinado ou aprendido corresponde à vida na sua intensidade. 
Há solução para esta enfermidade da escola, dos seus protagonistas e do sistema de ensino em geral? Há. Mas é necessário romper o paradigma de uma vez por todas. Eu diria (e penso - o há muitos anos) que, no limite, deve suspender - se toda a actividade lectiva, durante, pelo menos, um ano, conduzir professores, alunos, encarregados de educação e, também no limite, os demais sectores da sociedade - porque, de uma forma ou de outra, todos são responsáveis pela escola - a uma profunda reflexão, antes de mais, seguida da acção tendente a fazer do ensino o que ele deve ser. E acima de tudo é a formação do homem integral o que hoje mais importa - e, afinal, sempre importou.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

PRIMEIRO MÊS NO VIETNAME

HUGO MARTINS
A vontade de viajar mais do que um mês por ano fez-me mudar radicalmente de vida e trouxe-me até ao Vietname. Depois de viver na Austrália, na Irlanda e na Polónia, necessitava de um desafio maior, algo diferente, a Europa ou o mundo Ocidental já não me fascinam para viver uma rotina, se tenho que viver uma rotina, que seja uma rotina distinta daquela que fui habituado a viver.

Há pouco mais de um mês cheguei a Ho Chi Minh City sem trabalho mas com muita vontade de fazer o que gosto, dar aulas. Sou professor de Educação Física e desde 2011 que não exerço em Portugal. Dei algumas aulas privadas de Português quando vivi na Austrália e estive na Polónia seis meses a dar formação, confesso que tinha saudades de estar perante uma turma a passar conhecimentos. Neste momento estou numa escola primária em Ho Chi Minh City (Saigão) a leccionar Inglês mas a vinda para o Vietname começou a ser “cozinhada” há muito tempo, não necessariamente o Vietname mas para a Ásia em geral. A minha primeira escolha era a China, o ano passado visitei o país com o propósito de perceber se queria lá viver, decidi no momento que sim. Hei de viver na China, quero aprender Mandarim mas fica para uma fase seguinte, pesquisei bastante e vi muitas ofertas de trabalho aqui pelo que escolhi este país e não me arrependo até ao momento. Não quero ficar muito tempo em lugar algum, não me quero sentir demasiado confortável, um ano no máximo e nova aventura. O mundo ESL permite construir uma carreira em diversos locais pelo que quero aproveitar. Num artigo seguinte falarei sobre o mundo ESL (sigla que significa Ensino do Inglês como segunda língua).

 Cumprimentos desde Saigão.

A CONSCIÊNCIA CÍVICA E AMBIENTAL DAS MULHERES FELUPES

CRÓNICA DE JOANA BENZINHO
A praia de Varela fica na região de Casamansa, a parte guineense que faz fronteira com o Senegal. Ali, um pequeno curso de água separa as margens dos dois países e dois povos que, apesar das diferentes nacionalidades que a herança histórica lhes atribuiu, partilham uma mesma etnia, a Felupe, e lembram recorrentemente a quem os interpela o facto de serem um só povo dividido por vontades alheias. É uma gente guerreira, que tem ainda em si a arte da caça com arco e flecha, agora substituída pela arma de fogo quando as posses assim o permitem, e não é raro cruzá-los na beira da estrada com uma gazela às costas pronta para servir de refeição à família alargada que habitualmente patilha a mesa ou a quem a queira comprar. Pessoalmente já partilhei o assento de trás de um carro com uma gazela paga ao preço da chuva pelo condutor, para seguir para a capital. Mas isso são outras histórias.

Nesta praia de Varela, existe um importante depósito de jazidas de areias pesadas, muito cobiçadas por empresas estrangeiras, nomeadamente chinesas e russas, que obtiveram em tempos diferentes a concessão da exploração desta extração. Uma concessão polémica, com o governo a ser acusado por ambientalistas e pela sociedade civil de não ter feito nenhum estudo de impacto ambiental, mas que acabou por avançar. Em 2013, pude testemunhar a maquinaria russa instalada e a funcionar em pleno, com os camiões carregados de areias a destruir a já de si frágil picada de 53km que liga Varela a São Domingos e ao alcatrão que nos leva até Bissau ou ao Senegal, ali mesmo ao lado.

AREIAS PESADAS
Com a exploração das areias, começou a ser evidente o impacto ambiental negativo na paisagem. As águas subterrâneas começaram a ser afetadas pela salinização o que provocou a destruição e a fragmentação dos habitats naturais da fauna terrestre e marinha. As bolanhas, campos onde é cultivado o arroz que funciona como base e sustento da alimentação, começaram a ser inundadas por água salgada, o que as tornou inaptas para o cultivo. O peixe, por outro lado, começou a dar à margem, sucumbindo aos produtos químicos com que se procedia à lavagem das areias pesadas. As árvores que cresciam aqui e ali nas dunas e que davam frutos com que as mulheres faziam sumos e infusões, foram arrancadas da terra por máquinas que alargavam a passagem para os camiões. E lá no fundo da praia de Varela, para quem se aventurava para lá da bonita praia de Niquim, viam-se os montes de areia escura resultante da lavagem, as máquinas a trabalhar ininterruptamente e a lagoa de água de cor quase carmim que tinha ar de tudo menos de permitir vida dentro de si.

Foi este o quadro que encontrei em 2014, numa das minhas frequentes passagens por Varela e que me foi descrito e confirmado pela voz de um grupo de mulheres Felupes que se uniu em torno da defesa do seu meio ambiente.

Estas mulheres, enraízadamente animistas, tinham acabado de fazer um "manjo" junto do local onde trabalhavam as máquinas e tinham deixado tudo num alvoroço. Armadas com catanas com que cortaram as folhas das palmeiras, chegaram junto dos funcionários numadança frenética com as saias levantadas ao som de inflamados cânticos, e quiseram com esta cerimónia convocar os deuses para proteger a sua aldeia e o seu sustento. Perante a estupefação dos técnicos russos ali presentes, os funcionários guineenses levaram a sério a ameaça dos espíritos ancestrais convocados e abandonaram imediatamente o local, recusando-se a trabalhar. Foi um alvoroço total que culminou em simultâneo numa parte legal mais estruturada, sob a forma de uma providência cautelar, que suspendeu a extração das areias.

Não me ocupo aqui do ponto de vista legal desta concessão, que daria muito que escrever e falar. Ocupo-me sim, da consciência ambiental e cívica destas mulheres que encontrei à volta de uma mesa em que preocupadas pediam ajuda para defender a sua praia de Varela. Diziam que lhes tinha sido prometida a construção de um hospital, de uma escola e o asfaltamento da estrada, que à data (e ainda hoje) tinha mais buracos que áreas planas. Foi por acreditarem na melhoria de condições para os seus filhos que acolheram de bom grado aquela gente de fora e as suas máquinas que trabalhavam ao som de um potente gerador que se ouvia bem à distância. Mas, passados meses sobre a sua presença, a única coisa que viram foi a degradação ambiental e o estrangulamento do orçamento familiar com a aniquilação dos recursos com que conseguiam juntar algum dinheiro para dar de comer aos seus filhos e pô-los a estudar lá longe, em São Domingos ou Varela, para poderem sonhar com um futuro melhor.

Juntaram-se assim vontades da população para a defesa da praia de Varela, detentora de uma beleza única e que perigava à mercê da extração dos seus recursos naturais. O assunto pode não estar ainda concluído nem resolvido, mas o papel destas mulheres foi essencial para alertar consciências e suspender um processo de destruição sem retorno que estava ali a acontecer. Deram-me uma lição de vida quando me disseram que dispensavam o dinheiro, a escola ou hospital que lhes prometiam quando, em troca, viam o seu ecossistema definhar.

Porque o progresso prometido não pode surgir a qualquer preço. Principalmente quando segundo elas, o preço de ficar sem os recursos naturais da sua praia de Varela era alto de mais.

Hoje a maquinaria continua parada, o gerador deixou de fazer aquele barulho ensurdecedor que foi durante meses parte da paisagem, as bolanhas que sobreviveram à salga continuam a dar arroz e os peixes deixaram de dar à costa. Voltaram a colher frutos silvestres para fazer os sumos que lhes dão algum retorno utilizado na alimentação e educação dos filhos. Não se sabe até quando, nem se foi a cerimónia das mulheres, ao convocar os seus ancestrais que resolveu o assunto. Mas lá que acabou de feição para elas, lá isso acabou. Felizmente para todos nós.

domingo, 19 de novembro de 2017

QUANDO E PORQUÊ RECORRER À COLONOSCOPIA ?

ANTONIETA DIAS
A colonoscopia é um exame complementar de diagnóstico, realizado com um endoscópico, que permite observar o interior do reto e do colon (intestino grosso), bem como efetuar alguns procedimentos terapêuticos, designadamente retirar pólipos ou outras lesões benignas ou malignas e ainda controlar hemorragias pré existentes.

Este exame é aconselhado como método de rastreio de cancro do colon, e deve fazer parte dos exames complementares de diagnóstico de rotina nos doentes com idade igual ou superior a 50 anos ou mais cedo se existir histórico prévio na família de cancro do reto.

É sempre realizado por um médico especialista em gastroenterologia, que utiliza um aparelho (colonoscópio) que é flexível longo e fino, cujo diâmetro varia entre 1,0 e 1,3 cm.

O colonoscópio é introduzido pelo ânus, colon e termina no intestino delgado, tem na sua extremidade uma microcâmara que faz a captação e transmissão das imagens para um monitor, visualizando todos os segmentos do colon, havendo a possibilidade de gravar os aspetos mais relevantes que são observados durante a realização do exame.

Tem ainda uma característica muito importante como é articulado permite a visualização em vários ângulos no interior do colon, podendo por isso disponibilizar imagens suspeitas, que obrigam a retirar fragmentos (biópsias), posteriormente remetidos para exame histopatológico, cujo resultado fará o diagnóstico rigoroso das lesões, tornando-o indispensável na orientação terapêutica (médica ou cirúrgica) dos pacientes.

A colonoscopia serve assim como exame de rastreio, de diagnóstico e /ou de tratamento das doenças.

Durante a realização deste exame por vezes há necessidade de insuflar ar que poderá gerar dor e desconforto mais ou menos acentuado ao paciente.

Este exame é recomendado pela enorme importância que tem no diagnóstico e tratamento de muitas doenças do tubo digestivo (doenças inflamatórias, doença de crohn, cuja deteção é feita através da colonoscopia, bem como na prevenção e diagnóstico precoce do cancro colo-retal), porque permite a exérese de fragmentos do colon de lesões suspeitas, as quais são remetidas posteriormente para exame histopatológico.

Trata-se de um método relativamente seguro dirigido para dois grandes objetivos: diagnóstico e terapêutico. 

As suas linhas de orientação permitem fazer:

1- Exame de rastreio do cancro do colon

2- Investigação de sangramento intestinal

3- Investigação de alterações nos hábitos intestinais como por exemplo diarreias frequentes

4- Investigação de anemia por carência de ferro

5- Controlo de polipose intestinal

6- Investigação de dor abdominal crónica sem causa aparente

7- Confirmação de resultados anormais observados em exames não invasivos (radiografias, ecografias ou tomografias computorizadas).

A colonoscopia tem um tempo previsto para a sua realização que varia entre vinte e sessenta minutos.

Este exame pode ser feito com ou sem sedação, sendo a sedação mais ligeira ou mais profunda adaptada às características do doente.

Sempre que o exame é realizado com sedação é recomendável que o paciente fique no recobro 1 a 2 horas, após a conclusão do mesmo, todavia a recuperação total da anestesia só terminará no dia seguinte à realização do exame.

Se o paciente decide que a sua colonoscopia será efetuada sob o efeito de sedação, para sua segurança deverá fazer-se acompanhar por um familiar ou um amigo que o acompanhará no fim do exame.

Quando a colonoscopia se realiza com anestesia, o paciente deve ser esclarecido de que é desaconselhado trabalhar, utilizar máquinas perigosas ou mesmo conduzir.

Após a realização do exame e depois de terminar o recobro, se for esse o caso, poderá ingerir uma refeição ligeira quando chegar ao seu domicílio.

Apesar de a colonoscopia ser um meio de diagnóstico e nalguns casos de tratamento (por exemplo exérese de pólipos), bastante seguro, não estão excluídas algumas complicações que podem surgir numa percentagem de 0.2%, e o risco de morte é de 0.007%.

A s principais complicações que podem surgir com a colonoscopia são:

1- Hemorragias (perda de grande quantidade de sangue) intestinais

2- Cólicas

3- Perfuração do cólon, embora rara é uma situação grave

4- Efeitos laterais dos fármacos usados na anestesia

5- Propagação de doenças através do colonoscópio, quase excecional, mas possível e surge se o colonoscópio não tiver sido esterilizado adequadamente a seguir a qualquer exame, sendo por si só uma má prática médica (negligencia).

Sinais de alerta que obrigam a contatar com urgência o médico gastroenterologista que realizou a colonoscopia, devendo em caso de indisponibilidade deste ser contatado outro médico:

1- Dor abdominal intensa (sem relação com as cólicas dos gases)

2- Presença de distensão abdominal marcada

3- Aparecimento de vómitos

4- Instalação súbita de um quadro febril

5- Retrorragias (sangramento nas fezes continuado e / ou de grande volume).

Em suma, apesar de a colonoscopia ser um exame de diagnóstico e /ou tratamento praticamente inócuo, existem riscos que devem ser comunicados aos pacientes para poderem ser tratados precocemente, para evitar complicações graves e eventualmente a morte.

Todavia apesar da existência destes riscos, considerados “ minor”, no contexto global de benefício “major”, para os pacientes, pois este método de diagnóstico permite salvar vidas através do rastreio e minimizar as sequelas se a doença já estiver instalada, uma vez que serve de alerta e orienta para o tratamento precoce e adequado da doença.

Incentivar a realização dos exames de rastreio preconizados faz parte das boas práticas médicas, devendo por si só ser uma regra básica da medicina preventiva e uma mais-valia para o paciente, família e para a comunidade.

QUANDO OS CAVALOS RELINCHAM

LUÍS VENDEIRINHO
Diz-se que, no colo das nossas mães, nos afirmávamos pelo “não”. Era tudo novo: o dia e a noite, os carinhos, o calor do seio, as vozes que agora nos acompanham ao longo do tempo. Até que um mestre, do alto da férula, nos obrigou ao “sim”. Hoje temos leis e códigos, na teia dos preconceitos, filhos ilegítimos da moral, as palavras são medidas como o grão e o feijão o eram na mercearia, temos urnas testemunhas da nossa ignorância, falácias dos discursos e muita fezada na lotaria, que o pão sobra para aqueles que nos consolam com o êxito da sua maquilhagem. Quando os cavalos relincham o céu é da cor da nossa imaginação, as horas o espartilho rompido, os nomes abrigam-se sob o silêncio. Se o grito ousa rasgar a morna cadência do destino, esse que nos foi reservado por mão alheia, vem a mordaça, invocado o medo, a dizer-nos que “sim”. Há homens que só vivem encostados à dormência dos passos, outros tantos de muleta, poucos que galopam e no galope atiram contra o chão estéril a fúria da liberdade. Na rua onde nasci, como acontece no resto do mundo, todos somos cativos das nossas memórias, todos bebemos do mesmo cálice, orando por justiça, por justiça adiada, e damos esmola quando nos saudamos, cumprindo a penitência com rosto de solidão. Quando os cavalos relincham a terra treme, o céu escurece, o vento sopra e traz com ele coisas inomináveis. O freio quebrou, o sol já não se põe, amanhã dirão que fomos artífices de uma casa sem fundação. Nós cientistas, oradores, poetas, arquitectos da decadência. Diz-se que, no colo das nossas mães, nos estava prometida a liberdade, essa fonte donde poucos bebem, mas os nossos filhos haverão de matar a sede, não na liberdade, mas na fonte onde há dois rouxinóis a cantar, uma borboleta a dançar, uma semente a germinar, mil estrelas a brilhar e os beijos que a chuva lhes dará, sempre que for chamada a cair. Quando os cavalos relincham sua majestade resigna.

E EIS QUE, FINALMENTE, CHEGA O FRIO

LÚCIA LOURENÇO GONÇALVES
Pois é, depois de um verão excessivamente quente e seco, eis que voltamos aos lenços, gorros e cachecóis, agasalhos e botas. Delícia! Pena é que chega o frio, mas não a chuva, tão necessária!

E em cada dia que amanhece solarengo penso, o sol está lindo. Admito, esta dicotomia, frio e sol encanta-me, devolve-me à infância, aos dias em que, despreocupadamente aproveitava estes dias perfeitos. A diferença é que nessa época, as estações do ano estavam bem definidas e no seu devido lugar e tempo!

A primavera colorida e rica em aromas florais e ainda um pouco molhada, o verão seco e quente, o outono colorido, aromático, já fresco e com alguma chuva, o inverno chuvoso e frio, bastante frio… Aliás raro era o ano em que um nevão, não obrigasse a fechar as escolas. Tão bom!

Atualmente, vivemos num planeta onde as diferenças nas estações do ano quase não existem, e devíamos ter uma maior preocupação com tal facto.

Se é certo que nada podemos fazer quanto à falta de chuva… Parece que o São Pedro anda a fazer “ouvidos de mercador” e a deixa-nos por aqui a “rezar” para que chova. Também o é, que pouco ou nada se faz para travar o aquecimento global!

Talvez a ideia generalizada seja: de que me adianta ter cuidado em proteger o ambiente se “o vizinho do lado” não tem a mesma preocupação? Pois é, mas quando não é apenas uma pessoa a pensar assim o caso muda de figura, porque vira comportamento em cadeia…

As alterações climáticas deviam, de uma forma globalizada, fazer-nos tomar maior consciência relativamente ao mundo em que vivemos, e se não temos qualquer influência nas "decisões" do São Pedro, o mesmo já não se pode dizer da nossa postura e conduta, no que respeita ao meio ambiente.

Afinal, por um planeta sustentável, cabe a cada um de nós fazer a sua parte!

sábado, 18 de novembro de 2017

NO DIA EUROPEU DOS ANTIBIÓTICOS

ANTONIETA DIAS
Designa-se por antibiótico um fármaco cuja função é tratar infeções causadas por microrganismos designados por bactérias.

São substâncias farmacológicas usadas com fins terapêuticos, tendo por si só indicações específicas e devem ser utilizados com muita cautela.

Os antibióticos atuam sobre as bactérias de duas formas: destruindo-as designando-se esta ação como bactericida ou inibindo a sua replicação, agindo assim como bacteriostáticos.

Os antibióticos não destroem os vírus.

Devem ser usados quando indicados e a seleção do grupo /classe tem de corresponder à sensibilidade da bactéria em causa, constituindo assim um ato médico de relevo, para o qual é imprescindível o conhecimento científico da doença, do fármaco de eleição para o seu tratamento bem como a tipologia do doente ao qual vai ser aplicado tendo em conta as características individuais da pessoa em causa.

Podem ainda ser utilizados na profilaxia antibiótica (antes da realização de uma cirurgia), para prevenir o aparecimento de infeções operatórias.

São causa frequente de resistência se forem usados de forma inadequada, sendo por isso de vital importância a seleção correta do fármaco para o tratamento que se pretende instituir ao doente.

Com base nas orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de 50% dos antibióticos prescritos são feitos de forma inadequada, sendo esta a principal causa de resistência antibiótica.

Em Portugal existe legislação específica na competência da prescrição terapêutica, sendo a mesma da responsabilidade médica, prevendo a penalização na venda ilegal de antibióticos sem receita médica.

Todavia, infelizmente continuam a ser feitas vendas ilegais (sem a respectiva receita medica).

Compete ao Infarmed (Instituto Público), fazer a fiscalização destas situações o que nem sempre é fácil.

Portugal é um dos países da Europa em que as taxas de resistência aos antibióticos são elevadíssimas.

Em consequência destes dados e preocupado com este grave problema foi criado em Portugal o Programa Nacional de Prevenção das Resistências aos Antibióticos (PNPRA), com a intenção de diminuir a taxa de resistência aos mesmos e com o objetivo de sensibilizar os profissionais (médicos), e as pessoas que os utilizam indevidamente (sem a respetiva prescrição médica), para a necessidade do uso racional dos antibióticos.

Cabe assim a todos os intervenientes neste processo a responsabilidade do uso dos antibióticos de forma criteriosa e sensata.

Em suma, os antibióticos são indispensáveis no tratamento das infeções, porém devem ser obrigatoriamente prescritos pelos médicos, que deverão fazê-lo com base na evidência científica, respeitando sempre as recomendações para este ato médico e agindo escrupulosamente de acordo com a “legis artis".