sexta-feira, 26 de maio de 2017

REGIME DE ACESSO AO DIREITO E AOS TRIBUNAIS – PROTEÇÃO JURÍDICA DA SEGURANÇA SOCIAL

ANA LEITE
Artigo 20.º n.ºs 1 e 2 da CRP: “A todos é assegurado o acesso ao direito e aos tribunais para defesa dos seus direitos e interesses legalmente protegidos, não podendo a justiça ser denegada por insuficiência de meios económicos.

Todos têm direito, nos termos da lei, à informação e consulta jurídicas, ao patrocínio judiciário e a fazer-se acompanhar por advogado perante qualquer autoridade.”

O direito de acesso aos tribunais e ao direito é como se vê, um direito fundamental, assim ninguém pode ser prejudicado no acesso à justiça e aos tribunais por razões económicas. A lei garante apoio ao cidadão no acesso à justiça quando demonstre insuficiência económica, e estabelece, como forma de acesso, a informação jurídica e a proteção jurídica, a qual abrange as modalidades de consulta jurídica e de apoio judiciário.

Em suma, a consulta jurídica é essencial para que todos os cidadãos possam conhecer os seus direitos e deveres, através da consulta com um advogado.

Já o apoio judiciário é atribuído consoante o grau de carência económica e o processo a que se destine, na forma de dispensa do pagamento das despesas do processo e dos honorários do advogado, na possibilidade de pagamento em prestações, ou na atribuição de agente de execução. 

Dito isto, tem direito a proteção jurídica os cidadãos nacionais e da União Europeia, bem como os estrangeiros ou os apátridas com um título de residência válido em Portugal ou num Estado membro da União Europeia. As pessoas coletivas sem fins lucrativos têm apenas direito à proteção jurídica na modalidade de apoio judiciário. As pessoas coletivas com fins lucrativos e os estabelecimentos individuais de responsabilidade limitada não têm direito a proteção jurídica. 

Todos têm de demonstrar que não têm capacidade económica para suportar as despesas associadas com a ação judicial. Nos termos da lei de acesso ao direito, encontra-se em insuficiência económica aquele que tendo em conta o rendimento, o património e a despesas permanente do seu agregado familiar, não tem condições objetivas para suportar pontualmente as custas de um processo. Qualquer pessoa pode verificar se tem direito à proteção judiciária através dos simuladores de proteção jurídica disponíveis na página online da Segurança Social.

Este apoio pode ser acumulado com outro ou outros apoios que eventualmente estejam a receber. O requerimento para solicitar apoio judiciário deve ser entregue pessoalmente ou enviado por correio para qualquer serviço de atendimento ao público da Segurança Social ou pode ainda ser enviado para o endereço eletrónico deste serviço.

Por último, convém referir que o advogado oficioso ou patrono é escolhido pela Ordem dos Advogados, sempre que os tribunais, os serviços do Ministério Público, os órgãos de polícia criminal ou os serviços da Segurança Social o solicitem, mediante um sistema eletrónico gerido pela Ordem.

O COMBUSTÍVEL DO SUCESSO ALEMÃO

JOÃO RAMOS
Num artigo de apoio, barry eichengreen criticava abertamente o elevado excedente da balança de pagamento da economia alemã, salientando que o seu governo deveria adotar um orçamento expansionista. Concluindo, defendia que existem vários sectores com necessidades de investimento, como o sistema de ensino, que não possuía uma única faculdade no top 50 das melhores do mundo. Este último dado confere informação relevante em relação ao crescimento económico e sobretudo à potência do seu motor produtivo. Assim sendo, apesar do sistema de ensino profissional constituir a principal mais-valia do sector industrial alemão, não me parece, que seja por si só suficiente para sustentar o principal motor económico europeu. Desta forma, muito do sucesso das indústrias alemãs de alta tecnologia foi alimentado pelos emigrantes altamente qualificados dos países do sul da Europa. Aproveitando-se da qualidade do sistema de ensino e da crise de economias como a Portuguesa, a Alemanha apropria-se de importante recursos humanos, sem contribuir com os custos para a sua formação.

Ao contrário do que muitas das vezes é passado para a opinião pública, o ensino universitário nacional situa-se na vanguarda em várias áreas tecnológicas, contribuindo para a formação de profissionais extremamente competentes, que por falta de oportunidades são obrigados a rumar a outras paragens.

Como é sabido, no seculo XXI, o conhecimento e o capital humano são condições sine qua non para garantir um futuro promissor para a nossa economia e próximas gerações. Desta forma, para além de investir num amplo programa de fixação de jovens formados, o governo deveria propor a criação de um mecanismo europeu de compensação, para os países exportadores líquidos de mão-de-obra qualificada, sobretudo procurando reaver parte dos custos associados à componente educativa.

EA: SENTIR-SE SEGURO

GABRIELA CARVALHO
Em várias crónicas tenho abordado o EA com algumas especificidades.
Na crónica de hoje a especificidade será sobre a importância do idoso se SENTIR SEGURO para um bom envelhecimento activo.

“Sentir-se seguro” é uma necessidade fundamental sendo um direito proclamado pela Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Nos dias actuais, esta sensação de segurança é facilmente amedrontada pelos acontecimentos, também exacerbados pelas notícias.

No entanto, o tema que se pretende nesta crónica não é propriamente a (in)segurança noticiada, mas a insegurança associada às alterações biopsicossociais inerentes ao processo de envelhecimento e que aumentam a vulnerabilidade do idoso aos acidentes, nomeadamente domésticos.

Se por uma lado, o sentimento de insegurança tem repercussões na qualidade de vida do idoso, também é verdade que é sempre possível alcançar maiores níveis de segurança, quer pela redução dos riscos associados aos determinantes pessoais (ver crónica do dia 06.01.2017 sobre o Envelhecimento Activo), como por exemplo, o risco de queda; quer pela redução dos riscos associados ao ambiente físico (por exemplo: barreiras arquitectónicas).

Importa portanto, existir a consciencialização de que a segurança apresenta reflexos directos na participação activa do idoso no seu domicílio, mas também na sua vivência social, isto é, «na vivência cívica e de cidadania activa» e também nos relacionamentos interpessoais e na procura de estilos de vida saudável.

Por exemplo, nos espaços exteriores, se o idoso não se sentir seguro, vai evitar as saídas do domicílio (apesar de que volto a alertar que o próprio domicílio apresenta riscos à segurança, por exemplo, pelo risco de quedas em tapetes/móveis; intoxicações por trocas de substâncias/medicamentos; pouca luminosidade; falta de barras de apoio; …). Por isso, deve existir a preocupação da pessoa idosa se sentir segura na rua, para que mantenha a vontade de se envolver na sua comunidade local.

Cabe à sociedade, criar oportunidades e eliminar barreiras, permitindo a igualdade de acesso, tal como preconiza a Organização Mundial de Saúde ao criar em 2005 o projecto “Cidades Amigas das Pessoais Idosas” (tema que será abordado na próxima crónica).

“Mais do que acrescentar anos à vida, a Terapia Ocupacional proporciona vida aos anos.”

Referências Bibliográficas:
- Organização Mundial de Saúde (2005). Envelhecimento ativo: uma política de saúde. Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde.
- Ribeiro, O., C. Paúl (2011). Manual de Envelhecimento Activo. Lisboa, Lidel - edições técnicas, lda.
- Torres, M. & Marques, E. (2008). Envelhecimento activo: um olhar multidimensional sobre a promoção da saúde. Estudo de caso em Viana do Castelo. Lisboa: VI Congresso Português de Sociologia.
- Vasconcelos, K. R. B. d., Lima, N. A. d., & Costa, K. S. (2007). O envelhecimento ativo na visão de participantes de um grupo de terceira idade. Fragmentos de cultura, 17, 439-453.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

A CULTURA COMO INVESTIMENTO

ARTUR COIMBRA
Ciclicamente, por uma razão ou outra mais ou menos plausível, essa ave rara chamada “cultura” vem ao de cima do discurso mediático, bem mais propenso às vicissitudes da política mais ou menos centrada nos governantes e nos partidos políticos.

Nos últimos dias, os media têm dado significativo destaque a questões ligadas ao universo da cultura, em especial da música, por virtude da fantástica conquista do Festival Eurovisão da Canção por esse cantor improvável e em quem poucos acreditavam chamado Salvador Sobral, ainda por cima cantando em português uma canção sem o habitual aparato festivaleiro. É o cantor que tem colocado o dedo na ferida, referindo que seria interessante que, à boleia daquela inesperada conquista da Europa das canções, “o orçamento para a cultura aumentasse”. Um recado para o Governo de António Costa, esperando-se que não caia em saco roto, como é tão normal neste país, em que as coisas habitualmente abrigadas no chapéu da cultura (artes plásticas, cinema, teatro, música, bailado, literatura, exposições, concertos e tantas outras) são tratadas como a última prioridade de qualquer programa político, o que se lamenta em absoluto, porquanto um povo culto é um povo mais activo, mais empreendedor, mais criativo, mais livre.

Basta ver a quantidade de vezes que os jornais televisivos abordam questões culturais. Quase se podem contar com os dedos de uma só mão e, quando acontecem, são relegadas para os minutos finais do telejornal e emitidos muito a contragosto…

É claro que falar-se de cultura é, já de si, um achado, tão menosprezada anda pelos órgãos de comunicação social e pela população em geral, anestesiada por doses cavalares de telenovelas e de futebóis, que não sabe há quanto tempo viu um filme no cinema, que já não se lembra da última peça de teatro a que assistiu, e que nunca mais acaba de ler aquele pequeno livro que começou há mais de um ano.

Mas as estatísticas e o pensamento dos últimos anos vão no sentido de se concluir que a cultura não é, nos nossos dias, algo que funcione apenas como adereço, como coisa supérflua, como desperdício irrecuperável. A cultura é considerada, justamente, um investimento, que movimenta já milhões de euros e que tem retorno, embora mais lento que outras actividades, como é natural. As indústrias culturais na Europa, por exemplo, representam já maior impacto no produto interno bruto que a têxtil ou a indústria automóvel, por mais incrível que possa parecer.

É reconfortante saber que o investimento cultural começa a ser reconhecido, pelas autoridades, pelos agentes culturais e pelos agentes económicos. A cultura tem de constituir uma aposta estratégica, do Estado e das autarquias, porque é aquilo que, a par da educação, pode contribuir para tornar os povos mais livres, mais conscientes, mais evoluídos, mais felizes e mais humanos.

Até porque, ao contrário do que supõem os imensos pretensos e incultos pragmáticos, para quem a cultura não passa de um vastíssimo regabofe despesista e sem pingo de importância, está demonstrado que a cultura tem um forte peso na economia europeia. Em Portugal, o sector contribui com 1,4% do produto interno bruto, sendo o terceiro principal contribuinte para o PIB, a seguir aos produtos alimentares e bebidas. Por isso, deve passar a ser vista como uma prioridade para os governos dos países, e também para os responsáveis municipais. A cultura é para ser apoiada, dinamizada, subsidiada, porque é ela que eleva espiritualmente a humanidade. É a cultura que distingue os homens da animalidade. Os discursos contra a cultura, venham de onde vierem, não passam desse estádio de atraso e desse apego à barbárie...

Em suma, está, então, na hora de os políticos e os fazedores de opinião se consciencializarem da importância fundamental e do peso específico deste importante sector para a economia e para a qualidade de vida dos cidadãos.



E já não é sem tempo.

JOÃO, O ROMEIRO DESCONFIADO

HÉLDER BARROS
Na aldeia, nos finais do mês de abril, pela década de setenta, começava um frenesim muito particular, nestas terras de entre douro e minho. O povo que costumava fazer a peregrinação anual a Fátima num ritual que, muita gente de então, iniciava fazendo preparação para a mesma. Primeiro, tratava-se de arranjar alguém que desse apoio de carro, ou, preferencialmente, de carrinha, aos diferentes grupos e/ou famílias. Uma ou duas carrinhas, quase sempre as típicas Bedford de caixa fechada, muito difundidas na época, eram uma preciosa ajuda para o transporte de carga e mantimentos suficientes para a viajem e um conforto para o descanso dos peregrinos, embora alguns ficassem ao relento, em locais cobertos, particulares ou públicos, tais como aquedutos, estações de camionagem, estações de serviço e por baixo de pontes, arrecadações e alpendres agrícolas com permissão dos respetivos donos, entre outros.

Entre estes, havia o João da Nora que, foi sempre um homem bastante preguiçoso, mas com proporcional quantidade de curiosidade. O avô dele tinha sido um dos peregrinos que, em outubro de 1917 na Cova da Iria, assistiu ao alegado milagre do sol. João passou a infância a ouvir relatos do avô sobre essa epifania. Considerou sempre aquela história pouco credível, mas viveu igualmente com aquele sentimento ambivalente de, simplesmente não acreditar, mas ao mesmo tempo, com a esperança remota de que qualquer coisa de sobrenatural pudesse acontecer. Andou de ano para ano, desde adolescente, com esta preguiça enturpecedora que se misturava com uma curiosidade quase doentia de saber se acontecia em Fátima algo de paranormal. Ademais, como era muito avarento, andava sempre a tentar saber qual era o grupo que levaria mais alimentos e que reuniria melhores condições para uma peregrinação o mais confortável possível e que fosse para ele mais proveitosa, monetariamente falando em termos de custos. Claro que, já todos na aldeia o conheciam e como se tornava chato por alturas da peregrinação à Cova da Iria, pelo que fugiam quanto podiam dele.

Por alturas dos quarenta anos, João andava desanimado com a vida. Nunca tinha casado, nem sequer namorado, graças à sua fama de avarento, de chato, de coscuvilheiro e de tudo o mais que corria na aldeia acerca dele. Então, depois de muito cismar uma noite, decidiu que iria empreender a grande aventura, nesse ano, em 1967. Sim, João Romeiro, ia acabar de vez com a sua curiosidade, ainda mais que Paulo VI viria a Fátima nesse ano, a sua curiosidade de experiências com o Sagrado estava ao rubro. Para João algo ia acontecer em Fátima, uma epifania, um crime, qualquer coisa de especial. Acreditava piamente no que lhe tinham contado numa feira de gado há uns anos: um dos segredos de Fátima que a Irmã Lúcia guardava, passaria pela morte de um Papa em Fátima e que Deus como castigo, iria despoletar o fim do mundo através do fogo. Dizia João que quando foi com Noé, o Mundo acabou pela água, agora Deus mudaria de sistema e queimaria tudo pelo fogo. Deus faria da terra um autentico inferno, para redimir os pecados dos homens, que foram de tal forma que, nem o seu representante na terra, o Papa, foi respeitado pela maldade dos homens, que derivaram para comportamentos desviantes e costumes mais conformes com as intenções do Demo que, com as Leis de Deus...

Chegou a data da partida, os peregrinos da aldeia iam caminhar durante cerca de oito dias, por etapas de distância máxima de 40 Km por dia. Ia ser uma semana dura, que apelava a todas as forças humanas, físicas e psicológicas, daquelas pessoas que iriam empreender tão nobre jornada. O João, no primeiro dia até Paredes, lá para os lados de Baltar, ainda se foi aguentando, mas na segunda etapa até Vila Nova de Gaia foi o bom e o bonito. Ele, preguiçoso como era, não realizou a preparação prévia, umas caminhadas que o grupo ia fazendo aos fins do dia e aos domingos, para preparar o corpo para tão grande esforço. O homem só chorava de dores de pernas e dos pés, com bolhas e a sangrar, de tal forma que, com pena dele a tia Arminda do Olival Velho, se ofereceu para lhe aquecer água e tratar das feridas dos pés. Como ele muito se lamentava, deu-lhe uma malga de caldo verde e fez-lhe um chã para ele dormir melhor. Mas, os dias seguintes foram penosos, o João não aguentava as dores e tinha que parar muitas vezes. O grupo foi sempre solidário com ele, os homens mais fortes até o chegaram a levar às costas, em alguns troços de estrada mais penosos, principalmente nas subidas. De resto, ia sempre amparado por uns dos homens mais pujantes do grupo.

Dia 11 de maio de 1967, uma quinta feira cinzenta e a ameaçar chuva que já os tinha encharcado várias vezes pelo caminho, obrigando-os a embrulharem-se em plásticos, chega o grupo à Cova da Iria, Santuário de Fátima, totalmente invadido por peregrinos que eram originários de todos os lados do País e estrangeiro. João deitou-se no chão a chorar, os colegas ajoelharam-se, todos sentiram a enorme emoção do dever cumprido, choravam como crianças. Armando das Cortes, o mais experiente e líder deste grupo, abraçou-se a João e disse-lhe, repetidamente: “Vês Homem de Deus o que vale a Fé!!! Alguma vez te tinhas sentido assim, tão rico e tão pobre, tão alegre e tão triste, tão grande e tão pequeno; é isto a Fé, eis o milagre que já sentiste e que sentimos todos, uns de uma forma, outros de outra, mas jamais esqueceremos esta experiência individual e coletiva…” 

Claro está que, foram umas cerimónias espetaculares, ainda para mais coincidindo com a visita a Portugal do Papa Paulo VI e nas cerimónias dos cinquenta anos das aparições, tudo encantou João. Parecia-lhe que, naqueles dias, tinha vivido pela vida toda. De certa forma, encontrou o segredo da vida, pelo menos para si. O João mudou, a prova de solidariedade que o grupo lhe prestou, em circunstâncias tão difíceis, foi decisiva para libertar um homem que só vivia de intriga, de avareza, sem Fé em si próprio e em qualquer religião. Tratava-se de um homem vazio, pior que isso, um homem que não acrescentava nada a ninguém nas relações humanas, o seu verdadeiro desígnio era a inveja, esse sentimento ignóbil que assola a humanidade em grande escala. Entretanto, na peregrinação tornou-se próximo da Rita do Vale, uma solteirona da aldeia, boa rapariga e plena de virtudes. Casaram e tiveram gémeos, dois herdeiros cheios de saúde e de encanto, o verdadeiro orgulho daquele casal, outro milagre que os abençoou.

Em suma, numa peregrinação, assim como na vida em geral, não importa se somos católicos, budistas, islamitas, agnósticos, ateus… o que conta é aquele momento da chegada a um qualquer destino traçado, com uma intenção do Bem... uma descoberta interior, o Amor que sentimos e que podemos partilhar. Só faz sentido acreditar em projetos de Amor, não patrocinemos, crenças baseadas no ódio e da morte… isto tudo a propósito da recente vinda do Papa Francisco I a Fátima e do abominável ataque terrorista em Manchester...

quarta-feira, 24 de maio de 2017

A INDISCIPLINA E A FAMÍLIA

MÁRCIA PINTO
A indisciplina escolar infantil é um dos grandes desafios no universo escolar, tanto para alunos quanto para professores e família. Além de dificultar o processo de aprendizagem, esse tipo de comportamento afeta a construção das relações e deste modo tornar-se um pesadelo.

Assim, as causas para a indisciplina são inúmeras. Porém, antes de qualquer julgamento, é preciso avaliar todo o contexto em que a criança vive. Qual a realidade que a escola apresenta para esse estudante? Como é o ambiente familiar? De que forma ele lida com suas emoções? Qual o seu contexto social? Todos esses aspetos influenciam direta e indiretamente o comportamento dos alunos.

Em alguns casos agir com autoritarismo pode criar um ambiente desconfortável e desfavorável para a criança e levá-la a quebrar ainda mais regras. Estabelecer uma relação de respeito, que promova um processo de aprendizagem coeso e produtivo, no qual a criança e o adulto criem um vínculo de confiança e admiração mútuos, ajuda a minimizar os conflitos e a manter a harmonia entre os intervenientes.

Desta forma, a família deve estar atenta ao comportamento dos seus filhos. É importante conversar sobre o dia a dia escolar deles e identificar qualquer questão que os possa estar a preocupar. O lar deve ser um espaço acolhedor, em que a criança se sinta à vontade para manifestar os seus sentimentos e opiniões.

Neste sentido, é importante lembrar que a família é o exemplo principal para as crianças. Elas aprendem em primeiro lugar pelo exemplo. Portanto, desenvolvermos uma comunicação e relação pautadas pelo amor e pelo carinho favorece um comportamento semelhante nas crianças.

A família é a base da nossa vida, com ela aprendemos o que é ser ético, a respeitar a diferença de cada ser, os limites que nós temos e assim sermos capazes de viver em sociedade. Ela enche-nos de carinho e amor é o nosso porto seguro e de conforto que nos dá confiança para enfrentar qualquer problema que possa surgir.

Contudo, atualmente as famílias, estão mais ausentes por não haver tempo, o mundo de hoje exige muito de cada indivíduo, assim os pais deixam muitas vezes as suas casas para procurarem um mercado de trabalho para que deste modo possam dar mais conforto e sustentabilidade aos seus filhos. Isso contribui para que as crianças fiquem cada vez mais na companhia de outras pessoas como, amas, vizinhos, avós e em instituições responsáveis por essas atividades (creches e escolas).

Uma família onde o pai, a mãe e os filhos convivem diariamente é uma realidade cada vez mais rara, o que gera grandes conflitos na personalidade das nossas crianças. Os pais de hoje têm deixado a responsabilidade da educação das suas crianças para os professores e em muitos casos nem sequer participam na vida escolar dos filhos.

O mundo conturbado de hoje traz grandes desafios para educar os nossos filhos, mas isso não pode ser justificação para que nos desresponsabilizemos do nosso papel de pais e educadores. A parceria escola/família é fundamental para que as crianças cresçam e se desenvolvam de forma equilibrada de feliz.

NA MINHA ESCOLA HÁ LANCHES SAUDÁVEIS!

ELISABETE RIBEIRO
Ao longo dos tempos tem-se notado que os lanches dos alunos têm regredido na sua qualidade. Integrar um lanche escolar saudável é quase uma missão impossível quando têm como concorrência pacotes de bolachas atrativos, os pães de leite embalados e os pacotinhos de sumos de fruta adulterados com doses pouco recomendadas de açucares e afins. Aliado a isto o frenesim dos efeitos tresloucados dos despertadores a tocar, o banho rápido a tomar, o pequeno almoço a preparar, o tempo a passar... e falta o lanche. Não há tempo para comprar pão e fazer uma sandes. Vai mesmo um pacote de qualquer coisa!

Muito práticos e apelativos são um grande entrave à aplicação do lanche saudável na alimentação infantil.
É difícil para a família unir o prático à qualidade e é difícil a criança aceitar o que se escolheu. Muitas vezes o prático não é o mais saudável, mas é o que a criança mais aprecia. Esses alimentos passam a
ser consumidos com mais frequência e, por consequência, a obesidade infantil é assustadora.

Há escolas que encontraram uma forma de minimizar esta problemática.
Em articulação com as autarquias e os Encarregados de Educação o serviço de “lanche saudável” (variado, diário e igual para todos), foi aceite em alguns estabelecimentos de ensino (incluindo a escola onde leciono). Deste modo, as crianças alimentam-se de forma equilibrada, com valores nutricionais adequados, que garante a energia necessária, desenvolve a sua capacidade de concentração e melhora o seu desenvolvimento integral.

Os lanches saudáveis deveriam vir de casa. Mas, face à epidemia praga do fast food, julgo que a escola é o local onde melhor se radica estes bons hábitos alimentares. Hábito este que deveria ser implementado em todas as escolas do país.

terça-feira, 23 de maio de 2017

CONSULTÓRIO DE FILOSOFIA

REGINA SARDOEIRA
Antes de ousar abrir o meu consultório de Filosofia, posso sempre treinar, usando esta via. Nem sequer preciso de sair do meu espaço para chegar aos outros, basta que eles venham e se apresentem: e assim, poderei estar por detrás de uma porta, aguardando os que desejam conhecer-se. A fechadura estará lá, decerto; mas não serei eu a espreitar por entre as teias de aranha e a caliça, uma vez que a porta é de cada um que arrisca sondar-se até ao âmago.

A porta carcomida e a fechadura são símbolos de existências em derrapagem e contudo abertas num remoto local que terá que ser descoberto, primeiro, admitido como abertura, depois e, por fim desvendado pelo olhar, tornado acutilante, capaz de ver e perceber as gradações vitais do outro lado. Eis a tarefa do Filósofo/a, eis a definição actuante da Filosofia, esta que é amor pela sabedoria, mas também amor pela vida : e eis a Filóbia, palavra que ainda não existe nos dicionários mas que inventei há anos para dar sentido ao meu ser filósofa.

Penso que o vulgo – e quando utilizo a palavra vulgo, não estou a ser pejorativa, mas a referir-me à esmagadora maioria das pessoas, incluindo os cultos, incluindo os sábios, incluindo os licenciados em Filosofia (…) – não compreende o significado da palavra sabedoria neste contexto que é o da σοφία (sophia) ou da φρόνησις (phronesis), a sabedoria prática, a sabedoria ética, a prudência, a virtude. Estes últimos termos – prudência, virtude – foram desfigurados pela religião católica que deles se apropriou no sentido de os referir às suas práticas. E no entanto, a prudência e a virtude são os ingredientes da phronesis aristotélica, são as qualidades que o indivíduo precisa de cultivar acima de tudo se quer viver bem, se quer actuar correctamente.

Um consultório de Filosofia ou talvez um laboratório – pois, neste contexto, «mestre» e «discípulo» interactuam, sendo, assim, esse lugar um palco fértil de interacções – não se substitui aos consultórios de Psicologia ou de Psiquiatria ou de práticas esotéricas, quaisquer que sejam. Vale por si, representa a primeira etapa para o auto-conhecimento, para a descoberta do fio condutor existencial daquele que se investiga a si mesmo com a ajuda sábia do filósofo. Sábia, esclareço, sempre no sentido grego, de procura, de sondagem, equiparada à arte da maiêutica levada a cabo pelo filósofo Sócrates, arte de fazer parir a verdade, essa que ilumina o fundo do ser e deve ser parturejada a fim de servir também de farol à superfície e logo ao mundo circundante. Essa primeira etapa de que falo pode bem ser a última, se a mente do auto-investigador aderir ao esvaziamento inicial e ao preenchimento ulterior; porém, caso as investidas do filósofo/a não encontrarem receptividade, caso a mente daquele que a si próprio sonda interrompa a caminhada, pode passar para outras instâncias – as da Psicologia, as da Psiquiatria – que, em sintonia com a primeira sondagem, orientarão as demais.

É deste modo que eu vejo a função do Filósofo/a e o papel dos consultórios ou laboratórios de Filosofia, em interacção dialogante com os demais sectores de investigação da mente, avesso a medicações químicas, ou a processos morosos de análise unilateral, mas suficientemente esclarecido para determinar quando termina o seu papel, ou quando deve passar para outros a tarefa.

Fala-se, a propósito, em «demissão interventiva dos licenciados em filosofia e dos filósofos» porque essa classe é observada, invariavelmente, confinada a uma sala de aula, onde os manuais ou as sebentas pontificam. Eu própria fui aviltada com aulas de filosofia em que me mandavam «papaguear» pensamentos de filósofos ou «despejar» matérias decoradas em provas, de onde o pensamento original, discursivo, dialéctico teria que ser cuidadosamente retirado. Se não me tornei "papagaio filosófico" foi na exacta medida em que resisti, não me deixei encharcar por teorias, não aderi à memorização abstracta e descontextualizada de pensamentos, tornei-os meus, inventei-os e reinventei-os, e tudo o que havia para aprender – pois tratava-se do pensamento de outros – aprendi-o, exclusivamente, à minha própria custa. Hesitei muito antes de tornar-me licenciada em filosofia, pois percebi que essa licenciatura nada significava, filosoficamente falando, representando apenas um papel meramente académico e logo burocrático; por fim, cedi à pressão familiar, obtive o diploma mas – desta vez sem hesitações – optei por não o utilizar nas funções tidas como óbvias para o licenciado em Filosofia, recusei o ensino e fi-lo enquanto me não senti ainda mais desfigurada noutras profissões que, tarde ou cedo, vim a adoptar.

O ensino veio depois e ficou pois entendi, gradualmente, que as salas de aula podem ser excelentes laboratórios de Filosofia, desde que o professor consiga distanciar-se do manual, puxar pela mente do jovem até aos limites, envolver-se com ele numa luta mente a mente, arrancando-o ao comodismo do senso-comum e dos preconceitos. Venço parcialmente essa luta na medida em que o combate é desigual: estou eu, de um lado e 30, do outro – 30 predadores da verdade, 30 amordaçados ao conforto das opiniões colhidas nos media e na sociedade em geral, 30 mentes desatentas a si próprias e cada vez mais aturdidas pela parafernália tecnológica que lhes substitui o ser. Mas esse ganho parcial, essas vitórias que vou conseguindo quando, de entre a turba flutuante, um, dois, três apreendem o sentido do que deles espero, enquanto aprendizes do filosofar, ensina-me quotidianamente o caminho, faz-me, cada vez, mais réproba relativamente às fórmulas decoradas, que se esvaem logo que não temos necessidade de pô-las em prática e, em simultâneo, cada vez mais aberta ao culto da Filóbia.

Deste modo, respondo parcialmente à questão entre todas difícil de responder com acerto: O que é um filósofo/a?

Ignoro se chegarei algum dia a abrir um consultório/laboratório de Filosofia. De certo modo aboli essa hipótese quando a ficcionei em O Pulo do Lobo (Editora Pé de Página, 2006), para, quase de imediato, a destruir, não porque fosse absurda, mas porque o Filósofo da minha história sofreu a desilusão, por força dos que não lhe entenderam os desígnios. Ou talvez eu esteja à espera do companheiro/a capaz de se abalançar comigo a empreender semelhante tarefa! E certamente acontecer-me-á o mesmo que em tempos abalou Friedrich Nietzsche até ao cerne, esta busca de espaços para filosofar e de companheiros de eleição capazes de reinventarem o espírito da douta-sabedoria de Sócrates.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

VIAGEM DA FELICIDADE (PARTE I)

RITA TEIXEIRA
Hoje peguei na natureza e apanhei o comboio com destino à felicidade. Num apeadeiro, entrou a simplicidade e sentou-se a meu lado. Assim que abriu a bolsa, que trazia a tiracolo, e soltaram-se beijinhos que perfumaram o ar da carruagem. Seguimos a viagem. Num outro apeadeiro, entrou a alegria e começou a algazarra. Tudo era uma diversão. Ao chegar à primeira estação, refreamos a nossa brincadeira, para não afastar nenhum passageiro. Entraram a ignorância e o egoísmo e sentaram se à minha frente. Voltamos à brincadeira. Só que estes dois passageiros não se sentiram à vontade e mudaram para outra carruagem. Não paramos nos dois apeadeiros seguintes e, quando paramos no outro apeadeiro, a coragem e a fé entraram e prosseguimos a viagem a sentir que a felicidade estava próxima. Na segunda estação, entraram a amizade, a paz e o amor que se contagiaram com a nossa euforia! Na penúltima estação, a inveja, a exibição e a futilidade estavam na fila para subirem para a nossa carruagem, mas viram a grandeza do coração e retiraram-se logo. Assim, chegamos ao nosso destino, a felicidade! Quando unimos os valores da boa educação que recebemos da família, não há nada que lhe pegue!!

FALEMOS DA DEPRESSÃO

Nunca despreze as pessoas deprimidas.
A depressão é o último estágio da dor humana.
Augusto Cury


ELISABETE CERQUEIRA
A depressão é, atualmente, a principal causa de doença e incapacidade a nível global. O alerta foi emitido recentemente pela Organização Mundial da Saúde (OMS) que, para assinalar o Dia Mundial da Saúde, decidiu centrar todas as atenções na depressão. Segundo a mesma fonte, até 2020, a depressão será a doença mais incapacitante do mundo.

Descrita pela primeira vez no início do século 20, a depressão ainda hoje é confundida com tristeza, desmotivação,…sentimentos comuns a todas as pessoas em algum momento da vida. A tristeza é uma reação normal às situações de vida, tais como lutas, zangas, perdas, derrotas e decepções, são motivos para deixar alguém triste, cabisbaixo, mas isso não significa que a pessoa esteja com depressão, certamente que vai ultrapassar a situação e vai sentir-se melhor…

Ela chega de mansinho, assim como quem não quer nada. Num dia, acorda triste, desanimado… no outro, uma vontade incontrolável de chorar, sem qualquer motivo aparente, mas quando o vazio e o desespero tomam conta do seu dia-a-dia, tornando-se permanente, afetando-lhe a motivação e o sentido da vida, pode ser depressão. Mais do que apenas o humor diminuído, os pontos baixos da depressão podem afetar-lhe a sua funcionalidade e deixar de ter prazer na vida. Deixa de se interessar pelos amigos, família, lazer, hoobies, trabalho, saúde, você sente-se esgotado o tempo todo…só aguentar o passar do dia pode ser avassalador. A depressão é assim, um mal silencioso e ainda mal compreendido.

Considerada um transtorno mental ou uma doença psiquiátrica, a depressão é caracterizada pela tristeza constante e outros sintomas negativos que anulam e incapacitam o dia-a-dia do indivíduo, interferindo com a sua capacidade de trabalhar, estudar, comer, dormir e divertir-se. Falar em depressão é muito mais do que falar em melancolia, é falar em tristeza aliada a apatia, é falar num estado com consequências que podem ser fatais…estima-se que a cada 40 segundos se comete um suicídio no mundo.

Os sentimentos de desamparo, desesperança, inutilidade são intensos e implacáveis, com pouco ou nenhuma alívio. A depressão tornou-se tão presente nas últimos décadas, porque as situações de incerteza também são maiores do que eram no passado, quanto maior é a situação de insegurança, de incerteza, de stress, em que vivemos, maior são os estados emocionais em que nos encontramos. Não há dúvidas de que há pessoas mais vulneráveis do que outras e que há motivos genéticos que levam as pessoas a ficarem deprimidas com mais facilidade. Há uma interação entre aquilo que as pessoas são do ponto de vista genético e biológico e a pressão ambiental, mas o que mudou nos últimos anos não foram os genes…o que mudou nos últimos anos foi a nossa qualidade de vida…aumentou o stress, a incerteza, o medo...

Existem sinais e sintomas que nos podem indicar que estamos perante uma depressão, são eles:
• Humor depressivo ou irritabilidade, ansiedade e angústia
• Desânimo, cansaço fácil, necessidade de maior esforço para fazer as coisas
• Diminuição ou incapacidade de sentir alegria e prazer em atividades anteriormente consideradas agradáveis
• Desinteresse, falta de motivação e apatia
• Falta de vontade e indecisão
• Sentimentos de medo, insegurança, desesperança, desespero, desamparo e vazio
• Pessimismo, ideias frequentes e desproporcionais de culpa, baixa autoestima, sensação de falta de sentido na vida, inutilidade, ruína, fracasso, doença ou morte.
• A pessoa pode desejar morrer, planeia uma forma de morrer ou tentar suicídio
• Interpretação distorcida e negativa da realidade: tudo é visto sob a ótica depressiva, um tom "cinzento" para si, os outros e o seu mundo
• Dificuldade de concentração, raciocínio mais lento e esquecimento
• Diminuição do desempenho sexual (pode até manter atividade sexual, mas sem a conotação prazerosa habitual) e da libido
• Perda ou aumento do apetite e do peso
• Insónia (dificuldade de conciliar o sono, múltiplos despertares ou sensação de sono muito superficial), despertar matinal precoce ou, menos frequentemente, aumento do sono (dorme demais e mesmo assim fica com sono a maior parte do tempo)
• Dores e outros sintomas físicos não justificados por problemas médicos, como dores de barriga, má digestão, azia, diarreia, constipação, flatulência, tensão na nuca e nos ombros, dor de cabeça ou no corpo, sensação de corpo pesado ou de pressão no peito, entre outros.
Existem também causas e fatores de risco para desencadear uma depressão, são eles:
• Solidão
• Falta de apoio social
• Recentes experiências de vida stressantes
• História familiar de depressão
• Problemas de relacionamento ou conjugal
• Tensão financeira
• Trauma ou abuso de infância
• Uso de álcool ou drogas
• Situação de desemprego ou o subemprego
• Problemas de saúde ou de dor crónica
Compreender a causa subjacente à depressão pode ajudá-lo a superar o problema. Qualquer um pode experimentar algum tipo de depressão, por algum motivo. É uma condição e situação que afeta pessoas de todos os tipos, de todas as raças, sexos e situação socioeconómica.
Mudanças de estilo de vida saudável nem sempre são fáceis de fazer, mas eles podem ter um grande impacto sobre a depressão. Algumas mudanças que podem ser muito eficazes incluem:
• Cultivar relacionamentos de apoio
• Fazer exercícios regulares
• Regular o sono
• Alimentar-se saudavelmente para impulsionar naturalmente o humor:
• Gerir o stress
• Praticar técnicas de relaxamento
• Desafiar padrões de pensamentos negativos
• Promover a saúde

Somos uma sociedade de pessoas com notória infelicidade, solidão, ansiedade, depressão, destruição, dependência.
Pessoas que ficam felizes quando matam o tempo que foi tão difícil conquistar.
Erich Fromm

COMO ESCOLHER OS PRODUTOS DE HIGIENE ORAL MAIS ADEQUADOS PARA MIM? (PARTE III – FIO/FITA DENTÁRIA E ESCOVILHÃO INTERDENTÁRIO)

INÊS MAGALHÃES
Como já referido em textos anteriores, a higiene oral é a ação básica para uma boa saúde oral. Dela fazem parte a escova, a pasta dentífrica e como complemento o fio/fita dentária /escovilhão interdentário e, eventualmente um elixir/colutório.

No que diz respeito ao fio/fita dentária, tal como o próprio nome o indica, são diferentes.

Ambos servem para remover os restos de comida e placa bacteriana que se alojam entre os dentes, ou seja, no ponto de contacto (local em que dois dentes adjacentes se juntam) e que a escova não consegue higienizar.

Contudo, o fio pode ser de Nylon (ou multifilamentar) ou de PTFE (monofilamentar). O fio de Nylon está disponível com cera ou sem cera e em vários sabores. Porque este tipo de fio é composto por várias fiadas de Nylon, por vezes, pode partir, especialmente entre os dentes com pontos de contacto muito estreitos. Apesar de serem mais caros, os fios monofilamentados (PTFE) deslizam facilmente entre os dentes, até mesmo, entre pontos de contacto muito estreitos e são bastante resistentes. Quando usados corretamente, ambos os tipos de fio são excelentes para remover a placa bacteriana e restos alimentares.

Em relação à Fita Dentária, ela é constituída por uma fibra suave e macia, revestida com um tratamento à base de cera, o que facilita um deslizar suave entre os dentes, sem esforço, mesmo nos locais mais estreitos.

Como usar? Deve retirar da embalagem cerca de 40/50cm de fio/fita e enrolar no dedo médio de uma mão a maior parte dele, o restante no dedo médio da outra mão; com a ajuda dos polegares deve retirar os restos de alimentos dos dentes de cima e com a ajuda dos indicadores retirar dos dentes inferiores. Deve ter sempre o cuidado de não ferir as gengivas.

Para pessoas com mais dificuldade no seu uso (ex. crianças), existem ainda os passadores de fio dentário, que facilitam imenso a passagem do fio pelos espaços interdentários.

No que diz respeito ao escovilhão interdentário, este é mais prático para quem tem espaços maiores entre os dentes mas não consegue higienizar o ponto de contacto entre eles apenas com a escova. Quem é portador de aparelho ortodôntico, quem tem implantes ou pontes também deve usar o escovilhão. Estes também têm diferentes formas e tamanhos para se adequarem corretamente ao espaço a higienizar.

Com tanta variedade, como escolho o mais adequado para mim?

Pode sempre fazê-lo experimentado os diferentes produtos e ver com qual se adapta melhor, ou procurar ajuda de um profissional de saúde oral para o auxiliar na escolha.

Não esqueça! A higienização diária dos espaços interdentários onde a escova não chega é fundamental para a remoção dos resíduos dentários que, por ação das bactérias patogénicas, podem facilitar o aparecimento de cárie dentária e doença gengival.

domingo, 21 de maio de 2017

DE QUE VALE O SILÊNCIO SE NINGUÉM O ESCUTA?

MIGUEL GOMES
Seria, provavelmente, capaz de partir a pé por esses caminhos fora. Não é à toa que vagabundo rima com mundo. 

Acabo por cobiçar o sorriso desligado da alegria que vejo nalgumas faces, cobertas por barba, em corpos que não se inibem em deitar num banco de uma estação de comboios. 

Indiferentes ou talvez não, ao lixo acumulado na linha, nas metades de tonéis que nunca o ambicionaram, mas são agora recipientes onde descansam em paz acalorada várias garrafas de plástico de líquidos que são caras formas de se beber má água.

O átrio da estação está vazio. 

O calor convida a uma estada prolongada num velho banco de madeira. 

A poltrona amarelada olha de soslaio. 

Coitada, não percebe que aquele tecido empoeirado não convida a que alguém, mais ou menos incauto, se sente ali. As horas passam devagar quando olhamos para o relógio, antigo, a olhar com cadência do alto da coluna de madeira. Basta desviarmos o olhar para ele desatar a correr de ponteiro em ponteiro, este tempo atribulado. A vida há muito saiu dali. 

Os azulejos que ornamentam o edifício escorrem saudade. 

Acaricio a face de alguns dos trabalhadores e trabalhadoras retratados. 

Algumas aves fizeram o favor de ornamentar os azulejos, mas isso não me inibe de afagar o dorso de um touro, calculo que esteja cansado, mas afinal parece ser apenas solidão. É normal. 

Outrora vibrante, a estação resume-se a um só funcionário, escondido numa redoma, rodeado de um ecrã, teclas, papeis, códigos QR. 

Longe vai o tempo de o senhor com o balde e a pinça de metal na mão, a apanhar o pouco lixo que existia. Agora tudo parece ter lixo, restolhos mal cheirosos. 

Até as pessoas mudaram, outrora pessoas bem cheirosas, em corpos mal cheirosos, agora pessoas mal cheirosas, em corpos bem cheirosos.

Tudo muda. 

Até o silêncio, que parece ter descido sobre vários apeadeiros, despindo-os de telhados, partido vidraças, apodrecido vigas de madeira em profunda raiva pelo que de mal nós lhe fizemos. 

De que vale o silêncio se ninguém o escuta? 

Vou percorrendo o caminho com o olhar no trilho, claqueio mentalmente o som das rodas sobre os carris. Dói, não sei bem o quê e por isso tão difícil se torna diagnosticar, mas dói sempre e cada vez mais ao observar o abandono de tudo o que foi. 

Acredito que as memórias perduram e resistem abandonadas apenas para que possamos sentir que, de facto, quando ao futuro chegarmos vermos que o que deixamos abandonado encerra a parte de nós que não deveríamos ter esquecido, o reflexo da nossa face na superfície da vida.

SOMOS UM PAÍS DE CONTRASTES…

LÚCIA LOURENÇO GONÇALVES
E mais uma vez se verificou que, na nossa pequenez geográfica e populacional, somos um país de contrastes.

Vejamos: há cerca de cinquenta anos que Portugal participa no Festival da Eurovisão, sendo que nos últimos anos devido aos critérios de seleção, ficamos excluídos algumas vezes. Este ano Portugal,com uma canção de uma singeleza e doçura emocionantes chegou, encantou e venceu!

Admito, os meus tempos de esperar ansiosamente pelo Festival da Canção, já ficou bem lá atrás, de forma que nos últimos anos tem-me passado completamente ao lado. Por norma não aprecio o tipo de música nem todo o aparato que se gera à sua volta, muito menos verificar que nem sempre a melhor canção tem sido a vencedora, mostrando que por “de trás do pano” existe um jogo de interesses.

Este ano os irmãos Sobral fizeram a diferença… em tudo! Música com sentimento dentro, postura de uma simplicidade tocante, nenhum efeito especial a não ser a música, pura e simples. Salvador Sobral apenas com a sua voz, um jovem interprete que sempre se apresentou com um sorriso humilde, que a mim tocou profundamente.

Mas aqui chegamos ao contraste! Se não se consegue criticar a música, até porque desde a primeira eliminatória chamou a atenção da Europa, critica-se o seu intérprete! Foram as roupas, o cabelo, os tiques, a própria voz, enfim… Oh gente de Portugal definam-se, mas principalmente humanizem-se!

Mais importante que a “embalagem” é o interior das pessoas, e essa esteve bem patente na humildade que Salvador sempre apresentou. No sorriso genuíno, no olhar direto, na simpatia e simplicidade das palavras, presente em todas as vezes que se dirigiu ao público.

Isso sim é importante! O resto? O resto, muitas das vezes não passam de meros pormenores…E o caso de Salvador Sobral não é exceção. A imagem nem sempre é importante, principalmente quando por detrás da mesma, estão pessoas e causas para se apresentarem de uma determinada maneira!

Por trás de uma imagem, existe uma pessoa, é esse o pormenor importante. E neste caso concreto, esta pessoa levou Portugal a, pela primeira vez em cerca de cinquenta anos, sermos vencedores. Parabéns Salvador! Parabéns irmãos Sobral!

PAGAR 100. 000 EUROS POR UM FIAT PUNTO

LUÍS ARAÚJO
Durante a nossa curta existência neste paraíso à beira-mar plantado somos confrontados com serviços maus, serviços péssimos, e lá ao fundo, num buraco negro e escuro retirado no nono nível do Inferno de Dante, com a CP.

Deve ser difícil encontrar um português que nunca tenha, por necessidade, gosto ou num delírio incontrolável de loucura, usufruído dos serviços dos caminhos de ferro portugueses, o que equivale a dizer que não deve haver um português que não se interrogue porque raio é que não se utiliza o dinheiro que o Estado enterra anualmente na CP em atividades muito mais úteis para o cidadão, como comprar óculos escuros para proteger os delicados olhos da cegonhe-branca-oriental, que se encontra ameaçada de extinção, criar uma linha de postes de eletricidade todos pintados de cor-de-rosa que vá de Bragança a Faro, ou comprar uma máquina que permita alisar as ondas do mar.

A CP, não é apenas um sorvedouro de dinheiro do erário público, é um estorvo e um embaraço nacional, cobrindo o país de vergonha de Norte a Sul, sempre com um pontual atraso.

Há bem pouco tempo, num assomo de loucura incontrolado, decidi utilizar o serviço Alfa no trajeto Porto-Lisboa.

Se há um dia em que uma qualquer entidade divina me podia ter agraciado com uma fratura exposta, ou qualquer outra maleita que me afastasse das bilheteiras podia perfeitamente ter sido esse, infelizmente os deuses, com requintes de malvadez que só uma entidade divina consegue atingir, permitiram-me que comprasse, não um, mas dois bilhetes, um de ida e outro de volta, o que equivale a cometer-se o mesmissimo erro duas vezes e no mesmo dia.

Analisando as coisas a frio poderei estar a ser um bocadinho injusto com a CP, pois eventualmente não terei tido capacidade para entender o verdadeiro fulcro da atividade de tão vetusta companhia.

De facto, o nome e o detalhe de operarem um serviço de comboios criou-me a falsa expectativa de que fosse uma empresa de transportes, quando na realidade se trata claramente de uma companhia recreativa, de entretenimento, com a superior missão de fazer sorrir a nação.

A minha viagem começou em Campanhã, estação onde se encontra em todo o lado uma indicação para uma saída provisória existente nas traseiras da estação.

Poder-se-ia pensar que esta indicação seria garatujada numas folhas mal amanhadas, mas não, a saída é tão provisória que se encontra impressa em várias placas, cuidadosamente impressas e numa sinalética igual a todas as outras existentes na estação.

Pessoalmente conheço esta saída “provisória” há mais de 40 anos, o que significa que quem trabalha na CP deve utilizar o mesmo dicionário que o Paulo Portas, onde “provisória” e “irrevogável” aparecem lado a lado.

Ainda a sorrir com esta assincronia da realidade sou confrontado com os horários, e aqui é que reside o grande sentido de humor da CP, pois nos seus 160 anos de existência não devem ter sequer existido 160 comboios que tenham cumprido o horário, no entanto continuam a disponibilizá-los aos utentes.

O horário na CP tem a mesma utilidade que um preservativo na mão de um eunuco, serve apenas para divertir, neste caso os utentes, que agastados com a cansativa viagem que vão fazer, muito agradados ficam com tal sentido de humor.

O mesmo sentido de humor que se manifesta também para o interior, onde as carruagens mal tratadas, com bancos danificados, portas que não fecham, WC’s entupidos, janelas avariadas coexistem com funcionários que nem sequer sabem em que estações aquela composição vai efectuar paragens e isto tudo para falar só na viagem de ida, o que cria expectativas surreais para a viagem de volta.

E porque viajam a s pessoas na CP? Porque são elitistas, porque gostam de se exibir e porque têm francamente dinheiro a mais para esbanjar na cara do vizinho.

Qualquer pessoa normal utiliza o avião para se deslocar para Lisboa, pois fica mais barato e é mais rápido, ou o transporte rodoviário, pois custa o mesmo que o avião e demora o mesmo tempo que o comboio, o utilizador da CP faz questão de que toda a gente saiba que, além de ter disnheiro para esbanjar tem um refinado sentido de humor, pois pagou o dobro do dinheiro por um serviço mais lento e bastante inferior, assim uma coisa do tipo de se pagar €100 000 por um Fiat Punto.

O MEDO DO COMPROMISSO

CARLA SOUSA
QUANDO ELES E ELAS FOGEM….

Nós, mulheres, recebemos da sociedade o ditado: “uma mulher com muitos homens é feio”, já aos homens era-lhes dito: “aproveita a vida e não te prendas”, “quantas mais melhor”.

Às mulheres dizia-se que deviam ir virgens até ao casamento e aos homens incentivava-se a “aproveitar” antes de casar já que “a boa vida ia acabar”.

Ora, isto é um enorme contrassenso já que se acaba por rotular homens e mulheres e, retirar-lhes a individualidade, poder de escolha, de decisão e a oportunidade de viver livremente a vida afetiva. 

Independentemente das diferenças de género, hoje em dia, ouvimos falar cada vez mais de casais que não foram capazes de manter a sua relação porque um deles não estaria preparado para uma “relação séria”, um compromisso.

O nome compromisso, por si só, pode assustar algumas pessoas… Pois pensam que vão ficar “presas a algo ou alguém”, vão ter de pedir autorização para isto ou para aquilo, dar satisfações, perder a liberdade, sentir controlo.

Por um lado, a pessoa ambiciona encontrar a sua “alma gémea”, “a pessoa especial”, para formar a família com que sonhou mas, por outro lado, sente um medo avassalador de perder a independência.

Mas, uma relação com compromisso não é ficar preso, atado, dependente ou perder a autonomia.

Uma relação com compromisso é partilhar, ouvir, comunicar, saber amar e ser a amado. É partilhar deveres, compromissos, decisões. É viver acompanhado, é ser feliz mesmo passando por momentos de angústia, tristeza e discussões. É fazer as pazes, é respeitar mesmo quando se discute, é pedir desculpa, é saber ouvir, é ter e sentir intimidade.

Há quem queira casar, ter filhos e família, ter uma relação estável, mas não esteja preparado para assumir um compromisso e uma relação intima. 

Se não houver a capacidade de estar lá para os “dramas”, “as coisas boas”, “as coisas más”, as conversas mais profundas… A relação não é profunda, as pessoas não conseguem sentir-se verdadeiramente felizes. 

Hoje em dia vemos cada vez mais pessoas que ficam completamente desconfortáveis quando têm de partilhar isto tudo. E, por isso fogem, ou “fartam-se”, pois não sabem o que é a intimidade e a sua importância numa relação.

A intimidade é extremamente importante. É importante ser capaz de estar “lá” para o outro.

Há quem pense que quem não demonstra medo do compromisso é aquele que é capaz de assumir a relação à família e amigos. Mas engana-se… Pois, ter uma relação de compromisso implica que as pessoas estejam disponíveis para ter uma relação franca, aberta, disponível, de respeito, sem conhecerem antecipadamente os resultados. Trata-se de um investimento na felicidade, no dar-se e mostrar-se ao outro sem medos. 

Hoje em dia existem também muitos casais que partilham um casamento, uma união de facto, uma casa, uma família, alguns projetos mas não são felizes. Estão estáveis mas não são íntimos.

Deve-se conseguir encontrar um equilíbrio emocional, ao nível da intimidade, da partilha, de paixão, afeto e amor. Só assim será possível sentir-se feliz, encontrar a sua cara-metade, a pessoa especial. 


sábado, 20 de maio de 2017

ENTRE PARADOXOS E DESAFIOS

AIDA CARVALHO
Esta semana foram muitos os tablóides que noticiaram a posição cimeira de adolescentes obesos, em Portugal, segundo a Organização Mundial de Saúde.  Por isso, no Dia Nacional de Luta Contra a Obesidade, um imperativo se impõe: “ somos o que comemos”. Mas, o que comem os portugueses? Distinguem as declarações nutricionais e/ou a composição dos alimentos? fazem escolhas conscientes?
Os estudos indicam que um em cada dez rapazes de onze anos é obeso; estes números são alarmantes para um país que tem como bandeira nacional a Dieta Mediterrânea, inscrita na lista do Património Imaterial da Humanidade, desde o ano 2013. Se a Dieta é bandeira, há comportamentos gritantes: sedentarismo e má alimentação. Assistimos ao aumento de consumo de alimentos que têm na sua composição produtos artificiais, como corantes, excesso de sal, gorduras saturas e açúcares, os designados produtos processados. Precisamos, por isso, de mais e melhor informação. Mas nem tudo é mau.
Gradualmente,  testemunhamos a valorização das novas práticas agrícolas, sem aditivos e fertilizantes químicos – a designada agricultura biológica, e, consequentemente, ao surgimento de lojas de produtos “ bio”. Há uma maior consciencialização e um (res)surgimento de novos modos de produção, produzindo alimentos e fibras têxteis de elevada qualidade, promovendo práticas sustentáveis e de impacto positivo no ambiente, adequando os métodos preventivos e culturais, tais como as rotações, a compostagem, as consociações e a instalação de sebes vivas, entre outros, fomentando a melhoria da fertilidade do solo e a biodiversidade e, concomitantemente, aumento da qualidade de vida das populações.
Com esta mudança de paradigma, operam-se novos valores e outras abordagens também em relação ao uso de cosmética  - a cosmética biológica. A relação é simples. Os macronutrientes, ou seja, as proteínas, as gorduras e os hidratos de carbono, são a forma como o nosso corpo se alimenta e, claro, também a nossa pele. Muito do que acontece no nosso corpo reflete-se na pele, pois, “ somos o que comemos”!

A PEDRA É COMO A EDUCAÇÃO

ANTÓNIO FERNANDES
A pedra é como a educação. Também se trabalha.

Há por aí uma nova forma de esculpir a "pedra" em que parte da massa cerebral se transformou independentemente da escolaridade, idade, ascendência social, exercício profissional, ou outro.

O meu avô, mestre pedreiro, de nome Manuel Fernandes, já falecido, que esculpiu parte da estatuária existente no Bom Jesus do Monte, cedo se habituou a lavrar com cinzel pedaços de granito com a dimensão ajustada ao artefacto pretendido.

Outros tempos. Tempos em que a educação ministrada pelo regime só estava ao alcance de alguns, por isso, a liberdade e criatividade do pensamento intelectual era autodidata.

Com os novos tempos, a formatação do intelecto progrediu no sentido do conhecimento, mas regrediu naquilo que são os valores Humanos.

Importa por isso fazer ato de contrição e perceber o que se passou no ensino nas ultimas quatro décadas. Porque os exemplos com que nos defrontamos são maus de mais para que se conclua com ligeireza única e exclusivamente responsabilidade politica sabendo nós que os políticos que temos são um produto resultado.

A classe docente que emergiu de um processo com necessidades especificas ao tempo não se preocupou o suficiente com a excelência que a sua responsabilidade inerente obrigava e, quatro décadas depois, os resultados estão aí: - Falta de autoestima; - Falta de referencias; - Falta de confiança; - Falta de iniciativa; - Falta de vontade; - Falta de soluções; - Falta de capacidade de autocritica; - Falta de capacidade em assumir os erros cometidos;

Num vasto leque de limitação autónoma conhecida. Formou-se um "exército" de técnicos servis em qualquer parte do globo. O que não se foi capaz de formar foi uma geração de Homens genuínos preparados para enfrentar, corrigir e resolver vicissitudes surgidas com a alteração de hábitos, usos e costumes, em função da nova realidade implícita à exploração e transformação dos bens essenciais à vida.

A realidade é outra. As necessidades são outras. A organização social é outra. Esta perceção por parte do poder oculto afeto à direita mais conservadora faz com que se mova em defesa do ensino privado. E no retrocesso do sistema educativo publico porque o seu controlo é impossível. Depende sempre da competência, conhecimento e capacidade dos seus profissionais. Não se trata de quem financia. Do que se trata é de que o que pretendem é travar o acesso ao conhecimento porque a cultura já a condicionaram financeira e socialmente há séculos!

UMA NOVA PERSPECTIVA NA PRÁTICA MÉDICA

ANTONIETA DIAS
A Ciência é uma obra construída pelos homens. É única, é suprema, é a história da investigação. 

Retornar aos tempos históricos, de que forma? Um retrocesso na prestação dos cuidados médicos em Portugal poderá ser uma meta a atingir para recuperar a economia.

Se pensarmos que o processo histórico da medicina se iniciou no período paleolítico, data marcada pela emergência da cultura, entenderemos rapidamente que a situação que é proposta para o sector da saúde é inaceitável.

Recordando um pouco da história, constatamos que foi na época do Paleolítico, em que a paleopatologia (estudo das enfermidades que podem ser demonstradas em restos humanos procedentes de épocas remotas), iniciou o registo de doença e de tratamento destas doenças (medicina primitiva pré-histórica), com a trepanação craniana.

Existem ainda, documentos da Mesopotâmia e do Egipto, registos da evolução da medicina arcaica, baseada na magia e no empirismo.

Todavia, a medicina como ciência, baseada na interpretação natural da doença surgiu apenas no século V a.C com Hipócrates (c. 460-375 a.C).

Pela sua importância e relevo, a medicina despertou a atenção do próprio Heródoto e de Hipócrates, sendo pois, a história da medicina a reconstituição do passado da ciência médica. É tão antiga quanto as artes de Asclépio, Deus da Medicina, e de Clio, musa da História. As suas origens remontam ao século de Péricles (século Va.C).

Consta numa das obras científicas do período pré-socrático “na arte médica é fundamental o princípio de que as conquistas, que constituem o património passado, devem servir de base às investigações do presente.”

É Hipócrates que critica o racionalismo a priori, propõe seu método e traça a origem e evolução da medicina.

A crítica é dirigida contra aqueles que, partindo inicialmente de uma hipótese, derivam dela uma causa única para todas as doenças.

Da mesma forma que os filósofos pré-socráticos procuravam explicar a diversidade do mundo através de reduzidos elementos conhecidos, também alguns médicos do século V a.C procuraram fundar a arte da medicina sobre um ou dois princípios.

Ainda no tempo de Hipócrates surgiu o desenvolvimento da culinária adaptada aos diferentes tipos de doença, em que a medicina primitiva seria, uma espécie de culinária personalizada.

Se pensarmos em Darwin na Origem das Espécies: “a herança é a lei”, não podemos fazer tábua rasa do conhecimento científico que tem sido adquirido ao longo de todos estes anos de investigação médica.

Se recordarmos o século XIX, em que a medicina antiga e a prática médica se baseia na ligação e união dos conhecimentos médicos à filosofia, à ciência e à técnica.

Porém, não nos podemos esquecer de que a medicina baseada nas ciências naturais era uma prática da ciência moderna no século XVII.

Importa, referir que na era actual a medicina baseada em evidências é inquestionável, pois as boas práticas exigem que todo o acto médico se sustenta na aplicação do método científico (evidências, significam provas científicas).

A medicina baseada em evidências adopta as técnicas oriundas da ciência, da estatística e da engenharia em que as meta-revisões (conhecidas como meta-análises), análises de risco benefício, ensaios clínicos aleatorizados e controlados, etc. etc..

É através deste conhecimento que os médicos fazem “uso consciencioso, explícito e judicioso da melhor evidência actual” quando fazem o raciocínio médico destinado ao tratamento individualizado dos doentes.

Em suma, a medicina baseada em evidências, é a aplicação de um método estatístico adequado aos resultados de incidência de doenças.

Nenhum médico poderá ter um procedimento adequado na sua prática clínica, que não seja fundamentado em estudos científicos.

Eis que surge agora um método inovador e revolucionário para praticar uma medicina que exclui a medicina baseada em evidências e propõe uma solução única, isto é um novo método personalizado, adaptado à dívida existente em Portugal.

Porém, em pleno século XXI assistimos a uma revolução na prestação dos cuidados de saúde, que irá resolver de forma simples a dita insustentabilidade do SNS, mas não contribuirá certamente para a resolução das necessidades básicas dos doentes.

Assim, assistimos ao desmoronar da ciência médica, ao banalizar do acto médico, ao transformar a ciência e arte da medicina, numa mera redução dos números e dos custos.

Como profissionais da saúde e defensores dos doentes, não podemos de forma nenhuma ficar serenos perante uma situação desadequada, que pretende apenas resolver a todo o custo e a qualquer preço o problema da saúde e do orçamento do Estado português.

Nenhum de nós imaginaria que em pleno século XXI, alguns hospitais ficariam privados de medicamentos, de meios complementares de diagnósticos, de recursos humanos e financeiros imprescindíveis ao tratamento das doenças.

Constrangedor é verificar que o resultado desta carência resulta de uma gestão política pouco sensível ao sofrimento humano vivenciado pelos doentes ao longo destes últimos anos.

Contudo nenhum País pode ser insensível ao conhecimento científico, nem desincentivar a investigação médica ignorando que é uma prioridade de qualquer País civilizado.

Naturalmente, que apostar neste projecto exige um investimento económico avultado para a sua manutenção, porém o resultado final será a conquista e a obtenção de métodos terapêuticos cuja aplicabilidade se transformará num sucesso para os doentes e para Portugal.

Impensável será admitir que perante um doente que se encontra entre a vida e a morte, em que a decisão clínica tem que ser imediata, pois um minuto de atraso pode determinar a sobrevida do doente o profissional de saúde constata com a falta da matéria-prima (medicamentos, exames complementares de diagnósticos, recursos técnicos e recursos humanos) que o irão impedir de cuidar adequadamente o doente por falta destes recursos.

Apesar da excelente preparação técnico científica dos profissionais da saúde, da história clínica, do exame objectivo, da utilização dos meios pessoais adquiridos pelos profissionais (ex. estetoscópio ou outros) a era da medicina actual não é básica nem pré-histórica.

Desumano e injusto será naturalmente o incumprimento do tratamento por défice de recursos, colocando em perigo de vida o doente.

Será que vai ser esta a nossa realidade? Será que Portugal passará a ser um País onde os doentes serão tratados como números, onde morrer ou viver, passar fome ou não, não é relevante porque o que se exige é apenas reduzir a dívida pública?

Tudo aponta, que iremos retroceder a uma prática da medicina que provavelmente se baseará na magia e no empirismo ainda mais rudimentar que na época do Paleolítico.”

sexta-feira, 19 de maio de 2017

O DIA EM QUE JOÃO PAULO II VISITOU BRAGA

JOAQUIM DA SILVA GOMES
O nosso país vive, por estes dias, momentos de grande emoção religiosa, fruto da visita que o Papa Francisco acabou de efetuar a Portugal, no âmbito do centenário das Aparições de Nossa Senhora de Fátima e da canonização de Francisco e Jacinta. 

Muitos gostariam que Sua Santidade tivesse visitado Braga nesta sua vinda a Portugal, e se o fizesse seria, provavelmente, um momento inesquecível como foi a visita de João Paulo II. Por ter sido tão impressionante a sua vinda a Braga, torna-se oportuno recordar alguns dos principais momentos da sua passagem pela Roma portuguesa. 

A visita de João Paulo II ocorreu num contexto social e político de grande tensão no mundo. Vivia-se ainda a Guerra Fria com grande intensidade e a postura de abertura e tolerância que João Paulo II incutiu no mundo, a partir de Roma, contribuiu para o despertar das liberdades, reprimidas no mundo de Leste. 

Quando no dia 13 de maio de 1981 João Paulo II sofreu um ataque do turco Ali Agca, na Praça de São Pedro, em Roma, entendeu que a sobrevivência a esse atentado ficou a dever-se a uma proteção de Nossa Senhora de Fátima. Nesse sentido, no ano seguinte efetuou uma visita a Portugal de quatro dias, que se iniciou a 12 de maio de 1982. Foi precisamente no último dia dessa visita, um sábado, dia 15, que João Paulo II veio a Braga. Passam agora 35 anos! 

Não é fácil, em tão pouco espaço, recordar uma viagem tão emocionante como foi a de João Paulo II à nossa região. 

O helicóptero seria o meio de transporte que lhe estava destinado de Coimbra para Braga mas, devido ao mau tempo que se verificou, isso não foi possível. Como alternativa, o Papa deslocou-se num comboio especial, composto por cinco carruagens, entre as quais uma em forma de salão, para que o Papa tivesse mais conforto. Para prevenir eventuais atentados, ou atos de sabotagem na linha férrea, seguia à frente desse comboio uma locomotiva a gasóleo, com cerca de vinte minutos de avanço. 

Quando, no Santuário do Sameiro, se soube que o Papa viria de comboio para Braga, milhares de pessoas deslocaram-se para o trajecto que liga a estação dos caminhos de ferro ao Santuário do Sameiro, esperando nos passeios e bermas das estradas para o saudarem entusiasticamente.

Se a viagem tivesse sido realizada em helicóptero, a chegada a Braga de João Paulo II estava prevista para as 11.00 h. e o almoço no Sameiro seria às 13.15 h.. No entanto, o mau tempo alterou este plano inicial e a chegada à estação de Braga só aconteceu às 14.39 h. Aí o esperavam o Arcebispo de Braga e centenas de fiéis. De seguida, João Paulo II entrou num autocarro e seguiu pela rua do Caires, pela Rodovia, e daí até ao Santuário do Sameiro onde foi recebido pelo Governador Civil e pelo Presidente da Câmara Municipal de Braga, que lhe entregou a medalha de ouro da cidade. 

O almoço que estava preparado no Centro Apostólico Paulo VI era composto por caldo verde, vitela assada e ainda o vinho verde, iguarias tradicionais do Minho. A acompanhar este almoço estariam, para além da sua comitiva, muitos Bispos e Sacerdotes portugueses. Contudo, João Paulo II não almoçou nesse local, fazendo-o às 12.30 horas no comboio especial. 

A chegada de João Paulo II ao Santuário do Sameiro ocorreu às 15.16 horas e, antes de sair do autocarro que o transportara, o Papa consultou o relógio para confirmar a hora a que tinha chegado. De seguida, dirigiu-se a pé para a Basílica, numa chuva de pétalas, na maioria brancas, atiradas por uma multidão de fiéis emocionados por estarem a pouca distância do Papa dos Pobres, como era então conhecido. 

De seguida, o Papa João Paulo II percorreu, num jipe aberto, a distância da Basílica do Sameiro até ao altar onde decorreu a eucaristia. Na celebração, o Arcebispo D. Eurico Dias Nogueira referiu-se à história de Braga e da sua Igreja, lembrando ao Papa que neste Santuário é venerada há mais de cem anos a Imaculada Conceição da Santíssima Virgem. 

A cerimónia religiosa realizada no Sameiro, presidida por João Paulo II, foi acompanhada por 3500 elementos integrantes de vários grupos corais da diocese de Braga. O tema da homilia proferida por João Paulo II, e que durou 38 minutos, centrou-se nos valores da família cristã. A celebração eucarística durou 1h e 55 minutos! De referir ainda que a leitura da celebração foi efectuada por Teresa Costa Macedo, Secretária de Estado da Família no Governo liderado por Pinto Balsemão. 

Não havendo certezas quanto ao número de fiéis que se encontravam no Santuário do Sameiro, estima-se que esse tivesse variado entre os 400 e 500 mil! Muitos deles tinham-se deslocado para o Sameiro na sexta-feira, dia 14 de maio, e aguentaram aí toda a noite e dia 15 de maio, ao frio, à chuva e mal alimentados. Centenas foram socorridas, devido a problemas de dores musculares, fadiga extenuante e hipoglicemia. Nos altifalantes do Santuário, os avisos eram permanentes relativos a pessoas desaparecidas, nomeadamente crianças, e ainda furtos que ocorriam com frequência.

O país de origem de João Paulo II, a Polónia, vivia em 1982 uma situação social e económica difícil. Neste contexto, várias instituições de Braga uniram esforços e, no dia em que João Paulo II esteve em Braga, um grupo de crianças bracarenses, vestidas com trajes tradicionais da Polónia, ofereceu a Sua Santidade cerca de 2 200 contos, destinadas às crianças desfavorecidas desse país. 
João Paulo II saiu de Braga às 18.20 horas, num helicóptero, que o transportou ao Porto. Foi aí que proferiu as suas últimas palavras, em solo português: “Disseram-me que em Portugal, nos meios rurais, as portas estão sempre abertas. Eu encontrei abertas as portas dos corações. Fazei de conta que entrei e que cumprimentei cada um de vós…”.