sexta-feira, 21 de julho de 2017

LANÇAMENTO DA BIRD MAGAZINE É NOTÍCIA NO CORREIO DE AMARANTE


«EXCISÃO» VENCE PRÉMIO CARMEN MIRANDA 2017



(CLIQUE NAS IMAGENS PARA AUMENTAR)


AMOR TATUADO DE MORTE

RAUL TOMÉ
Em que te tornaste tu Romeu? Trocaste o cavalo branco por uma besta negra que acelera com dentes de sangue em direção à tua princesa. Tu Romeu que perdeste o romantismo e te alimentas do medo, da humilhação, da frustração, do pavor e do terror alheios! Quem és tu Romeu? Tu que promessas fizeste e agora lavas as mãos com o sangue da tua amada. Que tens os teus cinco minutos de fama mas que só serás recordado como um homem vil. 

Em que te tornaste tu Julieta? Deixaste-te conduzir num cavalo negro como a cor que te dilacera o coração, adiaste as promessas que te fizeram para te tornares na mais miserável escrava no teu próprio reino. Quem és tu Julieta? O teu corpo jaz agora numa capa de jornal, sem brilho, nem fama nem glória. Tu que aguentaste calada quando querias gritar, que ficaste imóvel quando querias quebrar, que te deixaste ficar quando o que mais querias era partir.

Que amor é esse Romeu, que agora levas para a cela putrefacta em que te tornaste? Nunca mais serás recordado nem aplaudido por qualquer plateia!

Que amor foi esse Julieta, que banhaste com o teu próprio sangue já frio como o peso que trazias no peito? Serás recordada mas não mais aplaudida porque dos mortos não reza a história daqueles que ainda vivem!

Volta Shakespeare! Reescreve a história. Não a de Romeu e Julieta que morreram por se amarem demais, mas a história de amor dos homens que só se amaram a si próprios e das mulheres que amaram mais do que a si mesmas.

TANCOS, UMA HISTÓRIA MUITO MAL CONTADA

JOÃO MENDES
Primeiro quiserem convencer-nos que um grupo de pelintras havia entrado num complexo militar por um buraquito na vedação, através do qual fez sair mais de uma tonelada de equipamento, explosivos e munições. A imprensa fez o triste papel a que nos vem habituando nos últimos tempos, validando esta informação, e as redes sociais entraram em ebulição, juntando-se ao coro imbecil que à direita pedia a cabeça do ministro, como se fosse da sua responsabilidade garantir a manutenção dos equipamentos militares. Como se as Forças Armadas não tivessem uma hierarquia e uma estrutura de comando. 

Entretanto, com o regresso faseado do bom senso, algumas pessoas começaram a questionar a exequibilidade de tal façanha, rapidamente se percebendo que a verdade absoluta veiculada era na verdade um completo absurdo. Um grupo de bandidos, por muito bem treinados e preparados que estejam, não entram num quartel vigiado por um buraco na rede, deslocam-se da vedação ao paiol, assaltam o paiol, regressam ao buraco na rede e despacham centenas de quilos de material bélico pelo buraco, onde posteriormente, e uma vez no exterior da vedação, o carregariam num qualquer transporte preparado para fugir da cena do crime, tipo filme de gangsters. 

Eu não estive lá para ver, mas sou pouco dado a fantasias. A história do buraco na vedação é um barrete muito mal-amanhado que só enfiou quem quis. Entre as várias hipóteses já aventadas por aqueles que reflectiram sobre o assunto, entre os quais antigos militares e outras personalidades ligadas directa ou indirectamente ao Exército, existem duas que me convencem, por serem ambas perfeitamente exequíveis. A primeira é a teoria do inside job, que nos diz que os assaltantes tiveram ajuda no interior do quartel, com os cúmplices a abrir os portões, a deixar passar um camião capaz de transportar a significativa quantidade de material roubado, a abrir o paiol e, quiçá, a ajudar a carregar o material para acelerar o processo. 

A segunda hipótese é a teoria do acerto de inventário, que nos diz que, durante anos, pequenas quantidades de material foram sendo subtraídas do paiol, até que, anos mais tarde, um responsável pelos processos logísticos em Tancos decidiu fazer um inventário. Com o resultado a demonstrar um desvio significativo entre o stock informático e o stock real, a conclusão (ou a solução encontrada para uma lavagem colectiva de mãos) foi anunciar ao país a ocorrência de um assalto. Apesar de, a meu ver, menos provável que a hipótese anterior, não me parece uma alternativa de todo descabida, principalmente se considerarmos o grau de desleixo que o caso revelou sobre o quartel de Tancos, com buracos na vedação e um sistema de videovigilância inoperante. 

One way or another, alguém roubou material militar de um importante quartel português com uma facilidade assustadora. Acresce a isto que, num país onde nunca falta dinheiro para renovar luxuosas frotas ministeriais, pagar ajudas de custo principescas e fazer ajustes directos corruptos em dezenas de autárquicas governadas por caciques mafiosos, não parece haver meia-dúzia de milhares de euros para garantir algo tão básico como um sistema de videovigilância, apesar de se gastarem milhões de euros em contrapartidas e negociatas que gravitam em torno das grandes aquisições de equipamento militar que vão sendo feitas, como é o caso dos submarinos, repleto de luvas, corruptos e canalhas que deveriam estar presos. Apesar da importância vital de manter seguro o equipamento militar que, nas mãos erradas, poderá colocar em causa a segurança nacional. O mal está feito, mas a história está mal contada. Que não se perca no esquecimento.

O ESTABELECIMENTO DA FILIAÇÃO

“O registo civil é obrigatório e tem por objecto os seguintes factos: o nascimento.” – artigo 1.º n.º 1 – a) do código do registo civil.


ANA LEITE
O estabelecido neste artigo significa que o nascimento é um facto jurídico autónomo, independente de qualquer outro facto jurídico, assim mesmo que não seja possível estabelecer a filiação, o nascimento é um facto obrigatoriamente sujeito a registo. O direito de filiação abrange tanto a filiação biológica como a filiação jurídica – que pode ou não coincidir.

Porém, vamos agora focar-nos na filiação biológica. A maternidade resulta do nascimento, do parto (sem prejuízo da Lei da Procriação Medicamente Assistida). Não havendo indicação ou declaração da maternidade é possível declarar a mesma por sentença, através de uma ação judicial.

No que toca à paternidade, de acordo com o artigo 1796.º /2 CC, esta presume-se em relação ao marido da mãe. Nos casos de filiação fora do casamento, a paternidade estabelece-se por reconhecimento (seja este voluntário ou judicial). A presunção da paternidade para os filhos nascidos (ou concebidos) na constância do casamento pode cessar ou ser impugnada.

A presunção prevista no artigo 1826.º CC, aplica-se exclusivamente a mães casadas. O artigo 1871.º consagra presunções quanto à paternidade do filho de mãe não casada (porém, não constitui modos de estabelecer a paternidade).

Compreende-se, em razão do interesse da criança, que se presume pai o marido da mãe. Tendo sido ultimamente discutida a ideia de estender a presunção da paternidade ao homem que viva em condições análogas à dos cônjuges com a mãe.

O reconhecimento do filho nascido fora do casamento será então efetuado por perfilhação – e depende da vontade do pai em assumir a paternidade - ou reconhecimento judicial – através de uma ação de investigação (artigo 1847.ºCC).

No âmbito de uma ação judicial de investigação (de maternidade ou paternidade), pode o autor comprovar a sua ligação biológica ou tentar beneficiar de uma presunção de paternidade, previstas no artigo 1871.º CC.

Do exposto, resulta uma questão muito pertinente: poderá o possível pai recusar-se a participar nos testes /meios científicos de prova. O CPC consagra o princípio da cooperação. A falta de cooperação obriga o juiz a tirar desse facto consequências. Como tal a jurisprudência e a doutrina defende a possibilidade de inversão do ónus de prova e possibilidade de condenação em multa pela não comparência na realização dos testes científicos.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

DO AMOR QUE DAMOS SÓ O AMOR HERDAMOS

RAQUEL EVANGELINA
Há cerca de dois meses apadrinhei uma criança órfã moçambicana através de uma organização não-governamental portuguesa. O meu apadrinhamento, uma quantia financeira mensal, permitirá à criança ter direito a cuidados de saúde e a uma educação. Comprometi-me a ajudar desde o 1º ano até ao 12º ano de escolaridade. Era algo que queria fazer já há algum tempo mas estava suspenso, não por má vontade mas, porque queria mais estabilidade financeira. Decidi então que se estivesse à espera de estabilidade ou de um aumento salarial continuaria a adiar. Era este o momento. As pessoas que me conhecem bem apoiaram-me, algumas disseram que admiravam a coragem de me comprometer e nenhuma delas questionou a minha decisão. Mas há sempre outras pessoas. Aquelas que não compreendem o porquê. E depois fazem-me perguntas do género: “Achas que esse dinheiro chega mesmo lá?”, “Já fizeste contas ao fim de 12 anos de quanto dinheiro vais gastar com uma criança que podes até nunca conhecer pessoalmente?”, “Não havia cá pessoas próximas de ti para ajudar?” ou então “É tudo muito bonito mas e se precisares de um momento para o outro do dinheiro?”. O dinheiro chega lá e vão mandando fotos da criança a mostrar que adquiriram mais isto ou aquilo com a minha “mesada”. Posso conhecer a criança pessoalmente, se me quiser deslocar a Moçambique, a ONG trata de organizar a visita. Agora não mas acho que em 12 anos haverá uma altura em que conseguirei. Também já fiz as contas. É uma quantia considerável no total. Dividida por 12 anos e subdividida por 12 meses aposto que muitos dos que me perguntam sobre contas gastam muito mais com um par de calças. Também sei que há pessoas a precisar de ajuda cá. Não preciso que estejam sempre a lembrar-me disso. Mas apoiei uma causa com a qual me identifico. De certeza que outras pessoas se identificarão mais com causas mais próximas. Eventualmente poderei precisar do dinheiro no futuro mas não será este que me fará falta, será aquele que foi mal gasto com roupa que já não uso ou coisas que nem nunca sequer precisei. Tive uma infância feliz. A minha família não é abastada mas nunca passei fome. Tenho um pai e uma mãe que, feitios e defeitos à parte, sempre me apoiaram nas decisões e sempre foram honestos quando não concordavam com algo. Tive direito a brincar. Tive direito a sonhar que poderia ser o que quisesse no futuro. Tive direito à educação para poder chegar ou pelo menos aproximar-me desse sonho. Tive acesso a cuidados de saúde. É tão banal para nós termos isto que nem nos damos conta da sorte que temos. A minha afilhada não tem pai. Sonha ser professora. Entrou para a escola. Se não for professora pelo menos será alguma coisa. Poderá no futuro cuidar da avó e mãe, iletradas, que agora cuidam dela. Terá agora um maior cuidado a nível de higiene o que também ajudará a não necessitar tanto de cuidados de saúde. Estou feliz porque no fundo acho que com uma pequena contribuição estou a ajudar alguém a viver melhor. Acham mesmo que o valor mensal que me tiram paga isso? Nada no Mundo paga a sensação de saber que alguém está melhor graças a nós. “Do amor que damos só o amor herdamos” é uma frase conhecida que me diz muito. Este meu amor vai em forma monetária todos os meses para uma criança que só vejo em fotografias. Mas que a cada fotografia nova que me mandam está cada vez mais e mais sorridente. E esse sorriso é o maior agradecimento que posso ter.

LADRÃO ADORMECE A ASSALTAR ESCRITÓRIO DE ADVOGADOS

PALMIRA CRISTINA MENDES
Em jeito de ferias, apetece me contar a “real anedota”.

Certo dia, um ladrão entrou de madrugada num escritório de advogados de Coimbra e fez a recolha dos bens que queria roubar. Mas cumprida a árdua tarefa, deu-lhe o sono e decidiu passar pelas brasas no conforto da sala de reuniões do escritório. Aconchegado a uma toga de advogado, deixou-se cair tão profundamente nos braços de Morfeu que já era meio-dia quando um advogado o encontrou, ainda deitado.

Pouco depois do sobressaltado acordar, o assaltante, de 23 anos, era detido pela PSP de Coimbra.

O jovem ainda sem cadastro, confessou que seriam umas três horas da madrugada quando entrou no escritório de advogados. Porém a vizinhança da zona fina da cidade de Coimbra diz que não, que já seriam umas cinco horas quando ouviu um barulho estranho, presume-se provocado pelo arrombamento de uma porta. Era porta das traseiras do edifício e dá para uma varanda. O assaltante terá escalado até ali com a ajuda de um cano de água pluviais . Arrombada a porta que não tem alarme, tratou de recolher os bens que lhe interessavam. E que teria dificuldade de levar de uma só vez sozinho: três pinturas de Noronha da Costa, um televisor, vários relógios, dois anéis, um isqueiro e uma máquina fotográfica. Foi tudo avaliado em E74.000 euros.

Depois da colecta feita em várias divisões do edifício, o assaltante ter-se-á sentido cansado e acomodou-se na sala de reuniões do escritório. Pegou num casaco que estava pendurado num cabide, dobrou-o e fez dele almofada. Uma toga ter-lhe-á servido para se proteger da aragem que porventura entraria pela varanda. Tudo lhe correria bem se um advogado do escritório tivesse decidido passar o domingo em descanso. Mas como contou um colega dele, o jurista foi ao escritório, seriam 12 horas, buscar uns documentos de trabalho. Mal entrou, viu tudo remexido e, já na sala de reuniões, deparou-se com o assaltante deitado adormecido no chão. Obviamente que o final não foi Feliz!!

BEBÉ ESPECIAL

ELISABETE SALRETA
O que significa ter um bebé especial?

É cuidarmos de alguém que na sua limitação dá-nos muito mais do que lhe damos a ela. É um amor sem barreiras, sem vergonhas e cheio e orgulho pela diferença, porque essa desigualdade é rica e traz um mundo ao nosso mundo.

Mia, um amor tão grande na adversidade.

Não sei o que lhe aconteceu, mas sei o que poderia ter acontecido sem a minha intervenção. E sem o saber, eu ficava mais pobre. Tenho uma outra riqueza que me custou tanto aceitar e admitir. Hoje sei que ensinou-me tanto sobre a entrega e o amor, que não sei como algo tão simples tinha-me escapado antes. Óscar. Hoje cuido e sou abençoada por dois bebés especiais.

Mia Chegou até mim numa situação limite. Numa semana mostrou ser o gatinho que era, com as suas limitações. Ou que tentava ser. Não sabe o que é brincar, mas quando lhe fazemos cócegas na barriguita que já se começa a notar, agarra a nossa mão e lambe os dedos, morde ao mesmo tempo, sem saber o que fazer. Brinca com o Óscar, mas até ele tem medo de magoa-la com os seus 7 kilos. Ela toca-lhe nas patas e ele devolve-lhe o toque. Depois ele tenta agarra-la para a lamber, e ela deita-se de barriga para cima, confiante nesta sua nova família. Esta semana brindou-me com um fsssst simpático e umas quantas rosnadelas. Só o faz a mim. Mas sou eu quem lhe dá a medicação e trata das orelhas, não admira.

Mia é cega. Por isso não brinca, não corre atrás de uma bola, não morde a cauda dos outros gatos, nem sobe o sofá. Não amarinha pelas nossas pernas acima, mas abana o rabinho e salta para um destino imaginário. Mia não mia como os outros gatos fazem aos humanos, faz apenas um som característico como fazem entre eles, os gatos. Ela não sabe que a família dela é diferente, mas sente-se bem, protegida. Nada mais importa. Mia não faz buraquinho na areia. Não é caracteristicamente um gato. Não teve tempo de aprender a ser um, mas é um bebé que sabe quem cuida dela, pois vem até nós e encosta-se aos nossos pés, como um filhote procura o colo da mãe. Sofre de stress, pois caminha sem parar, sem destino, pela casa, caindo de sono no primeiro tapete que encontra. Come até não poder mais, mas aprecia mais carne, peixe, ovo, do que a ração. Isso só quando o prato dela está vazio.

Apesar de tanto sofrimento, entregou-se de corpo e alma a nós. Confia. Prenda-nos com as suas lambidelas e alguns ronrons. Não tem um grama de hostilidade. Admiro-a quando se entrega a um sono profundo e por momentos, por alguns minutos apenas, é um gato bebé.

Mas afinal quando acorda, é o meu bebé especial.

CORRIDA PORTUCALE 2017

"Há lendas e factos que tentam explicar a origem do nome. Portugal, Porto, Gaia ou até Galiza são nomes que radicam em Cale. Várias são as teorias relativas à origem do nome, ao qual foi associado o Portus latino de significado entendível pela presença do porto natural no rio Douro. No ano 74 terá sido tomado por Perpena, lugar-tenente de Sertório, chefe dos lusitanos. No domínio romano, seria o primeiro povoado na grande circunscrição que o Douro separava da Lusitânia, que daí tomou o nome para Callaecia, de que veio a resultar Galiza. A primeira referência documental a “Portucale” surge no século V. Também dali tomou nome o Condado Portucalense, do qual veio a nascer Portugal. Facto é que se trata da melhor forma de designar algo, mesmo no século XXI, relacionado com duas cidades que se continuam a complementar." por A Direção do Centro de Atletismo do Porto

ELISABETE RIBEIRO
.. E assim nasceu a ideia de unir as duas cidades numa corrida representativa recheada de simbolismo e história. 
Esta foi a minha segunda participação nesta prova. Na edição anterior fiquei fã do percurso, do ambiente e da organização. Tive de regressar, apesar do seu adiamento. Quem corre sabe que, quando apanhamos boa boleia para correr, não se muda. Depois da experiência da Douro Run, voltei a "massacrar" o Cabral para a boleia na Portucale. Depois de vários requerimentos, emails, cartas registadas e mais umas centenas de pedidos... ele lá cedeu e aceitou ( estou a brincar, não fiz nenhuma carta registada... mas o resto mantém-se!)

O calor já apertava às 9h da manhã. Não iriam ser 15 kms muito fáceis. Mas vá, eram só 15! 
Sabem do que eu gosto mesmo nestes eventos? É do circular entre os atletas e encontrar rostos conhecidos mas com quem nunca falámos. Conhecidos porque há um elo comum. Depois há os rostos conhecidos e com quem já falamos e nos juntámos para a fotografia. Há também aqueles atletas a quem, na conversa se pede para rebocar (Luís Miguel Silva), em caso de necessidade...
De repente olhámos e vimos, algures, amigos que fizeram questão de ir assistir à partida, apenas e só porque a amizade impera. 

Começou a corrida! Calor do bom até ao retorno do Freixo. 

Mas, pelo caminho, fomos ouvindo vozes de incentivo, ora no público ora no pelotão. Aqui, o Manuel Silva e a esposa ladearam-me para um afável cumprimento e ânimo. Evitei falar muito pois o calor era imenso. Mas é uma missão quase impossível, quando o ambiente é tão agradável à nossa volta. Quando chegámos à Ribeira perdi-me completamente. Viram a camisola de Amarante e comentavam. Simpática e educada como sou tinha de responder. Depois eram as objetivas que me chamavam e... "sai um pulo dos lados de S. Gonçalo, se faz favor!". Mais à frente surge o Vitor Dias, e lá fica a miúda a querer levantar voo. Com tanta adrenalina e energia despendida, nem dei pelo balanço da Ponte D. Luís quando lá passei. Demorei cerca de 500m a recuperar. Em direção à Afurada sentimos o vento e uma aragem mais fresca que auxiliou na restituição de um ritmo mais equilibrado. Ouvi o Leandro Ramos a chamar por mim e a motivar... soube tão bem!!! Retorno da Afurada! A partir dali fomos certinhos até à meta. Coincidência ou não, a quem pedi para me rebocar, no inicio da prova, acabou mesmo por fazê-lo no último km. Bem lhe disse para seguir e aplaudir-me na meta, mas a resposta foi " Não, é para terminar todos juntos!". Seguimos a sua passada e os últimos metros foram fabulosos. Uma entreajuda fantástica e uma cumplicidade inigualável. O Cabral cedeu-me a passagem para ficar o registo do pinote na meta.

Prova terminada e uma excelente sensação de objetivo cumprido. (Sim, porque aqui o objetivo era terminar!). Aquela sensação de satisfação que nos preenche e nos faz esquecer as possíveis dificuldades que pudéssemos sentir ao logo da empreitada. Sorrisos abertos, abraços sinceros e um coração feliz. Com mais esta experiência tenho mais consistente a ideia que as provas têm de ser usufruídas, vividas na sua dimensão de "correr por prazer". Os tempos são para os profissionais e para os atletas que se querem superar e mostrar o resultado do trabalho realizado para o efeito. Eu gosto de correr, mas também gosto de me divertir. O relógio deixou de ser um acessório essencial e passou a ser um acessório de mero registo. Correr, divertir, sorrir, conviver e... ser feliz!


Ao CAP Centro de Atletismo do Porto e à EventSport quero endereçar os mais sinceros parabéns pela excelente organização com muita simpatia à mistura. 

Não posso terminar sem deixar um especial agradecimento a todos os fotógrafos presentes neste evento. Sois os verdadeiros autores da história de cada atleta. Se não fosse o vosso registo fotográfico tudo não passaria de uma narrativa contada. Convosco a corrida tem mais vida! 

A todos que me motivaram, cumprimentaram, chamaram e acarinharam, um infindável obrigada.

A ti, António Cabral, muito obrigada pela companhia. Correr assim fica mais fácil.

Corrida Portucale, sou feliz a correr aqui!

terça-feira, 18 de julho de 2017

ANOMALIA

REGINA SARDOEIRA
Fui ao dicionário procurar o significado e a origem do termo anomalia. Eis o que encontrei:

"anomalia 
a.no.ma.li.aɐnumɐˈliɐ, ɐnɔmɐˈliɐ
nome feminino
1. carácter ou estado de anómalo
2. irregularidade
3. BIOLOGIA desvio do tipo normal; anormalidade
4. excepção à regra; singularidade
Do grego anomalía, «desigualdade», pelo latim anomalĭa-, «irregularidade», pelo francês anomalie, «idem»"


Fiquei satisfeita com esta busca, visto ela corresponder ao sentido que sempre dei à palavra. E, como o domínio linguístico é um dos que mais me apraz, quer para pesquisa, quer para utilização, decidi tratar uma vez mais do "mundo misterioso das palavras" . 
Dizer que determinada situação é uma anomalia classifica-a, desde logo, como irregular, em desvio do normal, excepção à regra, ou desigual. E todos estes aspectos são relevantes em função de quê? Daquilo que é normal logo, de acordo com a norma, do que está estabelecido, quer pela natureza, quer pela sociedade, quer por ambas. 

É anómalo, por exemplo, um dia de extremo frio em pleno verão, ainda que uma investigação meteorológica possa analisar o facto e esclarecê -lo; é anómalo nascerem gémeos siameses unidos, por exemplo, pela cabeça; é anómalo, ainda, um homem vestir-se de saia ou vestido, por norma, como é anómalo uma mulher ter barba. E no entanto, tais factos ocorrem e logo estabelecemos padrões (necessitamos deles) e se, durante o verão, começam a surgir demasiados dias frios, ou se os gémeos siameses se vulgarizam ou os homens de saia ou as mulheres de barba, logo nos apressamos a dizer que tais factos são normais e que, por isso, devem ser aceites como novas formas de ser ou de estar. A anomalia é, deste modo, suprimida, integrada nos contextos normais ou ela própria constituindo outra normalidade. E assim deixam de ser importantes os padrões, as regras, as leis pois uma anomalia cedo ou tarde adquire o estatuto, ela própria, de regra. 

Thomas Khun Cincinati 1922 - Cambridge 1979, um epistemólogo do século XX, ao efectuar a análise filosófica da evolução da ciência estabeleceu os seguintes momentos: ciência normal, ou aquela que permite aos cientistas usar um certo paradigma e, na sua posse, interpretar o mundo; a anomalia, quando uma brecha no paradigma revela uma impossibilidade científica de compreensão dos factos; a ciência em crise, a qual corresponde aos momentos em que a comunidade científica procura ajustar a anomalia ao paradigma ou investigar a anomalia e tirar daí conclusões para alterar o rumo da ciência; finalmente, a recuperação do paradigma, posto em causa pela anomalia, ou a ruptura do anterior paradigma e a sua substituição. 

Vemos, deste modo, a importância do incidente anómalo, quer para abalar as certezas do paradigma e pô-lo à prova, quer para assumir a anomalia, enquanto tal, promovendo a evolução científica. 
Um médico sabe exactamente o que é uma anomalia porque, afinal, o seu mister, a sua arte, enfim, conduzem-no a lidar com elas, diariamente, a procurar compreendê -las e a restituir a normalidade ao organismo afectado por elas, repondo a saúde. E se um médico refere uma condição, seja ela qual for, como sendo uma anomalia, se, inclusivamente, um indivíduo o procurou por sentir em si a presença de um sintoma anómalo, o dever do clínico é procurar a cura. 

Durante séculos, a homossexualidade foi considerada uma doença, física e mental, acrescida da conotação pejorativa com que a sociedade rotulou essa condição. Logo, o homossexual procurava ajuda médica para curar-se, reprimia os impulsos anómalos ou, à margem da sociedade e das suas normas, dava satisfação aos seus impulsos. Ele próprio se castigava e se sentia diferente, anómalo, portanto, acedendo a um submundo de onde emergia carregado de culpa. 

Nas últimas décadas, assistimos à progressiva reintegração desta e de outras minorias sociais, e hoje alguém que aluda à homossexualidade como sendo uma anomalia é taxado de preconceituoso e, eventualmente, levado a tribunal, por isso. Como foi possível, no espaço /tempo de um século, a homossexualidade passar de crime punido pela lei, de doença psiquiátrica grave, de distúrbio biológico, a respeitável e correcta afirmação da sexualidade humana, diferente, mas legítima e normal? 

Oscar Wilde (Dublin 1854 - Paris 1900) , o célebre escritor britânico de origem irlandesa, era homossexual e contudo casou e teve filhos; porém, a tendência falou mais alto e foi tendo amantes, normalmente rapazes mais jovens do que ele, até ser levado a julgamento,acusado pelo pai de um deles, e, por essa razão, condenado a trabalhos forçados. Com ele sofreram os seus, porque a mulher apoiou-o e não pediu o divórcio. Mas a sociedade conservadora da época renegou-o e (diz-se) durante muito tempo nenhuma família britânica dava o nome de Óscar aos seus filhos. 

Distúrbio biopsicológico, anomalia, erro da natureza, doença ou, afinal, uma subespécie da normalidade humana? Orientação sexual diferente, perversão, desvio ou condição absolutamente legítima, francamente normal do modo de ser humano? 

Seja como for, não vejo qualquer razão para discriminar e punir alguém, apenas porque é homossexual; de igual modo, não vejo razão para louvar ou celebrar seja quem for, apenas por causa dessa condição íntima e pessoal. Mas sei, porque já o ouvi suficientes vezes, que todo aquele que, aparentemente, aceita os homossexuais como seus amigos e nada objecta face a essa maneira de ser, detestaria descobrir que um dos seus filhos é homossexual. 

Esta conclusão conduz-me à tese da anomalia. Hoje, o homossexual é aceite, a lei protege -o, não precisa de esconder-se e pode mesmo constituir família; mas, lá no fundo, todos sabem ( incluindo os próprios) que um erro da natureza fez nascer impulsos anómalos nesses indivíduos e que a sociedade precisou de forçar-se a si mesma e aos seus preconceitos para aceitá -los como iguais.

O TURISMO, EMPREGO E QUALIDADE DE VIDA

RUI CANOSSA
Portugal já é o 13º país onde o emprego mais depende do turismo. Espalhados pelo mundo só há 12 países que dependem mais do turismo para empregar do que Portugal. De acordo com o relatório do Fórum Economico Mundial sobre a competitividade turística, 7.9% dos empregos em Portugal vêm do setor das viagens e turismo. Os países que estão à frente de Portugal são a Jamaica, Panamá, Hong-Kong, Nova Zelândia, Croácia, Montenegro, Maurícias, Grécia, Camboja, Barbados, Cabo Verde e Malta, onde 16.5% dos postos de trabalho deste pequeno país estão diretamente ligados ao turismo. 

Se a relevância do turismo no emprego em Portugal é grande, a tendência atual e de futuro é para aumentar. É que estes dados são de 2015 e não têm em consideração ainda o boom de postos de trabalho criados entretanto de norte a sul do país, quer seja nos hotéis, restaurantes, agências de viagens, serviços de transporte, ou na chamada “indústria do lazer”, que é impulsionada diretamente pelos turistas. 

Segundo as estimativas do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTIC) - a fonte do Fórum Económico Mundial e a referência estatística do setor turístico a nível internacional – os empregos ligados diretamente à fileira do turismo em Portugal já subiram para os 8.1% em 2016 do emprego total do país o que corresponde a 372 mil postos de trabalho e voltaram a subir para 8.2% em 2017 o que equivale a dizer 384 mil postos de trabalho. O WTIC estima que o emprego no turismo português possa vir a crescer cerca de 1.4% ao ano na próxima década, o que significa que, em 2027, haja 441 mil postos de trabalho no setor. 

Mas se reparou, estive apenas a referir-me aos empregos diretos, já que há muitos postos de trabalho noutros setores que estão a ser impulsionados indiretamente pelo boom de turismo. Como dizia no último artigo, há que ter em conta o efeito de arrastamento do turismo sobre outras atividades como a alimentação e bebidas, recreação, vestuário, habitação, e outros gastos dinamizados pelo turismo. O WTIC estima que a contribuição total da fileira das viagens e turismo para o emprego em Portugal atinja 20% em 2017 e que daqui por dez anos represente 22.6%. Isto significa dizer que, entre postos de trabalho diretos e indiretos, induzidos, o turismo português irá superar o milhão de empregos na próxima década.



Termino a dizer também que hoje temos melhor planeamento estratégico e uma maior aposta na qualidade, fruto de uma nova geração de gestores, empresários e líderes políticos que souberam responder da melhor forma às exigências de quem nos procura. Aliás atrevo-me a dizer que o nosso maior recurso é a excelência da qualidade de vida. Resta-nos muito pouco na economia global do que nos tornarmos no melhor país do mundo para viver. E não falta assim tanto para isso acontecer.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

... A CASA DA GRANJA VOLTOU A TER VIDA

A. PATRÍCIO

A tarde era de Verão e não podia estar mais convidativa.

Pelas dezassete horas meti pés-ao-caminho e lá fui até ao belíssimo mirante e velhinha Casa da Granja. Lá chegado, não descansei enquanto não corri todos os cantos movido por uma curiosidade, já de mim conhecida, bebendo surpresas em cada sala, descansando o olhar neste ou naquele pormenor ou lendo, muito devagar, os painéis contendo partes da história daquela Casa.

Por todo o lado pedaços de imaginação traziam-nos a uma realidade de eventos e iniciativas concebidas pelos jovens da MODAR.TE que, juntando Moda, Cultura e Arte, num só evento, criaram momentos especiais. 

No ar, ainda que difusa, sentia-se a presença de Amadeo quando, ali se deslocava, para visitar a sua tia e madrinha. A liberdade de movimentos era total e, aproveitando essa benesse, dei por mim a deambular, possuído de espanto, pela área circundante e lá fui encontrar a velha pedra-de-armas, orgulhosa da sua história, na fachada da capela que, outrora, teve como orago N.ª Srª. do Bom Sucesso, instituída que foi pelo Pe. António de Magalhães Machado corria o ano de 1865. De repente, pouso o olhar sobre uma coluna em granito ainda com base e capitel mas sem o coroamento que lhe completaria a história, sobressaindo no fuste duas argolas em ferro envelhecidas pelo tempo. Não resisti em abraçá-la tentando sentir o seu pulsar de tantas histórias e estórias na tentativa de ouvir um segredo - …eu sou o que resta do velho pelourinho de Amarante que, em tempos que já lá vão, estava no Largo da Ordem, hoje de S.tª Luzia e que os homens não souberam ou não quiseram conservar-me… - mas, o silêncio, manteve-se mudo e calado e o “milagre” não se consumou. Senti uma sensação agri-doce e o momento levou-me a pousar o olhar sobre um montão de pedras, jogadas a um canto, na tentativa de “ver” algo que trouxesse sossego ao meu devaneio elas que, também, têm muitas histórias para contar. 

Esta Casa da Granja, que se mostra às gentes desde o remoto séc. XVII, mantém a sua beleza apesar de todas as reconstruções e obras de conservação e restauro, como casa de habitação, acabando por ser sujeita, nos nossos dias, a obras de outra envergadura e passar a ser um “domicílio de cultura” em honrosa homenagem àquele que, nos dias que correm é um dos expoentes máximos da pintura – Amadeo.

Aos jovens da MODAR.TE que lhe abriram as portas, dando-lhe uma perspectiva de vida, com uma iniciativa mais que louvável trazendo aos amarantinos um evento cheio de cor, música, alegria, arte e moda, os meus parabéns.

Amarante continua a trilhar por caminhos de afirmação que esperamos sejam continuados num futuro de desenvolvimento e empreendedorismo.

Amarante e os amarantinos merecem este esforço e a tenaz persistência de quem vê Amarante com olhos de ver e se afirma pela positiva.

Bem-hajam jovens da MODAR.TE, todos estão de parabéns e, àqueles que vos ajudaram a levar a bom-porto esta iniciativa, o desejo de um continuar pois, Amarante, é Terra Mãe e agradece todos os nossos esforços.



Parabéns.

APRENDER A VIVER COM A E.L.A - DOENÇA QUE ALTERA RADICALMENTE A NOSSA VIDA

RITA TEIXEIRA
Habituar-me a falar sem pronunciar corretamente algumas consoantes, foi um baque em meu frágil coração. 

Estar a comer e engasgar-me a toda a hora, foi deveras penoso, porque previa algo de muito grave. O cansaço apoderara-se de mim e eu, que raramente chorava, passei a chorar de revolta com as leis do governo, conhecendo a frustração do cargo que me fora imposto. 

Aceitar que a lecionação aos meus alunos foi um roubo à minha carreira profissional. Tirar um curso, sonho de criança, para ser professora e haver a hipótese de ter que avaliar os outros professores, era inconcebível e inexplicável, pois não possuía competências para exercer essas funções. Com o decorrer do tempo, a revolta foi-se intensificando e o prazer de ensinar terminou a meio do ano letivo, porque a fala agravara-se e já não havia condições para lecionar! 

Segundo a opinião de um médico, eu já tinha o gene da doença, porém a minha situação psicológica agudizara o avanço de. E. L. A. Encontrava-me, então, nos Estados Unidos da América e, lá, facultaram a paz, tão fundamental, para quem acabara de ouvir a evolução desta enfermidade e o prognóstico de três a cinco anos de vida, embora, dependesse de pessoa para pessoa. 

Reforcei a minha decisão de não esperar passivamente que eu fosse mais um número para essa estatística. 

Senti o orgulho do meu irmão. Senti a admiração da prima Helena Gonçalves, da reverenda Lourdes Magalhães, dos membros que a acompanhavam e do médico que passou a frequentar a casa do meu irmão. Senti o carinho do grande Bernardino Coutinho e a dedicação diária da mana Mariazinha Coutinho. 

Não posso terminar, sem agradecer à Adriana todo o amor que pôs ao cuidar de mim. gratidão ao Manolo, que se disponibilizou para o que fosse necessário. 

Finalizando, o meu muito obrigada aos meus cunhados, Fernando e Manuela Pinheiro, pela ajuda fundamental à Francisca, num momento crucial da sua adolescência. Agradecer à minha cunhada Dina Teixeira, por colocar, na minha bagagem, a paz, a fé ingredientes valiosos para viver e aceitar a vida com. E. L. A.

NEUROMA DE MORTON

Sente dor no antepé? 

FÁTIMA LOPES CARVALHO
Sabia que essa dor pode ser provocada por uma compressão mecânica dos ramos digitais dos nervos plantares; e ser devida a uma lesão caracterizada por neuroma de Morton - lesão não neoplásica com formação de fibrose perineural do nervo plantar. A predileção da dor é pelo 3º espaço metatarsal, pois é aqui que se dá a união dos ramos lateral e medial dos nervos digitais plantares, é mais frequente no sexo feminino e pode estar relacionada com o uso de sapatos “anti-fisiológicos”, caracterizados por estreita largura de ante-pé que favorecem a compressão dos metatarsos contra o ligamento intermetatarsico.

O neuroma de Morton apresenta-se clinicamente: dor ao nível do ante-pé com irradiação para os dedos, acompanhada muitas vezes por fenómenos parestésicos.

Na consulta de Podologia (www.centroclinicodope.pt) durante o exame físico nomeadamente durante a palpação encontramos o sinal de Mulder, caracterizado pela compressão latero-lateral das cabeças metatarsais com uma mão, enquanto a outra mão do Podologista comprime o espaço acometido na região plantar. 

O diagnóstico a maior parte das vezes é clínico principalmente se os neuromas apresentarem dimensões de 5mm de diâmetro. A ecografia é o exame complementar mais solicitado onde é evidenciada uma lesão circular ou ovoide, hipoecóide localizada justa proximal à cabeça metatarsal. A ressonância nuclear magnética é importante no diagnóstico de neuromas menores de 5mm de diâmetro e em neuromas múltiplos. A radiografia do pé não é utilizada para deteção de neuroma mas é importante no sentido de despiste de outras patologias tais como metatarsalgias, doença de Freidberg dedos em garra, fraturas.

O diagnóstico diferencial envolve as radiculopatias lombares, síndrome do túnel do tarso, fratura de stress dos metatarsos, doença de Freidberg, bursites intermetatársicas, artrite reumatoide, neurites periféricas, tumores ósseos e de partes moles do ante-pé.

Qual o tratamento?

O tratamento de eleição para a maior parte dos neuromas de Morton é o Ortopodológico; com a aplicação de uma ortótese plantar cujo objetivo é diminuir a carga na região metatarsal acometida.

A Laserterapia podológica também é muito eficaz cujo objetivo é anti-inflamatório.

A aplicação de infiltração é controversa; vista a duração do alívio da sintomatologia ser por um período curto de tempo.

Em última linha e na falha do tratamento conservador pode recorrer-se à cirurgia efetuando a resseção cirúrgica do neuroma e do segmento afetado do nervo, esta intervenção pode ser realizada por via dorsal ou plantar.

PERDA DOS DENTES NATURAIS

PARTE II – PRÓTESES DENTÁRIAS REMOVÍVEIS

INÊS MAGALHÃES
As próteses dentárias são dispositivos que permitem substituir dentes e outras estruturas orais (gengiva e osso) com o restabelecimento da função estética, fonética e mastigatória. Estas dividem-se em próteses removíveis e fixas.

As próteses removíveis podem ser totais, ou seja, quando elas substituem todos os dentes naturais, ou parciais, quando apenas substituem alguns dentes em falta na boca.

Neste momento existem no mercado diferentes tipos de próteses, podendo estas ser: acrílicas, esqueléticas e flexíveis.

Próteses Acrílicas:

A vantagem das próteses removíveis de acrílico (totais ou parciais) é o facto de serem as mais baratas do mercado, e por isso, as mais utilizadas por pessoas que tenham poucos ou nenhuns dentes.

No entanto, estas próteses acrílicas deveriam ser consideradas apenas como uma solução a curto prazo, pois perdem rapidamente as suas qualidades.

Em termos práticos, como são suportadas pelos tecidos (parte desdentada da boca), esta pressão vai acelerar a redução (ou mesmo perda) do osso alveolar, onde antes estavam os dentes naturais, afundando as próteses dentárias na boca.

Por outro lado, os dentes da prótese, se forem de acrílico, também se desgastam em pouco tempo, comprometendo a função mastigatória e também a própria estética bucal.

Por todos estes motivos, uma prótese dentária em acrílico (total ou parcial) deve ser substituída com regularidade e nunca apresentada como solução a longo prazo.

Prótese esquelética:

A prótese dentária removível esquelética é mais cara e esteticamente mais bonita do que a prótese acrílica.

No entanto, só pode ser usada por pessoas que ainda tenham gengivas saudáveis e alguns dentes naturais, ou implantes, e que também não queiram cobrir o palato.

Como tal, na maioria dos casos, para que haja uma fixação eficiente, são usados ganchos nos dentes.

Normalmente, a adaptação a estas próteses é bastante fácil pois são pouco volumosas, tendo ainda a vantagem de não fraturarem facilmente.

Prótese dentária flexível (ou prótese dentária semirrígida):

As próteses dentárias removíveis flexíveis são as melhores e mais perfeitas. Estas são indicadas para:
idosos em geral;
pessoas que não se adaptem às tradicionais próteses rígidas de acrílico;
pacientes com necessidade de reabilitação parcial, unilateral e bilateral;
usar sobre implantes aguardando a prótese definitiva.

Como vantagens destas próteses, temos:
maior conforto (hipoalergénicas) e funcionalidade: excelente equilíbrio entre flexibilidade e fixação;
menor desgaste da prótese;
menor possibilidade de fratura da prótese;
menos ferimentos ou dores decorrentes da própria utilização;
menor irritação gengival (máxima adesão à gengiva e ao palato);
melhoria da função mastigatória;
melhoria estética: estas próteses existem em várias cores e, como não têm ganchos metálicos e são translúcidas, conferem um efeito muito natural;
mais resistentes: são muito resistentes a quedas e a impactos;
mais leves: podem ser feitas com uma espessura muito fina, permitindo assim uma boa fonética do paciente.

Contudo, também apresenta algumas desvantagens, como:
difícil concerto quando partem;
não são indicadas para substituir muitos dentes porque, como são flexíveis, existe alguma mobilidade nos dentes postiços enquanto se ri, fala ou come;
difícil acrescentar dentes ou fazer um rebasamento;
propiciam o aparecimento de aftas.

domingo, 16 de julho de 2017

SENTIDOS CINCO SENTIDOS, PROIBIDAMENTE FRAGMENTADOS

MIGUEL GOMES
I

Tento perceber em que lado de mim quer a vida que eu viva. Se pelo saltitar pardalesco de nuvem em nuvem, se pelo nebular saltitado de pardal em pardal. Aqui já nem vive o bem, nem se amortalha o mal. 

Quando a vida tenta perceber de que lado vivo, respondo-lhe no calado grito do que escrevo, a vida se vive em mim habita no horizonte que construo a cada piscar de olhos, não há lugar para dimensões quando o infinito é da cor do universo que finda. Há tempo, ainda?

II

Tenho que esperar que o futuro adormeça, para só aí poder tirar-lhe da fronte, em silêncio, a madeixa que se cola à sua vida e o faz pensar ser algo a ter. 

Ganha o futuro e eu, calado, à espera que acorde e eu possa fingir dormir à revelia da rotação sobre um despossuído eixo. Translado-me e por aqui me deixo.

III

Agora que o dia ausenta as sombras vítreas que me nebulam, saio no vaguear da noite optando-me vagabundo, sem amaras que não a própria vida, vou lesto e nu porque nada me veste além da luminosidade obscura que orvalha dos candeeiros solitários. 

Dispo-me enquanto se vestem, do berço até aqui, peça a peça, para me deitar em palhas dormindo, a saga de levantar nada e querer poder tirar pele que seja, desabotoar corpo e salgalhar por aí como pétala ao vento em dia de tempestade. 

A meio caminho encontro outros, mesma direção sentidos diferentes, eu na ânsia de me livrar do supérfluo, outros na superfluocidade de se livrarem da ânsia, sigo confiante com o que me resta enrolado debaixo do braço e um abraço a tiracolo. 

Quão longe poderá estar?

IV

Meço a noite antes de me deitar. É mais curta que o sonho. Mas respeita. Pouco vale o vale a quem ora, de hora em hora, se não sabe que o sonho nasce do mar e não do cetim onde se gabam deitar.

V

É na cálida madrugada do teu olhar que vejo o nascer de um dia futuro. O alimento da curiosidade traz-se pelos ombros carregados de dúvidas e ilusões, tuas e dos bichos-papões. Enquanto a vida não te molda adulto e te vinga pelas paredes de prédios devolutos que são as ideias de outrém, ergo-te à luz da lua e advogo-te às estrelas enquanto brindo com o breve nevoeiro, que te proteja o guerreiro adormecido da tua visão do amanhã.

Tu. Criança. Sã.

OS JOVENS E O FUTURO PROFISSIONAL

LÚCIA LOURENÇO GONÇALVES
Pois é, à medida que se avançou rumo ao decréscimo do analfabetismo também se acentuou o problema dos jovens no que respeita à escolha da profissão, isto claro também agravado pelos altos níveis de desemprego.

Há uns anos atrás, os que podiam frequentar um curso superior tinham emprego garantido. Agora, além de por vezes ser um entrave (demasiadas habilitações para os cargos oferecidos), já nada pode ser dado como certo. Alias, prova disso é o recurso às caixas dos supermercados serem a constante diária.

Todos os anos por esta altura, dezenas de jovens são “empurrados” para áreas de estudo e cursos superiores apenas pelas melhores saídas profissionais, algo que muitas vezes, lamentavelmente se traduz em péssimos profissionais! Porém a difícil escolha é um facto, a saturação do mercado de trabalho devido ao elevado número de licenciados em determinadas áreas, transforma a escolha do curso a seguir, num enigma e num problema!

Quantos escolhem o curso que dá maior grau de empregabilidade, em prol do que efetivamente gostavam e têm vocação para exercer? 

Para os pais também não é fácil assistir à indefinição dos filhos no que respeita ao futuro, além de que estes jovens precisam muito cedo (no início do ensino secundário) escolher uma área específica e não raras vezes chegam à conclusão que afinal não estão na área certa e há que mudar, o que equivale a anos perdidos. Apesar que podemos ver esta mudança por um outro ângulo, ou seja, pela positiva. Afinal, o jovem a partir dali já adquiriu outra experiência e outra maturidade e mais facilmente se integrará na área para a qual, concluiu, tem maior apetência e estará mais consciente e seguro das suas escolhas.

Nesta fase, o apoio dos pais é fulcral para que cheguem a “bom porto”, mas apenas devemos ficar do seu lado, incondicionalmente, dando a nossa opinião nunca tomando a decisão final. 

Em resumo: na escolha de uma área de estudo ou de um curso superior, há que ver as saídas profissionais, mas também o que mais se adequa a cada um, para que não percam a sua própria essência. O importante é tornarem-se adultos conscientes e conscienciosos dos seus deveres, como profissionais e seres humanos!

sábado, 15 de julho de 2017

MÉDICOS VETERINÁRIOS, CLASSE DE INSENSÍVEIS E GANANCIOSOS

SUSANA FERREIRA
Com o crescente abandono dos animais, cresce o número de contactos de particulares que nos pedem para recolher e tratar gratuitamente os animais de rua. Passo a citar um exemplo:

Particular: “Doutora está um cão aqui na rua ferido, coitadinho, precisa de ser tratado urgentemente.”

Eu: “Tenho todo o gosto em ajudar o animal, mas irá responsabilizar-se pelas despesas do animal?”

Particular: “O animal não é meu, nem tenho condições financeiras. Vocês tem obrigação e dever de tratar o animal que está em sofrimento.”

Eu: “Pois, mas não pode ser, pelo menos pelos consumíveis alguém tem de se responsabilizar pelo pagamento.”

Particular: “Vocês são todos uns aproveitadores, sem vocação, sem amor à profissão. É vergonhoso.”

As Clínicas Veterinárias são de facto um negócio, tal como os Clínicas Dentárias, Clínicas Médicas privadas, Hospitais Médicos privados. Os Médicos Dentistas tratam os sem-abrigo de forma gratuita? As Clínicas Médicas oferecem consultas e tratamentos aos sem-abrigo? Os super-mercados e grandes superfícies matam a fome aos mais necessitados? Então porque são os Médicos Veterinários obrigados a recolher e tratar gratuitamente animais abandonados?

As Clínicas Veterinárias são negócios privados que visam dar assistência aos animais de estimação. Nessa assistência existem gastos com materiais consumíveis, medicamentos, mão-de-obra humana, rendas, água, luz, gás, entre outras despesas. Tenho a certeza que todos os colegas gostariam de ser milionários e dispensar o seu salário para poder tratar animais abandonados, mas infelizmente nós também temos contas para pagar e vivemos dos nossos salários. Salários esses que estão muito aquém do que as pessoas imaginam... Mesmo assim eu e muitos outros colegas sempre que possível dedicamos horas do nosso tempo livre a ajudar os animais de rua. Muitas Clínicas Veterinárias cobram apenas os consumíveis. Nós não somos monstros insensíveis e gananciosos, somos humanos com todos os seus defeitos e virtudes. Gostaríamos que houvessem soluções públicas para poder ajudar os animais abandonados. Quem sabe se chegará o dia que Portugal terá Clínicas e Hospitais Veterinários públicos ...

FÉRIAS...

AIDA CARVALHO
Quase, quase a chegar o período de férias para milhares de portugueses. 

Apesar do aumento do número de portugueses que dividem as férias por vários "short-breaks", ao longo do ano, cerca de ¾ continua a reservar um período de férias de média duração para gozar em pleno verão com a família e/ou amigos. As previsões da taxa de ocupação hoteleira para os meses de verão são otimistas, apontando para um crescimento “a toda a linha”. Mas, as famílias numerosas deparam-se com um grande desafio – a escolha da unidade hoteleira. 

Segundo os dados do INE, em 2011, existiam apenas 7,4% de famílias numerosas em Portugal face ao total do número de núcleos familiares com filhos tendo diminuído 10,1% numa década, em linha com a sangria demográfica. Porém, estas familiares são fundamentais para a renovação das gerações e para a sustentabilidade futura do Estado Social. Tratando-se de uma minoria, o modelo de alojamento tradicional – hotel - não responde, na sua maioria, às necessidades destes núcleos familiares, pois estão formatados para acomodar uma família de três ou quatro pessoas: dois adultos e uma ou duas crianças, em cama extra; acomodar dois adultos e três crianças levanta vários desafios, uma vez que, é necessário reservar pelo menos dois quartos; e, uma grande questão se levanta: quem dorme com quem? Os filhos com os filhos, deixando os pais dormirem tranquilamente (sendo menores não é aconselhável) ou desdobra-se o casal e os pais dormem com os filhos? 

Na falta de respostas, procuram-se outras opções como os "aparthotéis", os "bungalows", os parques de campismo, as casas de férias, hostels em regime de camarata. Estas opções, apesar de muito interessantes, não respondem muitas vezes às necessidades requeridas. Estamos de férias, queremos descanso e um “travão” na gestão familiar! 



O ATO MÉDICO REFLETE A DIGNIDADE DE QUEM O PRATICA

ANTONIETA DIAS
Não podemos crescer se não gerarmos dentro de nós o sentimento de partilha da cidadania, da defesa da nossa identidade, se não dignificamos o ato médico e se desvirtuamos o valor da vida humana.

Precisamos em cada dia que passa de identificar os sinais que fragilizam, que potenciam ações destinadas a tornarem vulneráveis, inseguros e ameaçadores os padrões éticos que sustentam a confiança dos doentes nos atos médicos e tentam prejudicar a credibilidade dos pensamentos, das ações e da ciência médica.

Quanto melhor identificarmos, interpretarmos e atuarmos em conformidade com os princípios fundamentais que alicerçam o poder da vida, mais preparados estamos para combater aqueles que pretendem transformar a Sociedade numa fórmula matemática, onde tudo é permitido mesmo que destrua a Vida Humana.

Citando Eckhart Tolle" As pessoas não percebem que agora é tudo o que é, não existe passado ou futuro exceto como uma memória ou antecipação em nossas mentes".

Assim devemos focar a nossa atenção nos detalhes cognitivos que dirigem o pensamento e o nosso ser para questões mais importantes que os números e não podemos deixar que o hoje seja desprovido da razão e do presente antecipando as nossas mentes para o processo de salvação realista e não ilusório.

Consciente ou não as pessoas vão adiando o momento presente para um futuro que pode ser incerto e desacreditado, deixando perder a vida e não vão semeando o sentimento de amor, de qualidade, de afeto, de solidariedade e de partilha que cada vez mais é uma exigência da nossa existência.

A responsabilidade de um cidadão consciente não é aceitar de forma passiva que os atos menos adequados violem a nossa consciência, comprometam a Paz no mundo e adulterem a nossa vivência.

Não é reclamando sem objetivos ou propósitos que conseguiremos ter sucesso, muito menos virtudes.

Quanto mais nos concentramos no valor da vida e nos focalizamos no tempo (passado, presente e futuro), menos compreendemos o poder de Agora.

Se acreditarmos que a Vida é a coisa mais preciosa que existe, porque é única e permanece no Agora, não podemos deixar de nos preocupar com as transformações existentes no tempo presente e que se irão refletir no futuro, criando um vazio, destruindo os valores e gerando uma inutilidade de princípios que irão destruir o Mundo em que vivemos.

Ao focalizar a sociedade atual numa muralha cujos princípios vão depender do fator numérico onde o infinito termina na meta do 3 mais um é igual a quatro, estamos a deixar fugir a Fé, as Regras Morais, o Amor fraternal, a Honra e a Ciência, permitindo que a sociedade nos insulte, nos calunie, nos agrida, nos desonre, nos prejudique, nos transforme numa cúpula de cimento, onde o dever e o respeito, são substituídos pela mentira, pela incompetência, pela corrupção, deixando o poder da Nação com pessoas sem carater que acabarão por afastar e destruir os Homens com valor. 
O propósito do médico é construir um projeto verdadeiro, genuíno, glorioso, respeitável, alicerçado na Ciência, na Verdade, na Justiça, e deverá ser executado com Humanidade com vigor, com energia, com satisfação, cuja conduta será sempre sustentada por Valores Éticos e Sabedoria, alicerçada na prudência, no cumprimento da Lei e no Respeito pela Vida Humana, pelo Estado e pela Nação.
Não existe nem terra, nem céu se semearmos vícios, mentiras, intolerâncias, egoísmos e fanatismos.

Não é pertença do médico, manter o luto universal, muito menos tornar indigna a Sociedade, mas é com certeza colocar a ciência ao serviço da defesa da dignidade e da vida do paciente.

O médico tem o dever de respeitar o doente, colocando todos os meios que tem ao seu alcance para praticar medicina de qualidade, tem que ter liberdade de decisão clinica, serenidade para que o ato médico que executa seja perfeito.

Cabe ao médico a responsabilidade de agir de acordo com a Legis Artes, de prestar os esclarecimentos e dizer a Verdade aos seus doentes para poderem dar o seu consentimento livre e esclarecido e à Sociedade compete respeitar a dignidade e o mérito do profissional de saúde que dedica a sua vida a servir o próximo.

Em suma, o ato médico é a conquista do sucesso do conhecimento aplicado ao doente com o objetivo de o curar ou de minimizar o seu sofrimento.

Para o médico é importante que a Luz permaneça, que o cérebro se abra para a sabedoria, que aprenda a amar e que trabalhe sempre sem parar até conseguir salvar o doente.

Quem pensar que já obteve o triunfo, para e quem para morre.

Temos que lutar contra as adversidades, polindo e reconstruindo o caminho da Verdade, da Ciência e da Justiça, para que o futuro seja melhor para os nossos doentes e sobretudo para manter a perfeição da Humanidade.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

PAI, DEIXA-ME JOGAR À BOLA!

MIGUEL NOVAIS
Tenho uma visão privilegiada em campo, mas ter o poder de conseguir ver tudo faz com que o nosso olhar, inevitavelmente, se foque em aspetos menos bons do Futebol. Falo-vos de Futebol, de Futebol de formação que infelizmente tende a não formar (pelo menos corretamente!) em todos os cantos do país. Mas como queremos formar bem, se cada um pensa à sua maneira? E se o filho, em frações de segundos, tiver de escolher entre o que o pai lhe diz ou o que o seu treinador lhe pediu? Aos meus olhos, estamos perante a síndrome do Pai de atleta.

Eu continuarei suspeito na minha análise porque sou apenas o treinador. Não compreendo, na sua totalidade, o amor que um pai tem por um filho e o quão bem lhe deseja. Mas será que o bem é intervir (diretamente) em tudo o que o miúdo faz? Gritar na bancada a cada toque na bola: “Vai filho, passa! Finta, agora chuta… Não vás tanto para o meio! Fica ao lado da baliza!”? É que se der resultado, aproveito para alertar o quão positivo poderá ser ir também às escolas, mesmo ao lado da porta da sala de Matemática, relembrar os seus filhos que utilizar a regra de 3 simples pode ser útil no cálculo de percentagens…

Mais concretamente a mim, treinador, custa-me ver a insegurança dos meus jogadores nas suas ações quando pressionados pela bancada. Nem sempre é fácil para eles, saber que o que o treinador lhes pede é o mais certo, muito mais quando os pais dizem o contrário. Eu defendo o meu trabalho, acredito no que faço. Custa-me ouvir certas palavras do exterior, mas eu tenho capacidade mental para isso, um menino de 11 anos não! Defendo um futebol de formação sem a necessidade constante de vitória. Quero formar campeões, mas campeões em todas as suas ações individuais, em todas as suas atitudes, na enorme vontade de evolução, no querer sempre mais e melhor, na disciplina e no compromisso. Estes são os verdadeiros campeões, não os que ficam com o caneco no final da época. Quero que os meus jogadores vejam o treino como um espaço sagrado de aprendizagem constante e que vejam o jogo como apenas mais uma oportunidade para impormos o que treinamos. Mas isto só funciona se existir entendimento entre as ideias de quem lidera o processo e as ideias de quem se encarrega pela educação dos atletas. Na minha modesta opinião, talvez os pais tenham que se informar mais um pouco daquilo que se tenta fazer em cada escola de formação, porque no jogo será mais fácil opinar porque é fácil idealizarmos uma coisa superior ao que os nossos olhos vêm. Mas atenção, eu não condeno todos os que falam, logo que seja um discurso motivador e positivo para o jogador. Alias, gosto quando valorizam o esforço dos meus atletas, quando aplaudem as suas ações. Mas para isso, não há necessidade de pressionar os meninos para a vitória ou para o golo nem há necessidade de apelar para o jogo individual porque acham que o vosso menino é o melhor. Preferia ver os meus jogadores a puderem crescer ao seu ritmo natural, uns mais rápidos que outros, mas com a convicção que podem todos chegar longe. A DIVERTIREM-SE enquanto fazem aquilo que mais gostam sem a pressão de serem os melhores do mundo!

Num país onde há uma boa formação de treinadores e com a certeza que criar formações também para os pais dos atletas seria dispendioso, não se pode simplesmente confiar no trabalho de quem está à frente no processo? Eu gostava que entendessem que o futebol de formação é mesmo um processo. Ninguém nasce jogador de futebol assim como ninguém nasce advogado. Existem, claro, miúdos que aprendem com maior facilidade, mas ainda é cedo. Quero que percebam que ainda é cedo! Não aparecem Ronaldos ou Messis com a frequência que vocês o dizem. Futebol é aprendizagem, trabalho, dedicação (tal como a escola) e só assim o talento consegue ser sustentado e usado. Sei que deve ser difícil quando os vossos filhos chegam tristes porque pensam que o mais justo era terem jogado mais em vez do colega. Como treinador, admito que erramos muitas vezes, mas antes de vocês pais pegarem no menino para ir com toda a razão do mundo, pedir todas as justificações ao indivíduo responsável pela não felicidade momentânea do vosso filho, pensem o quão a vida pode de ser injusta e tramada, no futuro, para o vosso menino. Pensam que os problemas de agora são pormenores amanhã, vocês sabem que são! Deixem ser eles a tratar do assunto, confiem que o vão fazer de uma maneira mais correta, porque no final de contas, foram educados por vocês.

Ao entrarem para o futebol, os vossos filhos entram parta uma escola de formação. É sabido que nem todos vão ter a oportunidade de serem jogadores de Futebol ao mais alto nível, mas se as vivências que levam do Futebol lhes oferecerem um sorriso no rosto e se os valores que por lá foram incutidos fizerem deles homens para a vida, haverá maior vitória que essa? Eu acho que não. Gosto de ver meninos de tenra idade, que mal conseguem correr sozinhos a começarem a dar os primeiros toques na bola. É contagiante a sua alegria. Eu garanto-vos, de fonte segura, que o próprio futebol com o passar dos anos vai-se encarregar de tirar essa alegria contagiante dos vossos filhos. Quando as coisas se tornam mais sérias e os problemas aparecem. Por isso, agora que são crianças, deixem-nos apenas jogar à bola. Confiem no trabalho dos treinadores, sentem-se na bancada, tenham o prazer de assistirem a mais um jogo dos vossos meninos e, quando gritarem, que seja para festejar o golo do VOSSO craque, do VOSSO Ronaldo.

ALIMENTAR-SE NO VERÃO

DIANA PEIXOTO
O mais importante nas épocas de mais calor é evitar a desidratação, pelo que devemos optar por alimentos com um elevado conteúdo de água na sua composição.

É importante beber água em quantidades suficientes para manter uma correcta hidratação durante os calorosos meses de Verão. Nas crianças devem redobrar atenção, pois são especialmente sensíveis aos golpes de calor.

Deve começar o dia com um bom pequeno-almoço e não deve esquecer o lanche durante as férias, pois é tão importante como o pequeno-almoço.

O novo horário das férias não deve impedir um equilíbrio nas horas para se comer. Para além disso, por estar de férias não deve abusar dos gelados, da comida rápida, das guloseimas, etc. Mesmo no Verão mantenha uma alimentação cuidada.

As doenças mais comuns associadas à alimentação no Verão podem ser as intoxicações geralmente acompanhadas de vómitos e diarreias. As altas temperaturas nesta época do ano favorecem o crescimento e o desenvolvimento de bactérias nos alimentos, causadores das ditas intoxicações. Para evitá-los devemos ter especial cuidado com o que ingerimos e tomar uma série de precauções básicas:

Armazenar os alimentos tapados e refrigerados, especialmente se cozinhados;

Lavar muito bem as frutas e verduras;

A água deve ser mineral, fresca e engarrafada (muitas das diarreias são devido a água de outras zonas);

Os alimentos que têm mais facilidade de contaminação, como o ovo, a maionese, etc., devem ser ingeridos no momento em que são cozinhadas;
Se vai viajar para o estrangeiro deve prestar especial atenção aos alimentos perecíveis.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

VOLTE BREVE!

ANABELA BORGES VISITA IPSS «O BEM ESTAR», EM GONDAR
“Se o tempo envelhecer o teu corpo mas não a tua emoção, tu serás sempre feliz”. Esta frase, atribuída ao professor e psiquiatra Augusto Cury, está inscrita num dos corredores de acesso à sala de actividades.

São vários os passos que percorro desde o portão até ali. São passos exactos, mas vão carregando um certo desassossego. Na recepção, tomo a direcção oposta à da creche. Em tempos (havia apenas alguns meses), tinha feito o caminho para lá, para a creche, esse caminho em direcção ao futuro, ao progresso, feito só de risos e de promessas.

Agora os meus passos levam-me para o Lar / Centro de Dia. O caminho faz-se de desassossego e de uma expectativa com laivos de ansiedade, mas sempre atida a um optimismo sadio (que não sei viver sem ele).

À medida que percorro os vários corredores, vou sendo surpreendida pelo cenário austero da longevidade, da letargia e da demência. Alguns utentes deambulam pelos corredores em monólogos invisíveis, outros dormitam nos sofás, e outros ainda estão tristemente encostados às paredes amparados pelos andarilhos.

Chegamos à sala de actividades. É uma sala ampla, limpa, fresca. Os nossos maiores, os séniores, vão-se dispondo em semi-círculo – uns com mais, outros com menos dificuldade; uns auxiliados, outros não.

Os meus anseios dissipam-se automaticamente, assim que vou cruzando o olhar com cada um. A placidez e a condescendência são o cartão-de-visita, aquelas características tão próprias, de tal assento, que apenas conseguimos encontrar na idade sénior. Dá para ver. Logo de seguida, o interesse, a atenção, a avidez com que aguardam que eu comece a sessão da hora do conto. Lá nisso, parecem as crianças com quem estou habituada a desenvolver tais actividades.

E os olhos. Os olhos têm, afinal, o futuro todo lá dentro, são prósperos e cheios de promessas como os das crianças. Os olhos destes amigos séniores são rios de vidas vividas, edificações, são feitos de espera e de sabedoria.

Faço a minha apresentação, breve. Trocamos logo umas impressões sobre as minhas origens familiares e geográficas. Alguns deles conhecem os meus pais.

E começamos a falar sobre a Fábula – do latim “história”, “jogo”, “narrativa”. Não foi nada, mas nada difícil interagir com estes leitores tão especiais; não tardou, estávamos a dizer provérbios sobre animais, a cantarolar antigas cantilenas, a contar histórias com animais dentro. A interacção foi muita até!, como costuma acontecer com as crianças.

As palavras fluíam sem esforço, os risos foram-se soltando, as rimas eram sérias e engraçadas. Era tudo ao mesmo tempo: sério e engraçado.

Escusado será referir a imensa felicidade que sinto por me ter sido proporcionado este encontro. Há muito que anseio, a par com as idas a escolas e jardins-de-infância, por fazer voluntariado de leitura para a terceira idade. Cá está! Esta foi a primeira e abriu com chave de ouro. E não fechou! Ficou logo feita a promessa de voltar.

À despedida, foram passando por mim, uns e outros assumindo as mais variadas reacções. Mas uma das que mais me marcou foi a de um senhor que tinha permanecido durante toda a sessão com um ar sério, compenetrado, atento – agarrou-me o braço direito para me falar em sussurros:

“Volte breve!”.