quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

O NATAL DO HOMEM SÓ (parte III - fim)

ANABELA BORGES
O Natal era aquela porra a que nunca dera importância, e agora cravava-lhe lembranças na cabeça, como pregos. Parecia-lhe, de facto, mas talvez fosse ilusão de velho, que venderia a alma, se nisso acreditasse, para voltar a ter uma noite de calor, igual às noites de Natal de antes.
Já agora! Nunca quis saber das alegriazinhas do Natal. Não haveria fantasma que lhe dissesse, “Os homens têm obrigação de viajar pelo mundo, visitar seus irmãos… Os que não o fizeram em vida são condenados a fazê-lo depois da morte. O destino dos espíritos … que viveram só para si, é ver aquilo de que não partilharam. Oh, que horrível desgraça!”. Isso eram fraquezas para o Scrooge acreditar, não para ele.
O homem Só telefonou aos filhos. O Natal seria passado lá em casa.
Os filhos tratariam de tudo. Não teria de fazer nada. Ninguém iria importuná-lo. Ficaria só a observar, sentado no velho cadeirão.
Permitiu que, finalmente, a mulher-a-dias limpasse os cantos todos à casa. E ele foi arrumar os livros. Ao ver aquela azafama pouco rotineira, a gata soltou um miado forte e prolongado, mais parecido com um rugido, e desapareceu.
Cedo, pela manhã, o homem Só tomava o café no alpendre. Longe, a bruma ondulava como se fosse um corpo vivo. Os pingos de gelo nos beirais reluziam como o velho candelabro da igreja, e um tapete branco e fino cobria as ervas do jardim.
O dia avançou num entusiasmo lento. A tarde apresentava o escuro da serra ao longe e mais para cá tudo era envolto no esbranquiçado da névoa. A névoa fazia o negro da montanha esbatido de mistérios longínquos. E nuvens que se avolumavam deixavam transparecer verticais raios de luz dourada, mistérios de Deus.
Levava tempo para que absorvesse o descer da tarde em véus finos de claridade. Sabia que, em menos de nada, seria o ocaso, horas que sempre lhe traziam uma dor maior, mais difícil de suportar. Porque céus nocturnos tinham tectos mais baixos, abóbadas a captar pensamentos funestos, sonhos assustados e silêncios pesados.
Uma a uma, as chaminés começavam a fumegar e luzes festivas acendiam-se por todo o lado, em redor.    
O homem Só sentia-se especialmente debilitado e simultaneamente quase em paz. Lembrou-se de um dito de Shakespeare que, esbatido no torpor da memória, era mais ou menos isto, “Vinde pela hora de vésperas… e encontrar-me-eis um homem para a cova”.
Esperou por aquela noite, com a maior esperança do mundo: a esperança de alcançar um laivo de felicidade.

Excerto do conto “O Natal do Homem Só”, integrado na colectânea “Lugares e Palavras de Natal” (2016) da editora Lugar da Palavra.

2016 – UM ANO EM REVISTA

LUÍSA VAZ
A todos os níveis, 2016 foi um ano profícuo em acontecimentos que podem até ser considerados bizarros. Isso não faz deles bons nem maus, apenas em alguns casos de difícil compreensão ou mesmo assimilação.

Portugal foi, pela primeira vez na sua história desportiva, Campeão Europeu em futebol. Uma equipa criticada por muitos, com um seleccionador nacional que nem sempre reuniu todos os apoios e com um percurso na Competição que muitos diziam não conduzir ao fim que de facto conduziu mas é um facto, Portugal sagrou-se em Julho, na cidade de Paris, Campeão Europeu de Futebol indo agora e pela primeira vez na história disputar a Taça das Confederações. Noutra área do desporto, Fernando Pimenta torna-se campeão da Europa de canoagem, em K1 1000, nos Europeus de Canoagem em Moscovo. Ainda no desporto nacional, Ana Dulce Félix vence a medalha de prata por Portugal nos 10.000 metros do Campeonato da Europa de Atletismo de Amesterdão. Também Sara Moreira se sagrou campeã da Europa na meia-maratona nos Europeus de Atletismo de Amesterdão, Jéssica Augusto termina em 3º lugar, conquistando também o bronze para Portugal, Patrícia Mamona é consagrada campeã europeia em Triplo Salto com a marca de 14.58m, novo recorde nacional da especialidade. Tsanko Arnaudov, búlgaro naturalizado português, conquista a medalha de bronze no lançamento de peso. O ciclista português Ivo Oliveira sagra-se vice-campeão europeu em perseguição individual sub-23. Portugal sagra-se campeão europeu de hóquei em patins 18 anos depois, ao vencer a Itália por 6 - 2 na final do Campeonato da Europa de Hóquei em Patins de Oliveira de Azeméis.

A nível político externo, contra todas as expectativas e contra toda a imprensa, Donald J. Trump com um programa completamente fora de tudo aquilo o que era aceitável pelo “mundo conservador” ganha as eleições presidenciais americanas. Apesar de a candidata Hillary Clinton ser da ala democrata tal como o Presidente cessante Obama e de reunir os apoios não só das pessoas mais influentes, dos opinion-makers e do meio artístico, o panorama eleitoral sofreu a maior reviravolta de todos os tempos mostrando quão divididos estão os americanos. O Presidente eleito está agora a formar a sua Administração que tem sido tudo menos consensual deixando alerta até as pessoas mais desprendidas no que toca a estas questões.

Contra as expectativas dos Estados Unidos, a Rússia decide apoiar Bashar al-Assad na sua luta contra o Daesh provocando grandes convulsões na Síria onde a crise dos refugiados de Aleppo se tornou capa de jornais em todo o Mundo colocando a cidade no centro do conflito. Numa outra parte do Mundo, os Estados Unidos juntamente com o Governo de um lado e os rebeldes do outro, mantêm o cerco a Mossul, no Iraque.

Na Europa, foram sucessivos os atentados perpetrados contra a população civil com várias baixas e com um novo método – um camião que normalmente é roubado e atirado contra multidões reunidas em centros nevrálgicos das cidades em dias festivos. Estar no centro de uma multidão, algo perfeitamente normal e pacífico para qualquer europeu, transformou-se em algo a evitar dado o perigo iminente de um atentado.

O Referendo em Inglaterra determina o BREXIT o que terá um impacto ainda sem consequências totalmente determinadas quer para a própria Inglaterra – há países que compõem o Reino Unido que são totalmente desfavoráveis à saída – quer à Commonwealth quer para a própria Europa não sendo neste momento possível determinar se outros países lhe seguirão.

A subida dos movimentos nacionalistas e dos partidos de extrema-direita um pouco por toda a Europa tem lançado um clima de suspeição sobre os governos e as politicas seguidas por começar a tornar-se evidente que os cidadãos não estão satisfeitos com o rumo que os países estão a seguir e começam a procurar alternativas que eles consideram que os defendem contra o que consideram ser perigos como sejam o terrorismo e os refugiados que têm vindo em massa para o território europeu.

Pela primeira vez na História, Portugal consegue eleger o Secretário- Geral das Nações Unidas. Veremos ao longo de 5 anos como é que o Engenheiro Guterres que teve sérias dificuldades em gerir o orçamento nacional tendo largamente contribuído para a 3ª bancarrota, vai lidar com o gigantesco orçamento das Nações Unidas. Espera-se no entanto que a sua experiência n´ACNUR agora sirva para ajudar o Mundo, e a Europa em particular, a lidar com a crise de refugiados que enfrenta.

A nível político nacional, a eleição no início do ano de um Presidente dos Afectos veio revolucionar a forma como encaramos a Presidência da República. A actuação do actual ocupante de Belém pode ser vista com bons olhos pelos cidadãos que gostam da ideia fantasiosa de proximidade aos órgãos de Poder mas não é tão bem vista pelas Instituições que prezam a separação de poderes em que se baseia o Estado de Direito português e apreciam que o Presidente da República tenha um papel mais contido, conservador até e mais focado no que são de facto as suas funções constitucionalmente atribuídas.

Ainda no âmbito nacional, dado o apoio não só do Presidente da República eleito, como da comunicação social, como dos organismos europeus que com a crise bancária em Itália e na Alemanha não estão numa posição nada favorável para lidar com a 4ª bancarrota que se anuncia para breve em Portugal – dada a veracidade dos dados económicos e estatísticos – aquilo que vai ficar na História conhecido como “ A Geringonça” lá se vai mantendo de erro crasso em erro crasso até à bancarrota final numa clara repetição do cenário vivido em Portugal no período de 1979/83 com a diferença de que na altura, com moeda própria, era possível brincar com a inflação desvalorizando a moeda e criando nas pessoas a falsa ilusão de riqueza que hoje os ocupantes do palanque de S. Bento pretendem recriar.

A nível cultural, imensas foram as perdas. O mundo perdeu muito recentemente George Michael, um ídolo da geração de 80 mas também um produtor e letrista de elevada categoria. Também e ainda mais recentemente, o cinema perdeu a “sua” Princesa Leia, Carrie Fisher, uma enorme perda para os fãs de cinema e de Star Wars em particular.

Também na música, David Bowie, um ícone, cantor, produtor e actor também desaparece bem como Prince. No desporto o Mundo perdeu Mohamed Ali e no cinema Doris Robert e Gene Wilder enquanto Portugal perde Nicolau Breyner, um entertainer de excelência e alguém insubstituível só para citar alguns não transformar este texto num obituário.

Houve no entanto um acontecimento que não passou despercebido a ninguém e que foi até, e como sempre, criticado ou questionado por muitos: O prémio Nobel da Literatura foi entregue a Bob Dylan. Muitos só o conheciam como cantor e/ou letrista e poucos conheciam o seu lado de escritor. Pode ser que o seu trabalho comece agora a ser mais conhecido com esta distinção.

Na Saúde e na Ciência, a OMS declara o vírus Zika como uma emergência internacional e os cientistas detectam pela primeira vez ondas gravitacionais, previstas por Einstein na Teoria da Relatividade Geral.

Não foi um ano fácil mas foi em alguns casos um ano de muitas conquistas. No entanto, o Mundo encontra-se em transformação, agora se calhar mais do que nunca e o tão desejado “regresso à normalidade” pode ser algo que só se consiga “ a duras penas”.

No entanto, muito em breve um Novo Ano chegará e com ele novos desafios tanto para as pessoas como para as Instituições. Eu espero e desejo que todos estejam à altura para que em 2017 se consiga colher o que se plantou em 2016 ou reorganizar o que se baralhou.

Eu cá estarei para continuar a produzir os meus textos que espero, continuem a ser, pelo menos, do agrado de alguns.

Bom Ano Novo!

AUTOESTIMA – O QUE VÊ QUANDO SE OLHA AO ESPELHO?

TÂNIA CARVALHO
A autoestima surge da autoimagem que temos de nós, é algo que de forma proactiva construímos. Refere-se ao valor em que acreditamos possuir e invariavelmente, é determinante para o nosso bem-estar psicológico. 

Quando temos a autoestima em baixo é difícil tirar prazer das várias experiências que vamos vivenciando. Atente-se que, quando um individuo está deprimido, tende a percecionar-se de uma forma mais negativa.

Se apresentamos uma autoimagem negativa, tendemos a percecionar um determinado acontecimento mais banal como um sinal de defeito pessoal. Muitas vezes, estamos tão envoltos de crenças negativas que nem nos apercebemos da inadequação dos nossos pensamentos e comportamentos que daí advêm. 

Quando estamos bem não dependemos da aprovação dos outros, uma vez que, não é isso que determinará a forma como nos sentimos e como nos percecionamos. 

De facto, qualquer pessoa que apresente uma autoestima baixa pode e deve transformar essa situação. De que forma? Transformando o padrão de pensamentos negativos em pensamentos mais positivos. 

Para isso é necessário falar com a nossa voz interior. Escrever numa folha esses pensamentos negativos e analisá-los de forma racional pode ajudar o individuo a tomar consciência do quanto está a distorcer a realidade. 

É importante referir que, esta distorção acontece muitas vezes, por eventuais experiências negativas da infância na escola ou até mesmo no próprio meio familiar. 

Existem várias técnicas da Terapia Cognitivo-Comportamental capazes de substituir os erros de pensamento que pessoas de baixa autoestima vão desenvolvendo, para que possam viver a vida de forma mais plena e feliz.

“Pessoas com elevada autoestima são as mais desejadas e, as pessoas desejadas em sociedade.” – Brian Tracy

A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA – A INDEMNIZAÇÃO EM PROCESSO PENAL

ANA LEITE
Antes de explorar o tema propriamente dito, convém esclarecer dois ou três pontos prévios sobre o crime de violência doméstica.

Assim, para além da vítima, a denúncia do crime de violência doméstica, pode ser feita por qualquer cidadão e deve ser feita (denúncia obrigatória) por todos os funcionários, que tenham conhecimento do crime no exercício das suas funções ou por causa delas.

Desta forma, considerando a natureza pública do crime de violência doméstica, o Ministério Público (MP) tem legitimidade para instaurar e prosseguir com o procedimento criminal, logo que tenha (por qualquer via) o conhecimento e a notícia da prática do crime.

A denúncia pode ser feita presencialmente (nos serviços do MP, em qualquer órgão de polícia criminal, nas delegações e gabinetes do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses), ou eletronicamente através do sistema de queixa eletrónico do Ministério da Administração Interna, no sistema de queixa online da Policia Judiciária, ou por mensagem de correio eletrónico. A denúncia pode ainda ser apresentada por escrito e remetida por correio postal a qualquer entidade com competência para a receber.

A forma como a vítima é recebida no sistema judiciário é determinante para o êxito do procedimento criminal. Desta forma, a vítima deve ser tratada com respeito, deve ser protegida a sua intimidade, bem como deve haver a garantia de que a vítima entenda e seja entendida no processo penal, para tal a vítima deve ser informada e deve ser atendida por serviços e profissionais especializados.

Disto isto, é importante clarificar que a vítima de violência doméstica tem direito a ser indemnizada. Para tal deve ser deduzido o pedido de indemnização civil. Este pedido, apesar de os pressupostos da condenação na obrigação de indemnizar se fundamentar na responsabilidade civil por factos ilícitos, corre os seus termos no processo penal. Ou seja, o pedido de indemnização civil é obrigatoriamente deduzido no processo penal respetivo (só podendo ser separado – ou seja, correr termos no tribunal civil – nos casos previstos na lei).

Este pedido de indemnização civil pode ser deduzido até ao fim do inquérito, ou pode a vitima ainda manifestar até ao fim do inquérito a intenção de deduzir o pedido de indemnização cível no processo penal. A manifestação de tal intenção tem como efeito o dever de notificação da vitima, para querendo, deduzir o referido pedido.

O pedido de indemnização pode ainda ser feito até 20 dias depois de o arguido ser notificado do despacho de acusação ou de pronúncia (artigo 77.º /3 Código de procedimento penal). 

De referir que o pedido deve ser feito através de requerimento articulado (artigo 77.º /2 CPP). Se o pedido não for deduzido nestes termos, caduca-se o direito de exercer a ação cível conjuntamente com a ação penal.



Porém, no processo penal, a falta de contestação não implica a confissão dos factos. Por outro lado, a confissão produzida nos articulados pelas partes civil, não terá qualquer efeito relativamente ao arguido. Uma vez que a confissão só será relevada quando obtida perante o Tribunal.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

GEORGE MICHAEL: O ÚLTIMO NATAL DO REI DO POP ROMÂNTICO

PAULO SANTOS SILVA
Pois é, caro leitor, estamos a terminar o ano de 2016. 

Como se o ano já não tivesse sido trágico para a música, com o desaparecimento de Prince, David Bowie e Leonard Cohen, ainda tínhamos de ser surpreendidos em pleno dia de Natal, com a notícia da morte de George Michael. 

George Michael, nome artístico de Georgios Kyriacos Panayiotou, nasceu em Londres a 25 de junho de 1963. Filho de um cipriota (de ascendência grega) e de uma dançarina britânica, passou a maior parte da sua infância no norte de Londres. 

Durante a sua adolescência, a família mudou-se para a zona Leste de Inglaterra. Aí, frequentou a Bushey Meads School, onde conheceu Andrew Ridgeley, com quem haveria de formar os Wham!. Esta dupla, teve um sucesso enorme junto das camadas mais jovens, nomeadamente com temas como Wake Me Up Before You Go-Go. 

Em 1984, lança o seu primeiro álbum a solo, onde podemos encontrar aquela que é considerada por muitos, como a maior balada de todos os tempos – Careless Whisper.

A sua enorme popularidade, sobretudo junto de um público maioritariamente jovem e feminino, não o impediu de muitas vezes assumir publicamente posições políticas, nomeadamente contra o governo de Margareth Thatcher. Também em 2002, lançou o tema Shoot The Dog, onde critica abertamente Tony Blair e George W. Bush, a propósito da guerra do Iraque. Aliás o próprio videoclip, todo feito em desenho animado, é um exercício de “gozo” com estes dois políticos. 

Pelo meio, ficaram um processo perdido contra a editora Sony (1993) e um êxito retumbante, aquando da participação num concerto de homenagem a Freddy Mercury, em que atuou em pleno Estádio de Wembley com os restantes elementos dos Queen. 

A sua vida pessoal, foi recheada de muita controvérsia. Desde o (ab)uso de drogas até às situações constrangedoras em que se envolveu, nomeadamente quando foi preso e acusado de atentado ao pudor, por ter sido apanhado numa casa de banho pública em atos menos próprios de cariz sexual, George Michael foi muitas vezes um provocador. No bom e no mau sentido.

Para a minha geração, foi marcante e é nesse sentido que na minha opinião, deixa um lugar vazio. Quantas e quantas capas de cadernos diários (sem falar nas paredes dos quartos…) foram decoradas com as fotos dele, que saíam na revista Bravo?... Dele, do Nick Kershaw, dos Duran Duran, do Limahl, dos Kajagoogoo, do Boy George, … 

No entanto, quem consegue vender mais de 100 milhões de discos, não o faz só por ter uma “cara bonita”. George Michael tinha um estilo próprio, que foi adaptando ao longo do tempo. Não é por acaso que algumas das suas músicas são, ainda hoje, conhecidas e apreciadas pelas gerações mais jovens. 

Segundo consta, estava a produzir um novo álbum a ser editado em 2017. Acredito que apesar da sua morte, ainda o iremos ouvir. Confesso que tenho alguma curiosidade em perceber em que caminhos musicais andaria, agora. Aguardemos, pois. 

Despeço-me de si, por este ano, desejando-lhe um ano de 2017 cheio de coisas boas e convido-o a ouvir um dos temas que mais me marcou de George Michael – Faith. 


A REVOLTA DAS MULHERES DE MELGAÇO

JOAQUIM DA SILVA GOMES
Como se sabe, até meados do século XIX, os enterramentos em Portugal eram feitos no interior das igrejas. Esta situação foi alterada com os decretos de 21 de Setembro e 8 de Outubro de 1835, elaborados por Rodrigues da Fonseca Magalhães, nos quais o autor considera que os enterramentos no interior das igrejas eram próprios de uma “ignorância da Idade Média”. Perante eles, o país dividiu-se: no centro e sul as populações, de imediato, começaram a construir cemitérios junto às igrejas, enquanto que nas populações do norte, em especial do Minho, as recusas em enterrar os mortos fora das igrejas eram constantes.

Foram várias as revoltas populares que ocorreram um pouco por toda a região do Minho, tendo particular destaque as que se verificaram em Alvarães (Viana do Castelo), Vilaça (Braga) e em Soutelo (Vila Verde). Mas a que nos interessa agora destacar é uma revolta que ocorreu em Melgaço.

Decorria a manhã do dia 16 de Fevereiro de 1886 (um domingo) quando, na igreja de Melgaço, tudo estava preparado para se realizar o funeral de um homem natural da freguesia de Prado (Melgaço). Os boatos que tinham decorrido nos dias anteriores, segundo os quais a população estava a preparar-se para impedir que o defunto fosse sepultado no cemitério da vila, fez com que as autoridades desse concelho esperassem o pior. Nesse sentido, o administrador do concelho de Melgaço resolveu solicitar a presença, logo pela manhã desse dia 16 de Fevereiro, das forças militares, compostas por catorze elementos do regimento de Infantaria 10, de Melgaço, comandados pelo alferes Pires. A preocupação das autoridades de Melgaço era de tal ordem, que estas forças aguardaram a chegada do funeral à entrada da vila, junto à ponte.

Às 9.30 da manhã, hora em que terminaram as cerimónias religiosas, um grupo de mulheres presentes na igreja resolveu apoderar-se do defunto, enquanto que outras levantaram algumas tábuas do chão da igreja e começaram a abrir uma sepultura. Perante isto, o administrador do concelho de Melgaço actuou de imediato, impedindo que as mulheres levassem as suas pretensões avante. Mas estas, indignadas, enveredaram por uma acção ofensiva, começando a ofender e agredir o administrador e outras autoridades presentes, através de murros e enxadadas, enquanto que outras mulheres começaram a tocar o sino da igreja, como sinal de alarme. O administrador, indignado, tentava por todos os meios impedir que as mulheres enterrassem o homem no interior da igreja e, nesse contexto, chegou mesmo a colocar-se dento da cova que as mulheres estavam a abrir. Todavia as mulheres, em número cada vez maior, não desarmavam, retiraram o administrador e continuaram a abertura da cova. Perante esta afronta, o administrador deu ordem às forças militares que usassem a força, quando as mulheres proclamaram em uníssono que “Soldados não atiram contra mulheres!”.

Com dificuldade os militares conseguiram expulsar as mulheres do interior da igreja, mas ao chegarem à porta foram recebidos por uma enorme chuva de pedras, atiradas por outras mulheres e pelos seus maridos, que entretanto tinham sido chamados. Para além das pedras, surgiram muitas foices, paus e até tiros. Deste cenário, resultou o grave ferimento de dois soldados (um atingido com um tiro na cabeça e outro com uma enorme pedra). O administrador, assustado e com as mãos na cabeça, deu ordem para que os soldados abrissem fogo. Mas as mulheres não desarmaram e gritavam que esses tiros eram de “pólvora seca”!

Verificou-se então um cenário absolutamente impensável: os soldados do interior da igreja a dispararem contra a multidão, que se encontrava no exterior. No meio desta confusão, foi morto um homem que tinha vindo buscar a sua mulher (que deixou 4 filhos); uma mulher atingida na face e várias foram feridas com gravidade. Até o padre foi atingido com uma bastonada, que o colocou na cama!

Só depois desta confusão, é que conseguiram sepultar no cemitério o defunto. Quanto à igreja, ficou repleta de pedras e manchada de sangue.

Este invulgar cenário fez com que o Arcebispo de Braga, D. António José de Freitas Honorato, publicasse uma portaria que obrigava o pároco de S. Lourenço de Prado, a proceder a preces públicas, durante três dias, tentando com isto reconciliar a Igreja com os seus paroquianos. 



Nota: Uma semana após esta situação, na freguesia de Vermoim (V. N. Famalicão) verificou-se uma ocorrência semelhante, uma vez que os paroquianos dividiram-se quanto ao destino a dar ao corpo do seu falecido pároco, Manuel Machado: uns defendiam o seu enterramento no interior da igreja, enquanto que outros defendiam o enterramento no exterior. Foram colocadas forças militares a proteger o cadáver, porque os populares ameaçavam roubá-lo! Esta paróquia ficou em autêntico “estado de sítio”!

O NOVO ANO E A ORDEM MUNDIAL

RUI SANTOS
O ano de 2016 está prestes a findar. Para muitos foi mau. Para outros, pelo contrário, foi bom. Opiniões. Não gosto de olhar para trás, mas sim de olhar em frente, para o futuro. Como tal, nesta última crónica de 2016, vou abordar um pouco o que nos espera em 2017 em termos de política mundial.

Começo pelos Estados Unidos da América (EUA). Porquê? Porque a super-potência mundial vai ter um novo presidente no mês de Janeiro. A posse do cargo por parte de Donald Trump está marcada para o dia 20 do próximo mês. Depois da vitória republicana, muitos analistas consideraram que o Trump-presidente seria diferente do Trump-candidato. Creio que em algumas coisas poderemos esperar de Trump uma posição mais ponderada, nomeadamente na relação com a Europa e na questão do fundamentalismo islâmico. O presidente eleito norte-americano já percebeu que não pode chegar à UE e ditar as suas leis, que não é concebível a saída dos EUA da NATO, e que para resolver o fundamentalismo é preciso muito mais do que intervenções militares. Não acredito em Trump. Acho que vai ser um mau presidente mas foi o presidente que o povo dos EUA escolheu e temos que respeitar a sua opção. Chama-se a isso «saber viver em democracia».

No que respeita à Europa, o «Velho Continente» vai continuar a atravessar momentos que poderão complicar o seu futuro. Em 2017 teremos eleições na Alemanha, França e Holanda. Para bem da Europa, desejo que Angela Merkel ganhe na Alemanha e não tenho dúvidas que é isso que irá acontecer. Para bem da Alemanha e da Europa. Não se vislumbra um outro líder político europeu que possa conduzir a Europa nestes tempos conturbados. Não deixa de ser curioso que a própria UE não tenha criado uma liderança capaz de ser suficientemente forte para tomar as rédeas do destino dos europeus. Esse papel é pertença de Merkel. Na França, Marine Le Pen ganhará a primeira volta das eleições e, felizmente, perderá na segunda ronda. A lógica do «todos contra a Frente Nacional», acredito eu, prevalecerá nos franceses que anseiam por um novo presidente depois do equivoco socialista chamado François Hollande. No país das tulipas e dos moinhos, a Holanda, as sondagens dão uma subida da extrema-direita. É algo habitual na Holanda em tempos mais conturbados, mas também é verdade que essas sondagens muitas vezes acabam por não se refletir nas urnas. Contudo, são sinais preocupantes. Se Geert Wilders tiver uma boa votação, o contágio poderá acontecer a outros países europeus. Por falar em contágio, os italianos parecem querer seguir a pisadas dos britânicos em termos de abandono do projecto europeu iniciado no pós-II Guerra Mundial. 2017 vai ser um ano interessante para se saber como vai arrancar o Brexit (até Março) e se o Movimento 5 Estrelas vai ser governo em Itália e arrastar consigo aquele país para a deriva populista.

No leste europeu não se adivinha nada de novo. O fundamentalismo cristão a alimentar políticas populistas, o medo a ser acenado a quem o não deve ter. Como se já não bastasse o que se vive na Polónia, Hungria, República Checa e Eslováquia, também a Roménia dá mostras de ter a intolerância bem implantada junto de quem governa. Recentemente, o presidente do país, Klaus Iohannis, não aceitou o nome de Sevil Shhaideh para o cargo de primeiro-ministro. Embora não tenha dado qualquer explicação, o facto de Shhaideh ser mulher e muçulmana não deverá ser alheio a tal atitude por parte do presidente romeno. A UE tem de olhar para os países da Europa de Leste de um modo especial e não creio que isso vá acontecer durante o próximo ano. O risco de desagregação da UE é enorme caso isso não seja feito de modo gradual e com muita diplomacia. Não se deve dar azo a que os países do leste europeu possam argumentar, ainda mais do que já fazem, contra a ingerência da UE nas políticas internas dos diversos Estados.

A Rússia continuará em 2017 a relançar a sua influência em termos geoestratégicos. Impedir que países da sua órbita de influência adiram à NATO continuará a ser uma prioridade, tal como será o aumento da sua influência na Síria. As relações com a Turquia serão determinantes para toda aquela zona do globo. Um desastre diplomático, ou militar, poderá conduzir a uma escalada de violência ainda maior que a actual naquela parte do planeta, isto numa altura em que os valores democráticos estão cada vez mais arredados do governo de Erdogan. O mundo continuará a tolerar o seu governo pois a alternativa será o caminho da Turquia rumo a um Estado islâmico.

O ano de 2017 será um ano igualmente importante para a relação da China com os EUA. A luta por uma maior área marítima a sul da Ásia, a construção de instalações militares em ilhas artificiais para reclamar maior controle sobre o Mar do Sul da China e a forma como o governo chinês irá lidar com a nova Administração norte-americana serão determinantes para o equilíbrio de forças na região da Ásia/Pacífico.

África continuará a ser um continente adiado, um continente composto maioritariamente por Estados falhados. Depois do colonialismo, as oligarquias, as ditaduras e o fundamentalismo islâmico continuarão a ser a regra. O conceito de democracia é distorcido, ou ignorado, pelos africanos. Vai levar décadas até que África se aproxime minimamente dos padrões de vida ocidentais.

Finalmente, a América do Sul. Brasil e Venezuela são os casos mais preocupantes e que estarão na ordem do dia durante o próximo ano. No Brasil, a corrupção é transversal a todo o sistema político e social. Podem mudar os nomes mas não a forma de actuar. Enquanto não forem feitas reformas de fundo no Estado federal tudo se manterá. Depois do desvario dos governos de Lula da Sila e de Dilma Rousseff temos agora o desvario de Michel Temer e seus acólitos. Um país onde o desenvolvimento vive a par da mais absoluta miséria. Um «next big thing» eternamente adiado. Interessante será ver como se comportará a Venezuela depois do desnorte do «chavismo» e do «madurismo». Até quando os venezuelanos conseguirão aguentar e se a sua revolta será pacífica, ou não, é uma das interrogações para o próximo ano. O desespero entre a população é já elevado há muito tempo. A Venezuela é um barril de pólvora prestes a explodir e cuja consequência é difícil de prever, sobretudo quando Cuba, um dos maiores aliados dos venezuelanos, caminha numa direcção oposta.

Certamente que durante o ano de 2017 irei abordar estes temas em pormenor. Não sei se 2017 será melhor que 2016. O que sei é que o Mundo não vive tempos de esperança. Lutemos, em nome do Humanismo, para que tal rumo se inverta.

TRIBUTO AO “SENHOR GULBENKIAN”, UM HOMEM BOM

+PROF. Aníbal de Jesus
Crónica de Miguel Teixeira
Na tarde do dia de natal de 2016, despedi-me de um amigo e um dos cabeceirenses que ao longo de várias décadas do século XX exerceu, como representante e primeiro responsável pela Biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian uma ação extremamente meritória no apoio à leitura levando o livro às freguesias e aldeias mais recônditas de Cabeceiras de Basto, incentivando hábitos de leitura em centenas de jovens e contribuindo para "democratizar" o acesso à Cultura, num concelho tradicionalmente “pobre, pequeno e com profundas marcas de interioridade”.

Tudo começou em 1958. O Serviço de Bibliotecas Itinerantes (SBI) foi criado nesse ano pela Fundação Calouste Gulbenkian, segundo sugestão de Branquinho da Fonseca.

Almejava abranger todo o território nacional, incluindo os arquipélagos. Tinha como objectivos “promover e desenvolver o gosto pela leitura e elevar o nível cultural dos cidadãos, assentando a sua prática no princípio do livre acesso às estantes, empréstimo domiciliário e gratuitidade do serviço.” O público a quem o serviço se dirigia era principalmente o de menor acesso à educação e cultura, habitando nas regiões mais desfavorecidas e estendendo-se a todas as faixas etárias. Todavia seria entre o público mais jovem que este projeto teria mais acolhimento e sucesso. Quis o destino que um pequeno concelho do interior do Minho como Cabeceiras de Basto fosse contemplado com uma biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian, que circulava ainda por concelhos vizinhos. A inesquecível viatura cinzenta de marca "Citroen", que estacionava quinzenalmente às sextas-feiras na "faixa do meio" da Praça da República começou a circular nas Estradas de Cabeceiras de Basto no final dos anos 50, transportando livros e parando nos principais centros urbanos das freguesias, abrindo as suas portas traseiras e permitindo aos jovens e menos jovens o contacto com os grandes clássicos da literatura mundial e com as melhores coletâneas de banda desenhada. 

O Professor Aníbal de Jesus, para mim, será sempre o "Senhor Gulbenkian" um verdadeiro "gentleman" de trato afável, extremamente culto e educado que me possibilitou desde o final dos anos 70 do século passado, o contacto com os melhores romances e autores da literatura mundial. Devido a ele e à Biblioteca Itinerante da Gulbenkian, desde muito cedo pude ler "As aventuras de Tom Sawyer e Huckleberry Finn de Mark Twain, "O Conde de Monte Cristo" e "Os três mosqueteiros" de Alexandre Dumas, "Os Miseráveis" de Vítor Hugo, bem como o drama, as aventuras, cumplicidades e humanismo do "Gaitinhas" e "Gineto" e de um grupo de meninos de um bairro pobre junto ao Rio Tejo excecionalmente narrado por Soeiro Pereira Gomes nos "Esteiros", a sua obra prima. E por isso, considero que fui um "privilegiado". Tenho para mim que o nosso destino como seres humanos é em grande parte moldado pelo nosso esforço e determinação, pela luta e persistência na prossecução dos nossos objetivos de vida, mas há também uma parte importante que pode facilitar ou dificultar esse caminho e que depende das pessoas com quem nos cruzamos ao longo da nossa existência e que podem exercer uma influência positiva naquilo que somos, como transmissores de valores e princípios. Ora o Professor Aníbal de Jesus foi essa pessoa para o meu pai, acabando indiretamente por influenciar positivamente a minha vida e da minha família. Em Abril passado e depois de uma visita que fez ao Professor Aníbal no Centro Social e Paroquial de Cavez, onde se encontrava ainda lúcido, mas já debilitado fisicamente, o meu pai Gaspar Teixeira contou-me uma história que me deixou sensibilizado e que eu não conhecia. Por alturas de 1959/1960 , nas férias escolares do Colégio de S. Miguel de Refojos, com 15 anos de idade, colaborava voluntariamente com o Professor Aníbal de Jesus e com a biblioteca da Gulbenkian, nas suas incursões pelo interior do município de Cabeceiras. Tinha a responsabilidade de registar as devoluções e as saídas dos livros e ao final do dia era convidado pelo Professor para jantar na sua Casa do Esqueiro, continuando aí as suas conversas em refeições exemplarmente confecionadas pela D. Alda , sua esposa. Ora, quando o meu pai fez exames do antigo 5º ano do Liceu (hoje 9º ano de escolaridade), no Liceu Sá de Miranda em Braga e obteve aprovação com excelentes notas, o Professor Aníbal procurou a minha avó Deolinda e disse-lhe "que era uma pena que o rapaz não continuasse os seus estudos até à Universidade, com as notas que tinha e com as capacidades que revelava". A minha avó Deolinda, que já estava a visualizar o meu pai como funcionário da mercearia do Sr. Aferidor na Praça da República, agradeceu ao Professor Aníbal a preocupação com o futuro do rapaz e respondeu que percebia tudo, mas a família infelizmente não tinha condições económicas para que o meu pai pudesse estudar em Braga e fazer o antigo sexto e sétimo anos do liceu. Além disso, em casa havia "sete bocas para alimentar e outras prioridades". O professor Aníbal replicou que "a Fundação
Calouste Gulbenkian tinha um programa de bolsas de estudo a nível nacional, destinado a apoiar jovens com excelente aproveitamento escolar provenientes de famílias com limitadas capacidades económicas" e que "o Gaspar cumpria os requisitos exigidos", pelo que iria "preencher os papéis e requerer a bolsa de estudo", ao que a minha avó concordou. Com efeito, a bolsa de estudo da Fundação Calouste Gulbenkian haveria de ser deferida, permitindo ao meu pai concluir os seus estudos secundários e a licenciatura em Ciências Geológicas pela Universidade do Porto em 1967, tendo sido "bolseiro da Gulbenkian" até ao fim dos seus estudos. O professor Aníbal podia não ter dito nada à minha avó. A minha avó não percebia nada e seguramente o meu pai percebia muito pouco de "bolsas de estudo", nem da parte burocrática que era necessário transpor para que a candidatura fosse apresentada. Vivíamos então num país, cujo regime vigente "torcia o nariz" à "mobilidade social" e numa época (início da década de sessenta) em que fazer os estudos secundários e superiores era um "luxo" a que só as famílias de bons recursos económicos podiam almejar, o que não era o caso da minha. No entanto, o professor Aníbal não desistiu e ao assumir essa atitude, acabou por condicionar positivamente o futuro do meu pai e consequentemente o meu e da minha família. E isso é algo que eu não posso esquecer estando eternamente grato, assim como a minha família a esta figura que exerceu durante a sua vida uma notável ação cultural em Cabeceiras de Basto.

Que a sua alma descanse em paz.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

PROSTITUIÇÃO: DISCUTIR OU ASSOBIAR PARA O LADO?

MOREIRA DA SILVA
O tema da prostituição não é pacífico nem consensual, talvez porque esteja impregnado de tabus e, por isso mesmo, ou talvez não, também está envolvido em polémica, pelo menos quando se aborda o assunto publicamente. Talvez seja mais consensual e mais pacífico, se for feita uma abordagem pelo lado da degradação do ser humano, principalmente a prostituição de rua, a prostituição nas bermas das estradas nacionais ou secundárias, que se vê por todos os cantos e esquinas do nosso país. Infelizmente é uma degradação tal que parte o coração de quem tem, dentro de si, alguma humanidade.

Quero acreditar piamente que são muitas as prostitutas que se sentem secas por dentro, pois quando eram mais novas, provavelmente sonhavam em ter um lar, ter uma família, ter um filho para dar o que (talvez) nunca tiveram: amor. Devem ser pessoas a quem tudo foi destruído e possuem um coração desfeito em pedaços de sofrimento e têm a alma sombria, muitas vezes desde a tenra idade. Como um ferrete têm a marca da infelicidade, bem gravado em todos os cantos do corpo carcomido pela vida. 

A dignificação do ser humano, que é a prostituta (de rua, de estrada) deveria ser a parte mais importante de uma chaga social, que sem medo, sem tabus, deveria ser enfrentado com a coragem dos valentes, aliás como já fez o Papa Francisco, que em meados deste ano surpreendeu tudo e todos, quando se sentou a conversar com um grupo de vinte antigas prostitutas, todas com idade a rondar os trinta anos, que vivem sob proteção, depois de terem sido salvas dos homens que as obrigavam a prostituir-se e que sofreram abusos físicos graves. Francisco tem qualificado o tráfico humano que está por detrás da prostituição, como um «crime contra a humanidade». Eu acrescento: um crime hediondo contra a humanidade! 

A prostituição é uma atividade de alto risco. Ao longo dos tempos têm sido muitas as prostitutas que foram assassinadas pelos «seus clientes». Em meados deste mês de Natal, o Tribunal de Guimarães iniciou o julgamento de um homem acusado de matar, por asfixia, uma prostituta. O arguido apertou o pescoço à vítima e tapou-lhe a cara com uma almofada, para impedir que ela gritasse. Uma situação que durou alguns minutos, até a mulher morrer.

O tema da prostituição tem estado fora da agenda política, mas deveria ser um assunto abertamente discutido pela sociedade civil. Os decisores políticos, em vez de considerarem um assunto não prioritário e assobiarem para o lado, como se o problema não existisse, o que deveriam fazer era enfrentarem o problema, com o máximo de humanidade. 



O que está em causa são Pessoas e a sua dignidade. Tão só isso!

NATAL

LUÍS CUNHA
No Natal não se «cronica» senão indolentemente… ou então amargamente. O Natal cansa de diferentes e até contraditórias formas. Os verdadeiros crentes, imagino eu, hão-de achar que o circo que se monta entre o shopping e a consoada nada tem a ver com a mensagem de Jesus. Os não crentes, como eu, não conseguem escapar ao clima geral, e mesmo que se queiram ficar por umas lascas de queijo, um punhado de azeitonas e meia garrafa de vinho não escapam à desbunda gastronómica e consumista. Entre uns e outros fica a esmagadora maioria, gente demasiado ocupada para se preocupar com velhíssimas mensagens proferidas na Galileia profunda, ao mesmo tempo que demasiado deslumbrada por montras e escaparates para ver para lá das luzes que a ofuscam. Esta gente, que é a maioria e por isso mesmo tem o poder de determinar a ordem certa das coisas, filia-se no catolicismo com a mesma desenvoltura e impudícicia com que se filiariam noutra coisa qualquer que não lhe trouxesse aborrecimentos e que fosse simpática à maioria.

Eu cá não sei, mas desconfio que se Jesus por aí aparecesse e armasse um escarcéu dos antigos essa gente não ligaria pevide, antes removeria o desbragado por insolência e má figura. Importa pouco: afinal Jesus já viveu há muito tempo e hoje, como todos sabemos, os vendilhões do templo cuidam do sistema financeiro com o máximo desvelo e sem merecer censura. Desconfio até que não haja gente menos cristã que esta qualidade de católicos, ufanos por mostrar o pinheirinho e o presépio, ansiando por reencontrar a velha e boa ordem de antigamente. Não podendo já recuperar o Natal do Sinaleiro, essa gente não descansa enquanto não instituir o Natal do Precário. Forma pungente de ajudar os desvalidos, os que saltitam entre tarefa e desemprego, empurrados num momento, chamados no seguinte, sempre no fio da navalha, aves de arribação que precisam ser adestradas na virtude da humildade.

Afinal essa foi a única parte da mensagem de Cristo que apreenderam, e mesmo assim de forma transviada: ficou-lhe a vontade de ajudar os pobrezinhos, e de forma tão profunda e assinalada que acham um desvario qualquer ideia de acabar com a pobreza. Pois então, extintos os pobres, que seriam dos ricos e remediados? A quem se daria esmola? Que voluntários seriamos nós se não houvesse sopa dos pobres? A distinção, a sacrossanta distinção que nos leva a cerrar os olhos em sofrida amargura durante a consoada, enquanto pensamos nos que nada têm, que seria de nós sem essa distinção que faz de nós o que somos?

Eu avisei que escrever por estes dias só podia dar crónica indolente ou amarga. Deu para o amargoso, tipo azeitona mal curtida. Para esta prosa obedeça ao prometido e não fique desavinda dos livros que outros escrevem, fico-me com a evocação de Jesus que Fernando Pessoa fez por uma das várias pessoas que ao mesmo tempo foi. Alberto Caeiro imaginou o regresso de Jesus nos seguintes termos:

«Tinha fugido do céu.

Era nosso demais para fingir de segunda pessoa da Trindade.

Um dia, que Deus estava dormindo

e que o Espírito Santo andava a voar

Ele foi até a caixa dos milagres e roubou três.

Com o primeiro, ele fez com que ninguém soubesse que ele tinha fugido.

Com o segundo, ele criou-se eternamente humano e menino.

E com o terceiro ele criou um Cristo e o deixou pregado numa cruz que serve de modelo às outras».

Bons milagres estes, sem dúvida. Forma, talvez, de corrigir o que começara mal. É Alberto Caeiro quem o diz:

«Seu pai eram duas pessoas: um velho carpinteiro

e uma pomba estúpida, a única pomba feia do mundo.

E sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher, era uma mala em que ele tinha vindo do céu».

Não é boa coisa, nem nada que se recomende, ser filho de uma mãe que nunca amou. Bem sei que Jesus quis compensar isso, propondo-se amar toda a humanidade, desmesura própria dos deuses mas também dos loucos. De qualquer modo, de uma forma ou de outra, certo é que Jesus foi uma criança. Os Evangelhos não nos dizem se foi uma criança como as outras ou se delas se distinguiu desde o começo. Será, portanto essa a lacuna que Fernando Pessoa, encarnado em Alberto Caeiro, se proporá corrigir. Devolve-nos, por isso, um Jesus criança e humano como nós. Que falta nos faz um Jesus que seja nosso, quero eu dizer, humano e devotado às causas dos humanos! De todos aqueles que longe do céu se amamos se amam com o mesmo afinco com que lutam, ora devotados à alegria e aos prazeres do corpo, ora solidários e em comunhão, buscando um mundo melhor. O Jesus de Caeiro

«.. é apenas humano,

limpa o nariz com o braço direito,

chapina as possas d'água; colhe as flores, gosta delas,

esquece-as.

E porque sabe que elas não gostam e que toda a gente acha graça,

ele corre atrás das raparigas que carregam as bilhas na cabeça e levanta-lhes as saias».

Como não há profeta que sempre dure nem pecado que não se acabe, acho que o Jesus do poema havia de ser um bom companheiro. O melhor para os natais que virão a seguir a este que agora acaba, e se vai sem deixar destacada memória, boa ou má, mas levando com ele os destroços de mais um Natal de prendas inúteis e bacalhau da Noruega.

SUBSTITUIÇÕES, COMO ALTERAR O PLANO DE JOGO?

ANDRÉ QUEIRÓS 
Estando uma equipa em desvantagem no marcador ou com um resultado que por várias razões lhe seja desfavorável normalmente assistimos a alterações por parte dos treinadores nos jogadores em campo, ou na estrutura da equipa, tendo em vista torná-la mais ofensiva, ou precisamente o contrário, quando o resultado lhes é favorável. Tendo isto em conta nesta crónica vou-me focar mais na situação em que os treinadores se encontram em desvantagem e por vezes me parece que não existe um trabalho consistente de um plano b, de uma estrutura ou uma alteração de dinâmicas ofensivas tendo como objetivo transformar a equipa num coletivo mais perigoso e capaz de criar mossa no oponente. 

Nesta época natalícia tive a oportunidade de assistir a alguns jogos e pude constatar que a grande maioria das equipas que se coloca em vantagem no marcador não perde o jogo, e assistimos também a uma reação da equipa em desvantagem a procurar com grande insistência colocar a bola na área do adversário, próximo de zonas de finalização e de qualquer maneira. Com isto pude constatar que muitas vezes a equipa fica com mais pressa de chegar à frente mete a bola mais depressa na área, mas não aumenta a velocidade de jogo no sentido construtivo e desequilibrador do oponente. 

Pegando no exemplo do Benfica, equipa que tem tido resultados bastante positivos ultimamente, o que faz quando se encontra em desvantagem ou na procura de fazer golo para vencer a partida? A equipa inicial apresentada numa estrutura de 1x4x4x2 clássico, com uma ou outra alteração na dinâmica dos dois médios centro, fruto também das características individuais de cada jogador e que podem oferecer á ideia de jogo da equipa, mas existe um denominador comum, os dois avançados têm características completamente diferentes, um é mais móvel e com grande qualidade com a bola no pé, um desequilibrador entrelinhas sendo o outro alguém com características mais fixas, próximo da área adversária e de zonas de finalização. No entanto quando quer tornar o seu coletivo mais ofensivo Rui Vitória coloca outro avançado mais fixo, ficando com duas referências mais próximas da área adversária, e assistimos a um Benfica com um jogo mais direto, a apostar em jogo exterior de envolvência dos laterais e alas a procurar cruzamentos e bolas paradas para resolver.

Recentemente vimos Gonçalo Guedes a iniciar na frente com Jiménez (vs Estoril e Sporting) e contra o Estoril quando quiseram apostar tudo na procura da vitória o treinador passa Guedes para a ala, tira Cervi e coloca Mitroglou em campo junto do mexicano. Quando percebe que não consegue avolumar o resultado tira Jiménez, colocando Jonas em campo, o tal avançado de características móveis, e mais semelhante a Gonçalo Guedes, recuperando a sua equipa a identidade inicial. 

Como nós somos o que fazemos repetidamente, vejamos a mudança da dinâmica ofensiva do jogo do Benfica em desvantagem, muitos cruzamentos para explorar a forte presença na área de Mitroglou e Jiménez, será isto treinado e pensado, ou apenas um chuveirinho desesperado na procura do golo? Na minha opinião muito bem treinado e planeado, e para quem tiver dúvidas basta analisar o número do golos que o Benfica fez esta época e na transata a partir de jogo aéreo, cruzamentos e bolas paradas através destes dois avançados. Como se costuma dizer, a sorte dá imenso trabalho!

O ANO NOVO E O NUMERO 7

REGINA SARDOEIRA
Não é possível fazer a síntese de tantas palavras ditas, palavras que pulam por aqui e por ali, ultrapassando a pregnância de certos temas comuns e já debatidos nas condições particulares do homem no mundo. Parece muito importante discutir sobre os perigos que nos rondam onde quer que vamos; mas eu não sei se poderei alvitrar seja o que for de original, para lamentar a quantidade de energia que passa para além de todos os limites. Imagino que seria melhor invertermos o caminho e começarmos a construir juntos um lugar onde fosse ainda possível viver. Como uma criança que precisa de ganhar confiança para além das possibilidades finitas do caminho onde a situam, e depois, inevitavelmente, declina para uma actividade esclarecida que o mundo, a seguir, vai premiar ou destruir, esta ordem linear não significa necessariamente a nossa essência. 

Deste modo, o processo completa-se e os homens amarram-se, entre si, com sólidas cadeias. Não tenho qualquer solução a apresentar para redimir obstáculos. Todos, ainda que silenciosos, e depois inevitavelmente compelidos a evocar a trajectória subtil de qualquer aproximação, lamentam o passado e comprometem-se, consigo mesmos ou perante multidões, a arrepiar caminho na senda de um futuro promissor. Só que tal futuro não existe. Feito de pequeníssimos instantes, o tempo derrete insensivelmente as metáforas com que nos deixamos iludir na ânsia de apanhar, um pouco mais à frente, o sonho almejado desde a infância. E, tornados homens ou mulheres, vemos a nossa pequena condição, irrequieta e sonhadora, atolada em ilusões desfeitas, carregada do verniz falso de um tempo iludido; e deixamos de ter fé. Ou esperança. 

Sei bem que vem aí um novo ano. Termina em 7, e agrada-me. 

Pitágoras, o filósofo, matemático e místico, criador da aritmologia, acreditava no poder primordial do número, considerando a década - os números de 1 a 10 - como tendo em si a significação e a essência do universo. O número 7 tem sua origem na soma dos antagónicos e complementares: o 1 (individual) com o 6 (colectivo), o 2 (dividido) com o 5 (integrativo), o 3 (criativo/imaginativo) com o 4 (realista/concretizador). Nestas ligações aritméticas o número 7 denotará desenvolvimento, recolhimento e perfeição no âmbito físico e espiritual. 

Não faço ideia se as propriedades esotéricas, atribuídas por Pitágoras aos números, poderão servir de arrimo ou de justificação para triunfos ou desaires. Sei, contudo, que decidi considerar auspicioso o número com que termina o ano que vai começar, saturada que já estou deste 6, demasiado torcido sobre si mesmo, na redundância de um ventre rotundo onde tudo pôde concentrar-se. E é por isso que acredito na emergência cristalina do dia 1 de Janeiro de 2017 e não sinto qualquer nostalgia destes doze meses cujo sentido coeso está prestes a findar.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O PODER DAS PALAVRAS

TIAGO CORAIS
O ano de 2016 está quase a terminar e se em termos pessoais foi um ano da realização de um dos sonhos da minha vida, em termos Mundiais foi um ano marcado pelo populismo, pela demagogia e a divisão entre os Povos. Brexit e Trump representam para mim um retrocesso na História da Humanidade e é preciso que sejam combatidos através das PALAVRAS.

Trump e parte dos argumentos do Brexit, infelizmente são a resposta simples a problemas complexos. Aceitá-los afirmando que representam a luta do Povo contra a Elite é um péssimo serviço que fazemos à Humanidade. É preciso com pedagogia afirmar que o que está mal não se combate com coisas bem pior, mas também é preciso perceber qual as razões que levam a que metade dos Cidadãos não exerçam o seu direito de voto, autoexcluindo-se de participar na Democracia. 

No jantar de Natal da Oxford European Association, uns amigos Espanhóis estavam a falar sobre a política espanhola e um perguntou a uma amiga se tinha votado nas últimas eleições espanholas. Ela respondeu que não, argumentando que estava farta de votar num partido, no seu contrário e não sentir as mudanças, nem melhorias. A sensação que tinha é que tudo ficava na mesma. Eu meti-me na conversa e tentei-lhe explicar que na minha opinião ela estava certa 50%, mas que havia factores externos hoje que não permitem a Países como Portugal, a Espanha, a Grécia e Itália de mudarem as suas políticas. Não vou aqui partilhar os argumentos que exprimi, pois isso daria outro artigo, mas o propósito da partilha desta conversa que tivemos é que depois deste debate informal fiquei com a impressão que os meus argumentos a fizeram pensar, apesar de ter a noção que ainda não alteraram a sua forma como participará nas próximas eleições espanholas.

Por isso, credibilizar as Democracias não é uma tarefa fácil, mas não devemos desistir, nem abdicar da PALAVRA. Quando comecei a escrever artigos para a BIRD Magazine, aproveitei esta oportunidade para criar um grupo no Facebook que se chama “O PODER DAS PALAVRAS”. Neste fórum discutimos os temas dos artigos que irei escrever. “O PODER DAS PALAVRAS” espera ser um projecto que consiga mobilizar a sociedade civil, debatendo/tratando temas difíceis e criando opinião. Tem como objectivo de se transformar num “Think Tank” Português, que promova um Mundo Cosmopolita, Diverso e Progressista. 

“O PODER DAS PALAVRAS” vai fazer a primeira iniciativa no dia 6 de Janeiro, em Braga, que se chama “CONVERSAS COM CIDADÃOS DO MUNDO”. O objectivo desta iniciativa será que Portugueses a residir fora do País e Estrangeiros a residir em Portugal, não só tragam “Valor” ao nosso País, partilhando os bons exemplos dos locais onde residem ou são de origem, como também tomemos consciência daquilo que somos melhores que os outros.

Nesta primeira sessão teremos Portugueses a residir nos EUA, Suécia, Reino Unido e teremos um Italiano, um Alemão e um Chileno, que nos proporcionarão duas perspectivas diferentes. Partilharão connosco a cultura e como funcionam os vários sectores nesses países. Para alimentar estas conversas teremos um “painel de luxo” da sociedade civil que fará perguntas e pequenos comentários que nos ajudarão a orientar o debate.



Oradores “Cidadãos do Mundo”:
1- Marco Bravo, a residir no EUA. (https://ic2.utexas.edu/people/marco-bravo/)
2- Andrea Zille, Italiano a residir em Portugal. (https://pt.linkedin.com/in/zille)
4- Eberhard Fedtke, Alemão a residir em Portugal.(http://bomdia.eu/apresentacao-do-livro-a-caminhada-um-alem…/)
5- Claudio Sunkel, Chileno a residir em Portugal. (http://www.dn.pt/…/do-chile-para-braga-por-amor-5326490.html)
6- Tiago Corais, a residir no Reino Unido. (https://www.youtube.com/watch?v=yXVi_Ka4c_I&feature=youtu.be)

Oradores da Sociedade Civil:
2- Pedro Arezes, Director do Programa MIT Portugal e Professor Universitário da Universidade do Minho (http://www.rtp.pt/…/pedro-arezes-catedratico-da-uminho-e-o-…)
3- Isabel Estrada Carvalhais, Professora Universitária em Ciência Política da Universidade do Minho (http://www.eegnews.info/rtp-informacao-situacao-na-grecia-…/)
4- Maria Augusta Ribeiro, Professora Aposentada e com vasto trabalho no movimento associativo (http://tertuliafafense.blogspot.co.uk/…/tertulia-fafense-n-…)
5- António Magalhães, Autarca e Ex-Presidente da Câmara Municipal de Guimarães. (http://www.rtp.pt/…/presidente-da-camara-de-guimaraes-e-can…)

Termino este artigo convidando todos os leitores da BIRD Magazine a participarem nas “Conversas com Cidadãos do Mundo”, increvendo-se através do email: corais.tiago@gmail.com , ou através dos telemóveis: 962 910 028/917 889 384 / 925 347 945.

Boas Festas!

FISIOTERAPIA RESPIRATÓRIA

LIANE SANTOS
A Fisioterapia Respiratória não passa apenas pelo tratamento, mas também a prevenção de patologias respiratórias. Além disso, as técnicas aplicadas visam melhorar a função pulmonar, libertar as vias respiratórias, expulsar secreções pulmonares.

A principal função do aparelho respiratório é a ventilação, visando manter o fornecimento adequado de oxigénio aos tecidos e remover, também de modo adequado, o dióxido de carbono, o sistema pulmonar tem também outras funções não respiratórias:

Regulação do Equilíbrio Ácido-Base;
Defesa
Mecânicas
Fagocitárias (actividade celular e humoral)
Imunitárias
Metabólicas
Fosfolípidos e estabilidade alveolar;
Hematológicas
Circulatórias
Permite a fonação


Há medida que as pessoas envelhecem alguns alvéolos são substituídos por tecido fibroso e, como tal, as trocas de oxigénio e de dióxido de carbono diminuem. O envelhecimento causa ainda uma diminuição das trocas gasosas através das membranas pulmonares. Dessa forma, a capacidade respiratória diminui, pois os músculos da respiração ficam enfraquecidos e o tecido pulmonar perde parte da elasticidade. Por volta dos 45 anos de idade a capacidade pulmonar é geralmente reduzida para cerca de 82% daquilo que se considera óptimo, por volta dos 65 anos essa capacidade ronda já os 62% e quando são atingidos 85 anos a capacidade pulmonar é já cerca de 50%.

Indicações da fisioterapia respiratória:

Recomendado em patologias pulmonares crónicas, como a asma, a bronquite crónica, o enfisema, as bronquiectasias, fibrose cística, doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC). Todavia, é muito importante fazer uma correta avaliação do utente pois também existe o perigo de contra-indicações.

Avaliação do utente respiratório

Anamnese + Exame Subjectivo + Exame Objectivo

De forma a estabelecer ou confirmar um diagnostico, definir objectivos, delinear estratégias de intervenção e verificar resultados.

Anamnese
Características antropométricas
Idade
Peso
Altura
Historia Pessoal
Profissão
Estilo de vida
Hábitos de lazer
Antecedentes
Patologias broncopulmonares ou cardíacas
Patologias neurólogas ou ortopédicas
Patologias cutâneas
Historia familiar
Tratamento anterior
Medicação
Características da patologia actual
Inicio
Sintomatologia
Evolução
Características
Forma como o utente vê a patologia e de que forma esta afecta a sua vida
Sinais funcionais
Tosse
Expectoração
Dor
Dispneia


O fisioterapeuta procura aumentar a capacidade ventilatória dos pulmões, utilizando técnicas manuais coadjuvadas de decúbitos, técnicas mais invasivas de maneira a mobilizar as secreções e por fim, expulsa-las.

Os exercícios e as técnicas que facilitam a respiração e a drenagem das secreções brônquicas costumam ser simples e de fácil execução. No entanto, é o fisioterapeuta que deve seleccionar os procedimentos adequados para cada caso específico, devendo igualmente executá-los com o utente para que este aprenda a efectuá-los.

NASCIMENTO E MORTE DE CRISTO - O ESPÍRITO DO NATAL

MARIA ISABEL ROSETE
Não há propriamente uma data circunscrita nem para o nascimento, nem para a morte de Cristo – essa extra-ordinária e iluminada figura que a História nos doou por vontade de Deus, Deus feito homem (diz-se!) – para além daquelas que são demarcadas no calendário.

Não obstante estarmos, nesta época de todos os devaneios possíveis, a comemorar o nascimento de Cristo e, por extensão, a Paz, a Solidariedade, a Luz, a Verdade, o Bem, o Amor ou a Amizade, não nos podemos esquecer que a Humanidade, continua a sofrer, a ser martirizada e crucificada como Cristo o foi, um dia, assim como tantos outros judeus.

Iludir a realidade pelas comemorações natalícias convencionais não faz, jamais, a Humanidade crescer, pensar, reflectir, sobre esse sofrimento, físico e psíquico, de que ela mesma é vítima, a partir das suas próprias mãos, ensanguentadas, amiúde, pelo sangue jorrado dos corpos inocentes.

Enquanto uns estão à mesa, na noite de ceia, a confraternizar com as suas famílias, em serenidade e alegria, deliciando-se com o mais requintado dos manjares, trocando os mais caros e belos presentes, outros morrem de subnutrição, são vítimas de balas perdidas, da má-fé, das guerras sanguinárias, da violência gratuita.

Claro que este texto - escrito a propósito de uma lucida discussão recente com um amigo meu sobre o filme de Gibson, “A Paixão de Cristo” - é, naturalmente, provocatório, propositadamente provocatório, se nos centrarmos, apenas e redutoramente, de modo cego e mouco, no contexto natalício (cor-de-rosa) que estamos vivendo. Porém, o objectivo é mesmo esse: abanar as consciências, incitar as mentes à mais profunda reflexão realista, fazer renascer o espírito-crítico, por detrás e para lá de todas as máscaras ou de todos os discursos demagógicos da solidariedadesinha, da caridadesinha. O Sofrimento, a Maldade, a Crueldade, não acabam pelo simples facto do Natal ser celebrado. Lamentavelmente continuam: bem visíveis para uns (aqueles que o sentem na pele e na alma); camufladamente para outros (aqueles que se auto-iludem - os tais cegos e moucos).

Recuso-me a ludibriar a realidade; recuso-me a compactuar com a hipocrisia dos Homens, que só se lembram que há mendicantes, crianças e velhos moribundos e desamparados, povos em guerra, quando o Natal é, oficialmente, comemorado. A memória dos Homens deve deixar de ser curta; a memória dos Homens não deve ser unicamente testada, assim como a sua humanidade (ou suposta humanidade), quando o socialmente instituído é festejado.

O Espírito do Natal jamais se deve restringir ao dia 25 de Dezembro. O Espírito do Natal deve estar presente em todas as mentes, todos os dias. As luzes que, incandescentemente iluminam as ruas, não conseguem eliminar a miséria humana, pelo menos aos olhos daqueles que vêem sempre mais longe, para além das aparências, das convenções, dos preconceitos, ou do chamado política e socialmente correcto.

Então,

SEJAMOS NATAL

Para além de todas as demagogias,
Para além do politicamente correcto,
Para além de todas as hipocrisias,

Celebremos, finalmente, o Espírito do Natal
Em todos os momentos
Desta nossa existência, tão efémera!

- Natal é: Fraternidade, Solidariedade, Paz,
Amor, Alegria na Terra
E nos Corações dos Homens;

- Natal é: a celebração do autenticamente Humano
Em toda a sua essência autêntica
De Bondade e de Verdade;

- Natal é: o enaltecimento de um Mundo
Onde não haja mais lugar para a Crueldade,
Para a Violência ou para a Agressividade;

- Natal é: a reunião dos Corações sensíveis
Que lutam, desesperadamente, pela União
Dos Povos e das Nações;

- Natal é: a rejeição da Discriminação,
Dos horrores da Guerra,
Da mutilação dos Corpos e das Almas;

- Natal é: a consciência da Miséria Humana,
O compromisso da sua superação,
O enaltecimento da Justiça e da União fraternas;

- Natal é: o triunfo do Bem e do Belo,
A glória de todos os Renascimentos,
A comemoração da Dignidade Humana;

- Natal é: a bênção do sempre Novo,
O louvor de todo o acto de Criação,
De Renovação e de Regeneração.

Sejamos Natal,
Hoje, sempre,
Para sempre!

EM TEMPO DE CELEBRAÇÕES E FERIADOS

CRÓNICA DE JOANA BENZINHO 
Na Guiné-Bissau as festas e feriados são vividos de uma forma muito particular, fruto da sua diversidade religiosa, social e cultural.

Num país de cariz predominantemente animista, a população reparte os credos entre islamismo (quase 50%), o catolicismo (cerca de 12%) e outras religiões de menor expressão. 

O Natal que agora celebramos, apesar de apenas ter significado espiritual para uma minoria da população, é vivido por todos sem excepção. Nem que seja pelo facto de ser feriado. Com a particularidade de os feriados na Guiné-Bissau que são ao sábado ou ao domingo serem habitualmente celebrados no dia útil seguinte. 

O mesmo se passa com os dias sagrados do islamismo, como o Eid al-Adha ou festa do sacrifício em que no mundo muçulmano se mata um carneiro para partilhar com a família, amigos e os mais pobres e que é para esta comunidade a celebração mais importante do ano ou o Eid al Fitr, o dia festivo que marca o fim do Ramadão. Qualquer um destes feriados é religiosamente celebrado por todos os guineenses, sejam eles ateus, animistas, crentes neste ou naquele Deus.

Mas saindo da religião e deixando de parte os feriados nacionalistas ou ligados à luta de libertação que apelam obviamente ao lado mais emocional de cada guineense, de referir o primeiro de maio, dia do trabalhador, em que a festa ganha contornos como nunca vi em mais nenhum país. Os preparativos desta festa começam dias ou semanas antes. Se alguns nos pedem a "festa" na estrada ou nos sítios públicos - uma

gorjeta para ajudar às celebrações do dia do trabalhador com um pouco de vinho de caju - outros agarram na família ou amigos e partem para um

piquenique ou uma ida à praia. 

Em Quinhamel, a 50 km da capital, as praias de mangais enchem-se de jovens e menos jovens, e na estrada de acesso à praia assistimos a verdadeiros engarrafamentos e extensas romarias a pé com a lancheira aos ombros e o djambé para um dia bem animado. Também o areal da praia de Varela, a quase 5 horas de Bissau, fica completamente repleto e a festa faz-se de dia e também pela noite dentro.

É irónico que num país onde é altíssima a taxa de desemprego, nomeadamente jovem, se vibre tanto coma celebração deste feriado que celebra a luta dos trabalhadores. O dia é encarado com tanta seriedade que deixo aqui uma pequena história que para mim foi reveladora. Em 2014, com um grupo de amigos, decidimos limpar a área circundante de uma escola nos arredores de Bissau que estava imunda e as crianças brincavam entre dejectos vários e lixo domestico acumulado, paredes meias com o recreio. Para fugir ao calor fomos bem cedo e munidos de mascaras, pás e carrinho de mão, fizemos à vontade uns 30 ou 50 transportes de lixo para um local em que depois procedemos a uma queimada.

Umas crianças que ali estavam a observar-nos ofereceram-se prontamente para dar uma ajuda mas, dos três ou quatro adultos presentes, nada. Estranhámos e um dos elementos do nosso grupo provocou um dos "mirones" perguntando porque não nos dava uma ajuda dado que até leccionava naquela escola. A resposta não se fez esperar. Nem pensar em trabalhar no dia 1 de Maio! Perante tal resposta e esvaziados de qualquer argumento continuamos o nosso trabalho.

Porque assim se vivem os feriados na Guiné-Bissau. De alma e coração.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

O PAI NATAL ESCONDEU O MENINO JESUS

JORGE NUNO
No “Natal dos Hospitais” – programa anual da RTP1 nesta época festiva – o apresentador/entrevistador, agachado, perguntava a uma criança: “Então diz-me lá, porque gostas tanto do Natal?”. Resposta pronta, simples e direta do miúdo, com um sorriso rasgado: “Porque recebo muuuitaaaas preeendaaaas”!

Esta resposta é a confirmação do que qualquer responsável de marketing há muito sabe: “Natal – época de aumento exponencial de vendas”. Aliás, a própria RTP1, no seu “Jornal da Tarde” de 21 de dezembro de 2016, revela um estudo do IPAM, coordenado por Mafalda Ferreira, a indiciar que nesta época de Natal “o consumo com compras de Natal vai ser o mais alto dos últimos seis anos”, havendo a previsão de um aumento de 24% face a 2015. Sendo dito, na reportagem, que se houver falhas é por defeito, ou seja, o consumo poderá ainda ser maior do que o previsto.

No mesmo canal, no programa “DDT - Donos Disto Tudo”, surge um sketch humorístico que se desenrola no setor de brinquedos de um hipermercado e tem três personagens: “Gostosona” [Joana Pais de Brito, a fazer de mascote de Natal, vestida de vermelho]; “Linguadão” [Eduardo Madeira] como alternativa à Gostosona”, e o “diretor de markeking de uma cadeia de hipermercados” [Joaquim Monchique]. Em estilo hip-hop, supostamente pretendia-se cativar a atenção de crianças. O diretor de marketing fazia recomendações aos colaboradores apalhaçados e lembrava: “(…) é uma maneira de sacar a guita aos paizinhos deles”. A dado passo, destacava-se o Linguadão a cantar: “Não aceitem as peúgas. Vocês têm de aprender a ser pedinchões, umas autênticas sanguessugas. Com o Linguadão é só gastar… gastar!...” 

Recebi, do poeta amigo – Henrique Pedro –, um e-mail com votos de Boas Festas e um link com um poema de sua autoria. Coincidência… o título tem algo de semelhante com o que tinha definido para esta minha 50.ª crónica, escrita para a BIRD Magazine. O título do poema é: “Deitaram o Pai Natal na Manjedoura no Lugar de Jesus”. Comecei e ler o poema e achei-o muito oportuno e descrevo apenas uma estrofe:

“(…) Converteram-no [ao Pai Natal] em mito comercial

e deixaram-no na manjedoura

para vender o feno e a palha do berço

e o esterco do estábulo

(…)”.

Porque entendo que o poema merece ser lido na íntegra e o poeta merece maior notoriedade, deixo aqui o link: http://henriquepedro.blogspot.pt/2016/12/deitaram-o-pai-natal-na-manjedoura-no.html

Também no meu romance “As Animadas Tertúlias de Um Homem Inquieto”, o Filó, personagem central, tem esta estirada, em conversa com o Max: “(…) Antes tinha estado a fazer embrulhos do Natal e fui distribuir as encomendas e só não fiz de Pai Natal porque tinha de ficar horas a fio com criancinhas sentadas ao meu colo, a dizer coisas que elas gostam de ouvir, mas que eu não gosto, porque as mentiras não fazem o meu género. Iludir, por quê? Era melhor terem o presépio, com as figuras e pronto. E até já as ovelhas, a vaquinha e o burrinho estão a mais. E mesmo assim preferia fazer de burrinho do que de Pai Natal. Venderem ilusões a crianças, isso não se faz! Ainda por cima, no Natal é criada uma ambiência de apego material, que é precisamente o oposto do espírito natalício. Não era capaz de ter uma criancinha ao colo a dizer-me: Ó Pai Natal, eu quero uma PlayStation 3 de 320 GB, com comando Dualshock e uma consola Wii, com desportos radicais, um MP4 Player para Windows, um Smartphone Android 2.2 e mais isto e mais aquilo… Não sou mal-educado nem mal-intencionado, mas da maneira que isto está, acho que abria logo as pernas para essa criancinha cair e dizia-lhe logo, enquanto ela chorava baba e ranho “Não queres antes pedir ao Pai Natal para passar depressa o dói-dói?”.

Conheço bem o Filó e garanto das suas boas intenções, sendo incapaz de fazer mal a uma criança. Para quem não leu o livro, garanto também que aquilo era um desabafo de revolta, ao ver o ascendente do Pai Natal – o tal que traz e/ou entrega as prendas – e, igualmente revolta, ao ver tanto consumismo desenfreado (sendo certo que ele – Filó – vivia com muitas dificuldades económicas). E como esse consumismo, representado pelo Pai Natal, está a fazer desaparecer o verdadeiro espírito natalício – que tem como mote o nascimento de Jesus de Nazaré –, celebração que deveria simbolizar humildade, bondade, compaixão, solidariedade…

Por este andar, que ninguém se admire se ouvir perguntar: “Quem é esse? [o tal Menino Jesus]. Daqui, afirmo: “O Pai Natal escondeu o Menino Jesus”.

Votos de um Santo Natal.