quarta-feira, 30 de novembro de 2016

VIDA... E DE REPENTE

“Trabalha como se vivesses para sempre. Ama como se fosses morrer hoje.”
Séneca

PAULO SANTOS SILVA
E num minuto, num segundo, tudo termina. Perdemos tantas horas em discussões estéreis, preocupamo-nos com coisas sem importância, valorizamos situações de somenos. Afinal para quê?... 

António Merino Ferreira. Jornalista desportivo. 46 anos. Vítima de doença súbita. 

Nuno Greno. Equipa técnica do Guimarães B. 23 anos. Vítima de doença prolongada.

A maioria da equipa de futebol do Chapecoense. A caminho de uma final inédita na sua história desportiva. Vítima de acidente aéreo.

São apenas exemplos dos últimos dias, que nos mostram como é efémera a passagem por esta vida e como de repente, do nada, tudo acaba.

Devemos, então, deixar esta perspetiva orientar a nossa vida? Sim, mas não no sentido de a vivermos com uma espada, permanentemente, sobre a cabeça. Sim, no sentido de valorizarmos aquilo que é verdadeiramente importante, ou pelo menos deveria ser, nas nossas vidas. As pessoas. Os afetos. O ser, em detrimento do ter. Numa só palavra, a Vida, essa dádiva maravilhosa que nos devia alegrar a cada dia que passa, ao invés de nos consumir, de nos cansar, de nos exaurir. Quantas vezes dou comigo a pensar, em como tudo seria mais fácil, se todos nós descomplicássemos. O Ser Humano tem esse estranho dom. O de complicar. Já não basta o que basta, o inevitável, o que nos está reservado, ainda temos que “arranjar” o Curdistão, a Síria, a Palestina, etc, etc, ….

O importante é amar. Amar as pessoas. Amar a Natureza. Amar a Vida.

Nem sempre é fácil. Os obstáculos parecem-nos, muitas vezes, inultrapassáveis. Mas como diria o enorme Fernando Pessoa, falecido há precisamente 81 anos, mais propriamente no dia 30 de novembro de 1935: 

“Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
Mas não esqueço de que minha vida
É a maior empresa do mundo…
E que posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
Apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
Se tornar um autor da própria história…
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
Um oásis no recôndito da sua alma…
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um “Não”!!!
É ter segurança para receber uma crítica,
Mesmo que injusta…
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo…”

O DIABO QUE APARECIA EM CABANELAS, DISFARÇADO DE CABRA VOADORA

JOAQUIM DA SILVA GOMES
A freguesia de Cabanelas, do concelho de Vila Verde, parece propícia a episódios invulgares. Um dos últimos acontecimentos ocorreu em 30 de Outubro de 1988, quando a então “Rádio Braga” noticiou que os marcianos tinham invadido Braga e aterrado, exactamente, em Cabanelas.
Este relato, intitulado “Guerra dos Marcianos”, no qual participou activamente o jornalista Costa Guimarães, marcou profundamente as gentes desta região. Por causa destes relatos dos marcianos que apareceram em Cabanelas, foram muitos os minhotos que se dirigiram, nas suas viaturas, para bem longe desta localidade.
No entanto, outro acontecimento assustador, e que ocorreu nesta freguesia de Vila Verde, verificou-se no longínquo ano de 1933. Nesse ano, ocorreu um episódio em Cabanelas, que marcou profundamente os seus habitantes e ainda os habitantes das freguesias vizinhas. Estávamos no início da Primavera (mês de Abril), quando surgiu o boato de que num campo, pertencente a um indivíduo de apelido “Carvalho”, aparecia o diabo! Como acontece quase sempre nestas ocasiões, o boato depressa se espalhou.
Durante alguns dias, esse campo esteve sempre com muita gente, existindo momentos em que se juntavam centenas de pessoas, vindas não só de Cabanelas, mas também de várias freguesias vizinhas de Barcelos e de Braga, como S. Paio de Merelim, Cervães, Lama, S. Veríssimo, S. Romão da Ucha e Prado! Aos domingos, a multidão era de tal ordem, que se verificavam momentos de verdadeira loucura. Todos queriam ver o diabo, que diziam que berrava como uma cabra e miava como um gato assanhado! Numa dessas noites de Abril, o diabo apareceu no campo do senhor Carvalho, tendo algumas pessoas presenciado “o espectáculo inédito de uma cabra a voar, ora miando como um gato, ora berrando como um possesso? “ (Jornal “Correio do Minho”, de 30 de Abril de 1933).
Em certos momentos, parecia que o diabo queria jogar às escondidas com as pessoas presentes, uma vez que aparecia num canto do campo, envolto numa nuvem negra, e depois rasava por cima da cabeça das pessoas!

As notícias sobre o diabo que aparecia em Cabanelas mantiveram-se durante as semanas e os anos seguintes. De vez em quando, diziam, lá aparecia o diabo, a berrar ou a miar. Por isso, quando passarmos pela freguesia de Cabanelas, devemos manter-nos sempre atentos, não vá o diabo voltar a aparecer, disfarçado de cabra voadora! 

terça-feira, 29 de novembro de 2016

A ORDEM DO CAOS (OU VICE-VERSA)

REGINA SARDOEIRA
Não faço a menor ideia sobre o que vou escrever hoje, nesta minha crónica. Vai ser um perfeito acaso e uma surpresa também ( principalmente para mim) se conseguir organizar, num todo coeso, um conjunto de pensamentos, traduzidos em palavras, que venham a ter, por fim, algum significado. 

Estou sozinha em casa, no silêncio, silêncio voluntário e consentido, porque não liguei aparelhos de som; e logo que a palavra sozinha me escapou, percebi que estava a ser falsa e injusta: tenho, de facto, duas companhias, as minhas gatas, e sinto que elas apreciam, ao seu modo particular, este companheirismo que, juntas, estabelecemos. 

Estar sozinha e em silêncio, acompanhada destes dois animais que não falam a minha linguagem, a esta hora da noite, nem tarde, nem cedo, é o culminar do meu dia: ou o intervalo para outras actividades que realizarei um pouco mais à frente. Efectivamente, eu não sei estar quieta, e multiplico as acções do meu quotidiano a um ponto tal que aceder, voluntariamente, a uns minutos de relaxamento completo é um bónus que dou a mim própria. Mas sei perfeitamente que, daqui a pouco, vou estar saturada desta quietude e darei voltas e mais voltas em busca de acção. 

Confesso que nem sempre coordeno bem as horas do meu dia. Dou comigo a correr em direcções opostas, a chocar comigo mesma, a ficar embaraçada num certo torvelinho. E, quando procuro fazer a síntese do dia, percebo que o tempo produtivo, traduzido em obra executada, é exíguo. De imediato decido, no meu foro íntimo , estabelecer um cronograma para o dia seguinte e para todos os outros, de modo a estabelecer nexo neste caos e tirar mais partido do meu tempo. Mas, apesar da decisão, continuo a actuar de improviso. 

Creio que este modo de viver se torna perfeitamente evidente nos espaços que habito. Eles têm a minha marca e são, por isso, uma outra maneira de ser eu, por eles deambula uma corrente de cores e de estruturas indicadoras de um ser em contínua mutação, ávida que sou de construir, destruir e reconstruir. Parece que nunca nada está feito: e as paredes já exigem novas cores e texturas, e o chão necessita ser raspado e envernizado ou pintado de outra cor e os móveis ganham um dinamismo que sou eu que lhes vou imprimindo e pelo qual os arrasto daqui para ali ou então os desmonto e suprimo, cansada do seu estar ali. 

Nunca nada está feito de uma vez por todas, há sempre pontas soltas, espaços vazios ou de transição, hiatos a suscitarem a vontade de serem preenchidos ou, simplesmente, a reclamarem o desejo de permanecerem assim mesmo - hiatos. 

Falo do espaço que me circunda e comigo se funde, a tal ponto, que eu própria me reconheço nesse mundo transitório a querer definir-se mas, decerto, não o querendo de facto. Porque a verdade é que estar inacabado é um sinal de vitalidade e de abertura ao novo, ao que há -de vir. Se, eventualmente, sofro com esta perene sensação de incompletude que me conduz a uma permanente busca de mim, se muitas vezes me percebo confundida com esta voracidade pelo novo, pelo destruir para construir, numa época da vida em que a maioria já se encontrou - ou desistiu da procura, mergulhando em variados solipsismos - outras, apraz-me perceber que o que verdadeiramente me constitui como pessoa é este mergulho quotidiano na voragem e na incerteza. 

Há certas noites em que vivo a experiência da insónia. Julgo que tenho sono, preparo-me para o repouso e depois, assisto à vigília absoluta dos meus sentidos, à acutilância do meu pensamento, à necessidade imperiosa de movimento. A cama e a escuridão tornam-se as minhas carcereiras. E não adianta fechar os olhos, procurar a posição do conforto e decidir dormir, não adianta usar truques comuns de apelo ao sono ou exercícios respiratórios ou músicas de embalar. De repente, percebo que tenho que levantar-me e mudar de aposento, percebo que tenho que acender a luz e procurar um motivo para ocupar a mente que, no escuro, dispara em múltiplas direcções. 

Desperto outra vez a casa; e as gatas, já adormecidas nos seus poisos habituais, despertam comigo e com a casa e olham-me surpreendidas. E depois adaptam-se e acompanham-me na insónia. 

No dia seguinte, sei que o acordar será penoso e levarei mais tempo a desencadear o movimento habitual da minha rotina não rotineira. Mas também sei que, à noite, o sono descerá sobre mim como uma onda benéfica de suave esquecimento e que tudo se harmonizará, por fim. 

Ignoro se o que escrevi, afinal, faz algum sentido. Não voltei atrás para reler e, se o vier a fazer, não mudarei seja o que for: porque esta será, sem dúvida, a minha crónica para amanhã.

DIREITO À PREGUIÇA

LUÍS CUNHA
Vi com agrado que foi reeditado um curioso e útil livrinho, que talvez devesse tornar-se de leitura obrigatória nos dias que correm. Chama-se «O Direito à Preguiça» e foi publicado pela primeira vez em 1880, sendo seu autor Paul Lafargue, revolucionário franco-cubano, casado com uma filha de Karl Marx e com quem celebrou um pacto de suicídio que foi consumado em 1911. De uma forma muito simples e até redutora, diria que neste livro se procura devolver um sentido saudável à relação do homem com o trabalho, exercício que não perdeu atualidade, bem pelo contrário. Num fórmula de sonoridade quase bíblica, julgo poder dizer-se que a mensagem de Lafargue é a de que é o trabalho que existe para o homem e não o homem que existe para o trabalho. 

Claro está que este é um velhíssimo debate, de tal forma antigo que podemos remontar à «Bíblia» para encontrar um dos fios da meada. No «Evangelho de Mateus», no conhecido «Sermão da Montanha», são atribuídas a Jesus estas estranhas palavras: 

«Examinai de perto os lírios do campo como crescem! Não trabalham nem fiam (…) Não vos preocupeis dizendo “que comeremos?” ou “que beberemos” ou “que vestiremos”. Todas estas coisas os pagãos procuram. Sabe o Pai vosso, o celeste, que tendes necessidade destas coisas todas. Procurai, antes, primeiro o reino de Deus e a justiça d’Ele; e todas estas coisas vos serão dadas. Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã preocupar-se-á consigo mesmo» (Mateus, 6:28-34). 

Suponho que Jesus concordaria com a ideia de que estes «pagãos» que se entretinham com excessivas preocupações materiais têm muito mais a ver com aquilo que nós hoje somos do que com os verdadeiros «pagãos». Quanto a estes, pelo menos se atendermos ao que nos ensina Marshall Sahlins em «Stone Age Economics», obra publicada no já longínquo ano de 1974 mas que nunca foi, tanto quanto sei, traduzido em Portugal. Apetece dizer que Sahlins mostra com factos o que o «Sermão na Montanha» defendera pela doutrina: de bem pouco se precisa para viver, e trabalhar pouco não significa viver pior nem trabalhar muito significa ter boa qualidade de vida. Com base no que pôde observar, Sahlins constata que os povos ditos «primitivos» precisavam trabalhar bem menos que os «civilizados» ocidentais para garantir o seu modo de vida. A questão está, evidentemente, no modo de vida, quer dizer, na distinção entre o que é essencial e o que é acessório.

Bem sei que o encaminhamento para o reino de Deus, feito por Jesus no seu sermão, é bem diferente de um elogio desbragado da preguiça. Pese embora a diferença, do que se trata, em todo o caso, é da remissão de um pecado. Só que o pecado nem sempre está onde o dedo do cura o sinaliza. A incapacidade de ver como os lírios do campo vivem e se vestem de beleza sem trabalhar nem fiar é apenas um sintoma da nossa incapacidade de nos vermos como parte da natureza, beneficiando do que ela nos dá sem nos perdermos a lutar contra ela, numa guerra que fatalmente a destrói e nos destrói. É pois à mesma cegueira que Jesus e Lafargue se referem, não sendo por acaso que o primeiro evoca Deus logo no início da sua argumentação: 

«Uma estranha loucura está a apossar-se das classes operárias das nações onde reina a civilização capitalista (…) Esta loucura consiste no amor ao trabalho, na paixão moribunda pelo trabalho, levando ao depauperamento das forças vitais do indivíduo e da sua prole (…). Homens cegos e tacanhos, pretenderam ser mais sábios que o seu Deus; homens fracos e desprezíveis, pretenderam reabilitar aquilo que o seu Deus amaldiçoara»

Mais adiante, para que não restassem dúvidas, Lafargue esclarece: «Na sociedade capitalista, o trabalho está na origem de toda a degenerescência intelectual e de toda a deformação orgânica». Escrevia assim no século XIX mas a razão que tinha mantém-se, acho eu: trabalhamos para consumir o que pelo trabalho produzimos, agarrados num círculo incessante e autofágico que nos rouba a vida, pois nos rouba o tempo que nos coube em sorte viver. Na sua configuração atual, a trabalho reduz-nos a peças cegas de uma gigantesca máquina, uma máquina tão voraz que um dia acabará por implodir por força da sua desmesura.

Desde há muito que a literatura nos dá sinais da cegueira que nos condena. Veja-se no remoto e célebre náufrago descrito em «Robinson Crusoe» (1719), o que sucede quando uma dessas peças cegas que nós somos se solta da máquina que nos aprisiona. O intrépido náufrago mostra o pouco que valemos para lá do trabalho que funda a nossa identidade: invertendo o que acima dissemos, no romance de Defoe é o homem que existe apenas e só para o trabalho. Dizendo de outra forma, Crusoe mostra que somos incapazes de nos pensarmos como homens sem esse trabalho que nos rouba a vida. Sozinho numa ilha, ante a generosidade de uma natureza que o dispensaria de aflições, o náufrago trabalha incessantemente; roda e gira num afã de uma máquina que já não existe e que no entanto está nele como uma pele. Uma disciplina de máquina que se entranhou de forma tão profunda nele e em nós que nos faz acreditar que nascemos para trabalhar, e que essa é a condição mais profunda da nossa construção como humanos. 

Inverter este entendimento, reverter este pecado que, afinal, nos desumaniza, obriga a um esforço contraintuitivo; obriga-nos a lutar contra o que parece óbvio, contra dogmas e doutrinas, contra hábitos e vícios de pensamento. Para a construção do que somos enquanto humanos, o trabalho deve estar para nós como a sede está para a fonte. Tal como a sede é o prazer da fonte, o trabalho deve ser reduzido ao que dele resulte em prazer. Se isto vos parece um disparate ou uma utopia, em verdade vos digo, pecadoras criaturas, que maior atenção deveis dar à loucura que à falsa sanidade. Sobre isto continuarei a escrever da próxima vez.

ESTRUTURAS TÁCTICAS DIFERENTES, A MESMA IDEIA DE JOGO

ANDRÉ QUEIRÓS
Actualmente assistimos a uma grande discussão acerca da forma como alguns treinadores dispõem os seus jogadores em campo, por exemplo, Antonio Conte no Chelsea iniciou a temporada num 1x4x3x3 clássico não obtendo resultados, até que alterou para a famosa linha de três defesas que o levou a ter tanto sucesso na Juventus, e que está até agora a dar grande resultado, mas porquê que isso aconteceu? Se a equipa é exatamente a mesma, e o treinador o mesmo também?

Na minha opinião, Conte quis-se adaptar a uma realidade, mas uma realidade na qual ele não é tão forte a operacionalizar, nem a passar a mensagem para os seus jogadores, porque no fundo, nem ele próprio acredita nela. Alterou a estrutura para o 1x3x4x3 em que tem uma segurança defensiva grande através dos três defesas fixos, os dois alas envolvem-se com qualidade e também trabalham muito a nível defensivo, mas o que elevou esta equipa para um nível ofensivo notável foi a liberdade extra dada a Hazard e Diego Costa que têm destruído os adversários.

Quando um clube contrata um treinador, normalmente contrata as suas ideias, e certamente a ideia de jogo de Antonio Conte não se alterou, ele preconiza o futebol de uma determinada forma, não abdicando de determinados princípios, tais como: a segurança e estabilidade defensiva com um bloco defensivo médio/baixo, um forte jogo exterior com muitos cruzamentos e envolvimento em corredor lateral em posse e transições ofensivas muito rápidas para os 2/3 homens mais avançados do terreno. Terá ele mudado os princípios de jogo que transporta para as suas equipas quando assinou pelo Chelsea? Não! Na minha opinião ele apenas é mais forte e acredita mais na aplicação desses tais princípios na estrutura de 1x3x4x3 ou 1x3x5x2 que ele recentemente aplicou no seu novo clube.

Desta forma conseguimos perceber que a estrutura tática tem influência na forma de jogar da equipa, mas não só, e alguns comentadores que vou ouvindo dizem que se determinado treinador alterar para dois avançados, ou em vez de jogar com dois médios jogar com três vai ganhar o meio campo, por vezes nem sempre é como eles idealizam. Os princípios de jogo da equipa e a forma como o treinador os operacionaliza durante a semana através dos exercícios fazem toda a diferença.

Em conclusão e para o fazer da melhor forma, devo também falar de um punhado de equipas que jogando em qualquer estrutura tática, têm os seus princípios de jogo tão bem assimilados, a sua ideia de jogo tão perfeita para aqueles jogadores que as coisas saem com uma enorme naturalidade e parece que nada mudou, porquê? Os princípios estão lá, no subconsciente de todos os jogadores, o bom trabalho semanal aliado á qualidade acima da média dos executantes faz com que tudo aconteça de forma tão harmoniosa, no entanto, isso está ao alcance de poucos predestinados!

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

TREINO DE HIPERTROFIA PARA ABDOMINAIS

NUNO AREAL CARVALHO
Abdominais são aquele grupo muscular que toda a gente conhece.

Se eu perguntar onde ficam os isquiotibiais, o romboide ou mesmo o esternoclidomastoideo, sabe? Mas se eu perguntar onde ficam os abdominais aposto que rapidamente aponta para a "barriga"! 

Arrisco a dizer que os abdominais são o grupo muscular mais conhecido, e que mais pessoas falam e escrevem sobre ele. Então nesse sentido é importante conhecer a sua estrutura assim como alguns mitos em volta dos famosos abdominais. Poderão ler isso no meu último artigo sobre abdominais "Quais são os melhores exercícios para treinar abdominais" 

Então o que difere assim tanto os abdominais de outro grupo muscular ou músculo?

Nada. O abdominal é um músculo como tantos outros que temos no corpo humano. Então rapidamente chegamos a uma conclusão, o treino de hipertrofia para abdominais deve obedecer à mesma metodologia que utilizamos para o aumento de massa muscular de qualquer outro músculo.

Esta metodologia deve estar assente em 3 pilares chave:

- Treino com cargas resistidas - Utilizar pesos, cargas justas às suas capacidades para que sinta os músculos a trabalhar com intensidade elevada.

- Alimentação hipercalórica - Devemos ingerir mais calorias que aquelas que gastamos. Não estou a querer dizer com isto, que podemos comer o que quisermos, devem ser calorias "saudáveis". De preferência aposte em alimentos ricos em proteína (carne, peixe, ovos, lacticínios), gorduras saudáveis (azeite extra virgem, frutos secos) e vitaminas (vegetais). 

- Descanso/recuperação - Este ponto é de extrema importância, nunca ouviu dizer que os "músculos crescem enquanto dorme"? Pois é, ouviu bem. É durante o sono que a hormona do crescimento (HC) é produzida, que a síntese proteica ocorre, para não falar de um desaceleramento do metabolismo (de modo a tentar evitar ao máximo o catabolismo) e da restauração das células cerebrais.

E no que toca ao número de repetições, séries e tempo de recuperação entre séries?

Este também é um dos assuntos mais falados e discutidos no mundo do exercício. Salvaguardando que todos somos diferentes e que cada um deve encontrar a melhor metodologia para si. 

Repetições - De acordo com a minha experiência e baseado na literatura, devemos realizar um número de repetições entre as 8-12, sendo que para mim o número ideal é 10 repetições à exaustão, ou seja devemos realizar as 10 repetições para que não consigamos realizar a décima primeira. Se chega à 10 repetição e consegue realizar mais 3 ou 4 repetições, significa que na próxima série deve colocar mais carga.

Series - Quanto ao número de séries para o mesmo grupo muscular mais uma vez a experiência diz-me que o ideal são 10 séries. Eu chamo-lhe o treino 10 por 10, ou seja, 10 repetições e 10 séries para o mesmo grupo muscular, neste caso para o abdominal. Não significa isto que o exercício tem de ser o mesmo, o grupo muscular é que deve ser o mesmo. Por exemplo podemos optar por fazer 3 exercícios, dois delas 3 séries e outro 4, que dá o total de 10 séries.

Recuperação - No que toca ao tempo de recuperação entre séries para hipertrofia muscular, uns estudos apontam 60 segundos outros 90 segundos, eu aqui não sou "carne nem peixe" fico-me pela metade. 75 Segundos para mim é o tempo ideal de descanso entre séries para promover o aumento da massa muscular. 

Exercícios de hipertrofia para abdominais

Vou enumerar 4 exercícios que podem utilizar para a hipertrofia dos abdominais. Se repararem todos eles utilizam cargas externas. A carga ou peso deve ser adequado a cada um, para que cheguem a 10ª repetição em exaustão, como referi em cima. Vou também colocar as imagens de acordo com o grau de dificuldade (na minha opinião é claro). Da mais fácil até a mais complexa. 

Nível 1 


Cadeira Abdominal – Flexão do tronco a frente, empurrando o umbigo para as costas.


Nível 2 


Abdominal com Corda – Puxar o peso para baixo, curvando o peito para a frente. 


Nível 3 


Cadeira do Capitão – Com o haltere preso nos pés, elevar os joelhos. 

Nível 4 


Abdominal estilo Acordéon - Com o haltere preso nos pés, realizar a extensão das pernas, deixando cair o tronco para trás. 

Conclusão

Os abdominais são um grupo muscular igual a muitos outros. A hipertrofia dos abdominais consegue-se através de treino forte, alimentação e recuperação. No que toca ao treino o ideal é realizar 10 repetições por exercício como o total de 10 series para esse mesmo grupo muscular. A recuperação entre series deve ser de 75 segundos.

Bons Treinos.

FISIOTERAPIA NEUROLÓGICA

LIANE SANTOS
A fisioterapia neurológica actua nas patologias que envolvem o sistema nervoso central ou periférico, provocando distúrbios neurológicos, motores e cognitivos, que se traduzem em alterações complexas do movimento e função. O utente com disfunções neurológicas pode apresentar alterações complexas de movimento e função. O objectivo da intervenção é avaliar essas alterações funcionais e promover padrões motores adequados, através de exercícios direccionados promover melhoria da força, coordenação ou padrões motores mais adequados e equilíbrio. Para a reabilitação, a fisioterapia neurológica dispõe de vários métodos e recursos específicos, promovendo um tratamento global e individualizado. Com efeito, o utente é estimulado no sentido de restabelecer as suas funções ou se readaptar à sua nova condição, promovendo a funcionalidade, independência e autonomia, melhorando consequentemente a sua qualidade de vida, sendo este o objectivo final.

Algumas das patologias onde a fisioterapia neurológica intervêm:
- Acidente Vascular Encefálico 
- Trauma Crânio-Encefálico
- Lesão Medular
- Parkinson
- Alzheimer
- Esclerose Múltipla
- Paralisia Cerebral
- Paralisia Facial Periférica
- Síndrome de Guilain Barré
- Atraso do Desenvolvimento Neuropsicomotor
- Outras patologias que acometam o SNC ou Periférico

A base da intervenção neurológica passa pela avaliação do utente:

Avaliação subjectiva
- Identificação do utente
- História clínica actual e anterior
- Exames complementares de diagnóstico 

Avaliação objetiva
- Consciência
- Cognição
- Estado mental
- Memória
- Percepção
- Comportamento
- Avaliação das Sensibilidades
- Dor
- Campo Visual
- Esquema corporal
- Linguagem
- Reflexos Osteotendinosos
- Reflexos patológicos
- Tónus Muscular
- Força Muscular
- Atrofia Muscular
- Pares cranianos
- Controle de esfíncteres
- Coordenação
- Postura
- Qualidade e amplitude de movimento
- Equilíbrio
- Autonomia
- Reacções associadas
- Movimentos involuntários
- Qualidade de vida
- Marcha
- Pares cranianos
- Outros;

BANDIM - ONDE TUDO ACONTECE

CRÓNICA DE JOANA BENZINHO
O mercado do Bandim, nas portas da cidade de Bissau, é uma explosão de cor e de gente a fervilhar de manhã à noite, sete dias por semana.

Desde romper do dia até às oito da noite, quando o breu já não deixa vislumbrar o que quer que seja com muita nitidez, tudo se compra e vende neste mercado. Tecidos, legumes, interruptores e extensões, animais, sapatos, carne e peixe, peças de automóveis, roupas, sapatos novos ou usados e tudo, mas mesmo tudo o que possa valer algum dinheiro para os magros orçamentos familiares das famílias guineenses. As mulheres chegam bem cedo de manhã, com os filhos nas costas amarrados no bambaram e por ali ficam até ao cair da noite, procurando esconder-se do sol enquanto tentam escoar os seus produtos.

Durante o dia, os fiscais da Câmara demonstram a sua autoridade com uma pequena verdasca, retirando das ruas os vendedores que não pagam taxa camarária e que, ao verem-nos chegar, rapidamente se põem em fuga com os seus pertences embrulhados num pano, até encontrarem outro canto onde abrem de novo a loja de rua.

Assim se passam os dias no Bandim, com ruas e ruelas de lojas sempre por descobrir, mesmo para um visitante mais assíduo e muito lixo acumulado no chão ao fim de cada dia de feira.
Ali há a rua dos sapatos, a praça dos legumes e peixes, a rua dos tecidos, a secção do material de electricidade e mecânica, dos materiais de construção, há os talhos onde chegam as peças de carne a retalho num carrinho de mão, frequentemente seguidos por alguns cães a ver o que lhes calha em sorte. Mas há também a secção das camas de ferro, dos marceneiros, dos colchões e, claro, das mercearias a granel como o arroz, o açúcar ou o leite em pó, ao lado dos ovos vendidos à unidade nos saquinhos das pipocas.

Passear neste espaço caótico mas profundo e profícuo em cheiros, cores e texturas, transporta-nos para um mundo muito diferente deste nosso ocidental, e deixa-nos completamente rendidos. Mas engane-se quem pensa que ali tudo é permitido. No mercado do Bandim há regras, há autoridade, mesmo que não seja formal, há solidariedade e há sobretudo ética. Esta semana, uma tentativa de roubo prontamente denunciada pela senhora com uma magra banquinha de dois ou três tomates, meia dúzia de cenouras e umas folhas de mandioca, quase acabava em linchamento. O rapaz foi cercado por dezenas de vendedores e clientes que escandalizados com a ousadia do roubo, o agrediram sem contemplações e sem dar ouvidos aos que, como eu, assistiam horrorizados a tal cenário de violência contra alguém indefeso no chão. Dizia-me a “bidera" (vendedora típica da feira de Bissau) que me estava a vender peixe que é assim que se resolvem as coisas e se punem os erros e os roubos no mercado e até em toda a Guiné. No burburinho que percorria o mercado percebia-se que o choque era maior por se tratar de um jovem de etnia Fula, gente que não rouba, segundo a mesma “bidera”.

Mas com escrevi acima, a autoridade funciona no Bandim e um vendedor mais “graduado” daquela secção determinou o fim do martírio a que aquele rapaz com ar miserável foi sujeito durante intermináveis minutos e mandou parar tudo. Assim foi. O jovem levantou-se azamboado e claramente magoado, pediu desculpa pelo roubo a quem o quis ouvir e foi levado para a polícia.

O mercado do Bandim voltou rapidamente à sua agitação saudável habitual e eu voltei para casa com um misto de emoções. Espantada com a espontânea reacção colectiva para punir com violência um crime cometido contra um dos seus, mas de certa forma orgulhosa por ver que os princípios, a ética e a moral vivem em cada rua de Bissau ou do seu mercado do Bandim. Vivem essencialmente no povo bom da Guiné-Bissau.

DA OBRA "À JANELA DO TEU CORPO" DE JOAQUIM MONTEIRO

[para que serve o corpo senão / para amar outro corpo]

Queria copular-te de maneira inédita e original
beijar a rosa de maneira que o rosa, vermelho ficasse.
Beijar teus erectos seios de forma que o sangue dos lábios
se misturasse com o leite derramado da ausência,
quando as montanhas eram o lugar aprazível, onde
o verde e o ar se misturavam no puro movimento
com que as abelhas esvoaçam no teu ventre, e
colhiam o pólen da flor aberta a toda a abstracta claridade.

Queria dizer-te que o meu Sul é o teu Norte
e que navegássemos à deriva no mar encapelado
de meu corpo, pelos ventos que me sopras aos ouvidos,
como o Adamastor às naus do Gama, e depois, viesses
sereia: agrinaldar-me a fronte e cobrir-me a pele
com as algas mais doces e aromáticas do Sal, que penetrando
narinas dentro, inebriassem neste velho marinheiro
os sentidos que trouxera da velha pátria Lusitânia,
e náufrago, me agarrasse a teu corpo de alabastro.

©Joaquim Monteiro, À JANELA DO TEU CORPO, ed. Modocromia, 2014


CRÓNICA DE ALVARO GIESTA
Este é um dos poemas que aparece quase a fechar a segunda parte da obra "À Janela do Teu Corpo": é, dos poemas que tenho lido à Mulher, e em verso livre, dos mais belos de todos os tempos. Talvez o mais belo poema de sempre! Todo ele é a poesia de Joaquim Monteiro. Nele está contido o "Sul", ânsia de calor e sol do amador, que transmite o "Norte" à coisa amada: ponto de convergência - o amor que vence todas as adversidades da vida; estas (as adversidades) nas oposições do "Adamastor", aquele (o amor), na vontade e na força intrépida das "Naus do Gama"... depois, a paz final na melodia encantatória da "Sereia" e o sabor da vida no "Sal" (como no baptismo) a que o poeta, náufrago, se apega. Este poema tem as características mais importantes do verso livre para ser poesia: ritmo e o essencial da sua significação - a imagem. Como dizia Drummond «sob a pele do poema há cifras e códigos» que se articulam entre ritmo e imagem para fazer pulsar o sangue que circula nas veias do poema: a poesia. Ritmo e imagem, verdadeiros valores poéticos da poesia.

É (quase) um risco avançarmos que este poema fala por todo o livro de Joaquim Monteiro. Talvez até nem seja... embora possa haver leitores que arrisquem dizer que é menos justa a afirmação aqui produzida; aqueloutros (os menos atentos mas que se julgam os mais descobridores ou astutos) que avaliam a obra pela consulta que fazem ao índice e assim descobrem uma parte (a última) que o autor, incompreensivelmente, designa por "Outros". Ora, este livro marcadamente sensual, não apenas pela natureza forte dos poemas das três primeiras partes em que o autor divide a obra mas, também, tão elucidativo pela imagem da capa (que, infelizmente, em tantas outras obras de tantos outros autores não casam as imagens da capa com o conteúdo poético), nele não há margem para dúvidas de que o objecto poético é a "Mulher"; assim, nenhum leitor deve arriscar, classificando-o de outro modo sem o ler no seu todo. Por outro lado, e aqui em certo desabono do autor, à crítica de quem o leu, e por várias vezes, do princípio ao fim, cabe a pergunta: porquê tal capítulo (o último designado por "Outros") se nos poemas que o compõem é tão etéreo o amor dedicado ao objecto cantado - a Mulher - como nos três capítulos antecedentes; e referem-se "capítulos" ou "partes" e não "temas" porque o único tema cantado na obra é a Mulher: no Corpo, pelo Amor e no Amor, pelo Corpo.

Este poema, que me serviu de intróito para o artigo, é a marca de todo o objecto poético a que aspira o eu-lírico. Escalpelizá-lo, dando-o por isolado na obra, não é essa a intenção. É, outrossim, e depois de dizer do poeta, que conheço, mas sem prejudicar a imparcialidade com que falarei da obra, analisá-la amplamente no seu todo significativo, porque ao linguísta - que não sou - cabe tentar descobrir o "como e o porque" das duas faces dos signos linguísticos: do inteligível significado e do sensível significante, com que evoca o corpo feminino nas (tais) três partes - como se fossem principais - em que divide a obra "Mulher, Amor, Corpo", e reflectir sobre elas para chegar ao entendimento do texto a partir da análise do eu-lírico. Assim, direi do poeta e, depois, da obra:

Publicamente, ou seja, para um grande auditório como é o da Rádio ou da Imprensa escrita, já falei do poeta Joaquim Monteiro três vezes - ou antes, já escrevi, porque falar dele como poeta de topo faço-o muitas vezes; ainda em 2015 o fiz, em directo, no programa de rádio que rege Conceição Lima, em Vizela. A primeira vez, numa longa recensão a uma antologia poética escrita por 12 autores, um dos quais era Joaquim Monteiro (Rio de Doze Águas, edição Coisas de Ler, 2012); a segunda, em prefácio a este mesmo livro de poesia À Janela do Teu Corpo, edição Modocromia, 2014; a terceira vez, na revista literária impressa A Chama, de que fui editor, publicando-o em duas longas páginas A4 como poeta convidado, em 2014.

O que tenho a dizer dele como homem: simples, tímido, recatado, que foge das luzes da ribalta - próprio dos homens de saber; como poeta: é um desenhador da palavra escrita que burila com mestria própria e sabedoria. Mais que poeta é um filósofo da palavra que nos dá muito que pensar com o que escreve nesta poesia imagética e que escreve ainda mais para nos fazer pensar. Noutro contexto escrevi de Joaquim Monteiro que verte sabedoria casando-a com a poesia que escreve: é um desenhador da palavra que enaltece quando a transporta "para lá / da substância palpável". Um poeta prolífero: escreve como quem respira, todos os dias a todas as horas. Aliás, escrever é o seu respirar. No livro "À Janela do Teu Corpo", como dizia no prefácio, que sobre ele escrevi, Joaquim Monteiro bebe a "sede" na "bebedeira azul" do corpo da mulher. Venera-a em toda a sua obra. Desenha-lhe o corpo com a sensualidade das palavras transpostas para o corpo feminino, como um tocador de guitarra explora o tanger das cordas. A evocação ao corpo feminino - tendo como charneira o Amor - é sublime (transforma-se o poeta no corpo que ama) como em Camões se transformava "o amador na coisa amada".

A poética em «À janela do teu corpo» bebe a "sede" na "bebedeira azul" do CORPO DA MULHER que venera, em toda a sua obra (ao fim e ao cabo em toda a obra composta de quatro partes), se bem que nas suas três primeiras partes - a Mulher e o Corpo, servindo-lhe de charneira o Amor - seja, onde ele converte, com total magnitude, o ventre da mulher em pão, que canta em verso, sobre quem talha a obra numa extensa ode a ela e ao amor. Ela, a mulher, como "romã aberta no (e ao) delírio dos (seus) lábios" é a "água inicial" da vida do poeta que dá luz à noite e ilumina a casa, que sara as feridas abertas e regressa, depois, ao "ponto original da febre" esperando "que o amor a afague, sonhando um novo dia". A sua evocação ao corpo é de tal ordem sublime, de tal forma contemplativa que a força do ser amado faz transformar o poeta no corpo que ama - transforma-se o amador na coisa amada - transformando o profano (que canta) no sagrado (que diviniza) "na noite de todos os prodígios". É o acto da entrega que se purifica no absoluto "da raiz" do corpo que é seios, olhos, mãos, saliva, lágrimas, "segredo partilhado e enlaçado" "nas marés do corpo", "ventre (que) toca o céu / numa explosão de gritos, murmúrios e silêncios.".

As três partes principais da obra: "MULHER", "CORPO", "AMOR" - Mulher que canta; Mulher que inventa para cantar; Mulher que almeja possuir "de maneira inédita e original"; Mulher que diviniza; Mulher de quem conhece a alma e o corpo. Corpo que sublima e engrandece; Corpo que venera; Corpo que é espaço - o espaço que o consome, consumindo-se; Corpo plasmado no Amor, charneira a selar as margens: MULHER-CORPO. É a Mulher-Corpo o leit motiv da sua magnífica obra; digo, é o corpo feminino tornado (como ele diz) na "Sintaxe mais perfeita na gramática reinante" onde "todos os astros se confundem" quando se dá "na forma mais pura da entrega".

O poeta Joaquim Monteiro no desbravar do corpo feminino "nu e azul" faz trinar as cordas da sua guitarra de loucura no melodiar da voz dos pássaros que arde clamando o amor. É nessa altura que o Corpo - da palavra, aqui em forma da Mulher que canta - se molda ao sabor das horas, que os novos trilhos se abrem com o sabor "da saliva de sal". Sal: um indicativo dum saber purificador, dum futuro de sabedoria, ainda que por dizer, mas que se augura promissor no Amor. Num contexto bem mais amplo e que abrange toda a sua obra, a expressão "Saliva de Sal", é aqui tomada no sentido purificador do Princípio (começo de todas as coisas e do Universo) e purificador do Amor (o sentido de união) que é, afinal, o significado bíblico do sal: aquele que impede e afasta toda a decomposição, toda a sujeira moral e espiritual que será, se não fulminada, pelo menos decantada pelo fogo que cresce na e com a palavra em toda a sua obra. O símbolo da palavra do poeta se firma descobrindo-se na "secreta vocação da luz" espalhando-se na "planície" do seu ventre com a força de quem ama.

Selam-se as duas margens da parte principal do corpo da obra: Mulher que canta, Mulher que inventa para cantar, Mulher que diviniza nunca esquecendo o real enquanto a canta, Mulher que possui, Mulher de quem conhece a alma e o ser. MULHER-CORPO que sublima e engrandece, que venera, porque o poeta o constrói na perfeição do seu espaço e no domínio do seu tempo, com o seu rosto que lhe habita o Corpo, que lho consome consumindo-se, com o plasmarem-se no AMOR (a selar as margens da MULHER-CORPO), símbolo mais alto e nobre da perfeição. Direi, de toda a perfeição da obra. E no outro corpo se transfigura o poeta, que nos diz: "(...) o corpo que me cobre / (...) deixa-me transfigurado num coma de sentidos / partindo para lá de mim, ao encontro dessa mulher", quando ao outro se abraça na "noite como se fora dia." E acrescenta, és "água, (que) desces ao fundo de mim, / para que com a tua sede / possas medir a intensidade / de minhas profundas e inalienáveis águas."

É a MULHER-CORPO, o motivo poético da sua obra: "procuro nos teus seios o mote do meu poema" e o poeta o constrói com "as palavras que o (...) ventre dita." É o corpo feminino tornado na "sintaxe mais perfeita, na (...) gramática reinante (...)" de toda a lírica de Joaquim Monteiro. Uma lírica suave onde se plantam fortes metáforas e significativas imagens que são, afinal, o suporte da obra que se quer literária, que se quer e se preza de ser talhada a rigor no labor da forja oficinal para que, um dia, conste dos anais da literatura contemporânea. É que, a não ser talhada com o rigor que o modus literário exige, a obra não iria além de "mais um livrito de versos para entretenimento lúdico do veraneante sentado num banco de jardim à espera que o dia passe". Mas não!

A obra de Joaquim Monteiro, "À Janela do teu Corpo", é isso mesmo: a força das "fontes (...) / sobre o corpo da matéria", quando "o corpo" se transforma em cinzas que "já nem a terra as quer", mas "o oceano purificado do fogo (...) as deseja". É a força e a perfeição da palavra que canta a MULHER-CORPO em que o AMOR é o elemento aglutinador, é o eixo-força da razão e do sentir, que busca a sabedoria mesmo que esta se esconda nas "trevas". Estes três panos da mesma cor e temperatura - a poética de Joaquim Monteiro é duma sensualidade forte, nunca ultrapassando a fronteira do sensual que não fere, jamais entrando na esfera do desembestado amor erótico - dão-nos sempre como corpo poético a MULHER, numa poesia de imagens fortes e inquietas, marcadamente complexa mas perfeitamente entendível, requerendo, contudo, alguma ginástica mental e profunda reflexão a quem se afoite a ir para além da simples leitura e o faça numa perspectiva de interpretação da obra, vendo-a no seu todo significativo, indagando o "como" e o "porquê", refletindo sobre o texto, em análise ao eu-lírico, vendo e descrevendo o que contribui para o texto ser literário, mas nunca prescrevendo o que gostaria de ver.

É isto que pode contribuir para a diferença entre esta obra fazer ou não fazer literatura: ficar eternamente adormecida nas prateleiras daquele que afirma que o poeta não escreve para ser interpretado, mas o faz para ser ouvido e para ser sentido, ou esperar que alguém a descubra e, sem se ficar pelo mero acto de avaliador, esgote, no seu estudo e interpretação, todas as possibilidades de investigação do texto-autor fazendo-a subir ao patamar seguinte - morar nos anais da literatura.

domingo, 27 de novembro de 2016

ESTADO ISLÂMICO, «UMA OVA»

MOREIRA DA SILVA
A interjeição «uma ova», que utilizei no título desta Crónica, significa repulsa e é com uma raiva a crescer-me nos dentes que faço esta afirmação, para contrariar veementemente o que se lê e se ouve em muitos órgão de comunicação social quando afirmam: o Estado Islâmico. «Uma ova», pois o que devem dizer é: “jihadistas do Daesh”. Ou simplesmesnte terroristas islâmicos, pois “jihadistas” significa “combatentes” e “Daesh” significa “aquele que semeia a desordem”.

Este grupo terrorista impôs uma espécie de portagem sobre o valor cobrado pelos traficantes de migrantes na Líbia, em 2015, lucrando cerca de 30% dos estimados 300 milhões de euros gerados por essa atividade, e assim conseguiu lucrar 88 milhões de euros só com o tráfico de migrantes, que se tornou na atividade de maior lucro na região – mais do que a droga, o tabaco e os medicamentos.

Este grupo, que usa deliberada e indiferentemente a violência mortal contra cidadãos inocentes em qualquer parte do mundo autointitula-se “Estado Islâmico”, desde 29 de junho de 2014, mas são considerados por muitos países, e também pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela UE (União Europeia) como um grupo terrorista. É mesmo isso que são: um grupo de terroristas loucos e assassinos. Apenas isto, e já é demais!

É assim que se deve referir a este grupo, que sistematizou a tática do terrorismo e passou à execução implacável e assassina, que atingiu muitos inocentes, em muitos países do mundo, como forma de intimidação e tentativa de manipulação, com fins religiosos e politicos. Este grupo, no seu formato inicial era composto e apoiado por diversas organizações como a Al-Qaeda no Iraque e outras organizações terroristas sunitas insurgentes, o maior ramo do Islão, na maior parte muçulmanos.

Não se deve dizer “Estado Islâmico”, até porque implicaria uma certa ideia de instituição, o que evidentemente não tem nada a ver com a realidade, e chamar “Estado” a um grupo terrífico de terroristas que cortam gargantas a pessoas e gravarem para passarem nas televisões é demasiado honroso. Mas tem mais: estes terroristas ameaçam cortar a língua a quem pronuncie a palavra “Daesh” e nos territórios controlados o castigo são setentas chibatadas.

O “califado”, que é uma forma islâmica de governo foi proclamado há um ano, representando a unidade e liderança política, assim como a autoridade religiosa sobre todos os muçulmanos do mundo islâmico, ainda que sem o reconhecimento pela comunidade internacional. Este “califado”, que tem como “califa” o iraquiano Abu Bakr al-Bagdadi, de 46 anos, é um personagem que prefere permanecer na sombra, e é um dos homens mais procurados do planeta, cuja captura o governo norte-americano oferece 10 milhões de dólares, aspira tomar o controlo de muitas outras regiões de maioria islâmica, a começar pela Síria, Iraque e pela região do Levante, que inclui a Jordânia, Israel, Palestina, Líbano, Chipre e uma área sutuada no sul da Turquia (Hatay). Inclusive já ameaçou a própria Peninsula Ibérica!

Recentemente, o Parlamento Europeu reunida em sessão plenária em Estrasburgo atribuiu o Prémio Sakharov 2016 de Liberdade de Expressão a duas ativistas da comunidade yazidi do Iraque, Nadia Murad Basee Taha e Lamiya Ali Bashar, que foram escravizadas sexualmente pelos jihadistas do Daesh durante vários meses.

Estas duas ativistas foram escolhidas pelos esforços na defesa da comunidade yazidi e das mulheres que sobrevivem à escravidão sexual às mãos dos jihadistas do Daesh, tendo-se tornado porta-vozes da sua comunidade na denúncia dos crimes de guerra e genocídio perpetrados pelo Daesh.

A ONU tem de ter bem presente que os grandes conflitos começam por pequenos incidentes inesperados, como aconteceu com a primeira Guerra Mundial. Atualmente não se trata de um incidente sem importância, mas sim de uma execução dramática de um projeto que tem de ser impedido. Urgentemente!

SEM DIMENSÃO OU UNIVERSO

MIGUEL GOMES
Porventura e por ventura, o silêncio do que falo é tudo o que consigo fazer ouvir. 

Lamento que o quanto de tudo que recolho na vida seja inaudito, fica a bailar nos olhos, nalguma contracção muscular que faça erguer um sorriso ou na maré que, momentaneamente, possa trazer uma ondícula salgada até onde a minha parca vista alcança.

Habito-me sem me sentir em casa, habituo-me sem me fazer quotidiano, os dias rimam apenas porque tombam e se penduram na armação invisível que se ergue em redor do que escrevo. 

Coroam-se as palavras, porque lhes louvo a ventura e ousadia de lavrarem o espaço que separa o meu sopro dos teus campos férteis, no entanto, nem bom vento, nem bom advento provém da atmosférica fronteira que me separa do que habito e de onde moro.

Calcorreio por entre estrepes aguçadas o percurso, desencantado, por não saber de cor o nome das estrelas embora me faça por estrelar a cada sorriso de uns petizes, esses, sim, que não o sabem e por isso são felizes. 

Há um e outro, ao redor de uma e outra, gravitando as tardes porque o que educam não é o que aprendem, mas sim o que desencontram quando se soltam da pederneira as pequenas faíscas que os fazem arder brandamente no acampamento da vida.

Um dia, quando não me calar, vou levar alforge onde caibam os estilhaços dos espelhos que fui partindo, porque no reflexo de uma taça deve luzir o nome de quem à vida e na vida se alcança.

Todos clamam pelo sol, esquecendo o imenso calor que irrompe do esforço da chuva em se fazer sentir. Pouco mais que o dinheiro, deixo a pobreza acompanhar-me. 

Só assim consigo ter os bolsos suficientemente vazios para lá caberem todos os sonhos em formas de maias floridas que não colho. 

Em tudo há o valor, inavaliado, de se ser uma pequena fragmentada porção de pó cósmico aglomerado num só corpo, num só pensamento, com saudades de ser praia e areal, terra e pinhal.

Acredito que um dia, um momento, possamos ver-nos como uma frágil fatia de um elaborado bolo cujo condimento é o sorriso que podemos fazer crescer numa outra fatia. 

Todos parte de um e um que se parte quando nos esquecemos de nos abraçar de encontro ao que somos, um corpo de cada vez, até não sabermos distinguir por livre e espontânea vontade a etiqueta que nos separa do que nós somos do que nos fazem. 

Tenho as mãos cansadas de tanto procurarem, no espaço que permeia a distância que me separa de amanhã, aquele momento em que me sei semeado pelo sol, colhido pela chuva. 

Que me desculpem as palavras se as obrigo a serem aquilo apenas que sei ser, enfim, criança homem sem dimensão ou universo onde nascer.

L’ALMA DE LS LHUGARES OU UA CIERTA GIOGRAFIE DE LS SONIDOS

CARLOS FERREIRA
Quantas Tierras ten la Tierra? Fuosse you xordo i nun falarie assi!

Na sociadade global percisamos que cada tierra seia çfrente, outéntica, que tenga alma, porque doutra maneira ls turistas nunca alhá pónen ls pies! Porque doutra maneira las pessonas que alhá bíben nun ténen eidentidade!

Ls turistas i biajantes que s’astrében a pisagar i correr la Tierra de Miranda: abístan l Praino, mas muitos prainos hai pul mundo; abáixan sues lhadeiras i arribas fantástiscas, mas muitas lhadeiras i arribas hai pul mundo; I riu que scabou aquel trabalho, anque tamien alhi s’alimente, nien alhi nace, nien alhi zauga, stá solo de passaige, i muitos outros rius de passaige hai pul mundo.

Míran las nubres guapas a passar, quaije a topar-le, porque stan mais acerquita de ls uolhos, porque l Praino stá a 700m d’altura i an to ls prainos, mais ou menos altos, ye assi: las nubres stan mais acerca; l aire ben i cuorre para loinge, cumo to ls aires, an to ls lhados de l mundo. L sol nace, assoma-se, rechina, i nun quier saber de la Tierra de Miranda para nada, tal cumo an to l sistema solar, l sol nun quier saber de nada nien de naide: ls sous remilhones de splusones nucleares bástan-le para ser! Las bistas i miradas al loinge i al acerca, las arbles, la giente, las casas, todo l que quéda ne ls retratos: todo esso hai por outras Tierras de l mundo, sien que se beia assi tanto de rialmente nuobo ou resbelgado! Mas se ls biajantes i turistas apeduráren l oubido, puoden oubir sonidos que nunca oubiran noutro lhado de l ouniberso, sonidos dessa giografie sonora que talbeç l biajante nien antenda, mas bóndan esses sonidos lhebes cumo prumas, para que l biajante puoda dezir: esta tierra ye çfrente, sonidos cumo estes nun oubimos noutro lhado! Als xordos que sonidos nun ouben, antra-le puls uolhos ua lhuç q’amostra ua outra maneira amparelhar las letras de ls chameiros toponímicos: ç, ie, uo, lh, on, an…



Ye fundamiento scruitar l absoluto de las coisas mínimas: sien eidentidade, sien alma, se quedarie la Tierra de Miranda, calhando-se ls sonidos de sue lhéngua mirandesa!

MUDANÇA DE IDENTIDADE

PEDRO BASTOS
Uma das primeiras informações que transmitimos aos outros, direta ou indiretamente, é o que fazemos, a nossa profissão, aquilo que estamos qualificados para fazer: a pessoa A é professora, a pessoa B é comerciante, a pessoa C é operária, médico, agricultor, economista…

Uma das perguntas mais frequentes que se fazem a uma criança é o que quer ser “quando for grande”. E a resposta esperada, invariavelmente, é a de qual será a atividade/profissão que esse jovem humano gostaria de exercer quando chegar à idade adulta.

Mas as mudanças que se vão operando no mundo em que vivemos têm-nos levado a alterar a forma como nos “percebemos”: em poucas décadas passamos de uma cultura em que se entendia o processo de aquisição de conhecimento para o exercício de uma profissão como algo que ocorria na juventude, sendo depois explorado e rentabilizado ao longo do tempo de vida adulta, para um paradigma diferente: o da formação contínua, da adequação a novos contextos que chegam muito rapidamente, da “mudança constante”.

Confrontados com um acelerar dessas mudanças, introduzidas por inovações tecnológicas, começamos a ver posto em causa o nosso papel: enquanto há uns anos a nossa “componente produtora” nos fornecia uma corrente constante de recursos para alimentar a nossa “componente consumidora”, hoje vemos a primeira a ser substituída por máquinas que se vão tornando cada vez mais “inteligentes”, a ponto de desempenharem tarefas cada vez mais complexas, que julgávamos apenas executáveis por mãos e cérebros humanos.

Como resultado, para além da fluidez das exigências, é o próprio valor do trabalho humano que tem caído, derivado do excesso de oferta.

No entanto, a segunda componente (consumidora) sai a ganhar destas alterações: nunca foi tão barato colocar no mercado bens e serviços. A tecnologia tem vindo a substituir muitos processos físicos por processos digitais, desmaterializando-os, reduzindo assim as necessidades de trabalho e capital. Nunca tivemos tanto por onde escolher.

A grande questão é que o robô que constrói um smartphone ou um automóvel não o compra, e a pessoa que os deseja ou necessita comprar começa a não ter acesso aos recursos para o fazer, porque todo o edifício social e económico existente lhe “diz” que sem trabalho não há outra forma de os obter.

As soluções que se apresentam para este dilema, em que um excesso de oferta de bens e serviços ocorre ao mesmo tempo que existe um défice crescente de fontes de rendimento que lhes permita aceder (na tradicional forma de trabalho), são desconhecidas apesar de se começarem a vislumbrar pistas quanto às mesmas.

Será que uma das soluções é tentar atrasar ou fazer parar esta mudança? Criando barreiras e tentando replicar em circuito fechado uma realidade que já não existe?

Ou será dando um passo em frente, assumindo que é preciso responder de forma diferente a uma nova realidade? E como testar as respostas, para saber quais as que obtêm melhores resultados?

Se a resposta definitiva estivesse num qualquer algoritmo, numa máquina que nos indicasse o caminho, seria simples. Mas não está. Está na nossa visão e conceção do mundo, no receio das consequências daquilo que temos vindo a criar, e que nos impede de adaptar a um novo contexto.

Talvez porque temos uma enorme dificuldade em nos tornarmos seres que não se definem pelo que fazem.

É natural que assim seja: crescemos a querer ser e fazer algo quando “fossemos grandes”.

sábado, 26 de novembro de 2016

INSÓLITOS LEGISLATIVOS…. POR CÁ

JORGE NUNO
Foram muitos os comentários, cartoons, anedotas, risota, indignação, e tudo o que possa passar pela cabeça de cada um, quando foi noticiada a intenção de se legislar o valor do IMI associado à exposição solar (que levaria a um agravamento do IMI) ou às vistas para um cemitério ou ETAR[1] (que, supostamente, representaria um desagravamento). 

Recuando a 1937, o decreto-lei n.º 28219 – saído em 24 de novembro de esse ano –, criou uma licença de isqueiro. Isso mesmo! Obrigava o cidadão a ter uma licença, denominada “Licença anual para uso de acendedores e isqueiros”. A pedido, era emitida, de forma pessoal e intransmissível, por qualquer Repartição de Finanças. O custo associado a esta licença era significativa para a época, até ser abolida em 1970, altura em que tinha um imposto de selo de 50$00. Havia lugar à apreensão do isqueiro e multa de 250$00, caso fosse apanhado, por um polícia ou “fiscal de isqueiros”, sem a respetiva licença. O infrator era mesmo considerado delinquente e, se fosse funcionário público, a multa seria o dobro e comunicado ao seu serviço, o que faria com que perdesse, de imediato, cerca de metade do que ganhava durante um mês de trabalho. Para que se saiba – nem que seja por curiosidade –, 70% da multa revertia para o Estado e 30% para o autuante ou participante. No caso de haver denunciante, este recebia metade do valor do autuante. É fácil de ver que a legislação, ao penalizar fortemente os funcionários públicos infratores e ao permitir-lhe beneficiar de uma percentagem significativa da multa, caso fossem denunciantes, fazia com que estes se tornassem cúmplices do regime, que tudo fazia para ter controlo sobre tudo e todos. 

Tive consciência da necessidade dessa licença em 1968, quando me deslocava na ponte de Santa Clara, em Coimbra. Parou um indivíduo, mesmo à minha frente, e puxou do cigarro e do isqueiro. Nesse momento aproximou-se um outro, que lhe exigiu a licença. De imediato, atirou o isqueiro para a água do rio Mondego e perguntou: “Qual isqueiro?”. Houve algum rebuliço, em que o “fiscal” tentava exercer a sua autoridade, mas, sem prova, desta vez não houve multa.

Porque achei estúpido obrigar uma pessoa a ter licença de isqueiro, tentei procurar uma justificação e foi-me dito que seria para proteger a indústria “nacional” dos fósforos, contra os isqueiros feitos noutros países. 

Como país é pródigo nestas matérias, tudo isso tem acontecido ao longo de décadas, renovado com outras temáticas, embora agora atenuado da prática do denunciante. 

No início desta semana, perguntava a uma pessoa que me é querida, de uma forma simplista e com um sorriso enigmático, aquilo que poderia ser a interpretação de um cabeçalho de notícia, num qualquer jornal sensacionalista: “Sabias que agora vão cobrar uma taxa a quem tiver uma garagem com acesso direto a uma estrada nacional?”. Logo após a primeira tentativa para descodificar a minha expressão, a resposta foi imediata: “O dia 1.º de abril ainda está longe! Estás a querer enganar quem?” – tal era o absurdo –. “É verdade!”, insisto. Curta frase que vejo retribuída com: “´Tá bem, abelha!”, ficando o assunto por aqui. Mas como o caso me pareceu insólito, embora neste país já nada será de estranhar – ainda mais quando se trata de aplicar taxas e taxinhas –, fui pesquisar. Fiquei a saber que GNR tem vindo a notificar alguns proprietários, cidadãos comuns e empresas, para pagar licenciamentos à IP – Infraestruturas de Portugal (anteriormente designada Estradas de Portugal). Perante o desagrado dos visados e de autarcas, a IP diz estar a fazer cumprir a legislação em vigor. Trata-se da aplicação de uma portaria conjunta dos ministérios das Finanças e da Economia, datada de 14 de outubro de 2015, direcionada para quem tiver um imóvel com garagem, com uma rampa de acesso direto a uma estrada nacional. Um proprietário, que esteja nestas condições, será obrigado ao pagamento de uma taxa, rotulada de “licenciamento”, que pode chegar aos € 500 + custos do processos a rondar os € 1.250, assim distribuídos: € 500 para informar o processo; € 200 para ser emitido um parecer favorável (ou não); € 250 para uma vistoria extraordinária e € 300 para a reavaliação ou autorização. Fiquei também a saber que um conhecido autarca nortenho, com responsabilidades na respetiva Área Metropolitana, deu o exemplo de uma habitual festividade religiosa, em que haja uma procissão a atravessar a estrada nacional, estará sujeita ao pagamento das taxas.

No regime ditatorial era conhecido, ao pormenor, as percentagens a distribuir entre Estado, polícia, fiscal, autuante, participante e/ou denunciante, bem visível no verso da licença de isqueiro. Após quarenta anos de regime [dito] democrático, continuam as práticas absurdas, agravado pela falta de transparência de se dizer qual a percentagem qua cabe a cada um. Como apologista de uma democracia, no mínimo, acho insólito!
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[1] ETAR – Estação de Tratamento de Águas Residuais

A VITÓRIA DE TRUMP, O PÂNICO DO ESTABLISHMENT E O SUCESSO DE ANTÓNIO COSTA

PAULO FERREIRA
A inesperada vitória de Donald Trump tem feito correr tinta quanto baste. Muitas são as teorias que tentam justificar a opção do eleitorado norte americano. Há quem atribua o resultado de Trump ao demérito da candidata democrata e há quem entenda que foi a situação económica e social em que vivem milhões de cidadãos norte americanos, que potenciou o veredito popular. Naturalmente que o perfil do candidato republicano e o seu discurso anti sistema, não devem, neste ponto, ser descurados. Mas aquilo que perpassa de praticamente todas as análises aos resultados eleitorais que tenho lido, é que a maioria esmagadora dos eleitores de Trump votou, convictamente, neste candidato republicano. Ou seja, ao colocarem a cruz no boletim de voto, os americanos assumiram a defesa das polémicas propostas do agora Presidente eleito, designadamente a criminalização do aborto, a deportação de imigrantes, a construção do inenarrável muro junto da fronteira com o México, ou o incumprimento das metas ambientais assumidas internacionalmente.

Pois bem, sem prejuízo de uma importante fatia do eleitorado poder subscrever tais medidas, a verdade é que quem deu a vitória a Trump foram os americanos moderados, da classe média e profundamente magoados com a ausência de políticas tendentes a mitigar as brutais consequências da globalização. Infelizmente, nos EUA e no resto do mundo, os últimos anos têm sido liderados pela oligarquia dos famosos mercados. Sem as respostas necessárias por parte do establishment político, os eleitores americanos decidiram dar um murro na mesa e dizer basta. Claro está que pensar que todos os que votaram Trump defendem e/ou acreditam ser possível colocar em prática a maioria das propostas do agora novo Presidente americano, é o mesmo que considerar os cidadãos dos EUA uns meros mentecaptos.

Por terras do Tio Sam, mas também na nossa velhinha Europa, o povo desespera por uma política de valores e de compromissos. Lá, como cá, os cidadãos exigem o regresso de líderes políticos moderados, tolerantes e empenhados numa verdadeira regulação dos mercados. Infelizmente, na grande maioria dos países, esse regresso tem sido sistematicamente adiado. O voto em candidatos outsiders, como Donald Trump, mais não é do que um derradeiro e desesperado SOS.

Claro está que, tendo em conta a nossa escala, Portugal, isoladamente, nada poderá fazer contra a proliferação de resultados eleitorais similares aos norte americanos. No entanto, os últimos dados divulgados, quer em termos de crescimento económico, quer em termos de contas públicas, são um importante sinal de confiança. Afinal é possível atingir algumas das metas que os mercados tanto gostam, sem que para tal seja obrigatório reduzir salários, aumentar impostos de forma cega ou liberalizar despedimentos. O exemplo deste primeiro ano do governo de António Costa merece ser estudado com especial cuidado. Ninguém esconde as enormes dificuldades que o país ainda atravessa. Mas mesmo com uma Comissão Europeia ostensivamente instrumentalizada pelos ditames agiotas, a verdade é que o governo português conseguiu atingir a meta do deficit, aplicando um conjunto de políticas diametralmente opostas às exigidas pelo Sr. Wolfgang Schäuble e pelas principais agências de rating. Que estes resultados em Portugal possam servir de inspiração também lá fora. O povo e a democracia agradecem.

“FAIAL DA TERRA: O PRESÉPIO DA ILHA”

CARLA LIMA
O Faial da Terra é uma freguesia do Concelho da Povoação, na Ilha de São Miguel, nos Açores. Tem aproximadamente 13 km2 e 400 habitantes.

O Faial da Terra, também conhecido como “O presépio da ilha”, pode ser uma freguesia muito pequena mas tem muito para visitar. Em relação ao património, há que destacar os fontanários, o Coreto, o busto do Padre Elias e principalmente a Igreja da Nossa Senhora da Graça, padroeira da freguesia, e a Ermida de Nossa Senhora de Lurdes, que foi gravemente atingida pelo sismo de 5 de Julho de 1932.

Quem desejar visitar os vários locais de admiração desta freguesia povoacense poderá ainda apreciar os Moinhos de Água; o Miradouro da Ermida de Nossa Senhora de Lurdes; o antigo Porto de pesca da Baleia (único existente na Ilha de São Miguel); o Lugar do Sanguinho (primeira zona habitacional da Freguesia); a Cascata do Salto do Prego e a Fajã do Calhau.

CASCATA DO SALTO DO PREGO

A Cascata do Salto do Prego faz parte do itinerário de uma caminhada não aconselhada a pessoas com dores musculares ou pouca paciência para andar.


É uma caminhada longa que começa no Faial da Terra e termina no Sanguinho, levando aproximadamente três horas. Convém levar roupa e sapatos confortáveis. Água e umas bolachinhas ou umas sandes, serão imprescindíveis também.

O trilho é feito dentro de uma densa floresta, ladeada por uma ribeira. É magnífico! Em alguns sítios parece que estamos mais perto do céu. E o silêncio é maravilhoso e avassalador. Ao chegar à cascata do Salto do Prego ficamos sem palavras com a beleza única daquele sítio. Se fecharmos os olhos e ficarmos a ouvir o som da cascata, sai-nos o peso do mundo de cima. É como lavar a alma. Pode-se tomar banho na cascata, mas a água é muito fresca. Eu tentei e ia ficando em forma de estátua, com o frio.

 ALDEIA DO SANGUINHO
Continuando a caminhada, encontramos a Aldeia do Sanguinho. É uma aldeia rural, com cerca de vinte casas desabitadas desde o início dos anos 70. Naquele local já viveram cerca de duzentas pessoas, que o abandonaram pela ausência de condições de conforto, dificuldades de acesso e também devido à emigração. Da última vez que fiz o trilho as casas ainda estavam abandonadas. Sei que neste momento já foram reabilitadas para turismo rural, o que me dá uma certa “pena” porque aquelas ruínas no meio do nada davam um ar fantasmagórico e peculiar. Mas não deixa de ser um sítio extremamente interessante para quem procura um tipo de turismo silencioso e “no meio do nada”.

A Fajã do Calhau fica alojada no fundo de uma falésia que desce quase na vertical desde os 440 metros de altitude. Perto do mar, forma uma zona plana onde se encontra uma aldeia e uma extensa área de calhau usada para banhos. É uma localidade privilegiada pelo microclima e que se encontra entre o Faial da Terra e outra freguesia do Concelho da Povoação, Água Retorta. Actualmente, o acesso é feito por uma estrada, que passa pela freguesia de Água Retorta.
FAIAL DA TERRA

Desde pequena que tenho um carinho especial pelo Faial da Terra. Talvez pelo silêncio, talvez por ser
IGREJA DE NOSSA SENHORA
DAS GRAÇAS
considerado “o presépio da ilha”, talvez pelas pessoas e pela sua humildade. E já presenciei muitas das várias transformações que a freguesia tem passado. Uma foi a Fajã do Calhau. A primeira vez que passei um fim-de-semana com amigos no Faial da Terra foi na “antiga” Fajã do Calhau. Tenho de salientar que isto já foi há mais de vinte anos. O caminho era de difícil acesso, de terra batida com muitos buracos e muitas pedras. E não era via Água Retorta, mas sim pelo Faial da Terra. Levamos o carro e a viagem até à casa onde ficamos alojados foi tão difícil que até alguns de nós choraram. Não vou dizer quem…(eu!) Actualmente, a Fajã do Calhau é um sítio de “gente fina” com casas ricas a que só algumas pessoas têm acesso. Naquela altura era uma fileira de casinhas sem água, sem luz, sem casa de banho. Algumas (a nossa) até com ratos. E a água vinha de uma única torneira na rua que servia todas as casas, quer fosse para beber, para ir buscar com um balde para lavar a loiça ou para atirar para dentro da sanita ou para tomar banho. Mas querem que seja sincera? Foi um dos fins-de-semana mais divertidos de toda a minha vida. Fez-me lembrar a minha infância no campo e que saudades que tenho desse tempo sem internet, sem facebooks, sem iphones e em que nos divertíamos muito mais a conversar e a improvisar.

Foi também no Faial da Terra que dancei o “Pump of the jam” numa discoteca improvisada, que no fundo era o sótão da casa do dono de um café local, com a família toda do senhor. Que pedi rissóis num barzinho e que o senhor respondeu-me “saem dois girassóis!”. Que num fim-de-semana só com raparigas tomamos banho às quatro da manhã na mini-piscina pública. Que rimos tanto no quintal da casa onde estávamos que a vizinha veio bater à porta e disse “parem lá com essas gaitchadas!” e nós rimos mais por não sabermos o que eram “gaitchadas”. Agora sei que são risadas. Belos tempos!

O Faial da Terra pode ser pequeno em tamanho mas para mim é um grande baú de memórias.

“Um homem sem memória é um homem sem passado.”
Albert Camus