domingo, 31 de julho de 2016

NÃO SOMOS UM PAÍS PEQUENINO

MOREIRA DA SILVA 
Não é a dimensão de um país que faz com que ele seja rico ou feliz. Constatamos com facilidade, a existência de países pequenos, que são ricos e felizes, como é o caso da Suíça, por exemplo, assim como também constatamos com facilidade países enormes, que são muito pobres e o seu povo muito infeliz, como é o caso da Nigéria, por exemplo.
Ouvimos e vemos muitas vezes escrito na imprensa que Portugal é um país pequeno. Isto é uma enorme falácia! Nós não somos um país pequeno. Deixemos de choramingar! A choraminguice não se coaduna com um país da dimensão de Portugal.

Em área geográfica, e no cenário atual Europeu somos um país médio. São muito menos os países que têm uma dimensão superior à nossa e muito mais os países com uma dimensão inferior à nossa e menos choramingões, como é o caso desta quantidade enorme de países, como por exemplo: Suíça, Bélgica, Holanda, Áustria, Malta, Luxemburgo, Mónaco, Andorra, Chipre, Montenegro, Albânia, Arménia, San Marino, Azerbaijão, Bósnia, Croácia, Moldávia, Dinamarca, Eslováquia, Eslovénia, Estónia, Geórgia, Irlanda, Letónia, Liechtenstein, Lituânia, República Checa, Sérvia. Não somos um país pequeno, na Europa somos um país médio!

No passado, nos séculos XV e XVI, fomos os pioneiros da Era dos Descobrimentos. Podemos afirmar que foram os portugueses que iniciaram a globalização. Nesse período, Portugal expandiu a sua influência, estabeleceu um poderoso império e tornou-se a potência económica, política e militar mais importante de todo o mundo. O império Português foi o primeiro império global da história e também o mais duradouro, pois teve quase 600 anos de existência. Portugal não é a mais antiga Nação do mundo, mas é uma das Nações mais antigas do mundo, com as suas fronteiras inalteráveis. Em termos de Direitos do Mar, Portugal possui a maior ZEE – Zona Económica Exclusiva da Europa e a 10ª maior do Mundo. Infelizmente, o país não tem uma verdadeira indústria do Mar, mas isso é um problema originado pelo tipo de políticos que temos elegido e nos têm governado ao longo dos anos, incapazes de percecionar o verdadeiro potencial de Portugal.

Foram os portugueses que inventaram a Via Verde, o cartão de telemóvel pré-pago e o sistema de multibanco integrado. Um dos melhores calçados do mundo é português, assim como é português o melhor vinho espirituoso do mundo (Vinho do Porto) e alguns vinhos de mesa rosé e tinto, azeite, têxteis, cortiça, fibras sintéticas e artificiais. Somos líderes mundiais no fabrico de ferramentas de corte de alta precisão. Fomos considerados por diversas revistas da especialidade o melhor país para visitar e passar férias, assim como um país encantador, com um povo acolhedor e uma temperatura amena, que faz inveja a muitos paraísos turísticos. Somos um país desenvolvido, com um índice de Desenvolvimento Humano considerado «muito elevado» e estamos classificados nos 20 primeiros lugares em «qualidade de vida». Para além disto, ainda temos um dos melhores sistemas de saúde do mundo e somos uma das Nações mais globalizadas e pacíficas do mundo. Até já «exportamos» e continuamos a «exportar» Paz! Foram as nossas forças militares, militarizadas e policiais, que deram um forte contributo para a pacificação de zonas e países em guerra, desde Timor, Balcãs, Afeganistão e Iraque, entre alguns exemplos.

Também é bom lembrar que entre as 20 melhores atletas, em 2016, da história da WNBA (Basquetebol americano, o melhor do Mundo), uma dessas melhores atletas é portuguesa. Somos Campeões Europeus de Futebol Sénior Masculino, em Sub-17, em Futebol de Praia e também em Futsal (Padres). Somos Campeões do Mundo em Hóquei em Patins, em Futebol de Praia, em Ginástica Acrobática e em vela na classe de 420. Obtivemos várias medalhas de ouro, prata e bronze nos Europeus de Atletismo em 2016. São portuguesas a Campeã Europeia Júnior de Surf Feminino e a Tetracampeã Europeia de Judo. São portugueses o Campeão Europeu de Taekwondo, o Campeão do Mundo de Maratonas em BTT, o Campeão Europeu de Canoagem e o Campeão Europeu de Juniores em Judo. São portugueses, o melhor Treinador de Futebol do Mundo, o Melhor Jogador de Futebol do Mundo e o Melhor Jogador de Futsal do Mundo.

Também é português o mais brilhante investigador do Mundo na área do estudo do cérebro, sendo Professor Catedrático e Diretor do Departamento de Neurobiologia da Universidade de Iowa, nos EUA e Presidente, há mais de três décadas, do Instituto do Cérebro e da Criatividade.

Existe uma forte probabilidade de o novo secretário-geral da ONU ser português.

Foram realçados apenas alguns factos altamente positivos de um país com um potencial enorme que se chama Portugal, que deve encher de orgulho todos os portugueses. De uma vez por todas acabemos com o «fado do desgraçadinho: tão pobrezinho e tão pequenino».

O PARADIGMA DA MASCULINIDADE

DIOGO VASCONCELOS
O homem do séc. XXI é mais exigente consigo próprio. Gosta de cuidar da sua aparência. Tem atenção ao seu aspeto físico e ainda bem que é assim. Pensar que, dessa forma, perdemos masculinidade é erróneo.

Cuida do corpo, do vestuário, da alimentação e, essencialmente, da mente. Esquece o que os outros dizem, pensa pela tua cabeça, não és obrigado a coadunar com uma imagem do homem retrógrada que não te identificas. 

Quando conheces outras partes do globo reparas que este tema já não é nenhum tabu, já nem se coloca a questão de o homem deve, ou não, ter preocupações com a imagem, tem de ter. A sociedade está cada vez mais competitiva, os pequenos pormenores fazem a diferença, acreditem! Quando vamos a uma entrevista de emprego, a um jantar de família ou até mesmo à praia, devemos ter preocupação com o que levamos vestido, não marcar a diferença pelo que usamos, mas sim não ser excluídos “à priori” pelo que trazemos no corpo ou pela forma como agimos. A imagem, o saber estar perante as diversas situações conta amigos, não tenham dúvidas. Se numa entrevista de emprego apresentares as mesmas capacidades e competências que uma outra pessoa, algo fará a diferença no processo de eleição. Quando entras numa sala, não tenhas receio de fazer sentir a tua presença. Com o olhar diz: cheguei!

Não devemos viver obcecados pelo culto ao corpo, à imagem. Isso é a antítese do bem-estar, todavia, é por alguma razão que os produtos masculinos estão a ter um “boom” no marketing. São cada vez mais requisitados, cada vez mais vendidos, o padrão de qualidade está a aumentar. O homem hoje já não veste qualquer coisa, já não utiliza qualquer perfume, já não corta o cabelo em qualquer lado. 

O papel do sexo masculino está a inverter-se na sociedade? 

Claro que não, continuamos a ter as nossas características próprias e devemos preservá-las e ter orgulho nelas, não obstante, pensar que o mundo contínua igual à 20 ou 30 anos atrás é parar no tempo. Não é uma questão de futilidade, nem devemos pôr as coisas nesse prisma, se não gostares de ti, quem gostará? É verdade, é antiga esta frase, parece um “deja vu”, mas continua a fazer sentido. Para gostares dos outros tens de gostar de ti próprio, ter auto estima .

VAGAMUNDO

MIGUEL GOMES

O corpo tem sono, mas não consigo sequer chegar perto daquele torpor morno que nos aquece, como um Sol que raia no mundo dos sonhos. 

Há episódios que fazem todo o sentido em épocas adequadas, como o Natal ou a Páscoa, no entanto, quando por irónico acaso do destino os mesmos se desenrolam fora dessas épocas festivamente convertidas a celebrações religiosas, os episódios transformam-se em quotidianas formas de ver diluírem-se, nas camadas invisíveis da sociedade, os vultos bem visíveis que a própria sociedade purga. 

Sigo em pé no autocarro, não sei se o 701 ou 703. Há lugares vagos, mas não quero sentar-me, estou bem em pé, sem vontade de ler ou sonhar, apenas encostar a cabeça ao varão e olhar para a estrada, com olhos de apenas ver, sem pensar. 

O autocarro para, entram várias pessoas ao som do aparelho que valida das senhas e passes de autocarro. Longe vão os tempos do tac-tac ou plim ou o mais avançado crrrrrzzztttcrrrrr, os amarelinhos "validadores" de senhas stcp ou andantes (nomes bonitos para os nossos títulos de transporte) conferem uma animação fora do vulgar. 

No meio dos bips, há um que sobressai, é um biiiiiiiiiiip, sinal de que a senha ou passe não está válido, vá-se lá saber porquê, se por falta de provimento, leia-se dinheiro, se por falta de coerência tecnológica, que resolve avariar senhas aleatoriamente (a mim aconteceu-me uma vez em duas semanas). O biiiiiiiiiiip continua, novamente, mais uma ou duas vezes até que, por fim, acordo para a situação e olho para a frente do autocarro.

O termo vagabundo é geral demais para o descreve, no entanto, é assim que me irei referir a ele. 

Alheio ao biiiiiiiiiiip insistente, dirige-se para o interior pelo corredor, eventualmente será defeito da máquina, penso eu por ele, que guarda a senha (neste momento ainda não sei que é um passe) no bolso interior do casaco e passa por mim. 

Mesmo que estivesse a dormir, seria facilmente acordado pelo cheiro a corpo abandonado e alma perdida que exalava dele. O cabelo comprido, encaracolado pelo tempo e sujidade. O chapéu tem indícios de já ter sido branco, está enfiado na cabeça e o branco que eu referi só se vê no topo do chapéu, o restante é já da cor do cabelo, encardido, esbatido por força de muitas horas de suor e poucas de higiene pessoal. 

Senta-se mesmo atrás de mim, num dos bancos ao lado da porta de saída e o cheiro é, de facto, intenso. As poucas vezes que o olhei nos olhos foi para me sentir cair num labirinto escuro, onde nem a mais forte luz poderia entrar. Rodopiava frequentemente e quando me tentava levantar, vários sonhos frustrados agarravam-me as pernas e braços e puxavam-me para baixo. Tinha os olhos azuis claros. De repente levanta-se, as calças ficaram coladas às pernas enquanto andava. Sentou-se no fundo do autocarro, num assento vago, apertado, mas que rapidamente fica largo, pois uma senhora sentada ao lado se levantou, veio para o meu lado, torceu o nariz, franziu a testa e olhou para mim, abanando negativamente com a cabeça, quase imperceptível. Que quereria dizer aquela negação?

Umas paragens à frente uma equipa de revisores/fiscais entra no autocarro. Ele levanta-se rapidamente e dirige-se para a porta, mas esta já estava fechada e ele não pode sair. As pessoas tiram passes e senhas, mostrando-as ao revisor, moço novo, alto e forte. "O seu bilhete por favor" e "obrigado", parecem ser as poucas palavras que consegue proferir. Os braços porcos entregam um passe que, como se adivinhava, não era válido desde o mês passado, coisa pouca. O que se passou a seguir não sei, a cara do "vagabundo" fez-me tropeçar pelos sonhos abaixo e cair de cara contra a vida actual. 

Ainda ouvi umas risadas e o barulho pneumático das portas a abrirem e os meus passos que se perderam no alcatrão.

BIG BROTHER IS WATCHING YOU...

PAULO NETO
Há obras que, por vezes, parecem pairar ignoradas no tempo e de repente, pegamos nelas, lemo-las de um rufo e percebemos que apesar de estarem mais de meio século distantes da sua publicação, não se anacronizaram, antes pelo contrário se presentificando na mais ampla e lúcida actualidade.

Em Portugal deparamos com esse fenómeno na bibliografia activa de Aquilino. Mas agora, aqui, queria deixar uma referência a George Orwell e a “1984”, que não sendo o seu mais conhecido título, pois obnubilado pelo sucesso de “O Triunfo dos Porcos”, tem um conteúdo arrepiante… Seguiu-se a edição de 2002 da “Colecção Mil Folhas”, a obra original sendo datada de 1949.

Deixo-vos alguns extractos, tirados dali e de além, propondo ao estimado leitor o exercício mental de relacionação e analogia entre uma ficção perspectivada há mais de seis décadas e a realidade do Portugal de hoje...

Boa leitura!


“Já tinha percebido que a única base segura para a oligarquia é o colectivismo. A riqueza e os privilégios são mais fáceis de defender quando possuídos em conjunto.” 

“Só há quatro maneiras de um grupo dominante perder o poder. Ou vencido do exterior, ou governa de modo tão pouco eficiente que as massas acabam na revolta, ou permite que se forme uma classe Média forte e descontente, ou perde a confiança em si próprio e a vontade de governar.”




“Do ponto de vista dos nossos actuais governantes, por conseguinte, os únicos perigos reais resumem-se à formação de algum novo grupo de gente capaz, subaproveitada e faminta de poder, e à difusão do liberalismo e do cepticismo nas suas próprias fileiras. Ou seja, trata-se de um problema educacional. Questão de moldar permanentemente a consciência tanto do grupo dirigente como do grupo executivo mais vasto, que se situa abaixo do primeiro. Quanto à consciência das massas, basta influenciá-las pela negativa.”

“… a estrutura global da sociedade oceânica. No vértice da pirâmide, o Grande Irmão. O Grande Irmão: infalível e todo-poderoso. Considera-se que cada êxito, cada realização, cada vitória, cada descoberta científica, toda a sabedoria, toda a felicidade e toda a virtude derivam directamente da sua chefia e da sua inspiração.”

“Os proletários, esses, na prática, não têm a mínima hipótese de entrar para o Partido. Os mais dotados de entre eles, que poderiam vir a gerar focos de descontentamento, são detectados pela Política do Pensamento e simplesmente eliminados.”


“Espera-se de qualquer membro do Partido que não tenha sentimentos pessoais nem quebras de entusiasmo. Pretende-se que viva num frenesim contínuo de ódio aos inimigos estrangeiros e aos traidores internos, de euforia pelas vitórias e de auto-aviltamento ante o Poder e a sabedoria do Partido.”

sábado, 30 de julho de 2016

RESULTADOS DESPORTIVOS BRILHANTES, EM ANO OLÍMPICO

JORGE NUNO
A uma semana do início do Jogos Olímpicos (J.O.), a realizar no Rio de Janeiro, somos confrontados com boas notícias, relacionadas com prestações de alto nível por atletas portugueses, em várias modalidades. Num curto espaço de tempo, independentemente de os portugueses serem ou não apreciadores de desporto, viveu-se no país grandes momentos de “orgulho nacional”.

No topo, por se tratar do “desporto-rei”, o feito da seleção nacional de futebol (AA), ao sagrar-se campeã da Europa. Foi uma final emotiva, tendo como adversária a França – que jogava em casa –, com Éderzito no papel de herói improvável (que reconheço… eu próprio ficava “angustiado” sempre que via a sua convocatória e via o selecionador metê-lo em campo, mesmo que fosse a poucos minutos do fim do jogo). Igual título, conseguiu-o a seleção nacional de futebol sub-17, em maio passado, frente à Espanha. Portugal, no desporto universitário, representado em futebol pela Universidade do Minho, também é campeão europeu, ao vencer a Alemanha.

A seleção nacional de futebol de praia conquistou, na Sérvia, a taça europeia, ao derrotar a Itália, na final, por 6-3. O título de campeão da Europa também assentou bem na seleção nacional de hóquei em patins, que saiu vitoriosa em todas as partidas, e ganhou a final, frente à seleção da Itália, por um expressivo 6-2, após estar a perder, ao intervalo, por 0-2. Sara Moreira, sagrou-se campeã da Europa da meia-maratona, com Jéssica Augusto a trazer a medalha de bronze e Portugal, coletivamente, a vencer a taça da Europa de atletismo. Patrícia Mamona é campeã europeia na prova de triplo salto. Fernando Pimenta, em K1 (canoagem), sagrou-se campeão da Europa nas provas de K1 1000 e K1 5000 (metros). Tsanko Arnaudov, nascido na Bulgária e a viver em Portugal desde os 12 anos, conquistou prata na taça da Europa de lançamento, prova realizada na Roménia. Ainda no desporto universitário, a nível europeu, a equipa da Universidade de Coimbra é campeã de ténis feminino; Ana Madureira, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro é vice-campeã em Karaté Kumite – 50 kg feminino; a Universidade Nova de Lisboa é vice-campeã em rugby de sete masculina, e as Universidades do Porto e do Minho obtiveram bronze, respetivamente em rugby de sete feminino e em andebol masculino.

A nível mundial, também foram conquistados títulos por atletas portugueses. Tiago Ferreira venceu o campeonato do mundo de maratona BTT (XCM). Os irmãos Diogo e Pedro Costa sagraram-se campeões do mundo na classe 420 (vela). Fernando Pimenta, Emanuel Silva, João Ribeiro e David Fernandes, participaram nos mundiais de canoagem, em Moscovo, e são agora vice-campeões do mundo de K4 1000. Na taça do mundo de canoagem, realizada em Montemor-o-Velho, ficaram 7 medalhas em Portugal, em que Emanuel Silva e João Ribeiro obtiveram ouro, em K1 1000. Maria Inês Pereira Ferreira, com apenas 12 anos, participou no campeonato World Jump Rope, em França, e arrecadou 11 medalhas, uma delas de ouro, outra de prata e seis de bronze. 

Penitencio-me se me esqueci de referir algum atleta ou título, mas se aconteceu foi, naturalmente, um ato involuntário. Mesmo assim, os muitos títulos descritos reportam a 2016 – o que não deixa de ser surpreendente para um país pequeno em tamanho, mas grande na demonstração da vontade de vencer – e ainda o ano vai a pouco mais de meio! Temos aí à porta os J.O. e, com esta onda de confiança e positividade, tudo aponta para que a delegação portuguesa tenha uma prestação muito digna e conquiste mais umas quantas medalhas.

Desde sempre que sinto um enorme fascínio pelo J.O., a ponto de, ainda jovem, ter iniciado duas coleções, uma de filatelia temática e outra de maximafilia[1], ambas com a temática do Olimpismo. Fui ao baú… e na “Introdução” pode ler-se: “A caraterística mais importante das Olimpíadas antigas, que se realizavam na Grécia, era a trégua sagrada: não se permitia a ninguém pegar em armas, suspendiam-se todas as disputas e não se executava ninguém durante a celebração dos Jogos. Esse ideal grego não era praticar desporto, mas adestrar-se e aperfeiçoar-se física e militarmente. Após a interrupção de 1503 anos o ideal olímpico foi retomado, obviamente noutros moldes, pela iniciativa e esforços de Pierre de Coubertin[2], que conseguiu que os primeiros J.O. da Era Moderna se realizassem em Atenas, no ano de 1896, apesar do delegado grego ter sugerido o ano de 1900, devido à Grécia estar à beira da bancarrota”. Pierre de Coubertin, em 1925, viria a demitir-se de presidente do Comité Olímpico Internacional (COI) ao ver (re)introduzidas provas desportivas de que não era partidário, como hóquei, futebol e polo, e todas as provas femininas, que rejeitava, pois era apologista, tal como nas Olimpíadas antigas, que só os homens poderiam participar.

“(…) A ideia olímpica pretende a aproximação das nações, assentando a paz universal numa base sólida. Essa paz, no decorrer dos Jogos, foi por vezes ensombrada [pela guerra, atos terroristas, boicotes…] e alguns deles não se realizaram com a periodicidade prevista, mas há que acreditar que a juventude de todos os países, através do Olimpismo, está pronta a estender as mãos fraternalmente”.

Escrevi também na “Introdução” das referidas coleções: “O desporto converteu-se num elemento essencial da cultura humana, um fator de saúde individual e coletiva, de tal significado, que o dinamismo e as virtudes de um povo podem ser avaliados, com exatidão surpreendente, pelo êxito dos seus atletas nas competições internacionais”. Três décadas depois, estava bem longe de sonhar que haveria graves problemas de credibilidade com a grande Rússia, que ganhou, em casa e no ano de 2014, o maior número de medalhas nos J.O. de inverno, em Sochi. É que a Agência Mundial Antidopagem (AMA) referiu, no relatório que foi entregue ao COI, que o “Governo russo dirigiu um programa de dopagem no desporto, com apoio estatal, com participação ativa do ministro do Desporto e dos Serviços Secretos”. Esse relatório demolidor, levou o COI a suspender esta potência desportiva das competições olímpicas, para depois retroceder na decisão de punir sumariamente todos os atletas, mesmo perante 68 recursos rejeitados pelo Tribunal Arbitral do Desporto (TAS), referente a atletas russos. Mesmo com a decisão final remetida para as Federações Internacionais das várias modalidades, o ideal olímpico ficará desvirtuado. E já vai em mais de 100 atletas russos afastados dos J.O. no Rio! Ainda que um atleta russo vença uma competição, com verdade desportiva, ficará sempre a pairar no ar a suspeição de possível dopagem.

Mesmo perante feitos gloriosos, por cá… nem tudo são rosas! O selecionador Rui Jorge, que tem feito um excelente trabalho à frente da seleção nacional de futebol sub-21, e também responsável pela seleção olímpica, tendo jogadores portugueses de classe superior para formar uma seleção, levá-la ao Rio de Janeiro e fazer um brilharete… referiu em conferência de imprensa o “surreal” de quase não conseguir formar uma equipa. Terá feito 35 convocatórias e apenas conseguiu 11 jogadores! A causa? Como ele próprio mencionou: “por nega de alguns clubes”. Escolheu, posteriormente, mais 8 jogadores que também foram negados. Pois é… esquecemo-nos que a cedência de jogadores, pelos respetivos clubes, para o EURO 2016, valeu aos clubes uma “renda” diária de 6500 euros por jogador. A título exemplificativo, isto faz com que o Sporting Clube de Portugal (que foi o maior fornecedor de jogadores para a seleção nacional) venha a receber, da UEFA, cerca de 1,1 milhões de euros[3] pela utilização de Rui Patrício, William Carvalho, Adrien Silva e João Mário! Pois é… esquecemo-nos quão devem ser “amadores” os atletas olímpicos e que as Sociedades Anónimas Desportivas (SAD), que por vezes denotam grande amadorismo, agora porque não faturam diretamente com essa cedência (já que os J.O. saem da alçada da FIFA) é-lhes fácil dizer “não”, sem qualquer consequência. Nem sequer repararam que deixam fugir esta “montra” para valorização do passe dos seus atletas, nem se importam que a representação olímpica de futebol, neste país de craques de futebol, não passe da mediania.

Mas para a história ficam as 23 medalhas olímpicas obtidas pelos respetivos atletas, em representação de Portugal.

– 4 medalhas de ouro: Carlos Lopes, maratona (Los Angeles, 1984); Rosa Mota, maratona (Seul, 1988); Fernanda Ribeiro, atletismo – 10.000 m (Atlanta, 1996); Nelson Évora, triplo-salto (Pequim, 2008);

– 8 medalhas de prata: irmãos Duarte e Fernando Bello, vela – classe swallow, (Londres, 1948); irmãos Mário e José Quina, vela – classe star (Roma, 1960); Carlos Lopes, atletismo – 10.000 m e Armando Marques, tiro – fosso olímpico (Montreal, 1976); Francis Obikwelu, atletismo – 100 m e Sérgio Paulinho, ciclismo – linha em estrada (Atenas, 2004); Vanessa Fernandes, triatlo – individual (Pequim, 2008); Fernando Pimenta e Emanuel Silva, canoagem – K2 1000 m (Londres, 2012);

– 11 medalhas de bronze: Aníbal Almeida, Hélder Martins, José Mouzinho de Albuquerque e Luís Cardoso Menezes, equestre – prémio das nações (Paris, 1924); Paulo d’Eça Leal, Mário de Noronha, Jorge Paiva, Frederico Paredes, João Sasseti e Henrique Silveira, esgrima – espada por equipas (Amesterdão, 1928); Luís Mena da Silva, Domingos Coutinho e José Beltrão, equestre – prémio das nações (Berlim, 1936); Fernando Paes, Francisco Valadas, Luís Mena Silva, equestre – ensino por equipas (Londres, 1948); Joaquim Fiúza e Francisco Andrade, vela – classe star(Helsínquia, 1952); Rosa Mota, maratona e António Leitão, atletismo – 5.000 m (Los Angeles, 1984); Hugo Rocha e Nuno Barreto, vela – classe 470 (Atlanta, 1996); Fernanda Ribeiro, atletismo – 10.000 m e Nuno Delgado, judo – 81 kg (Sydney, 2000); Rui Silva, atletismo – 1.500 m (Atenas, 2004).

Honra e glória aos vencedores, no uso da verdade desportiva!
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[1] Maximafilia – colecionismo de postais máximos, a que corresponde um cartão postal, selo postal e carimbo filatélico, com condordância dentro do mesmo tema, juntando na mesma peça a filatelia, a cartografia e a marcofilia.

[2] Pierre de Coubertin – barão, nascido em Paris em 1863, pedagogo do desporto, tendo morrido arruinado ao ter dedicado a sua vida e a sua fortuna à causa do desporto.

[3] Valor que resulta de um memorando de entendimento entre a UEFA e a Associação dos Clubes Europeus, válido para o EURO 2016.

EU AINDA SOU DO TEMPO...

CARLA LIMA
Nasci em Julho de 1978 em Ponta Delgada na ilha de S. Miguel nos Açores.

Tive a sorte de ir morar para uma casa de campo pertencente ao meu avó paterno, visto que os meus pais eram recém-casados e ainda não tinham dinheiro suficiente para terem casa própria.

Não tínhamos televisão. O único som audiovisual provinha de um pequeno rádio azul-turquesa com uma antena gigante que apanhava apenas uma rádio que idolatrava Marco Paulo. A casa-de-banho era fora da casa. Um buraco numa tábua de madeira onde não se via o fundo. Para tomar banho era numa banheira de plástico azul-bébé cheia de água aquecida numa panelinha num pequeno fogão a gáz. Brinquedos não tinha. O meu pai contava-me histórias do Mogli. Todos os dias o Mogli embarcava numa aventura diferente que me fascinava. Tínhamos luz mas convinha ter à mão velas ou o velhinho candeeiro a petróleo não fosse a luz falhar. Andava quase sempre descalça. Quer fosse dentro de casa, quer fosse na terra. Lá fora haviam árvores com fruta. Era apanhar e comer. Não era preciso lavar e nunca fiquei doente por causa disso. Comi terra. Comi areia. Comi uma pomada do meu avó só por ser cor-de-rosa e depois de beber um copo de leite fiquei óptima. Hospital? Urgências? O que é isso? Dei tantos saltos em cima de uma cadeira que caí e bati com a cabeça na quina da mesa da cozinha. Fugi de casa com dois anos e andei perto de ravinas e foram encontrar-me horas depois no meio de uma vinha a comer uvas. Agarrei um ferro de soldar incandescente e a palma da mão ficou em carne viva e o meu pai passou a noite inteira a esfregar manteiga na minha mão e a soprar. Caí e bati com a boca num degrau de cimento. Parti os dois dentes da frente, rasguei o lábio superior e nem levei pontos. E isto tudo só até aos quatro anos.

Esta lenga-lenga para dizer que eu ainda sou do tempo em que a vida era simples mas boa. Mesmo com “desastres” e algumas privações, foi a melhor época da minha vida e não a trocaria por nada.

Não sei se foi por ter vivido no campo até aos quatro anos ou por ter nascido no final dos anos 70, que não consigo compreender estas novas gerações. Dos Senhores Doutores que não percebem nada do mundo real porque passam a vida no mundo virtual. Ainda sou do tempo em que não haviam multibancos, computadores, telemóveis, ipods, ipads e coisas que nem sei soletrar. Posso ser uma analfabética informática mas ao menos vivo no mundo real e não caço Pokémons.

“Ver aquilo que temos diante do nariz requer uma luta constante.”
George Orwell

O DISCURSO DA TOMADA DE POSSE DE KENNEDY

PAULO VIERA DA SILVA
Neste tempo de férias deixo-vos o convite a lerem ou relerem o discurso da tomada de posse do Presidente John Fitzgerald Kennedy, o Estadista dos Estadistas.

Este discurso, com mais de 50 anos, merece a nossa reflexão porque entendo estar mais actual que nunca.

" Vice-presidente Johnson, Sr. Presidente da Câmara, Sr. Presidente da Suprema Corte, Presidente Eisenhower, Vice-presidente Nixon, Presidente Truman, Autoridades Eclesiásticas, Meus Compatriotas:

Observamos hoje não a vitória de um partido, mas a celebração da liberdade - símbolo de um fim, mas também de um começo - que carrega o significado da renovação e da mudança. Pois prestei diante de vocês e de Deus Todo-Poderoso o mesmo juramento solene que nossos antepassados formularam há pouco mais de cento e setenta anos.

O mundo hoje é muito diferente, pois o homem detém em suas mãos mortais o poder de abolir todas as formas de pobreza humana e todas as formas de vida humana. No entanto, os mesmos ideais revolucionários pelos quais lutaram os nossos antepassados ainda são questionados em todo o mundo: a crença de que os direitos do homem não vêm da generosidade do Estado, mas da mão divina.

Hoje não ousamos esquecer que somos os herdeiros daquela primeira revolução. Que não se restrinja a este momento nem a este lugar, e que chegue igualmente a amigos e inimigos, a notícia de que a tocha foi passada a uma nova geração de norte-americanos — nascidos neste século, endurecidos pela guerra, disciplinados por uma dura e amarga paz, orgulhosos de nosso património ancestral — e relutantes por testemunhar ou permitir o lento desgaste dos direitos humanos com os quais este país sempre esteve comprometido e com os quais nos comprometemos hoje, na nossa pátria e ao redor do mundo.

Que cada nação, queira-nos bem ou mal, saiba que pagaremos qualquer preço, suportaremos qualquer fardo, enfrentaremos qualquer dificuldade, apoiaremos qualquer companheiro, confrontaremos qualquer adversário para garantir a perpetuação e o êxito da liberdade.

Com isso nos comprometemos, e com muito mais.

Aos antigos aliados, cujas origens culturais e espirituais partilhamos, prometemos a lealdade de amigos fiéis. Unidos, há muito pouco que não possamos fazer diante de inúmeras iniciativas de cooperação. Divididos, há pouco que possamos fazer, pois não nos atreveremos a enfrentar um grande desafio se estivermos divididos e em conflito.

Aos novos Estados que acolhemos nas fileiras da liberdade, empenhamos a nossa palavra de que uma forma de controlo colonial não há de ser derrotada para que uma tirania ainda mais ferrenha a substitua. Não devemos esperar que apoiem sempre nossos pontos de vista. Mas devemos sempre esperar que sustentem com firmeza sua própria liberdade - e se lembrem de que, no passado, aqueles que tolamente buscaram o poder cavalgando no dorso do tigre acabaram devorados.

Àqueles que vivem em choupanas e aldeias na metade do mundo, lutando para romper os grilhões da miséria em massa, prometemos os nossos melhores esforços para ajudá-los a se ajudarem, por quanto tempo for necessário. Não porque os comunistas talvez o façam, não porque procuremos os seus votos, mas porque é um direito. Se uma sociedade livre não pode ajudar os muitos que são pobres, também não pode salvar os poucos que são ricos.

Às repúblicas coirmãs ao sul de nossa fronteira, fazemos uma promessa solene: transformar as boas palavras em boas ações, numa nova aliança para o progresso, a fim de ajudar homens e governos livres a livrarem-se das amarras da pobreza. Mas essa revolução pacífica da esperança não cair presa das potências hostis. Saibam nossos vizinhos que nos uniremos a eles para nos opor à agressão e à subversão em cada canto das Américas. E saibam todas as demais potências que este hemisfério pretende continuar senhor de sua própria casa.

Àquela Assembleia Mundial de Estados soberanos, a Organização das Nações Unidas, nossa última e melhor esperança numa era na qual os instrumentos da guerra superaram em muito os instrumentos da paz, renovamos o nosso compromisso de apoio para evitar que se tornem apenas um fórum de invectivas, para que a proteção ao novo e ao fraco seja fortalecida e que o alcance da sua lei seja ampliado.

Por fim, àquelas nações que se fazem adversárias, oferecemos não uma promessa, mas um pedido: que ambos os lados recomecem a procura da paz, antes que as forças sombrias da destruição, desencadeadas pela ciência, engulam a humanidade como um todo num autoextermínio planeado ou acidental.

Não ousamos provocá-las com fragilidade. Pois somente quando nossas armas forem inquestionavelmente suficientes, poderemos estar inequivocamente seguros de que jamais serão utilizadas.

Mas tão pouco podem os dois grandes e poderosos grupos de nações achar confortável a sua condição presente; ambos os lados sobrecarregados pelo custo das armas modernas, justificadamente alarmados com a contínua disseminação do átomo letal, e ainda correndo para alterar o equilíbrio instável do terror que precariamente impede a eclosão da guerra final da humanidade.

Vamos então começar do zero, lembrando, de um lado e de outro, que a civilidade não é sinal de fraqueza, e que a sinceridade está sempre sujeita a prova. Que jamais negociemos por medo, mas que nunca tenhamos medo de negociar.

Que ambos os lados explorem os problemas que nos unem, em vez de aprofundar aqueles nos separam.

Que ambos os lados, pela primeira vez, formulem propostas sérias e precisas para a inspeção e o controle de armas e submetam o poder absoluto de destruir outras nações ao controle absoluto de todas as nações.

Que ambos os lados procurem invocar as maravilhas da ciência, e não os seus terrores. Juntos, havemos de explorar as estrelas, conquistar os desertos, erradicar as doenças, alcançar as profundezas do oceano e incentivar as artes e o comércio.

Que ambos os lados se juntem para ouvir em todos os cantos da Terra o comando de Isaías: "removei os pesados fardos... (e) deixai os oprimidos ser livres".

E se a vanguarda da cooperação puder recuar a selva da desconfiança, que os dois lados se unam para criar um novo empenho; não um novo equilíbrio de poder, mas um novo mundo de direito, onde os fortes sejam justos, os fracos, seguros, e a paz seja preservada.

Nada disso estará concluído nos primeiros cem dias. Nem se concluirá nos primeiros mil dias, nem durante este mandato, nem mesmo, talvez, durante nossa vida na Terra. Mas devemos começar.

Meus compatriotas, reside em vossas mãos, mais do que nas minhas, o êxito ou o fracasso de nosso curso de acção. Desde a fundação deste país, cada geração de americanos foi convocada a prestar testemunho de sua lealdade à nação. Os túmulos de jovens americanos que responderam ao chamamento para servir espalham-se pelo mundo.

Agora, a trombeta chama-nos novamente — não um chamado para empunhar as armas, embora delas precisemos; não um chamado para a batalha, embora estejamos entrincheirados — mas um chamado para suportar o peso de uma longa e incerta luta, ano após ano, "regozijando-nos na esperança, pacientes nas tribulações" — uma luta contra os inimigos comuns do homem: a tirania, a pobreza, a doença e a própria guerra.

Conseguiremos formar contra esses inimigos uma aliança ampla e global, de Norte a Sul, de Leste a Oeste, que possa garantir uma vida mais melhor para toda a humanidade? Querem fazer parte deste esforço histórico?

Na longa história do mundo, a poucas gerações foi concedido o papel de defender a liberdade nas horas de maior perigo. Eu não me esquivo desta responsabilidade — recebo-a de bom grado. Creio que nenhum de nós trocaria de lugar com qualquer outro povo ou qualquer outra geração. A energia, a fé, a devoção que trouxermos para esta empreitada vão iluminar o nosso país e a todos os que a ele servem - e o brilho desse fogo pode de facto iluminar o mundo.

Por isso, meus compatriotas, não perguntem o que vosso país pode fazer por vós, mas sim o que vós podem fazer pelo vosso país.

Companheiros cidadãos do mundo, não perguntem o que a América fará por vós, mas o que juntos podemos fazer pela liberdade do homem.

Por fim, sejam vocês cidadãos americanos ou do mundo, exijam de nós os mesmos padrões elevados de vigor e sacrifício que de exigimos de vós. Com a consciência tranquila como única recompensa e a história como juiz final de nossos actos, marchemos avante para conduzir a terra que amamos, implorando a bênção e a ajuda de Deus, sabendo porém que aqui na Terra a Sua obra deve ser, na verdade, tarefa nossa."

À PROCURA DO PARAÍSO NATURAL DO GERÊS

CARLA AFONSO
Uma visita ao único Parque Nacional do país pode servir para encher os pulmões de ar fresco e os olhos de verde. E também pode revelar-nos a dimensão onírica da natureza, oferecendo-nos lugares que emanam encanto e mistério. Quando quase todo o país anda a banhos na praia, nós andámos por aqui...Uma curta viagem à Peneda-Gerês.

Sem dúvida um dos sítios e lugares mais bonitos do nosso País, o Gerês fica para sempre no coração de quem o visita e a promessa de voltar fica sempre no ar, uma vez que não vai ser nada difícil cumpri-la.

Verde e cinzento são as cores do Gerês. E há cinco sítios mágicos, entre muitos outros, que vivem dessas cores: o Castelo de Castro Laboreiro, a Mata de Albergaria, perto das Caldas do Gerês, e o Mosteiro de Sta. Maria das Júnias, na aldeia de Pitões das Júnias, Cascatas e lagoas do Tahiti e Cascatas do Rio Homem. Cinco lugares encantadores e encantados, onde podemos deixar sonhos e imaginação, completar a beleza da paisagem.

Figura 1 - Vista panorâmica do Castelo de Castro Laboreiro.

O castelo de Castro Laboreiro é um magnífico exemplo do aproveitamento humano de uma enorme fraga, numa boa posição defensiva e com um panorama de uma força extraordinária: de um lado levantam-se, em sequência, três montes, e os telhados das aldeias aparecem transformados num pontilhado minúsculo; do outro, uma verdadeira muralha natural, feita de esteios de granito esculpidos numa amálgama inexpugnável, fecha o horizonte.

O que foi feito pelo homem e pela natureza confunde-se na perfeição: as ameias são penedos e a entrada deles feitos e nela talhada, com encaixes cimentados pelo tempo. A rudeza do enquadramento reaviva imagens de batalhas, a dureza do granito cinzento e seco relega o verde dos lameiros e campos de milho para os campos à volta da aldeia, bem lá no fundo.

Figura 2 – Muralhas do Castelo de Castro Laboreiro.
Na Mata de Albergaria, a paisagem é menos agreste e a rudeza das fragas está vestida por um bosque de beleza excecional. As árvores, uma amálgama de espécies mediterrânicas e outras mais próprias do Norte da Europa, levantam-se de um chão musgoso, de um verde húmido, ou de um colchão de fetos gigantescos. É uma floresta encantada, por onde os raios de sol entram filtrados por folhas de um verde transparente, ou nem sequer entram…Morada de duendes, sem dúvida, lugar de fadas com banda sonora de água e pássaros. Em certos lugares, o rio Homem cavou piscinas arredondadas, poços profundos onde também a água é verde ou azul, conforme a luz. Libélulas azuis e sapos castanhos são visitantes de Verão, neste lugar onde os humanos só penetram a pé.

Figura 3 - Os Garranos Selvagens.
O mosteiro de Santa Maria das Júnias só se revela a quem o procura. Entretido com a estrada, com a aldeia, o passante terá de dirigir-se a um lugar com o promissor nome de Anjo, de onde se desfruta um belo panorama. À direita passa uma levada e à esquerda descemos para uma primeira visão, de cima para baixo, sobre o telhado e a mimosa entrada da igreja românica, único edifício completo deste mosteiro da Ordem de Cister abandonado no século XIX. O conjunto possui a dose exata de ruína e edifício intacto. Animais de pedra decoram uma parede lateral, sobras de um claustro levantam-se do lado oposto.

Ermitério místico escondido numa prega dos montes, lugar propício ao exercício de qualquer espiritualidade, este é, também, um lugar de rara beleza, onde a pedra se converteu em fé.

Figura 4: Mosteiro de Sta. Maria das Júnias, na aldeia de Pitões das Júnias

Cascatas e lagoas do Tahiti e Cascatas do Rio Homem, apesar do acesso ser complicado são sem dúvida um fenómeno raro de beleza e pureza que a natureza nos proporciona.

Figura 5: Local da Ermida
Partindo da Vila do Gerês, siga em direção à Barragem da Caniçada. Poucos metros à frente encontrará um entroncamento à esquerda com a indicação "ERMIDA". Vire nessa direção e siga por essa estrada que tem tanto de apertado como de belas paisagens. Após andar aproximadamente 5 a 6 km, vai encontrar um entroncamento à sua direita com uma placa a indicar "Cabril". Vire à direita e siga por essa estrada, mas com cuidado, pois enfrentará algumas descidas acentuadas até chegar a uma ponte sobre o Rio Arado. Junto a ela tem indicação do PNPG. Estacione a viatura e prepare-se para uma pequena descida a pé. Opte primeiro por descer pelo lado direito da ponte e encontrará uns moinhos abandonados e algumas pequenas quedas de água que formam belas lagoas onde pode se refrescar.

Figura 6: Lagoa do Tahiti
Aventure-se a descobrir, estas cascatas, caso não possua uma viatura todo o terreno, o ideal será fazer os últimos 12 km (ida e volta) do trajeto a pé, não será tarefa fácil, mas no final verá que valeu a pena.

Aventure-se por um pequeno trilho do lado direito do rio, até encontrarem as belíssimas e secretas lagoas do Gerês, um lugar selvagem e possivelmente inatingível à maioria das pessoas. De água selvagem límpida e pura, as lagoas estão situadas ao longo do curso do rio que atravessa Cabril (nasce na serra), em local de difícil acesso, devido a estar situada já em considerada altitude na Serra do Gerês.

Para quem decidir arriscar, é possível chegar próximo das lagoas de carro. No entanto, é melhor contar com muita pedra pelo caminho, buracos e caminho onde não passam 2 carros.

As Cascatas do Tahiti têm tanto de belas como de perigosas por isso leve roupa e calçado apropriado a descidas e caminhadas, a descida é acentuada e é necessário bastante precaução.

Onde Ficar
O Gerês é uma vila termal, pelo que não faltam lugares para comer e dormir. Por exemplo, o Parque de Campismo ou a Pensão Adelaide, nas Caldas do Gerês. Especialmente interessantes para grupos são as casas-abrigo como a do Barreiro e do Bico do Pássaro – a primeira em Castro Laboreiro e a última junto ao Parque de Campismo de Lamas de Mouro e do Centro de Interpretação do Parque Nacional. Também em Pitões e em muitos outros pontos do Parque. A mais luxuosa é a Quinta da Caniçada.

Onde Comer
Há alguns cafés e pequenos restaurantes, incluindo o do Hotel Águas do Gerês e o da Quinta da Caniçada. Em Brufe, a 12 quilómetros de Terras de Bouro, um dos restaurantes mais bonitos e bons da região, O Abocanhado, restaurante premiado pela arquitetura, que oferece especialidades regionais. Reservem com antecedência, porque a vista é muito cobiçada, sobretudo para um pôr de sol.

Figura 7 – Vista panorâmica do Restaurante “O Abocanhado”.
Em Covide, fica o restaurante rústico O Cantinho do Antigamente. Também há supermercados onde encontra tudo o que necessita para preparar um bom piquenique. Para quem gosta de chá e de mel, estes são dois dos produtos mais justamente famosos da zona, à venda em muitas lojas e produtores locais. 
Perca-se e vá conhecer o Gerês. Desfrute de um misto de natureza e tradição. Desde as cascatas impressionantes, aos garranos selvagens, o Gerês apaixona.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

NÃO SEREMOS MELHORES DO QUE ISTO?

RUTE SERRA
Existem muitas formas de “lutar pela vida”. A expressão refere-se, as mais das vezes, a atos executados na prossecução de objetivos, os quais, uma vez alcançados, nos permitem viver melhor. Para alguns, assim é. Para outros, muitos, o sentido é, por outro lado, literal.

Onde estabelece o mundo a diferença entre um preso – porque cometeu um crime, e um refugiado – porque busca proteção? Se atentarmos nas condições da grande parte dos campos de refugiados, em diversas localizações geográficas, não há forma da dúvida não nos assaltar.

Podemos discutir sobre o zénite da política ideal de imigração, que um Estado civilizado deve prosseguir. Não podemos, contudo, permitir que um país do chamado 1º Mundo, subscritor da Convenção de Genebra, a qual se baseia nos princípios estabelecidos na Carta das Nações Unidas e na Declaração Universal dos Direitos do Homem, viole liminarmente os termos aos quais se vinculou.

A Austrália construiu o mais duro edifício jurídico, no que respeita à política de asilo, do mundo ocidental. O “Migration Act” obriga à não repatriação da pessoa cuja vida ou liberdade, esteja ameaçada, por motivos étnicos, religiosos, sociais ou políticos. Até aqui, os cânones são os esperados, inclusive porque internacionalmente reconhecidos. Em 2015, contudo, a aprovação do “Border Force Act”, assume contornos bizarros. Criminaliza, aquela legislação, o ato de divulgação, pelos funcionários dos centros de detenção de imigrantes, de informação sobre abusos ali cometidos, sendo a moldura penal abstrata máxima, de dois anos de prisão. A assunção imediata que um requerente de asilo constitui um perigo iminente, para a segurança nacional, mantendo como segredo de Estado, os abusos praticados nos centros de detenção, não significa menos do que é praticado por radicais nacionalistas ou terroristas, na defesa da causa. Será esta a melhor política possível?

O infeliz modelo político, onde cabe tratamento desumano, ao qual são sujeitos os presos, perdão, os refugiados, nos campos de detenção “off-shore” de Nauru e Manus Island, na Papua Nova-Guiné, explorados por esse gigante ensombrado – a espanhola “Ferrovial”, após a aquisição de 90% da companhia que geria os campos, a “Broadspectrum” – e a custarem milhões ao Estado australiano, é impossível de admitir e mais, impensável de exportar para a Europa, sob pena de se concretizarem as atuais ameaças, que os Estados de Direito sofrem. São pessoas – refugiadas, mas pessoas, que fugiram de conflitos como os do Afeganistão, Darfur, Paquistão, Somália e Síria, e outros que escaparam da discriminação ou da condição de apátridas como as minorias Rohingya, de Mianmar, ou Bidun, da região do Golfo, a serem submetidas às mais diversas e assustadoras selvajarias. A lutarem, “tout court”, pela vida.

A crueldade de que se reveste este ato de condenar eventualmente e sem culpa formada, à pena de morte, quem apenas ousou buscar asilo, cometida por um país do qual a civilização não esperava tamanha atrocidade (nem tão-pouco tal se revela legal, face à ratificação e aprovação, pelo mesmo país, de instrumentos jurídicos antagónicos, no teor e nos princípios) tem sido sistematicamente criticada nos mais diversos fóruns, desde a Amnistia Internacional, à ONU, sem que, lamentavelmente, se constatem quaisquer efeitos de regressão da política.

Assustadoramente, a cultura de abuso parece ter vindo para ficar. E intensificar-se.

TERAPIA OCUPACIONAL - JÁ OUVIU FALAR?

Antes de mais, saudações!

Sendo nova por estas bandas e querendo abarcar já o meu mundo, tento conter-me nas palavras.

“És o quê?”
“Mas afinal o que fazes? Ocupas o tempo aos velhinhos?”
“E isso é um curso?”



GABRIELA CARVALHO
Hoje, com a minha primeira crónica, trago-vos também um dos meus grandes orgulhos: a minha profissão!
Sim, sou Terapeuta Ocupacional, com orgulho e dedicação.

E ao contrário do que recentemente se ouviu afirmar pelo Dr. Quintino Aires, não sou “aquele técnico a quem enviam os meninos por estarem zangados com os Psicólogos” (deixando desde já a ressalva que tenho a sorte de conhecer e trabalhar com excelentes profissionais de psicologia, que em nada se retratam neste senhor).

Falo-vos então da Terapia Ocupacional, uma profissão da área da saúde em constante evolução. Por ser uma profissão recente, ainda é pouco conhecida e reconhecida.

A Terapia Ocupacional só se consolidou formalmente como profissão no início do século XX. Porém, há referências ao longo da História que apontam para a importância da ocupação como processo terapêutico.
No entanto, apenas em 1952 foi criada a Federação Mundial de Terapeutas Ocupacionais (www.wfot.org). E em Portugal, o curso surgiu apenas a 7 de Janeiro de 1957 por iniciativa da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Facto é, que ao longo dos anos, o estudo da ocupação humana e dos seus componentes tem proporcionado à profissão um conhecimento sobre os seus conceitos intrínsecos e constructos que servem de guia à prática.
Em consequência, o papel da Terapia Ocupacional e as suas contribuições para a sociedade estão, também, continuamente a evoluir.

Desta forma, o terapeuta ocupacional é responsável pelo “tratamento de condições de saúde que afectam o desempenho das pessoas em qualquer fase da vida através do envolvimento em actividades significativas, com o objectivo de lhes proporcionar o seu máximo nível de funcionalidade e de independência nas ocupações em que desejam participar.”
O terapeuta ocupacional promove assim a capacidade de “indivíduos, grupos, organizações e da própria comunidade, escolher, organizar e desempenhar, de forma satisfatória, ocupações que estes considerem significativas.”

O termo ocupação, tão controverso por poder ser entendido de múltiplas formas pelos múltiplos indivíduos, tem determinado, por vezes, um conhecimento errado da profissão.
Para os terapeutas ocupacionais, a ocupação é a chave do trabalho, uma vez que se caracteriza por ser tudo aquilo que a pessoa realiza: seja algo tão elementar como alimentar-se ou vestir-se ou tão complexo como desempenhar uma actividade laboral.
Mas é esta ocupação que pode ficar comprometida quando surge uma situação (doença, incapacidade) que interfere com a forma como a pessoa realiza essa mesma ocupação. Aqui intervém o Terapeuta Ocupacional!

Para tal, avalia as funções sensoriais, perceptivas, físicas e sociais do indivíduo, bem como os factores ambientais que influenciam o seu desempenho nas actividades; identifica as áreas de disfunção e envolve o indivíduo num programa estruturado de actividades significativas de forma a ultrapassar as dificuldades proporcionadas pela sua condição de saúde.
Neste sentido, intervém para desenvolver competências, restaurar funções perdidas, prevenir disfunções e/ou compensar funções, através do uso de técnicas e procedimentos específicos e/ou da utilização de produtos de apoio.”

“Ah! Então és tu que usas aquela colher estranha para que a D. Maria possa comer sozinha.”

Por “colher estranha” entenda-se um produto de apoio, especificamente uma colher com cabo dobrado para que a D. Maria possa auto-alimentar-se novamente.
Sim, sou eu que como terapeuta ocupacional trabalho para que a pessoa possa voltar a desempenhar as suas ocupações, recorrendo a uma panóplia de estratégias.
Pelo desafio diário a que obriga, a Terapia Ocupacional tornou-se para mim numa profissão aliciante que me dá satisfação e prazer.


“Mais do que acrescentar anos à vida, a Terapia Ocupacional acrescenta vida aos anos.”


Bibliografia:

SUMMERTIME

TERESA DA SILVA

Shall I compare thee to a summer’s day?
Thou art more lovely and more temperate.
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer’s lease hath all too short a date.
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimmed;
And every fair from fair sometime declines,
By chance, or nature’s changing course, untrimmed;
But thy eternal summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou ow’st,
Nor shall death brag thou wand’rest in his shade,
When in eternal lines to Time thou grow’st.
So long as men can breathe, or eyes can see,
So long lives this, and this gives life to thee.[1]



I share with you, readers, this well-known sonnet written by the also famous (or infamous, depending on the gender) poet and playwright, William Shakespeare. I shall not bore you with facts and figures related to this great man’s life or lifestyle. Those you can gather in any encyclopaedia. Instead, I beg you to look attentively at the words.

Read the sonnet slowly.

Savour the words and the imagery.
Look up the meanings if need be.
Reread the sonnet even slower.
Stop when you need to close your eyes and envision the scene.

Continue reading.

Learn the poem by heart.


Carry the words on your lips like a smile….a secretive smile, a smile that makes the world smile back.
Change the word “thee” – put in your lover’s name, put in your child’s name, put in your beloved one’s name...
Now, put in your enemy’s name….can you do it? If you can, you’re one step closer to finding peace, to making peace a reality.

For this summer, that my resolution: to bring peace to myself and to those around me. Hopefully it’ll work as a pay-it-forward and others will start doing it, too. At the end of this Black Month, I truly hope that the month of August, the peak of summertime in Portugal, will begin a trend – the peace trend like the ice bucket challenge (only without the video postings). Fun, positive and efficient.

Post the message in your hearts and teach it to others.

Let’s bring peace to ourselves and to the ones around us.

Have a wonderful holiday.

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[1] Shall I compare thee to a summer’s day? (Sonnet 18) by William Shakespeare (1564 – 1616) inhttps://www.poets.org/poetsorg/poem/shall-i-compare-thee-summers-day-sonnet-18

PLÁGIO É CRIME

ANA LEITE 
O direito de autor é reconhecido independentemente de registo, depósito ou qualquer outra formalidade, e é no fundo um direito do Homem e um direito fundamental consagrado na Constituição da República Portuguesa, que protege as obras ou as criações intelectuais.

A proteção de direitos de autor está regulamentada pelo Código de Autor e dos Direitos Conexos aprovado pelo Decreto-lei 63/85 de 14 de março. Este código teve a sua última atualização com a aprovação da Lei 49/2015, de 5 de junho.

Em primeiro lugar, é necessário perceber que o direito de autor pressupõe sempre uma obra, ou nos termos do artigo 1.º deste código, as criações intelectuais do domínio literário, científico e artístico por qualquer modo exteriorizadas. O direito de autor abrange direitos de carácter patrimonial e direitos de natureza pessoal, os direitos morais. Neste sentido, o autor tem o direito exclusivo de dispor da sua obra de utiliza-la ou autorizar a sua utilização por terceiro. Desta forma, a utilização de uma obra intelectual necessita da autorização prévia do seu autor. A falta desta autorização constitui crime de usurpação. Crime previsto e punível nos termos do artigo 195.º e seguintes do Código do Direito de Autor. Desta forma, comete crime de usurpação quem “sem autorização do autor ou do artista, do produtor de fonograma e videograma ou do organismo de radiodifusão, utilizar uma obra ou prestação por qualquer das formas previstas neste Código”.

Este normativo legal prevê e pune ainda o crime de contrafação. O artigo 196.º estabelece assim que “quem utilizar, como sendo criação ou prestação sua, obra, prestação de artista, fonograma, videograma ou emissão de radiodifusão que seja mera reprodução total ou parcial de obra ou prestação alheia, divulgada ou não divulgada, ou por tal modo semelhante que não tenha individualidade própria”.

A punição destes dois crimes que acabamos de caracterizar está previsto no artigo 197.º. O nosso sistema legal prevê pena de prisão até 3 anos ou pena de multa de 150 a 250 dias, de acordo com a gravidade da infração. Prevê-se ainda que, em caso de reincidência, tanto a pena de prisão como a pena de multa serão agravadas para o dobro. A negligência é punida com pena de multa de 50 a 150 dias. 

A pena de multa é a pena mais comum nos casos de violação dos artigos 195.º e 196.º deste código. A pena de multa é fixada em dias. A cada dia corresponde uma quantia entre os 5 euros e os 500 euros.

Encontram-se ainda tipificados neste código o crime de violação do direito moral e o crime de aproveitamento de obra contrafeita ou usurpada.

Não obstante, a responsabilidade civil emergente da violação dos direitos consagrados no código do Direito de Autor, é independente do procedimento criminal.

Dito isto, convém perceber em que condições se pode citar uma obra: de acordo com o que é referido no artigo 75.º, é lícita a citação, a inserção de citações ou resumos de obras alheias, quaisquer que sejam o seu género e natureza, em apoio das próprias doutrinas ou com fins de crítica, discussão ou ensino, e na medida justificada pelo objetivo a atingir, sem necessidade do consentimento do autor. A citação não pode, porém, atingir a exploração normal da obra, nem causar prejuízo injustificado aos interesses legítimos do autor.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

CINEMA, SONHOS… E UM OCEANO PELO MEIO

ANABELA BRANCO DE OLIVEIRA
Nos últimos três dias, percorri em quilómetros e vivi em emoções a força inexpugnável do cinema e o poder incalculável que ele exerce na vida das pessoas. O cinema tem o poder de transformar vidas, de criar necessidades, de projetar sonhos, de construir carreiras, de movimentar pessoas, de transpor fronteiras, de emocionat tudo e todos.

Viajei, na segunda-feira à tarde, para Ponta Delgada, Fui, enquanto elemento do júri, à cerimónia da entrega dos troféus do Prémio Ayres d’Aguiar para cinema e audiovisual. Ayres d’Aguiar, micaelense, foi um importante produtor do cinema português da primeira metade do século XX, através da Gray Films, empresa que, em Paris, dirigiu até ao início do anos 50. Trabalhou enquanto produtor com nomes incontornáveis do cinema europeu como os realizadores Marcel L’Herbier e André Cayate e os atores Jean Marais, Anny Ondra e Fernandel. Foi um dos produtores, em França, que mais contribui para a descoberta de novos talentos e para o lançamento de nomes importantes do cinema francês. Dedicou a sua vida, criativa e sempre interventiva, à produção e à realização cinematográfica. Viveu a últma fase da sua vida na sua terra natal, onde faleceu, em 2000, com 104 anos. O seu espólio mantém-se na Cinemateca Francesa, em Paris. Um perfeito desconhecido no meio cinematográfico português! De louvar a iniciativa do Governo Regional dos Açores através da criação deste prémio! De louvar, a vontade e a competência cinematográfica e cultural do Dr. Manuel Bernardo Cabral, autor de um documentário sobre a vida de Ayres D’Aguiar, integrado na série documental Açorianos de Cultura. O Prémio Ayres d’Aguiar destina-se a galardoar cineastas açorianos.

Foi, para mim, uma honra integrar o júri desse prémio ao lado de Manuel Bernardo Cabral e António Pedro Vasconcelos. Ficámos com a responsabilidade de divulgar a obra de Ayres D’Aguiar e trabalhámos para construir outros sonhos e divulgar outros açorianos. Desta dupla vontade, surgiram dois premiados: José Medeiros (Zeca Medeiros), reputado cineasta açoriano, com a ficção O Livreiro de Santiago, e o jovem realizador Diogo Silva Lima, com o documentário PDL-LIS. Com eles, de novo, o cinema concretizou a necessidade do conhecimento e abriu-nos portas até então desconhecidas. Zeca Medeiros, com O Livreiro de Santiago, abre-nos as portas para a vida e para a obra de um outro açoriano, corvino desta vez, totalmente desconhecido: Carlos Jorge Nascimento, editor que, em Santiago do Chile, descobriu e lançou dois grandes poetas galardoados com o Nobel da Literatura: Pablo Neruda e Gabriela Mistral. O filme de Zeca Medeiros (a seu tempo, escreverei muito mais sobre ele) é a metáfora de uma luta, a metáfora sobre o poder de um sonho, sobre a força de uma vontade. É uma intensa homenagem ao cinema e a prova de que a vontade supera tudo! O documentário de Diogo Lima é uma análise muito jovem, muito irreverente mas muito profunda sobre o sentimento da nossa relação com o espaço. É um documentário sobre a relação paradoxal entre o realizador e a sua ilha, sobre o mistério do amor/ódio que nos liga às origens, sobre aquela necessidade de sair repentinamente assaltada pela extrema necessidade de voltar. Dois filmes feitos com muita paixão e… com muito pouco dinheiro!

Dos Açores, sobrevoando o Atlântico, cheguei a Avanca para mais uma edição do Avanca Film Festival: a vigésima edição. A vigésima edição de um sonho improvável: a organização de um festival internacional de cinema numa pequena vila do litoral português! Um sonho improvável, sonhado por um homem que vive no limite de todas as improbabilidades: António Costa Valente. Foram homenageados os premiados da edição anterior e homenageados os amigos que, ao longo destes vinte anos, tornaram possível o sonho improvável! Avanca torna-se durante estes dias, o centro de todas as paixões cinematográficas, o centro de todas as culturas, de todas as técnicas e de todos os filmes do mundo. Vêem-se filmes, projetam-se filmes em casas particulares, em pátios e adegas e em carruagens de comboio em andamento, fazem-se filmes e partilham-se experiências. Com muito esforço, com muitas dificuldades, com muito pouco dinheiro…

Entre o cinema e os sonhos, em Portugal, existe um grande oceano. Existe o oceano que faz com que a cultura seja sempre a enteada de todos orçamentos oficiais; existe um oceano de ignorância e preconceito que faz com que a nossa comunicação social esqueça quase sempre este tipo de iniciativas.

Mas, com garra, com o indecifrável mistério das vontades da Blimunda, tudo se consegue! Porque o cinema é mesmo isso: o centro de todas as possibilidades improváveis!

CAFÉ O NOSSO SONHO

DR
HÉLDER BARROS
Esta fotografia dos anos 80/90, com destaque para o Pai dos meus amigos Alfredo e Zé da Costa, que herdaram a simpatia, o espírito e o bom humor do seu progenitor. O Senhor Costa um verdadeiro Senhor na verdadeira aceção da palavra, foi mais um exemplo soberbo, dos frequentadores de grande qualidade humana e cultural deste pequeno café, nas suas reduzidas dimensões físicas, mas de grande quilate na qualidade dos diálogos espontâneos que ali despontavam, entre seres humanos da ordem do maravilhoso. Claro que esta imagem me traz boas recordações. O Meu pai, O Sr. Natal, o Sr. Olegário Rosa, o Sr. Monteiro, o Professor Gonçalves e Professora Salomé, o Sr. Guilherme do Campo da Feira, o Sr. Leitão, o Riqueza, o Dino, o pessoal do Moura Basto e da Vidraria São Pedro, a malta da Torre, o Sr. Costa, o Sr. Cândido e o Sr. Otávio... entre muitos, que seria fastidioso estar a citar... e os sócios, senhores Luís e Moura, que sabiam regrar, apimentar e açucarar, conforme as situações assim o exigiam, um ambiente masculino num registo tenso, mormente, no que às divisões dos afetos clubisticos dizia respeito.

Aquele pequeno Café, “O Nosso Sonho”, uma quimera que dois sócios concretizaram, era quase que a Sede da Torre, dado que todo o pessoal afeto, se encontrava lá, numa altura em que não havia ainda a FADA (Federação das Associações Desportivas de Amarante), mas existiam grandes despiques de futebol de 5, no campo polidesportivo da florestal, onde hoje são as piscinas; quem da minha geração, não recorda com saudade, os animados encontros de futebol de 5 que ali se disputaram... na época estival, em que o futebol nacional e regional paravam, para se concretizar todo ali em noites mágicas de excelente futebol e animado convívio... às vezes também havia sessões de pancadaria, entre clubes rivais, mas acabava sempre tudo bem!

O Café dos sócios, Sr. Luís e do Sr. Moura, ponto de alegres tertúlias, animados e disputados jogos de bilhar, jamais sairá das minhas lembranças. O Machado de Fregim, disputava com jogos psicológicos de picardias constantes em forma de diálogo num registo de gozo, e com a sua excelente técnica de bilhar, cada partida com grande suspense... foi um Café importante da Amarante da altura, interclassista e intergeracional, e de muitos encontros e afetos, da malta da margem direita do Tâmega! Aprendi ali a jogar bilhar, primeiro vendo os craques em partidas disputadíssimas, depois começando a jogar com o meu falecido Pai, que também era craque do bilhar.

A própria estrutura física do café propiciava o convívio: localizava-se na esquina onde é hoje o Novo Banco, local onde paravam as camionetas do Alberto Pinto, que eu apanhava quando vinha da escola para Fregim, a sua sala pequena, impossibilitava que as conversas não fossem gerais, todos se cumprimentavam e se falavam, não se vivia a indiferença dos dias atuais... a sua porta aberta na esquina, quase que impelia à entrada das pessoas no café, se chovia era o abrigo, se fazia sol continuava a sê-lo... portanto, era um café onde entravam e conviviam todas as classes sociais, que inevitavelmente cruzavam conversas, com todo o tipo de pessoas.

Hoje, já não conheço cafés assim, as pessoas já não conversam para que todos ouçam, andamos todos muito metidos connosco, ensimesmados com as nossas vidas stressantes, quase paranóicas. Estes cafés desempenhavam, informalmente, o papel de centros culturais, de sedes de associações de índole diverso e eram centros de convívio privilegiados, onde se faziam amizades, negócios, onde se jogava, se tomava café, se bebia, se liam os jornais do dia, mas em que sempre imperava a boa disposição e a amizade; sim, conheci ali amigos, ainda hoje não quebramos esses laços de amizade bem fundos, do tempo do “Nosso Sonho”!

E fui um privilegiado ouvinte do Sr. Natal, um homem magro e pequeno, mas com uma inteligência rara e gigantesca, que desempenhou cargos de enorme importância, na então Vila de Amarante. Apesar da sua dimensão de Homem de grande cultura, misturava-se nas mesas do café e lá dava belas lições de vida e de história, que qualquer ouvinte “bebia” na justa medida, do que queria e do que podia acompanhar. E como era humilde o Sr. Natal, nunca levantava a voz e se punha em pontas dos pés; a sua serenidade transmitia verdade e significado, expressos nas suas sábias palavras.

Os irmãos Monteiro, retornados, eram igualmente fantásticos oradores, que nos remetiam para as paisagens Africanas, nas suas fabulosas recordações daquele enorme e rico continente, gente que trazia a mente muito mais aberta que o comum dos mortais em Amarante. O Sr. Olegário Rosas um prosador entusiástico a par do Brasileiro, Sr. Pinto Coelho, que conversavam sempre com um toque de humor rematando as suas preleções com estridentes gargalhadas. Enfim, um café pequeno, talvez à dimensão do sonho de quem o criou, mas que extravasou muito as reais expetativas iniciais dos empreendedores e dos clientes que começaram a frequentar aquele pequeno café da Vila de Amarante, em santa Luzia, na esquina que nos leva em direção a Vila Meã e, durante aqueles tempos, para o Porto. Tempos em que se podia estacionar o carro tranquilamente à porta de um café, deixa-lo aberto, tomar um café ou uma bebida, falar com os donos, empregados e clientes, num alegre e sadio convívio... Vila de Amarante anos 80!»