quinta-feira, 31 de março de 2016

RECEITA PARA SER FELIZ

ANABELA BORGES
Em diálogo de mim para comigo, disse-me assim:
- Preciso de receitas para ser feliz.
- Tens de rodear-te de pessoas que te amem! – disse-me.
- Já estou! – respondi – A minha família ama-me de verdade. Eles, sim, ouvem-me e sabem ver quando eu não ando bem, quando preciso de desabafar e quando preciso apenas de um pouco de silêncio. O problema é que, no dia-a-dia, vejo-me obrigada a lidar com muita gente que destila más energias, gente que se preocupa com apenas “eu, eu, eu” (diga-se “elas, elas, elas”). Não querem minimamente saber de mim, embora tenham de lidar diariamente, e por longas horas, comigo. Mesmo quando parecem cordiais, não fazem por mim o que eu faço por elas. E acho que nunca farão. Essas pessoas nunca notam se eu estou triste, se tenho algum problema, se estou a passar por um mau momento. Não imagino essas pessoas a observarem que em certo dia estou triste, a perguntarem-me o que me atormenta, a ouvirem os meus desabafos. E o problema, neste caso, verdadeiramente, é que passo mais tempo com essas pessoas do que com aquelas que me amam de verdade.

- Pois. Isso é realmente um problema – respondi-me. Fiquei, por um bom tempo, calada. Não parecia que tivesse grandes soluções para breve. Até que desferi outro imperativo:
- Tens de gostar de ti! Muito. Tens de gostar muito de ti!
- E gosto! Gosto do que sou. Gosto de ser assim. Verdadeiramente, gosto da pessoa em que me tornei. O problema é que não tenho sequer tempo para pensar nisso. Não tenho grande tempo para estar comigo, para pensar em mim... para me dar tempo, para me mimar… – respondi-me.
- Pois. Entendo… – e sem saber mais o que dizer, retirei-me, cabisbaixa.

Depois, veio-me outra ideia importante, e fui a correr dizer-me:
- Tens de fazer coisas que gostas!
- E faço! Quer dizer, também faço. Mas o trabalho, a obrigação, ocupa-me tantas horas e tanto perímetro de cérebro, que aquilo que faço por gosto é muito pouco, mal dá para me satisfazer a ansiedade.
- Pois. Assim… - e, sem saber o que responder-me, retirei-me novamente, cada vez mais desarmada.

Depois de pensar mais um pouco sobre o assunto, regressei com nova premissa. Esta deveria estar em falta. Deveria, certamente, fazer parte da receita para ser feliz:
- Tens de sair mais. Divertir-te!
- Hum. Achas mesmo? – perguntei-me – Se sair mais para me divertir, onde irei buscar tempo para me rodear das pessoas que realmente me amam?; onde buscar tempo para ficar um pouco no silêncio?; tempo para estar comigo?; tempo para fazer o que gosto?.

Seria, afinal, tudo uma questão de tempo? Ou de vontade? Fiquei sem saber qual a receita para ser feliz.
Sabia que o era – feliz. Tinha tudo o que, afinal, me impusera ter, ainda que não fosse nas doses desejadas.
Lembrei-me das palavras do poeta*:
É claro que a vida é boa / E a alegria, a única indizível emoção / É claro que te acho linda / Em ti bendigo o amor das coisas simples / É claro que te amo / E tenho tudo para ser feliz // Mas acontece que eu sou triste...


*Dialética, Vinícius de Morais.

GRAVIDEZ VS. SAÚDE ORAL

LARA RIBEIRO
É comum as mulheres grávidas questionarem se podem desfrutar de tratamentos de medicina dentária. O receio e a dúvida ainda existem! 

Pois bem, uma grávida pode, sim, fazer qualquer tipo de tratamento dentário e, mesmo que necessite de anestesia, esta pode ser administrada! O problema estará, antes, em a grávida não consultar um médico dentista, no caso, por exemplo, de uma infeção oral. Essa situação será prejudicial para a grávida e, consequentemente, para o bebé, já que a mãe pode prejudicar a saúde do bebé, através de microrganismos provenientes de doenças infeciosas como a cárie dentária e doenças periodontais (doenças da gengiva). 

De forma preventiva, o ideal será a existência de uma consulta de medicina dentária antes da gravidez, a fim de serem evitadas infeções orais ao longo do período de gestação, claro! 

Hoje em dia, existem protocolos de atuação no tratamento de grávidas. O importante é mesmo atuar em tempo útil para que nada prejudique o bebé. As consultas devem ser de curta duração, preferencialmente de manhã, sendo mais indicado o segundo trimestre da gestação.

Não há quaisquer motivos para que as mulheres não procurem o médico dentista nesta fascinante fase das suas vidas.

Existem também alguns mitos que funcionam muitas vezes dados como “desculpa”, após a gravidez. Durante a gestação pode haver agravamento das condições de uma precária saúde oral, mas, por si só, a gravidez não potencia nem aumenta a incidência de cárie dentária. 

O que por vezes acontece é que se negligencia a higiene oral durante aquele período, por vários motivos: a mãe está mais preocupada com outras coisas, nem se lembra dos seus dentes, menospreza ou desvaloriza cuidados essenciais de saúde oral!... Acontece é que, as alterações hormonais que ocorrem durante a gravidez são grandes e os cuidados de higiene oral têm mesmo que ser redobrados. Caso contrário, manifestar-se-ão alterações na boca, como a gengiva inflamada e hemorrágica.

Também não é verdade que a gravidez enfraquece os dentes porque, diz-se, há perda de cálcio para o bebé. O cálcio está presente nos dentes da mãe, de forma estável e cristalina, não sendo disponível para a circulação sistémica. A gravidez não propicia aumento de incidência de cárie dentária.

Portanto, se os cuidados com a higiene oral forem corretos e a mãe for orientada por um profissional durante a gravidez, os seus dentes manter-se-ão saudáveis. E atenção: em caso de dores de dentes, nunca se deve recorrer à automedicação. Pelo contrário, a grávida deve consultar um médico dentista para que, em caso de necessidade, lhe seja prescrita medicação ou efetuados os tratamentos dentários adequados que solucionem a situação dolorosa.

Durante a gravidez, todas as mulheres têm acesso ao cheque dentista. Fale com o seu médico de família!

Seja uma grávida feliz, sempre disponível para um sorriso!

SINTOMATOLOGIA E TRATAMENTO DA HÉRNIA DISCAL

MARCELO PEREIRA
A palavra hérnia significa projeção ou saída através de uma fissura ou orifício, de uma estrutura contida. O disco intervertebral é a estrutura cartilaginosa que fica entre uma vértebra e outra da coluna vertebral.

Ele é composto de uma parte central, chamada núcleo pulposo ou liquido viscoso, de uma parte periférica composta de tecido cartilaginoso chamado anel fibroso e de uma parte superior e inferior chamado placa terminal. Portanto, a hérnia de disco é a saída do liquido pulposo através de uma fissura do seu anel fibroso.

A extrusão do núcleo pulposo pode provocar uma compressão nas raízes nervosas correspondentes a hernia de disco ou a protrusão. Esta compressão poderá causar os mais diversos sintomas.

Tipo de Hérnias Discais :

Protrusas: quando a base de implantação sobre o disco de origem é mais larga que qualquer outro diâmetro.

Extrusas: quando a base de implantação sobre o disco de origem é menor que algum dos seus outros diâmetros ou quando houver perda no contacto do fragmento com o disco.

Sequestradas: quando um fragmento migra dentro do canal, para cima, para baixo ou para o interior do forâmen.

SINTOMAS DA HÉRNIA DE DISCO

Os sintomas mais comuns são dores localizadas nas regiões onde existe a lesão discal, podendo estas dores serem irradiadas para outras partes do corpo. Quando a hérnia é na coluna cervical as dores irradiam para os braços, mãos e dedos. Se a hérnia discal é lombar, as dores irradiam para as pernas e pés. O paciente pode também sentir formigueiros e dormência nos membros. Nos casos mais graves, pode haver perda de força nas pernas e incontinência urinária.

DIAGNÓSTICO 

O diagnóstico pode ser feito clinicamente, levando em conta as características dos sintomas e o resultado do exame neurológico. Exames como TC e Ressonância magnética ajudam a determinar o tamanho da lesão e em que exata região da coluna está localizada.


TRATAMENTO PARA HÉRNIA Discal

O tratamento em muitos casos é um sucesso,conseguindo evitar se a cirurgia . Para isto há tem que se realizar uma boa avaliação de cada pessoa a fim de avaliar o grau e a gravidade da hérnia discal . 

Tratamentos :

FISIOTERAPIA;

Osteopatia;

Acupuntura

MESA DE FLEXÃO-DESCOMPRESSÃO

ESTABILIZAÇÃO VERTEBRAL

PILATES

Eletrólise Percutánea Músculo esquelética 

Hidroterapia .

Exercício terapêutico

Entre outros .
De salientar que o tratamento é a junção de varas técnicas e vários tipos de tratamento só assim permitirá evitar a cirurgia .

quarta-feira, 30 de março de 2016

O SUSPEITO TERRORISTA COLOCADO EM LIBERDADE

SARA HERDEIRO
A Europa e o Mundo voltaram a entrar em choque na última semana. Após os atentados em França, também a Bélgica e o Paquistão foram alvo do Estado Islâmico que reivindicou a morte de dezenas de pessoas e colocou o Mundo em alerta e medo constante. O imenso clima de terror reinstalou-se, dando continuação à caça aos terroristas. 

Na Bélgica, em concreto, surge a busca incessante pelo “homem do chapéu”, o terrorista que se acobardou e fugiu do aeroporto, deixando uma mala com explosivos sem a fazer detonar.

Entretanto, surge identificado Faiçal Cheffou, jornalista, como sendo o potencial terrorista procurado que, após interrogatório judicial, é colocado em liberdade sem ficar sujeito à medida de coação de prisão preventiva. Por que razão?
As medidas de coação, desde a mais branda - o Termo de Identidade e Residência - até às privativas da liberdade como a Obrigação de Permanência na Habitação e a Prisão Preventiva, são aplicadas a quem é constituído Arguido e desde que se verifique a existência de, pelo menos, um dos perigos seguintes:
·         De fuga;
·         De continuação da atividade criminosa ou perturbação da ordem e tranquilidade públicas;
·    De perturbação do decurso do inquérito ou da instrução do processo e perigo para a aquisição, conservação ou veracidade da prova.

Além disso, a medida de coação a aplicar tem de ser necessária, adequada e proporcional a cada caso concreto.
As pistas que poderiam ligar Faiçal Cheffou aos atentados terroristas ocorridos na Bélgica revelaram-se exíguas.
Apesar de existirem ligações indiretas entre ele e terroristas já identificados, não foram até ao momento recolhidos indícios suficientes que permitam demonstrar que Faiçal Cheffou foi um dos agentes dos crimes terroristas em análise.
O jornalista foi avistado na estação de metro pouco tempo depois do atentado, aparentando ter um comportamento estranho. Contudo, após buscas realizadas à sua residência, nenhum objeto que permita indiciar a prática desta atividade criminosa pelo referido indivíduo foi encontrado e apreendido.
Uma vez detido Faiçal Cheffou deixou de ser um mero suspeito, tendo sido obrigatoriamente constituído Arguido.

Os termos Suspeito e Arguido são muitas vezes tratados por igual, sendo porém realidades distintas.
Suspeito é “toda a pessoa relativamente à qual exista indício de que cometeu ou se prepara para cometer um crime, ou que nele participou ou se prepara para participar”, não tendo direitos nem deveres processuais específicos.
Por outro lado, assume a qualidade de Arguido “todo aquele contra quem for deduzida acusação ou requerida instrução num processo penal”, estando assim a ser investigado.
A constituição como Arguido opera-se através de comunicação feita à pessoa em questão por uma autoridade judiciária ou por um órgão de polícia criminal, de que a partir daquele momento deve considerar-se como tal, com explicação dos seus direitos e deveres, gozando de um estatuto especial.
A existência ou não de indícios da prática do crime é determinante na necessidade de se vir a sujeitar a pessoa a uma medida de coação. Há princípios orientadores da ordem jurídica que urgem ser observados e o da presunção de inocência é um deles. Existindo sérias dúvidas sobre a prática de um crime por determinada pessoa, esta presume-se inocente até prova do contrário.

Com a ausência de indícios suficientes no caso em apreço, tornou-se insustentável manter o jornalista sujeito a medida de coação privativa da liberdade. Porém, poderá o mesmo estar sujeito a medida de coação mais branda e não privativa da liberdade como o termo de identidade e residência.

DIA INTERNACIONAL DO COMBATE AO CYBERBULLYING

PAULO SANTOS SILVA
Se por um lado, nos arriscamos a que todos os dias sejam o “Dia Internacional de Qualquer Coisa”, por outro devemos aproveitar a visibilidade que estas efemérides permitem para lembrar temáticas que, de outra forma e na maior parte das vezes, seriam esquecidas. 

É o caso do tema da crónica de hoje – o Dia Internacional de Combate ao Cyberbullying.
Numa sociedade cada vez mais dominada pelas novas tecnologias da informação, parece pertinente fazer alguma reflexão sobre o tema. 

Nunca como hoje, as redes sociais e a internet tiveram tanta importância na divulgação de informação que normalmente não passa nos canais habituais de informação em massa (poderíamos debruçarmo-nos sobre os motivos dessa “censura”, mas só isso dava uma crónica…). À distância de um clique, para bem e para mal, a informação está na rede e passa a ser do domínio público. Tal como uma faca da cozinha que pode servir para cortar alimentos ou para matar, o problema não está no utensílio mas em quem a usa e de que forma. O mesmo acontece com a internet e com as novas tecnologias.

Estas invenções maravilhosas, têm no entanto os seus perigos. Atrás de um ecrã de computador, atrás de um telefone que não identifica o número chamador, qualquer um de nós pode ser quem quiser e o que quiser, usando de esta forma menos escrupulosa uma identidade falsa através da qual poderá cometer as maiores atrocidades.

Bullying é um termo inglês utilizado na descrição de atos de violência física ou psicológica praticados por um indivíduo, normalmente o “Valentão” de um grupo ou turma. Em inglês, o Bully. Os ataques são normalmente feitos aos indivíduos que não se podem defender, fisicamente e/ou psicologicamente mais fracos, em minoria ou com maiores dificuldades de adaptação social. Daqui resulta que cyberbullying consiste na prática de bullying, recorrendo às tecnologias de informação como internet, telemóveis ou quaisquer outras tecnologias digitais que permitam interação entre utilizadores. Este termo é, por norma, utlizado quando o agressor e a vítima são menores de idade. 


Como detetar, então, se estamos perante uma criança ou jovem que é vítima de cyberbullying?

Os sinais poderão ser diversos, tais como alterações comportamentais e emocionais, comportamentos agressivos para com outras crianças (por ex. irmãos mais novos), perda de interesse generalizada, súbita relutância em frequentar a escola e alterações na utilização da Internet ou de outras tecnologias. É vulgar que uma vítima de bullying seja, também ela, um bully. 


Como devemos reagir perante uma situação destas?

A reposta pode ser dividida em três vertentes distintas – a escola, os pais e as próprias crianças e jovens.
No que diz respeito à escola, sugere-se que apoie as vítimas através dos serviços apropriados disponíveis nas escolas (Serviços de Psicologia e Orientação), que tenha algum cuidado a lidar com este tipo de casos para não ultrapassar as fronteiras do seu âmbito de atuação (comunidade escolar) e que possa articular-se com os encarregados de educação na gestão destas situações.


No que diz respeito aos pais, aconselha-se que não subestimem os casos reportados pelas suas crianças/jovens. Embora por vezes não seja fácil, devem evitar reagir intempestivamente e não castigar a vítima (retirando-lhe o acesso à Internet) com a intenção de a proteger, optando antes por “trabalhar” com a criança/jovem para encontrar uma solução. Devem, ainda, articular com a escola a resposta adequado à gravidade dos atos e, caso se justifique, contactar as autoridades.


No que diz respeito às crianças e jovens, sugere-se que parem algum tempo para refletir, não respondendo a este tipo de ações. Se possível, bloqueiem o utilizador. Acima de tudo, não tenham medo de denunciar. Falem com alguém da vossa confiança e partilhem a situação para que possam ser ajudados. Quanto mais tarde o fizerem, quanto mais deixarem a bola de neve crescer, pior ela se tornará. 


Termino, sugerindo a visualização deste vídeo sobre o tema, produzido pela organização Childnet International.

terça-feira, 29 de março de 2016

CONHEÇA A MEDIDA MAIS EFICAZ CONTRA O TÉTANO

MARIA DO CÉU OLIVEIRA 
Tétano

Apesar de ser uma doença de baixa incidência nos países desenvolvidos, o tétano continua a ser um conceito referido frequentemente a nível dos cuidados de saúde.

Este assunto é alvo de várias questões, que nos permitem percepcionar a necessidade de esclarecimento sobre esta temática. 

- O que é o tétano?

- Como se transmite?

- Quais as suas consequências?

- Como se previne?

O tétano é uma doença infecciosa, não contagiosa e com elevada taxa de mortalidade. É causada pela bactéria clostridium tetani que pode ser encontrada no solo, objectos contaminados, fezes de animais,etc.

Esta bactéria depois de penetrar no organismo, produz uma toxina tetanospasmina que entra na corrente sanguínea e vai atacar os grandes centros nervosos causando espasmos musculares intensos.

A infecção ocorre pela introdução dos esporos da bactéria no corpo humano, através de lesões externas, geralmente perfurantes (cortes com objectos contaminados, enferrujados, espinhos das rosas, entre outros).

O que são os esporos bacterianos?

Alguns géneros de bactérias formam esporos, que ocorre quando estas estão em ambiente que ameaçam a sua sobrevivência. De maneira geral, isto ocorre quando há falta de nutrientes.

O esporo é uma camada que protege a bactéria. Na fase esporulada não ocorre a multiplicação e crescimento bacteriano. As bactérias podem permanecer vivas na forma de esporos durante anos.

Entretanto, assim que o ambiente se torna favorável, estes esporos podem voltar a reproduzir- se e multiplicar-se.

A bactéria do tétano não se instala em tecidos saudáveis, é necessário ter ferimentos ou outras infecções.

Consideram-se potencialmente tetanogénicas feridas que apresentem as seguintes características:

- Punctiformes (ex.: pregos, espinhos ou mordeduras);

- Feridas com corpos estranhos (ex.: farpas de madeira);

- Lesões extensas da pele e tecidos moles (ex.: queimaduras);

- Com tecido desvitalizado;

- Contaminadas com solo ou estrume;

- Com sinais de infeção;

- Fraturas expostas.

O tétano é uma doença que não se transmite de pessoa para pessoa, sendo apenas transmitida através do contacto com o agente etiológico (bactéria clostridium tetani).

Sintomas do tétano

O sintoma mais frequente é a rigidez dos maxilares com incapacidade para deglutir e falar.

Outros sintomas incluem irritabilidade, dor de cabeça, espasmos musculares, rigidez da nuca, braços e pernas, dor de garganta e arrepios.

Os espasmos dos músculos da face levam a uma expressão facial com um sorriso fixo. A rigidez nos músculos abdominais do pescoço e das costas, podem causar uma postura específica em que o corpo fica curvado.

Os espasmos dos esfíncteres podem causar obstipação e retenção de urina

A pessoa contaminada não consegue falar, devido á rigidez dos músculos do tórax e espasmos da garganta, o que também impede de respirar normalmente, podendo causar asfixia.

Vacinação contra o tétano

Apesar de ser uma doença grave e potencialmente fatal, o tétano é facilmente evitável através da vacinação. A vacina não confere imunidade de grupo pelo que cada pessoa tem de estar vacinada.

A vacina oferece proteção contra a toxina produzida pela bactéria. Consiste na forma inactivada da molécula dessa toxina, que ao ser administrada no organismo o prepara para se defender da doença, produzindo anti - toxinas.

A vacinação anti tetânica, é a medida preventiva mais eficaz contra o tétano.

PALAVRAS, PALAVRAS, PALAVRAS

REGINA SARDOEIRA 
O mundo dos homens tece-se numa insuportável orgia de palavras. São tantas e tais, de tal maneira desenfreadas, na acutilância com que pretendem atingir o alvo, ou, pelo contrário, tão marcadas pela insídia em direcção à perversão e ao logro que, frequentemente, o silêncio emerge desse tumulto como a soberana condição do discurso. 

Vive-se num enredamento verbal que a maioria das vezes não tem outro sentido senão ocultar as ideias, mistificar e mascarar os segredos íntimos que, por essa razão, permanecerão para sempre invioláveis. E no entanto falamos, falamos sempre. Como se não fôssemos capazes de guardar silêncio em nenhuma circunstância e tivéssemos que encher constantemente o espaço de ruído e de sombra. Porque o ruído, ao constituir -se como marca da civilização que para nós reivindicamos, traduz-se no eclipse final ou momentâneo - consoante os casos - da clarividência ou da paz que conduziriam ao benefício da luz. 
Quem sabe silenciar e atender ao inaudível no secretismo da mente? Quem ousa ficar a sós consigo próprio na serenidade activa da descoberta e lançar pontes sobre o abismo ou esculpir fontes no deserto? 
Tudo é ânsia, pressa de chegar a nenhures. Corre-se porque parar é reconhecer a vanidade da pressa e cair no buraco do próprio vazio. Fala-se porque guardar silêncio é estar face a face consigo mesmo e tecer, em solilóquio, uma trama de desespero.

Temos, então, as palavras, muitas palavras. 
E aqui estamos, perante vós, com elas, enchendo de sinais negros uma página em branco, querendo atingir-vos, carregar na mola da vossa sensibilidade, abrir os portões que vos atirarão de encontro a vós mesmos. Achamos que esse direito nos pertence. Às vezes utilizamos maiúsculas e pintamo-las de vermelho, para que vos lembreis que há um fluxo sanguíneo e que nele reside a seiva e a voz. 
Mas teremos, de facto, o direito de agitar o vosso mundo, lembrando-vos o que, tão afanosamente, vos ides encarregando de esquecer?

Há o sortilégio do olvido e muitos de vós tomaram a poção miraculosa: por isso vos deixais deslizar, entontecidos, no fluxo álacre dos ruídos díspares que vos embriagam.

Estais aí, sentados, bocejais de fastio, pesam-vos os olhos e lacrimejais, pois o ar está prenhe de emanações deletérias. Qual, de entre vós, ousa confessar a inutilidade do ruído que a vossa boca emite ao falar, que os vossos pés produzem nos caminhos pisados do mundo?

Palavras, estas também o são, como todas as outras. Aquele que escreve suja de tinta a virgindade opaca de um pedaço de luz, sem conseguir dar a receita e salvar o mundo.

Salvar o mundo?! Como se houvesse ainda algo que valesse a pena salvar, como se, na linha do horizonte, o infinito tivesse perdido as suas prerrogativa e se destinasse, também ele, a ser preenchido pelo som da nossa voz! 
Também contra ele nos voltamos, raivosos de uma imensidão que nos escapa e querendo fazê -lo linear e diminuto à nossa mesquinha dimensão. 
Nada nos foge, nada resiste. Somos feras que se degradaram, enfunamos o peito, agitamo-nos na mais insensata das corridas e cremo-nos superiores, animais redimidos, imunes à miséria.

Um apelo vos fazemos do fundo deste atentado lúcido ao silêncio: encarai estas palavras como palavras que elas, de facto, apenas são. Fazei delas música, se puderdes, e esconjurai o ruído através dos espaços que vamos deixando entre as letras e que são outros tantos lampejos de infinito.

segunda-feira, 28 de março de 2016

SINAIS DE DOENÇA EM CÃES E GATOS

DANIELA MOREIRA
Tal como se verifica com os seres humanos, também os animais de companhia adoecem, em algum estadio da sua vida. O diagnóstico médico precoce, numa fase inicial da doença, permite um considerável aumento da taxa de sucesso do tratamento instituído e, consequentemente, um prognóstico mais favorável a longo prazo. Importa, pois, que os proprietários estejam atentos aos sinais que os nossos animais nos dão, na sua maioria subtis, uma vez que esses mesmos sinais poderão ser indicativos da presença de alguma patologia. 

A título informativo, deixo-vos com uma listagem de alguns dos parâmetros fisiológicos mais importantes, facilmente percetíveis, que nos permitem avaliar o estado físico geral dos cães e gatos. Qualquer alteração nestas variáveis, deverá ser alvo da atenção dos proprietários, no sentido de procurarem aconselhamento médico-veterinário.

1. Atitude:

Devemos ter em atenção se o animal se encontra mais apático, se não quer brincar, se dorme mais tempo, se se afasta ou recolhe num canto (muito comum no caso dos gatos) ou se mostra sinais de desconforto e/ou agressividade. As mudanças de atitude poderão indicar que o animal está com dor/desconforto.

2. Pele e Pêlo:

Os animais perfeitamente saudáveis apresentam um pêlo brilhante e sedoso. Por outro lado, em caso de doença (dermatológica e não só), o animal poderá apresentar queda de pêlo, com ou sem prurido (comichão) associado; zonas de alopécia (falhas de pêlo), localizada ou generalizada; ou ainda, manifestar a presença de seborreia (caspa), entre outros sinais clínicos possíveis. Os problemas dermatológicos são uma das principais causas de visita ao médico veterinário.

3. Temperatura:

A temperatura corporal dos cães e dos gatos é superior à dos seres humanos, variando, em condições normais, entre 38ºC-39ºC, podendo estar fisiologicamente aumentada em casos de stress/excitação ou calor.

4. Mucosas:

Pode-se avaliar a coloração e aspeto geral dos lábios, língua ou conjuntiva (o mais simples será levantar o lábio do animal). As mucosas deverão ser rosadas e húmidas. Quando estas se apresentam mais pálidas ou azuladas, geralmente, é um indicador de doença potencialmente grave e requer controlo médico imediato.

5. Cavidade Oral:

A presença de tártaro (placa bacteriana) é uma das queixas mais comuns por parte dos proprietários, uma vez que se traduz na presença de halitose (mau hálito). No entanto, para além da questão estética, é, sobretudo, um fator de risco elevado para o desenvolvimento de patologias distintas, nomeadamente do foro cardíaco. A manutenção da higiene oral, similarmente ao que se verifica na medicina humana, é de extrema importância nos animais de companhia, que devem ter os dentes limpos e brancos, sem a presença de gengivite ou halitose.

6. Frequência Cardíaca:

Varia entre os 40 batimentos por minuto (bpm) (cães de porte grande) e os 120 bpm (cães de porte pequeno e gatos), devendo ser avaliada com o animal em repouso. Em ambiente familiar, os proprietários poderão pousar a mão sobre o peito do animal (lado esquerdo) e contar o número de batimentos cardíacos em 60 segundos.

7. Frequência Respiratória:

Deve ser avaliada num espaço tranquilo, com o animal relaxado e sem ser manuseado em demasia. Calcula-se contando o número de inspirações/expirações que ocorrem durante 60 segundos e varia entre 10 e 40 respirações por minuto.

Enquanto proprietários de animais, e responsáveis pelo seu bem-estar, cabe-nos a nós sermos os primeiros a detetar os sinais de doença. Estando atentos, poderemos contribuir, em muito, para a manutenção de uma vida saudável.

ENTRE A EXALTAÇÃO E A MELANCOLIA

[Realização e êxtase: conviria distinguir bem um do outro o caminho para o êxtase e o próprio êxtase; o primeiro ainda pode ter algum interesse por todas as lutas interiores, por todas as incertezas, por todo o esforço de pensar amplamente a que em geral dá origem; no entanto, já nele mesmo poderíamos ver, além de uma preocupação egoísta, uma alternativa de esperança e desespero, um gosto de revelação e dos auxílios sobrenaturais que não poderão talvez classificar-se como superiores.]
- Agostinho da Silva in Diário de Alcestes

[Mente - Cérebro: doença mental e criatividade não são categorias mutuamente excludentes; ao contrário, frequentemente estão associadas. Afinal, criar significa escapar de padrões habituais, inovar, surpreender. [...]
As fases da doença bipolar favoreceriam o processo da criação literária, uma vez que correspondem à alternância característica de actividade do escritor: um período de "recolhimento", de elaboração de ideias, seguido por um período de produção.]
- Mocys Sclias (inspiração e transpiração) artigo inserto em Março de 2008 na revista Scientific American
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(este artigo, na 1.ª pessoa, revela tão somente o que se passa comigo, enquanto autor, no meu acto de criar; pela primeira vez o revelo, não sem antes ter pensado, maduramente, se o devia tornar aqui público ou não.)
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ALVARO GIESTA
Há dias em que a minha euforia atinge os píncaros - não sei se subindo aos céus se descendo aos infernos - e nasce em mim a mais veemente e forte vontade de criar: e escrevo quase que alucinadamente, como se fosse esta a minha exclusiva missão; noutros, porém, a depressão abisma-me, a melancolia assalta-me e invade-me as entranhas até ao mais fundo de mim e mergulho num poço negro, que desconheço e do qual nem sei a profundidade que tem. É como se eu fosse dois saindo do mesmo corpo, duas formas de ser e estar no mundo.

No primeiro caso, a euforia leva-me ao mais alto da exaltação e prolonga-me pela noite dentro a capacidade de escrever. Não sei se este estado eufórico de criar é útil como tempo de criação, se ele é terreno de areias movediças e enganosas; sei, contudo, que ao contrário dos dias de morbidez em que nada me apetece fazer, muito menos fazer aquilo que ouso dizer "trabalhar", nesses momentos de exaltação a palavra me nasce na ponta dos dedos e a afago com tal ardência e emoção que em breve surge o poema.

No ponto-morto entre estes dois momentos, há aquele tempo em que paro para pensar do que pode advir dessas areias movediças em que caminho - nesse processo de exaltação e euforia -, e indago-me como "educar e afinar" a alma para me sentir apenas um - o mesmo - em todos os minutos da vida. Mas depois concluo que, afinal, não é nenhuma catástrofe sentir esses momentos de exaltação e escrever "furibundamente" com a força do vulcão ainda que tudo possa ficar a apodrecer no recanto escuro das gavetas ou duma arca onde começa, já, a lavrar o bolor. O que é catastrófico é a monotonia em que o homem não cria e pode, até, perder a capacidade de criar se lhe faltar a coragem de afrontar as vozes críticas da maledicência, aquelas que apenas o são na medida em que, ao invés de ajudar a construir pretendem destruir pela inveja que lhes corrói as entranhas.

É na altura deste ponto-morto que paro para pensar: da razão da minha exaltação e da minha melancolia que grita algo em mim - como se fosse para me acordar deste meu sonhar acordado e em sobressalto (que se passa em mim?... porquê este grito de dentro de mim?...). E interrogo-me, em recolhimento, desta confusão violenta das coisas que a minha vida tem! É nessa altura que me nasce na ponta dos dedos desta minha mão direita uma vontade súbita e subtil de transferir para o papel o que começa a ganhar forma e a crescer no plano mental das ideias.

Primeiro numa desordem estuporada - tal a desordem das coisas da vida - as ideias surgem em catadupa; depois, ordenando-as numa unidade de significação, assim procedo: agarro nelas, reduzo-as a dois ou três tópicos, apenas, equaciono-as, penso nelas com mais profundidade, sem nunca entrar em catarse - porque não crio com a luz que dizem vir das musas - e, no fim desta operação intelectual escrevo, escrevo e muitas vezes sinto, neste processo de escrita, a dificuldade de parar. Neste campo se justifica a extensão das minhas crónicas e ensaios e até de longos poemas ainda inéditos.

É nestas alturas que me grita alto o expoente máximo do pensamento sobre liberdade de criar: Agostinho da Silva «um homem não nasceu para trabalhar, nasceu para criar, para ser poeta à solta». É nesta altura que me bate à porta a lembrança deste grande mestre e filósofo da sabedoria clara e simples do século XX, que na sua humildade claríssima e claríssima sabedoria tal se não considerava, como convém aos verdadeiros homens do saber. Agostinho da Silva que, através do diálogo aberto com todos, sem excepção, desmantelava todos os dogmas e certezas num processo de desconstrução dialogante respondendo com perguntas às questões interrogativas que o interlocutor lhe colocava quando o entrevistava.

Agostinho da Silva que advogava que o homem, sendo "poeta à solta", se pode realizar, por si, sem sujeição a outros nem a opressões nem ditaduras. Nem sequer às barreiras do pensamento - que impõem ao pensamento -, porque a "Liberdade" não está condicionada aos estreitos limites de qualquer imposição, seja ela qual for, mesmo que se julguem com direito a impor restrições à liberdade de pensar e de criar, aqueles que se julgam bafejados pela única razão que julgam válida: a sua; porque liberdade de pensar, de criar, é um valor inalienável que confere ao Homem, que pensa e que cria, a expressão da sua vontade.

Sem constrangimentos, porque ficar constrangido perante o receio de debater, conversar, dialogar, comentar, contradizer, é, desde logo, perder o livre arbítrio, perder a liberdade de opinar por ficar servo/prisioneiro dessa ideia exterior a si, alheia à sua vontade de dizer.
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Liberdade! No meu poema te grito

com um grito que desperta em mim

a vontade mais forte de gritar



Gritar bem alto

e fazer ouvir a raiva e a dor

por ter calado tanto tempo a vontade

amordaçada

que doía desta revolta interior



Que importa que me algemem os pulsos

e me roubem o papel

onde verto a raiva nos versos do meu grito?!

Algemem-me os pulsos,

algemem...


...prendam-me, encarcerem-me

que também me hão-de soltar

mas não me amordacem... não me amordacem

que eu não me deixo nunca por ninguém amordaçar


Cortem-me as mãos, decepem-me...


Mesmo que me roubem a possibilidade

de escrever o meu grito

não vão ter a possibilidade de roubar

o fôlego que me vai na alma

a voz que há-de dizer o poema que trago no peito

até que um dia o ponha na rua

e aos ventos da liberdade o possa gritar.

(escritos intemporais - inédito)

domingo, 27 de março de 2016

CRISTO RESSUSCITOU, ALELUIA, ALELUIA

MIGUEL GOMES
- E agora? 

Pergunto transpirado, apesar da madrugadora hora a que o faço, depois de sacudir as mãos e o pó que se desprende se transformar numa espécie de neblina dourada que o ar se encarrega de levar para polinizar o deserto, encostado à pedra que acabei de rolar, de mãos gretadas e inchado de esforço.

Olhas-me directo no olhar e esgueiras uma espécie de sorriso.

Há nesse teu silêncio sorridente uma resposta a toda a indagação que ainda nem se sabia pergunta, já tinha abraçada a si a compreensão daquilo que ainda não se tinha incompreendido.

Pousas a mão no meu ombro, a dor que moía maceradamente e me punha a pele comprimida contra o músculo avermelhada desaparece. Dizes-me para sairmos daqui, levanto-me a custo esquecido que estava do peso desta e da anterior noite, ao relento, tal como tinhas dito. 

- Não podemos ficar por aqui? Estou cansado.

Mas tu sorris novamente, mirando-me na ternura com que um pai espreita o filho quando ele, inocente, se toma por si como mundo e nessa benevolência compreendo a estupidez da minha pergunta, qual a minha legitimidade para me cansar depois desses teus últimos dias? 

Levanto-me enrubescido, ergo o corpo o suficiente para me aperceber que a manhã vem já a trautear despreocupado o horizonte, não se mostrando, mas anunciando-se na claridade que vai percorrendo o mundo dia após dia. Começamos a caminhar não sem antes te passar a mão pela cintura e te auxiliar. Sei, ou melhor, imagino que essas tuas entradas e saídas carnais, nos desafios metafísicos que a ciência, ainda na sua infância, chamará de impossibilidades e singularidades, te causam uma espécie de entorpecimento enquanto não se aglomera a matéria desenergizada, descida que está pelas dimensões do que nem sonho existir.

- Seria necessário tudo isto? Não terias outra forma de o fazer?

Dizes-me que a fantasia a que um dia te iriam votar as vozes sobre o que falaste pedia que o esplendor e, também, a incredulidade do impossível fosse testemunho firme. 

Não concordo, mas insistes, como se tivesses vindo agora de um futuro distante, uns milhares de anos?, e atestasses que de facto assim seria, tu, escorraçado e crucificado pelos teus, sereno sobre o alvoraçado tempo que se vai comendo a si mesmo, triunfante sobre a matéria que compõe esta camada de vida a que chamamos infinito. Eu, ainda longe de perceber a profundidade do teu silêncio, compreendo mal o que falas, mas depois de te ver jorrado em sangue, apedrejado, escarrado pelas ruas sob o fustigo destes que, embora não o compreenda, amas, capaz de os veres da paliçada passividade de quem espera que o fruto nasça de semente que não se sabe semeada, depois de percorrer as tuas ruas e ver, de olhos marejados, as pedras ensanguentadas por onde passaste, trespassarem-te o peito, o olhar baixo e perdido no sacrifício com que olhaste para mim e, quando nem o vento ousava soprar-se naquela tarde fria, movimentaste os lábios para me dizer algo que esqueci no vai e vem de vidas vividas. Ungido que és, nascido em díspares meridianos sobre outros nomes que te baptizem, trazes-me às mãos o odor ao orvalho da manhã fria, oh filho do Sol. 

Eu nem me sei de nome, quanto mais de gente, sabes-me o que ainda nem me sei e isso basta-me para ser eu com todo este nada onde me deito feliz.

Chegamos onde queres, pousas as tuas mãos nos meus ombros, fazes nascer o universo onde antes moravam os meus olhos para me deixares ver as ondulâncias e os contornos do que não há.

Abraças-me e quase me esqueço de ser eu, preso nos pés que me caminham no mundo, de olhos fechados voam para longe as partes de mim que não me pertencem e esqueço-as facilmente.

Deixo de te sentir. Os meus ombros, apesar de não terem a leveza do teu abraço, ficam mais pesados ainda, descubro que o desânimo é verosímil, palpável, seco e agreste como tudo o que não é por apenas não ser. Dou por mim a soluçar baixinho, escondo-me quando ouço passos e alguém que grita, apavorado, “Não está aqui!”. 

Sim, não estás aqui, e agora?

sábado, 26 de março de 2016

À MESA COM...

O que estamos a comer na verdade?
“Sou a favor dos produtos naturais, regionais e nacionais, quero diferenciar-me da maioria dos chefes de cozinha não só pela originalidade, mas também por trabalhar com os melhores produtos e quero informar a população do crime que estão a ser alvo. Os consumidores devem saber o que estão a comer e a dar de comer aos seus filhos e devem ser exigentes, devem exigir os melhores produtos. Para cozinhar e comer bem temos de comprar bem. Cada vez mais, os produtos de cosmética são feitos de produtos naturais e os alimentos de químicos e nós temos de mudar isso.”

PAULO MAGALHÃES
Com esta crónica, pretendo deixar uma mensagem muito importante sobre o que é a nossa realidade gastronómica, uma realidade escrita em letras pequenas, ou muitas vezes escondida de nós.

Vou dar algumas noções da quantidade de açúcar que ingerimos diariamente sem nos apercebermos. 

O consumo de açúcar diário recomendado é de cerca de 50gr, 1 litro de néctar tem 145gr de açúcar, 2 litros de Fanta tem 270gr açúcar, 3 colheres de chocolate em pó equivalem a 2 colheres de açúcar.

Não vou aqui falar nos problemas que a ingestão de elevadas quantidades de açúcar podem causar, pois cada vez existe mais informação, quero apenas ressaltar que o problema está na informação do conteúdo dos produtos que ingerimos, que muitas vezes é abafado. 

Quando vemos uma publicidade em que a carne é fresca, isso não quer dizer que seja saudável; quando vemos um rótulo com um animal no seu meio ambiente muito feliz, isso não quer dizer que seja verdade e vou deixar aqui alguns exemplos em que é muito fácil demonstrar aquilo que eu quero elucidar-vos.

Um bezerro é afastado da sua mãe nas primeiras horas de vida e trancado num cubículo para que não crie músculos e assim a sua carne fique tenra. Para além da imobilização do animal, a sua alimentação só contém o mineral ferro para que este não morra antes do abate, ou seja, é-lhe retirado da sua dieta dando-lhe só as quantidades mínimas para que assim a sua carne fique tenra, então nada no estábulo pode ser em material ferruginoso, pois os animais iriam começar a lambe-lo desesperadamente. Embora sejam animais naturalmente adversos à sujeira, acabam por comer os seus próprios excrementos em busca deste mineral. A sua alimentação é líquida e nenhum líquido lhes é dado a mais para que assim comam o máximo possível. Um bezerro morre com 4 meses sem nunca ter visto a luz do dia.

As batatas fritas do maior Fast - food do mundo. Para que estasbatatas não ganhem manchas, são utilizados quimicos, esses químicos são tão perigoso que os cultivadores estão 5 dias sem poder entrar nas cultivações. Estas batatas depois de serem apanhadas não são comestíveis cerca de 6 semanas, pois têm de libertar todos esses gases químicos. O mais preocupante para mim, é que a maior parte dos pais levam os seus filhos a comer Fast – food como se fosse um prémio ou presente que lhes estão a dar, quando deveria ser um castigo.

Podemos observar num simples quadro acessível a todos no Google o nível de agro-tóxicos presentes em alimentos que fazem parte da nossa dieta diária.



Os agro-tóxicos, usados em quantidades moderadas, não são prejudiciais ao ser humano, o grande problema, é que grandes produtores, lidam com grandes quantidades de dinheiro por produção, então utilizam grandes quantidades dos mesmos para que as suas plantações não corram riscos de pragas, pensando unicamente nos seus lucros, não pensando que estes químicos causam danos a longo prazo, tais como alterações no sistema nervoso, cancro, alterações fetais, etc. 

Na minha primeira crónica venho apelar ao consumo de produtos de qualidade e ao apoio de produtores locais e nacionais, e quero também que leiam o que está escrito em letras pequenas nos produtos que compram diariamente .


Para concluir, deixo aqui um MENU de Páscoa, simples mas delicioso:

Uma Páscoa com a família requer uma boa refeição, mas também tempo para todos, então deixo um cardápio que o vai levar a viajar sem sair de casa e sem ter muito trabalho.

Vou começar por Trás-os-Montes com o típico pão de páscoa, mais conhecido por folar. Nesta receita saboreamos os tradicionais e maravilhosos enchidos desta bela zona, juntamente com o simples mas glorioso pão caseiro. Nada melhor do que esta entrada para nos sentirmos lá no alto, onde tudo ainda parece diferente, onde as origens se mantêm, onde se preserva a qualidade e se usam segredos de décadas.




Ingredientes
12ovos
1Kg de farinha culinária tipo 55
200gr de fermento massa de padeiro
1cubo de fermento inglês
125gr de manteiga primor com sal
0.5dl de azeite
Toucinho q.b. partido aos cubos
Chouriço q.b. partido aos cubos
Espádua de porco q.b. partido aos cubos
Sal q.b.

Preparação:
Coloca-se a farinha num tacho e abre-se um buraco no meio. Derrete-se o fermento inglês em meio copo de água morna. Coloca-se no buraco da farinha e junta-se os 200gr de fermento de massa do padeiro e desfaz se juntamente com o outro fermento. Vão-se adicionando os ovos previamente aquecidos em banho-maria e desfeitos com a mão ao preparado anterior (os ovos só podem ficar mornos), adiciona-se sal q.b., sempre misturando a farinha aos poucos. Adiciona-se a manteiga e o azeite derretidos (mornos).

Bate se muito, o folar tem de se bater muito. Envolve-se em farinha até fazer uma bola e se desapegar das mãos, sem a massa ficar dura. Deixar levedar a massa tapada com uma manta e num ambiente quente durante 1h30. Quando aumentar o dobro do tamanho, coloca-se a massa na mesa e corta-se em pedaços. Unta se a forma sem buraco com azeite e coloca-se a primeira camada de massa intercalada com a carne previamente partida aos bocados. E assim sucessivamente. O número de camadas deve ir até metade da forma. 

Com as mãos unem-se as camadas de lado de maneira a formar uma bola ou um retângulo na forma. Levedar na forma até a mesma encher. Vai ao forno durante aproximadamente uma hora a 200°graus, quando tiver tostado em cima, retira-se do forno e verifica-se se se a forma já está leve e se o folar desenforma. Se desenformar já está cozido senão volta-se a meter no forno com prata em cima para não queimar até se desenformar.
Dica: Desenformar logo mal saia do forno e envolve-lo num pano a arrefecer. A receita original é feita em forno de lenha mas em alternativa pode-se fazer no forno de fogão.

Como prato principal, seguiremos para o Alentejo, com um Cordeiro no forno. Um prato simples, visto que é Páscoa e já temos muito trabalho. Para os amantes da comida, esta receita vai ser para repetir. Mesmo que não seja um momento tão especial, dirigimo-nos para o Alentejo mas não deixamos as montanhas, pois o segredo desta receita é o fresco e apaixonante sabor do alecrim em contraste com o inexplicável sabor intenso do cordeiro. Para esta receita vamos precisar de,

1 kg de costelas de cordeiro
2 raminhos de alecrim fresco
1 raminho de alecrim picado
9 dentes de alho (5 inteiros, 4 picados)
1/2 (colher de sopa) de azeite por cada costeleta
1 chícara de vinho verde branco
1 kg de batatas cortadas aos gomos com casca
Azeite a gosto para as batatas
Sal e pimenta a gosto


Preparação:
Pré aquecemos o forno a 200 graus. Às costelas juntamos sal e pimenta. Num mixer, pomos 5 dentes de alho, o azeite, o vinho e as folhas de 2 raminhos de alecrim. Misturamos tudo e envolvemos bem as costelas neste molho.

Numa assadeira colocamos as batatas, sal a gosto, 1 raminho de alecrim picado, 4 dentes de alho picado, um pouco de azeite e mexemos bem. Levamos ao forno mexendo constantemente para que não se queimem. 

Quando as batatas tiverem louras dos dois lados baixe a temperatura do forno para 170 graus e aqueça bem uma frigideira e coloque um fio de azeite. Aos poucos coloque as costelas bem escorridas, cerca de um minuto de cada lado e coloque-as numa assadeira. Quando terminar, adicione o molho do tempero á frigideira e deixe reduzir cerca de 7 minutos. Por fim, espalhe o molho nas costelas e leve ao forno até que fique cozinhado, mexendo sempre as batatas para que fiquem bem cozinhadas mas sem queimar.


Viajando para o Minho, temos como tradição o Pão-de-ló. Nesta viagem decidi enquadrar o Pão-de-ló de Ovar, fazendo dois destinos de uma vez só. 

Para esta receita precisamos de:
12 ovos (2 inteiros e 10 separados a gema da clara)
200 gr de açúcar
75 gr de farinha peneirada
1 folha de papel vegetal

Preparação:
Pré-aquecemos o forno a 220 graus. Numa taça juntamos os dois ovos inteiros às dez gemas e adicionamos o açúcar. Bate-se na batedeira na velocidade máxima durante 25 minutos. Este processo é demoroso para quem não tem batedeira com bacia rotativa, mas é fundamental. 

Depois de bater 25 minutos, juntamos a farinha peneirada lentamente, mexendo sempre com uma colher de pau. Coloca-se o papel vegetal na forma, e em seguida, a massa. 

Caso sinta dificuldade em fazê-lo, coloque manteiga na forma e depois o papel, para que assim este agarre à forma. Leve ao forno durante 12 minutos e deixe repousar por cerca de 4 horas.

IR, APENAS IR...

CARLA AFONSO
Ir, apenas ir... Inspira-me!

Vibro com tudo o que envolva conhecer algo novo, mesmo que seja a cinco minutos de casa. 
Durante o meu percurso de vida, já percorri longos percursos. E não tenho qualquer dúvida que nem dez vidas seriam suficientes para calcorrear todo o mundo. 
Mas não há medida de tamanho quando falamos de sonhos e, por isso, decidi partilhar os meus. Os sonhos passados, os sonhos presentes e os sonhos futuros.
Escolher um destino, preparar um itinerário de viagem, fazer as malas, saltar de aeroporto em aeroporto, visitar locais de beleza inesgotável e locais que respiram história, e por fim regressar a casa com a mala cheia de recordações e de momentos inesquecíveis... Em resumo viajar inspira-me! Deixem-se também inspirar!



Às portas do Porto, a Aldeia Preservada de Quintandona


A escassa meia hora de viagem da cidade do Porto, existe um segredo mal guardado para os amantes das aldeias portuguesas. Quintandona, de seu nome, é uma aldeia maravilhosa em plena Rota do Românico, no concelho de Penafiel, recuperada com um bom gosto incrível. Quase todas as casas e muros são construídos em xisto, o que a torna única na região. É o local perfeito para explorar a cultura, a gastronomia e a beleza de uma região rica em tipicidade, património e história.


Na aldeia podem usufruir da fabulosa Casa Valxisto – Country House. Um verdadeiro refúgio, com uma simplicidade sofisticada cujo objetivo é oferecer os tons, os aromas e toda a riqueza campestre... Quartos com nome de frutas e flores, móveis e objetos carregados de histórias que tornam esta Country House num espaço acolhedor e único, incapaz de nos deixar indiferente. A Casa Valxisto – Country House disponibiliza gratuitamente a todos os hóspedes bicicletas. Cestas ou mochilas de piquenique (com custo extra), são também preparadas para que os hóspedes tenham a possibilidade de fazerem uma refeição num contacto estreito com a natureza.
Aconselho um passeio de bicicleta ou simplesmente um percurso pedestre pelas ruelas empedradas. Observe a bucólica paisagem, os lavadouros tradicionais, a capela com mais de 200 anos e o antigo cruzeiro, os vários canastros – nome dado aos espigueiros nesta região.


Poderá ainda encontrar no coração da aldeia preservada de Quintandona, o Winebar - Casa da Viúva. Um espaço que nasceu de um sonho e que transformou um antigo celeiro do séc. XVIII da casa que era conhecida como “a casa da viúva”, num lugar único e especial. Totalmente recuperado, mas mantendo o traçado original, o Winebar - Casa da Viúva é hoje um espaço que combina o rústico xisto das paredes com a moderna e elegante decoração. Tudo para proporcionar momentos especiais de convívio, acompanhados de vinhos de eleição e petiscos tradicionais. Nos dias quentes, na esplanada, é possível apreciar a belíssima paisagem e o encanto de Quintandona. Já nos dias mais frios, o conforto da lareira no seu interior, torna o ambiente mais acolhedor e intimista. O bem receber do Winebar - Casa da Viúva, é típico de uma casa de aldeia. Você não vai ter pressa de sair, acredite!


Sabia que nesta pequena aldeia se faz teatro? A associação Os ComeDEantes elegeu este local para se inspirar e aqui dinamizar esta arte! Reza a história que o local tende a atrair os viajantes. É que ali perto, a cerca de dois quilómetros, a Citânia do Monte Mozinho-Cidade Morta, considerada a mais extensa da Península Ibérica, terá sido a “Cividade Gallaeci” capital dos Galegos, que aqui terão habitado. Uma ótima altura para visitar a aldeia de Quintandona é no terceiro fim de semana de setembro, data em que todos os anos se comemora a típica Festa do Caldo. Venha provar os caldos tradicionais da aldeia numa viagem às décadas de 50 e 60, quando estes eram a base da alimentação da população rural.
Presunto e enchidos de porco, pão de regueifa, cabrito assado, arroz de forno e, nos doces, pão-de-ló, pão podre, tortas de Penafiel, leite-creme, bolinhos de amor e tortas de São Martinho são outros pratos típicos que pode degustar, sempre acompanhados da bebida que é um dos ex-líbris do concelho de Penafiel: o vinho verde, sendo o “Winebar - Casa da Viúva” o local ideal.

Como chegar a Quintandona
A partir do Porto, deve seguir pela A4 até à saída 9, seguir as indicações para Recarei (N15). Em Recarei, entre na N319, passe por Sobreira e pouco depois chegará à aldeia de Quintandona. No total, são menos de 35Km (30 minutos de viagem).
Caso não tenha carro, pode também ir de comboio. Para isso, na estação de Porto – São Bento apanhe um comboio em direção a Penafiel e saia em Recarei / Sobreiro. Depois são cerca de 4 km até à aldeia, que pode fazer de táxi.

Onde comer
Para refeições do tipo tapas, existe o já referido Winebar - Casa da Viúva, bem no coração da aldeia, que funciona durante a semana a partir das 15h00 e ao fim de semana a partir das 13h00; encerra à segunda-feira. Para uma refeição completa e de grande qualidade, sugiro a gastronomia do Turismo Rural Casa Valxisto (marcação obrigatória).

Onde dormir
A aldeia é pequena mas, mesmo assim, há um par de alojamentos caso queira pernoitar por lá (e não pegar no carro após a Festa do Caldo, por exemplo). Recomendo a Casa Valxisto, um espaço extraordinária que aconselho sem reservas, mas há também a Vizinha da Viúva, uma pequena casa onde nunca pernoitei mas que tem boas referências.
Se já não conseguir lugar na aldeia, o Solar Egas Moniz e a Quinta da Fonte Arcada são outras opções de excelência a meia dúzia de quilómetros de distância. Se viajar com um grupo de amigos, considere alugar uma casa de Turismo Rural como a Olival House.