segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

SER POETA POR NECESSIDADE DA ALMA

«O poeta não precisa de um diploma para ser poeta, o pintor não precisa de graduação para pintar e muito menos o músico precisa de uma faculdade para fazer seu sucesso.» - in ConversaCult.com.br
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Todos têm direito a um momento de discordância ou desabafo de indignação por algo dito ou feito por alguém com quem não concordamos, de todo. Este é o meu convicto ponto de vista, e representa, somente, o meu ponto de vista sobre o assunto vertente que me fez maduramente pensar, durante alguns meses, se havia dele escrever, ou não, para não incomodar ou ferir susceptibilidades; venceu a minha teimosia "vertical".

Propositadamente, no texto, não há qualquer referência a nomes - nem de pessoas, seja qual for o género, nem de lugares.
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ALVARO GIESTA 
Há tempos fui convidado por pessoa amiga, poeta também, a ouvi-la em entrevista que cedeu a uma certa rádio local. O convite tinha uma finalidade: que eu, em determinada parte do programa, interviesse, como já o tinha feito noutra ocasião, aliás, quando a mesma pessoa, então entrevistada, já o fora, antes, numa outra rádio.

Logo no início da entrevista tolheu-se-me a vontade de intervir. Falando, a pessoa da rádio, dos dotes poéticos da pessoa em questão, que conheço bem assim como conheço a sua poesia, que muito aprecio, começou por referir, com palavras tais: «Temos hoje entre nós... (e referia-se ao nome da pessoa - poeta, em questão) com o livro (tal) publicado, formada pela Universidade de... com o Curso de... (e aqui, enfaticamente, referia o título académico em Letras para justificar a escrita poética), como convém nesta arte de escrever.» Ainda que, quase de imediato, essa pessoa que fazia a entrevista remendasse o «como convém para a arte de escrever» ao que (me) pareceu num acto de arrependimento pela gafe cometida, pois nem todas as pessoas poetas que por tal rádio passam tiveram a sorte (ou a necessidade) de se sentar nas carteiras de uma Faculdade de Letras para escrever poesia. Foi esse «como convém para a arte de escrever», angustiante de ouvir, que me fez perder a vontade de entrar em directo pois, se o fizesse, por certo argumentaria, e logo de entrada, que "o hábito não faz monge".

Porque isso é verdade! É grande o rol de famosos autores que nunca coçaram as calças nos bancos das escolas universitárias ou, tendo-as coçado, nunca as chegaram a puir trazendo por consolo um curso que não terminaram, e nem por isso deixaram de ser conhecidos no universo literário mundial: Fernando Pessoa, o exemplo clássico de um famoso escritor que desistiu do curso em Letras; Saramago, que nunca o frequentou e, por isso, não deixou de ser o monstro que é, na literatura portuguesa, a nível mundial; Ramos Rosa, que nem sei se alguma vez o sonhou frequentar...

Mas, há mais, muitos mais, a desmentir o «como convém» ter um curso superior em Letras (ou noutra coisa qualquer) para ser escritor ou poeta. Vejamos apenas mais três ou quatro "monstros" da escrita: Ernest Hermingway, Bukowski, Cortázar, Proust ou Henry Miller que jamais concluíram ou cursaram uma faculdade. Isto, para não me ficar, apenas, por alguns dos escritores portugueses sem o "canudo em Letras" «como convém» que, aos olhos dessa voz da rádio parecem ser, talvez, escritores menores (creio que pelo desconhecimento das suas obras).

E na continuação da saga dos escritores e poetas sem o tal curso em Letras: Machado de Assis, duplamente considerado como o maior nome da literatura nacional brasileira, «de uma família pobre que mal estudou em escolas públicas e nunca frequentou a universidade; dizem dele, os biógrafos, que interessado pela boémia e pela corte, lutou para subir socialmente abastecendo-se de superioridade intelectual». Um mestre que escreveu em quase todos os géneros literários sem necessidade do tal «curso em Letras como convém»: poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, escritor de folhetins e argumentos, jornalista, crítico literário. E José Saramago, o nosso Nobel da Literatura... que curso, em Letras, imaginaria esta nossa voz da rádio para autores célebres, como estes, sem oportunidade ou necessidade de possuir educação formal, que fosse, para serem escritores? E o autor da obra-prima da ficção norte americana "As Aventuras de Huckleberry Finn", o famoso escritor conhecido pelo pseudónimo Mark Twain, que curso superior em Letras tinha - o tal curso «como convém» para se ser escritor ou poeta? Nenhum possuía!

E outros grandes escritores e poetas formados em cursos universitários, que não em Letras, necessariamente: porque constam dos anais da Literatura? Franz Kafka, Henry Fielding, Ángel Crespo, Mário de Carvalho... isto, para referir apenas alguns dos que habitam e ombreiam com outros que têm o tal curso em Letras «como convém», nas prateleiras da minha modesta biblioteca e com os quais aprendo, lendo-os e relendo-os muitas vezes colhendo, deles, profícuos ensinamentos: Jorge Luís Borges, James Wood, Sousa Dias, Gil Jouanard, Eduardo Pita, Fernando Guimarães...

A ausência do tal curso em Letras ou a falta dessa tal educação formal que qualquer curso oferece e nele se aprende tudo, menos ser escritor ou poeta, impediu-os de incluírem os seus nomes nas galerias da História Literária? Obviamente que não! Obviamente que entraram nos anais da literatura pelo esforço próprio que fizeram para se aperfeiçoarem, para aperfeiçoarem o dom natural da escrita que lhes era inato. Chego a pensar, atrevo-me a pensar, até, que uma formação universitária fora das letras, ou uma formação universitária da vida, pode contribuir muito mais - com experiência o digo - para que um escritor se forme num bom escritor desde que não despreze as muitas leituras que deve fazer dos bons escritores e não se esqueça de possuir um bom acervo literário para nele se debruçar e aprender. Para com eles estudar e aprender, evidentemente, e não, apenas, para enfeitar as prateleiras. Parte fundamental... tão fundamental, ou mais, como possuir o tal curso em Letras «como convém».

Porque, estruturalmente, um curso em Letras não serve para formar um escritor, muito menos um poeta. Serve, sim, para quem deseja ser um professor de Português ou de Literatura, um Jornalista, talvez até um crítico literário. Porque a formação universitária, em Letras, é restrita pela própria natureza estrutural do curso: os alunos são mais levados à especialização do que à liberdade criativa. Trabalha-se com os cânones literários, seja, com os livros e autores consagrados pelo tempo literário, em desprezo, quase total, pela compreensão do hoje e do acto de criar. Nada mais frustrante para um escritor literário do que a obrigatoriedade de seguir parâmetros que não dão margem à liberdade estilística e criativa. É como escrever por encomenda.

Obviamente que um curso em Letras, por si só, não dá a garantia de ser um bom escritor, muito menos um bom poeta, embora "poetas" haja muitos com Letras e sem letras. Quando muito ajuda a escrever bem e correctamente, mas dificilmente ensinará a criar. Obviamente que indispensável se torna pôr o conhecimento à prova e submetê-lo ao crivo de outros escritores e poetas, de críticos e até de leitores. De leitores, por que não?! De todos os bons leitores, evidentemente, e não apenas daqueles leitores para quem o escritor escreve prioritariamente. Insuficiente é, também, pôr o conhecimento à prova daqueles que julgam a partir do "canudo" do curso em Letras, que se tem ou deixa de se ter. Pior que isso, é julgarmo-nos mestres e envaidecermo-nos do nome, só porque nos chamam mestres!

A troca de experiências não circunscritas somente às elites, restringidas apenas aos elementos integrantes de círculos fechados que eu designo por tribos ou clãs, são prejudiciais ao conhecimento a adquirir na arte da escrita - prejudiciais àqueles que circunscrevem e limitam e tão mais àqueles que desses círculos são arredados. As discussões sobre criatividade, abertas a todos os que escrevem, por necessidade da alma e não do bolso ou do aplauso, as avaliações críticas feitas por críticos empenhados e descomprometidos e jamais interessados em comprometer-se com quem lhes dá mais, são as melhores cadeiras universitárias para formar um aprendiz de escritor ou de poeta que se vai formando, até se tornar escritor ou poeta, enquanto o jorro produtivo se vai manifestando na esperança de se conhecer.

Enquanto essa força de produzir não cessar, dando-se por acabada pela perfeição atingida - aqui sim, talvez o Mestre se manifeste! -, o aprendiz de escritor ou de poeta, mesmo sem a tal formação em Letras, vai explorando a palavra e com a força da mesma, descobrindo-se e dando-se a conhecer, no silêncio da voz que cria, erguendo a obra literária no seu tempo de ser aprendiz.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

QUEM É O SONHADOR?

MIGUEL GOMES
É de uma forma desformada que a noite me vai entrando pelo corpo. 

Começa pela sombra que contorna a caneta, depois pesa-me no olhar, desfoca-me a visão, aconchega-me com o pijama e um velho casaco azul gigante, a cor, não o casaco e, por fim, traz às costas um saco de pano do tamanho, vejamos, de um saco de pão normal, o saco, o pão também, e, lá dentro, todos os sonhos que vai mostrando. 

Por vezes comporta-se como um vendedor, africano, abre o saco, olha em redor, estou sozinho, estende os sonhos no chão, faz um movimento de arco-íris, que é como quem diz meia-lua, não importa a fase agora, como que exibindo o que tem, depois olha para mim e é isto que jamais esqueço, o olhar da noite nos meus olhos, e parece questionar: Qual queres agora? E eu, recolector por natureza, fico com todos tendo como fiel depositário ela mesma, a noite. Hoje guardou o saco, não me mostrou sonhos e, por momentos, vi sair dali um qualquer diabrete, agarrando-se ao meu pescoço com uns braços pequeninos e dizendo: Que é do sonho o sonhador.

Fazem-me falta as palavras que não conheço, as que estão na paisagem que vi há pouco, tão calcada, tão desconhecida, com o vento frio que me semicerra os olhos e me faz ver espectros no azul do céu. O cacarejar das galinhas, o som abafado dos carros, poucos, na estrada com buracos, muitos. Ir a pé umas centenas de metros, com destino correcto, é análogo ao meu caminhar pelos montes da vida. 

Saudades dos tempos em que centenas de metros eram os quilómetros que separavam aldeias, comer um punhado de grelos com azeite, alçar a perna no banco de madeira da cozinha e seguir viagem até um olival.

Creio que os tempos em que parecia não existir tempo para a vida, eram os tempos em que vivíamos o que existíamos. Como quando saí para a rua, para as traseiras da casa dos meus pais e deixei-me estar ali, com as mãos nos bolsos, o pescoço encolhido dentro do casaco, que o frio era muito.

Após a troca de presentes, que vale, para mim sobretudo, por olhar os sorrisos de outros e o olhar de criança que sempre surge nesta noite, saí. 

Estava frio, acho que já o disse. Muito frio. 

Vir até à casa dos meus pais, apesar da curtíssima distância, foi uma aventura de enregelar, tive que raspar o gelo do pára-brisas, por isso, estava frio, muito frio. Fiquei em pé, desliguei a luz de fora para poder ver melhor o céu que estava, como muitas das outras vezes, fabuloso, mas, para nós, o lar é sempre o lar, belo.

Sem o saber estava a receber mais uma prenda de Natal, murmurava ao meu ouvido, com aquela voz que só se ouve com o coração, lembrava-me as minhas próprias palavras de criança, quando dizia que o céu era um véu escuro, que nos separava de um sítio luminoso e que esse local era visto pelo brilho das estrelas, quando conseguirmos, dizia eu, olhar para dentro de uma estrela, veremos o lado de lá da vida. 

Acreditava cegamente que as estrelas eram sonhos dos homens (de humanidade), que saíam do seu coração e subiam, no alto, até encontrarem o véu e o rasgarem ao leve. E esse rasgão, ou buraco, por onde passava a luz eram as estrelas.

Foi o meu melhor presente de Natal, sem desprimor para os que recebi, principalmente pelo carinho que senti neles, mas reencontrar aquela voz suave e terna, que sussurra dentro de nós e nos faz ver estrelas onde estão apenas luzes distantes. 

Ficou composta a noite pela confirmação, que sempre chega, quando penso algo. Uma pequena luz azul que cruzou o céu e seguiu até desaparecer. "Esse é o teu sonho", disse-me a voz. 

E porque nessa noite eu era criança novamente, acreditei e sorri.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

NO QUARTO COM ELA

JORGE NUNO
Já há três dias que andava ansioso pelo momento. Não é por acaso que eu tinha estes dois livros na mesa de cabeceira do quarto: “Cérebro – Manual do Utilizador”, obra da Dr.ª Sandra Aamodt (da Universidade de Yale) e do Dr. Sam Wang (da Universidade de Princeton); “Descontrair a Mente”, escrito pelo Prof. Dr. Dietrich Langen, falecido em 1980 e, ao que consta, dedicou “mais de quarenta anos de experiência na área da divulgação médica do treino autógeno”. Com estes, procurava, além de exercitar a mente, obter aprendizagem de técnicas de relaxamento, com alguma sistematização, de modo a fazer melhor uso do cérebro. 

Em boa verdade, há cinco anos que recuso ser um sexagenário, por me considerar um sexalescente – e até há quem diga “sexylescente” –, já que está nos meus planos manter-me ativo, sem preocupações quanto ao passar dos anos. Também é certo que podia sentir-me um pouco mais relaxado quando pegava nos referidos livros, mas não contribuíam para me tranquilizar completamente. Experienciava isso ao ver as notícias na TV, particularmente aquelas que considerava um estímulo à minha capacidade de compreensão e/ou um atentado à minha inteligência. Tinha acabado de ver aquela que se reportava ao vírus Zika, alegando que em Portugal estará “montada vigilância apertada nas fronteiras para detetar a presença de insetos que represente ameaça”. Ora, sendo estes tão minúsculos e… aos milhões, fiquei curioso de saber como será “essa vigilância apertada nas fronteiras” para os insetos, quando nem se consegue controlar a meia dúzia de cavalos à solta [para os animais não há fronteiras] que fazem aumentar a sinistralidade rodoviária. Depois, as notícias da Comissão Europeia (CE) sobre Portugal, a fazer-me lembrar Henry Ford, fundador da Ford Motor Company, que disse: – O cliente pode ter o carro que quiser, desde que seja preto; assim, também a CE – que é pouco ou nada democrática, pois os seus membros não se submetem a sufrágio eleitoral – toma decisões, que obriga a obedecer (sob a forma de acordo), mesmo quando não se concorda com as decisões concretas, e argumenta com a “regras europeias” dizendo, sub-repticiamente, que Portugal pode escolher e adotar as políticas que quiser, desde que seja a política definida pela União Europeia. 

Nestas minhas deambulações, para minha satisfação, o tal momento especial chegou. Aguardava-a, pacientemente, no quarto. Reconhecia que me sentia em desvantagem, antes e depois da sua entrada. Logo após ter-me perguntado se estava bem-disposto, apressei-me (não sei se desajeitadamente, pelo modo brusco com que o fiz) a perguntar-lhe onde é que ela queria: – Na cama ou no cadeirão?

Reparei no seu ar jovial, e a sua movimentação indiciava grande à-vontade, como quem está habituada a estas lides. A sua resposta deixava transparecer que estava confiante e, por ser dada de modo delicado, fez com que me sentisse menos constrangido: – Pode ser onde quiser; na cama ou no cadeirão. É onde se sentir mais confortável. Escolha, pois por mim tanto faz. 

Ainda não sei bem por quê, impulsivamente, escolhi o cadeirão. Há dias assim…

– Então sente-se e descontraia – disse-me, enquanto exibia um sorriso tranquilo e baixava-se mesmo à minha frente, bem próxima de mim.

Vi então aumentar, exponencialmente, os meus níveis de ansiedade, fazendo agarrar-me com firmeza aos braços do cadeirão, como se estivesse no consultório dentário e já ouvisse o silvar da broca a aproximar-se da minha boca, sem estar anestesiado! Nestas circunstâncias, tudo indiciava que os ensinamentos do Prof. Dietrich Langen não iriam ser absorvidos por mim. De pouco me valeu que este tivesse feito tanto esforço a apregoar como “Descontrair a Mente” e, em vez disso, houve lugar a um turbilhão de ideias, por instantes sem controlo, quando seria suposto sentir alguma tranquilidade, por antecipação. Genuína e estranhamente, admiti que, em vez daquela jovem com atributos, nem me importaria que estivesse ali uma outra mulher, mesmo que quarenta anos mais velha, de corpo disforme, com peito muito grande e descaído, e até aceitaria que ela fosse uma rezingona mal-humorada, verrugosa, de cabelo desgrenhado e aspeto descuidado. Mas, não… tinha bem próximo uma jovem, dinâmica e confiante, e acreditava que esta iria fazer-me soltar. Com esta idade nunca, mas mesmo nunca, tinha passado por situação semelhante.

Perante o meu ar receoso, bem evidente, volta a dizer: – Incline-se para trás, abra mais um bocadinho as pernas e descontraia.

Ela foi de tal modo eficaz que em menos de três minutos, já com os preliminares incluídos, zás!... Estranhamente, acabou por ser muito rápido, entre um misto de uma ligeira dor e de um imenso alívio. Finalmente… a jovem enfermeira retirou-me a algália!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

VERDADE SEM CONSEQUÊNCIA

“- É proibido?
- É!
- E pode fazer-se?!
- Pode!
- E o que é que acontece?
- Nada!”

GABRIEL VILAS BOAS
Nunca se soube tanto sobre as feias entranhas do país como agora e nunca como agora se fez tão pouco para as estripar de um corpo muito acostumado à sua doença crónica.
Poucos portugueses ignoram os casos de corrupção na banca e na política; a pornográfica morosidade da justiça; as falhas de um sistema nacional de saúde exausto, onde até a humanidade já tem um preço.
Quase diariamente somos confrontados com mais uma notícia sobre uma vilania, um crime, uma imoralidade. Já nos tornámos emocionalmente imunes, especialmente porque nos sentimos impotentes para os reverter. Percebemos que as leis que nos regem são apenas lixo legislativo, laboriosamente fabricado para impedir criminosos de pagar as suas malfeitorias.
É provável que sempre tenha sido assim e que agora só tenhamos mais consciência disto ou que a pouca vergonha ande à solta. Discutir quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha, é só uma forma de esgotar energias e perpetuar um país feio, onde gente de bem não se revê.
Os portugueses não precisam de mais uma denúncia, mais um escândalo para vampirizar, mais um banco falido, mais uma morte num hospital central, por falta de meios humanos ou de medicamentos.
Os meus concidadãos precisam que cada profissional vá resolvendo a parte do problema que lhe cabe, com celeridade, ponderação, justiça e coragem.
Ao contrário do que possa parecer, acho que cada um de nós pode fazer algo para drenar o pântano. Podíamos começar por não fomentar discussões inúteis acerca de assuntos que não admitem duas interpretações e fazer a nossa parte na empresa, na família ou no café.
Quando a audiência da Casa dos Segredos descer ao nível do programa, “aquela coisa” acaba; quando deixarmos de votar em gente corrupta ou altamente suspeita de corrupção, o seu poder diminuirá e os pouco corajosos agentes da justiça tratarão de os acusar e julgar. Não aceitemos julgamentos televisivos, mas exijamos decisões rápidas nas verdadeiras Casas da Justiça. Portugal está muito necessitado de dirigentes que decidam, que invistam em quem quer desenvolver o seu trabalho com rentabilidade nas diversas áreas da economia.
Atualmente, poucas instituições internacionais acreditam na credibilidade do país. Não é do partido A ou B, mas de Portugal. Não tenhamos ilusões tontas. Claro que quem descredibilizou o país não foi o português anónimo, mas aqueles que governaram Portugal. Ora, foi o nosso não querer saber, o nosso “deixa andar”, que criou este estado parasitário que nos suga os ossos e afugenta os médicos. Não temos o direito nem credibilidade para aumentar 30 euros aos salários mais baixos da nação, porque os nossos geniais gestores bancários nos envergonharam em vários milhões de euros à hora.
Gostava de viver num país onde os atos tivessem sempre consequência. Os bons e os maus, porque, por vezes, pior do que decidir mal é não decidir.
Nos dias que correm, as peças de teatro não agonizam nas salas vazias de espetáculos. Ao fim de cinco/seis sessões, todo o público com vontade de ver determinada peça já a viu e a Companhia ruma a nova cidade ou parte para outro projeto.
A vida faz-se de ação e decisão. A vida não para, nós é que paramos! E parar é chamar a morte…

AS FAMOSAS TENDINITES

MARCELO PEREIRA
Muita gente já ouviu falar de tendinites . E agora será este o nome correto a aplicar ?

Muitas pessoas têm dúvida sobre tendinite e tendinopatia. Normalmente a pergunta mais frequente é se os dois são a mesma coisa. Vamos por partes. Os tendões do corpo humano são faixas de tecido conjuntivo compostas por colágeno em sua maior parte, com baixo suprimento sanguíneo e difícil cicatrização, que fazem a conexão entre os músculos e os ossos, responsáveis pelo movimento de nossos membros. A conexão tendão-osso recebe o nome de entésio, e as doenças que afetam esta região são denominadas de entesopatias.

O tendão é o componente principal do conjunto músculo-tendão-osso, sendo um tecido freqüentemente acometido por um grupo de sinais e sintomas que envolvem dor crônica (mais de três semanas) com piora progressiva, inchaço, aumento de espessura, redução da mobilidade, que melhora após o aquecimento, diminuição da força de impulso, calcificações e eventualmente ruptura tendínea. Esta síndrome é chamada de tendinopatia pela literatura médica atual, ao invés de “tendinite”, termo tradicionalmente utilizado de forma errônea na prática clínica para diagnosticar a dor crônica no tendão. 

O termo “tendinite” implica na formação de um processo inflamatório responsável pelo surgimento da dor, porém, as evidências do estudo microscópico e bioquímico do tendão apontam para a presença de uma lesão no corpo do tendão descrita como “tendinose”.

Não podemos excluir a ocorrência da inflamação durante os estágios iniciais desta doença, porém, a literatura atual reserva o termo “tendinite” para processos inflamatórios agudos envolvendo a bainha tendínea (membrana que envolve o tendão), enquanto que tendinopatia é o termo mais adequado para descrever quadros de dor crônica nos tendões, acompanhada dos sinais e sintomas já descritos anteriormente.

Principais causas -Todos os seres humanos começam a apresentar uma redução de elasticidade de seus tecidos a partir dos 25 anos de idade, porém, esta perda começa a se acentuar durante a quarta década de vida (31 a 40 anos). Vargas exageradas , má realização de movimentos articulares , sobrecarga , excesso de exercício entre outros . 

Diversos fatores são predisponentes a esta condição, incluindo os fatores intrínsecos (relacionados ao atleta) como alterações biomecânicas (ex.: pés cavos ou planos), desalinhamento e/ou discrepância do comprimento de membros inferiores, hipermobilidade articular e déficit de alongamento e/ou fortalecimento muscular. Os fatores extrínsecos (relacionados ao meio ambiente) envolvem erros de treinamento (aumento indevido de volume, frequência, intensidade), deficiências técnicas, uso de tênis inadequado e superfície desfavorável para a corrida. 

O diagnóstico das tendinopatias é fundamentalmente clínico, pois os exames de imagem podem detectar alterações anatômicas proporcionais às suas condições técnicas, mas que muitas vezes apresentam apenas limitada correlação com o quadro clínico do paciente. 

O tratamento poderá ser a fisioterapia convencional que toda gente conhece . No que diz respeito à fisioterapia moderna existem técnicas mais eficientes recentemente utilizadas por um grupo pequeno de fisioterapeutas como terapias por ondas de choque , eletrólise Percutánea , diatermia , fatores de crescimento e aplicação de substâncias homeopáticas.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

DESALENTO*

Salvar a vida, até onde é possível, mesmo à custa da morte. É o acto do suicida.
Vergílio Ferreira (escritor)


DR CARLOS MOURA
ANABELA BORGES
Vestiste o teu melhor fato. É sempre bom estar preparado, nunca se sabemos quem nos espera.
(o leito do moribundo; o fato do defunto)

O que buscas?
Que silêncios te perseguem nas vozes insanas que te enchem a cabeça?

A vida é aquele lugar desamparado, sem tábua onde deitares a mão.

Que solidões te atormentam, no sentires que estás sozinho no meio de gente que não te entende?
Que mágoas buscas arrancar ao álcool, abafar o grito, os soluços, as palavras amargas?
Que esperanças te abandonaram no caminho que percorrias de pedregulhos assassinos?
Que dores te confundem a ideia e te levam ao delírio de pensar em não pensar em nada, enquanto pensas em mil coisas?
Que seres te rodeiam, que não te vêem as mãos desertas e os olhos baços a buscar libertação?

O mar é esse incessante vai-vém de dunas e veios e vazas – que tudo altera e transforma – e águas profundas.
É silêncio e voz, solidão, mágoa e apaziguamento, esperança, caminho, dor, deserto, libertação.

O mar é vida.
Contempla-o e volta para casa.
Alguém há-de precisar de ti.

 ANABELA BORGES
*Este texto foi escrito em resposta a estas duas fotografias reais (não encenadas), que me enviou o fotógrafo Carlos Moura, depois de as registar, perturbado. Nesse dia, conversou com o senhor que, naquela hora, recuou nas suas intenções e abandonou o local. Talvez o Carlos Moura tenha salvado a vida àquele homem. Quem vai saber? Mas ficou claramente impressionado pela força e o poder da morte numa hora má. Ninguém está livre de uma hora assim.  

LUTA PATERNAL

CATARINA PINTO
Não dá para ocultar as notícias que nos tem acompanhado em especial nestes dias… Infelizmente culminaram algumas com um triste desfecho para ambas as partes. Neste história (e isto sem olhar a mais antecedentes ou motivos) apagando tudo o que está a volta, em redor, os únicos punidos de verdade são os filhos que não têm culpa nenhuma do destino ou capricho de seus pais. Penso que como progenitores devemos cuidar dos nossos filhos, inclusive de nós mesmos, é uma grande tarefa e por vezes colossal de mais para alguns. “O processo de regulação do poder paternal tem por objeto decidir do destino dos filhos, fixar os alimentos a estes devidos, forma da respetiva prestação e ainda fixar o regime de visitas no tocante ao progenitor que não tem a seu cargo as crianças – artigo 1905º do Código Civil. É por esta alínea que tantas lutas inundam os nossos tribunais de menores, é por esta alínea que tanta maldade se comete… até onde estamos dispostos a ir quando é necessário a regulação de poder paternal? A verdade é que só quem passa por esta situação sabe bem de que se trata… não é fácil negociar sem magoar mas o fundamental é respeitar sobre o meu ponto de vista a integridade física. Por vezes se ultrapassa os limites do que é bom senso e depois temos tantos exemplos como o tão presente da semana passada e que ainda não sabemos o certo ou errado mas sim de quem perdeu a vida. Temos os dois elementos mediáticos que preenchem as folhas das revistas cor-de-rosa e uma suposta quebra de ética, de tudo ao deixar as palavras de um filho menor que tem muito que decidir sem no fundo querer decidir mas sim querer viver. Temos ainda o caso de duas menores que foram tiradas a mãe e foram para casa do pai acusado de violência domestica (com pulseira eletrónica) ……e um sem fim de notícias que vão preenchendo os jornais… Eu continuo a perguntar até quando e até onde nós adulto vamos chegar para tentar ferir e magoar o futuro, os nossos filhos? O que é certo e errado? A regulação parental tornou-se na luta parental onde todos perdem e ninguém ganha apenas ficam danos irreparáveis para ambos.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

I OFERTA BIRD MAGAZINE NO FACEBOOK:

Caros leitores, porque a BIRD Magazine gosta de mimar os seus seguidores, aí vem um novo desafio! Gostava de receber o primeiro livro, oferta BIRD Magazine?

Qual? Nada mais, nada menos, que o primeiro romance do novo cronista das quartas-feiras, Jorge Madureira, Toma Conta de Mim, da Chiado Editora, que vai já na sua 2.ª Edição.

Como fazer para, de forma totalmente gratuita, receber esta oferta em sua casa?
1.º Passo: Ter feito ou vir a fazer “like” na página do facebook da BIRD Magazine;
2.º Passo: Convidar o maior número de amigos a fazê-lo e juntar-se a nós/vós;
3.º Passo: Estar atento ao número de “likes”. Ao ver atingir os 3500 gostos na página, deverá enviar mensagem privada para a BIRD Magazine, via facebook, a dizer: “Quero o livro do Jorge Madureira, Toma Conta de Mim”. A primeira pessoa a fazê-lo receberá em sua casa esta obra, sem qualquer custo.
No dia dos 3500 “likes”, será feito um “print” a todas as entradas de mensagens, evitando assim qualquer irregularidade.

Sinopse de Toma Conta de Mim:

Quando pela primeira vez desfrutaram da tarde de amor naquele local paradisíaco, Pedro e Margarida sentiram-se invadidos pela força inequívoca de um amor que nasceu muito forte. Sentiam que o futuro era deles, ganhava forma e sentido nos seus corações. Desfrutaram da beleza do local e sentiam que a vida era bela. Mas depressa iriam presenciar a realidade e com ela uma série de acontecimentos que os faria testemunhar a dureza brutal da vida.
A longa separação durante a faculdade - Pedro no Porto, Margarida em Lisboa e oposição dos pais dela - obrigaram-na a sentir um peso imenso da saudade e induziram Margarida a tomar a decisão de assumir o seu amor por Pedro, mesmo com o impedimento dos pais.
Pedro foi incentivado por Margarida para resgatar o seu amigo de sempre, Carlos, que era a grande paixão de sua irmã, Leonor e que enveredou por caminhos tumultuosos da droga e se encontra "prisioneiro" dela. Mas Pedro e Margarida receberão a mais amarga das notícias, aquela que ditará os seus futuros de uma forma irrevogável. Por mais dolorosa que seja, tem que ser encarada. Esse acontecimento, leva Margarida a fazer um pedido à sua amiga Isabel de quem é revelado um segredo guardado durante muitos anos.
Quando o amor é genuíno a escolha é sempre acertada, sabemos o que significa amar verdadeiramente alguém…


Participe! BIRD Magazine – o pouso das palavras, o voo das opiniões.

O PAPEL DOS PAIS NO DESPORTO

ALINA SOUSA VAZ
A minha relação com o desporto começou cedo, lembro ainda na primária vestir um fato de ginástica que aos meus olhos de menina mais parecia um fato de banho com mangas. Era lindo e os dias dos saraus eram dias importantes! Mais tarde, já quase no final do 3º ciclo, captaram-me para jogar voleibol e apesar de a estatura não ser das mais altas, o espírito competitivo da equipa em que estava inserida manteve-me naquele desporto durante dez anos da minha vida. 

Qualquer treva que percorresse a mente de uma atleta adolescente ou a angústia feroz de uma estudante na época de frequências ou exames eram combatidas no pavilhão desportivo. O melhor medicamento era, sem dúvida, praticar desporto (três vezes por semana)!

Durante este percurso os pais apenas davam o “ar da sua graça” nos dias de jogos. As cornetas e os burburinhos gritantes eram peculiares e a claque fazia-se ouvir, porque afinal, nalgumas situações, “quem não se sente não é filho de boa gente”! Tudo fazia parte da festa de uma competição.

Hoje, como mãe, continuo a olhar o desporto com a mesma carga afetiva, pois mais que uma prática física que faz bem à saúde é, sem dúvida, cá em casa, um estilo de vida. Mas há algo que me move no desporto: - a competição com tudo o que ela implica! Sublinho que ser competitivo não é querer ser melhor do que o outro, mas querer ultrapassar todas as dificuldades individuais.

Aos rapazes ensino que fazer desporto competitivo é difícil. Além da apetência física, o rigor no treino, a assiduidade, os objetivos e o prazer têm que estar presentes sempre na mente de um desportista. A força mental é que faz um bom atleta… porque ser campeão, para além de tudo isto, é necessário outros fatores… aliado ao fator sorte. 

Atualmente, os pais estão cada vez mais presentes na vida desportiva dos filhos, mas uma das primeiras questões que vale a pena refletir prende-se exatamente com a função dos pais no desporto. Qual será o nível de envolvimento desejável por parte dos pais na atividade desportiva dos seus filhos? 

Os tempos modernos obrigam investigadores da área do desporto a discutirem esta questão; a pressão parental e o receio por parte dos atletas acerca das avaliações negativas, tanto de pais como treinadores, constitui uma das suas principais fontes de pressão e é um dos problemas que mais lhes geram ansiedade antes de iniciarem uma determinada competição; outro fator relaciona-se com o investimento familiar levando o jovem a sentir-se cada vez mais saturado ficando prisioneiro no papel de atleta, podendo esta situação levar posteriormente ao abandono da prática desportiva. 

No entanto, também há estudos que afirmam que quando os pais não exercem demasiada pressão os atletas demonstram maiores níveis de rendimento, divertimento e maiores níveis de autoestima na atividade desportiva. A relação positiva estabelecida entre o jovem e pais é que, muitas vezes, determina a experiência desportiva do atleta. Assim, a atitude certa dos pais será aquela que passará pela expetativa mais realista sobre o rendimento desportivo, que encoraja e apoia o esforço demonstrado pelos filhos enquanto atletas, e que raramente responde com avaliações negativas quando acontecem prestações desportivas menos boas. Os pais que apenas têm uma visão centrada nos seus filhos sem entenderem que, biológica e psicologicamente, as crianças são distintas e logo, existem ritmos de aprendizagens e maturação diferentes, aqueles que procuram nos filhos o sucesso que nunca experimentaram, os que alimentam expectativas exageradas quando surgem bons resultados nunca contribuirão para o prazer da prática desportiva dos filhos.

FILHOS DA SEPARAÇÃO

JORGE MADUREIRA 
Uma temática que me causa alguma curiosidade e análise.

Como vivem os filhos de pais separados?

Como evitar traumas, e evitar que prejudiquem os filhos? Não me parece que (muitas das vezes) a separação dos pais seja traumatizante para os filhos. Acho (mesmo) que as crianças têm um desenvolvimento perfeitamente normal e bem saudável, preparando-se mesmo para em adultos serem mais flexíveis e com outra abertura. Mas tudo depende (sempre) da maturidade dos pais, e da forma como gerem o divórcio.

Nunca devem utilizar as crianças como “arma de arremesso “. Não devem existir conflitos por resolver, não devem existir agressões verbais, etc. Nunca fazer chantagem emocional com as crianças e ou nunca dizer mal do outro.

Apesar de a cada dia se tornar mais comum, o divórcio do casal é sempre um processo doloroso para todas as partes. Mas penso que o que destabiliza o estado emocional dos filhos não é tanto a separação, mas sim, como a mesma é gerida e vivida.

Tudo muda em todos. Mas pode ser mais ou menos minimizado e mais ou menos ultrapassável dependendo sempre das circunstâncias, e da maturidade do casal e dos filhos…

Quanto menos anos tiver a criança, mais dificuldades terá e mais perguntas apresentará do porquê da separação dos pais.

Uma criança até aos seis anos assim que toma conhecimento da separação dos pais, o mais provável é que na cabeça dela surgirá uma grande confusão, pois a mesma ainda não entende. Cresceu a ver os pais juntos e poderá entrar num processo de negação e que a situação se altere. O normal será reclamar da ausência de um deles. Normal também será que peça para morarem juntos novamente. O processo de separação terá que ser gerido nesta fase. Tem que ser em conjunto a fazerem todos os esforços para que a criança entenda e que o que estão a fazer é mesmo necessário.

Depois dos seis anos e até por volta dos dez, tem tendência aparecer sentimentos de rejeição, e até aquelas fantasias de reconciliação.

Pode surgir aqui aqueles momentos de raiva, tristeza e nostalgia por um deles ter ido embora. Como sempre, nada aconselhável haver conflitualidade na separação. É nesta fase que muitas crianças ganham a responsabilidade de olhar pelos irmãos mais novos, sendo uma responsabilidade pesada e desaconselhável para tão tenra idade.

A fase dos dez aos treze anos pode surgir sentimentos de vergonha do comportamento dos pais e incompreensão pelo sucedido. Aqui muita atenção para não surgir descontrole dos hábitos.

Chegados à adolescência também pode ser complicado.

Pode surgir um amadurecimento precoce e querer substituir o pai.

O que pode levar a não cumprir normas nem acatar ordens. Estar atentos com álcool, drogas, etc.

Cada caso é um caso. A diversidade das experiências vividas pelos filhos depois da separação dos pais, também pode ser positivo. Por vezes superam a crise familiar, saindo bastante fortalecidos e maduros tanto ou mais que os filhos que pertencem a famílias em que não existe separação.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

"NOS MEUS CARNAVAIS NÃO NOS DESPÍAMOS"

[CAR.NA.VAL]
(de carnelevare, retirar a carne)

ANABELA BORGES
Gosto do Carnaval. Gosto mesmo muito do Carnaval. Desde pequena. Sempre gostei, sempre me diverti muito nesta festividade, fizesse chuva ou sol.

Hoje-em-dia, nem sempre é fácil as pessoas desfrutarem do Carnaval porque colocam expectativas demasiado elevadas nas festividades que pretendem apresentar. E não é fácil porque as pessoas esquecem-se sempre de um detalhe; é apenas um detalhe, mas faz toda a diferença: o clima. 

As pessoas preparam carros alegóricos que facilmente derretem com a chuva; as pessoas tiram as roupas do corpo, pensando que estão em ambiente tropical, e querem sambar. É um desatino!

Hoje-em-dia, há anos que não saio para me divertir no Carnaval. Estou a perder-lhe o espírito, estou a ir na onda de deixar que as pessoas, as ideias de clima tropical, de despir em vez de vestir – estou a deixar que isso me deixe cheia de desgosto e que comece a ficar indiferente ao Carnaval. E assim passo a contribuir para o grosso de gente que, lentamente, desfigura o Carnaval português, o transfigura e o distancia das suas raízes. 

Sim, porque nos meus carnavais não nos despíamos – isso era impensável – porque, valha-nos Deus, está frio! Nos meus carnavais vestíamos camadas de roupa e usávamos guarda-chuvas.

Nos meus carnavais fazíamos bailes muito divertidos. Eramos os mascaréus, nem nos reconhecíamos, e isso era muito divertido, porque fazia rir gargalhadas loucas e puras. 

E nunca ninguém nos disse “este ano não podereis brincar ao Carnaval, porque não tendes roupas adequadas”. 

Tenho saudades de me divertir como nesses carnavais. Já não se fazem carnavais assim. 

Os meus carnavais eram um “retirar a carne” da rotina, do quotidiano – creio que deve ser isso o Carnaval – era espantar os demónios do corpo, nessa oportunidade única.

OS ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO E OS DILEMAS MORAIS

REGINA SARDOEIRA
Os dilemas morais são, sem dúvida, uma prova de fogo para o nosso discernimento humano. Constituem momentos, quantas vezes decisivos, em que somos compelidos a agir, fazendo opções, cujos efeitos desconhecemos em absoluto, dado envolverem o futuro, do qual não temos percepção. 

Em Julho de 2015 ofereceram-me um pequeno animal - uma gatinha siamesa, de três meses, que havia sido adoptada por uma outra gata, que não a mãe, que a amamentou e cuidou. Eu tinha perdido, alguns meses antes, o meu gato "bobtail", depois de dezasseis anos e meio de amizade e relutei em trazer para casa outro felino. Disse à minha amiga: "Vou aí ver a gatinha. Se ela me tocar a sensibilidade, fico com ela." 

E uma tarde fui a Tabuado (Marco de Canaveses), segurei nas mãos o pequeno corpo sedoso, vi o fulgor, um pouco temeroso, dos seus extraordinários olhos azuis e soube que traria comigo a Nini. Assim lhe chamara a dona que ma entregou; mas eu já tinha decidido dar-lhe o nome de Mia e assim a registei, alguns dias depois.
Afeiçoei-me profundamente à gatinha Mia e percebi que o lugar do imponente "bobtail", meu amigo felino de muitos anos, cuja doença e morte vivi confrangida, nunca seria preenchido pela presença e personalidade deste outro animal, em tudo distinto. 

Passaram alguns meses. E um dia percebo, no pequeno animal do sexo feminino, os inequívocos sinais do primeiro episódio de cio! Oiço-lhe os miados pungentes, vejo-a a andar rente ao chão, com a parte traseira do corpo erguida e a cauda posta de lado, tento afagá -la e ela toda se enrola oferecendo o corpo às carícias...sinto que o meu animal sofre, que não sabe porque sofre, mas não pode escapar à sua condição de animal, mesmo não conhecendo conscientemente as razões e o modo de apaziguar as sensações. 

O meu dilema começou aqui. E agora, que faço eu à Mia? Permito-lhe que acasale em tão tenra idade, abrindo-lhe a porta de casa e entregando-a aos caprichos ou às necessidades dos machos? E depois aceito a inevitável gravidez e as crias? E quando for altura, de novo, e a ninhada estiver madura, deixo-a, uma vez mais e outra ainda, encontrar companheiro e trazer novas crias? 

Não consegui tomar semelhante decisão, a crise da Mia passou e só vim a reflectir, de novo, sobre o caso
GATA MIA
quando, algumas semanas mais tarde, outro episódio de cio veio abater-se sobre o animal. 
A minha vontade seria trazer-lhe um gato, vários gatos, e permitir-lhe a realização normal e integral do seu impulso instintivo. Mas funcionaria, desse modo, a natureza profunda da minha pequena Mia, sujeita à inexorabilidade da sua condição? 

A segunda crise passou, e consultei a veterinária que lhe tinha prestado os primeiros cuidados acerca da atitude a tomar para apaziguar ou resolver os episódios cíclicos da necessidade de reprodução da minha pequena companheira. Ela não teve dúvidas quanto à solução mais eficaz e cómoda para ambas as partes: submeter o animal a uma intervenção cirúrgica, pela qual os órgãos reprodutores lhe seriam extraídos, tornando-a estéril e acabando, de vez, com as angustiantes e nunca resolvidas crises de cio. 

Fui deste modo posta perante um dilema muito mais radical. Deverei permitir a mutilação sexual da minha gatinha? E por que razão insisto em chamar-lhe "minha" como se ela fosse uma coisa, um objecto? 

Nenhuma razão, do foro médico, do meu interesse ou do interesse da Mia, foi capaz de calar o meu profundo e absoluto repúdio por esse tratamento cirúrgico invasivo. Detive-me a imaginar o tamanho minúsculo do útero e dos ovários do pequeno animal e a crueldade de consentir na sua ablação; contemplei o pequeno corpo e o brilho dos seus olhos azuis, senti a confiança com que ela se encostava a mim, procurando o abrigo do meu colo e a calidez das minhas carícias. 

Incapaz de resolver o dilema múltiplo, sabendo que novos episódios de cio nasceriam, para gerar o desconforto dela e a minha absoluta incapacidade de o resolver, marquei a operação; e, completamente desconcertada, num enorme conflito comigo mesma, submeti-a à esterilização cirúrgica, no passado dia 28 de Janeiro. 

Neste dia em que escrevo, trato-lhe ainda das sequelas da intervenção, dou-lhe antibióticos e anti-inflamatórios, vejo-a, perturbada, com os movimentos manietados e a cabeça presa num estranho turbante, tipo abat-jour - o colar elisabeteano -, o desespero com que tenta inutilmente, lavar-se ou coçar -se; e conto os dias - ainda faltam quatro - para que a Mia possa ser libertada e restituída à sua condição normal. Mas logo que escrevo esta palavra "normal" sou assaltada pela dúvida e presa do incómodo. Terei comigo, de novo, a Mia de antes, ou a excisão radical do seu "ser uma fêmea felina" trará modificações comportamentais e de personalidade irreversíveis? 

Dir-me-ão que procedi acertadamente e que assim é melhor para todos. Mas eu continuo a sentir que nenhum direito me foi dado, por nenhum código ético ou moral, capaz de justificar, ao nível mais profundo do meu discernimento, enquanto pessoa, a esterilização da minha gatinha Mia. 

Sei que ao trazê -la comigo, do ambiente campestre onde nasceu e viveu os primeiros três meses e onde poderia ter realizado a sua condição de fêmea, lhe impus esta nova natureza. Sei que a dona anterior da Mia - que era Nini - me quis presentear com esta oferta, sabendo que eu tinha perdido o meu gato e talvez desejasse preencher essa lacuna. Sei que, após várias hesitações, vim a render-me ao encanto da pequena criatura. Mas isso dar-me-á o direito de tomar decisões extremas, como esta, pela qual extingui nela o instinto reprodutivo e geracional? 

Parece uma questão fútil e menor, neste mundo humano de grandes problemáticas e intrincados dilemas existenciais. Sem dúvida, a veterinária que realizou a intervenção, habituada a tais procedimentos, como se de uma rotina profissional se tratasse, não terá perdido um minuto a hesitar, antes de pôr em acção o bisturi. Não a critico, obviamente. Como não a critiquei quando me sugeriu a eutanásia do meu "bobtail", apanhado nas malhas de uma enfermidade fatal. Não aceitei a eutanásia, deixei o gato morrer no meu colo e velei-o uma noite inteira até perceber que tinha soltado o último suspiro. Mas cedi no caso da Mia, escolhendo, sem poder perguntar -lhe qual era o seu desejo, truncar a sua capacidade reprodutiva. 

De modo nenhum considero esta minha angústia uma questão menor, quando vejo os três pontos cirúrgicos no ventre da Mia, quando tento minorar-lhe o desespero por estar manietada, presa numa armadura de plástico que lhe torce e distorce os movimentos. 

Há fome no mundo e guerra e genocídios? Há violências perpetradas, de humanos contra humanos, diariamente e por toda a parte? Há atritos e cisões entre pessoas e dificuldades económicas e doenças e todo um arsenal dramático de pessoas em choque? Devemos ocupar-nos prioritariamente destes e desvalorizar incidentes, tidos como menores, em que um minúsculo útero e uns ínfimos ovários foram extraídos de uma pequena fêmea, para que eu a possa conservar em casa, como minha companheira e amiga, anulando -lhe o instinto e o subsequente e periódico incómodo de um cio sem lenitivo? 

Creio firmemente que este problema é tão crucial como os restantes, já que radica, igualmente, nas linhas da nossa racionalidade. Trouxemos os animais para as nossas casas e chamamos-lhes "nossos"; moldámo-los à nossa existência, fazendo com que, uma vez domesticados, já não consigam sobreviver por sua conta e risco.

Esses animais, cães, gatos, peixes ou pássaros, herdaram de nós resquícios de humanidade, são, de uma certa forma, animais racionais, mesmo que teimemos em negar-lhes o pensamento, a consciência, a deliberação e a decisão. 

Apenas nesta perspectiva sou capaz de justificar a esterilização que achei dever autorizar no corpo da gata Mia: porque lhe outorgo a minha humanidade e assim posso suprir as lacunas que o seu nível actual de consciência e de pensamento não lograram atingir.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

SEGUNDA CARTA A UM SUPOSTO MESTRE DA PALAVRA POÉTICA

[Entre o Barreiro e o Terreiro do Paço, em Abril de 2009, numa viagem de barco, escrevi esta reflexão, no intuito de a enviar ao meu imaginário mestre, depois de ter lido, já nem sei de quem, um texto mais ou menos como este]

«Definir é circunscrever, é isolar, é limitar, e a área de uma palavra é extremamente vasta; como tal, incorrecto seria enclausurá-la nos muros cerrados de uma definição.» (sic)

ALVARO GIESTA
Meu caro Mestre,

Hoje vou falar-lhe, daquilo que eu entendo, dos dois fenómenos poéticos abaixo designados:

O primeiro - DA RELAÇÃO ENTRE OBJECTO E A PALAVRA COM QUE O POETA O NOMEIA -, mais me não resta do que dizer-lhe que defendo o jogo da palavra no uso duma poética do plurívoco. Isto é, sobre várias vertentes, podendo ter, mesmo, vários sentidos na sua interpretação. Contudo, que haja inteligibilidade na construção frásica e não seja carregada de nebulosidade, essa escrita.

Ou seja: o FAZER POÉTICO, nesta lógica do plurívoco, requer uma nova significação para a "coisa" que o poeta nomeia. Isto é, entre "objecto" e a "palavra" com que o poeta o nomeia, há uma nova relação que permite ao destinatário descobrir e revelar - na interpretação o objecto desliga-se da sua função de objecto e nomeia-se aos olhos do interlocutor pela leitura que a sua memória afectiva lhe permite, adquirindo novos sentidos: é a POÉTICA DO PLURÍVOCO - aquilo que foge ao unívoco e do unívoco.

Na poética do plurívoco, a palavra pode ter significado diferente daquele com que nomeia a coisa: é a ambiguidade de sentidos pela construção de um mundo poético amplo de imagens e metáforas, de assonâncias e dissonâncias encadeadas que, dando ao poema um tom de presságio e novo augúrio, permitem a estes dois polos da mesma realidade, AUTOR-LEITOR, fazer a interpretação e a exploração de visões significativas diferentes. E é salutar que assim seja.

É esta peculiaridade que transporta em si um carácter de novidade, que imprime ao texto o seu sentido e valor verdadeiramente literário. Nesta poética do plurívoco, utilizando uma linguagem que não é a da conversação, sequer a do discurso, oferecendo uma certa resistência de sentido ao texto, permite ao leitor que seja ele a decifrá-lo, que seja ele a recriar atribuindo outro sentido novo à palavra. A linguagem do plurívoco, no texto, permite ao leitor que seja ele a redescobri-lo, com a leitura que faz do mesmo, como nos diz a escritora Manuela Fonseca: «O bom leitor reinventa, recria o texto ou tenta fazê-lo, num intertexto infinito.»

Veja-se, da leitura deste poema de Herberto Helder (ELEGIA MÚLTIPLA (III) de A COLHER NA BOCA) quantas possibilidades não tem de redescobrir novas leituras, recriar interpretações? Muitas...

«Havia um homem que corria pelo orvalho dentro. / O orvalho da muita manhã. / Corria de noite, como no meio da alegria, / pelo orvalho parado da noite. / Luzia no orvalho. Levava uma flecha / pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado / loucamente / por um caçador de que nada se sabia. / E era pelo orvalho dentro. / Brilhava.»

Quanto ao segundo fenómeno poético - A APREENSÃO DE UM OBJECTO POR UMA RELAÇÃO DE INTERSUBJECTIVIDADE -, temos que partir do fenómeno fenomenológico para o compreender. Segundo Husserl, explorador da filosofia fenomenológica, «toda a consciência é consciência de alguma coisa». Ou seja, a todo o objeto (NOEMA) corresponde uma determinada modalidade de consciência (NOESIS).

Para os fenomenologistas, TODA A PALAVRA É SEMPRE AMBÍGUA: ela diz e não diz, sabe e não sabe, é e não é. Fica-se, a palavra, pelo momento da realidade, porque não é suficiente para a compreensão do fenómeno literário na sua totalidade.

Ora, o FAZER POÉTICO exige uma compreensão mais profunda, mais lata da palavra, da realidade, segundo um processo que una SENTIDO e FORMA. É necessária uma leitura hermenêutica, isto é, é necessário interpretar o sentido da coisa escrita em todas as suas formas, com uma abertura tal que permita abarcar totalmente as significações da obra literária. O homem, em constante comunicação, interroga-se e interroga a própria existência da palavra, e entende que dela deve ser feita uma abordagem sob uma perspectiva ontológica, interrogando-se sobre o ser em literatura.

O fenómeno poético não ajuíza, pois se situa aquém do conceito. Por isso mesmo transcende-o. Isto é, o fenómeno poético não afirma um conceito, nem o nega. Tanto a afirmação como a negação têm igual abertura para permitir múltiplas explorações do texto. É isto, no meu entender, que permite ao crítico exercer a sua função.

Atentamente, o seu pseudónimo
Alvaro Giesta

domingo, 7 de fevereiro de 2016

DE TORGA EM TORGA

MIGUEL GOMES
O frio agarra-se às pernas enquanto caminho, parece um noviço gato ronronando, de cauda levantada, com olhos amarelos e rasgados, atrasando-me os passos no seu movimento de infinito ao redor de cada perna. Desapegado do gato, que parece ter desistido de ronronar e me segue em passo apressado de gato, que mesmo apressado nunca é deveras rápido, vou caminhando e caminhado subindo e descendo pequenas e grandes pedras incrustadas no solo como se fossem grandes e preciosas gemas colocadas num anel que se oferecerá ao anelar dedo de uma amante, baixo a cabeça para ver curiosas formações de erva verde e galhos secos já mortos que o vento se encarregou de amontoar no vale em v fechado entre duas rombas e gordas pedras. 

Passo por um amontoado de gente que se acotovela e estica o pescoço, erguendo a cabeça e espreitando para a frente como se a vida fosse um livro semi aberto por onde todos queiram ver sem se preocuparem em ler. Contorno-as facilmente e, curiosamente, sem que me vissem passar por elas, deter-me por segundos, deixo-as para trás agarradas que estão ao temor de não se saberem ler ou escrever, um livro ou o próprio livro que são. O gato ficou para trás, ronronado por um petiz, subindo para as pernas fletidas do garoto e aninhando-se na mão quente e protectora que é o amor puro e irreflectido de uma criança.

O frio, o vento e agora esta morrinha que me obriga a tirar os óculos para não ser apenas uma face especada atrás de uma vidraça no Inverno, atrasam-me o passo dorido e fazem-me inevitavelmente parar ao fim de alguns momentos e outros tantos passos lentos, afogueado, com as mãos nas cruzes e a suplicar que no suplício carnal eu me veja miraculosamente livre do apoquentado mal. Olho para o lado e alguém está igualmente parado no caminho. Na esquina entre a dor e o desespero há sempre alguém à espera de contornar a vida com um joelho e dois braços fortes sobre os ombros parando a vida à entrada do peito. Reconheço-o e a medo solto um lauto bom dia e daquela face funda onde orbitam dois berlindes escuros sai apenas uma espécie de suspiro em forma de olhar, pede-me um joelho e dois braços fortes sobre os ombros, parando a vida à entrada do peito. Eu? Eu nem sei do que sou feito! Respondo. E ele, contrafeito, ouvindo alguém chamar ao fundo acima do vento pautado pelo mundo, Oh Ti’Alma Grande!, levanta-se, esconde o olhar, guarda o sorriso atrás do silêncio e desce os penedos como se tentasse libertar de um punhado de medos.

Refeito e rarefeito, começo a caminhar não sem antes ver duas crianças ao colo de uma outra, quase adolescente, descendo o emparedado pedaço de terra sulcado pela mão de quem não se sabe aluvião. Logo a seguir mais petizada corre embalada pela gravidade e a despreocupação de ainda não ser medida pela idade, de olhos esbugalhados, tezes distintas perfilhadas apenas pelos salgueiros ou dois corpos outrora em braseiros, entre fetos e abetos, narizes avermelhados e secos e longos fios de ranho agarrados à cara quase chegando ao limite em que a cara se agarra ao cabelo. Atrás, não muito, vem ventre prenhe de longa idade e de uma vida de afogueado receio, “não surja um que mos queira”, reza, enquanto com os braços amarra mais o bebé de encontro ao peito, lançando-me o olhar desprendido que por entre rugas busca ainda, na ignorância, a ausência que se fez infância.

As fragas ganham vida agora. Eu, que já nem vejo a hora, começo a ter dificuldades em caminhar, o céu escurece pelo dia que aí vem pintalgado de nuvens negras que imagino neve ser, pelo frio que me faz tremer. Ganho alento ao ver uma ermida minúscula erguida ali à face da estrada como se os milagres caminhassem de mão dada com o abandono e cansaço, quase como as letras que faço, e esperassem quem de caminhado se cansou e ali aos pés da santidade deixasse cair uma vida inteira vivida apenas pela metade. As pernas abrem-se, salvo seja, pelos passos que me obrigo dar, de metro em metro, até passar pelo demo, vade-retro!, e me deixar desiludir pelo que pensei ser o átrio abandonado de uma fé, afinal, onde pensei descansar, já lá gente que dá de si a pedir dos outros, envolto no frio para não deixar sair o calor, aquece as mãos ao rubor, daquilo que arde e daquilo que se vive, numa natividade que me emudece e faz pensar, jamais, conseguiremos unir uma santíssima trindade porque de santo e louco nem a nós deu a vida tão pouco, para poder sairmos arrepiados pelo destino a caminhar e antes de pedir, ter quem nos possa dar.

Percorro uns valentes metros, de distância e de peito feito, soluço e escondo umas poucas de lágrimas que me vidram a cara de encontro ao frio que neva já. Para trás os passos velhos de um velho que entre o destino e a chegada conseguiu encontrar uma morada, quente, entre o profano e o sagrado que o habita, vai soprando o vento de encontro à alma fechada, até encontrar uma frincha por onde corra e lhe chame o nome, Garrincha.

Já nada passa por mim, creio ter encontrado o meu percurso. Dizem-me que daqui, nem água mole em pedra dura, de tanto bater já nada se fura, vejo o teu corpo na neblina que parece emanar da terra, como se fosses erva rasteira forte e perene a agitar ao vento não pela fragilidade dos teus ramos face à intempérie, mas porque és tu, oh torga!, quem no vento comanda os destinos e sem temores a própria vida se abranda, como o mundo humildificado e ditoso se prostra ao entrar no que chamaste de maravilhoso.

Sento-me ao teu lado. 

Fazes-me sinal para olhar para baixo, mas eu não vejo o rio, daqui onde espreito há apenas flocos de frio. Sorris e colocas a mão no meu joelho. Dizes que isto, o joelho, deve ser apenas para tocar o chão em admiração, rimas e sorris, vergado à telúrica santidade do solo que nos faz ventres prenhes de humanidade.

Mestre, não sei o que hei-de escrever, confesso, após largos minutos contigo em silêncio meditado. Tu olhas-me com esse sorriso que brota de cada ruga que nunca sorriste numa crepuscular ausência de som, apoias as mãos na pedra, afastas-te de mim para te inclinares sobre o lado esquerdo e pousares a cabeça nas minhas pernas cansadas. 

Entre a flor e rocha deixo as mãos caírem no teu cabelo ralo. Sinto a aspereza da urze vergada ao peso das minúsculas flores e saboreio pela primeira vez a paisagem sem dores.

Olhas-me e como se não precisasse de candeias, fugindo de quem apaga as estrelas, fechas os olhos e, pela primeira vez, pelos cantos do mundo por onde escorre a vida, sem nascente, sem foz, escuto o borbulhar das palavras que me suspiraste a cada página e ouço, clara, a tua voz.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

ENTRE MARIDO E MULHER META A COLHER


ANTONIETA DIAS 
Num contexto de uma Família tradicional, não é previsível o aparecimento de atos de violência.

A união da Família implica afeto, dedicação, amor, ajuda, partilha, carinho, fraternidade, respeito, cumplicidade, amizade, lealdade, justiça e paz. 

Escusado será dizer que estas são as verdadeiras premissas que semeiam felicidade intrafamiliar.

Estes direitos sagrados da Família revelam o percurso natural dos sentimentos e afetos que se traduzem nos comportamentos normais sustentados e alicerçados pelo bem comum das pessoas que se amam e que decidiram construir um mundo real com um trajeto comum bem delineado e focalizado na livre decisão da constituição do Lar.

O investimento harmonioso dos laços existentes entre todos os elementos unidos pelo mesmo sangue e alicerçados pelos mesmos valores revelam a verdadeira cadeia de sentimentos comuns nas várias estruturas familiares, quer se trate de famílias nucleares, unitárias, alargadas ou reconstituídas.

Nada nem ninguém tem o direito de destruir o mais elementar elo de ligação entre todos os intervenientes que vivem numa comunidade familiar gerada e construída para sustentar todas as emoções vivenciadas entre as pessoas que se amam e respeitam, sendo por isso inaceitável que alguém viole ou adultere este conceito sagrado da Família.

Se pelo contrario encontramos situações aberrantes, relatadas ou presenciadas de casos de violência doméstica sentimos que as gerações e relações interpessoais, deixaram de ter sentido para as pessoas e enveredaram pelo caminho do crime, que destrói, que magoa, que gera sofrimento e pode até por termo à vida, transformando uma sociedade de Paz, numa batalha, com crime organizado, onde o agressor delineará todas as estratégias para destruir a vítima.

Constatamos assim com fatos dominados pela violência, traduzida por agressões diretas contra pessoas, manifestadas por violência física, psicológica (agressão verbal, ameaças, gestos, perseguições, abandono, negligencia) com o intuito de destruir a vítima, provocando – lhe danos materiais ou morais. 

Importa ainda referir que a violência socioeconómica envolve o controlo da vida social da vítima e da destruição dos seus recursos económicos.

Os comportamentos desviantes dos agressores focalizam-se num ou vários elementos do agregado familiar (esposa, marido, filhos, pais, irmãos, parentes mais próximos ou mais distantes), para os despersonalizar, destruir e matar.

Estes conflitos exprimem situações de “violência conjugal”, “violência interrelacional” e “violência intrafamiliar”, causando á vitima dano físico, sexual, psicológico, social e económico.

A tipologia do crime pode ser mais ou menos sofisticada, mas será sempre uma transgressão onde o poder de um crime arquitetado e organizado irá atingir a vítima que na maior parte dos casos precisará de proteção, acolhimento e institucionalização.

Embora exista uma percentagem elevada de casos de violência domestica associados ao consumo de álcool e droga não deixa de ser menos penalizada.

Também não são as classes de recursos económicos mais baixos onde se geram mais casos de violência doméstica, tudo aponta para uma diferenciação mais sofisticada do crime por parte das classes economicamente mais abastadas.

Segundo a APAV, “a violência doméstica abarca comportamentos utilizados num relacionamento, por uma das partes, sobretudo para controlar a outra.

As pessoas envolvidas podem ser casadas ou não, ser do mesmo sexo ou não, viver juntas, separadas ou namorar.

Todas podemos ser vítimas de violência doméstica. 

As vítimas podem ser ricas ou pobres, de qualquer idade, sexo, religião, cultura, grupo étnico, orientação sexual, formação, formação ou estado civil.”

Para a APAV o Crime de Violência Doméstica deve abranger todos os atos que sejam crime e que sejam praticadas neste âmbito.

Qualquer ação ou omissão de natureza criminal, entre pessoas que residam no mesmo espaço doméstico ou, não residindo, sejam ex-cônjuges, Ex companheiro/a, ex-namorado/a, progenitor de descendente comum, ascendente ou descendente, e que inflija sofrimentos: físicos, sexuais, psicológicos, económicos serão punidos por lei.

Tendo em conta os riscos vivenciados pelas vítimas em muitas delas vivem isoladas, fechadas, aterradas, há que ser mais céleres na investigação e na decisão judicial.

Em suma, a violência doméstica é um flagelo social, que continua a crescer deixando muitas vezes as vítimas em situação de perigo permanente completamente desprotegidas e abandonadas á mercê dos agressores.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

IMPOSTO DE PRIMEIRA NECESSIDADE

GABRIEL VILAS BOAS
Não foi preciso esperar muito tempo para perceber que o atual ministro das finanças português é um homem impreparado para o cargo. O projeto de Orçamento de Estado, que Mário Centeno apresentou em Bruxelas, é um documento mal-amanhado, sem consistência nem grande lógica interna. 

Nas últimas semanas, o primeiro-ministro António Costa tem usado toda a sua técnica de trapezista sem rede para passar o projeto de Conta Geral do Estado em Bruxelas, verdadeira Assembleia da República, mas onde os portugueses não têm direito a voto. O que sairá de lá nas próximas horas é, na melhor das hipóteses, um documento com muitos pensos rápidos de primeiros-socorros e carregado de nuvens de desconfiança. E com razão. A proposta de Centeno é má na forma e no conteúdo.

Foco a minha atenção num dos elementos essenciais da captação de receitas: o imposto sobre os produtos petrolíferos. Ao contrário do que alguns analistas de direita dizem, são uma receita certa. Os consumidores nem sentirão muito mais um agravamento desse imposto, porque o petróleo nunca atingiu um preço tão baixo e os portugueses já adaptaram o bolso e o espírito aos preços acima de um euro. 

Há dias, vários jornais diários publicaram uma interessante infografia sobre a estrutura do preço do litro da gasolina e do gasóleo em Portugal. Uma leitura fácil permitia concluir que o preço do gasóleo, sem impostos nem custos e lucros das petrolíferas, andaria pelos 22 cêntimos, enquanto a gasolina ficaria pelos 30 cêntimos. Ficámos todos a saber que o transporte, armazenamento e comercialização apenas acrescenta 15% do preço final por litro de cada um dos combustíveis. O estado português arrecada, portanto, entre 50% a 70% do valor final de cada litro de gasóleo ou gasolina. 

O atual nível do imposto sobre os produtos petrolíferos é descaradamente obsceno. Está ao nível do imposto sobre o tabaco (cuja justificação é, como todos nós sabemos, o facto de ser um vício altamente nocivo à saúde) e num patamar muito superior ao aplicado às bebidas alcoólicas ou produtos de luxo. O imposto sobre o gasóleo ou a gasolina quase triplica o IVA máximo aplicado, que já está nuns impossíveis 23%. Estou em crer que, se um dia, a canábis fosse legalizada seria taxada com um imposto menor. 

E por que acontece tal destempero? O imposto sobre os combustíveis é um valor seguro na receita de qualquer orçamento. Somos obrigados a usar os transportes na nossa atividade diária e económica. Os combustíveis são um consumo obrigatório e dinheiro em caixa para o fisco. 

Arrecadar impostos sobre os combustíveis qualquer criança consegue, mas não é assim que se estimula a economia. Quando a evolução tecnológica começa a pôr os carros movidos a energias alternativas a rolar nas estradas do país, encostando a oligarquia da OPEP à parede, Mário Centeno aproveitou a onda para capitalizar… impostos. Que burrice! 

A altura era propícia para oxigenar as pequenas e médias empresas, fazendo-as baixar os custos dos transportes dos seus bens e serviços, de maneira a que o dinheiro disponibilizado por essa baixa encorajasse alguns empresários a investir no emprego, requalificação ou reequipamento das empresas. 

António Costa disse que o crescimento da economia nacional se faria através do aumento do consumo, num conceito muito criticado, mas defensável. Mário Centeno resolveu contrariar, na prática, o seu chefe, ao projetar uma caricatura de orçamento, onde se propõe “pagar” as justas medidas de reposição parcial dos rendimentos através do aumento dos impostos sobre os derivados do petróleo. Em Centeno não há centelha de génio, mas apenas uma requentada, estafada e improdutiva receita que nos faz perder mais uma pequena oportunidade.

O imposto sobre os combustíveis é um imposto de enorme obscenidade a que se agarram os políticos impreparados para resolver as suas primeiras necessidades de sobrevivência.