segunda-feira, 26 de setembro de 2016

AS FRONTEIRAS ENTRE A PROSA E A POESIA: O VERSO LIVRE


«Perguntando ao poema pelo ser da poesia, não confundimos arbitrariamente poesia e poema? Já Aristóteles dizia que "nada há de comum, excepto a métrica, entre Homero e Empédocles; e por isso com justiça se chama de poeta o primeiro e de filósofo o segundo". E assim é: nem todo o poema - ou, para sermos exactos, nem toda a obra construída sob as leis da métrica - contém poesia. (...)
Um soneto não é um poema mas uma forma literária, excepto quando esse mecanismo retórico - estrofes, metros e rimas - foi tocado pela poesia. Há máquinas de rimar mas não de poetizar. Por outro lado, há poesia sem poemas; paisagens, pessoas e factos podem ser poéticos: são poesia sem ser poemas. (...)
O poético é poesia em estado amorfo; o poema é criação, poesia que se ergue. Só no poema a poesia se recolhe e se revela plenamente. (...) o poema não é uma forma literária, mas o lugar de encontro entre a poesia e o homem.»

Octávio Paz in O ARCO E A LIRA


ALVARO GIESTA
___________O texto, infra, que é longo e do qual aqui pretendo deixar, para já, apenas a introdução, como crónica, não pretende ser ensaio; é, antes de qualquer classificação que se lhe queira apor, o resultado, em palavras escritas, duma profunda reflexão minha após a leitura, atenta e especulativa, de obras críticas de outros autores sobre as quais em estudo me debruço, dia a dia, no tempo que me sobra livre. Mais especulativa, ainda, e com a acidez crítica que me é própria, se me afigura a necessidades de tal reflexão, a publicar, depois da leitura que, quase diariamente, faço de uma multiplicidade de textos publicados nas redes sociais e em livros editados por pequenas editoras de ocasião, que a todo o custo querem ser designados de poesia pelos seus autores que, seguramente, depois da observação atenta a esses versos, concluo que nunca leram os grandes mestres do séc. XX que sobre a poética se debruçaram. ___________


INTRODUÇÃO

A fronteira entre a prosa e a poesia, perde a sua rigidez após o modernismo que alargou as possibilidades a outras vias de pensamento na definição da prosa e do verso; problematizou as normas literárias até aí em uso abrindo horizontes a novas formas de interpretar o poético. É Octávio Paz, crítico literário e poeta chileno quem, na sua famosa obra "O Arco e a Lira" discute a questão relacional entre prosa e verso, exemplificando e concluindo que «a poesia moderna da nossa língua (refere-se à Espanhola, estendida, como as evidências vêm a demonstrar, à Portuguesa - com Pessoa a dar o arranque) é mais um exemplo das relações entre prosa e verso, ritmo e metro». (pg 117, O Arco e a Lira). Já Ramon Gómez de La Sernap (que não é um poeta em verso, mas em prosa) rompera com a poesia anterior, sendo o primeiro a realizar a fusão entre linguagem falada e a imagem.

E Paz, quando reflecte sobre a linguagem e a sua relação intrínseca com o ritmo, afirma que este não é exclusividade da poesia. E o ritmo não é, efectivamente, exclusivo da poesia porque em toda a linguagem verbal há ritmo. Estará, até, mais próxima da poesia a linguagem verbal que a própria prosa: a prosa a que aqui me refiro, que será tratada mais adiante em capítulo específico, é a forma mais alta dos prosadores - o discurso, no sentido estrito do termo; o texto escrito, já que «não se fala a prosa: escreve-se» (Alfonso Reyes), é onde «as palavras aspiram a constituir-se em significado unívoco» (Paz, pg. 25). Porém, o ritmo da poesia é diferente, e único, é singular porque está articulado com o essencial do significado que a poesia deve ter sempre: a imagem. Porque, como nos diz Paz (pg. 118) «ritmo e imagem são inseparáveis» na construção do poema. Seja ele rimado ou branco, seja ele metrificado ou (verso) livre. A linguagem verbal tem limites; mas, quando damos à palavra o sentido que ela oculta, atribuímos-lhe o valor poético que a palavra tem: é o essencial da sua significação - a imagem; aliando-a ao ritmo temos o poema que vai de encontro à poesia. Drummond dizia que «sob a pele do poema há cifras e códigos» que se articulam entre o ritmo e a imagem. Cada código na natureza, seja objeto ou pessoa, seja animal ou planta, tem seu próprio ritmo. Para o poeta, o ritmo, aliado à imagem, é o pulsar do sangue que circula nas veias do poema. É movimento; é emoção; é vida. Tal como para o artista, das mais variadas expressões de arte, o ritmo expressa movimento. «A poesia é a emoção expressa em ritmo através do pensamento, como a música é essa mesma expressão, mas directa, sem o intermédio da ideia». (Fernando Pessoa)

A imagem, no verso, separa realidades e cabe ao leitor interpretá-las quando o poema deixa de pertencer ao poeta. O poema deixa de ser seu quando o dá à luz. É nesta dialéctica de pluralidade de significados da imagem que o leitor chega ao sentido ambíguo e paradoxal que a imagem poética tem no verso: «O sentido da imagem é a própria imagem (...) nada pode dizer o que (ela) quer dizer» (Paz, pg. 130). Paz procura provar que «um poema não tem mais sentido que as suas imagens» (Paz, pg. 133) e, tal como o sentido da imagem é a própria imagem, «o sentido do poema é o próprio poema» (Paz, pg. 134), garantindo ao poema uma certa autonomia naquilo que expressa, dando-lhe uma certa forma de metalinguagem.

Desmaterializando-se a imagem - como em Ángel Crespo -, o verso tem uma linguagem abstracta levando-nos a um metarrealismo quando os signos se elevam a um nível superior dentro do poema. Nesta itinerância o poeta transcende a própria realidade, transcendendo-se enquanto ser-poeta, conferindo ao poema na palavra-imagem-ritmo que o integra o saber de um "não-poema". É o saber mais profundo do poético nestas formulações contraditórias e ambíguas que compete ao leitor desmistificar - e cada um, e a cada um, a e na sua forma de interpretação. Cabe, contudo, ao poeta, estabelecer no poema, com a imagem, um movimento suspensivo que oscile - e faça o leitor oscilar e questionar, questionando-se - entre o abismo do saber e do não-saber. Porque, se todo o poema é um "não-poema" sê-lo-á, nesta medida, um "não-saber": um ficar suspensivo na interpretação pela ambiguidade que o poema, não o sendo pela força do significado da palavra mas, sendo-o, pela não-significação que lhe atribui a imagem (à mesma palavra) na especulação contraditória do leitor. Por alguma razão Ángel Crespo nos diz: «Se sabes perfeitamente o que estás dizendo, não continues o poema: rasga-o».

Aqui cabe realçar a diferença e a semelhança entre Paz e Ángel: o primeiro diz que «o poema não nasce do nada»; e que «um poema não tem mais sentido que as suas imagens» (Paz, pg, 133); o segundo, que é «sobre o nada que o nada se veste de miragens de todas as coisas vivas e inanimadas» (Melo e Castro, em Prefácio ao A Realidade Inteira de Ángel Crespo). Refira-se, contudo, que «a realidade poética da imagem não pode aspirar à verdade. O poema não diz o que é e sim o que poderia ser. Seu reino não é o do ser, mas o do "impossível verosímil" de Aristóteles». (Paz, pg. 120-121)

A palavra poética exprime-nos a pluralidade e ambiguidade do real experienciado e vivenciado pela essência do ritmo e da imagem - o que confere ao poema linguagem transgressora permitindo-lhe ultrapassar as fronteiras da própria palavra. O que é o poema se não «linguagem em tensão»? (Paz, pg. 135). O que diz o dizer poético para além do indizível? Nada e tudo. Absolutamente nada mas, também, absolutamente tudo: «o dizer poético diz o indizível» (Paz, pg. 136); nesta simbiose de ritmo e imagem, o poeta «recria, revive nossa experiência do real» (Paz, pg. 132) quando nomeia a coisa e é. O Poeta está no seu «reino onde nomear é ser», um reino - a Poesia - onde «retorna à linguagem para ver como a linguagem pode dizer o que, por natureza, a linguagem parece incapaz de dizer». (Paz, pg. 129)

Se me é permitido, aqui honro, como fecho da introdução daquilo que pretende ser obra, a palavra poética, onde o ritmo casa numa simbiose perfeita com a imagem na construção do poema "A PALAVRA CERTA" do poeta EDGARDO XAVIER, inserto no seu livro ESCRITA ROUCA:

De ti me nasce clara a voz das ruas
o grito do corpo, o fogo
a água da enxurrada.

De ti corre excessivo o rio em que mergulho
e onde sou o dizer atormentado da sede.
É minha a vez da terra que rompe, acerta e erra
a tua porta.

De ti, liberdade espúria, me chegam os beijos
os caminhos
os insultos de falsa guerra.
Vem, traz-me insana e livre a tua praia
e deixa que me estenda no areal do teu espanto
e que me lamba o mar ao chamado do sol.

Estarei então na tua boca
e no cântico ardente do sangue
direi a palavra certa.

Edgardo Xavier © Escrita Rouca (Insubmisso Rumor, 2016)

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