quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

2016 ESTÁ A CHEGAR

«É ainda o amor que dá paz aos homens, calma ao mar, silêncio aos ventos e sono à dor
Platão

ANABELA BORGES
Pediram-me para apresentar a formulação de doze desejos para o novo ano.
Tarefa fácil, dirão uns; difícil, pensarão outros.
Formular desejos é fácil. Normalmente não saímos da área pessoal, familiar e profissional, enquanto, do canto do olho, espreitamos o geral, o universal; e como vemos que esta parte nos parece tão distante e inalcançável, depressa regressamos ao nosso pequeno mundo.
Difícil é formular desejos sem visitar os lugares-comuns apostos à nossa ideia. Difícil é encontrar resoluções sem cair na tentação de questionar tudo o que nos rodeia.

Sabendo que vivemos num mundo onde facilmente se olha sem ver, eu poderia insistir e dizer que se trata de uma tarefa fácil, até porque eu conseguiria limitar todos os doze desejos a um só. Um só desejo seria a súmula das aspirações humanas, seja a um nível mais pessoal, seja mais universal, se assim lhes quisermos chamar. E nada mais seria necessário. Vejamos…

#1 PAZ.
Tudo se resumiria a isto, afinal. Mas…
Se este desejo é a súmula de tantos outros, inevitavelmente contém nele uma cauda reflectora e fugidia como a de um cometa. Ora, vamos lá ver…

#2 Se não tivermos SAÚDE, não teremos paz.
O ser humano é egoísta na doença e deixa cair sobre si todas as importâncias do mundo, ainda que se resigne, ainda que pareça aceitar o seu estado, isso marca-lhe os dias e as horas, e nunca estará totalmente em paz. Porque…

#3 Se não tivermos ESPERANÇA, não teremos paz.
O mundo derriba-se em cima de nós sem esse elixir, esse fio condutor, e, uma vez egoístas, um chorrilho de emoções acerca-se do nosso espírito, esse que nunca tem sossego, pois que raramente se dissocia do que é material. Se não, vejamos…

#4 Se não tivermos AMOR, não teremos paz.
Qual é o ser humano, que em boa posse das suas faculdades físicas e mentais, vive uma vida plena sem amor? Sem qualquer forma de amor? Esse homem não se encontra em paz, não evoluiu sequer desde os primórdios do primeiro sopro de vida da sua galáxia (o que, por si só, constituiu a primeira busca do amor). E por isso…

 #5 Se não tivermos FAMÍLIA, não teremos paz.
Há uma base que sustenta a nossa relação com isto tudo. São os outros. E a nossa família não é apenas sangue e sémen, a nossa família é todo aquele com quem podemos caminhar, a quem podemos dar a mão. Caso contrário…

 #6 Se não tivermos FELICIDADE, não teremos paz.
Ninguém é feliz sozinho. Não me canso de o repetir. Triste de quem pensa o contrário, esse está mergulhado na mais obscura solidão, só ainda não se deu conta. E então…

#7 Se não tivermos HUMILDADE, não teremos paz.
Pois as grandes verdades, se as há, são eternas. É na humildade das palavras e dos gestos que definimos a nossa verdadeira natureza. Pois não tenhamos dúvidas de que…

#8 Se não tivermos HONRA, não teremos paz.
Porque somos dotados de uma consciência que é um verdadeiro dedo acusador. Mais cedo ou mais tarde, a desonra deitar-nos-á por terra e o nosso orgulho perderá todo o valor, se algum restasse. Nem penseis o contrário…

#9 Se não tivermos HARMONIA, não teremos paz.
Uma vida centrada em nós e não no próximo, traz-nos uma falsa harmonia. Então, e o outro? Então, como me enquadro no mundo? na natureza, nas plantas, nos outros animais, nos rios e nos mares? Nas pedras? Enquanto não entendermos que ninguém é mais que ninguém, que até as pedras têm vida, crescem, transmudam-se e morrem e renascem, não estaremos em harmonia com o Universo. Se não entendermos a existência de um minúsculo pó de estrela, então…

#10 Se não tivermos COOPERAÇÃO, não teremos paz.
Pois que iguais aos nossos iguais e desiguais dos nossos desiguais, nunca poderemos obter resultados que satisfaçam todas as partes, pois que todos, em algum momento, por algum aspecto, por ínfimo que seja, iremos sentir-nos desiguais, injustiçados, discriminados, … A galinha da vizinha será melhor do que a minha; os outros é que vivem bem, à grande e à francesa; fulano tem isto; fulana comprou mais aquilo… Esta girândola anda por ali no nosso pequeno mundo, pois pouco vemos além do alcance dos nossos umbigos… E que tal pensarmos verdadeiramente naqueles que precisam de ajuda? um bem? uma palavra? um gesto? Um abraço? Um olhar cúmplice? Na verdade, as desigualdades maiores, as verdadeiras, não queremos nós vê-las. Por isso…

#11 Se não tivermos JUSTIÇA, não teremos paz.
Porque as leis são tomos e tomos de palavras ditadas pelos homens. E as palavras ditas pelos homens são enredos aos olhos de quem as recebe, e metamorfoseiam-se, e moldam-se às circunstâncias. E são tantas vezes injustas… sem luz, de uma cegueira atroz. Ah, Justiça, como és cega! E por fim, com tudo isto, aqui chegamos…

#12 Se não tivermos HUMANIDADE, não teremos paz.
Seremos tanto mais pobres de espírito, quanto mais nos sentirmos ligados os mundo material. Não deixaremos o estado primitivo do pensamento. Faltará o progresso, a mão dada com a ciência, a cura para o cancro, se não deixarmos sobressair esse grande segredo que é a nossa única e possível humanidade.


BOM ANO PARA TODOS!

O MEU NOME É ES-PE-RAN-ÇA


CATARINA PINTO
Depois do Natal, chega e com muita pressa o ano novo… Uma semana depois da aventura do Natal, entra em nossas casas, em nossas vidas um novo ano… Faz-nos bem deixar tudo para trás e refazer, renascer, reviver… A nossa frente a oportunidade de mudar ou deixar ficar tal e qual como está ou conforme está de momento. A nossa frente a oportunidade de voar no céu azul ou esperar com os pés na terra… O amanhã sempre nos fascinou, não o podemos negar, então, vamos procurar nesse “ amanhã” aqui tão perto, o que nos faz feliz… Festejamos este dia com a família, com amigos ou sozinhos mas no fundo não nos esquecemos de pedir os nossos sinceros desejos para o próximo ano, afinal sempre vamos começar algo novo o que é mágico… Eu gosto de estar com a minha família e mais uma vez pecar com a excelente comida destes típicos dias em especial nos doces… já que o próximo ano vai sempre nos fazer correr um pouco….Costumo fazer um pequeno texto que coloco no meu diário de 2015, uma espécie de resumo, de reflexão de tudo o que passou, depois numa folha branca escrevo sempre os meus sonhos e desejos na esperança de eu concretizar nos dias do próximo ano… Cada um tem a sua maneira de enfrentar estes dias… mas com magia e sonhos sabe sempre melhor… Aproveito para desejar a todos um feliz ano novo, aproveitem cada oportunidade que o próximo ano nos traz… e os momentos que sejam de transformação e crescimento. Que nunca falte a saúde, a esperança, o amor… Agradeço a todos a vossa leitura e estão sempre no meu coração, escrever assim para vocês é um sonho realizado…. Para terminar deixo um pequeno poema de Mário Quintana Que desenha na sua poesia a minha visão do ano novo… 

ESPERANÇA Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano Vive uma louca chamada Esperança E ela pensa que quando todas as sirenas Todas as buzinas Todos os reco-recos tocarem Atira-se E — ó delicioso vôo! Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada, Outra vez criança... E em torno dela indagará o povo: — Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes? E ela lhes dirá (É preciso dizer-lhes tudo de novo!) Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam: — O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA... Mario Quintana

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

COM ESPERANÇA… BOM ANO!

ALINA SOUSA VAZ
Desejos para 2016 são fáceis de pronunciar; cada um, ao seu jeito, cria uma lista considerável de acordo com a vida que tem: ter trabalho, subir em determinado emprego, terminar os estudos, comprar um carro, fazer determinada viagem, ter um filho, emagrecer, deixar determinado vício… Mas nunca esqueçamos que o nosso caminho é feito pelos nossos próprios passos e que a beleza da caminhada depende daqueles que juntamos ao nosso lado que com fulgor querem ir connosco. 

As palavras, PAZ, AMOR, SOLIDARIEDADE, LIBERDADE, SAÚDE aparecem sempre nas mensagens que por esta época festiva proliferam como se fossemos todos candidatos a “Miss Universo”; a hipocrisia instalou-se na sociedade com belas máscaras e são tantas e tão diversificadas que, por vezes, confundem-se com a dignidade da verdade. Desejar que haja menos fome e menos guerra no mundo são desejos primordiais nesta época de reflexão, mas o que cada um de nós faz durante o ano para que possamos mudar, nem que seja, uma pequena circunstância? Como diz o velho ditado: ”Com o male dos outros podemos nós bem” e vamos vivendo assim como robots telecomandados. 

No entanto, a fatia do tempo a que se deu o nome de ano foi, de facto, uma grande invenção, pois estimula à renovação. Renovar implica mudança e a estratégias têm que se apurar para atingir os objetivos baseados na esperança que nos abre horizontes infinitos e possibilidades imprevistas. O futuro é de quem o sabe esperar e o recebe intensamente. Como dizia Fernando Pessoa: “A vida é para nós o que concebemos dela. Para o rústico cujo campo lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais do que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas veem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida”. 

As diferenças dos Homens são muitas, mas desejo que em 2016 possamos caminhar mais e mais juntos, na procura de um mundo melhor; que cada um acredite na sua singularidade e o respeito pelo outro seja sincero.

Apesar de muitos desencontros, a vida é, sem dúvida, a arte do encontro!

Com esperança, Bom Ano!

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

12 DESEJOS PARA 2016, OU TALVEZ NÃO...

REGINA SARDOEIRA
Doze desejos para o novo ano. Penso neste número e ocorrem-me os doze meses – mas não me parece fácil estabelecer um desejo (e uma responsabilidade inerente à sua formulação) se, deste modo, os distribuir. Penso, em seguida, que, se os alinhar de um a doze, estabelecerei uma hierarquia, como se o primeiro fosse mais importante que o último ou vice-versa. E tenho alguma dificuldade em determinar uma tal tábua valorativa.

É preciso, no entanto, iniciar a lista e irei fazê-lo aleatoriamente. Ou talvez não.

Acima de tudo, desejo viver num mundo de gente capaz de se entender a si própria, enquanto tal. Apregoámos desde tempos imemoriais que somos superiores à animalidade, mesmo contendo-a; e no entanto, a vida que todos levamos em conjunto de modo nenhum faz jus à racionalidade que reclamamos para nós, enquanto diferença. Este seria o meu primeiro desejo, o único, caso o novo ano tivesse poderes para tornar clarividentes todos os racionais.

Mas, caso seja pedir demais para tão curto espaço de tempo – faltam três dias para o fim de 2015 – ao menos que à minha volta (e estou a afunilar os desejos) as pessoas pudessem ter na mente ideias e projectos positivos. Sim, basta de pessimismo e de lamúrias por tudo quanto é esquina, basta de prenúncios de desgraça e cânticos fúnebres de miséria. Sejamos optimistas.

Também estou nauseada com o acréscimo da mentira que grassa de modo assustador pelos meios de comunicação social, sejam eles simples ou complexos. Por favor: deixem de elogiar a fotografia horrível dos vossos “amigos” do facebook ou a frase insípida que não quer dizer absolutamente nada ou o acontecimento absurdo com que alguém festejou o próprio aniversário. Sim, eu desejo, particularmente, a verdade.

E depois, ver como certos imbecis atingem a notoriedade, apenas porque lhes atribuem títulos ou são familiares de outros a quem atribuíram títulos, e perceber que o talento verdadeiro não consegue erguer-se deste manto de escória para enfim, florir, e que o talentoso deixa mesmo de abrir o seu talento, porque, ao ser esmagado, foi perdendo a confiança…não, não gosto de conviver com tal enormidade! Por isso, desejo firmemente que, a muito curto prazo, seja dado valor a quem o tem e que caiam, estrondosamente, os falsos ídolos.

A algazarra que ecoa por esse mundo fora, confundida com música, teatro ou cinema e a triste repetição de temas batidos e no entanto vistos como se fossem novos…ah, como desejo que a imaginação possa abrir-se para o mundo e mostrar às crianças, aos jovens e, enfim, a todos quantos vivem, que, para além destas teclas gastas, há todo um mundo de variações a desbravar e que dele devemos estar famintos. Sim, desejo ardentemente que possam emergir novas sinfonias neste pobre universo que temos e repete assustadoramente os mesmos motes, como se fossem a expressão do novo.

Desejo ainda uma nova fé. Não a das religiões ou a dos mitos ou a das ideologias – todas elas votadas ao fracasso, como resulta evidente – mas uma fé profunda nas pisadas que vamos dando no dia-a-dia, pisadas de carne, mas também de espírito, pisadas de vigor uníssono, como importa. E este desejo é, por si só, uma espécie de alínea do primeiro.

Para mim, como pessoa, desejo intensamente começar a ser. Desejo que o dia Um do próximo ano me ensine a renascer e que os meus actos falhados possam ser a condição das caminhadas certas. E eis aqui o momento de acertar agulhas com a responsabilidade, pois, ao formular este desejo íntimo e profundamente subjectivo – e ao fazê-lo em público –, começo, desde hoje, a sentir-me no dever de inventar as energias para subverter o meu caminho.

Subverter, é claro, é necessário subverter. E eu desejo poder realizar a suprema tarefa de me reinventar, mesmo que o mundo seja o mesmo e as pessoas e o tempo. Proíbo-me de ficar à espera que os tempos mudem, proíbo-me de lançar desculpas para o acaso ou para o destino, desejo ser senhora do meu próprio reino. É nele e apenas nele – no meu reino – que poderei fazer irromper a minha chama.

No meu círculo restrito desejo encontrar, acima de tudo, o nexo exacto das interacções humanas, ver com clareza o que devo fazer e de que me devo eximir – para abarcar todos e não me deixar afundar. É necessário que perceba a magnitude de todos os papéis que sou chamada a desempenhar e possa integrá-los, criadoramente, em mim.

Doze desejos?!

Paz no mundo? Solidariedade?! Fim da pobreza?! Sucesso pessoal?! Riqueza?! Felicidade?! Sonhos realizados?! Alegria de viver?! O fim da crise?! Um bom Presidente da República?! …até doze?!

Não, não me peçam que faça uma lista abstracta de sonhos, engendrados à pressa, enquanto as badaladas soam e trinco atabalhoadamente as doze passas. Desejar, realmente desejar, é estabelecer connosco mesmos um trato demasiado sério, para poder degustar-se, levianamente, num clima eufórico de festividades vãs.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

TEMPO DOS SONHOS EM DIAS DE NATAL

ALVARO GIESTA
Lavro as minhas crónicas, e tudo quanto ao ofício da palavra em verso arranco à imaginação, sempre com a mesma ferramenta: usando a velha caneta de tinta permanente Parker 51, made in USA, modelo Aerometric da 2.ª geração de 1950; para quem está afeito a este tipo de instrumento da escrita, saberá, certamente, que ela tem antiquíssimo aparo ultrafino em ouro de 14 quilates e a tampa do mesmo metal nobre encimada por uma madrepérola de cor branco baço. Tem, exactamente, a minha idade e eu sou a 3.ª geração que a usa - a 1.ª foi o meu avô maternal. Aquele venerando velhinho de oitenta anos, nessa data, a quem eu, aos oito anos de idade, já lia, correctamente, o jornal "O Século" que mandava ir do Porto pelo velho método do único transporte de então: o caminho de ferro da (ex) Linha do Douro. O jornal que só lhe lia no dia seguinte à edição depois de ter calcorreado os mais de 150 quilómetros, até à estação do Vesúvio naquele "pouca-terra" estonteante e enfadonho, bafejado a fumo negro do carvão que alimentava o estômago da velha máquina a vapor, não contabilizando os mais de 300 que o distanciava de Lisboa ao Porto.

Esta é a velha caneta que serve para contar dum menino dos anos 50 que sonhou sonhos que (quase) nunca se cumpriram e que hoje, homem na recta final da vida, bem anseia ver alguns deles cumpridos. Um filme de curta-metragem que bem pode ser real!

Que saudades desses tempos! Saudades que hoje mais se acentuam por ser época de Natal. Época em que os meninos sonham sonhos sempre novos. Sonhos virgens ainda por sonhar.

Vêm-lhe, à memória, as imagens dessa infância inocente que o tempo há muito ocultava, a seu pedido, no mais fundo do seu ser. Imagens de que, pelo menos de duas vezes no ano - a época Natalícia e a da Páscoa -, fazem parte do seu rosário de dores.

E recorda esse tempo longínquo que situava a sua aldeia, num lugar onde nem Cristo desceu com medo de aí perder as sandálias, engalanada com as melhores e mais ricas colchas de renda fina, seda pura e veludo colorido, debruçadas das janelas e sacadas entre vasos floridos, à espera do «Menino» para se beijar. A velha aldeia a lavar as lágrimas nas águas do Douro, que desciam escorregadias pelos pedregulhos e seixos do seu leito, enquadrada pelo Picoto, na margem esquerda do rio e pelo Monte Meão, na margem direita, como se o mundo ali terminasse e este monte escondesse, o paraíso, do outro lado de lá, oásis de vinhas férteis a formar a Quinta de Vale Meão, reino que foi de Dona Antónia Ferreirinha, a maior celebridade do Vinho do Porto.

Nesse tempo ainda se sonhava. Naquele tempo, ele ainda sonhava!

Lá ao fundo o feroz Cachão de Vargelas, que aqui o Douro, desse tempo, era traiçoeiro. Hoje perdeu o senho bravio com que ontem dominava, pelo medo, nos precipícios; hoje, é um longo lago tranquilo que a Barragem da Valeira produziu onde se passeiam longos barcos - quase paquetes - desde o Porto a Barca de Alva, para gaudio dos nossos "hermanos".

Naquele tempo, o rio cavalgava as rochas do leito, vindo desbragado das altas terras de Espanha como se ele fosse, apenas, o único dono da vida e do tempo. E o sonho do menino desse tempo começava aqui com a visão dos barcos rabelos carregados de pipas de carvalho subindo, a custo, o Cachão da Valeira e depois o Cachão de Vargelas que a aldeia de Arnozêlo velava noite e dia. À força de ombros e de pulsos de meia dúzia, ou mais, de homens que, em cada uma das margens enfrentava a fúria das águas para vencer o obstáculo do cachão, ao compasso uníssono do "vai, força... agora". Depois a mansidão do resto do percurso, entre os túneis até ao Vesúvio, onde se estendiam as possessões vinícolas da Ferreirinha. O tal paraíso sonhado para lá do Monte Meão.

O sonho dele descia, rio abaixo, com os mesmos barcos rabelos, uns dias depois, rumo às Caves da Régua e de Gaia - outro mundo por sonhar! -, a toda a força dos rápidos das águas bravias e do saber do mestre que, altivo, no quadrante, libertava a direcção do longo remo à popa que servia de leme (a espadela), tirava o seu boné e, em seguida, erguia as mãos ao céu, cruzava os braços e exclamava «agora vai com Deus».

Ontem, o sonho que nunca se cumpriu, continuava à espera na bota colocada à beira da chaminé.

O pedido desse tempo pouco ia além da bola de borracha que tinha visto na feira do mês em Freixo de Numão ou do carrinho de plástico vermelho e verde (as cores da ditosa bandeira) que lhe aguçava o apetite na tenda das bugigangas. Até o cego do bandolim que com voz dolente conseguia grandes ajuntamentos, para o ouvir cantar e levar a troco de dois tostões os folhetins com o triste fado da cigana Carmencita, a contragosto dos defensores da Lei e da Grei porque podiam levar ocultos propaganda contra o regime, lhe despertava o sonho e o desejo de um dia poder ter, na bota que todos os 24 de Dezembro punha ao lado da lareira, ao menos uma flauta de plástico. Nunca tal sonho e desejo se lhe cumpriu.

No dia seguinte, manhã cedo, apenas a promessa, mais uma vez, de que o Pai Natal não pudera descer à aldeia devido à neve no caminho sinuoso e ao negrume da noite e que voltaria, para o ano e não se esqueceria dele.

A avó Ana lá lhe acalentava o soluço que arrancava à alma com a oferta de um trigo de quatro "cornelhos", como então se baptizava o pão-trigo de quatro cantos redondos. Ao canto da cozinha, perto da mesa de pinho, esperava-o o brinquedo de sempre e de todos os dias até ao Natal seguinte: a bola de trapos que a mãe lhe fizera da meia de algodão, tecida à mão, meio-rota, que fora pertença do pai que há muito embarcara para a longínqua África à procura de melhores dias.

Hoje, a sombra desse menino de antanho desenhada no corpo dum homem meio- acabado, que subiu a corda da vida à força do pulso e à custa do suor e da honra, prestigiando o nome de que se orgulha, e que trabalhou para um final feliz, depositando a confiança na mão de quem o enganou, mais não almeja do que a justiça divina, se é que a há, que na dos homens, que (des)governam, há muito perdeu a fé.

domingo, 27 de dezembro de 2015

NATAL NAS URGÊNCIAS

ANTONIETA DIAS
Foram dezenas de doentes que passaram o Natal hospitalizados, não porque os critérios clínicos o exigissem, mas porque a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI) e os Lares da Segurança Social não tinham vagas para os acolherem.

Nem tão pouco as Famílias os conseguiram receber. 

Esta é talvez a época do Ano onde mais angústia se gera não só porque esta data reflete a união da família, mas também porque se sente mais a carência do afeto e da degradação das condições sócio económicas das famílias.

E do conhecimento comum que a rede de resposta para o acolhimento destes doentes é insuficiente e faz com que os hospitais fiquem superlotados com internamentos sociais.

Este número tem vindo a aumentar de ano para ano. 

No Natal de 2015, o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra reteve 80 doentes e o Centro Hospitalar do Porto 30 doentes. 

Estes dois exemplos servem de testemunho para uma reflexão que obriga naturalmente ao reconhecimento de uma problemática cada vez mais complexa e de resolução muito difícil.

É um facto que a recente expansão geográfica tem levado a uma maior reflexão sobre as metodologias de intervenção político social, que carece de imensas mudanças para conseguir acompanhar de forma contínua os avanços tecnológicos. 

Certo é que os conceitos intelectuais dos portugueses nem sempre estão ao nível das necessidades e das realidades vivenciadas mundialmente.

A reduzida participação civil e a permanente situação de alerta das forças de intervenção social não tem conseguido manter um equilíbrio constante e absolutamente indispensável em todos os quadrantes intelectuais cujas diretrizes se manifestam frequentemente na elite de um povo atento a todas as mudanças ecológicas, político militares e de cidadania vivenciada no passado, no presente e certamente no futuro. 

Porém, há que reconhecer o esforço do enriquecimento conceptual associado a outras dimensões que ultrapassam a língua, os costumes, mas jamais lesam os valores, o dever de Estado, da Pátria e da Nação.

A ideia de que as decisões orientam, consolidam, elucidam, identificam, expressam, refletem pensamentos e análises da vida nacional /internacional nem sempre se traduzem num benefício de conceitos e de defesa nacional e social. 

As decisões só serão úteis se contribuírem para um apoio nas diferentes matérias, baseadas no rigor científico e académico das várias ciências.

Todavia, este leque de interdisciplinaridade onde a coerência e a racionalidade funcionam como as construções teóricas cujas experiências empíricas associadas às descobertas da ciência transformam todos os intervenientes sociais ( civis, militares, académicos e profissionais da ciência ) nos arautos e principais aglutinadores dos projetos necessários para impulsionar a Defesa Nacional e para suportar o equilíbrio dinâmico de todos os Estados Membros. 

São inúmeros os vetores que irão sustentar os núcleos disseminados no Mundo cuja magnitude setorial não tem fim. 

Cair no fracasso de que a crise económica e financeira é geradora de uma impotência social do progresso é desacreditar nas potencialidades dos verdadeiros portugueses que ao longo dos séculos demonstraram ser capazes de vencer todos os obstáculos e desafios a que foram submetido e testados. 

Não será todavia o ócio, a inaptabilidade, a inércia, a falta de meditação, a escassez de um programa de intervenção social cuja estratégia e exigência de mudança ainda não esta completamente concretizado que ira deixar os portugueses estagnados, rendidos ao fracasso e à perda da Dignidade Nacional. 

Estas circunstâncias não podem condicionar a necessidade de delinear um plano metodológico vocacionado para apoiar de forma concreta e real os pacientes sinalizados e que necessitam ser referenciados para instituições de acolhimento. 

Certo é, que ser dependente é angustiante que estar doente envolve fragilidade e que não ter apoio social é degradante. 

Em suma, o balanço atual de apoios sociais é deficitário, a lista de espera dos utentes continua a crescer e a necessidade dos doentes que aguardam resposta é cada vez maior.

Muito há ainda que investir para conseguir minimizar os danos vivenciados pelos pacientes vulneráveis.

TEMPO ESCASSO

“Ali anças” 

MIGUEL GOMES
Entro na sala. 

Ao olhar destreinado tudo parece normal, sorrisos e acenos, beijos em faces frias com odores femininos, palmadas másculas nas costas e o tradicional eco de “o que se quer é saúde”.

O silêncio está ali, encostado a um canto da sala, pouco acima da minha cabeça, olha assustado para o som que se solta das pernas das cadeiras quando estas são arrastadas pelo chão e movimenta-se rapidamente desviando-se do ruído que é, por vezes, lançado quando ele parece já acostumado e adormecido.

Bate célere a música, sons que são a sanidade da saudade. Uma vez, não muito longe, a lua riu-se de mim porque a confundi com um sonho distante o suficiente para se alcançar apenas em bicos de pés!

Bate célere, repito, a música e eu, descompassado, valso por um salão vazio, entre trastos gastos por dedos que tocaram música e, acredito, também o céu.

Há um sentimento de urgência, de urgente, de emergente, de gente, gente que procura e eu encontro, aqui, no silêncio da sala musicada. Falta-me, criatividade, ou me sobeje, saber-se-á escrever sobejamente, que não sei saiba eu inventar miando, tenho todos os destinos na mão, onde me deitarei hoje, para onde me erguer quando sonhar? Por momentos passa a meu lado uma estrada qualquer, qualquer não, uma estrada que poderá ser de qualquer local, mas a estrada não é qualquer, é minha, espera-me, com as suas sombras e manchas, com pés calçados e outros que se sentam, no marmoreado chão, com roupa, mas despidos, pousando mochilas, rindo e sorrindo, capuzes e capuccinos que se faz fria a noite, sim, é noite, e eu abro o meu caderno e vou escrevendo, até me levar então o sonho, ou a rua, perdoe-me a imprecisão se não sei ser preciso, até outro local, a um aglomerado de pessoas de todas as idades, na verdade, que seja dita, as pessoas que são pessoas não têm idade, são pessoas hoje, amanhã estrelas, que tocam instrumentos musicais, batem e sopram, dedilham e cantam, porque a vida é música (embora um ou outro me assegure que a música é que é vida) e todos se aproximam, sabe-se lá se é frio agora ou quente depois, uns sorriem e batem palmas, outros aconchegam-se ao próprio corpo ou ao corpo de alguém que se ampara, ondulam, bailam, até que a música acabe e eu me deixe seguir pela rua, sem sair daqui, para ver ao longe as vinhas que se espetam pelo rochedo fora, parindo uvas que mãos cuidadosas vão trazer ao mundo, enquanto o calor se espreme da testa em suor e a terra se apega ao corpo e à alma. 

Sou de mil ruas, sem me saber viajar ou trajar, apenas calcorrear o mundo sem me trazer universo, ou verso, odes, estrofes, pautas ou gavetas onde vou guardando os registos daquilo que, lentamente, vai vendo meu corpo. Perdão, corpo meu, emprestado, com garantia de o devolver àquilo de onde veio, à terra, ao solo de forma mais directa, ou ao universo, à matéria, à energia, à implosão que todos somos, afinal, seremos todos um, que corpo meu não será então meu ou de ninguém, apenas e só, eu.

A invulgaridade do cansaço telúrico. Há terras e músicas que trazem lava a arder pelo corpo acima. Montes esculpidos mouriscamente até que, serpenteando até ao cume, surgem sobranceiros a rios, zumbidos de invisíveis garotos, ganapada para quem uma música é um adro e um púlpito uma gaiola de onde adultos grasnam patacoadas sem sentido, mas tiremos-lhe o facto de o meu corpo transladar-se de vontade de mim para o granito musgado e teremos um estilo tardio planeado há centenas de anos no futuro.

O tempo é escasso, por isso sorvo-o lentamente, sem açúcar, em manhãs frias, esperando aviar mais um dia. Por hoje está, amanhã Deus, dará.

Quando a música cessou já o silêncio tinha partido, fugiu de onde pairava sem eu o ver. Compreendo-o. Até eu, que sou mais noite que dia, dificilmente resisto a abrir a porta da sala e deixar entrar a noite, para lhe mostrar orgulhoso o quanto de estelar podem dúzia e meia de estrelas musicais fazer brilhar.

Sem me saber clave, deitado, não prostrado, cerro os olhos na esperança de ouvir novamente os olhares brilhantes de quem anda de braço dado com a música e atravessa a vida saltando pela pauta da sua própria melodia, imune a críticas.

Que criticalidade pontual poderemos ter, quando se pensa que o céu é o limite e a vida é um conjunto de sonhos a serem vividos?

O céu é o limite para quem nunca voou além de si mesmo.

A vida é um conjunto de sonhos a quem nunca adormeceu fora de si mesmo. E eu, agora que a música cessou, ia jurar que o silêncio partiu em Si, mesmo.

sábado, 26 de dezembro de 2015

DISLIPIDEMIA, O QUE É?

ANTONIETA DIAS
As doenças cardiovasculares, designadamente as de natureza aterosclerótica, são a principal causa de invalidez e morte, em Portugal.
Em 1999 foram responsáveis, por 39% dos óbitos registados, sendo a doença cerebrovascular responsável por 52 % dos óbitos. Representam a terceira e quarta causa de morte no nosso País.
Para prevenir as complicações da doença aterosclerótica e na doença coronária em particular a Sociedade Portuguesa de Cardiologia, consciente da gravidade desta patologia, tem investido na identificação e tratamento adequado das dislipidemias, sendo uma prioridade a avaliação do perfil lipídico e a instituição do tratamento cada vez mais agressivo nestes doentes. 
Por definição considera-se dislipidemia quando surge um aumento anormal de colesterol e de triglicerídeos, representando um excesso destes dois componentes no sangue).
Este distúrbio metabólico pode ser resultante de hábitos alimentares inadequados, estilos de vida sedentários, pela presença de doenças tais como a obesidade, diabetes, ou insuficiência cardíaca ou insuficiência renal.
A avaliação do perfil lipídico, em jejum é já uma rotina praticamente obrigatória em todos os adultos com idades iguais ou superiores a trinta anos, sobretudo naqueles que têm dois ou mais fatores de risco cardiovascular, onde se incluem os obesos, os doentes com diabetes mellitus e os doentes com síndrome metabólico.
O perfil lipídico deve ser periódico e pode haver até haver a necessidade de ser despistado mais precocemente se existirem dislipidemias primárias genéticas.

A existência de colesterol e de triglicerídeos no organismo é normal desde que a sua presença não ultrapasse os valores preconizados, sendo o seu papel essencial para o normal funcionamento do organismo, uma vez que desempenham um papel essencial na estruturação das membranas celulares, hormonais (esteroides), nos estrogénios, ácidos biliares.
O colesterol é metabolizado no fígado em bile, solubiliza gorduras e absorve as vitaminas solúveis na gordura (vitamina A, D, E, K).
Os triglicerídeos são um tipo de gordura libertada pelo tecido adiposo e serve para armazenar energia, que o organismo utiliza diariamente.
Uma concentração excessiva de triglicerídeos e de colesterol no sangue circulante pode desencadear uma doença denominada aterosclerose, que lesa a parede arterial sendo uma causa de morte muito comum.

A dislipidemia é uma doença silenciosa que pode ser evitada na maior parte dos casos através da criação de estilos de vida saudáveis (hábitos alimentares corretos), preconizando-se a diminuição da ingestão de carnes vermelhas, enchidos, presunto, conservas, optando por uma alimentação rica em fruta, vegetais, carnes magras, consumo de bebidas alcoólicas moderadas e incentivando ao desenvolvimento de uma atividade física regular.
As guidelines têm um papel preponderante nas recomendações do tratamento, dado que são um instrumento de utilização diária na prática clínica de extrema importância pelo facto de serem baseadas na investigação exaustiva cujas conclusões científicas orientam para a realização das boas práticas médicas.
As guidelines representam um dos pilares mais importantes na medicina atual, resultam do consenso produzido pela investigação de estudos rigorosos dos peritos nesta área, onde o conhecimento médico representa um compromisso da própria Sociedade Científica, cabendo ao Committee on Practice Guidelines definir os termos sobre os quais se justifica a elaboração destes documentos.
É a própria comissão que define quem são os peritos que devem estar envolvidos nos estudos e que determinam o seu coordenador.
O conteúdo final do documento elaborado por estes peritos, é submetido a um processo de revisão, por outros intervenientes que não podem ser os autores da investigação e só depois desta revisão é que é devolvido ao grupo de investigadores para concluírem o documento final.
Após as revisões e com base na evidência científica (nível A-quando há vários estudos clínicos aleatorizados, ou meta análises, a suportar a evidência e consequentemente recomendação; nível B-quando há apenas um estudo clínico aleatorizado, ou estudos não aleatorizados e nível C-quando a evidência se baseia apenas em estudos retrospetivos ou registos, predominando a opinião de peritos) é que é publicado de acordo com as normas promulgadas pelo editor do jornal (normalmente no European Heart Journal).
Por fim, é remetido para todas as Sociedades Nacionais, que cumprem as tarefas de traduzir o documento, de o divulgar e de o distribuir.

Apesar das guidelines não representarem orientações destinada a uma utilização de forma cega, são fundamentais para o cumprimento da legis artis.
Importa, ainda referir que o tratamento deve ter em conta a redução global do risco efetivo dos eventos cardiovasculares, sendo a presença de diabetes mellitus um dos mais elevados fatores de risco sobretudo quando associada à hipertensão.
O tratamento farmacológico é obrigatório e a instituição terapêutica vai depender do risco individual, devendo ser iniciada o mais precocemente possível.
A escolha do fármaco para o tratamento da dislipidemia deve respeitar a expressão fenotípica da mesma, a facilidade de administração, o perfil de efeitos adversos, a segurança e a diminuição da morbilidade e mortalidade.
Surgiu recentemente no mercado uma associação de pravastatina com um fenofibrato que irá certamente revolucionar o tratamento dos doentes portadores de dislipidemias mistas de alto risco, sendo uma enorme vantagem para o tratamento destes doentes, dado que é uma associação de toma única.

Associada à terapêutica farmacológica das dislipidemias existem outras medidas complementares que devem ser implementadas, nomeadamente a dieta (redutora de lipídeos) que assenta na ingestão de 5 a 6 refeições por dia, sendo que nos obesos deve ser escolhida uma dieta hipocalórica.
A dieta deve conter regularmente legumes, vegetais, sopas, saladas, fibras, minerais, cereais, batatas, leguminosas e vitaminas. O consumo proteico deve ser fundamentalmente de origem vegetal, diminuindo a ingestão de carnes e de ovos e aumentando o consumo de peixe e aves. As carnes vermelhas devem ser evitadas e na confeção dos alimentos o azeite deve ser preferido bem como os óleos vegetais.

Outro detalhe importante da dieta destina-se à introdução dos iogurtes, leite magro e a diminuição da ingestão de açúcares, bolos, chocolates, refrigerantes e sumos. O consumo de bebidas alcoólicas não deve exceder 10 a 30 gramas dia.

 Não podemos esquecer a recomendação da prática do exercício físico, como um elemento prioritário na mudança dos estilos de vida saudável.


Em suma, a medicina é essencialmente uma arte que coloca ao seu serviço o conhecimento médico baseado na investigação e na evidência científica de forma a gerir um tratamento personalizado baseado nas particularidades específicas de cada doente na particularidade da sua patologia.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

NATAL: DEPOIS DA FESTA, QUE ESPIÍRITO SOBREVIVERÁ?

GABRIEL VILAS BOAS
Sim, o Natal é um tempo único e especial. Um pouco por todo o lado, fomos encontrando luzes, festas, árvores iluminadas presépios e em cada um de nós instala-se, por dois dias, a supremacia de sentimentos nobres. E não vejo nisto nenhuma falta de sinceridade. Acredito na nobreza dos nossos desejos, mas não na sua força.

Nestes dois/três dias, fazemos sobressair o melhor de nós, numa espécie de “trégua-conto de fadas” do quotidiano.

É óbvio que a maioria das pessoas deseja que este “melhor de nós” sobreviva além de hoje ou amanhã, mas, a cada ano que passa, fazemos muito pouco para que tal suceda. Percebo a desilusão do Papa Francisco que há dois dias declarou, em Roma, que a maneira como muitos de nós vive o Natal é uma farsa. Não creio que seja uma farsa, mas acho cada vez mais pobre o seu conteúdo.

As luzes, a árvore, o presépio são um símbolo e não a essência. A essência é o espírito de paz, de fraternidade, concórdia que subjaz ao nascimento de Cristo. Cristo é amor, é paz, é harmonia.

É bom comemorar, mas convém ter algo para brindar além dos copos e do champagne. E é nesse sentido que importa manter viva a mensagem do Natal. Não é preciso que seja Natal todos os dias, mas é necessário que o seu espírito preencha o coração de muitos homens e mulheres durante vários dias do ano. 

Seria bom e tudo o que é bom vale a pena ser tentado.

Talvez morram menos inocentes em guerras estúpidas, talvez o terror mate menos, talvez a ganância perca mais vezes o jogo da vida com a humanidade e tenhamos de lamentar menos mortes evitáveis em hospitais, talvez se trafiquem menos armas, talvez se governe melhor os recursos dos povos, talvez… Sim, talvez, porque nunca teremos certezas tal como nunca alcançaremos um mundo ideal, mas, certamente, ele será melhor se tentarmos.

A melhor mensagem de Natal seria aquela que desejasse manter e não mudar, visto que necessitamos mudar o que está mal e manter o que há de bom.

Durante dois dias resgatamos a consciência e acendemos a luz de um mundo melhor. Apesar de todas as pobrezas que nos invadem, acho que temos suficiente riqueza para comprarmos um futuro mais digno, mais pacífico e mais harmónico.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

MARIA "BONITA"

HELDER BARROS
A Maria, conhecida por “Bonita”, nasceu numa freguesia de Amarante na década de trinta do século passado tinha uma história de vida, fora do normal, tendo em conta a forma de viver da altura. Filha de uns cabaneiros muito pobres que viviam na serra, não passava despercebida a sua beleza feminina. Desde muito nova, ganhou a alcunha de “Bonita”, pois tinha um rosto e um corpo que eram deslumbrantes... sempre suja e mal-arranjada, não passava despercebida a ninguém. Quando frequentava a escola já parecia uma mulher, desenvolta, trigueirinha e maior e mais bem constituída que as demais raparigas que tinham a sua idade.

Cedo se fez mulher, pois a sua Mãe morreu de tuberculose, quando ela tinha três anos de idade, logo desde muito nova aprendeu a defender-se sozinha, a carregar lenha para a lareira da cozinha, a cultivar a horta e a tomar conta dos animais e dos seus dois irmãos e pai que, embora mais velhos, não tinham o desembaraço e maturidade da “Bonita”. Quando ia à feira com os manos e o pai, todos os homens da Vila, solteiros, casados, viúvos, olhavam-na discretamente, mas de forma quase instintiva, o que a deixava toda vaidosa e ainda mais desempenada, a fazer os negócios que considerava bons. O pai e irmãos, pouco argumentavam, pois, o diabo da moça conseguia com a sua maneira de ser, alegre e despachada, dar a volta aos mercadores que ficavam como que enamorados pela sua presença. O seu poder de sedução extravasava, na sua sensualidade feminina, de mulher muito linda e perfeita, muito segura de si!

Se algum homem de forma mais arrojada, tentava seduzir a Bonita, os seus irmãos, rapazes fortes e musculados pela vida difícil e de trabalho que levavam, estes rapidamente se aproximavam e anulavam rapidamente qualquer avanço menos correto para com a sua irmã, o que a fazia sentir ainda mais poderosa e mais desinibida. Bonita, que vivia no meio daqueles três homens, era como que a sua Mãe, mas ao mesmo tempo, era a protegida deles, mais parecendo filha dos três. Mas, o tempo passa e Bonita estava no esplendor da idade, linda e formosa como poucas, com uma daqueles belezas, sorrisos e posturas que parece que desafiam os homens, começou a inquietar os seus guardiões, com a sua forma de ser, quase descarada, deixando qualquer homem louco, só com a sua simples, mas vistosa presença.

Um dia no fim da missa, saindo Bonita da igreja com as mulheres do coro pastoral que ela frequentava, o Manuel Moreno, homem alto, desempenado e senhor de muitas conquistas femininas, investiu para ela, no sentido de lhe perguntar o nome. A Bonita riu-se do atrevimento e com uma gargalhada desafiadora, logo lhe disse: “Isso querias tu saber magano, pergunta ali aos meus irmãos...”. Estes, quando avistaram a proximidade de Moreno para com a sua irmã, irromperam por entre a multidão que se juntara no adro da igreja da freguesia, tendo o José puxado a irmã dali pelo seu braço. José era o irmão mais velho, vinte e quatro anos, Joaquim tinha dezanove e Bonita uns belos catorze anos, mas que deitava as moças da freguesia mais velhas a um canto...

O Manuel Moreno não era homem de se ficar e nas tascas da freguesia lá ia dizendo que casaria com Bonito, não fosse ele mais o Moreno! Ora também o Toninho, o Lobo, alcunha que tinha por ter fama de matar lobos e cães selvagens à varada, se havia enamorado de Bonita e um dia numa dessas sessões de tagarelice que o Moreno promovia para fortalecer a sua vaidade, o Lobo enfrentou o Moreno, interpelando-o violentamente: “Morra aqui eu se não te roubo a Bonita, oh Moreno, que mais pareces um cigano!”. Moreno calou-se, com medo ao manejo que o Lobo tinha da sua vara que sempre o acompanhava e o Lobo saiu rindo do silêncio geral da sala... 

Dizem que somos gente de brandos costumes, que quase sempre é só fumaça, mas sabemos bem que, designadamente, em questões passionais sabemos ser muito irracionais, qual maldição da nossa latinidade... desde este acontecimento, em que os machos foram altamente colocados à prova, perante a comunidade, não se poderiam esperar tempos de paz; ademais, Moreno calou-se e não enfrentou o Lobo pelos cornos, salvo seja, mas na qualidade de presa esperta, esperará o seu momento para ficar na mó de cima.

Passaram uns dias e aparece na casa de Bonita, o Lobo, mais a sua vara, pelas costas presa nos braços, como ele gostava de caminhar, pelos trilhos da aldeia. Dirigiu-se ao patriarca e sem mais demoras pediu a mão de Bonita em casamento. O pai e os dois filhos é que não acharam graça ao descaramento do lobo, Bonita também não e correram o homem com má fama à pedrada. Este como se viu em desvantagem e sem margem de manobra para manejar a vara por entre a chuva de pedras, qual lobo vivaço e bateu em retirada a praguejar e a rogar vingança.

A situação agudizava-se, Lobo e Moreno, não queriam ficar mal e num dia de feira na Vila, depois de bem bebidos, embrulharam-se num diálogo buçal e decidiram resolver a demanda à paulada no centro do campo da feira. A multidão criou uma clareira onde os dois se começaram a bater e o entusiasmo popular era grande. Lobo era forte e mais físico, Moreno mais raposa, mais calculista e esperto. Numa situação em que os paus se cruzaram no ar, os dois dobraram-se e baixaram-se, Moreno retira o pau, Lobo cai sobre si, moreno saca de um punhal e matou-o, ali, no meio de todos, num ato de grande cobardia. Todo o povo começou a fugir, só o Moreno ficou com o punhal espetado no seu ventre... vieram dois polícias e Moreno foi preso!

Provérbio Francês: A quem tem mulher bonita e castelo de fronteira, nunca lhe falta debate nem guerra.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

PAI-NATAL, AJUDA A PAGAR O BANIF

Querido Pai Natal: 

Sim, eu sei. Mais um a escrever-te… 

PAULO SANTOS SILVA
Mas afinal, do que é que te queixas?...

Passas o ano sem fazer nenhum, por isso é bom que faças alguma coisinha por esta altura, quanto mais não seja para combater essa obesidade que vais acumulando ao longo dos restantes 364 dias do ano. Não sei se já te disseram, mas a gordura em excesso traz graves prejuízos para a saúde!

Bem, adiante… De mais a mais, não te escrevo propriamente a pedir muito. Aliás, não te peço muito nem pouco. Não te peço nada. Pelo menos não te peço nada em que tenhas de gastar dinheiro porque os tempos não estão para isso. É que não sei se sabes, mas temos mais um banco para pagar. 

Tu quê???? Ai pagas, pagas que pagamos todos ou achas que és mais do que os outros?... Pensavas que já não tinhas mais nenhum para pagar?... Também eu e mais uns quantos como nós, mas na política como no futebol, o “que hoje é verdade, amanhã é mentira!!!” 

Quem devia pagar a fatura, é quem andou a brincar com o dinheiro dos que lá depositaram as economias de uma vida e de um momento para o outro ficou sem nada?... Olha lá, tu acreditas mesmo no… em ti, não acreditas?!... Já agora e por falar em faturas, já foste ao Portal das Finanças validar as tuas?... Não te esqueças, senão não há benefícios para ninguém…. A comida das renas entra em quê?... Sei lá, deve entrar nas despesas gerais e familiares, digo eu… Isto se o Rodolfo não estiver coletado, claro, porque aí já passa a ser sujeito passivo e não integra o teu agregado familiar.

Olha, não te maço mais. Mais afinal o que é que eu quero?... Simples!!! SAÚDE, PAZ E AMOR. Só?... Só?!... Meu caro e velho amigo gorducho, para mim já chega e sobra. É que eu, também faço as minhas “magias” e tendo estas três coisas na minha vida, eu arranjo tudo o resto! Fica bem, com saúde e continua a espalhar a tua magia e encanto pelas crianças de todo o Mundo!!! 


Do teu eternamente grato Paulo Santos Silva (também honesto e bondoso como o outro, embora orgulhosamente, não sejamos da mesma família…)

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

NATAL – UMA QUESTÃO DE HUMANIDADE

REGINA SARDOEIRA
Escrever uma carta ao Pai Natal não me é possível. Aprendi que no Natal se festeja o nascimento do Menino Jesus. Ensinaram-me que é ele quem, na sua grandeza, faz o milagre de trazer uma prenda que depositará no meu sapatinho deixado na chaminé, na véspera do grande dia. Por isso, é sempre ao Menino Jesus que escrevo e é sempre ao Menino Jesus que agradeço quando, no dia 25 de Dezembro de manhã, encontro uma lembrança, no sítio assinalado.

Devo estar muito desactualizada nestas minhas crenças e nestas minhas práticas, porque agora não oiço falar do Menino Jesus. E no entanto, esta data de 24 para 25 de Dezembro continua a ser a celebração do seu aniversário. Que, segundo crenças, histórias e tradições, nasceu em Belém, de uma Virgem, num presépio, dentro de uma manjedoura. Que, de acordo com as mesmas crenças, histórias e tradições, foi bafejado por dois animais de estábulo – uma vaca e um burro – e logo iluminado por uma estrela misteriosa e muito brilhante.

Também aprendi que, a seguir ao nascimento, os pastores das cercanias vieram ao estábulo, iluminado pela estrela grandiosa, e trouxeram presentes ao recém-nascido e aos seus pais. Trouxeram-lhes o que tinham: cordeiros, ovos, frutas… Mas, alguns dias mais tarde, três Reis Magos, montados em camelos, surgiram à entrada da gruta, ajoelharam-se perante o nascituro e ofereceram-lhe preciosidades: ouro, incenso e mirra.

Acerca do Pai Natal, nunca me ensinaram nada. E só tomei contacto com essa personagem, de cabelos e barbas brancos, vestido de vermelho, com um cinto de couro e umas botas pretas, transportando um enorme saco também vermelho e guiando um trenó puxado por renas, muitos anos depois das crenças e dos rituais natalícios cultivados na minha infância.

Agora, que penso neste assunto, creio que tudo o que sei sobre o Pai Natal está indissociavelmente ligado ao mundo do comércio, ao consumo. Creio que conheci essa personagem misteriosa – muito mais misteriosa que o pequeno Menino Jesus, porque não tem história, nem país, nem personalidade – através da televisão. Através da publicidade multimédia, através do específico apelo ao consumo de uma bebida – a Coca-Cola – através da presença do dito velhinho mascarado, a deambular pelas ruas das cidades, pelos centros comerciais, à porta de muitos estabelecimentos…Enfim: por mais que me esforce não sou capaz de estabelecer uma associação coerente entre o Natal – o do Menino Jesus, o do estábulo e dos pastores e dos reis magos – e a figura rechonchuda de um velho que incentiva à compra. Não oferece presentes – o que traz no saco é quase sempre um enchimento enganoso – ou, se oferece, é porque alguém os comprou e os depositou no saco para enganar as crianças… se é que as crianças ainda são, desse modo, enganáveis.

E então, não acredito no Pai Natal – nunca acreditei – porque sei que os presentes são comprados por pessoas, nas lojas e depois amontoados em torno de uma árvore, enfeitada de bolas e luzes, onde cada um encontra o seu, devidamente assinalado com uma etiqueta.

O Natal, este, para o qual as pessoas se preparam afanosamente, calcorreando as ruas, abrindo caminho à cotovelada nas superfícies comerciais – ou então, sorrindo e dizendo: “Faça o favor de passar, afinal estamos no Natal…” – comprando quantidades absurdas de bacalhau, de carne, de ovos, de bolos e abrindo as portas a uma quantidade de gente da família de que nem sempre gostam e que só convidam porque…é Natal, não comemora o nascimento de Jesus. Pouca gente pensa nisso e, mesmo que pense, remete esse facto para uma ou duas missas ou para a ostentação de um presépio, dentro de portas, com a tríade sagrada, o jumento e a vaca, ornamentado de luzes e ao lado da árvore da Natal e do tal senhor rechonchudo de fato vermelho e barbas brancas.

Outros decoram o exterior da casa. Põem Pais-Natal a trepar pelas janelas, mangueiras multicolores recheadas de pequenas lâmpadas que, reluzindo e piscando, traçam o recorte de fachadas e de árvores, e demais aparatos; as cidades usam e abusam de enfeites polícromos, erguem árvores de Natal de arame com muitos metros de altura – e já vemos os municípios a competirem entre si pela árvore de maior porte (e eis que me lembrei de imediato da Torre de Babel), fazem-se centenas de actividades ao ar livre ou nos teatros ou ainda nos restaurantes onde, com o pretexto do Natal, se juntam hordas de funcionários desta ou daquela repartição, magotes de gente, vindos daqui e dali, para, sempre em ordem ao Natal, se encherem de vinho e de comida.

Poderia continuar e aumentar esta lista de comemorações efémeras e fátuas, coloridas e reluzentes, cheias de temperos salgados e doces, mas não creio que valha a pena: qualquer um tem acesso exactamente à mesma panorâmica, ao mesmo guizalhar, às mesmas luzes e cores e atropelos. Ou a outros de idêntico cariz.

Lamento dizer que, quando se aproxima o Natal, sou acometida de uma vontade enorme de fugir para um sítio remoto onde não chegue semelhante anacronismo. Sim, anacronismo, a palavra foi escolhida de propósito, já que absolutamente nada de tudo isto que faz as pessoas agitarem-se, numa insensata correria ao consumo, exprime a festa que deveria ser feita à criança que nasceu naquele dia, em Belém, há mais de 2000 anos e que, pelo seu trabalho na terra e através daqueles a quem ensinou uma nova doutrina, acabou por transformar o mundo. Não falo somente de religião e das crenças ritualísticas com que os homens têm vindo a seguir Jesus. Falo de antropologia, filosofia, história, sociologia; falo de arquitectura, de pintura, de literatura e das artes em geral; falo de guerras santas e cruzadas de todos os tipos; falo de missões e de missionários. Falo do Homem e de tudo o que nele foi alterado – creia ou não creia na religião de Jesus – por esse nascimento que o Natal deveria comemorar.

Não sei especificar, exactamente, de que género deveria ser uma tal comemoração.

Tendo extravasado há muito do carácter estritamente religioso, assumiu contornos de

festa familiar e social, na qual se homenageia a família e se presenteiam os amigos. Por esse motivo converteu-se numa corrida às compras, num périplo por lojas de todos os géneros, estrategicamente preparadas para adular o consumidor. Por esse motivo, ainda, não dispensa lautas refeições com pratos muito específicos, mais ou menos tradicionais. Quem, nas famílias, assume o papel de preparar os banquetes, necessita preparar-se para um intensíssimo trabalho, querendo estar à altura e fazer jus à tradição.

Seja como for, parece que não é possível escapar à comemoração da efeméride.

Há alguns anos, porém percebi que há muitas pessoas que comem o almoço do dia de natal em áreas de serviço; soube também que há estâncias hoteleiras que possibilitam fugas do ambiente familiar para locais públicos, onde se come e dorme, no Natal, a troco de pagamento; sei, enfim, que muitos solitários o passam na confinação dos seus espaços privados, como se fosse um dia qualquer. Pensarão no Natal, todos esses e os outros, hospitalizados, dementes, carentes, sem-abrigo?

À medida que ia escrevendo esta não-carta ao Pai Natal, fui percebendo que a época natalícia está entranhada em nós, como se fosse um vício. Desejamo-la para dar e receber presentes, para comer ou servir certas iguarias, para nos deleitarmos com as músicas e os enfeites de casas e cidades, para acreditarmos, por uns dias, que podemos ser melhores, que até já somos bons. Mesmo quando festejamos a contragosto, fazemo-lo: porque nos pareceria mal, de nós para nós próprios, determo-nos, em indiferença, quando todos celebram, porque nos sentiríamos defraudados, na infância que resta de nós, em nós, por não almejarmos a prenda no sapatinho por baixo da chaminé. Mesmo sentindo que é vazio e fátuo desejar boas-festas a torto e a direito, fazemo-lo e até nos sentimos bem, porque do outro lado nos retribuem e a vida parece ganhar brilho. Mesmo se formos pobres, doentes, tristes e solitários, procuramos o enfeite e a sobremesa, erguemo-nos para brindar nem que seja a sós, esboçamos um sorriso: e, magicamente, a tristeza dissipa-se por algum tempo.

Por algum tempo. É essa a verdadeira essência destes dias em que nos aplicamos a ser bons e felizes: é que eles representam um lapso da vida, uma ruptura no correr rotineiro dos dias, uma entrada em esferas de irrealidade, onde sendo o que não somos acabamos por ser.

Conheci um ateu – chamava-se Miguel Torga – que, mesmo negando Deus, mesmo escolhendo, para si, um funeral profano, sem cruzes ou sacerdotes, ou rezas e toques de sino, celebrou o Natal todos os anos da sua vida. Fê-lo em família e também em comunhão com os leitores do seu Diário. É dele este poema de Natal:

NATAL (1987)

Nasce mais uma vez,
Menino Deus!
Não faltes, que me faltas
Neste inverno gelado.
Nasce nu e sagrado
No meu poema,
Se não tens um presépio
Mais agasalhado.

Nasce e fica comigo
Secretamente,
Até que eu, infiel, te denuncie
Aos Herodes do mundo.
Até que eu, incapaz
De me calar,
Devasse os versos e destrua a paz
Que agora sinto, só de te sonhar
Natal?! Mesmo os que o não querem ou ignoram ou maltratam sabem que, lá no fundo, ao evocarem o Menino-Deus e o seu nascimento. estão a celebrar, afinal a sua própria humanidade.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

NATAL - DAS ORIGENS PAGÃS À REALIDADE BÍBLICA


«Pensei que este Natal era para toda a gente...» - actor da novela "A Única Mulher" que desempenha o papel do personagem Kandimba.
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O texto não reflecte uma opinião do autor, que não é crente. Está baseado nos documentos históricos que adquiriu (a Bíblia Sagrada, edição pastoral, da PAULUS Editora, 7.ª edição 2011, com a revisão literária do Padre João Gomes Filipe), bem como outros que consultou na internet, estudando-os para poder elaborar este ensaio com propriedade.
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ALVARO GIESTA
Capturou-me a tristeza, desenhada entre traços de ansiedade, estampada no rosto do menino negro que desempenha o papel do personagem Kandimba na novela portuguesa mais badalada no momento, e levou-me a escrever sobre o Natal, de modo diferente do que habitualmente se escreve, nesta e desta data: nem conto com o Menino nas palhinhas deitado, ladeado pela vaquinha e jumento, sequer com o pinheiro ricamente ornado com enfeites de múltiplas cores, menos ainda com quanto é possível adjectivar com palavras, com prendas e presentes, unicamente para este dia, singular, que devia ser igual a todos os outros, pois Natal é sempre que o homem queira e o deve ser, e sempre, sem a hipocrisia encoberta nos votos formulados sem a vontade sincera de os fazer, simplesmente para não fugir ao que, protocolarmente, está pré-estabelecido.

Escrever sobre a mística e mítica e mais importante festa para as crianças, é coisa por demais "batida" e banal no recurso que se faz das palavras e dos gestos, tão-sempre iguais para desta data se dizer. Não me interessa saber se, do que aqui fica expresso, me acham tão mordaz ou mais ácido, nas palavras, quanto Eça o foi nos seus escritos realistas. Sou igual a mim mesmo e vertical assim serei, ora e sempre, até que passe à posição final - a horizontal. E de palavras e com palavras, secas e cruas, acredito no que a HISTÓRIA (e a BÍBLIA) me diz: JESUS NÃO NASCEU A 25 DE DEZEMBRO.

Todos os anos se chega à época final de cada ano em que todo o mundo cristão se prepara para celebrar o mais notável acto solene - o nascimento de Jesus Cristo. Para este acto, homenageando um Ser que nasceu pobre e pobre viveu durante a sua curta vida, de sandálias e túnica, tudo se cobre, nefastamente, dos mais ricos e exuberantes gestos de poder que à humildade e à pobreza repugna. «O Messias é pobre» [i] (Lu 2,21), «O Messias veio para os pobres» [ii] (Lu 2,8). «Lucas relata o momento do nascimento de Messias e... quem são as estrelas deste acontecimento? A quem aparecem os anjos a anunciar este sublime acontecimento, esta «boa nova de grande alegria para todo o povo»? Ao sumo-sacerdote? Aos ricos e senhores importantes de Jerusalém? Não. A pastores, humildes e pobres, a trabalhadores do campo, desgraçadamente pobres. A gente insignificante. Lucas, diz-nos, que aquilo que é insignificante é aquilo que Deus valoriza.

E do Natal, regressando às suas origens, falemos, para que os mais novos e os mais humildes - como o humilde actor da novela - fiquem a saber que ele nem sempre foi aquilo que se julga ter sido.

DAS ORIGENS PAGÃS:

Da Enciclopédia Católica [iii] (edição de 1912) «A festa de Natal não estava incluída entre as primeiras festividades da Igreja (...).» Na mesma enciclopédia, ensina-nos ORÍGENES [iv], um dos chamados pais da Igreja que «...não vemos nas Escrituras ninguém que haja celebrado uma festa ou celebrado um grande banquete no dia do seu natalício. Somente os pecadores ("por pecadores entende-se pagãos" como Faraó ou Herodes) celebraram com grande regozijo o dia em que nasceram neste mundo.»

Tardaram os cristãos, mais de três séculos, a celebrar o Natal adulterando, contudo, aquela que parece ter sido (a história assim nos diz) a verdadeira data do nascimento do Homem que veio para redimir o mundo. A história demonstra que, durante os primeiros três séculos da nossa era, os cristãos não celebraram o Natal. Só no século IV (ano 350) após se ter firmado aquilo a que se chamou a igreja estatal do Império Romano (o sistema que hoje é conhecido por Igreja Romana), é que a festa do Natal começou a ser introduzida. Foi o Papa Júlio I [v] que declarou o dia 25 de Dezembro - que fora o dia da festa pagã do deus-Sol - como dia festivo do nascimento do Filho de Deus; contudo, somente no século V é que foi oficialmente ordenado que o Natal fosse observado, para sempre, como festa cristã, e se realizasse no mesmo dia da secular festividade romana em honra ao nascimento do deus-Sol, já que não se conhecia a data exacta do nascimento de Cristo.

E a resposta à pergunta que não é necessário fazer, fica, para sempre, latente no espírito dos cépticos e inquietos: se fosse vontade de Deus que guardássemos e festejássemos o aniversário de seu Filho muito-amado, não nos teria ocultado a sua data, exacta, de nascimento, nem nos teria deixado, sem qualquer referência a ela, exacta, em todo o percurso da Bíblia. E, assim, foi, pelo paganismo, que nos vimos ordenados a adorar Deus, no seu Filho muito-amado no nascimento "inventado" em 25 de Dezembro. Vejamos:

DO (NÃO) NASCIMENTO DE JESUS EM 25 DE DEZEMBRO - analisando Lucas [vi], segundo o seu evangelho:

«Naqueles dias, o imperador Augusto publicou um decreto, ordenando o recenseamento em todo o império. Este primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam registar-se, cada um na sua cidade natal. José era da família e descendente de David. Subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, até à cidade de David, chamada Belém, na Judeia, para se registar com Maria, sua esposa, que estava grávida. Enquanto estavam em Belém, completavam-se os dias para o parto, e Maria deu à luz o seu filho primogénito. (...)» (Lu 2, 1-7) [vii]

«Naquela região havia pastores, que passavam a noite nos campos, tomando conta do rebanho. Um anjo do Senhor apareceu aos pastores...» (e anunciou) «hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias, o Senhor.» (Lu 2, 8-11) [viii]

Ora, é sabido (e adiante se confirmará no capítulo A BÍBLIA MOSTRA QUANDO JESUS NASCEU) que isto jamais pôde acontecer na Judeia durante o mês de Dezembro - os pastores tiravam os rebanhos dos campos em meados de Outubro e abrigavam-se para os proteger no inverno no tempo frio e das chuvas. (Adam Clark Commentary, vol 5, pag. 370) [ix]. E mais: a Bíblia, no livro bíblico Esdras diz-nos que «No terceiro dia, todos os homens de Judá e de Benjamim estavam reunidos em Jerusalém. Era dia vinte do nono mês (logo, Setembro). Todo o povo estava na praça do Templo de Deus (...)» (Esd 10,9) [x]

Ora, nascer Jesus em Dezembro, parece impossível; porque, impossível parece ser a permanência dos pastores com seus rebanhos durante as frias noites no campo, como também parece improvável que o recenseamento fosse convocado para a época das chuvas e frio, como se vê em Lucas 2,1. Mas...


A BÍBLIA MOSTRA QUANDO JESUS NASCEU:

Jesus Cristo nasceu na festa dos Tabernáculos, [xi] a qual acontecia em cada ano no final do 7.º mês (Itenim ou Tshiri) do calendário judaico - correspondente (mais ou menos) ao mês de setembro do nosso calendário, dado que o calendário judaico é lunar-solar e o nosso é solar. E, nessa festa dos Tabernáculos, das Tendas originalmente chamada, Deus, que a instituiu, habitava com o povo de Israel para que sempre o Seu povo se lembrasse dos dias de peregrinação pelo deserto. «Desde o dia quinze do sétimo mês (...) celebrareis a festa do Senhor durante sete dias (...) Morareis em tendas durante sete dias (...) para que (...) saibam (todos os descendentes de Israel) que eu fiz habitar os filhos de Israel em tendas quando os tirei do Egipto.» (Lv 23, 39-43) [xii]

Vejamos, nas Escrituras, alguns detalhes, ainda que superficialmente, que nos vão ajudar a situar, cronologicamente, o nascimento de Jesus:

Os Levitas [xiii] eram divididos em 24 turnos e cada turno ministrava por 1/24 = 15 dias, 2 vezes por ano. Com os números arredondados e corrigida, a cada 3 anos, a distorção entre o calendário judaico lunar-solar e o nosso calendário solar, 24 turnos a 15 dias cada turno, ia dar o correspondente a 365,2422 dias, o equivalente ao ano. (1 Cr 23, 1-32) e (1Cr 24,1-19) [xiv]

O primeiro turno iniciava-se com o primeiro mês do ano judaico - mês de Abibe (março/abril). O quarto turno, correspondente aos meses de junho/julho (mês de Tamuz), era aquele em que o sacerdote Zacarias, pai de João Batista, ministrava no Templo. Terminado o seu turno Zacarias voltou para casa e (conforme a promessa que Deus lhe fez) sua esposa Isabel, que era estéril, concebeu João Baptista (nos finais do mês Tamuz - junho/julho ou princípios do mês Abe - julho/agosto).

«Depois de terminar os seus dias de serviço no santuário, Zacarias voltou para casa. Algum tempo depois, sua esposa Isabel ficou grávida, e escondeu-se durante cinco meses.» (Luc 1, 23-24) [xv]. Jesus foi concebido 6 meses depois, no fim do mês Tebete - dezembro/janeiro ou início de Sebate - janeiro/fevereiro.

Diz-nos S. Lucas:

«No sexto mês (fim do mês Tebete "dezembro/janeiro" ou início do mês Sebate "janeiro/fevereiro"), o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré. Foi a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José, que era descendente de David. E o nome da virgem era Maria. O anjo entrou onde ela estava e disse: "Alegra-te, cheia de graça! O Senhor está contigo! (...) Não tenhas medo, Maria (...) Eis que vais ficar grávida, terás um Filho e dar-Lhe-ás o nome de Jesus."» (Lu 1, 26-30) [xvi]

Nove meses depois, no final do mês Itenim ou Tshiri (que cai em setembro e/ou outubro) - o mês em que os judeus comemoravam a Festa dos Tabernáculos, Deus veio habitar, veio "tabernacular" com os homens. Foi o mês em que nasceu Jesus, o Emanuel, o Filho do Altíssimo.

Jesus, o verdadeiro Messias, não nasceu neste mítico dia 25 de Dezembro. Nada existe que prove, cientificamente, que foi nesta data ou noutra qualquer, que Cristo nasceu - nem apóstolos o dizem nem a igreja com propriedade o pode provar, pois jamais a igreja primitiva e/ou os apóstolos celebraram o natalício de Cristo.


O NATAL NAS IGREJAS E OS COSTUMES NATALÍCIOS:

A Nova Enciclopédia de Conhecimento Religioso de Schaff-Herzog [xvii] diz-nos que «Não se pode determinar com precisão até que ponto a data desta festividade teve origem na pagã Brumália», nome dado às festas romanas em honra a Baco - 25 de dezembro, «a que se seguia a Saturnália», festival romano em honra ao deus Saturno que ocorria no mês de dezembro, no solstício de inverno; era celebrada no dia 17 de dezembro, mas ao longo dos tempos foi alargada à semana completa, terminando a 25 de dezembro «e que comemoravam o nascimento do deus-Sol no dia mais curto do ano.» Diz-nos ainda que, «As festividades pagãs de Saturnália e Brumália estavam demasiadamente arreigadas nos costumes populares para serem suprimidas pela influência cristã» que nascia, a quem também agradavam.

Por isso, os pagãos do mundo romano do século IV e V pseudamente «convertidos em massa» ao cristianismo que, sob a influência maniqueísta de Constantino [xviii], identificavam o Filho de Deus com o Sol, levando consigo suas antigas crenças e costumes pagãos, dissimulando-os sob nomes cristãos, «viram com simpatia uma desculpa para continuar celebrando-as sem maiores mudanças», e a adaptarem a sua festa do dia 25 de Dezembro (dia do nascimento do deus-Sol) com o título de «dia de natal do Filho de Deus». Assim foi como se introduziu no mundo ocidental o Natal.

Nesta altura se popularizou, também, a ideia de «a Madona e Seu Filho» na época do Natal. Coisa que vem da longínqua Babilónia e do poderoso caçador CONTRA Deus como se refere no Génesis [xix] «Cuch gerou Nemrod, que foi o primeiro valente da Terra. Foi um valente caçador diante do Senhor (...). As capitais do seu reino foram Babel (...).» (Gn 10,9). Nemrod era tão pervertido que, segundo os escritos, casou-se com a própria mãe, cujo nome era Semiramis. Prematuramente morto, sua mãe-esposa propagou e preservou a "reencarnação" de Nemrod em seu filho Tamuz. E declarou que em cada natal (nascimento) de seu filho, estabelecido como 25 de Dezembro, Nemerod desejaria ter presentes numa árvore. Parece ser esta a verdadeira origem da ÁRVORE DE NATAL.

Semiramis converteu-se na «rainha do céu» e Nemrode (sob diversos nomes) o «filho divino do céu». E esta veneração se propagou a todo o mundo e hoje nos aparece em imagens e estatuetas de «Madona e Seu Filho».

Mas outras leituras nos dizem que a tradição da árvore do Natal vem da Alemanha, tal qual a canção «Noite Feliz». Antes do ano 350 da era cristã, quando o Papa Júlio I, atrás referido, declarou o dia 25 de Dezembro como sendo o dia do nascimento do Messias, já o povo germânico tinha por tradição guardar ramos verdes em casa para afastar os maus espíritos. Esta prática pagã foi substituída pelo hábito cristão de manter ramos verdes em casa como símbolo da vida que Jesus trouxe a este mundo. Mais tarde os ramos foram substituídos por árvores inteiras enfeitados de velas e outros símbolos. A árvore de Natal é, hoje, o maior e principal símbolo do Natal e os ornamentos luminosos significam a luz que Jesus trouxe ao mundo. É a alegria da criançada.

Outros costumes de origem pagã se preservam na festa Natalícia:

A GUIRLANDA (coroa verde adornadas com bolas e fitas coloridas) que enfeita o exterior das portas de tantos lares, significa que ali se celebra o Natal e a demonstração de o compartilhar com os vizinhos. As VELAS, velha tradição pagã que, acesas, serviam para reanimar o deus-Sol, quando este se extinguia para dar lugar à noite.

De PAI NATAL (o Papai-Noel), estudiosos o afirmam, que a figura do bom velhinho foi inspirada no Bispo Nicolau (N. 280 na Turquia), mais tarde tornado santo por milagres relatados, por ser de bom coração, que costumava ajudar as pessoas pobres deixando saquinhos com moedas nas chaminés das casas. 

A associação da imagem do Santo ao Natal nasceu na Alemanha e espalhou-se pelo mundo - nos Estados Unidos tem o nome de Santa Claus, no Brasil Papai Noel e em Portugal Pai Natal. Representado antes (até ao final do século XIX) com uma roupa de inverno de cor marron ou verde escura, apareceu depois, pela criação do cartonista alemão Thomas Nast, em roupas de cor vermelha e branca com cinto preto, que em 1931 uma campanha publicitária da Coca-Cola, que também era da mesma cor, fez sucesso e ajudou a divulgar esta nova imagem do bom velhinho de barbas brancas e radiante pelo mundo: o mundo imaginário das crianças que, na véspera de Natal, deixa o Pólo Norte, onde habita, e, com o seu trenó, puxado por renas, traz presentes - a alegria das crianças - que foram obedientes e se comportaram bem durante o ano.

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Bibliografia consultada: