segunda-feira, 30 de novembro de 2015

UMA CARTA A UM SUPOSTO MESTRE DA PALAVRA POÉTICA

ALVARO GIESTA
Meu caro Mestre,

Hoje, e pensando com angústia no "estonteante jogo de espelhos onde Franz Kafka se representava constantemente a si próprio em personagens sempre novas", pensei em desmultiplicar-me enquanto caía nesta reflexão: «Pensar, não é dizer o já pensado ou esclarecer o esclarecido» (sic).

Li isto em qualquer lado, penso. Ou então acordei de qualquer sono mal dormido com esta máxima sonhada, que me fez pensar e decidir-me por escrever-lhe.

Sei que temos muito a dizer um ao outro. Nestes tempos que correm pouco o temos feito, distanciados que começamos a estar - embora habitemos paredes meias no amontoado de papéis sobre a mesma secretária.

O meu caro Mestre tem-se mantido fiel à velha forma de escrever, com as palavras obedecendo a todas as relações gramaticais. Teima em não separar o significado do significante, e é isto que lhe confere, reconheço, ser, o que escreve, do melhor quilate. Mas... você pensa, tantas vezes, o já pensado; esclarece, tantas mais, o já esclarecido. Há que inovar. Este seu velho e teimoso amigo, teima em dizer que - em dizer-lhe que - «pensar, não é dizer o já pensado» ou "esclarecer, não é afirmar o já esclarecido". Desculpe-me, mas parece-me que, de alguma maneira, eu evoluí na forma de pensar a poesia e você ficou parado no tempo. Estático. E, forçoso é evoluir, ainda que tenhamos de regressar às origens para, a partir daí, desvendarmos novos sóis.

Entendo - e penso que entendo bem! - que as forças condutoras dum poema, devem ser «impulsões de linguagem»; devem ser palavras escritas no espaço e no tempo, ainda que não obedeçam a certas regras gramaticais, mas, sem serem desconexas e desprovidas de sentido, que «condensem, em si, as múltiplas virtualidades significativas» (sic). Que espicacem o pensamento adormecido, que incomodem e façam pensar, como o moscardo incomodativo acossa as orelhas do asinino em dias de cálido verão.

Dizia eu, acima, que as palavras que constroem o poema, conquanto não obedeçam sempre a todas as regras gramaticais, não devem ser desconexas e desprovidas de sentido! Dizia, e digo, muito bem - são duas coisas diferentes que uma à outra se alertam para a perfeição: o escrever poesia sem obediência a todas as regras gramaticais e o (não) escrever coisas desconexas e desprovidas de sentido, dois opostos que se completam e complementam. Porque, se isto se não verificar, proliferará no texto a falta de coerência.

Dizem-me que não deve haver coerência no texto poético. Como assim? Quem produz o poema não pode ignorar, de todo, o seu interlocutor, porque é este que o vai interpretar, ainda que possam estar subjacentes ao mesmo texto poético várias interpretações. É saudável que assim seja: cada leitor interpretará, por si, o poema feito sem perguntar ao poeta como o fez; e cabe ao poeta dar ao leitor o poema que escreveu e desligar-se dele depois de o ter escrito. O poema, uma vez concluído, deixa de ser pertença do poeta; passa a ser universal - do mundo infinito em interpretações.

Embora seja certo que uma grande parte dos conhecimentos necessários à compreensão do texto poético não vem explícito no mesmo, fica dependente da capacidade de pressuposição e inferência do receptor mas, também, do construtor do texto, que o não deve construir com recurso a uma amálgama de palavras-colagens sobre outra amálgama de colagens de palavras, retirando-lhe toda a falta de sentido e coerência. E falta disso - de coerência - já nós temos em excesso nos escrevinhadores de hoje.

O poema, embora escrito sob o signo da liberdade, furtando-se ao constrangimento das normas para dar toda a liberdade de pensar a quem o interpreta e sobre ele discorre, não deve prescindir da sua coerência interna, para poder transmitir aos outros a experiência vivida pelo poeta, no momento da sua criação poética.

Seja o poeta «o engenheiro da palavra» que a constrói com alguma secura de linguagem e o rigor do esquadro e da fita métrica, negando aquilo a que se chama "inspiração", seja o poeta sem alma que constrói poemas frios sob o rigor da razão, seja o poeta da busca, da intervenção, da interrogação indagando sem inspiração nem encantamento mas com raciocínio, fazendo da poesia um trabalho intelectual, seja aquilo a que eu chamo o poeta lírico, ou seja, o poeta sentimental que apenas constrói poesia ornada de chavões líricos e metáforas escusadas, cansadas e repetidas oscilando pela falta de rigor e excesso de retórica.

É que, meu caro mestre, vejo que a poesia funciona, e penso, hoje, ao contrário de ontem, que deve assim funcionar, como um pêndulo de relógio sem, contudo, perder a sua coerência interna: um dia oscila para o rigor da filosofia e da razão, para a poesia concretista, crítica e racional aprofundando com maturidade a conquista da arte e da estética - ela será a obra do engenheiro da linguagem geometrizada e exacta que leva o poeta, antes do seu leitor, a reflectir nesse mistério da criação literária; outro dia oscilará para a poesia do coração hesitante entre aquilo que os olhos veem mas também sentem, e o coração que muitas vezes é forçado a dizer que vê o que sente sem, contudo, sentir coisa nenhuma - ela será a obra do engenheiro sem grande aspiração ao reconhecimento que o rigor da criação literária exige.

Creia o leitor e o meu benevolente mestre em ler-me, que é esta a minha forma de pensar; mas, não nego que já fiz versos ruis no antigamente. Também "os fazia" com colagens de palavras inventadas sobre colagens doutras rebuscadas obrigando ao recurso do dicionário, amontoados de colagens sobre colagens que começavam em pedras roliças com a intenção de as transformar em borboletas e papoilas amarelas e raras, versos desprovidos de sentido que rasguei sem mágoa disso sentir hoje.

Dir-me-á, talvez, que a minha massa cinzenta se desenvolveu na razão directa do decair da idade, regredindo, coisa lógica de ser com o passar dos anos; mas, afianço-lhe, que tudo isto é mais fruto dessa evolução encefálica, do que influência dos poetas actuais que quase não leio, e de quem, até, quase nem sei nomes. Isto, sim, é que é falta de conhecer e caminho para que prolifere em mim a ignorância. Mas não tenho paciência para ler "coisas" que não entendo, tão descontextualizadas elas se apresentam ao meu entendimento...

Bem: hoje fico-me por aqui nesta escassa dúzia e meia de cartas que há alguns anos lhe escrevi, mas deixei na gaveta a amadurecer - curtas cartas para não o maçar na leitura, de que esta é a primeira. Sempre vou preenchendo, da maneira que gosto, os meus dias que estavam correndo tão vazios. Pois o meu amigo sabe que nada me apraz mais do que a escrita, e de que não existe passatempo, mais culto e útil, do que rabiscarmos os nossos pensamentos, que mais não seja para os legarmos aos vindouros.

(Parede, 20/03/2009)

Atentamente, o seu pseudónimo
Alvaro Giesta


PS: mando-lhe “os sonhos dum tempo novo” que escrevi, numa dessas viagens de meia hora, do Cais do Sodré à Parede, ao som do pouca-terra do comboio eléctrico, num fim de março ventoso. Talvez, um dia, integre um livro de poemas…

«doem-me os dedos de silêncio
crispados
na ânsia de ser tempo,

dentro
da hora ainda absorta
inexplicavelmente dos porquês.

incompreensivelmente
nasce trovejante no meu mar interior
de marés intensas,
a esperança
de nascer breve e ser
a lucidez

onde a noite se estilhaça
e ganha o dia a sua infância.

não há manhãs exaustas
no secreto tempo,

apenas sonhos por sonhar
e de, no criar,
ser ânsia».

domingo, 29 de novembro de 2015

DESACORDADAMENTE

MIGUEL GOMES
Existe uma forma simples de começar o dia, acordando. 

Parece-me que a fórmula para a vida se baseia nisto mesmo, acordar. E nestas questões matutinas, seja lá o momento em que despertamos, parece-me que envolve um amanhecer para cada pessoa. Por exemplo, eu acordo apenas quando me permito andar, ainda que mancando, como agora, fruto de uma herniação discal bastante chata e dolorosa, saio do asfalto ondulado a que comparo com uma vaga ondulante no Atlântico e, alçando a perna, passo para a terra castanha, saibrenta, com restos de tonas ou cascas dos eucaliptos, pequenas pedras e raízes resistentes de árvores e arbustos que não existem mais, a que comparo ao extermínio da bondade humana pela ceifa certeira e acutilante no silêncio entre as imagens estáticas que a televisão nos vai permitindo cegar. 

Só aí, no monte, no cheiro a terra molhada que trago no palato, ainda que esteja, como agora, um Sol de Inverno ainda que seja Outono e eu, no terminar do Novembro, me permita escrever os meses com letra maiúscula, propriamente, como merecem. 

O monte, ou bouça, vai subindo, imagino-me na enseada de uma praia de uma das quaisquer ilhas dos Açores, onde ficou uma parte de mim que desconhecia existir e que encontrei, apenas, quando me vi lá, sentado num miradouro, a olhar para o horizonte aquático e sonhar-me vulto numa terra ausente que, imagino, habita apenas no céu ou onde quer que inalcançáveis os sonhos se permitam dormitar.

Passarei na terra, do raspar dos pés nos passos pelo mato rasteiro com gotículas de um orvalho que caiu na madrugada passada e persiste porque o Sol, esse apaixonado, ainda que mais próximo deste dióspiro maduro que rodopia em torno de si, quer ver até onde se vislumbra a sua sombra, pensando no dia em que sobrará de sombras em pontos cardeais que não os usuais.

Antes de adentrar pelos tufos de musgo e do espesso e fofo tapete de caruma olho uma vez mais para trás, ao longe na noite mais comprida que impaciente começa a espreitar por detrás das dezasseis horas, mais coisa, menos coisa. As estrelas olham admiradas para o tremeluzir das luzes de Natal que parecem querer imitar o bruxulear astral de quem se permite ser combustível a arder durante fracções da eternidade. 

Começa a chegar, ele, a festividade, vejo-o nos panfletos que inundam a minha caixa de correio, na miríade de coisas que tentam colar ao corpo e ao ouvido, a indispensabilidade do acessório que tornará a vida mais simples, fácil, divertida e com mais sentido!

Confesso-me atónito perante a insignificância dos meus desejos de criança em ter uma lanterna, a mesma que, depois de a tirar de dentro da bota ortopédica que deixava debaixo da chaminé, sobre o velho fogão a gás, ligava e virava para o céu, fazendo sinais de luzes para as estrelas que, na minha inocência, pareciam responder ao meu chamado. Hoje sei que as estrelas brilham não pela lanterna, mas pelos sinais que vamos emitindo, na inocência e ignorância de quem se deixe deslumbrar pela própria estrela ou pelo reflexo de um dia tímido no tímido olhar de quem se sabe perdido fora de si, pois um dia encontrar-se-á dentro de si.

Os dias correm mais depressa para todos os desatentos que vivem cervicalizados sobre a cacofonia digitalizada de uma vida que vamos tecnologificar porque nos esquecemos que os abraços analógicos são para serem saboreados na companhia de nós mesmos e dos que sabemos trazer na própria respiração.

Adentro monte ondulo pelo suave embalo que o passo afundado pela mata permite navegar. Os pinheiros são eles mesmos, independente de quem os veja, sinal da sinceridade despojada da Natureza. Eu tenho tudo a aprender como eles e, por isso, saúdo-os quando lhes passo a mão na casca e recolho um pouco da resina que vão lacrimejando ao mesmo tempo que fotossintetizando-se lavam o ar e alma de um planeta que, digitalmente, vamos abandonando, esquecendo-nos da facilidade com que ele, berlinde, nos pode sacudir borda fora, como um cão que cansado da chuva se sacode e esperricha gotículas em todas as direções e segue, depois, caminho fora sendo cão agora seco.

Saio da ilha, perdão, do monte, e chego a nova estrada, subindo a custo pelo despreparo físico e pelo marginalizado pensamento de tentar perceber onde me quer levar a vida, a palavra e a vida que me brilha pelo canto do olho. Não existe muito mais para ver. A noite esgueirou-se sem permissão do dia e vai crescendo até se fazer Natal, a noite onde se percebe que nada mais importante há que sermos importantes para nós mesmos, fazendo dos outros importantes, para que nada do que não precisamos ganhe potencial de ser importante e permaneça, debaixo da árvore, no lusco-fusco da iluminação de Natal, à espera de ser desembrulhado por quem não saiba que o abraço é o melhor embrulho que podemos fazer a quem amamos.

sábado, 28 de novembro de 2015

CONFLITOS ARMADOS E MEDICINA FORENSE

ANTONIETA DIAS
Um país em guerra, gera sempre conflitos armados, que são na sua grande parte demasiado graves, provocando lesões não só no grupo responsável pelo despoletar do problema, mas também irá provocar dano em pessoas que se encontram alheias ao sistema e ao fenómeno da guerra.

Este facto é de tal forma importante que implicou a reflexão das Nações Unidas que não ficaram alheias ao grupo de inocentes (crianças e adolescentes), atingidas e violadas nos seus direitos humanos.
Muitos destes jovens são mortos, raptados, violados sexualmente, agredidos, mutilados, vítimas de maus – tratos físicos e psicológicos, abandonados e sufocados pelo sofrimento.

Sendo certo que as crianças e jovens pertencem a um dos principais grupos vulneráveis de risco, são um alvo fácil nas situações de conflitos armados cuja focalização dirigida facilmente se instala perante esta população já de si fragilizada, incauta, impreparada e sem experiência ficando impotente quando é envolvida e apanhada de surpresa.

Estas crianças e jovens são muitas vezes alvo das táticas da guerra, que atacam as escolas, causando o terrorismo e o pavor.

Este fato gerou um enorme empenho por parte de muitos países que uniram esforços e envolveram as várias entidades internacionais mobilizando-as e criando as medidas para minimizar todas estas atitudes de violência.

Sem dúvida que as Nações Unidas têm tido um papel determinante nas últimas décadas, ao liderarem o processo de proteção destes jovens.

Esta grande preocupação social pelos jovens em perigo levou a que em Junho de 2010, o Conselho de Segurança emitisse uma declaração em que se comprometia a adotar medidas eficazes e assertivas contra os infratores.

Várias medidas foram propostas para por fim à impunidade dos infratores que cometem tão horrorosos crimes, e foram criadas as metas destinadas à proteção das crianças e jovens durante os conflitos armados.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas tem feito todos os esforços para impedirem os confrontos, salvaguardar a paz e a segurança internacional.

Assim perante as situações de guerra há que garantir o cumprimento universal das normas e padrões internacionais, acabar com a impunidade dos criminosos, promover a justiça, reforçar os mecanismos de comunicação nacionais e internacionais, garantir a sustentabilidade através da criação de mecanismos e estratégias que permitam a reintegração das vitimas traçando os caminhos que conduzam à paz.
Não é possível deixar de sinalizar o ano de 2012, em que os conflitos armados foram responsáveis pela morte de 95 mil pessoas em todo o mundo, sendo que na maior parte cidadãos civis.
Os conflitos armados ocorridos em 2012 foram na sua maioria conflitos “não internacionais.”

Sem dúvida que este período foi caracterizado como uma época difícil, sendo importante destacar os Países da Síria, Afeganistão e México pelo fato de terem sido aqueles em que o número de mortos foi mais elevado.

Um relatório da Academia de Genebra divulgou a existência de 38 conflitos armados em 24 países e territórios.

A conflitualidade desencadeada por estes fenómenos é causadora de catástrofes que lesam as sociedades abrangidas e provocam risco ambiental, acidental, conflitual tornando-as permeáveis ao terrorismo.
O crescimento da população mundial e da globalização económica e cultural, em meados do Séc. XX gerou uma sociedade de risco/perigo de desastres, catástrofes ou acidentes, que motivou vários conflitos cujas vítimas e prejuízos materiais se vieram a refletir gravemente nas condições de vida dos cidadãos, de forma acelerada, devastadora e perigosa levando muitas vezes à destruição e à tragedia nos vários pontos do globo.

Cerca de 75% da população mundial reside em áreas que já foram afetadas por catástrofes e desastres, que determinaram uma média de 184 pessoas por dia.

Na última década, as catástrofes naturais provocaram mais de 600 mil mortos e atingiram de forma indireta ou direta cerca de 2,4 biliões de pessoas.

Estas mortes exigem a intervenção de uma das grandes áreas da medicina focalizada para a investigação das causas de morte e identificação dos cadáveres, sendo esta obrigatoriedade da responsabilidade das ciências forenses, mais especificamente da área da tanatologia. 

A Medicina Forense: “É a disciplina que efetua o estudo teórico e prático dos conhecimentos médicos e biológicos necessários para a resolução dos problemas jurídicos, administrativos, canônicos ou militares, com utilidade, com utilitária aplicação propedêutica a estas questões” (Basile e Waisman).

A medicina – legal, carateriza-se por ser uma ciência onde os vários conhecimentos da medicina e do direito se focalizam na resolução dos problemas relacionados com as lesões corporais.
A nobre missão da medicina e da justiça têm como suporte a investigação dos vários ramos da ciência forense e do direito.


A ciência e a arte exigida para emitir um parecer pericial, obriga a que o perito tenha um conhecimento profundo sobre o universo científico deste ramo da medicina, para poder emitir um parecer alicerçado em sabedoria especializada, de forma clara e esclarecida independentemente do destino e da forma oral ou documental que irá traduzir e descrever os aspetos técnicos e científicos do caso em apreço, para que o juiz possa compreender e analisar o laudo pericial como um peça fundamental na decisão judicial.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

PRÉMIOS DE MÉRITO NA EB 2/3 AMARANTE

GABRIEL VILAS BOAS E A COLEGA ROSA MARIA
Hoje, o Agrupamento de Escolas de que faço parte (Agrupamento de Escolas de Amarante) entrega os prémios de Mérito aos melhores alunos do ano letivo anterior. São oitenta alunos que sobem ao palco da escola para receber o seu diploma e respetivos prémios associados (uma estatueta, um livro, um crachá).

É a quarta vez que o Agrupamento promove esta festa, onde os melhores alunos do 4.º, 6.º e 9.º anos são premiados. Recordo como há quatro anos a ideia sofreu resistências por parte de alguns professores, que viam nos quadros de mérito reminiscências do ensino no tempo da ditadura salazarista ou então sugeriam que tais prémios serviam propósitos de estratificação escolar, replicando a estratificação social.

Sempre vi com bons olhos os Prémios de Mérito na escola pública portuguesa. Reconhecer o mérito dos alunos estudiosos, trabalhadores, aplicados é um dever da comunidade e um ato da mais elementar justiça. E não é uma tarefa fácil alcançar tal prémio. Os alunos têm de tirar uma média igual ou superior a 4,5 (numa classificação máxima de cinco) e obter, pelo menos, a classificação de quatro nas provas/exames de Português e Matemática. Além disso, não podem ter qualquer participação disciplinar nem falta injustificada.

Só quem acompanha o trabalho diário deste tipo de alunos percebe quanto eles se sacrificam, quantas horas devotam ao estudo, quantos fins-de-semana passam a estudar para manter um nível tão alto, durante todo o ano escolar.



DINA SANCHES, DIRETORA DA ESCOLA

Esses jovens são um exemplo para os colegas e não há quem discuta, inter pares, o seu mérito. O primeiro e mais importante reconhecimento que estes jovens obtêm vem dos seus colegas. Depois chega o reconhecimento dos professores, da direção da escola, dos pais, da comunidade. 

Os Prémios de Mérito são também o reconhecimento do trabalho, da persistência, da dedicação de muitos professores que ajudaram os seus alunos a chegar a este patamar de excelência. Silenciosamente, gozam o momento, apreciam aqueles rapazes e raparigas, que ajudaram a crescer, recebendo as palmas da plateia repleta e sentem-se, um bocadinho, também merecedores delas. Muitas vezes são estes jovens o combustível que os faz trabalhar melhor, que os desafia, que os faz sentir minimamente realizados numa profissão tão causticada e tão desconsiderada pela sociedade. 

Nos últimos anos chamei ao palco centenas de alunos amarantinos, citei os seus nomes por completo, debaixo das palmas de colegas, professores, familiares, entidades públicas locais e senti-lhes aquele lindo brilho nos olhos que trazem as pessoas felizes. Desfrutar desses momentos é um dos raros prazeres que a profissão de professor ainda encerra.

«OS ANJOS DE PEDRA», NOVO LIVRO DE ANABELA BORGES APRESENTADO EM AMARANTE


Pormenor da mesa de apresentação
Narrativa evoca a história de amor entre Dom Pedro e Inês de Castro, com interlúdios de «Os Lusíadas», de Luiz de Camões.  

Pela voz do editor Luiz Pires Dos Reys e do poeta e crítico literário José Emílio-Nelson, a obra veio a lume, no passado dia 21 de Novembro, na Biblioteca Municipal Albano Sardoeira.


Trata-se de uma narrativa de inspiração inesiana, que desfia uma sequência de solilóquios de Inês de Castro e de Camões (que, como se sabe, tratou o tema n' «Os Lusíadas») e que, à beleza do modo de dizer antigo, associa o olhar do homem dos nossos dias.
Uma pequena obra que não é uma obra pequena.

As imagens da capa e contra-capa da obra reproduzem trabalhos do pintor Paulo Damião
[cortesia da galeria de arte Trema-Arte Contemporânea]”.

EDIÇÕES SEM NOME

ANABELA BORGES
AS PALAVRAS DA AUTORA

Trata-se de uma narrativa a duas vozes (a de Camões e da própria Inês) sobre a mui nobre e grandiosa (segundo muitos crêem, única no mundo) rainha póstuma, Inês de Castro. É uma obra que me é muito cara, já que a tenho escrita há quase três anos e só agora (depois de apreciá-la, cuidá-la, ‘ouvi-la’) me decidi a publicá-la.

Mais do que um momento solene, para mim, a apresentação de cada nova obra é um momento de gáudio e de festa, por poder contar com o apoio de conterrâneos, amigos e família.
É imensa a honra de ver esta obra publicada pelas Edições Sem Nome, pela mão do seu editor Luiz Pires Dos Reys, que apostou nela de uma forma singular. Eu não poderia ter encontrado melhores incentivos do que aqueles que me foram apresentados, desde o primeiro ao último sopro do livro, da primeira à última palavra do livro que agora tendes em mãos.
 
Capa do livro
Não é fácil falar sobre o processo de criação desta obra em particular.
Eu quis escrever uma história de amor. E não me foi dado ver outra que superasse a de Pedro e Inês, tão abordada em todos os géneros literários, cantada por tempos imemoriais, e nunca esgotada.
Mais afirmo que não tenho qualquer pretensão de que este livro seja classificado de narrativa histórica. Desenganem-se os que assim pensarem, pois esta é uma narrativa puramente ficcional e ficcionada.
Como referia atrás, quis escrever uma história de amor. Precisei de auxílio – aquilo que muitos designarão de inspiração, ou se fosse na voz do Poeta “o engenho e arte”. De facto, foi este Poeta, o próprio Luiz Vaz de Camões, que veio em meu auxílio. O episódio lírico de Inês de Castro (Canto III, est. 120 a 136 de «Os Lusíadas») é talvez aforma mais sublimada de cantar esta forma de amor que ultrapassou vozes, paredes, atravessou o próprio tempo, e, cuidando de derrubar um reino, ultrapassou a própria morte. Camões analisa este Amor, eleva-o com a paixão dos poetas, condena-o com a indignação que as circunstâncias lhe provocaram. Por essa razão, por ser o amor tão generoso e tão cruel, o próprio poeta condena-o, na epopeia, como “áspero e tirano”, que quer suas “aras banhar em sangue humano”. Veio Camões em meu auxílio para ser um dos narradores de «OS ANJOS DE PEDRA». É o que dá os poetas serem esternos.
Camões surge, assim, na minha obra como comentador-observador, como testemunha desse amor que tantos quiseram calar, mas que nenhuma voz conseguiu silenciar, pois por tempos imemoriais, se cantarão os amores de Pedro e Inês.
 
Pormenor do auditório da Biblioteca Albano Sardeira
Depois, há a voz de Inês. Pode dizer-se que é uma voz que ecoa fortemente em mim. É uma voz que me fala e muito me diz. Eu transformei também a voz de Inês em narradora.
A Inês de Castro que vos trago nesta obra é a mulher que talvez apenas possa ser inteiramente compreendida pelas mulheres, mulher frágil e determinada, angustiada e intuitiva, sacrificada, subjugada, impotente, apaixonada. “Nunca me foi dado saber que tivesse o destino assim fadado, senão agora, guardada que trago a meninice a um canto da memória. Vejo-me menina, numa infância roubada em obrigações, num caminho que fiz tão longo da Galícia para aqui, para vir servir tua esposa, para ser das aias a mais bela – a tua eleita.” (passagem da obra «OS ANJOS DE PEDRA»).

A minha pretensão última, isso sim, é que esta obra constitua um louvor à Rainha Póstuma, Inês de Portugal – na voz de Camões: 
O caso triste e digno de memória,
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da mísera e mesquinha
Que despois de ser morta foi rainha”.
– Na voz de «OS ANJOS DE PEDRA»:
Deitados frente a frente, olhos nos olhos, para o dia do juízo final, podereis sentir, Pedro e Inês, como é o poder dos anjos, pois que aos anjos é dado assistir na vida e na morte, estátuas em túmulos, anjos de pedra – pois que assim seja.
Serás rainha, Dona Inês, como sempre desejou o teu amado – pois que seja feita a sua vontade, post mortem”.


Para terminar, faço votos de que, no fim das contas, no fim de cada caminho, encontremos sempre o amor.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

ZÉ BRASILEIRO, PORTUGUÊS DE BRAGA

Sr. Pinto Coelho,  Português de Amarante Gatão


HELDER BARROS
O Senhor Pinto Coelho foi uma pessoa que conheci durante a minha mocidade, sendo que jamais o poderei esquecer, pela sua forma de ser: amigo, leal, exuberante, culto e animado. Tratava-se de um brilhante orador, um autentico contador de histórias, um homem que não estudou muito, mas que era capaz de relatar episódios da História de Portugal, como se de um historiador se tratasse. Ademais, tinha uma cultura acima da média, para quem não possuía formação académica superior. A sua vida de aventureiro, de viajante, de emigrante no Brasil, de mulherengo, de bom amigo do seu amigo e de pessoa de convivência muito fácil, só tornaram a sua bagagem cultural muito superior, enriquecendo-a com a chamada universidade da vida, neste caso, muito rica e variada em experiências. 

No Café Bar era comum estar no grupo dele, com o meu falecido Pai e o Sr. Pinto Coelho, sempre de forma estridente e apaixonada, em alegre cavaqueira, em tertúlias que só terminavam quando a noite já ia muito avançada. Falava das suas aventuras amorosas, nunca as reduzindo a relações sexuais… a mulher exercia naquele ser uma exaltação tal que, só a podia ver como um todo, de forma holística. Começava sempre por descrever os seus antigos amores, com frases do género: “olhem, ela tinha as mãos mais lindas que já encontrei; os lábios mais doces; os seios mais belos; as pernas longas e bem-feitas, o sorriso mais belo… etc.”. E discursava de igual modo entusiasmado, de política, de negócios, de futebol, da sociedade em geral que, ninguém ficava indiferente, à sua forma afectada de discursar na primeira pessoa.

Durante a primeira metade do século passado, a emigração para o Brasil foi sempre uma oportunidade para homens como o Sr. Pinto Coelho, pessoa bem relacionada, bem-falante e com bastante cultura, que não formação. E o valor destas pessoas é tal que, partindo para um novo mundo, como é o Brasil, a partir de um meio pequeno, como era então a Vila de Amarante, estas pessoas singravam rápido na vida, graças ao seu poder de adaptação, de persistência e de empreendedorismo. De facto, o Brasil foi sempre um palco à medida da ambição dos portugueses, um país rico e que permite que se cresça, um país em constante desenvolvimento, também pela sua dimensão territorial, que dá muito mundo e às pessoas que o queiram agarrar. 

O Sr. Pinto Coelho foi um desses emigrantes de meados do século XX que, de uma família remediada de Amarante, procurou subir na vida num palco que permitisse o seu crescimento, embora batalhando muito para tal, como se pode ver no clima socioeconómico da altura que passo a citar: «Apesar das muitas campanhas para combater esta saída de pessoas, a mesma mostrou-se sempre imparável até princípios dos anos 60 do século XX. No Brasil esta vaga continua de imigrantes, apesar de ser fundamental para o desenvolvimento do país, não deixava de levantar resistências, nomeadamente dentro da própria comunidade portuguesa. No Brasil esta vaga continua de imigrantes, apesar de ser fundamental para o desenvolvimento do país, não deixava de levantar resistências, nomeadamente dentro da própria comunidade portuguesa. A vinda de mais imigrantes foi por vezes sentida como uma ameaça aos que já estavam instalados. Esta vaga migratória chegou mesmo a ser interpretada como a continuação da anterior ocupação colonial, o que era um incómodo para um país que procurava afirmar a sua independência para à sua antiga metrópole.» in “Memórias da Emigração Portuguesa”.

O que é certo é que em meados dos anos oitenta, quando regressou a Portugal, o Sr. Pinto Coelho, era um Homem bem na vida e de bem com a mesma. Acumulou uma pequena fortuna no Brasil, o que lhe permitiu manter em Portugal, um elevado nível de vida, que já tinha no Brasil. Era um vendedor de peças e acessórios de automóveis que corria semanalmente milhares de quilómetros no Brasil, para realizar os seus negócios. 

Mas, tal como Teixeira de Pascoaes, as saudades da terra eram grandes e falo em termos da terra em si; este Homem tinha saudades de mexer na terra, de tal forma que comprou uma quinta com um montado enorme, em zona de montanha, e, terraplenou, abriu caminhos, enfim, construiu uma nova quinta, que suplantou em muito a original. Plantou pomares, dos mais variados tipo de fruta, e de todo o tipo de curiosidades nas suas grandes hortas. Sempre sonhou em construir uma casa com vista direta para o Marão, o que não chegou a concretizar.

Tinha dois filhos, um de cada uma das mulheres com quem esteve legalmente casado, um homem e uma mulher. O homem ficou no Brasil a gerir os negócios do pai; a filha casou com um engenheiro inglês e vive em Inglaterra. 

Como a agricultura dificilmente deixa alguém rico, até metia dó ver o dinheiro que gastou para transformar montes em campos agrícolas. O meu falecido Pai sempre o foi alertando, mas a vontade daquele Homem em viver uma vida dedicada aos prazeres do campo, que ele recordava nas suas conversas e em que ficavam patentes as saudades que ele tinha dos tempos de menino, em que foi criado em ambiente rural; um tal saudosismo da terra que Pascoaes taõ bem inscreveu na sua obra e que o desafiava constantemente. 
Mas, tratava-se de uma figura única, quantas vezes o vi desfilar, entrando e saindo de bancos, lojas e cafés, de fato branco, chapéu de cowboy branco, sapatos brancos, contrastando com o escuro predominante das pessoas da sua idade com que se cruzava, nos anos noventa idos. 

Homem de uma cultura ímpar, recitava poemas de Camões, de Pascoaes, citava passagens dos livros de Camilo Castelo Branco e de Eça de Queiroz, como se de um estudioso dessas matérias se tratasse. Amarante já não tem estes seres mágicos nos seus cafés, em tertúlias infindáveis e com tanto de inesperadas, como de espanto para quem os ouvia. 

Falava da sua meninice em Gatão, como Pascoaes também tratava nos seus livros e colóquios, de forma nostálgica. Mas tratava-se de uma saudade alegre que relembrava coisas fabulosas, que nos conferia esperança em poder viver assim... de forma tão apaixonada pelas coisas mais comuns e que, para eles, eram maiores. 

Faleceu em sua casa, como queria, na sua quinta, comendo badanas de bacalhau e sopas de tronchudas e comia com oitenta anos de idade uma melancia pela manhã, porque para o Sr. Pinto Coelho, noctívago de sempre, de manhã, bem cedo é que se começava o dia! Nos últimos tempos da sua existência passou dificuldades, pois o dinheiro que enterrou na terra, jamais teve retorno e aos poucos foi desaparecendo... teve no entanto a amizade da nossa família que sempre o ajudamos, mesmo quando ele não queria. Ele, na sua infinita bondade e amizade, sempre nos ajudou e apoiou. Homem de valores, um dos quais se fundava na amizade que cultivava de forma profunda, nobre e verdadeira.

Pessoas de Amarante que eu conheci e que me marcaram; venham mais destas que vale a pena conviver com estes seres mágicos.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

"PARA ENSINAR HÁ UMA FORMALIDADE A CUMPRIR - SABER"

PAULO SANTOS SILVA
Há 170 anos atrás, mais precisamente no dia 25 de novembro de 1845, nascia numa casa da Praça do Almada na cidade da Póvoa do Varzim, um dos maiores vultos da literatura portuguesa – José Maria de Eça de Queirós. Filho de um magistrado nascido no Rio de Janeiro e de uma portuguesa nascida em Monção, o romancista terá visto os seus pais casarem quando já tinha 4 anos, uma vez que a avó materna não teria dado o seu consentimento para o enlace. Assim, os pais de Eça apenas casaram seis dias após o falecimento da avó. 

Devido a algumas contingências de uma infância atribulada, Eça de Queirós foi entregue aos cuidados de uma ama, até ser internado no Colégio da Lapa no Porto, de onde saiu aos dezasseis anos para cursar Direito na Universidade de Coimbra. O seu pai, magistrado formado nesta Universidade, foi o Juiz Instrutor do processo de Camilo Castelo Branco, tendo também passado pela Relação, pelo Supremo Tribunal de Justiça e presidido ao Tribunal de Comércio. Além de deputado, fidalgo cavaleiro da Casa Real, par do Reino e do Conselho de Sua Majestade, foi ainda escritor e poeta. 

Entre os vários amigos que fez em Coimbra, destaca-se o grande Antero de Quental. É nesta época que os seus primeiros escritos são publicados na Gazeta de Portugal, tendo sido mais tarde publicados postumamente na obra intitulada Prosas Bárbaras. 

Terminada a licenciatura em Direito, foi tempo de rumar a Lisboa onde exerceu a advocacia e o jornalismo, tendo chegado a diretor de diversas publicações. Entre 1869 e 1870, fez uma viagem de seis semanas a terras do Oriente, tendo assistido à inauguração do Canal do Suez. Desta viagem resultaram muitas notas que viria a aproveitar em obras tão emblemáticas como O Mistério da Estrada de Sintra e A Relíquia. 

Regressado desta viagem, ingressou na Administração Pública tendo sido Administrado do Concelho de Leiria. Foi nesta cidade e neste período que escreveu aquela que é considerada a sua primeira novela realista e sem dúvida das mais polémicas – O Crime do Padre Amaro. Bastaram apenas três anos para ingressar na carreira diplomática, tendo exercido as funções de Cônsul de Portugal em países tão diversos como Cuba, Inglaterra e França.

Terão sido os anos passados em Newcastle e Bristol na Inglaterra, os mais produtivos em termos literários. Foi neste período que surgem obras como Os Maias e A Capital. Esta obra, escrita numa prosa hábil e realista, relata a história da ambição social, profissional e pessoal da personagem principal, Artur Corvelo, que é acompanhada ao longo do seu amadurecimento emocional e consequente resignação à triste realidade. Viria a ser terminada pelo seu filho e publicada postumamente, em 1925. Manteve, também, a sua atividade jornalística, ainda que de forma esporádica, através da rubrica “Cartas de Inglaterra”, publicada nas colunas do Diário de Notícias. A sua última obra, A Ilustre Casa de Ramires, foi publicada em 1900, ano em que faleceu na sua casa de Neuilly-sur-Seine, perto de Paris, onde exercia funções diplomáticas como Cônsul, desde 1888.

Teve direito a honras de Funeral de Estado, tendo sido sepultado no Cemitério dos Prazeres em Lisboa, de onde foi mais tarde transladado para o Cemitério de Santa Cruz do Douro, em Baião. 

Juntamente com Ramalho Ortigão, assinou em 1871 as célebres Farpas. Estas publicações mensais, foram uma notável crítica à sociedade da época. Através de textos onde se utilizava a crítica e a ironia, satirizava-se com muito humor à mistura, a imprensa e o jornalismo partidário ou banal. Também a Regeneração, e todas as suas repercussões, não só a nível político mas também económico, cultural, social e até moral; a religião e a fé católica; a mentalidade vigente, com a segregação do papel social da mulher; a literatura romântica, falsa e hipócrita não escapavam à acutilância dos autores. As Farpas foram um novo e inovador conceito de jornalismo - o jornalismo de ideias, de crítica social e cultural. 

Eça de Queirós, publicou as suas “Farpas” em 1890, numa compilação à qual deu o título de Uma Campanha Alegre. Ao revisitar o conteúdo da escrita de Eça de Queirós, somos confrontados com uma quase assustadora atualidade. Se tem dúvidas, deixo-lhe alguns exemplos:

“Em Portugal a emigração não é, como em toda a parte, a transbordação de uma população que sobra; mas a fuga de uma população que sofre.” in Uma Campanha Alegre (As Farpas) 

“Hoje que tanto se fala em crise, quem não vê que, por toda a Europa, uma crise financeira está minando as nacionalidades? É disso que há-de vir a dissolução. Quando os meios faltarem e um dia se perderem as fortunas nacionais, o regime estabelecido cairá para deixar o campo livre ao novo mundo económico.” in Distrito de Évora

Ao ler estes escritos, diria que Eça de Queirós faria 170 anos hoje, se fosse vivo?...

terça-feira, 24 de novembro de 2015

‘LAUDATO SI’ – ENCÍCLICA DA TERRA PARA A MUDANÇA DO HOMEM

J. EMANUEL QUEIRÓS
Sobrepesando na Terra a cinza e o sangue do arbítrio humano desencontrado de si, venho de reler a Carta Encíclica que o Santo Padre Francisco dirigiu «a cada pessoa que habita neste planeta», com o título “Laudato Si” (Louvado Sejas), na qual o Bispo de Roma, em seis capítulos, actualiza as preocupações doutrinárias da Igreja “Sobre o Cuidado da Casa Comum”.
A ressonância mediática que esse documento ecuménico obteve, assim que a sua matéria foi anunciada nos órgãos de comunicação e nas redes sociais, desde logo, despertou um interesse muito particular pela proximidade nas temáticas que me trouxeram ao conteúdo do livro “Terra – Portal de Vida, Planeta do Homem” (Dez.2014), e que confere com o propósito do Papa «entrar em diálogo com todos acerca da nossa casa comum».
Ao terceiro ano do magistério pontifício, o cardeal Jorge Mario Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, nas 187 páginas desta sua segunda epístola papal, divulgada no passado dia 18 de Junho (2015), faz incidir a sua reflexão na ecologia da Terra. Matéria intemporal concreta, paradoxalmente esquecida e colateral para a generalidade dos fiéis, de grande actualidade e emergência para a Humanidade.
Iniciando o texto com a citação de São Francisco de Assis no Cântico delle creature, reposicionando o louvor ao Senhor “pela nossa irmã, a mãe terra”, o Papa Francisco propõe-se interpelar a consciência humana sobre o estado de degradação que lhe vimos infligindo de forma acelerada, visando «renovar o diálogo sobre a maneira como estamos a construir o futuro do planeta». Em forma de alerta cívico global, contudo, a Carta não deixa de tocar uma vertente eminentemente política, exigindo aos seres humanos um «compromisso constante com os problemas da sociedade».
O chefe da Igreja Católica apela ao senso crítico de cada um para que não renunciemos a questionar «pelos fins e o sentido de tudo», com o propósito de que recuperemos a «profundidade da vida», contra o tédio e o vazio que o progresso da ciência e da técnica aportaram. Reconhece a crise ecológica como expressão da crise que assola o homem na sua natureza espiritual, considerando que a sua origem está na «falta de relação com Deus».
O Papa enfoca na Terra o apelo a uma «ecologia integral», ampliada às esferas da sociedade e do indivíduo, considerando fundamental o desenvolvimento integral da pessoa humana assegurada no bem-estar e na segurança social, na solidariedade intergeracional e no atendimento aos mais pobres. Implicitamente, o texto remete-nos para a escala de uma estação astronómica, indissociável do endereço cosmológico do Universo onde perseguimos os «caminhos de libertação» que o Papa, seguindo a tradição doutrinária da Igreja, reporta sendo um «mistério gozoso».
O documento realça a importância do ser humano no contexto dos sistemas naturais e anota os atributos que ao homem conferem faculdades manifestas que o permitem conduzir-se pelo «ideal de harmonia, justiça, fraternidade e paz». No entanto, a Humanidade e o indivíduo conhecem-se mal a si mesmos e ao mundo onde tudo está interligado, «meio ambiente, organismos vivos, componentes físicos químicos e biológicos do planeta, sociedade», e do qual culturalmente nos distanciamos.
Perante as fragilidades reconhecidas nos sistemas naturais do planeta e diante da crise que enfrentam, a Carta Encíclica estabelece um referencial crítico ao «mito moderno do progresso ilimitado», considerando a necessidade de «limitar o nosso poder», com vista a «colocar o ser humano no seu lugar e acabar com a sua pretensão de ser dominador absoluto da Terra». Responsabiliza a política que não considera «espaço para uma séria preocupação com o meio ambiente» e não faz por «integrar os mais frágeis, descredibilizando-se «devido à corrupção e à falta de boas políticas públicas», incapaz de «enfrentar os grandes problemas da humanidade».
Denunciando o rumo errado que o homem vem imprimindo ao mundo, o Papa Francisco exorta ao compromisso do indivíduo com a sua própria evolução, clarificando que «antes de tudo é a humanidade que precisa de mudar». O desafio é educativo, acima de tudo, e está nas mãos dos seres humanos tomá-lo em consideração e empreendê-lo pela tomada de consciência de uma origem comum, duma recíproca pertença e de um futuro inevitavelmente partilhado por todos.
Com a superação dos individualismos, a regeneração dos estilos de vida tornarão possível uma mudança relevante na sociedade visando o cuidado com o meio ambiente, a defesa dos pobres e a paz entre os homens, desideratos para que muito devem contribuir, também, o diálogo inter-religioso, com as ciências e das ciências entre si.
Nesse reordenamento e harmonização terrena, precedendo um plano sequencial de desenvolvimento na escala evolutiva, a religião católica e a Igreja permanecem inquestionadas no serviço de intermediação com «Deus todo-poderoso e criador». Sem referência a outros estádios de ligação e sintonia com o Universo, a «fé cristã» surge qualidades de um exclusivo da própria Igreja e é entendida como a única âncora possível para todos que defendem a dignidade das pessoas.
A encíclica reporta a insustentabilidade do consumo de uns que conduz à destruição do ambiente enquanto outros não conseguem viver de acordo com a sua dignidade humana, considerando que a política não deve estar submetida à economia, como ocorre na lógica do paradigma eficientista da tecnocracia. Contesta a maximização do lucro pelo aumento de produção sem respeito pela perda de recursos futuros e pela saúde do meio ambiente, dando orientações no sentido da redefinição de progresso que tenha em conta a preservação da natureza.
O Santo Padre Francisco recupera a ideia do meio ambiente como património da Humanidade e fundamenta a crítica ao paradigma tecnocrático no modo cultural como por ele somos condicionados, usando seus recursos dominados pela lógica do lucro, ignorando as consequências para o ambiente e para o homem. Neste contexto o Papa denuncia a fome e a miséria no mundo as quais, adverte, não terão resolução com a liberalização dos mercados e o crescimento.
Alertando para o problema das desigualdades e das injustiças, o Papa Francisco esclarece que resultam da exclusão e da pobreza, por contraponto à ostentação e ao desperdício das sociedades mais ricas e que o planeta não suportaria que fossem generalizados.
Em face da crise sócio-ambiental generalizada o sumo pontífice preconiza soluções integrais de fundo humanista, tais como o combate à pobreza, a integração dos excluídos e os cuidados permanentes com a natureza, e propõe ao homem uma fundamental «conversão ecológica» duradoura e comunitária que se ajuste à ordem e ao dinamismo inscrito no mundo.
Considerando o planeta a nossa pátria colectiva e a Humanidade o um só povo que habita uma casa comum, o texto é extraordinariamente crítico com os poderes focados na obtenção de resultados imediatos para responder a interesses eleitorais e não integram uma agenda ambiental com visão ampla a pensar no bem comum. Denuncia a corrupção por troca de favores que evitam debates profundos, fugindo ao dever de informar e promovem a ocultação de informação fundamental.
No entanto, fica por concretizar um domínio do conhecimento que se situa no conforto da exaltação de Deus, no exemplo de Jesus, na recomendação à oração, no exercício do culto, na participação da Eucaristia, matérias que nos remetem para a tradicional visão dogmática do mundo centrada na exclusividade da «fé cristã». O encontro no exercício de vida cada vez mais carece de mais amplo significado existencial, em cada um, considerando tratar-se dos domínios concretos em que as mistificações e os mistérios ganham valor e perante os quais os potenciais de transformação do indivíduo ficam diminuídos ou amputados embora o mundo não seja propriedade da via teológica preconizada pela Igreja.
No que a Encíclica se revela marcante – além da amplitude das matérias da ecologia abordadas com efeito reflexo no homem –, é na mensagem (r)evolucionária que nos aporta. Veiculada num texto inconformado com a paralisia generalizada do empreendimento humano, perante a gravidade dos problemas criados pela civilização, o Papa Francisco incita à coragem do homem para que avance, com urgência, para uma «revolução cultural», orientada para outra forma de entendimento do progresso «mais saudável, mais humano, mais social, mais integral».

Na Encíclica “Laudato Si” a Igreja renova e expande os seus fundamentos doutrinários para domínios das ciências da Terra e da Vida e o Santo Padre no desiderato do diálogo universal redimensiona os tradicionais horizontes institucionais em aproximação à essência humana e aos compromissos de mútua comunhão com a Terra que, assim, se tornam mais próximos da sua desocultação ontológica. 

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A INTUIÇÃO E O INTELECTO

(dois opostos entre dois pontos, apenas à distância de um salto inalcansável)
«(...) Sem olhar à profundidade dos seus sentimentos, à vastidão dos seus conhecimentos, o homem aparentemente completo não o é sem que tenha aperfeiçoado as suas tendências. Quem quiser melhorar os condicionalismos externos tem de começar por melhorar os internos. Quando as coisas não estão a correr bem há qualquer coisa em mim a dizer-mo. Às vezes tenho de pensar muito para descobrir o erro e como corrigi-lo. Depois de resolver o problema sinto-me novamente bem. Isto prova que «O seu instinto leva-o mais longe que o seu intelecto».
Alfred Montapert, in "A Suprema Filosofia do Homem"
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ALVARO GIESTA 
Intuir é negar à razão o direito a conhecer de imediato; seja, é conhecer directamente as coisas sem a necessidade de recorrer à razão para delas tomar conhecimento. E é por esse motivo que a razão nega também a intuição pela sua incapacidade de a encontrar. O intelecto não encontrando a intuição não a pode explicar, embora a possa sentir. E não a pode explicar porque, para explicá-la seria necessário buscar a sua causalidade - responder às perguntas: de onde ela vem, porque vem, como vem e qual a relação causa-efeito entre a intuição e a coisa conhecida.


Ora, porque a intuição não nasce do intelecto nem com o intelecto, não faz uso do recurso do raciocínio para explicar sobre o conhecimento das coisas, não precisa da razão para conhecer, porque ela é, em si mesma, um fenómeno não científico e irracional, um fenómeno não-fenómeno, podemos com firmeza dizer que a intuição não se explica. Se nascesse do intelecto ela poderia ser explicada, tinha que ser explicada porque ela seria, obrigatoriamente, racional pela razão que vinha do e com o raciocínio. Mas ela, a intuição, é um fenómeno irracional que jamais pode ser reduzido ao intelecto.

E aqui cabe reflectir sobre os dois domínios de existência - o (já) "conhecido" e o (por enquanto) "desconhecido" (sendo que este último é aquilo que o intelecto ainda busca) -, para podermos fazer uma destrinça entre aquilo que muito nos confunde: entre o FENÓMENO (não-fenómeno) INTUIÇÃO e o PODER DO INTELECTO. Ou seja, entre aquilo que é inacessível ao conhecimento e aquilo que a razão já conheceu ou vai conhecer; entre o "impossível de conhecer" e o já "conhecido" que indagou o "onde", o "como" e o "porquê", ou o que, embora (ainda) "desconhecido", se vai conhecer usando o raciocínio. Portanto, um e outro fenómenos (estes dois últimos) são domínios da razão para deles conhecer.

Assim, a intuição não é um fenómeno "desconhecido", porque este, sendo do domínio do intelecto, há de ser conhecido através da indagação, da pesquisa, da experimentação. A intuição é, sim, um fenómeno "incognoscível" - ou seja, inacessível ao conhecimento. A qualidade intrínseca do incognoscível é ser isso mesmo: INCOGNOSCÍVEL. É com o incognoscível, isto é, com aquilo que não pode ser conhecido pelo raciocínio, que a intuição labora, ao contrário da razão que trabalha com o conhecido e com aquilo que, embora sendo desconhecido pode vir a ser conhecido.
O instinto leva-nos mais longe que o intelecto - «conhece-te a ti mesmo», disse o filósofo. A intuição é a arma perfeita para, em auto-análise seguida da acção, tornar o Homem em «escola da sabedoria».

Jamais o intelecto poderá conhecer o que nunca pode ser por ele conhecido. Esse místico incognoscível chamado intuição vem de qualquer lugar desconhecido no vazio do ser, de qualquer lacuna do ser, que nunca do intelecto - embora o intelecto a possa sentir mas nunca explicá-la dado não ser um fenómeno científico mas, outrossim, um fenómeno puramente irracional.
A intuição não acontece; surge de qualquer lugar desconhecido do ser pois, se acontecesse, tinha necessariamente que ser explicada. Podia ser explicada. Mas, porque a intuição vem de um domínio diferente do acontecer, um domínio diferente de qualquer causa intelectual e racional que forçosamente interroga e procura as causas primeiras e últimas e as suas consequências com a finalidade de, aproximando-as do intelecto, as explicar e chegar à primeira causa que moveu o primeiro motor imóvel, ela é a realidade mais elevada do ser que, assim sendo-o, jamais pode ser penetrada pela causa mais baixa, neste caso o intelecto do próprio ser, que interroga para chegar à causa primeira. A intuição é essa causa primeira e irracional do ser, é esse fenómeno não científico e inexplicável pela razão por ser o poder mais elevado do ser.
É o fenómeno incognoscível que a razão não alcança, tão semelhante à mente que penetra no corpo impossibilitando, contudo, o seu contrário; assim a intuição pode penetrar no intelecto (poder mais baixo) e nunca este pode ascender à intuição porque esta é o poder mais elevado do ser.

Recorrendo ao raciocínio de Osho sobre o que diz ser a intuição «(...) nem sequer é um fenómeno; é unicamente um pulo no nada para o ser», se pode deduzir que a intuição é uma «lacuna» que apenas o intelecto sente mas que é impotente para a explicar; embora sentindo-a como lacuna, não a pode explicar porque não sabe, o intelecto, como nasce a intuição, onde nasce a intuição e porque nasce a intuição.
Ela é um fenómeno que, na voz de Osho, não chega a ser fenómeno. Àquilo a que a razão chega é apenas "sentir" que "aconteceu qualquer coisa" que a ultrapassou. E essa qualquer coisa é o tal fenómeno inexplicável, o tal fenómeno não científico e irracional, o tal não-fenómeno.

A razão nega, sempre, poder à intuição porque esta jamais pode ser explicada e o intelecto só aceita aquilo que pode ser explicado. Tudo o que está para além da razão e a ultrapassa é a realidade mais elevada do ser, o tal fenómeno que, não sendo fenómeno, não pode ser explicado numa relação de causa-efeito, e jamais aceita, o intelecto, que a intuição lhe fale. Ele, o intelecto, na sua procura das coisas, das causas e dos seus efeitos, jamais deixa que o instinto lhe dê pareceres. Mas, mesmo assim, ou talvez por isso mesmo, o intelecto estará sempre acorrentado à intuição; jamais a razão se separará da intuição como o corpo jamais se separará da mente.

A intuição, fenómeno não-fenómeno mais elevado do ser, como lacuna do pensamento, jamais pode ser reduzida ao intelecto.
E assim se justifica o título dado ao inquietante artigo: A INTUIÇÃO E O INTELECTO - dois opostos entre dois pontos, apenas à distância de um salto inalcançável.

domingo, 22 de novembro de 2015

TRIGO E JOIO MUSICAL

MIGUEL GOMES
- Parece-me que o fim está próximo.

O semblante não preocupado de quem profere afirmação apocalíptica surpreende. - Porque dizes isso?

Continua calado, a soprar a espuma que flutua sobre o café negro na caneca larga de metal e perdido um pouco nos pensamentos que só ele poderá saber ter. Levantou-se, com a caneca presa pelas pontas dos dedos, o vapor sobe pela palma da mão e sai por entre os dedos e, de repente, é como se aquela mão grande se parecesse com uma floresta na bruma, envolta em nevoeiro espesso que se vai dissipando quando meia dúzia de raios solares penetra árvores e raízes adentro. Dá três passos para cada lado e imagino-o como um gigante pêndulo de um relógio afinado, comparação que se esmorece porque aqui, longe da tridimensionalidade, o tempo é um conceito que não existe, pelo menos no sentido lato a que nos habituamos.

Olha para mim e com a cabeça aponta para fora da janela. Levanto-me e aproximo-me, limpo o embaciado vidro e olho. Um formoso berlinde azul, verde e castanho, populado com neblinas brancas e cinzentas, que reluz a cada vez que a face virada para a estrela, parece resplandecer um desequilibrado conjunto de cores. Longas cores e deformadas circunferências daquilo que parece ser uma espécie de campo electromagnético perturbado oscilam ao redor do planeta. Paciente, o planeta, acomoda-se e reage pacientemente ao desequilíbrio que alguns dos seus habitantes lhe causam. 

A cada fração de segundo entram e saem pequenos pontos luminosos daquela esfera minúscula, esquecida, pensam eles, neste braço desta galáxia, uma entre infinitas, deste universo, um entre infinitos. Um ou outro ajuste é necessário, seguindo referenciadas linhas geodésicas, o planeta rebuliça, expele-se, contorce-se, apresenta por vezes um esgar de dor que se reflecte não pela cara, que não a possui, pelo menos a olhos meus que o vejo daqui, de trás da vidraça, mas sim no descolorido e esburacada campo que a circunda. Isto parece preocupá-lo, rodopiando a caneca nos dedos, já sem o calor do vapor na mão, encostando a cabeça à madeira que ladeia a janela e colocando uma mão sobre o meu ombro. Suspira.

Parece-me dividido entre o amor de duas criações, o jardim que plantou e as plantas que nele nasceram. Sem friezas nem emocionalismos, mantém-se impávido no semblante preocupado. Cerra os olhos. Abre-os novamente. Ao fundo, aquele berlinde colorido, rodopiando e girando num escuro firmamento, sacode-se e liberta uns quantos pontos luminosos, aumenta a velocidade, novas sementes nascem no jardim sem certeza (quem a terá) de quanto permanecerão no solo arável.

Na medida que acelera, o campo que o circunda parece homogeneizar-se, mas por pouco tempo. Desconhecedoras da infinitude de jardins, de plantas e sementes que existem noutros e no mesmo solo, estas agridem-se, flagelam-se, contorcionam ramos e espinhos, picando-se a si mesmas e a todas as outras que a ladeiam. Por entre caótico cenário, outras plantas permanecem em silêncio preocupando-se apenas em libertar o máximo de sementes invisíveis, que ascendem ao véu azul e depois caem indiscriminadamente pelo jardim, na terra queimada, negra e agredida, colocando um pouco de balsâmico sentimento no desorganizado arado que se revolve, mas por pouco tempo, pois outras espécies de plantas se preocupam em criminalizar e organizar autênticas pragas sobre tudo o resto, deixando abandonadas plantas e sementes de todas as espécies e todos os habitats, agindo como donas de um jardim que desconhecem, mas mesmo assim tentam controlar, o solo, o vento, a água que de ninguém cai para todos e nebulam o próprio véu azul com imagens aterrorizadoras de um futuro que pertencerá a quem não se deixar confiar à sua protecção.

- Espero pouco mais. Não poderei sacrificar um jardim pelas plantas que não se deixam semear por elas mesmas. - Porquê? Não me respondeu. 

Desencostou a cabeça da madeira, deu-me um ligeiro apertão no ombro que me pareceu um emotivo até já. Continuou a andar pela sala e saiu por uma das portas que dão para infinitos alpendres nesta casa de infinitos andares, acima e abaixo, digo-o embora nunca as tenha visitado pois ouço os passos, acima e abaixo de onde estou. Continuando a rodopiar, aquele pequeno berlinde habitado por pobres, por vezes vorazes, seres desconhecedores da infinidade de outros mundos além do seu próprio interior, sem estenderem ramos e folhas para o astro e astros próximos, olham para o seu caule e admiram-se de si mesmos, folheiam-se e pavoneiam-se sem a preocupação do pólen que transportam e transbordam a cada respiração. Ao lado, caem e rebolam espécies de plantas diferentes, embora partilhando o mesmo solo são vistas como inferiores, servindo para estas atingirem os seus objectivos de ostentação, desaparecendo a cada rotação do berlinde que habitam.

Pacientes, flutuam na invisibilidade orbes de plantas distintas, de formas e espécies jamais imaginadas, na preocupação deste jardim adoentado no limite da transformação musical, de uma oitava para outra, prontos a acolher as plantas que se souberem música e decidirem escalar a pauta da canção que são. Até no silêncio se podem fazer ouvir, na orquestral sinfonia que parece reger este e todos os andares e horizontes para longe de cada janela pode onde espreito e, acredito, outros possam também observar.

O som que emana, agora, parece um aglomerado desorganizado de sons estilhaçados e desinteressados, sem preocupação por harmonias ou desrespeitadores de qualquer maestro que as possa colocar penduradas na serenidade do seu lugar na plantação, seja pauta musical, seja a leira arada pelo mão de um criador.

sábado, 21 de novembro de 2015

TELEVISÃO, ESSA CAIXA MÁGICA

JORGE NUNO
Comemora-se, na presente data, o Dia Mundial da Televisão, instituído pelas Nações Unidas em 1996. A televisão faz-me ter presente a imagem do café do Bafeta, cujo proprietário, corcunda, era uma figura castiça e manhosa, mas com a ousadia suficiente para adquirir o primeiro televisor da localidade – um caixote enorme com imagem a preto e branco, pois claro –. Estávamos em 1957, ano em que teve início a televisão em Portugal. Havia um canal único e bem controlado, em tempo de ditadura. Como o estabelecimento, tipo tasca, era relativamente pequeno, assim como eu (pois ainda frequentava a escola primária), ficávamos em pé, do lado de fora, tal como era frequente na capela, nas cerimónias religiosas em dias festivos. Só que para ver a televisão a paixão e o fervor seria maior, pois até púnhamo-nos em bicos de pés, a acotovelar-nos no exterior e a espreitar pelas duas pequenas janelas, para tentar ver alguma coisa.

Foi aí, no café do Bafeta, que tive acesso pela primeira vez às artes de palco, tudo em direto, deixando-me fascinado. Foi aí que vi as primeiras peças de teatro e filmes portugueses, os quais foram repetidos à exaustão, e que, estranhamente, eram sempre revistos com agrado. Relembro “Aniki Bóbó”, de Manoel de Oliveira, e uma série de comédias bem-sucedidas como o “Pátio das Cantigas”, o “Leão da Estrela”, “A Canção de Lisboa”, a “Aldeia da Roupa Branca”, a “Maria Papoila” e “O Costa do Castelo”, de que faziam parte grandes atrizes e atores, como Vasco Santana, António Silva, Ribeirinho, Milu, Laura Alves, Mirita Casimiro, Beatriz Costa, Curado Ribeiro (…).

Mais tarde, na Casa do Povo, e com uma enorme plateia, sentada, a olhar para aquela caixa mágica, assisti ao mais emocionante jogo de futebol de que tenho memória. Decorreu em Londres, no ano de 1966, e tratou-se do célebre Coreia do Norte – Portugal, na estreia de ambos num campeonato mundial. Portugal perdia por 3 – 0 e viria a ganhar, heroicamente, por 3-5, com 4 golos do saudoso Eusébio, que se sagrou o melhor goleador da prova e contribuiu para que Portugal chegasse ao 3.º lugar, ao eliminar a União Soviética, que tinha o melhor guarda-redes do mundo – Yashin –. Já naquela altura havia maluqueira pelo futebol, a ponto de o meu avô paterno, que trazia trabalhadores à jorna no campo, dispensá-los para verem este jogo, pagando-lhes como se estivessem a trabalhar. Nesse mesmo ano, teria a possibilidade de ver a peça “As Árvores Morrem de Pé, com a Palmira Bastos, na sua bela idade de 90 anos, a ter uma magnífica representação e a deixar-nos a frase que ficou célebre: “Morta por dentro, mas de pé, como as árvores”, a qual serviu de inspiração a muitas mulheres deste país, numa altura em que estas não eram minimamente valorizadas na sociedade.

Outro programa que marcou o panorama televisivo (à época, duplamente cinzentão) foi o primeiro talk show português e uma lufada de ar fresco – o Zip-Zip –, que teve apresentação de Raul Solnado, Fialho Gouveia e Carlos Cruz. De igual modo, marcou-me a mim também, mesmo ainda sem saber que os conteúdos eram previamente negociados com a PIDE, e que entre os espetadores que assistiam à gravação no Teatro Villaret estava sempre um agente da mesma polícia política. Apesar das restrições, a crítica subliminar, feita através de este programa, serviu para alertar muitas consciências.

Em 1968 surgiu um segundo canal da RTP. Apesar de ele, durante muito tempo, ter uma fatia de mercado na ordem dos 4%, eu fazia parte de uma minoria que o privilegiava, para ver programas de índole cultural.

Em 1975, ano em que se iniciaram as emissões a cores, já se respirava liberdade e os programas refletiam isso.

Nos anos 80, quem passava os “domingos de alcatifa” fez de “O Passeio dos Alegres” um programa de sucesso. Era um programa de entretenimento apresentado pelo Júlio Isidro, que lançou imensos jovens talentosos, hoje artistas consagrados ou… esquecidos. Entretanto, o Herman José fazia sucesso com programas humorísticos, com destaque para o “boneco” criado por si – o Diácono Remédios –, a fazer-nos lembrar, com sorrisos, a censura de má memória. Também a Ivone Silva e o Camilo de Oliveira faziam furor com “Sabadabadu”, um programa de humor que teve curta duração, mas que se via com muito agrado, devido ao talento de ambos.

Em 1992 surgiu a primeira estação de televisão privada em Portugal – a SIC –. No ano seguinte, foi a vez da TVI. Dai para cá deu-se uma evolução espantosa, mas com as seguintes ressalvas: o falhanço da alteração do sinal analógico pelo sinal digital, através da “imposição” da TDT – Televisão Digital Terrestre; o evidente exagero de muitos programas que recorrem à mesma estratégia de autofinanciamento, com recurso a chamadas de valor acrescentado; os enormes intervalos, cheio de publicidade, que fazem esquecer que programa estava ser transmitido; o baixo nível de programas [incompreensivelmente] de grande audiência, como os reality shows, pelovoyerismo, ou os programas musicais no exterior, em que se valoriza a mediocridade; todos os canais generalistas têm um número anormal de rubricas com culinária, numa altura em que falta o pão em muita mesa; as imagens com os horrores da humanidade, em direto, levando à banalização, à indiferença… estendendo, no tempo, as notícias sem novidades, numa luta pela liderança de audiências; os inúmeros “fazedores de opinião”, pagos principescamente, com a estratégia de influenciar; os julgamentos na “praça pública”, com revelação de processos judiciais em segredo de justiça; os elevados riscos para a saúde física e mental das pessoas, e particularmente as crianças, devido ao número excessivo de horas em frente ao televisor. Mas falava de “evolução espantosa”. Num curto espaço de tempo, passou-se de apenas quatro para uma “infinidade” de canais. As velhas antenas nos telhados foram substituídas pelas antenas parabólicas, para logo caírem em desuso. Surgiu o sistema por cabo coaxial, para logo aparecer o de fibra ótica. Hoje, os pacotes com 200 ou mais canais [pagos, naturalmente] estão associados a uma box, que permite selecionar: canais generalistas; informação; desporto; entretenimento; programas infantis; filmes e séries; estilos de vida (moda, culinária…); documentários; música; estações de rádio; sistemas de gravação automática e manual; sistema de videoclube; apps (jogos, compras, youtube…); área do cliente (para gestão dos serviços adquiridos ou a adquirir). Como se isto não bastasse, há televisões que permitem imagem em HD, 3D e agora Ultra HD e, com umasmart tv, tem-se acesso à internet e pode usar-se com as funções de um computador. Apesar de se ver televisão nossmartphones, na rua ou em qualquer lugar, sem fios, e ter-se acesso a programas emitidos até há 7 dias atrás, tenho noção que dentro de 10 anos, se esta crónica voltar a ser lida, alguém irá sorrir por toda esta tecnologia/ maravilha se encontrar obsoleta.

Bem… não sei se será bem assim. A ser como no filme “Idiocracy”, traduzido para “Terra de Idiotas”, o desfecho será mesmo bem diferente. Trata-se de um filme em HD, que passou recentemente num canal de televisão, englobado no tal pacote. Resumidamente, o argumento retrata um homem banal, talvez pouco inteligente, com a tarefa de um bibliotecário nas instalações de uma unidade militar, cujo local de trabalho mais parecia a de um arquivo morto. O personagem principal, Joe Bauers, encarnado pelo ator Luke Wilson, vê-se envolvido num projeto militar de hibernação, na expetativa de ser “acordado” ao fim de um ano. Só que o projeto viria a ser abandonado e o bibliotecário esquecido. O personagem surge uns séculos depois, no ano de 2505… Eu gosto de humor inteligente, e reconheço que neste havia idiotice a mais para o meu [bom] gosto. Confesso que senti um forte impulso para desistir de ver o filme e, simplesmente, mudar de canal ou ir ler, como tantas vezes faço. Mas não, resisti, pela curiosidade, e fui mesmo até ao fim. No prosseguimento do filme… o Joe Bauers deu-se conta que estava perante uma população sem neurónios, completamente alienada e estupidificada pela televisão, o que fazia dele o indivíduo mais inteligente de todos, e viria a resolver muitas das trapalhadas em que os outros (e ele próprio) estavam metidos. Estando eu bem longe de aplicar um rótulo de “qualidade” neste filme, mesmo na presunção de ser uma caricatura, não deixa o mesmo de nos alertar para os perigos da alienação através da televisão. E pelo jeito que isto leva!…