quarta-feira, 30 de setembro de 2015

A FLAUTA MÁGICA

PAULO SANTOS SILVA
Em 1791, precisamente neste dia (que é como quem diz, há uns bons 224 anos…), estreava a ópera A Flauta Mágica, no Theater auf den Wieden em Viena de Áustria.

Seguindo um argumento, ou como se diz em termos musicais um libreto, do autor alemão Emanuel Schikaneder, Wolfgang Amadeus Mozart compôs algumas das suas mais inspiradas melodias. O que vindo de Mozart, não era de espantar.

Schikaneder, era companheiro da mesma loja maçónica que Mozart. Devido à influência da Revolução Francesa, a Maçonaria por esta altura atraía imensos simpatizantes, sendo no entanto perseguida. Esta ópera em dois atos, promove assim os valores do Iluminismo, segundo os quais a sabedoria é o único caminho para que haja justiça e igualdade entre os homens. Desta forma, questiona-se o modelo de sociedade vigente, que assentava nas relações de poder e subordinação impostas pelos nobres e pelos aristocratas. 

Podemos, pois, dizer que A Flauta Mágica é uma ópera que pretende mudar mentalidades, descrevendo de uma forma alegórica (através das provações que as personagens Pamina e Tamino têm de passar, impostas pelos membros do Templo da Sabedoria, para atingir no final a sua felicidade plena), o caminho que o Homem tem de percorrer para sair das trevas do pensamento da Idade Média e, assim, chegar à luz do pensamento iluminista. O caminho que as personagens têm de seguir até à sabedoria, é representado nesta ópera pela personagem Sarastro, um soberano que simboliza a racionalidade de um homem que detém o poder sem ser pela força. Em oposição a esta personagem, surge a Rainha da Noite que representa a tirania, a superstição a irracionalidade e a subordinação social e intelectual, uma vez que é ela que determina tudo o que os seus inferiores devem fazer, ou até, pensar. No fundo, tudo aquilo que a sociedade era e que o Iluminismo condenava. 

Ao longo da ópera, surge também a apologia da Maçonaria ao encontrarmos diversos rituais semelhantes aos de iniciação maçónica, como os que Pamina e Tamino são sujeitos e que testam o seu amor e persistência, até serem recebidos no Templo da Sabedoria. 

Quando Mozart escreveu esta ópera, passava por sérias dificuldades financeiras. A sua esposa, grávida, já não se encontrava com ele. Há, no entanto, registos de alguma troca de correspondência entre eles onde Mozart tece alguns comentários ao sucesso da ópera. Sim, porque apesar de no início não ter sido bem recebida, rapidamente se tornou num sucesso, enchendo salas com público ávido de a ela assistir. Não foi assim de espantar, que tivesse atingido as 100 representações em novembro de 1792. Pena foi, que Mozart já não pudesse ter assistido a essa récita, uma vez que tinha falecido em dezembro de 1791. A história da sua morte, envolta em grande mistério, há-de ser alvo de uma próxima crónica…

Ainda hoje, mais de 200 anos passados sobre a sua estreia, A Flauta Mágica é uma das óperas mais representadas e conhecidas do público. Mesmo que não conheça a obra de forma aprofundada, estou certo que já ouviu alguns deles, quanto mais não seja, em publicidade. 

Fique, pois, com a emblemática ária da vilã da história – a Rainha da Noite – intitulada Der Hölle Rache kocht in meinem Herzen, que é como quem diz, A vingança do inferno arde no meu coração. Não é qualquer soprano que a canta, acredite. Apenas os sopranos de coloratura, ou seja, com grande extensão vocal se atrevem a tentar cantar aqueles fás sobreagudos!... 

Delicie-se com esta interpretação da enorme Diana Damrau e, já agora, tenha um bom Dia Mundial da Música!!!


terça-feira, 29 de setembro de 2015

APONTAMENTO SOBRE "A CIVILIZAÇÃO DO ESPECTÁCULO" DE VARGAS LLOSA

REGINA SARDOEIRA
Acabo de ler a obra de Mario Vargas Llosa, A Civilização do Espectáculo. E sinto uma extrema afinidade com a maior parte dos seus argumentos. E cito-o: 

"(...) porque é que a cultura dentro da qual nos movemos se foi banalizando até se transformar em muitos casos num pálido arremedo do que os nossos pais e avós entendiam por essa palavra? Parece-me que tal deterioração nos mergulha numa crescente confusão da qual poderá resultar, a curto ou longo prazo, um mundo sem valores estéticos, em que as artes e as letras - as humanidades -terão passado a ser pouco mais do que formas secundárias de entretenimento, no seguimento daquilo que os grandes meios audiovisuais oferecem ao grande público e sem maior influência na vida social. (...) "*

Fixo-me nas palavras" entretenimento" e "espectáculo" e percebo que quase tudo o que hoje corre sob o nome de cultura tem por quase exclusiva finalidade divertir, fazer passar o tempo de um modo agradável e leve ou envolver-nos numa apoteose de luzes, de cores, de sons que possa alienar-nos, esbatendo o pesado fardo da nossa vida real. Deste modo, nada é para ser levado muito a sério. Um livro deve ser simples e acessível, uma música, leve e que, de preferência, dê para dançar, uma pintura, feita de cores harmoniosas ou de acordo com a decoração da nossa sala. 

Lendo este ensaio do prémio Nobel da Literatura de 2010, reencontro-me e quase me perdoo por não participar em inúmeros e contínuos eventos "culturais", redimo-me da minha ausência frequente de múltiplas plateias por onde escorre a "cultura" e justifico a fuga com que me vou demitindo de publicar os livros que, apesar de tudo, não paro de escrever. 

Nada me apetece fazer que tenha alguma semelhança com os actos mais do que frívolos que testemunho, um pouco por toda a parte, actos em que se lançam livros em cerimónias convencionais e repetitivas, ou se descerram lápides e se inauguram monumentos, ou se organizam feiras e exposições para fingir que nessas festividades recreativas se realizou cultura. 

Se, por esta ou por aquela razão me acontece ver-me envolvida numa dessas manifestações, logo me assalta um estranho sentimento e volto a citar Vargas Llosa: 

"Até que, de repente, comecei a sentir que muitos artistas, pensadores e escritores contemporâneos estavam a gozar comigo. E que não era um facto isolado, casual e transitório, mas sim um verdadeiro processo do qual pareciam ser cúmplices, além de certos criadores, os seus críticos, editores, galeristas, produtores e um público de papalvos que aqueles manipulavam a seu bel-prazer, levando-os a engolir gato por lebre, por razões crematísticas e às vezes por puro snobismo. "*

Sim, é isso mesmo e ainda bem que não se trata de uma esquisitice minha, esta de não conseguir levar a sério certos escritores, ou pintores ou músicos, e me sentir incomodada pois não me resigno a fazer coro com elogios, citações e reconhecimento de mérito dos que pouco ou nada valem e contudo lançam correntes e modas. 

A Sociedade do Espectáculo, a do livro de Vargas Llosa, que é esta em que vivemos, tomou conta de tudo, nada nela é profundo ou elaborado, porque a vida de todos os consumos cansa muito e no fim é necessário descontrair. 

Descontrair, na mornidão de um sofá, fazendo deslizar o comando da televisão daqui para ali e só captando fragmentos ligeiros de tudo e de nada; na imobilidade fixa de uma secretária, movendo o rato do computador em busca da pequena informação ou da coscuvilhice banal; no folhear lascivo de brochuras escritas de propósito para preencher o ócio ou remendar vazios. 

Espectáculos, quantas vezes medíocres ou francamente maus, onde se misturam técnicas e se vai saltando de um motivo para outro - dos discursos para o teatro, do teatro para o canto, do canto para os meios audiovisuais... - numa mescla estonteante, de onde não saberemos muito bem como sair. 

O pior é que não vemos indícios de que seja possível reverter esta situação, dificilmente encontraremos, uma vez mais, a pureza nítida que separa o bom do mau, que traça a fronteira para o médio e o medíocre, dificilmente será restaurada a importância dos valores criados pelos grandes génios da literatura , da pintura, da arte, enfim, cujas nobres lições poderiam servir de escola - e qualquer mestre forma, mas deve ser abandonado pelo discípulo - as reputações criam-se e desfazem-se com a velocidade de um relâmpago, sem deixarem a sombra de um lastro que valha a pena reter. 

Penso que apenas uma espécie de cataclismo, capaz de fazer regressar a humanidade a uma era primitiva, na qual não restassem indícios ou memórias deste nosso tempo incaracterístico, poderia devolver ao homem o gérmen original da pureza criadora. E, com a luz do alvorecer, começaríamos de novo.

*Mario Vargas Llosa,  A Civilização do Espectáculo,  Quetzal

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

JOSÉ MARAFONA – O FOTÓGRAFO DO “RACIONAL-IRRACIONAL”

ALVARO GIESTA 
Dos seguidores da arte de escrever com luz que conheço, há um que me toca particularmente pela sua originalidade em retratar o mundo que, não sendo nova, continua a impressionar. Pelo menos a mim, leitor mais ou menos atento que sou destas manifestações artístico-filosóficas do ser. José Marafona, assim se chama ele. Um fotógrafo diferente. Um fotógrafo conceptualista. Um surrealista, na verdade, carregado com fortes doses de razão!

Assim define, ele, a sua arte conceptual: “O conceptualismo aplicado à fotografia é uma “ferramenta” que pode ser ajustada por forma a criar fronteiras ténues entre estados mentais próximos do surrealismo, mas separados logicamente por uma pequena dose de razão.” (Marafona, 2002) Talvez possamos então ver nele mais um fazedor de imagens usando a razão, do que um fotógrafo; convenhamos, pela análise das transformações racionais que faz às suas imagens depois de capturadas pela objectiva da sua máquina fotográfica. Põe nelas, no remanso do seu estúdio, aquilo que a imaginação lhe dita no momento em que espreita o objecto a capturar.

Deixem-me que, de José Marafona, que conheço pessoalmente mas de quem me vou divorciar neste processo de escrita crítica a fim de separar as águas da razão das águas da emoção, expresse dele o que eu penso da “racionalidade-irracional” das suas imagens.

Há muito que deixei de o ver por aí, em sites e exposições, que eu bem gostaria que tais fossem realizadas com maior frequência. Mas entendo que um artista da sua envergadura, pela exigência que faz de si próprio na execução do seu trabalho, necessita de dias, quiçá semanas ou, até meses, para preparar e levar à execução uma exposição das suas imortais fotografias surrealistas. José Marafona marca a diferença pela diferença das suas imagens. No acto de capturar ele consegue ver, usando a imaginação, para além do normal visto pelo óculo da sua máquina; vê, usando a imaginação, mais do que aquilo que efectivamente o comum dos mortais vê. É, como que, o seu contrário com outro subconsciente a conseguir ver para além do real que aos seus olhos se apresenta. É um poeta a escrever com a luz. Captura o mundo real que lhe fornece a objectiva e transforma-o, depois, duma maneira inquietante e imaginária, mas racional, num mundo outro, um mundo tão seu, instável e transitório. É a fuga do fotógrafo-poeta ou do poeta-fotógrafo para além de si.

Como José Marafona retrata a deformação deste mundo(!), na composição que faz das e nas suas imagens fantasmagóricas, segundo o seu método que me atrevo a classificar quase de “paranóico-crítico”, tão próprio dos surrealistas dos anos 30. Deixem-me que vos diga que o Mestre da imagem José Marafona – meio esquecido pelos mass media – é, dos que conheço da actualidade (e são poucos, mesmo muito poucos, com a sua categoria e craveira), o mais próximo de Salvador Dali. Uma dúvida se me põe, às vezes, a este respeito: “estará ele mais próximo de Dali ou este de Marafona?” – um na fotografia, o outro na pintura, obviamente!

Perdoem-me os seguidores de Dali, pela comparação que faço, mas é o que penso e o que sinto ao ver as imagens de um e de outro. Um desabafo para dizer de Marafona, que muitos dos “pseudo-conceptualistas” que pululam por aí, são apenas “pseudo-coisa nenhuma” ao lado da sua sombra. Devo confessar, nesta altura da escrita, que até eu já fiz uma vergonhosa tentativa e, cabisbaixo, me arredei dessa senda intentada sem sucesso.

Plagiando Salvador Dali nas suas palavras sobre si ditas, José Marafona, também, neste seu método quase “paranoico-crítico” constrói/destrói esta “sociedade de palhaços monstruosamente cínica e tão inconscientemente ingénua, que faz o jogo da seriedade para melhor esconder a sua loucura”. Marafona dá forma à vida a partir dessa “mistificação do mundano”, nessa “transformação ininterrupta do objecto” sob a “visão-exame” paranoica das suas muitas realidades do “mundo exterior”, tão “instável e transitório” – já André Breton o dizia de Salvador Dali e eu o considero agora de Marafona. Tal como aquele via deste na análise das suas telas, também eu leio nesta fotografia conceptual de Marafona, uma maneira distorcida de ver o mundo real.

Fotografia racional-irracional tão suspeita como perturbadora, quantas vezes com um sabor terrífico, até, pela forma que imprime ao mundo nesta sua visão real-irreal da realidade transformada, que impõe aos outros com a precisão imprecisa das multifacetadas leituras a que levam os seus objectos fotográfico-fantasmagóricos. Existe uma “irracionalidade concreta” e única nas fotografias fantasmagóricas com que distorce o mundo em redor do humano depois de o observar sob um cirúrgico olhar crítico sem qualquer laivo de loucura mas, antes, recheado de uma racional lucidez que só os arautos da sabedoria, em dissecar, conseguem. O seu lado místico casando tão bem a fé com o terrífico – ao lado da cruz a representar o Bem, tão presente nas suas imagens, o outro lado a mostrar o Mal. Quase sempre a oposição de forças antagónicas na sua visão “paranóico-crítica” muito além da simples visão de qualquer mortal.

Que pretenderá Marafona neste seu método meio louco de “fabricar” a imagem? Inventar-se a si mesmo nestes clarões súbitos e abruptos em impulsos e por impulsos de tempo sem obedecer a regras, sem seguir um mestre que lhe guie o norte? Na incandescência das suas imagens ele mitiga a sede da diferença, talvez para se mitificar no eu-fotógrafo-conceptual diferente de quaisquer outros que por aí apareceram nos séculos que o antecederam. É um José Marafona sem mestre que se mitificou a ele próprio no seu método sui generis de escrever com a luz. O valor das imagens que cria reside no facto de, em si mesmas, elas se tecerem como símbolo, urdirem elas próprias a sua dignidade, falarem por si mesmas sem necessidade de conhecer o mestre. 

Quanto esforço se faz para se poder ler o seu pensamento sobre as suas imagens, puras invenções surrealistas! Quanto interesse despertam os objectos desconcertados das suas figuras carregadas de “ambulantes fantasmagorias” – figuras que nada têm de abstracto mas tão concretas se apresentam! – ditadas pela exploração sábia que faz do eu-subconsciente. É na incandescência das suas imagens únicas, que se distingue como mestre de si próprio. Sabe explorar tão bem o seu subconsciente para poder ver para além do real! Impede que, nesta sua maneira paranoica e única de transformar a realidade tão difícil de se dar a ler nas imagens fantasmagóricas que cria, que outros que por aí andam em tentativas de imitar o Mestre, o transformem no seu mito.

A maneira como tenta ir para além da definição da imagem visual e da sua função dando ao seu acto da visão a capacidade do ver-psicológico, do ver- imaginário, fazem-no olhar para o interior das coisas e transformá-las radicalmente num puro acto racional-irracional, dando-lhe (a sua própria) voz interior, imprimindo-lhe alucinação visual, e fazendo pairar, quem as analisa, numa atmosfera de sonhos. E quantas vezes de sonhos doloridos! Os objectos móveis e silenciosos que compõem as suas fotografias tão racionais quanto irracionais, pelo desconcertante no aspecto absurdo que têm, respondendo a fantasias e desejos claramente latentes, mais que latentes, expressamente manifestados, são talvez o grito da lucidez que ainda existe nesta sociedade de carneiros que seguem o seu pastor de varapau erguido e ameaçador, em que o povo – surdo-mudo e já sem “querer” parece ter perdido a vontade para se opor aos governantes que lhe sugam a seiva e lhe põem a pata em cima do cachaço – é o único a suportar e a puxar o peso da desgraça.

Impressionam-me os seus “Delírios”, os seus “Devaneios” e os seus “Estados de Alma”. E uma pergunta me fica na garganta e sem resposta: Será que o importante em José Marafona é a “obra” que cria forma nesses delírios, nasce desses devaneios e cresce e vive desses e nesses estados de alma, ou são as “ideias-leituras” que a sua arte transmite e fica sem tradução para muita gente que olha a obra e não (se) interroga pela simples razão de que, “pensar” incomoda muita gente?

domingo, 27 de setembro de 2015

A ÚLTIMA PODA

MIGUEL GOMES
O tempo invariavelmente colhe de nós próprios aquilo que semeou, tenhamos frutos ou folhagem descolorida pelo errático Outono, somos sempre sacudidos na volta do equinócio para deixarmos cair aquilo que fomos ventando ao longo das nossas próprias estações.

Confesso que a redacção de um punhado de letras me tolda a vista, pelas nuvens que descem nesta manhã e se confundem por entre o milho seco, o castanheiro, a figueira e as próprias pessoas. A própria manhã parece sentir frio, ao encostar-se a mim na procura de um calor que não transporto. Para cada época há um tempo, colher e semear, rir e chorar, dualizar neste mundo polarizado, ainda, onde vamos lavrando os dias como se deles dependesse o arado, coitados, sem saberem que a terra é dela mesma e o arado tem costas largas para a guerrilha a que lhe tentam impor.

Gasto linhas na descrição do indescritível, na esperança que ao escorrer o pensamento se assomem as ideias e os dedos ganhem o habitual bailar multidimensional, mas estou sozinho, em mim e no final de tarde. Os dedos, lentos, ostentam nas extremidades, ali bem ao jeito do sabugo, o resto de uma vindima matinal, com meias luas de sujidade e um negro que embora saia facilmente, vou fazendo por tê-lo como sinal de um cacho que não será mais colhido. A casa, os muros, a rede, tudo pareceu-me gigante quando em tempos de outros tempos viviam entre mim e o quotidiano os sonhos de ser alguém, antes de saber que o alguém que sonhava era eu a ser vindima. A estrada, atarefada, vê caminharem sobra ela veículos e pessoas que se aceleram num misto de ansiedade e demência, a necessidade de se chegar ao ponto onde sabemos que voltar atrás é andar para a frente.

A escada não pesa tanto, os passais parecem mais curtos, mas percebo rápido que a distância ausente deve-se ao crescimento da videira que somos. Em dias de chuva cairiam por entre as mangas da camisola o pequeno dilúvio que nos arrepia o impropério, mas hoje está, ou esteve, sol porque até ele quis ver, pela última vez, a azáfama controlada de vindimadores, baldes e cestos ordenados antes que a grudenta gosma de vinho e mãos desnudas catadoras de uvas lhes toquem, tesouras de poda e de costura sobre o muro de pedra.

Emociona-me, não pela inevitabilidade da vida, mas a mão no meu ombro, a mão no peito, o respirar cansado e o sopro - Já não posso mais, o que fazer?

E, claro, não pode mais, porque a vida é como a doença, vai-nos comendo, por dentro ou por fora, se não é o tempo que faz fora é o tempo que se desfaz dentro, e à idade em que escaparemos para outra vida o corpo não se permite aceitar tarefas que lhe façam faltam o ar. 

Ando campo acima e campo abaixo, revezo-me entre cortar e comer as uvas frescas, como se tivessem sido orvalhadas pela vide, sacudir uma ou outra aranha que se pendure na minha cara, rir-me ao recordar a dificuldade, inexistente agora, em chegar aos cachos mais altos sem a ajuda de meia dúzia de passais, e acartar cestos e baldes por entre erva, carrajó, estrepes de milho, chão agora cimentado e depositar as uvas no ralador, manual, pousando o balde do lado de fora da dispensa onde está o lagar e começar, com a ajuda do corpo e da gravidade, a fazer rodar o volante de ferro, frio, para que as uvas, coitadas, desçam contrariadas de encontro aos rolos que as comprimem e esmagam, ouvindo cair abaixo o sumo que será vinho e o cangaço que, noutras vindimas, viu ser-se bagaço em noites vigiadas entre cobre, vapor e odor a velhos em taberna com histórias de outras estações, velhas também. À medida que o campo é contornado numa espécie de olimpismo lento, chega ao fim a vindima e sela-se a ouro esta sobre as outras recordações. Não sei o que acontecerá ao lagar, se irão apagar a cinzel a data que foi cunhada quando o construíram, ainda eu era um pensamento com poucos anos de vida, a prensa, o hidráulico, os barrotes de madeira, as tesouras ou as memórias. As cubas ficaram ali onde não estorvam, debaixo do chão de cimento, outrora soalho, como que sepultadas para ulterior reconhecimento, o odor aos cabos de cebolas fará recordar que a vida tem sabores que o palato desconhece e eu, que sempre fui um sem sabor, alimento-me da recordação dos passos no soalho acima e do pó de madeira que caía a cada passada mais forte.

Hoje há um eclipse, por entre a vida e a idade passa a constatação de ambos serem mutáveis, em total umbra caminho como se a minha translação fosse perceber que dos meus olhos tudo sobra, incluindo a minha mão, nesta última poda.

sábado, 26 de setembro de 2015

A ROSA PÚRPURA DO MUNDO VIRTUAL

JORGE NUNO
Aos poucos, foi-se chegando à conclusão que cada pensamento tem influência sobre a realidade física e cria [mesmo] a realidade. Indo um pouco mais longe, há quem desenvolva a ideia da “transformação quântica do pensamento”, pratique, e ganhe muito dinheiro com isso. Li, num livro de Pam Grout: “neurocientistas dizem-nos que 95 por cento dos nossos pensamentos são controlados pelo subconsciente pré-programado da nossa mente. Em vez de efetivamente pensar estamos a ver um ‘filme’ do passado”. Isto quererá dizer que está ao nosso alcance mudar a visão das coisas e mudar completamente a nossa vida, fazendo com que a experiência de vida seja bem mais gratificante, desde que mudemos a forma de pensar, mais que ultrapassada, que temos vindo a usar até aqui. Entretanto, continuamos embrenhados num mundo ilusório, de fantasia e de ignorância.

Lembro-me, há cerca de 40 anos atrás, de ter recebido um familiar – que vivia numa localidade do interior e veio à capital –. A dada altura, pronunciou-se que as pessoas da cidade eram doidas, pois “ficavam a falar para a parede”, tal como se estivessem em Jerusalém, junto ao Muro das Lamentações. Acredito que seria essa sensação que os citadinos lhe transmitiam, embora acreditando que não estariam a fazer as suas orações, pois os gestos, a [falta de] concentração e o pouco tempo nessa pose não indiciavam tal. Disse-lhe, simplesmente, que essas pessoas estavam junto de um intercomunicador que há, normalmente, ao lado da porta principal de cada prédio, e que comunicavam com alguém que vive num dos andares. Se esse familiar tivesse dado um salto no tempo e hoje observasse as pessoas a caminhar nos passeios da cidade, com um ou mais sacos em cada mão e a cabeça torta, apoiado num dos ombros, certamente diria que toda a gente da capital, além de continuar doida (por falar sozinha na rua), tinha torcicolo, já que seria difícil imaginar que há agora um pequeno objeto – o smartphone – que nos permite fazer inúmeras tarefas, entre elas, como a mais trivial das funções, falar à distância com outra pessoa.

Lembro-me, também, de um filme com argumento e realização de Woody Allen – A Rosa Púrpura do Cairo – que fantasiava o “boom” do cinema dos anos 30, em plena recessão nos Estados Unidos da América, e retratava uma mulher [mal] casada, com trabalho precário e uma paixão pelo cinema, e um marido desempregado, que a explorava e maltratava. Era um filme dentro de outro, com o ator Jeff Daniels no papel do ator Gil Shepherd, a fazer do explorador Tom Baxter, para decifrar o enigma do faraó que mandou corar de roxo uma rosa para a sua rainha, constando-se que agora, no túmulo dela, crescem rosas púrpura. A dada altura, essa mulher – a atriz Mia Farrow, no papel de Cecilia – apercebeu-se que o personagem Tom Baxter reparou nela (por ter ido pela quinta vez ver o mesmo filme), vindo este a saltar da tela, em plena sala de cinema, e dirigir-se a ela, dando lugar a um casal apaixonado, que logo virou um trio amoroso, já que o ator Gil Sheperd a baralhou e fez ver que o “outro”, não passava de um personagem. Imagino quantas mulheres não se terão deliciado a ver este filme! Há ilusão, fantasia, romance… e parece que as pessoas apreciam isso mesmo, pois os milagres continuam a acontecer, mesmo que depois se acendam as luzes para os cinéfilos poderem sair em segurança.

O problema é que podemos não estar a equilibrar o mundo virtual com o real, começando pelo tempo que diariamente dedicamos ao virtual, precisamente por nos parecer real, fundindo ambos, e não termos consciência disso. Há que ter em atenção para não deixar degradar o relacionamento – esse sim, real – ao nível familiar entre marido e esposa, pais e filhos, núcleo de amigos… Não se trata de falsos moralismos, mas quantas vezes está o casal à mesa (como se vê na zona da restauração de um centro comercial), cada um com o seu telemóvel a ver o correio eletrónico, a consultar a sua página do Facebook (ou dos amigos) ou a comunicar noutras redes sociais, tendo aí uma vida mais ativa do que fora delas? Algo vai mal quando uma pessoa fica desesperada por estar quase a atingir o plafond dos dados móveis, e sentir que é pior do que ter a sinalética do painel da viatura a indicar que o combustível está na reserva; ou por não ter acesso a wi-fi (à borla) durante 24 minutos e sentir que é bem pior que ficar sem água na torneira durante 24 horas; ou correr para o telemóvel, num desassossego, logo que ouve o sinal inconfundível de uma mensagem acaba de chegar ou, simplesmente, para espreitar se há novidades, ignorando completamente o toque da campainha da porta. Para alguns especialistas, este tipo de comportamento já foi rotulado de patologia. Que tal começar por experimentar um fim de semana desligado da Internet e procurar outras alternativas, porventura interessantes, com contacto direto com familiares e pessoas amigas e com a natureza? Que tal restringir o acesso à Internet ao longo da semana, e fazer uma utilização moderada, como se estivesse a fazer uma dieta, sem sentir sacrifício ao não empanturrar-se desordenamente. A “cura de desintoxicação”, talvez possa passar por aqui, como treino básico. Ainda em relação ao pensamento e à vontade própria, há uma máxima que diz: “Se souber aquilo que quer, pode tê-lo”. Ter uma vida mais saudável e feliz, em grande parte, depende de cada um de nós; e uma “verdadeira” rosa púrpura (ou mais) pode ajudar a perfumar a nossa vida.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

A RELAÇÃO COM O DINHEIRO

GABRIEL VILAS BOAS
Normalmente, o dinheiro não sobra para a grande maioria das pessoas, até porque são muito mais aquelas que têm dívidas que dinheiro extra. No entanto, ele existe e em grande quantidade, nalguns casos, inimaginável.

O que fazem as pessoas quando o dinheiro lhes passou a sobrar? Consomem mais ou dedicam-se ao jogo ou satisfazem caprichos ou…. As hipóteses são variadas, mas raramente incluem projetos de solidariedade, reorganização económica ou investimento em qualquer projeto profissional. Claro que haverá sempre louváveis exceções, mas a realidade tem, muitas vezes, pouco de bonito.

Há dias decorreram campanhas de recolha de vestuário, para ajudar os milhares de refugiados que invadem a europa em busca de proteção. Que embalámos nós para seguir viagem? Os casacos, as calças, as botas, os vestidos, que estavam arrumados a um canto do armário, à espera de um pouco de coragem dos donos para o pôr fora. Devem ter sido muito raros os casos de alguém que pegou em 400 ou 600 euros e foi a um pronto-a-vestir adquirir peças novas para mandar no comboio da solidariedade para os campos de refugiados.

Todavia, todos os dias, centenas de portugueses apostam milhares de euros nas máquinas dos casinos da Póvoa ou de Espinho. Vários compatriotas jogam avultadas somas de dinheiro em sites de apostas internacionais. Conheço casos de alguns jogadores que emigraram para a República Checa para puderem continuar a jogar póquer sem que o fisco lhes pergunte constantemente quanto andam a ganhar mensalmente.

Ter dinheiro e não saber o que lhe fazer cria, em alguns, sensações de tédio, noutros, adrenalina pura, em quase nenhuns surgem sentimentos de partilha e solidariedade.

Incomoda-nos bem mais que os dois euros dados a um pedinte sejam usados para comprar um bolo e uma coca-cola que um qualquer jogador torre dois mil euros, numa máquina de sorte e azar, no Casino de Chaves.

A culpa não é do dinheiro, obviamente. Este não passa de um pequeno pedaço de papel, com o valor que convencionámos que tivesse. A questão é da nossa relação com ele e com o poder que ele significa. Acho que, muitas vezes, o dinheiro é o espelho fiel da maneira como nos colocamos no mundo: totalmente centrados em nós e na satisfação dos nossos pequenos apetites e absolutamente alheios aos gritos desesperados daqueles que nos rodeiam.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

O INÍCIO DE UMA VIAGEM

CATARINA PINTO
É inevitável, não sentir o frio da insegurança de uma mãe, que pela primeira vez, foi levar o seu filho de 6 anos, a uma escola primária. São acontecimentos marcantes na vida de cada um (a)… ciclos novos que irão ditar o futuro.

Acredito que é aqui, no 1º ciclo, que o meu “ pequeno”, de certa forma vai deixar de ser tão pequeno como é meu hábito trata-lo e ainda mais porque tenho outro filho que, esse sim, é bem mais novo, apenas com 2 anos. A (re) entrada deste, na creche, traz-me serenidade, penso que pelo facto de ser o segundo, eu tenha ganho mais segurança e confiança em mim mesma e em quem me rodeia. Alguns ritmos diários já são conhecidos e tudo se torna mais claro e compreensível, inclusive eu própria trabalhei alguns anos em infantários, o que me ajudou imenso a crescer interiormente.

No entanto, a escola primária é apenas pela minha própria experiência, de quem adorou esses tempos… e pelo que ouço falar diariamente, através das pessoas, amigos, imprensa… só que no fundo isso são sombras do que eu e o meu filho sentimos. É essencial a segurança e inicialmente não estamos a ultrapassar… demora o seu tempo. Doí-me deixa-lo na escola e que ele chore, grite pelo meu nome… sinto que sem querer isso é uma forma de o afastar de mim, quando somente ele está a crescer, a ganhar o seu espaço e identidade… Mas o meu coração volta a uns 4 anos atrás, quando o deixava numa creche e ele não aceitava… foi sempre assim até virmos para Amarante a cerca de 18 meses… A tranquilidade desta cidade acolheu-o muito bem e ele a cidade…

Nos próximos dias estamos de regresso ao chora e birras… mas sei que tenho que o incentivar ao máximo e a cada instante pois somos capazes de ultrapassar este medo… e que a matemática é fácil… não precisa ter medo dos “ tps’S”… nem dos seus amigos “ barulhentos”…

Amanhã cedo vamos os dois juntinhos para a escolar, agarrados na nossa cumplicidade e sem darmos conta, tudo passou… era apenas mais uma viagem…

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

CHEGOU O OUTONO

lua de setembro
lá fora o vento claro
varre as estrelas
Rogério Martins

ANABELA BORGES
DR
Setembro: nono mês do ano no calendário gregoriano, tendo a duração de 30 dias, deve o seu nome à palavra latina septem (sete), dado que era o sétimo mês do calendário romano, que começava em Março.
Em 22 ou 23 de Setembro, o Sol cruza o equador celeste rumo ao Sul. É o equinócio de Setembro, começo do Outono no Hemisfério Norte e da Primavera no Hemisfério Sul.

Setembro é o mês de todos os recomeços.
Como li, recentemente, num artigo, “Setembro é o [mês] da rentrée”.
Muita coisa entra em vigor em Setembro: o aclamado início do ano lectivo; o arranque do ano judicial; muitas empresas e instituições, que encerram para férias em Agosto, reabrem portas em Setembro; muita aprovação de diplomas, entradas em vigor e propostas de Lei têm a sua notação para este mês; séries da TV começam ou trazem novas temporadas.
DR
A minha gata começa a dormir mais a partir de Setembro.
Muito de nós entra em vigor em Setembro.
O início do ano lectivo costura muita bainha em torno do país, logo começam todos os movimentos, como formigas que se vêem na obrigação de percorrer os carreiros à vida. Os alunos por causa da escola, os pais por causa dos filhos, uns por causa de uns, uns por causa de outros. O nosso país, em muitos aspectos, organiza-se mediante o calendário escolar. Tenho como exemplo muito próximo o meu marido, que não é estudante (embora o seja, que, num sentido lato, todos o somos) nem professor (embora o seja, porque o somos em variadíssimas situações), mas organiza a sua agenda em termos de ano lectivo e não em termos de ano civil. Creio que é uma tendência.

O mês de Agosto, a despeito de ser considerado o mês das férias, dos encontros, das esplanadas, dos jantares, das reuniões em família, deixa para trás muita tristeza, muita vida ceifada, muito sangue corrido. Pouco calor. 
Setembro é também o mês de muitas contrariedades. O mês que começa traz consigo expectativas e muitas incertezas também. E terror, do mais bárbaro terror. É o mês de lembrar os atentados do nine/eleven. É o mês de ver o que se vê e de não ver o que se perde nas pregas mal costuradas do mundo.
Os especialistas dizem que chegam também a ansiedade, o stress, os males-estares, as diarreias, na fase de adaptação, no ajuste de horários que é Setembro.    
Mas, neste mês, nasceu a minha filha Inês. E como sou feliz em Setembro por essa dádiva!
Gosto de Setembro. Gosto da lua de Setembro e da luz de Setembro, das estrelas, lentamente, a serem varridas, como num mistério cósmico, a preparar dias novos, dias diferentes. E, no entanto, passando essa mansidão diáfana do Outono, não gosto (quase nada) do Inverno, longo e frio, como uma eternidade enferma de sepulcro. “As luzes de Setembro ensinaram-me a recordar os teus passos desvanecendo-se na maré. Sabia já então que o rasto do Inverno não tardaria a apagar a miragem do último Verão […]”.*

No fim de contas, eu sempre penso que Setembro traz promessas e isso enche-me de uma inequívoca esperança. Precisamos de ter em mente que o caminho, para que haja mudanças para melhor nos nossos dias, tem de ser caminhado pelo bem, pelo menos pela maioria de nós, esperar que chegue o nosso tempo, sonhar que “[…] num lugar longínquo, as luzes de Setembro se acenderiam […] e que, desta vez, já não haveria mais sombras no caminho”*. Maior é o que está em nós e o que está no mundo, mas muitos avistam apenas ganância, poder, malícia, ódio. E outra das contrariedades: o Dia Internacional da Paz marca-se também nas calendas de Setembro.   
Falta a permanência do SER, faltam as harmonias para que os dias sejam a vibração dos dias do nosso tempo.
Este é o meu tempo. E eu não vou desistir dele.


*AS LUZES DE SETEMBRO, Carlos Ruiz Zafón, Planeta Manuscrito, 2014.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

RELAÇÕES HUMANAS

REGINA SARDOEIRA 
Pior do que viver uma história a que foi necessário apor a palavra "FIM" é perceber que não ficou, antes desse marco final, nenhuma história para contar. Pior do que olhar para trás e perceber que a promessa não chegou a concretizar-se, por via de circunstâncias alheias a quem nela se envolveu, é ter que aceitar que nem sequer houve promessa, mas um mero pacto acidental, que bem poderia ter sido outro qualquer. Pior do que dar conta da falência do amor, da supressão da intimidade, da progressiva escassez dos gestos afectivos, é compreender que nunca houve amor, ou intimidade ou afeição, mas uma soberana ilusão em trânsito de um para o outro. Pior do que absorver a ruptura, lamber as feridas e seguir em frente, é assimilar a dimensão cruel de havermos sido enganados por aquele que jamais aceitaríamos enganar ou trair. Pior do que encarar um futuro onde nunca mais seremos um par, é perceber que nunca o fomos e que as palavras "nós" e "nosso" jamais deveriam ter sido pronunciadas, por serem simulacros vazios de coisa nenhuma. Pior do que aceitar a ausência, é saber que nunca houve presença e que durante anos sustentamos um fátuo balão colorido, cada vez mais desvanecido nas suas luzes cromáticas, até só restar um quase invisível arcaboiço cinzento. Pior do que sermos confrontados com a partida de um ser excepcional, nosso irmão gémeo na essência, nosso aliado nas diferenças acidentais, é conviver com o facto consumado de que não havia ali nenhuma excepcionalidade, que fomos enganados, que nos enganámos ou nos deixamos enganar, que não tínhamos qualquer afinidade essencial com aquele que vimos partir (crentes ainda, nesse dia, que ele era uma excepção). Pior do que sofrer, em conjunto, a dor da separação, é saber que o sofrimento de um nasce de razões externas, de um vazio material e quotidiano que urge preencher com subterfúgios materiais e quotidianos e que em nada se aproxima do sofrimento intrínseco do outro.
Valem muito ou pouco as relações humanas? Devemos entregar-nos, de alma e coração a um outro eu ou tu, um outro, do eu, um tu, face ao eu, ou é bem melhor deixarmo-nos estar no reduto da nossa solidão, em absoluto recato, ignorando os que batem às portas de nós? 
Existirão, aqui e ali, soberanos exemplos de sintonia, histórias ímpares de verdade, entre pares, amizades ou amores eternos e incorruptíveis. Acredito nessas ilhas humanas de afecto genuíno, nessas cumeadas brilhantes de absoluta transparência, nesses lagos cristalinos por onde deslizam suaves gargalhadas cúmplices. Mas vejo essas pequenas e remotas aventuras como o horizonte onde o sol cintila, em réstias de abandono iminente. Vejo essas excepcionais marcas de encontros humanos, feitos na verdade e na limpidez das palavras e dos actos, apenas como uma quase extinta celebração de seres isolados, qualquer dia, eles mesmos tragados, num vórtice de desespero. 
Sendo já céptica conceptual, arribei agora a outra forma de cepticismo: tornei-me céptica na vida, céptica da vida. E escuto Chopin, de repente. 
Instantaneamente percebo que apenas a solidão pode criar o halo circunscrito do eu individual, a caverna pétrea do ser em solilóquio absoluto, para que o infinito se desvele e o indivíduo aceda à sublimidade transcendência. 
Parecerá absurdo que a comunicação na sublimidade, que só a arte possibilita (afastado o amor, corroído o sentimento pelo outro e com o outro) tenha que dar-se nos côncavos intransponíveis das profundidades mais íntimas do ser e que só a partir daí possamos ter acesso à comunicação integral da subjectividade. E contudo terá que ser assim. 
A não ser na arte ou no amor, não há para os homens nenhuma espécie de redenção; e nem desta afirmação posso ter uma certeza cabal e absoluta. 
Os outros animais, principalmente aqueles que escaparam à humanização pelo acto doméstico, resolvem-se a si próprios, na selva, nos rios, nos pântanos ou nos mares. O homem precisa de objectivos, de metas, de missões. O homem não cabe na terra onde nasceu, tem que conquistar, desbravar, partir em aventura. O homem não respeita o próprio habitat e constantemente transforma a terra e a paisagem, erguendo moradias absurdas e interpondo muros ao longo das veredas de que fez estradas de cimento e asfalto. O homem fundou a sociedade e logo hostilizou o outro homem em pequenas questiúnculas ou em mortíferas batalhas. O homem não sabe quem é ou o que é. 

Perdido num torvelinho insano de lutas, perseguições e invejas, pouco existe de são naquilo a que chamamos condição humana. E então, sumida em isoladas regiões de excepcionalidade, abolido o amor e a concórdia, trocados pelo instinto de posse e pela competição, somente a arte nos guinda a uma categoria irmã da divindade. Aí, superamos a besta ou damos-lhe prerrogativas extraordinárias. E podemos, por essa razão, ouvir Chopin e maravilhar-nos. 

Pior do que caminhar sozinho, de braço dado com a noite, é ver o dia nascer na companhia de um estranho.  

Pior do que respirar a frialdade nevada de um deserto hostil, é sentir o hálito morno de uma fingida tolerância. E pior do que o ódio estreme de uma multidão que nos lança pedradas, é o beijo de Judas de quem nos vendeu para que fossemos crucificados.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

CIRCUNSTÂNCIAS E ROTINAS

CLARA CORREIA
Mal Setembro nos sai ao caminho em cada etapa anual na viagem da vida, deparamo-nos, abruptamente quando meio desprevenidos, com a dita “rotina”; esta, antes de o ser já o era … antes de nos habituarmos novamente a ela, já ela se alojou novamente nos nossos dias, nas nossas vidas ditas “quotidianas” (que as férias já se foram, indiferentes à nossa aversão por despedidas). Pois, antes que tenhamos tempo emocional para bem preparar a chegada da bendita rotina, já ela marca presença (forte presença, diga-se) nos nossos horários que, forçadamente planeados e ditados por mil e um (ou mil e dois) compromissos, mal permitem que respiremos entre um e outro, sejam eles profissionais ou familiares. Valha-nos o Santo Protector dos sofredores por antecipação, para nos mostrar uma luzinha de remediação do aparente caos ao fundo do túnel de novas e velhas solicitações e exigências.

Lembramo-nos de que até os bebés precisam de rotinas para se sentirem seguros e se estruturarem … e a seguir invejamo-los por serem eles próprios a defini-las para, em jeito de feliz conclusão, nos apercebermos de que, ao contrário deles, nós temos o poder de não desperdiçarmos oportunidades e de criarmos ocasiões para quebrarmos a rotina ou dela nos evadirmos, mesmo que secretamente (ainda que seja à socapa) … que das suas rotinas quotidianas e dos seus recursos de lazer e prazer, cada um é que sabe!

O fim do Verão acaba com a nossa dormência estival, deliciosamente recordada numa rede de descanso brasileira, algures (mesmo que as férias no Brasil nunca tenham passado de um sonho).

Que a rotina não se fique por um rol de tarefas mas que, sendo produtiva, signifique um conjunto de meios que sirvam os nossos objectivos, sobretudo o de não estagnarmos … que por vezes se atinge com “murros na mesa” ou a “partir a loiça toda” (quem não viu já algo a progredir com uma acção destas?), mas também com a constante auto-consciencialização acerca do que somos acompanhados pelas nossas circunstâncias … e rotinas !

domingo, 20 de setembro de 2015

ESCREVERÍCIA

MIGUEL GOMES
Começo parado, ouço-as inquietas, afocinham por entre as minhas pernas, sacudo-as como se isso esmorecesse a vontade sôfrega que sentem de arrebanhar. Por fim, lá para o início, a vontade pare-se e ainda que vá a medo por desconhecer o caminho e o destino, calcorreio meia dúzia de pés e atolo-me outra meia dúzia deixando para trás crateras do tamanho daquilo que meteorei. Apoio-me num muro o suficiente para ele não cair para o lado de lá da leira, o xisto afiado pelo passar do tempo traz-me a recordação de telhados onde sob os quais me abriguei da chuva, aquela que cai em nuvens mundo abaixo até chegar ao fundo da carne e fica, ali, a fazer tinir os ossos. Elas mordiscam aqui e ali, não há pasto que chegue para quem não tem fome e este gado sobra-me pelas mãos fora como se fossem a minha própria linha da vida e eu, na dúvida, porque nunca me passou um vagão pela mão, não sei que sulco é o meu, se este por onde seguro o atilho, se aquele por onde me escorre o suor brotado a cada sonho arrancado.

Tarda nada após me socorrer das pedras, ainda molhadas pelo nevoeiro, para me escorar, vêm elas dar-me cabeçadas nas pernas, inquietas do carai!, há um pouco de poesia no movimento, como se elas se auscultassem na sua mudez animal e no balir ensurdecedor do vento a vergastar a ramagem seca destes moinhos de vento que produzem barulho e movimento, apenas, a energia que não falta por aí atravessada e esganada, por vezes, num enxerto que se quer certo, há-de vir melhor no próximo estio, se connosco nada quiser o frio.

Vou subindo a custo a terra inclinada, neste lado não nasceu redonda, e parece-me que comigo o céu não quer nada, nem um braço estendido num uma tarde sentado na fraga, comigo. Em debandada, carreirinha como formiga obediente, aguentam-se ao caminho melhor do que eu, que oscilo entre o sôfrego e o semi-devaneio do cansaço que me oura e tolda o pensamento e, quando em vez, penso na facilidade que seria deixar-me cair ao para cá da inclinação, aos trambolhões, ou como Deus quisesse, podia ser até, vê lá tu, que esta borregada toda me amparasse a queda no manto branco tingido e eu adormecesse a pensar que o corpo fatigado, quase castigado, tinha chegado à alcofa que me pariu e deixasse a alma desapegada, esta sim, solta, espiralando universo acima até chegar para lá do criador.

Passo a mão na testa, o calor e a oura na moleirinha fazem a sua vítima, ao retomar o juízo vejo-as olharem para mim zombando e eu, olha, para aqui desajeitado ando. Quem anda, o passo seguinte sempre alcança. Ultrapassado o cume, já com o cansaço na garganta em azedume, deito os olhos ao vale e suspiro. Há-de ser a isto que as nuvens deitam os olhos quando cá estão, penso, antes de começar a ganhar ânimo e descer o serrado monte, acompanhado por elas que se espalham, acredito que ansiosas também por lá chegarem, ao largo parando uma e outra vez, muito esporadicamente, como eu, pleonasmado, para me lançarem um olhar interrogativo, mas tu vens ou não?

Contorno algumas curvas imaginárias, não as há, as curvas, a imaginação, essa sobeja, para me demorar um pouco mais, como se saboreasse na boca um fruto que ainda não trinquei, antecipando a saciedade da vontade, como se a fome, sabendo que vai morrer, se entregasse às últimas recordações e fosse, também ela, deglutindo a sua ausência até desaparecer, no corpo e na mente.

Encosto a mão ao ferrolho, a medo, foram elas que aqui pararam, afunilando-se como que sabendo que lá dentro mora a morada delas, mas eu, inculto, nada sei de sabedoria animal se não esta que aprendi e mal!, demoro a compreender que querem entrar. A madeira da porta está tão gasta como a palavra que é dita e desdita, desencavo o ferrolho e sinto a aspereza das farpas que se eriçam ao meu toque, enquanto o ranger dolorido da dobradiça me chama com a solenidade com que o sino repica para a missa. Entro, por entre elas que se assemelham a um tufo de nuvens alvas pareço um castanheiro no descampado. Agrada-me a analogia. 

Deitam-se e eu vou, devagarinho, aconchegando uma e outra até me sentir realizador de mim mesmo, depois, bem, depois escrevo a data, fecho o caderno e, inocentemente, sei-o, sorrio.

sábado, 19 de setembro de 2015

TESTAMENTO VITAL: PRÓS E CONTRAS

ANTONIETA DIAS
Neste momento os portugueses já podem lavrar um documento das suas intenções de forma a clarificar os tratamentos que desejam, ou que rejeitam, em caso de doença que os impossibilite de manifestar a sua vontade, através do chamado “testamento vital”, porém, esta orientação antecipada de vontade, só pode ser assumida perante um notário.

Desde a publicação da Lei n.º 25/2012 de 16 de julho, que se pode escolher antecipadamente que cuidados de saúde se quer receber caso “fique incapaz de expressar a sua vontade pessoal e autonomamente”.

Numa análise mais precisa da Lei, nomeadamente o artigo n.º 1.º da Lei n.º 25/2012, estabelece o regime das diretivas antecipadas de vontade (DAV) em matéria de cuidados de saúde, designadamente sob a forma de testamento vital (TV), regula a nomeação de procurador de cuidados de saúde e cria o Registo Nacional de Testamento Vital (RENTEV).
No artigo n.º2.º da Lei n.º 25/2012 de 16 de julho, consta que de acordo com as diretivas este documento é unilateral e livremente revogável a qualquer momento pelo próprio, no qual uma pessoa maior de idade e capaz, que não se encontre interdita ou inabilitada por anomalia psíquica, manifesta antecipadamente a sua vontade, consciente, livre e esclarecida, no que concerne aos cuidados de saúde que deseja receber, ou não deseja receber, no caso de, por qualquer razão, se encontrar incapaz de expressar a sua vontade pessoal e autonomamente.

Por sua vez a alínea b) do Capítulo II, Artigo 2.º admite uma situação irreal na prática clínica médica diária, desenvolvida à luz da leges artis, uma vez que refere que o doente poderá orientar a sua vontade para que não lhe sejam aplicadas medidas terapêuticas fúteis, inúteis ou desproporcionadas ao seu quadro clínico, ora, esta diretiva da Lei é que é inútil, tendo em conta que de acordo com as boas práticas médicas este procedimento nunca poderá ser realizado. 

A admitir este cenário, era considerar os profissionais médicos como irresponsáveis, pois, em nenhuma circunstância se submete um doente a um tratamento fútil, inútil ou desproporcionado ao quadro clínico em causa.

Aceitar e generalizar que as medidas de suporte básico de vida, visam retardar o processo natural de morte, demonstra um falso conhecimento sobre a enorme vantagem que estas medidas têm na ressuscitação do doente e contraria claramente as boas práticas médicas.

Muitas vidas se salvam com a aplicação destas medidas, sendo determinante e obrigatória a sua utilização.

Importa, ainda referir que no que concerne à alínea b) do mesmo artigo, o doente tem direito a morrer com dignidade e para que isto aconteça, implica um suporte de cuidados médicos globais de forma a minimizar o sofrimento do paciente. 

Um doente claramente esclarecido, não irá fazer um testamento vital que o impeça de receber cuidados paliativos e de se submeter à administração de terapêutica sintomática adequada, para libertar a sua dor. 

Resta, ainda definir o perfil de competências de responsabilidade e de conhecimento científico que o funcionário ao qual lhe vai ser atribuída a devida habilitação para poder informar devidamente a pessoa que pretende fazer o documento do testamento vital, onde irão constar as diretivas antecipadas da sua vontade, e se esse mesmo funcionário reúne condições de idoneidade e capacidade para transmitir claramente a mensagem para que o consentimento seja livre e devidamente esclarecido.

Na minha opinião, a função relativa ao esclarecimento da pessoa é do âmbito estritamente médico e não é aceitável à luz das boas práticas que esta responsabilidade seja transferida para uma pessoa menos habilitada e sem formação específica, e sem condições para gerir uma situação tão delicada como a que aqui se lidera, pois, não estamos a tratar de coisas materiais, mas sim de seres humanos, que colocam a sua vida numa decisão documental, em que, mesmo admitindo a possibilidade prevista na lei de reversibilidade da decisão, carece como é óbvio de uma informação detalhada, para garantir uma decisão devidamente consciente, livre e esclarecida. 

Cabe ainda definir o perfil do procurador de cuidados de saúde. O artigo n.º 11.º da Lei n.º 25/2012 de 16 de julho refere no ponto 1 que “qualquer pessoa pode nomear um procurador de cuidados de saúde.

Para que isto seja concretizável é necessária a criação de uma bolsa de profissionais que reúnam os conhecimentos teóricos, técnicos, científicos, pedagógicos e habilitação suficientemente segura para esclarecer de forma clara e inequívoca da vontade do outorgante.

Relativamente, ao previsto na Lei n.º 25/2012 de 16 de julho, no que se refere à criação de um departamento destinado a receber os documentos do Registo Nacional de Testamento Vital (RENTEV), na minha opinião, estes documentos deveriam ser remetidos para o departamento do Registo Nacional de Não Dadores (RENNDA), o qual já garante a confidencialidade prevista no Artigo 8.º da Lei, e já usufrui de uma estrutura organizada interinstitucional que possibilita o acesso da informação de imediato nas várias unidades de saúde hospitalar, não se justificando por isso a criação de um outro serviço, que obrigaria necessariamente a um acréscimo de custos e implicaria a necessidade de gerar mais um departamento, com recursos humanos, técnicos e financeiros dispensáveis.

Acresce ainda, relembrar que tendo em conta a investigação clínica permanente, onde a medicina como ciência está em constante mutação, o tratamento preconizado para uma doença que é diagnosticada hoje, pode não ser o mesmo para amanhã, não sendo possível prever se a decisão médica que é tomada hoje à luz do raciocínio clínico atual, vai ser a mesma perante uma situação clínica igual, mas com tecnologia diferente. 

A Lei n.º 25/2012 de 16 de julho prevê ainda que estas orientações de vontade, possam ser formalizadas de uma outra forma, ou seja, por um funcionário do Registo Nacional do Testamento Vital (RNTV), estrutura esta que já esta criada.

Resta ainda, esclarecer o que é que o legislador entende por vontade expressa do autor.

Segundo o Prof. Daniel Serrão que define o “testamento vital”, como um documento, escrito por uma pessoa na plena posse das suas capacidades de decisão, no qual são apresentadas instruções sobre o que um médico pode ou não fazer, quando o subscritor do documento não estiver em condições de exercer a sua autonomia e o seu direito ao consentimento, após informação sobre o seu estado de saúde e sobre o que o médico lhe propõe para tratar.

Fica claro que, neste documento, a pessoa tipifica, com maior ou menor rigor, os tratamentos que supõe que o médico lhe irá aplicar em futuras situações de doença, em que ela não possa ser informada e decidir. Por exemplo por estar em coma, não podendo receber uma informação médica correcta para poder decidir, dando ou não o seu consentimento. Por faltar esta informação actual sobre a situação real, decidir sobre uma hipótese de doença e uma hipótese de tratamento, envolve os maiores riscos para a pessoa. Pode admitir-se que a pessoa, se pudesse ser informada da real situação em que de facto se encontra, a sua decisão seria diferente da que está no tal testamento.”

Em suma, defender a vida não é uma utopia, é um dever de todos os seres humanos, em que os resultados do progresso, dos conhecimentos e da tecnologia permitem cada vez mais reconhecer que nada poderá evoluir se não preservarmos a defesa da vida humana e que a protecção dos direitos humanos é uma exigência da civilização.

Neste contexto, a sociedade não pode ter sentimentos de ambivalência, de indecisão, ou de dependência de dilemas éticos de difícil resolução que possam colocar em risco a autonomia ou a inviabilidade de reconhecer uma situação definitiva e irremediável de tratamento por razões estritamente financeiras.

Todos nós assistimos diariamente a uma inversão e distorção dos valores, por isso necessitamos de sensibilizar cada vez mais os profissionais da saúde para o respeito da autonomia e dignidade dos doentes, motivando-os para a defesa da vida humana que continua a ser um bem irrecuperável, cujo investimento, não pode ser de forma nenhuma abalado, nem perder o seu valor e o direito de um instrumento ao serviço da vida, que começa na concepção cujos direitos fundamentais estão salvaguardados na Convenção dos Direitos da Criança; as Declarações de princípios internacionais (emitidos pela ONU e Conselho da Europa); a Constituição da República Portuguesa (1999) em que designadamente no artigo 24.º respeita a inviolabilidade do direito à vida.

Por fim, a Convenção Europeia dos Direitos do Homem e da Biomedicina já tem algumas referências à vida intra-uterina artigos 13º, 14.º e 18.º mas só recentemente num documento promovido pela AMADE (Associação dos Amigos da Criança) e pela Unesco se faz uma declaração em que há referência aos direitos do feto.

Os direitos inquestionáveis salvaguardados na Lei portuguesa, não podem ser violados, estão relacionados com o respeito e protecção da vida humana, desde a concepção e durante todo o ciclo de vida.

Seja qual for a faixa etária do doente, ninguém pode colocar um patamar, no limite de investimento económico para o tratamento da doença do doente.

Se o fizesse estava seguramente a cometer um homicídio (voluntário ou involuntário), sendo que, os interesses económicos, políticos ou religiosos, não poderão servir de pretexto para cometer a crueldade de transformar a vida humana numa mera redução numérica e financeira como se de coisas se tratasse e não de pessoas.

Infelizmente já vai sendo prática diária assistir à insensibilidade de muitas pessoas perante a morte de seres humanos, que sofrem nos corredores dos hospitais públicos.

Porém, o valor da vida humana é imensurável, pela sua importância exige de nós um profundo respeito, cujo ranking está acima dos dogmas, da doutrina e da lei.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A TRANIA E O OPORTUNISMO DO TEMPO MEDIÁTICO

GABRIEL VILAS BOAS
Os media são o maior poder dos tempos modernos. São eles que impõem a agenda política, social e cultual. Ajudam a criar mentalidades in, destroem e constroem estrelas com uma facilidade assustadora.

O poder dos jornais, televisões e sítios da internet começou quando os poderes clássicos deixaram de fazer o seu trabalho e criaram um vazio que os media souberem aproveitar e capitalizar. Rapidamente os jornais e as televisões apareceram aos olhos da opinião pública como os guardiões do templo; os únicos capazes de defender os fracos, os oprimidos, aqueles que não têm voz. Inebriados pela sua elevada missão, rapidamente passaram de advogados de defesa a acusadores e, finalmente, a implacáveis julgadores. 

Respaldados na opinião pública que formataram, passaram a condicionar toda ação daqueles que decidem, mandam ou detêm o poder. 

O grande erro foi que o fizeram sem alma, sem convicção nem rigor. O barulho das luzes ativou a vaidade mediática de muitos jornalistas que escolhem uma determinada causa social para cavalgar, apenas porque esta lhes aumenta o share; resolvem atacar determinado político ou figura mediática, porque eles decidiram que ele é culpado. São eles que apresentam a acusação e que o julgam sumariamente nos telejornais, nos programas de debate, na direção que imprimem às reportagens. 

Além da impressionante parcialidade e falta de rigor jornalístico com que tratam os factos, o que mais me revolta é o desprezo com que abandonam causas sociais ou o caso particular de um qualquer cidadão que antes fora apresentado como emblemático. 

Os juízes sempre se queixaram dos media, referindo que o tempo da justiça não era o mesmo que o tempo mediático, todavia a classe jornalística sorria com desdém e assobiava para o lado, tratando de fazer a justiça que lhe convinha. 
O grande problema é que qualquer questão precisa de tempo para ser bem resolvida. Não apenas na justiça como também na educação, na economia, na agricultura, na administração pública. Ao exigirem ações concretas para ontem, os media estão apenas a contribuir para que elas não se resolvam ou fiquem mal solucionadas. 

O tempo mediático é aquele fazedor de obra pública que esburaca as ruas das nossas cidades, começa a reabilitação urbana ou lança uma qualquer obra de grande envergadura, mas que ao primeiro contratempo se desinteressa e deixa tudo numa grande trapalhada, bem pior do que estava. O tempo mediático é absolutamente interesseiro e cruel. Expõe o problema, lança as acusações, dá a sua sentença sobre os factos e parte para “outra”, porque aquela bomba jornalística já deu as audiências que tinha a dar. Entretanto, a desorganização causada deixa o cidadão com um problema maior do que aquele que tinha. 

Os políticos já perceberam como funcionam estes novos polícias da coisa pública e adaptaram a sua inação ao estilo. A sua pseudo ação segue as vagas informativas. Se o problema for profundo e de difícil resolução, há que marcar umas reuniões para discutir o problema, fingir que se está a estudar a solução e, sobretudo, esperar que o tempo mediático passe e a questão esgote o interesse para os jornalistas. Obviamente, eles sabem que tudo ficará igual ou até pior, mas também sabem que não haverá mais debates na imprensa porque o tema murchou. 

As populações ficam então como sempre estiveram: sós! E depois nem se podem queixar que a imprensa não tentou ajudar. 

O tempo mediático anda a tirar-nos o discernimento necessário para resolvermos os nossos problemas coletivos e contribui para que nos andemos a enganar uns aos outros.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

DONA SALOMÉ

HÉLDER BARROS

Quero hoje escrever sobre uma grande Pessoa de Amarante, que sempre que encontra a minha Mãe tem a amabilidade de lhe perguntar por mim e lhe refere que tem muitas saudades da criança na imagem, a correr e a brincar no Café Bar, facto que a encantava a ela e ao seu falecido marido, o Prof. Gonçalves. A Senhora de que vos falo é a Dona Salomé, uma muito respeitável Professora de Amarante que, com o seu marido, o Professor Gonçalves, soltavam sonoras gargalhadas, com as minhas diatribes e tonterias de miúdo. 

Trata-se de uma Senhora ligada à Cultura Amarantina, com inúmeras incursões na Escrita, quer de caráter literário, mormente Poesia e Crónica, quer ao nível jornalístico puro. Dotada de uma admirável qualidade na produção literária, encantou muitos amarantino e não só, com a sua colaboração semanal em jornais locais e nacionais. Esta crónica não é mais um elogio, entre tantos merecidos que tem recebido durante a sua vida, quer profissional enquanto Professora de elite, quer enquanto colaboradora em inúmeras publicações locais e âmbito mais abrangente; afinal, quem sou eu para avaliar uma tão Grande figura Amarantina das letras. Quero apenas evidenciar a ideia que alavancou a criação desta crónica: a constante referência e permanência na sua memória do menino que a encantava e que, por acaso era a minha pessoa, facto que me deixa bastante emocionado.

Trata-se da reminiscência dum tempo em que os Cafés de Amarante (Café Bar, O Nosso Café, O Nosso Sonho, O Café Morgado), se constituíam como autênticos areópagos culturais, onde Figuras simples e ao mesmo tempo ilustres da nossa então Vila de Amarante, se encontravam em sessões informais de convívio que, à partida, poderiam não cativar um miúdo de tenra idade, mas que, pelo contrário, me trazem recordações muito importantes para a minha formação enquanto cidadão integral. Figuras como a Dona Salomé, o Sr. Gonçalves, o Sr. Abelámio, o Sr. Pinto Coelho, o Sr. Soares, o Sr. Natal, o Sr. Olegário Rosas, o Eng. Pinha, o Sr. Matias, o Sr. Amaral, o Sr. A. Magalhães, o o Sr. Brandão, Sr. Antunes, o Dr. Luís Coutinho (um intelectual puro), a Dona Amélia Laranjeira, o Sr. Castro e esposa... entre tantos outros que me fazem sentir um privilegiado, só por ter podido conviver com Eles...

A profundeza das suas conversas era de tal ordem, que eu inicialmente não as poderia entender, mas como a nossa mente é algo semelhante a um recipiente de conhecimento, complexo e criterioso, fui ao longo da minha vida afetado positivamente, por tudo o que aqueles seres maravilhosos refletiam, acerca de temáticas diversas, sempre com uma tónica de humor que conferia mais encanto ao que se aprende e apreende. Pessoas com diferenças vincadas, ao nível político, sóciocultural, mantinham sempre pontos de entendimento estribados em laços de amizade e de respeito, que, definitivamente, hoje em dia já não se cultivam.

Eram vários os cafés onde se encontravam estes seres de tão maravilhosa sapiência, encantatório até para um jovem ser que, ao invés de ficar entediado com tão profundas dissertações, ouvia embalado pelas narrativas mágicas e sempre pontuados por um enorme sentido de humor, dos seres em questão. Da Dona Salomé, recordo um registo sempre mais sério e compenetrado, a sua palavra que rematava quase sempre o que se discutia, pois a sua eloquência fascinante, apoiava-se num raciocínio que ia mais além, sabia sair do conhecimento mais imediato, para nos levar a reflexões mais complexas e abrangentes, ligadas ao sonhos e utopias dos homens, o que só vem corroborar a ideia que é profusamente corrente em Amarante: é uma humanista na verdadeira acepção da palavra, em tudo o que diz, escreve, ou faz!

Creia a Dona Salomé que é muito difícil a alguém que era tão novo como eu, esquecer esse casal maravilhoso, que a Senhora formava com o Professor Gonçalves. Este sempre mais efusivo e estridente, no seu estilo de interação com os outros; a Senhora sempre mais circunspecta, atenta e pensativa, no sentido de atribuir aos diálogos um sentimento sempre mais profundo e integral. Afinal a Senhora é uma Professora e uma Poetisa, como poderia ser de outra forma?!

Como a Senhora pergunta à minha Mãe pelo menino que enchia de alegria o Sr. Gonçalves e o Largo de São Gonçalo, eu só posso responder de uma maneira muito simples: “Estou muito melhor Ser humano, por ter assistido a tanta tertúlia informal de seres enformados com uma inteligência, mundividência e humanismo, muito superiores aos comuns mortais”. Pena tive eu, de não ter sido seu aluno... os que o foram podem-se considerar uns privilegiados!

Muito obrigado por se lembrar de mim, a honra é toda minha e mais uma vez tenho que me penitenciar, por não ter conseguido sequer aproximar-me do tanto que tinha para contar de uma tão Nobre Senhora de Amarante que será sempre para mim: a Dona Salomé!

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

MARIA CALLAS, 38 ANOS DEPOIS

PAULO SANTOS SILVA
Passam hoje, precisamente, 38 anos que desapareceu aquela que é considerada por muitos, a maior diva do canto lírico de todos os tempos – Maria Callas.

Nascida a 2 de dezembro de 1923, em Nova Iorque, Ánna Maria Kekilía Sofia Kalagerópulu era filha de imigrantes gregos. Devido às dificuldades económicas que a família passou nos Estados Unidos, regressou à Grécia em 1937, onde estudou canto no Conservatório de Atenas.

Embora haja alguma incerteza quanto à data da sua estreia, é consensual que começou a despontar no panorama lírico, por volta do ano de 1948, interpretando a personagem principal da ópera Norma, de Bellini, na cidade italiana de Florença. No entanto, a verdadeira projeção mundial da sua carreira, só começa a acontecer no ano seguinte quando na mesma semana interpretou duas óperas, uma de Bellini e outra de Wagner. Diz-se mesmo, que terá preparado o papel para a ópera de Bellini em apenas dois dias, em virtude de ter tido de substituir quem efetivamente ia interpretar o personagem Elvira. 

O seu período áureo acontece, provavelmente, entre os anos de 1950 e 1965, em que se apresentou de forma regular em teatros como o La Scala de Milão, o Covent Garden ou o Metropolitan. Datam também deste período, os maiores registos do seu feitio temperamental, nomeadamente a acesa rivalidade que mantinha com a italiana Renata Tebaldi, que muitas vezes lhe valeram primeiras capas de jornais. 

Em 1964, encorajada pelo seu amigo e grande cineasta italiano Franco Zefirelli, volta aos palcos para aquela que é considerada a sua melhor interpretação em ópera – a Tosca de Puccini. A sua última apresentação numa ópera completa, em 1965, foi em Paris interpretando a Norma de Bellini. Uma vez que a sua saúde vocal já se encontrava bastante debilitada, não aguentou até ao fim tendo desmaiado ao cair da cortina no final da terceira parte.

Depois de alguns anos de afastamento, regressa em 1970 para dar aulas de canto na famosa Juiliard School e regressa aos palcos em 1974, para uma série de concertos na Europa, Estados Unidos e Extremo Oriente. Embora estes concertos tenham sido recebidos de uma forma extremamente positiva pelo público, foram completamente arrasados pelos críticos especializados. A sua última apresentação pública, data de 11 de novembro de 1974, no Japão.

Tão visível como a sua carreira artística, foi a sua vida pessoal. Aliás, as duas andaram sempre bastante associadas, nomeadamente pelo facto de ter sido casada com o multimilionário grego Aristoteles Onassis, que mais tarde viria a casar com a viúva do presidente dos Estados Unidos John Fitzgerald Kennedy – Jaqueline Kennedy, mais tarde Onassis. É precisamente após a morte de Onassis, que Maria Callas passa a viver numa espécie de clausura, tendo por companhia apenas a governanta e o motorista. O crítico John Ardoin chega mesma a afirmar que Callasjá está “morta” há muito tempo, tendo apenas deixado de existir no dia 16 de setembro de 1977, devido a um ataque cardíaco. As suas cinzas, repousam no Mar Egeu, tal como era da sua vontade.

Certamente que a sua vida privada conturbada, terá contribuído para a construção do mito em que se tornou. No entanto, o maior contributo terá sido dado pela extensão da sua voz, que lhe permitia ir desde o registo do mezzosoprano, até ao registo agudo do soprano lírico de coloratura, bem como a expressividade que punha na interpretação. Maria Callas terá sido das primeiras cantoras líricas e sem dúvida a maior, a aliar a interpretação cénica ao virtuosismo vocal. 

Deixo-o, pois, com o virtuosismo de Maria Callas na aria “Vissi d’arte”, da ópera Tosca de Puccini, na acima referida gravação de 1964.


terça-feira, 15 de setembro de 2015

O ÚLTIMO MENSAGEIRO

REGINA SARDOEIRA
Havia montanhas por detrás da imaginação cansada, atirada de uma para outra janela, e só os cortinados espessos tiveram poder para suster os golpes do vento, nesse dia túrgidos de folhas verdes, porque há muito a primavera ditava as suas regras de plena floração e só o rigor impreciso das nuvens violeta, por cima do telhado, fazia temer o recuo improvável do tempo.

Era a hora, e ele bem o sabia, a hora de sair e levar as cartas para os marcos distantes, onde a surpresa poderia abrir-se em sorrisos ou em lágrimas, mas sempre numa contradição de espanto e aventura.

Cartas, apenas cartas – essa raridade – cartas de papel, no tempo em que ninguém usa caneta e os envelopes amarelecem na escuridão das gavetas fechadas.

Mas ele queria partir bem cedo, antes do anoitecer, não fosse o vento bravio a repuxar fiapos de maresia, essa corrente dispersa, olvidada na distância, e contudo suspensa no intervalo de alguns passos, perdida no côncavo encrespado da montanha: porque ali era sempre montanha e praia e também prado verdejante, ponteado de rubras corolas, talvez papoilas ou rosas silvestres, cujos espinhos se adoçaram no esplendor magnífico da relva.

Era preciso arrancar-se dali, enfrentar as bátegas violentas de um súbito aguaceiro, mas ele bem via a nesga azul profundo que se abrira em torno de uma nuvem e lhe anunciava o advento de mais do que uma estrela.

A porta tinha rijos batentes; e com um tinir de ferros, como se soltasse as grilhetas de uma prisão, abriu-a e deixou que o ar lavado lhe inundasse a face afogueada, enquanto protegia com unção paternal o saco de coiro, guardião das surpresas e dos segredos dos outros.

Arrancou-se do limiar, subiu a gola da capa, e bem depressa os seus passos ritmados deram corpo ao destino.

Mensageiro, eis o que ele sempre fora, mensageiro dos homens para outros homens, mensageiro de certezas, de sonhos, de esperanças e de dúvidas.

Nunca soubemos se ele chegou ao destino, apenas podemos crer que para lá do caminho fechado, uma clareira lhe mostrou o rumo certo e a corporeidade das mensagens urdidas em papel, na estranheza de um tempo em que todos haviam esquecido a possibilidade de usar mensageiros lentos, enfrentando tempestades e marés certas, mãos sedentas do perfume exótico da viagem soltaram sorrisos ou lágrimas, perante a surpresa do vulto enigmático do último mensageiro.