terça-feira, 30 de junho de 2015

SUGESTÃO DE CORREÇÃO DE QUESTÃO DO EXAME DE FILOSOFIA - "AS QUESTÕES ÉTICAS E OS JOVENS"

Pergunta o exame nacional de Filosofia de 2015, III Grupo, 1:

“Haverá alguma circunstância em que seja moralmente aceitável matar uma pessoa inocente, sem o seu consentimento, para salvar a vida de outras cinco pessoas? Apresente as respostas que Kant e Mill dariam à questão anterior, comparando-as.”

REGINA SARDOEIRA
Como é evidente, os manuais e os professores de Filosofia dão uma visão geral das posições éticas dos dois filósofos e os alunos, melhor ou pior, debitam-nas nas provas do exame. E as respostas são estas:

Kant diria que não: em nenhuma circunstância, e de acordo com o carácter deontológico da ética que ele defende, seria legítimo, do ponto de vista moral, executar um inocente para salvar cinco (que nem sabemos se são igualmente inocentes.) O imperativo categórico declara que devemos fazer o que a nossa vontade possa querer instituir em lei universal e nenhum ser racional pode querer que, matar um para salvar cinco, seja uma norma de conduta universal. Por outro lado, o imperativo categórico também ordena que devemos usar a humanidade, quer na nossa pessoa, quer na pessoa de outrem, sempre e exclusivamente como um fim e nunca como um meio. Ora, sacrificar um, para salvar cinco, é instrumentalizar esse, usando-o e à sua morte como meio para salvar os outros.

Stuart Mill, e a sua perspectiva ética, utilitarista e consequencialista, teria outra opinião: segundo esta versão da ética, deve promover-se a maior felicidade para o maior número de pessoas; sendo assim, aritmeticamente falando, um é menos do que cinco, logo salvar cinco, ainda que com o ónus da perda de um, seria moralmente legítimo.

O meu problema, ao reflectir sobre esta questão – e estive a fazê-lo 50 vezes – é de outra índole. Será legítimo perante jovens de 16/17 anos apresentar este dilema ético e fazê-los ponderar acerca de uma questão tão radical? Bem sei que aos jovens serão apresentados no futuro muitas problemáticas no âmbito dos valores e da moral e quanto mais eles estiverem de posse de instrumentos de clarificação dos actos, tanto melhor poderão decidir dilemas. O problema está na questão em si: “Haverá alguma circunstância em que…”

Necessário seria, em primeiro lugar, definir a circunstância. Imaginem seis náufragos, em pleno mar alto, desprovidos de reservas alimentares e ainda crentes na possibilidade de serem encontrados e sobreviverem. A certa altura, surge a “circunstância”. Os seis percebem que a solução é alimentarem-se de um deles e garantir que os outros cinco sobrevivem. Como escolhem? Tiram à sorte? Comem o mais velho? O mais novo? O mais fraco?

A resposta de Kant é taxativa: não se come nenhum, não se escolhe, nem se tira à sorte, nem se usa qualquer critério, em defesa da morte de um para salvar os outros. E se ele se sacrificar? Kant diz: não deve fazê-lo; estaria a instrumentalizar-se e a permitir universalizar uma lei moral que diria o seguinte: “Devemos deixar-nos comer para garantir a sobrevivência dos outros”. E o consequencialismo? Nestas circunstâncias diria que um deve deixar-se comer em prol do benefício dos outros? Ou que deve tirar-se à sorte? Ou escolher o mais fraco? Ou o mais débil? Aparentemente, o utilitarista daria a sua adesão a um tal acto; afinal, um morreria, mas os outros poderiam sobreviver à custa dele; o princípio da maior felicidade estaria garantido.

Agora imaginemos que estes nossos cinco náufragos acabavam por ser salvos e não tinham outro remédio senão admitir, depois, que conseguiram sobreviver porque se alimentaram de um deles. Imaginemos mesmo que, esse que foi sacrificado era o mais novo, não tinha família que dele dependesse e que acabou mesmo por aceitar ser sacrificado para benefício dos restantes, todos eles pais de família. Levados a tribunal, como iriam ser julgados? Que decisão deveria tomar o juiz? Por outro lado, como prever, em termos consequencialistas e utilitaristas, se o rapaz devorado pelos seus companheiros não teria um papel importante ainda a desempenhar na sociedade, no exercício do qual seria capaz de contribuir para a maior felicidade de todo um país? Como considerar um maior bem salvar aqueles cinco que, muito embora pais de família, poderiam também ser bêbados, desprezadores dos filhos, espancadores das mulheres e virtualmente capazes dos piores crimes?

Não creio que Stuart Mill pudesse, em sã consciência, aprovar este assassinato e consequente acto de canibalismo, mesmo perante uma tal circunstância. 

Por esta razão, a questão, deste modo articulada, é capciosa. 

Que pode dizer o aluno senão o que lhe ensinaram sobre as respectivas éticas de Kant e de Stuart Mill? 

Muito mais produtivo e interessante seria perguntar-lhe: por qual delas optaria, se viesse a encontrar-se numa tal situação?

Sem dúvida que, numa tal circunstância, não é o mesmo fazer parte dos cinco que devem ser salvos ou ser a potencial vítima que, sacrificando-se ou sendo sacrificada, permitiria viver os demais. E assim, o jovem responderia, certamente, que seria consequencialista, caso estivesse do lado da maioria, e kantiano, se lhe coubesse a parte minoritária.

Qualquer um dos filósofos – Kant e Stuart Mill – fala em abstracto, desenvolve uma teoria. Na prática, não tenho a certeza se eles seriam capazes de decidir este dilema: Kant, porque ergueu uma ética baseada em princípios absolutos e o absoluto nem sempre pode ajustar-se à realidade, Mill porque fez depender os fundamentos da sua teoria ética em antevisões ou projecções futurísticas sobre as quais ninguém pode, em sã consciência, pronunciar-se. 

“Não deves matar! Não deves usar a tua vida para salvar a de outros! Não deves usar a vida de outrem para salvar-te!” – proclamaria Kant, com o imperativo categórico em punho.

“Se da morte de um, resultar a vida de cinco, deve matar-se esse e salvar os restantes! O sacrificado deve aceitar que o seu sacrifício é necessário e útil para as consequências positivas da maioria! Maximizar a felicidade deve ser o objetivo dos indivíduos na sociedade mesmo que isso implique o sacrifício de uma minoria!” – gritaria Stuart Mill, brandindo o princípio da maior felicidade.

A seguir reflicto sobre as razões que terão levado os agentes que manipulam os conteúdos para exame nacional – manipulam, exactamente, porque a obrigatoriedade de estudar Stuart Mill surgiu apenas quando passou a ser um dos itens da matriz do exame, sem constar dos conteúdos programáticos da Filosofia, nem dos respectivos manuais. E, mesmo sem querer, ocorre-me que, sendo a doutrina ética kantiana demasiado radical no seu desinteresse, universalidade, recusa de instrumentalização, respeito pela autonomia, etc. e logo bastante difícil de fazer aceitar pelos estudantes, apresentar uma visão utilitarista e consequencialista é muito mais consentâneo com o mundo em que vivemos. Stuart Mill e antes dele Jeremy Bentham são conhecidos por defenderem o liberalismo económico e social o que, aparentemente, encaixa nas concepções dos tempos actuais. De facto, a democracia já não é o “governo do povo” como indica a palavra grega δημοκρατία – pois entre os gregos surgiu a primeira manifestação desse tipo de outorgação do poder às pessoas que decidiam directamente e em praça pública os seus destinos. O correr dos séculos manteve a democracia, como conceito, e mostrou ao mundo ser o regime político mais humanista. Mas foi-lhe acrescentado, enquanto conceito e enquanto forma de governo, uma série de adendas que acabaram por desfigurar totalmente o desígnio que a sua base continha. Hoje, o povo não detém o poder, cedeu os seus direitos a um conjunto de pessoas que elege – fez o designado Contrato Social, defendido por Jean-Jacques Rousseau – esperando que esses seus representantes cumpram o dever, apenas porque é o seu dever, já que para tal foram eleitos. Deve o povo esperar que os seus representantes o representem mesmo? Deve, pois para tal realizaram o contrato. Deve o povo esperar, por essa razão, que a sua vida esteja protegida, a todos os níveis? Deve, pois aqueles que o representam prometeram fazê-lo. E as promessas devem ser cumpridas? Devem, porque senão deixariam de ser promessas.

Mas, vejamos: se houver grupos, dentro dos grupos que foram investidos do poder do povo, por contrato, e esses grupos inter-grupos decidirem governar à revelia do povo, quebrando o contrato? E se entre todos decidirem como deve viver o povo, que os contratou para representantes, e se arvorarem em classe social, para além e em resguardo do povo a que sentem já não pertencer? Aí, nessas esferas, contrárias e à revelia do contrato social, gerar-se-ão interesses específicos e surgirão novas maiorias e novas minorias. Pergunta-se: será moralmente legítimo sacrificar uma minoria – os idosos, os doentes, por exemplo – para salvar a maioria – os jovens, os saudáveis, etc.? Será moralmente legítimo sacrificar um povo inteiro para servir interesses de outros e maiores países?

Kant continuaria a responder negativamente; Stuart Mill iria pela afirmativa. E assim se perpetuam as injustiças da designada democracia de base liberal ou neoliberal alicerçada no consequencialismo/utilitarismo. 

Entre a ética absoluta de Kant que diz: “Faz o teu dever, porque é o teu dever e não leves em conta as consequências.”; “Faz apenas o que puderes querer universalizar.”; Não te uses nem uses os outros como meios para atingir fins.”, e o utilitarismo de Mill que apregoa: “Procura a felicidade e tem esse objectivo como fim último da tua acção.”; “Escolhe os meios de conseguires a maior felicidade para o maior número de pessoas possível mesmo que tenhas que sacrificar algumas.”, qual será a resposta que melhor se enquadra nas mentes dos jovens a quem foi feita a pergunta:

“Haverá alguma circunstância em que seja moralmente aceitável matar uma pessoa inocente, sem o seu consentimento, para salvar a vida de outras cinco pessoas?

Apresente as respostas que Kant e Mill dariam à questão anterior, comparando-as.”?

Se entre as 50 respostas que li, uma delas admitisse não saber que resposta dariam, respectivamente, Kant e Mill, apesar da aparente clareza das suas doutrinas, e fosse capaz de argumentar, eu ignoraria os critérios e dar-lhe-ia a cotação máxima. Mas a tanto não chega a preparação para os exames nacionais de Filosofia do 11º ano.



NOVENTA ANOS DE UMA VIDA SINGULAR

Quis ser, e teria sido, "uma grande atriz", mas a política - e um político - atravessaram-se. Noventa anos de uma vida singular.

MARIA BARROSO

Maria de Jesus Simões Barroso, nascida a 2 de maio de 1925, filha de uma professora primária e de um tenente do exército e do reviralho, castigado, preso e finalmente deportado para os Açores, neta de avós divorciados do lado da mãe, irmã de nove irmãos, dois mortos em bebés como morriam então tantos; pequena, esguia, sempre direita e de cabeça erguida, cuidadosa nos passos e na aparência, de voz bem modulada e colocada, porém sem afetação; teimosa, obstinada, corajosa, compassiva; moderna a ponto de decidir, menina da média burguesia dos portugueses anos 40 e contra as convenções e fados, que o teatro era o seu destino, mas reservando-se sempre de um meio "propício à instabilidade pessoal"; amiga de Mourão-Ferreira, Sebastião da Gama, Matilde Rosa Araújo, Lindley Cintra, Eurico Lisboa, Joel Serrão, e depois de Sophia e muitos outros "grandes nomes" das artes, literatura, pensamento; desde cedo seguindo a senda do pai numa rebeldia e desalinhamento que lhe decretarão ser expulsa do Teatro Nacional e interrogada pela polícia política por declamar poemas subversivos. Isto tudo (e mais, decerto). E também mulher de, a mulher de Mário Soares. O apodo que sempre a precede há mais de 60 anos e, como no contraste físico entre a fragilidade diminuta dela e a estatura formidável dele, de algum modo a foi invisibilizando. Mas olhemos, tentemos ver. Quem é?

"Muito tímida", disse de si própria à biógrafa e amiga Leonor Xavier, em Maria Barroso - Um Olhar sobre a Vida (primeira edição 1996, a mais recente 2012). Uma tímida que, escolhendo do nome todo o de guerra, pelo qual hoje a conhecemos, sobe aos palcos, ergue a voz e, nos primeiros papéis de "ingénua", então termo utilizado para um tipo teatral e para o qual é contratada, deslumbra os críticos. Logo na estreia, numa peça do Teatro Ginásio, o Diário Popular anuncia-a "uma promessa radiosa com a qual o teatro português deve contar". Ainda vai na segunda peça e Luís Francisco Rebello já se lhe rende, num artigo de 26 de abril de 1945: "Uma grande intuição dramática, uma voz lindamente timbrada, bela presença e notável segurança em todos os seus gestos, compreensão absoluta da personagem interpretada, tudo isto casado com um não sei quê de suave espiritualidade." O êxito instantâneo abre-lhe o caminho para o sonho, o de fazer parte da companhia de Amélia Rey Colaço (que a recorda anos depois como "uma pequena com muita vergonha, com dificuldade em comunicar. Mas no ensaio começava a falar e era espantosa, dizia as frases com veemência!") no Teatro Nacional, onde os encómios continuam a jorrar: "Uma ingénua dramática de indisputáveis recursos, dotada de uma grande sinceridade emotiva, limpa de truques e de um invulgar poder de persuasão, através de uma encantadora simplicidade de processos", di-la Jorge de Faria no Diário Popular, enquanto Luís Francisco Rebello, num registo de 17 de maio de 1945, a descreve no papel de uma datilógrafa chamada Elsa que contracena com Raul de Carvalho e José Gamboa: "Maria Barroso realizou uma notável criação. Na intensa cena final do segundo ato, com Raul e Gamboa, cena em que se aflora o cruciante problema da mulher que pretende viver honestamente o seu trabalho (fixei esta penetrante afirmação: quando nos contratam os homens já estão a tomar posse de nós com os olhos), o seu belo talento ergueu-se a grande altura." Se não soubesse já, ler e saber tudo isto tê-la-ia convencido de que estava ali a sua verdade, o seu caminho. Di-lo, determinada, numa entrevista ao Diário Popular nesse ano: "O teatro é a minha profissão definitiva. O curso superior que frequento será um auxiliar. A minha maior ambição é ser uma grande atriz."

O curso superior que frequenta, na Faculdade de Letras, então à Academia de Ciências, é Histórico-Filosóficas, escolhido por conselho de uma professora de Filosofia do liceu quando Maria de Jesus tinha pensado em Direito - uma ideia que de resto acalentava ainda anos depois, quando já casada e mãe um dos cunhados a impele a cumpri-la: "A Faculdade de Direito era mesmo ao pé de nossa casa e fiquei entusiasmada com a possibilidade... [Como já tinha dois cursos] podia entrar em Direito sem fazer exame." Mas, conta na última grande entrevista, ao i, "o meu entusiasmo esbarrou no meu marido, que achou um disparate. "Já tens dois cursos!", exclamou logo. Engraçado como são as coisas." As coisas são engraçadas, sim: o marido, que também queria entrar para Direito (ingressou em 1953) e a dissuadiu disso, conheceu-o na Faculdade de Letras, num dia em que chorava por um professor não lhe ter permitido fazer um exame, recusando-se a retirar-lhe uma falta justificada por ter ido aos ensaios no Nacional. Já o conhecia de vista, diz a Leonor Xavier, e quando, dias depois, a 8 de maio, é assinado o armistício - com rendição incondicional da Alemanha - faz parte do grupo que Soares desafia a celebrá-lo nas ruas, numa manifestação com vivas à liberdade e morras ao fascismo, V da vitória e hino nacional, que a polícia, inusitadamente, não reprime. Uma ocasião única que Maria de Jesus tem de abandonar a meio, para correr para o Nacional, deixando para trás, na confusão da alegria, a pasta da faculdade, que o colega e poeta Sebastião da Gama vai entregar-lhe ao teatro.

Mas abandonada, nem a meio sequer, será também a "profissão definitiva", e, logo após a consagração no papel principal de Benilde ou a Virgem Mãe, de José Régio, o sonho de se tornar "uma grande atriz". O namoro com Soares, que começa ainda em 1945 e pega de estaca - "Logo que nos conhecemos, o Mário deu-se muito bem com os meus pais e ficou amigo dos meus irmãos. Achava muita graça ao meu pai, que era um velho republicano e contava muitas histórias" - alicerçado também na coincidência de os pais de ambos serem opositores ao regime comungando de deportação nos Açores e de perseguições avulsas, será um dos fatores a determinar que em 1948, quando Soares já ia na terceira prisão (a primeira fora por quatro meses e meio em 1947), lhe sejam comunicadas por Rey Colaço as ordens da polícia e do governo: não pode continuar no Teatro Nacional. Anos mais tarde, conta Maria Barroso, a diretora propor-lhe-á regressar, "com uma condição: escrever uma carta a garantir que estava afastada das atividades políticas. Recusei." Vendo-a "figura mítica" desde os tempos da faculdade, Mourão--Ferreira lamentará a perda: "Era de uma verticalidade espantosa, tingida de um certo puritanismo. Havia nela "um nimbo trágico", penso que foi uma das raras atrizes portuguesas que tiveram um sentido do trágico. (...) Podemos supor o que teria sido a sua evolução no teatro português."

Antes dessa sentença (voltará a fazer teatro e terá várias participações em filmes de Oliveira, assim como de Paulo Rocha, mas o esteio da sua vida não passará mais aí) tivera já, em 1947, o privilégio de conhecer por dentro as instalações da Rua António Maria Cardoso. O motivo fora o declamar de poemas "subversivos" ou, talvez, declamar subversivamente poemas. Diz ter tido o cuidado de ir "o mais bem arranjada possível, para não dar o ar de mulher derrotada": "Começaram por querer intimidar-me. No primeiro dia, ouvi uma mulher a gritar, no terceiro andar. Senti um calafrio na espinha." Um agente entra e diz: "Isto ia de outra maneira." Mas nos "cinco dias inteiros" que a coisa durou certifica nunca ter "dado com a língua nos dentes".

Casa com Soares, de novo preso, no ano seguinte, por procuração, e suspende o curso na Faculdade de Letras, indo morar no Colégio Moderno, que passará a dirigir e a administrar a partir de 1971, ano da morte do sogro (João Soares). Ainda em 1949 nasce o filho João e em 1951 é a vez de Isabel. Os seus destinos confundem-se, doravante, até na atividade política - será deputada pelo PS em 1976, 1979, 1980 e 1983, e assume o equívoco estatuto de "primeira-dama" durante os dez anos da presidência Soares, de 1986 a 1996. O que leva talvez a negligenciar o facto de ela ter sido a única mulher a falar na sessão de abertura do III Congresso da Oposição Democrática (pela qual fora candidata a deputada em 1969), em Aveiro, em 1973, e também a única mulher presente no grupo que funda o PS, a 19 de abril do mesmo ano, na Alemanha - evento no qual, de resto, votara contra a opinião do marido, como explica na citada entrevista ao i: "Compreendeu, embora tenha ficado muito chateado, claro. O grupo que veio de Lisboa, éramos uns cinco, fomos portadores do voto de Salgado Zenha, do Magalhães Godinho e de outros... Julgávamos que não era bem a altura de formar o PS, devíamos esperar um bocadinho antes de tomar a decisão. Estávamos errados e Mário Soares estava certo, a história provou-o. Todos lhe demos razão a partir do momento em que surgiram movimentos que colocaram logo muita pressão em Marcelo Caetano." Um momento raro de dissenso naquilo que descreve como uma relação na qual teve "sempre a ideia de não fazer nada que o enervasse e o contrariasse", facto a que atribui a longevidade do enlace: "Temos uma relação excelente que é fruto dessa compreensão. (...) Quis acompanhá-lo sempre, acompanhá-lo mesmo nos momentos mais difíceis. Quis ser a companheira dele constante."

No pós-presidência, dirigirá a Cruz Vermelha portuguesa, saindo em 2003 em conflito com o então ministro da Defesa Paulo Portas; tendo criado a Fundação Pro Dignitate em 1993, é sua presidente na atualidade. Discreta, frugal na pose (e até na alimentação: há muito deixou de comer carne), fervorosa no catolicismo que, tardio, lhe veio com o acidente do filho João em 1989, costuma, contou a Leonor Xavier, dizer ao marido "Gosto de representar no palco e não na vida." O amor, confessou ao i, é sua palavra preferida, a que ecoa no poema de Sophia por si escolhido na trasladação da poetisa para o Panteão, Carta aos Amigos Mortos: "E eu vos peço por este amor cortado / Que vos lembreis de mim lá onde o amor / Já não pode morrer nem ser quebrado."

TEXTO: DR DIÁRIO DE NOTÍCIAS

segunda-feira, 29 de junho de 2015

SOL, SARDINHAS E “SILLY SEASON”

CLARA CORREIA
Se a Vida, a colectiva e a pessoal, é feita de ciclos, estes nem sempre são percepcionados por nós, sujeitos a reboque da rotina, mais ou menos monótona, com mais ou menos dissabores, a que estamos sujeitos. Já dos ciclos sujeitos à sazonalidade, guardamos, geralmente e com especial facilidade, as referências que nos conduzem àquelas memórias quase sempre protagonizadas por celebrações de datas festivas, como o Natal, ou por circunstâncias sazonais, como as férias de Verão. Portugal tem como fado ser, nas memórias de quem nos visita, o “país do Verão” … é-o na tradição dos nossos emigrantes, os das vagas anteriores às das recentes vagas de jovens pela “crise” empurrados “lá para fora”; é obrigatório o nosso Verão para nós próprios, sazonalmente, assim, mais próximos do espírito da “silly season” ostentado pelos veraneantes nórdicos e de países onde o sol quase não ostenta a sua coroa de astro – rei.

Entra Junho, entram os Santos Populares, à cabeça Sto. António, pelo nosso popular e anual portal de partida para um Verão deliciosamente aromatizado, ou não cheirasse, e bem, a Lisboa e, já na segunda quinzena, a Porto, que se perfuma a preceito para a recepção nocturna, madrugada dentro, ao S. João. Se a conquista de alguns homens (e mulheres também) se faz pela boca, todo um povo é conquistado pela sardinha, deitada no pão ou recostada no pimento, a seduzir (só a lusa alma sabe como) o paladar colectivo nacional e, pelo que se observa nas ruelas debruadas a manjerico e animadas por bailaricos, são de várias nacionalidades os paladares que se deixam seduzir por ela, a “Sardinha linda!” no pregão que, ande ou não esquecido, não o esquece a tradição! Assim, vamos “indo” … no “ir” tão caracteristicamente nosso, mas de andar muito mais airoso em tempo de estio!

O nosso Verão, tal como o nosso Fado, deveria ser Património Imaterial da Humanidade ou, pelo menos, constar no “Guinness”, por ser, certamente, recordista na extensão costeira de muito cobiçadas, de tão preciosas, praias!

domingo, 28 de junho de 2015

MOSTO

MIGUEL GOMES
A candeia não vai à frente, alumia apenas uma vez e isso basta, o suor cai por vezes nas bagas órfãs e estas rebolam-se como que felizes. 

O odor ainda não acidou, a mistura de cimento barrento e terra faz as vezes de chão, os pés são nutriente de uma noite que vai cair tarda nada e os garrafões de vidro e vime emparedam as laterais de uma quase cave, conquistada ao ventre do solo, sob o soalho de pinho repousado em vigas grossas de carvalho talhadas de goiva e ostentando a finura de uma veia cava saliente. 

De cima pendem as teias de aranha, o barulho de passos da mãe, falecida, ecoam na memória, mas mesmo assim, ainda que quase perdidos no esquecimento de quem de filho se fez homem e de homem se fez pai, dão qualidade à degustação de um vinho, zurrapa, como se pela espuma vermelha, rosa, se pudessem limpar os lábios de um beijo saudoso.

Dizem que não dá para o lucro. 

Nem para o prejuízo. 

Mas, pelo menos, dá para a fermentação da idade madura, amadurecendo as memórias dos tempos descalços onde as leiras conquistavam os cumes dos pequenos passos de petiz, foi assim que Deus quis, mundo feito de vindima por quem de homem e mulher se encima, a sede e o calor, o lenço na testa, a golfada perdida num conto, o corpo atirado a um canto e enquanto uns vindimam outros, na enxertia da adolescência, se dão ao passo ligeiro do amor e ocultos pela límpida tarde de um sábado que fecha os olhos ao que não quer outros vislumbrem, se dão ao esmagamento de uvas e de corpo, um contra o outro, assim se quer o principiar da vida, adulta, mão suada no peito firme, mão caída na rigidez de vime, um escasso minuto de oxidação e tudo se resume à história contada daqui a tempos, nas sombras que a lareira tem, “foi assim que conheci tua mãe”.

É de golfada ligeira, quase sem parágrafo, que as tesouras de poda se convertem ao degrau de passada larga das escadas de madeira, bailaram no bolso de trás da calça remendada presa nas presilhas pela verde fiteira, escorregadia, que há-de amarrar o saco lá mais para o final do dia.

Cuidado com esses aí, uma unha rasga tanto como a navalha e se por um lanho se vem à vida, por outro se esvai o vinho, vá de lá essa cura, o que aperta segura, cuidado, já não disse?, e a canalhada ri-se, de cu espetado no ar enquanto dedos de atirar caricas se mexem lestos por entre ervas e catam os bagos que caíram do alto do cacho, migalhinhas são pão!, e era um molete que comia este moleque.

Há-de cair açúcar, de cana, no lagar e este, como ventre de mãe, vai-se mexendo devagar pelas pernas adultas e varizadas, contadas nas antigas coutadas por onde marchavam exércitos de homens e mulheres, atentas, ao esperneio maduro de músculos como que avançando ficticiamente pelas leveduras enquanto a vida se encarregava das agruras, sonham pelo alcançar do seio de encontro ao ombro quando lhe forem servir o jantar e, talvez, entre uma caneca e um naco de boroa, alguém se lembre da concertina e enquanto o vinho fervilha no lagar entregue aos cuidados do tempo, o bailarico faça degustar as rodas e as luzes a rodopiar e os corpos que se vindimam num ligeiro enamorar.

O mundo vai tampando o olhar ao que fica, pouco lhe importa se está macerado o homem, aqui sentado no mocho velho, a ouvir o que lhe diz o filho de suas mãos, engana o tempo e a idade, se a saúde não chega para erguer o corpo, posso eu levantar o copo, olhar néctar e fazer-me religião, não te quero o pão, apenas este o meu sangue, que se derrama para remissão dos meus pecados.

Perde as horas quando lhe batem com o pé no soalho, anda comer caralho!, e ele acossado pela acidez humana engarrafa a recordação e bebe um gole de sulfitos, remédio para os aflitos, qualquer dia dá-lhe a degustação na solução e acaba-se.

Hei-de agarrar-me à videira, quedando-se-me as pernas que me caia também o serrote na jeira, eu que tanto tinto e branco trouxe na estima, verto-me em enzima e podarei o meu olhar quando erguer a face para sentir a chuva na cara e adormecer colhido, para que me façam o gosto e me amassem na memória, como o mosto.

sábado, 27 de junho de 2015

DROGA É O TERMO UTILIZADO PARA DESIGNAR UMA SUBSTÂNCIA NATURAL OU NÃO (SINTÉTICA) QUE QUANDO ABSORVIDA PELO ORGANISMO VAI ORIGINAR UMA MUDANÇA COMPORTAMENTAL QUE PODE SER FÍSICA OU PSICOLÓGICA

ANTONIETA DIAS 
Se utilizada com fins terapêuticos tem como objetivo curar ou prevenir doenças que podem ser fatais. 

Todavia, no caso em apreço, o termo “droga “é usado para as substâncias ilícitas que irão desencadear mais ou menos dependência, que atuam no sistema nervoso central e provocam no indivíduo uma série de sensações e de comportamentos por vezes alucinogénios imprevisíveis.

As drogas são muitas vezes apelidadas de narcóticos ou estimulantes do sistema nervoso central consumidas por quem procura obter “ sensações milagrosas” e vivências nunca antes experienciadas.

Existem múltiplas substâncias sintéticas de venda livre que são adquiridas facilmente nas smart shops, que são utilizadas pelos consumidores como alternativa às drogas ilegais.

Estas drogas representam um flagelo social devido aos efeitos deletérios que criam no organismo dos consumidores e ao elevado número de utilizadores que as consomem de várias formas: por inalação, aspiração, aplicação sobre a pele, ingestão ou por qualquer outra via de absorção humana, originando um perigo real para a integridade psíquica ou física do indivíduo, devido aos efeitos perturbadores do foro psiquiátrico, dos desequilíbrios hidroelectrolíticos, das lesões cardiovasculares e gastrointestinais, que originam nalguns casos a morte.

Com base na investigação científica, os dados apontam e permitem mesmo concluir que certas drogas sintéticas de venda livre produzem sequelas irreversíveis, sendo os efeitos na saúde por vezes ainda mais graves que os que são desencadeados pelas drogas ilegais.

Estes factos são preocupantes, pois muitos dos consumidores desconhecem completamente estas consequências e pensam até que por serem drogas sintéticas de venda livre, não têm repercussões na sua saúde.

Em Portugal existiam cerca de 40 lojas registadas smartshops ou headshops, onde estas substâncias são vendidas sob a variedade de formas galénicas (pílulas, incensos, ervas, fertilizantes ou até em formas de suplementos).

Vale a pena fazer referência a uma droga denominada Ecstasy, que obteve uma popularidade enorme entre os jovens e que é responsável por um quadro de neurotoxicidade com morte dos axónios mas não dos corpos celulares. Porém, apesar de poder haver alguma recuperação neuronal a maior parte dos axónios destruídos são irrecuperáveis.

Sendo esta droga altamente perigosa, despoletando muitas vezes comportamentos de risco.

Uma vez que os consumidores de ecstasy se envolvem mais facilmente em comportamentos sexuais de risco com consequente contágio e propagação de doenças sexualmente transmissíveis, como a SIDA e a Hepatite.

Acresce ainda, que o grupo de utilizadores destas drogas são habitualmente jovens com um relacionamento sexual experienciado e partilhado com vários parceiros, praticando sexo sem proteção (sem recurso ao uso de preservativos), comprometendo assim a sociedade e colocando em risco não só a vida individual, como a saúde pública em geral.

Certo é que são geralmente jovens que iniciam a sua atividade sexual em idades muito precoces (13-14 anos), desconhecendo completamente os perigos destas ligações desprotegidas vivendo uma aventura que navega num mundo de ilusão sem possibilidade de recuperação e de muito difícil exclusão do grupo.

Outra droga que merece ser referenciada e que é também bastante utilizada por esta faixa etária é a BZP (BENZILPIPERAZINA), que se caracteriza por ter um efeito estimulante 10 a 20 vezes mais potente que a anfetamina, que era vendida originalmente em farmácias em pó em embalagens de vidro ou de plástico.

Contudo, é também comercializada e vendida sob a forma de pílulas, nas quais são impressos logótipos, sendo as pílulas de BZP consumidas, habitualmente, por adolescentes e jovens, em festas noturnas. A sua administração é feita por via oral, embora a droga possa também ser aspirada ou fumada.

As doses utilizadas variam entre as 20 e as 200 miligramas, e os efeitos secundários da BZP, tal como qualquer estimulante, podem provocar diminuição do apetite, tonturas, vómitos, dilatação das pupilas, aumento da tensão arterial, taquicardia, diarreia, reações alérgicas, ansiedade e insónia.

Apenas com estes dois meros exemplos podemos concluir que estas substâncias aparentemente inofensivas são altamente lesivas para a saúde.

O comportamento bizarro dos consumidores, a recente introdução num circuito não controlado nem regulado tem tido um enorme impacto na saúde dos utilizadores, criando uma necessidade social, de intervenção e apoio às famílias sinalizadas com conviventes geradores de disfunções familiares, provocadas pelos comportamentos desviantes destes jovens consumidores compulsivos, que ficam completamente incapazes de saírem de um cerco extremamente bem montado e manipulado por indivíduos vocacionados para envolver as camadas populacionais mais vulneráveis no mundo da droga.

Sem dúvida que a sociedade civil tem tido um papel preponderante no combate à generalização e à liberalização destas drogas, de tal forma relevante que o próprio Estado teve necessidade de regulamentar a venda destas drogas, cujos efeitos farmacológicos destes compostos são em tudo semelhantes às drogas ilegais, devendo por isso ser interditadas.

Muito recentemente foi publicado o Decreto-Lei n.º 54/2013 de 17 de Abril, que veio colmatar parcialmente a venda indiscriminada de substâncias psicoativas.

O Decreto define o regime jurídico da prevenção e proteção contra a publicidade das novas substâncias psicoativas, proíbe a produção, importação, exportação, publicidade, distribuição, venda, detenção, ou disponibilização de novas substâncias psicoativas.

Este Decreto – Lei abrange uma lista de 159 substâncias, salvaguardando, no artigo 17 º uma última oportunidade para quem fosse possuidor deste tipo de produtos o entregasse voluntariamente no prazo máximo de 15 dias a contar da data de entrada em vigor do presente Decreto – Lei, em qualquer posto da Guarda Nacional Republicana ou numa esquadra da Polícia de Segurança Pública, no qual era exigido um “termo de entrega, onde seriam mencionadas e descriminadas as respetivas drogas e as suas quantidades”.

A coima a atribuir pela não opção de entrega voluntária poderá atingir um valor máximo de 44.890 euros.

O artigo 1.º do decreto-lei define o regime jurídico da prevenção e proteção contra a publicidade e o comércio das novas substâncias ativas.

Sem prejuízo da importância vital desta legislação que veio contribuir para minimizar a liberalização destes produtos, todavia, a ilegalização só por si não resolve na totalidade este problema pois é fácil mudar um radical neste grupo de substâncias, fazendo com que a droga que estava incluída na lista dos produtos ilícitos deixe de o ser.

Em suma, fica para os farmacologistas a responsabilidade de continuar a sua investigação e de propor uma alteração ao Decreto – Lei com o objetivo de passarem a ser englobados em grupos farmacológicos suficientemente abrangentes que permitam incluir todas as substâncias já conhecidas e as que venham a surgir por pequenas mudanças estratégicas dos seus radicais.

Importa ainda referir, que é necessário ter uma comissão permanente de vigilância destes substâncias que sistematicamente estão a ser lançadas para o mercado, em que a presença de um farmacologista no grupo de intervenção se torna imprescindível no aconselhamento e na informação científica que esta questão requer.

Cabe assim aos órgãos legislativos proceder à nomeação de uma comissão destinada a cumprir estas funções.

Temos a intenção de solicitar uma audiência parlamentar para sensibilizar os grupos parlamentares que apesar da existência de uma legislação própria (Decreto-Lei n.º 54/2013, de 17 de Abril), são imprescindíveis outras medidas complementares, para impedir que esta ameaça para a saúde pública, que coloca em perigo a vida dos consumidores, devido às alterações que provocam no sistema nervoso central, tanto a nível da função motora, como das funções cognitivas, nomeadamente do raciocínio crítico e comportamental, muitas vezes traduzidos por alucinações, delírios, euforias e dependência das drogas, seja uma realidade inatingível.

Para além disso devem ser implementadas campanhas de prevenção e esclarecimento destinadas aos eventuais consumidores no sentido de os informarem sobre os potenciais perigos na utilização destas substâncias.”

Um processo traduz uma sequência de fenómenos (factos naturais ou atos humanos) sinalizados para a obtenção de resultados.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

PROCRASTINAR

GABRIEL VILAS BOAS
Procrastinar! É pecado que toda a gente já cometeu!

A palavra é difícil de pronunciar e o significado não é dominado pela maioria. Eu acho que é uma maneira chique e simpática de dizer engonhar. Claro que podia dizer “adiar”, “protelar”, mas acho que não era tão assertivo.

Procrastinar é uma arte que não está o alcance de qualquer um!

Os procrastinadores são pessoas analíticas, pois pensam em mil e uma maneiras de não fazer o que tem de ser feito. São igualmente bem relacionados já que fazem inúmeros contactos devido ao seu gosto de conversar. Numa empresa, revelam-se líderes natos na medida em que possuem uma retórica exemplar, falam com propriedade nas reuniões, findas as quais procuram distribuir as suas tarefas pelos colegas. Ficam com a mais simples para disfarçar, ao mesmo tempo que apregoam o grande esforço necessário para realizar tamanho encargo. Todos temos que concordar que são esforçados porque se empenham o máximo que conseguem para não trabalhar. Intensos como poucos. Descrevem uma tarefa banal como um projeto, um e-mail como uma sugestão de melhoria dos negócios da empresa e pedem duas semanas para concretizar uma atividade que outros fazem em duas horas. São ainda verdadeiramente empreendedores. Tão seriamente concebem a empresa como a sua segunda casa que abusam do telefone, da internet, dos táxis para tratar de assuntos particulares. E convém não esquecer uma última qualidade: são astutos. Quando percebem que foram apanhados, abrilhantam o currículo e procuram novo emprego onde possam voltar a tentar ascender a um cargo de gestor. A partir de então tornar-se-ão defensores da moral e do trabalho árduo, passando esses valores à sua equipa para que eles próprios não precisem de aplicá-los.

Procrastinar é um conflito entre o dever e o querer, em que a pessoa se dispõe a realizar várias tarefas, exceto aquelas que tem de fazer.

E por que procrastinamos? Fazemo-lo sempre que sentimos não ter recursos para realizar uma determinada tarefa, por falta de treino, inabilidade ou formação. Sempre que não nos sentimos seguros em relação às nossas prioridades, metas ou objetivos, fazemos uma gestão inadequada do tempo. Contudo convém deixar claro que o procrastinador não é um preguiçoso. O preguiçoso não quer fazer um trabalho, o procrastinador só quer adiá-lo.

Procrastinar traz um alívio imediato, mas não raras vezes esse prazer desaparece rapidamente e dá lugar à ansiedade, à culpa e à vergonha. A isso acresce o facto de tornarmos o dia seguinte mais stressante. É quase um dado científico a ideia de que procrastinar dá mais trabalho do que executar a própria tarefa. Mas na hora de procrastinar ninguém quer saber.

A vida é feita de pequenas e grandes tarefas que são agradáveis de executar, pelo que convém avaliar constantemente os custos do que atrasamos, antecipar benefícios futuros e superar o vício de adiar. Pequenos momentos de procrastinação são naturais; mais do que isso pode prejudicar relações pessoais e carreiras.

Que atitude deve ter, então, o procrastinador consciente?

O truque é estruturar, colocar outras tarefas que pareçam significativas e urgentes no topo da lista de afazeres, de modo a realizar as tarefas necessárias. Depois há que perder o medo de errar. Muitas pessoas procrastinam porque exigem tanto de si mesmas numa tarefa que acabam com receio de enfrentá-la. Aplique a regra dos cinco minutos e avance. Qualquer tarefa, por mais ingrata que seja, perde peso se decidir fazê-la apenas durante esse tempo. Se depois disso ainda se sentir motivado, continue.

Estabeleça prioridades. Por maior que seja o fluxo de trabalho, há que saber distinguir entre o que não deve ser adiado e as coisas menos urgentes ou importantes. Mantenha uma agenda realista e organizada. Sirva-se de post-its para lembrá-lo do que tem de ser feito impreterivelmente. Desenvolva a sua própria disciplina e não subestime o tempo necessário para a realização das tarefas. Desdobre o trabalho em tarefas menores e mais simples. Procure o lado positivo das coisas.

Se é um viciado em procrastinação e este tema deixa-o triste consigo, lembre-se que o mundo produziu muitos génios procrastinadores. Leonardo Da Vinci terminou poucos projetos em vida, pois saltava de projeto em projeto, sempre preocupado com um pormenor perfecionista que só ele via. Nem a Mona Lisa entregou. O famoso jornalista literário norte-americano Truman Capote demorou quase vinte anos a escrever o romance Answered Prayers, sem nunca chegar a terminá-lo. O escritor francês Vítor Hugo vencia a tendência para procrastinar ficando em casa nu, com as roupas escondidas pelo criado a seu pedido, de modo a não ter como sair e dedicar-se à escrita.

E Mark Twain orientava-se por uma máxima muito sui generis: «Nunca deixe para amanhã o que pode deixar para depois de amanhã.» Eu próprio procrastinei este texto durante dois meses!

quinta-feira, 25 de junho de 2015

DEDICADO A UM POETA DE FREGIM, JOSÉ DINIZ

HÉLDER BARROS
O Sr. Diniz, como eu me habituei a apelidar em miúdo, era visita frequente da família do meu falecido pai, designadamente, da Casa da Cidreira em Fregim, onde gostava de falar e cultivar a amizade, com os meus Tios, Domingos e Justina, e, com o meu Pai, Justino Barros.

A freguesia de Fregim era até então, um local de marcado bucolismo, onde a agricultura e todas as artes a ela ligadas, marcavam de forma indelével toda a sua ecologia existencial e paisagem física.

O Sr. Diniz sempre me pareceu ao mesmo tempo, deslocado deste local, e, por outro lado, de forma paradoxal, ligado de forma quase umbilical a esta terra que se lhe entranhou na Alma e marcou toda a sua inquietação, no mais profundo âmago do seu ser.

Não falava como os demais, era mais sofisticado e profundo nos seus pensamentos, sempre delicado no trato, tudo nele contrastava com a rudeza de uma freguesia rural, cuja beleza tinha que ser procurada e descoberta, por almas mais sensíveis e atentas, como era o caso do Sr. Diniz.

Há uns tempos atrás, dei por mim a remexer os livros e escritos do meu pai e, inopinadamente, deparo-me com um livro de um Poeta de Fregim, com o título “Os meus primeiros versos”, que devorei de uma assentada, podendo confirmar a ideia que tinha do Sr. José Diniz.

A Freguesia de Fregim foi uma fonte de inspiração para este Poeta que, como todos os Homens da escrita, são inspirados por paisagens, acontecimentos, atos humanos, que são considerados banais para o comum dos mortais… mas, para os Poetas não, eles vão sempre mais fundo, vão mais longe que o alcance dos sentidos humanos, a sua sensibilidade remete-os para viagens diferentes, mais ligadas aos caminhos insondáveis das Almas!

Agora que estamos em alturas de apertos financeiros, mas ainda restam reservas monetárias para espólios culturais, urge sem dúvida tratar os acervos culturais que sobram, mas que nunca são demais para enriquecer o património cultural de uma terra. Na falta de quem se interesse, faço aqui um apelo às Escolas, para que façam uma recolha de todos os Poetas de Amarante, dado que, mesmo que aqueles que não são de nomeada, oferecem-nos com o fruto do suor do seu trabalho literário, uma profunda reflexão sobre as suas emoções sentidas, a partir do amor telúrico pelo chão que sempre pisaram e amaram.

O Poeta José Diniz pela sua curta, mas consubstanciada e qualitativa obra, merece ser relembrado, pelo menos, por Fregim e pelos Malteses. Ainda recordo os tempos em que, sendo eu ainda um miúdo tinha a oportunidade de ler as suas crónicas no jornal “Flor do Tâmega”, onde se referia muitas vezes a Fregim, e à ligação desta freguesia à Ordem de Malta. Que pena tenho eu de não ter acesso, hoje em dia, a essas crónicas que me deliciavam.

É dever de uma sociedade não deixar apagar e morrer as suas nobres tradições, a sua cultura, ainda que remotas no tempo e no espaço. Igualmente, os seus agentes de cultura que, muitas das vezes fizeram autênticos trabalhos literários, a troco de nada, apenas pelo prazer da escrita e pelo amor à Terra que os acolheu para nascer, viver ou morrer, devem ser lembrados e divulgados. Mas, nem o nome de uma simples Rua merecem, na recente classificação toponímica das freguesias… porquê, pergunto eu?!...

A título de exemplo, deixo aqui um Poema que José Diniz dedicou à sua Freguesia, Santa Maria de Fregim:

“À minha aldeia

Na minha aldeia solitária e triste,
Que o sol beija por entre os pinheirais,
Sagrado é para mim tudo o que existe,
E vós meus tristes olhos contemplais.

Sagrada é a paz da tarde que declina,
Pela vertente íngreme do Outeiro,
Sagrado é o terno rouxinol que trina,
Sobre o galho franzino do amieiro.

Sagrado é o chão que piso em passos leves,
Dentro e fora do povo e dos casais,
E aquelas orações doces e breves,
No silêncio das tardes outonais.

Sagrados são os raios de luar,
Que a enchem de luz em noites calmas,
E das fontes o doce murmurar,
Na solidão que envolve as nossas almas.

É a canção do regato cristalino,
Na melindrosa e eterna melodia,
E no alto da torre lá no cimo,
A cruz que o sol afaga todo o dia.”

quarta-feira, 24 de junho de 2015

SANTOS POPULARES

GABRIEL VILAS BOAS
Os santos populares são das festas mais portuguesas e mais genuínas que vivemos.

Oriundas do feliz casamento entre a religião e a tradição, souberam manter o espírito de folia ao mesmo tempo que se foram reinventado, de maneira a renovar a festa na transição das gerações. 

Acontecem no verão, quando o tempo e a vontade nos expulsa do comodismo caseiro e nos traz para a rua. São elas que nos devolvem ao contacto com as nossas raízes, com os vizinhos que nem cumprimentávamos, com o prazer do convívio sem hora marcada. 

Quase ninguém aparece porque “tem de ser” e vemos famílias, novos e velhos, pessoas de todos os estratos sociais a sorrir, a brincar, a comer a sua sardinha assada no pão ou no prato, de pé ou numa mesa improvisada no meio da rua. 

São as festas populares que reúnem novamente as gentes da cidade, do bairro ou da rua, à volta do prazer de estar com o outro e da pequena brincadeira. Mantêm viva o orgulho da pertença a um grupo ou associação, nas marchas populares ou nas cantigas, fazem as crianças saltar as fogueiras e recordam a beleza da vida na magia do fogo-de-artifício. 

Os santos populares são festas de comunidade, onde todos estão convidados, mesmos os desconhecidos. Rapidamente o convívio vence a timidez dos mais recatados e instala a doce descontração dos momentos alegres até que os corpos deem sinal de cansaço.

Apesar de toda a brincadeira e descontração, há tempo e inspiração para coisas mais artísticas. O povo anseia pelo desfile bairrista das marchas, onde a coreografia namora a música, esperando o consentimento das palmas. Os mais sonhadores derramam poesia nos manjericos à espera dos sorrisos das almas delicadas. Entretanto a banda toca para mais um passo de dança enquanto os pequenos nos surpreendem com outra marretada e o calor da noite pede mais um copo e dois dedos de conversa. 

Como todas as coisas boas, a festa popular e santa também tem o seu fim. A sorte é que caminhamos (ou cambaleamos) para casa com a barriga cheia de alegria e folia, onde nos espera uma cama sem relógio para acolher um corpo cansado de satisfação.

Foi bonita a festa, pá!

terça-feira, 23 de junho de 2015

GAFANHOTO ALENTEJANO

REGINA SARDOEIRA
Pude um dia observar um gafanhoto – sou afortunada! A casa, alentejana típica, pintada de branco com uma barra azul forte, separando a alvura do toque negro da rua, tinha um pátio nas traseiras, por onde luzia um sol escaldante e quotidiano. Aí, haviam plantado duas árvores de fruto, ainda tenras naquele tempo, não mais altas que eu, meros arbustos esquálidos com algumas folhas longilíneas, uma nervura central mais espessa e umas dez mais ténues de cada lado do pequeno limbo, pessegueiros ou macieiras, não saberia dizê-lo com exactidão embora, agora que penso a sério no gafanhoto, me pareça que eram pessegueiros. O gafanhoto, claro, porque ali vinha ele todos os dias, exactamente à hora em que os homens almoçam, qualquer coisa entre as 12:30 e as 13:00 horas, poisava sobre a árvore, fazendo tremer a haste frágil, e com as suas mandíbulas, terríveis se ele fosse proporcional ao meu tamanho, mas apenas confrangedoras porque eram mandíbulas de gafanhoto, com uns insignificantes milímetros medidos em toda a sua extensão, ia comendo o tecido tenro metodicamente, à semelhança de quem come um peixe, isso mesmo, um peixe, pois, como se fosse uma espinha deixava intacta a nervura central, enquanto o limbo era devorado da orla para o fundo, primeiro, e do fundo para a orla, em seguida. Observar o gafanhoto, neste ritual imprevisível de almoçar toda uma folha de pessegueiro ainda impúbere (se assim podemos chamar a uma árvore emergente) constituiu uma experiência memorável, ver os olhinhos vivos, redondos e castanho irisado e as patas traseiras feitas para o salto, e ali dobradas, arrumadas por cima do dorso como se fossem instrumentos em repouso de uma oficina bem organizada, enquanto os dois pares de patas dianteiras seguravam firmemente a haste e as mandíbulas, dotadas de pequenos dentes, praticamente invisíveis, roíam o tutano da folha num discreto ruído de trituração tornou-se, também, o meu ritual da hora do almoço. Acreditem ou não, durante alguns dias, talvez duas ou três semanas ou nem tanto, aquele gafanhoto – porque eu tive a certeza que era sempre o mesmo – veio ali, poisou, mastigou e engoliu, sempre com o mesmo método, uma folha de pessegueiro por dia. Afeiçoei-me ao insecto, compreendem isto?

Não tendo comigo, na minha passagem exótica pelo mundo alentejano, qualquer animal de estimação, decidi, na medida do possível, adoptar o gafanhoto. Mas não imaginem que fui comprar uma gaiola e o levei para casa a fim de lhe servir, eu própria, a folha do pessegueiro! Não. Todos os dias, à mesma hora, dirigia-me ao pátio, procurava entre as folhas e lá estava o meu gafanhoto, deliciado, parecia-me, a comer o seu almoço ou quem sabe? a única refeição do seu dia. Onde ia, depois de comer, pois nunca ali o encontrei mais tarde, de onde vinha antes de comer, pois também por ali não estava de manhã, nunca pude vir a saber, nem tão pouco cheguei a vê-lo em movimento pelos ares, o que seria comum e eventualmente desinteressante. Mas vê-lo comer, ouvir o mastigar preciso das suas pequenas mandíbulas no acto solene e rigoroso de absorver o limbo da folha, pelo limite da nervura central, representou para mim um acto de intimidade com o bicho, inédito em toda a minha vida. Não poderei dizer se o gafanhoto soube que foi «o meu gafanhoto» durante aquele período, efémero, convenhamos, mas ainda assim de extraordinária longevidade, visto tratar-se de um gafanhoto. Suponho que ele não soube, suponho que ele não poderia ter sabido, afinal não passava de um gafanhoto e os gafanhotos nada sabem: não pensam!

Um dia, bruscamente, não porque tivesse roído todas as folhas da pequena árvore, não porque a minha presença o tivesse importunado, mas por razões que ignorarei para sempre, dado nada saber da vida enigmática do «meu gafanhoto», percebi que ele não regressaria nunca mais. E tive um desgosto. Afeiçoara-me ao visitante furtivo da árvore do pátio alentejano, aguardava com júbilo a hora em que o iria encontrar na sua solitária refeição, quase à mesma hora da minha, e logo que percebi que não voltaria a vê-lo, nem assistiria mais à refeição deleitada no aconchego vago do pequeno arbusto, senti o incómodo subtil, mas persistente, da perda de um amigo.

E ainda penso: que aconteceu ao gafanhoto, o meu pequeno amigo daqueles instantes furtados ao rigor da racionalidade, porque deixou, um dia, de assentar o seu corpo, frágil, se comparado com o meu, mas extraodinário de perfeição e vigor à sua escala de insecto poderoso, nos ramos daquele pessegueiro de folhas tenras e ainda escassas, e ali saciar o seu apetite e refazer as suas forças?

Não o saberei nunca, é claro, como disse ignorei sempre de onde vinha e para onde ia, antes e depois de ali se deter; talvez tivesse chegado a sua hora de deixar a vida, talvez o tivessem apanhado, homens ou outros bichos para dele fazerem malícia ou refeição, talvez tenha encontrado outras folhas mais suculentas ou mais propícias… o certo é que me deixou! E aquela árvore, aquele pátio de paredes brancas, com a orla azul a separar a alvura, do chão escurecido pelo pó e pelos passos, nunca mais foram os mesmos, desde então.

Há vários anos que perdi o meu gafanhoto alentejano, mas penso muitas vezes nele, acreditem. Talvez julguem que é loucura e eu julgo-o convosco, de bom grado: afinal, seres respeitáveis que somos, do alto das nossas cátedras racionais, porque havemos de prender-nos a insectos, mesmo que sejam gafanhotos corpulentos a saciarem a fome nas folhas nutritivas de uma árvore tenra? Mas a verdade é que, durante os dias em que observei a refeição ritualística, no calor opaco da primavera alentejana, senti uma unidade transcendente com a natureza, de que também sou feita, e acabei por perceber que me havia sido dado o privilégio de sorver a pureza de um gesto, a verdade de uma vida ainda não contaminada. E isso constitui, até hoje, uma espécie de refúgio cristalino quando preciso operar a catarse, após certos mergulhos no visco turvo da perversão humana. Hoje, finalmente, contei a história do meu gafanhoto alentejano que me deixou prematuramente, antes de o observar tão profundamente quanto desejava, a ponto de ter chegado a dar-lhe um nome e a desvendar-lhe, quem sabe?, uma psicologia própria… mas, por isso mesmo, na exacta medida em que não o desvendei até ao âmago, e nunca cheguei a querer possuí-lo ou sequer a agarrá-lo, retendo-o para mim, guardo dessa espécie de relação marginal uma intensa e viva memória: aquele gafanhoto anónimo, plasmado no verde discreto de uma árvore humilde, nunca me desiludirá, nunca envelhecerá nas linhas do meu pensamento e veio a tornar-se, por essa via, o perfeito paradigma das relações humanas, tão enviesadas e distorcidas pela posse e pelo engano, que mais vale delas ver-me privada para sempre.

Onde quer que estejas e mesmo que não estejas há muito em lado nenhum, louvo-te, pequeno gafanhoto da planície doirada, porque me ensinaste a intimidade transcendente das trocas invioláveis, só possíveis nos limiares da fantasia, onde o sonho se converte na autêntica expressão da realidade.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

FRONTEIRAS DA MÚSICA

CATARINA DINIS
Junho, o mês do sol, dos santos populares, dos manjericos, das sardinhas, da alegria e boa disposição, tem igualmente a celebração do dia europeu da música, neste passado domingo, dia 21 de junho. Musica fonte de inspiração para a vida e quem será que consegue viver sem ela? Cada instante das nossas vidas parece existir uma intensa banda sonora. Uma canção pode trazer -nos as brincadeiras e sons da infância, a lembrança do primeiro amor, o primeiro beijo, o primeiro adeus, a primeira separação eterna. É nestes momentos que ela, a música nos envolve, como que a acariciar a nossa alma. A música cria emoções: a tristeza, a alegria, o ódio, o amor, a revolta, a tranquilidade… Sabe-se que a música é fundamental na nossa sociedade, já desde os tempos pré-históricos onde podemos encontrar vestígios de instrumentos líricos, tal como a harpa, a lira, a flauta. Inclusive encontramo-los nos contos mitológicos. Estes instrumentos evoluíram e chegaram até aos nossos dias e durante todo esse trajeto, foram-se criando as orquestras da história humana. Cada cultura têm o seu próprio estilo e claro que depois de existirem tantas variantes, acabam-se por vezes por se fundir no mundo. Sem dúvida a música têm importância a nível cultural ajudando a construir e caracterizar uma determinada nacionalidade, a música pode até atravessar vários planos, várias temáticas e várias setores políticos, culturais e artísticos. Não podemos deixar de mencionar que a importância da música é tal que em determinados momentos no séc. XX existiram alguns exemplos de censura na música, e foram bastante graves e intolerantes, como é o caso do Estado Novo em Portugal, na Alemanha Nazi ou na União Soviética, ou como no Afeganistão com o regime Taliban nos anos 90 entre tantos outros exemplos. Depois de um lado negativo, um dos melhores aspetos da música é sem duvida a inspiração para a escrita, para a poesia. Simbiose perfeita e complexa. Existem músicas ligadas as palavras, ao texto, ao sentimento mas também há posições que defendem que o poema se desvirtua e é condicionada a sua interpretação? A verdade é que isso não é para nós o fundamental mas antes vamos deixar-nos levar pela sonoridade e pela palavra sem pensar nas “ prisões” que elas podem criar… Hoje termino com um poema da minha autoria…

Com ritmos tão diferentes, 
Bizantina medieval
Ou tradicional servia, 
A história escreve-se com sons,
Escreve-se com palavras e sentimentos,
Escreve-se no limite Das fronteiras europeias. 
Haydan, Mozart ou Beethoven, 
Orquestra sinfónica ou banda Beatles, 
Peter Gabriel Flamengo, Alvorado,
Andro Passado e futuro
No presente do que se escuta 
E constrói a nossa identidade europeia

domingo, 21 de junho de 2015

NAS ASAS

MIGUEL GOMES
Fito o meu braço, rio-me com as letras projectadas, de repente tenho escrito em mim parte da frase “quebrar em caso de emergência”. Fico a cogitar sobre o que o vidro me tenta dizer. Graúdo, não me sobra braço para toda a afirmação, mas curioso-me com a tatuagem possível e ergo um sorriso a esta espécie de sincronicidade, que leva o dia a escrever no braço, no meu braço, “caso de emergência”. Quereria dizer-me, talvez a vida, que o braço, os braços, os abraços, ainda que no calor, sejam um caso de emergência, urgência tida por quem sozinho se faz à vida?

Os passos que tento dar rapidamente, para fugir do calor súbito que quase não me deixa ver o empedrado chão, fazem-se acompanhados de uma ligeira praguejação, minha e doutras que reclamam deste braseiro transmontano que visitou a cidade.

Abrando o passo quando encontro uma sombra, mas mantenho-me lesto enquanto fito os ponteiros do relógio e calculo os minutos que me faltam até o comboio entrar na gare. 

Vou ultrapassar um casal de idosos que, no calor desta tarde, andam lentamente, ele à frente, agarrado à asa de um destes sacos ecologicamente modernos, vermelho, ela atrás, com os olhos revirados do calor, ambos uma mistura secular de idade conjunta. Sorrio ao passar por eles, a senhora retribui o sorriso e diz-me, “Atrás de um homem, há sempre uma grande mulher” e a pobre alma que carrega o seu peso e quase arrasta o peso da companheira retribui com tédio “bem poderias hoje ser mais pequena”.

As cumplicidades que se fazem ao longo das idades reverberam na velhice, quando os passos se fazem a quatro mãos, ainda que separadas por um túmulo.

O calor desce pelas escadas rolantes sem se compadecer das pessoas que se escondem no semi-subterrâneo que é a galeria de acesso às plataformas e consequentes linhas de partida e chegada dos comboios. Se fosse o frio, analogiaria de imediato com a sua necessidade de fugir de si mesmo e procurar calor no contacto com as pessoas que escondem as mãos nos bolsos tentando aquecê-las, mas é o calor, não há lugar a analogias nem a mãos frias. Desce disparado a gare, entra de rompante no corredor e aninha-se no torpor de cada pessoa, fazendo transpirar pelos poros e paredes gotículas de um suor brotado sem ser trabalhado.

Ascendo, apenas figuradamente, à plataforma, valido o passe e a nostalgia surge na recordação das antigas bilheteiras, o carimbar da data no bilhete, o agreste homem de bigode que me vendia o bilhete sem um bom dia sequer obliterar, o cheiro do óleo queimado, a paisagem ondulante nos dias de calor, o som dos meus passos nas travessas atravessadas na linha que me permitiam chegar à linha do lado de lá, as mesmas que se vêm quando se sai de lá para cá.

Perdido por entre as memórias de viagens que nunca mais retomarei, vejo passar um vulto vermelho. Um bombeiro segura uma botija de oxigénio, outro, mais novo, segue-o segurando um desfibrilador portátil, de passo apressado. 

Um homem, velho, sentado no banco de comboio olha assustado para o aparato e ruboriza-se ao constatar que é o centro das atenções dos transeuntes que aguardam a vinda gloriosa do comboio.

Uma mulher acaricia-lhe a face, desaperta-lhe outro botão da camisa de padrão riscado e afasta-lhe os colarinhos da caminha e da camisola azul do pescoço transpirado.

Ajoelhado em frente a ele, o bombeiro mais velho olha-o, pergunta o que aconteceu. A senhora responde-lhe, um pouco embargada, que parecia ter-se desequilibrado ao final das escadas rolantes e se não era ela a ampara-lo teria ele caído para trás.

Olho para o lado, cabisbaixo o calor envergonha-se de se fazer tão forte e sai da gare, levando-se lívido para o meio da tarde. 

Eu, talvez por ter sido arrastado das minhas viagens entre o hoje, ontem e amanhã, ensonado e descoincidido de mim mesmo, vejo uma translúcida figura masculina, uma espécie de pessoa impessoal, cujo corpo parecia luzir uma luminosidade que não fere e que se esbate no sem contorno que o caracteriza e desvanece-se em transparência. Coloca a mão quase transparente sobre o ombro da mulher que amparou o idoso e o olhava, agora, num misto de apreensão carinhosa e rememoração saudosa de alguém partido. 

O bombeiro diz-lhe que pode ir agora, o comboio estará a chegar tarda nada, mas para ela, senhora, parecia tardar tudo, responde-lhe a esta espécie de anjo sem asas, que não, não tinha pressa, que faria o mesmo como se se tratasse do seu querido “paizinho”, senhora dixit.

O bombeiro sorri, levanta o joelho que tinha no chão, pisca o olho ao bombeiro mais novo e ergue-se. Coloca a mão no ombro do idoso, “posso levantar-lhe a camisola para medir a tensão”? O senhor responde que sim, “mas eu tenho comboio agora”, “não, o senhor não pode sair daqui enquanto não estiver melhor, está bem?”, “mas o comboio”, “tem alguém a quem possamos avisar que chega mais tarde? A sua esposa?”, “ela já morreu e eu tenho que apanhar o comboio”, “não se preocupe” retorquiu a senhora “eu levo-o a casa”, “mas eu moro na Régua”, “então temos um longo e bonito passeio para fazer” e sorriu, ao mesmo tempo que o vulto lhe passa as mãos transparentes pelos fios de cabelo que caíram sobre a face.

Vejo agora outros, mais ou menos translúcidos, menos ou mais luminescentes, uma pequena multidão parece rodear esta imagem de tarde sufocante. No perímetro estão pelo menos dois vultos bem maiores do que eu, uma espécie de barreira luminosa que forma um halo e me faz lembrar a luz que via passar-me pelos contornos dos dedos quando colocava a mão em frente ao sol.

Com carinho e cuidado, medem-lhe a tensão, auscultam-no, perguntam com sensibilidade se lhe estava a doer “aqui” e “aqui” e “agora aqui?”. O bombeiro mais novo acata a ordem do mais velho e retorna à ambulância, suponho, com o desfibrilador enquanto o outro desenha um padrão no telemóvel e entra em contacto com alguém.

O comboio surge ao fundo, na curva, ganhando dimensão como um velho e grande dragão que se anuncia pela cabeça e depois abre as asas entrando de rompante, silvando, na estação. Olho mais uma vez com o intuito de guardar bem cá no fundo da retina esta imagem, as pessoas levantaram-se com a chegada do comboio, faço por ser o último a entrar na carruagem amarela e já sentado, comigo a meu lado, olho para trás pelo vidro e por entre os reflexos do interior do comboio despeço-me um pouco emocionado pelo turbilhão de sentimentos que me chegam como uma maré aos olhos.

Enquanto o comboio arranca vou virando a cabeça para poder ver apenas um pouco mais. 

Ficam lá o idoso, desorientado, a senhora, que parece ter ganho uma inesperada orientação e o seu vulto luzidio com a transparente mão no seu ombro, o bombeiro mais velho com uma mão no ombro do idoso acarinhando-o e a outra no telemóvel, ostentando uma espécie de luminescência que lhe brota nas costas abaixo do pescoço e, aos meus olhos destreinados, se assemelham a umas asas, como se pudesse ser!, feitas do mesmo material dos outros vultos.

O comboio segue lesto na viagem quente, ganha velocidade, eu ganho apenas idade e vou, sentado, de frente para a lateral da carruagem, vendo o meu reflexo no vidro, as mesmas letras “quebrar em caso de emergência”. 

Baixo um pouco a cabeça e penso na inevitabilidade da vida, das vidas, que se iniciam algures e terminam nenhures, no aglomerado de luminescências que se vestem de companhia, nos vultos que se fazem vestes e se deixam atravessar por tantas e tantas vidas sem vida dentro, na miríade de habitantes de um universo que por infinito me parece tão pequeno.

O hipnótico som das rodas nos carris quentes e dilatados começa a embalar-me.

Penso no idoso que ficou sentado no frio banco metálico da plataforma, na sua fragilidade, no seu olhar assustado, de vultos rodeado, no chegar a casa e encontrar alguém, um filho preocupado, um cão de saudade espumado, uma esposa, se ainda a tivesse, de avental bordado e o susto que a susteria ao ver chegar o companheiro em companhia desconhecida... Não acabo o pensamento, dou um daqueles passos falheiros que damos ao adormecer e abro os olhos estremecendo de repente. 

Vejo no vidro o reflexo de alguém que não se senta a meu lado, pousa-me sobre a perna um avental, de arco-íris bordado, “a surpresa será dele, ao ver que quando pensou que eu partia eu estava ali ao lado dele e sorria”.

sábado, 20 de junho de 2015

QUE AS HÁ… HÁ!

Que as há… há! A tal ponto que na Roménia evidenciaram estar suficientemente furiosas com o Presidente
JORGE NUNO
e com o Governo do país; é que estes ousaram criar e aprovar nova legislação que as afeta com um imposto de 16% sobre o rendimento – o mesmo que pagam quaisquer trabalhadores por conta própria –, a que se junta a contribuição para a Segurança Social. Fazendo fé na notícia do jornal “Correio da Manhã”, como as bruxas e cartomantes não gostaram da “brincadeira”, antes que se fizesse tarde… toca a lançar um mau-olhado! Uma delas, sexagenária, que esteve presa durante o regime comunista, na presidência de Nicolae Ceausescu, terá preparado (contra os atuais governantes) uma mezinha com um cão morto e excrementos de gato; enquanto que uma dúzia destas “profissionais” ter-se-á dirigido ao rio Danúbio para lançar um mau-olhado aos ditos governantes romenos, tendo garantido que “o “mal cairá sobre eles”.

Em Portugal, no final de maio do presente ano, a comunicação social referia uma nota da Polícia Judiciária, que dava conta de uma investigação a envolver duas mulheres e um homem, concluindo que este trio estaria sob forte suspeita da prática de “crimes de burla qualificada”, ficando-se com a ideia que estariam detidos preventivamente. Um dos seus crimes era a abordagem de pessoas, na zona de Lisboa, dizendo à vítima (ou referindo-se a familiares próximos) que “padecia de um mal grave” – decorrente de mau-olhado –, levando ao convencimento que os seus problemas seriam resolvidos através de “alegados tratamentos espirituais, que se disponibilizavam a realizar”, e que podiam ter a duração de meses ou anos. Como não é habitual os burlões fazerem trabalho “pro bono”… neste caso exigiam às vítimas avultadas quantias em dinheiro e ouro, dizendo-lhes que o ouro seria enterrado para contactarem os espíritos malignos, como forma de proporcionar a cura da “doença”, e que depois do tratamento o ouro seria devolvido. Só num dos casos terá “voado” dinheiro e ouro no valor de € 200.000, presumindo-se que esse ouro tenha sido vendido e derretido.

Já no anterior mês de março, um artigo do jornal “i” referia em título: “Mau-Olhado: A crença que não escolhe idades nem classes sociais”. Nesse artigo, depois da divulgação de alguns casos concretos em Portugal, menciona a revista científica “Journal of Economic Behavior & Organization”, que dá a entender que a crença no mau-olhado terá aparecido como “defesa nas comunidades com maiores desigualdades sociais, para as pessoas se escudarem da inveja de quem tinha menos”. 

O senhor padre Fontes – pessoa por quem tenho uma profunda admiração, tendo colocado no “mapa” a pequena aldeia transmontana, Vilar de Perdizes, pertencente ao concelho de Montalegre – fomentou o Congresso de Medicina Popular, que vai este ano na sua 28.ª edição, e cujo evento é visto como um importante “acontecimento cultural”, mas onde, entre outros, é vendida a “erva da inveja, que combate os maus olhares e toda a espécie de inveja”. É conhecida a opinião do senhor padre Fontes relativamente a este assunto: para ele, o mau-olhado é uma mera superstição e atribui os “azares e os problemas” às próprias pessoas, através dos seus sentimentos de “ódio, raiva (…)”; esta opinião faz-me lembrar a frase atribuída a Neville Goddard: “Tenha cuidado com os seus humores e sentimentos, porque existe uma ligação ininterrupta entre os seus sentimentos e o seu mundo invisível”.

Não será preciso ser-se psicólogo ou sociólogo para realçar, nestes casos, a importância da crença e, pior ainda, da obsessão na vida de cada um. Se há alguém a acreditar que outrem lhe está a fazer mal, por exemplo, onde entre a inveja e o mau-olhado, esse sentir terá consequências… que poderá manifestar sintomas daquilo em que a pessoa acredita.

Na introdução do livro “O Poder da Mente” [ed. Círculo de Leitores, 2000], o comentário do Dr. J. B. Rhine, investigador de capacidades psíquicas na Duke University, Carolina do Norte, E.U.A., vai mais longe e refere: “assombra-me o facto de a imaginação conceber todas as implicações que se seguem, agora que se demonstrou que a mente, através de algum meio desconhecido e dela própria, tem a capacidade de efetuar diretamente as operações materiais no mundo à sua volta”. Objetiva com o exemplo de algumas pessoas que “conseguem hipnotizar, infligir maldições, mover objetos, (…), exercer o domínio coletivo de mentes, (…)”. No mesmo livro [p. 13] há um parágrafo com o título “Atividades Sinistras”, onde pode ler-se: “Talvez seja significativo que a sociedade ocidental considere sinistra (do latim para “esquerdo”) atividades como magia e misticismo, porque não parece existir qualquer lógica racional a apoiá-las. Contudo, outras atividades como meditação, ioga, cura pela fé, parapsicologia, adivinhação e realização de estados de consciência, alterados através do uso de drogas, desafiam a lógica do cérebro esquerdo e são praticadas por um número crescente de pessoas. 

Há quem não duvide que o mau-olhado é mesmo uma realidade, e que não será através dos olhos mas sim da carga energética gerada pela mente e pelas emoções; quem assim pensa, também considera necessário e possível “limpar esse campo energético” (subentendendo-se como negativo), enviado pelo pensamento de outrem. Mas os citados campos também podem ser positivos, em concordância com o pensamento. O Dr. John Pierrakos, do Instituto de Energética do NÚCLEO, em Nova Iorque, que faz o prefácio do livro “Mãos de Luz – Um Guia para a Cura através do Campo de Energia Humana”, de autoria de Barbara Ann Brennan, menciona haver uma “ligação da psicodinâmica ao campo da energia humana” e “descreve as variações do campo de energia na medida em que ele se relaciona com as funções da personalidade”. Hoje sabe-se, porque se pratica – com bastante sucesso –, não só a cura presencial como a cura à distância, sem recurso à medicina convencional e sem o consumo de fármacos.

Existem imensas investigações credíveis sobre esta matéria, de que destaco dois estudos. Um, foi efetuado pelo Dr. Barnard Grad, da Universidade de McGill, em Montreal, Canadá, que fez “investigação com sementes de cevada para testar o efeito de energias curativas psíquicas em plantas”. As sementes foram lançadas à terra e “regadas com uma solução salina, que retarda o crescimento; uma parte das sementes, lacradas num recipiente, foi regada com uma solução energizada” por um mestre de Reiki, e a outra parte não. Provou-se a existência dessa energia “extra”, já que o efeito da energia contida nesta solução, mesmo que aplicado o retardante, possibilitou “estas plantas cresceram mais rapidamente e mais saudáveis, com mais 25% de peso e um teor de clorofila mais alto, provando-se também que energias curativas podem ser armazenadas em água para uso futuro. Outro estudo, bastante divulgado, efetuado por uma universidade norte-americana, dá-nos conta da utilização de dois grupos distintos de voluntários: um deles, lançou “vibrações de ódio” junto de plantas; um outro, lançou vibrações de “amor e carinho”. As conclusões eram evidentes: “as primeiras murcharam e algumas até morreram, ao passo que as outras, as que receberam pensamentos e sentimentos de amor ficaram cada vez mais exuberantes”, provando haver “uma energia psíquica que pode ter efeitos benéficos ou maléficos, a depender dos sentimentos ou intenções do seu emissor”.

Na luta diária pela sobrevivência num país em crise, é natural que haja um acréscimo de angústia, por se “ver a vida a andar para trás” –, mas também de um aumento de crença, de inconformismo e de vontade de recorrer a profissionais, como quem quer agarrar-se a algo para inverter o ciclo negativo que o sufoca. Não é por acaso que os psiquiatras e psicólogos têm mais pacientes nestas ocasiões. Não é por acaso que acontece o mesmo com as videntes, cartomantes e outros profissionais, amadores e burlões deste ofício. Não é por acaso que todos os dias úteis, logo de manhã, no programa da SIC – “A Vida nas Cartas”, com Maria Helena Martins –, há uma apreciável audiência e muita afluência de chamadas de valor acrescentado, sendo que metade das “consultas” tem a ver com a inveja e o mau-olhado. Não é por acaso que, precisamente há mesma hora, também a TVI tem no ar o programa “Cartas da Alma”, com um formato semelhante. 

A Maria Helena Martins também transmite a ideia que somos nós os principais causadores do que nos acontece de mal, particularmente pela forma negativa como encaramos a vida, mas vai deixando escapar que se a pessoa se sentir insegura e quiser agarrar-se a um amuleto, que pode ser um “santinho” na carteira, uma medalhinha ao pescoço, uma rosa de Jericó ou um olho da Turquia, por afastarem a negatividade e dar sorte, não vem nenhum mal ao mundo por isso. E se mesmo assim ainda sentir necessidade de fazer uma oração ou um ritual, há-os para todos os gostos, e exemplifica com uma para o mau-olhado (pelo sim, pelo não…) : “Deus te viu, Deus te criou, Deus te livre de quem para ti mal olhou. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Virgem do Pranto, tirai este quebranto” – que é dito na altura em que pinga azeite num prato com água, utilizando o dedo polegar.

Desde pequenino que eu ouço dizer: “Não acredito em bruxas… mas que as há… há!”; e em castelhano até parece que tem outro sabor: “No lo creo en brujas … pero que las hay… las hay!

sexta-feira, 19 de junho de 2015

SESSENTA MILHÕES?!

GABRIEL VILAS BOAS
Sessenta milhões?! Quando li, precisei de ler novamente, de digerir devagar, porque o número impressionava! Sessenta milhões de pessoas procuravam refúgio noutros países, porque, nas suas terras, são perseguidas, por causa da religião, da raça, da guerra e, sobretudo, da fome. 

Homens, mulheres, crianças, velhos. Gente desnutrida, doente, descalça, esfomeada faz centenas de quilómetros na busca dum oásis de esperança, entre balas, tanques, ódios animalescos dos senhores alucinados da guerra.

Só nos últimos quatros anos, os refugiados em todo o mundo cresceram cerca de 40%. Passamos a reparar nos sírios, nos iraquianos, nos afegãos como gente de mão estendida à caridade internacional, que demora, que se faz desentendida, que quer negociar… Mesmo depois de toda a tragédia que se passou nos últimos meses no mediterrâneo, com os migrantes que chegam a Itália como náufragos, a Europa rica, desumana e hipócrita hesita, pede dinheiro, impõe restrições à chegada desta gente desesperada, que perdeu quase tudo e tenta apenas sobreviver. 

Passos Coelho declarou que o dinheiro proposto para acolher cada migrante é pouco; os ingleses já disseram que ajudam com roupa, comida e algum dinheiro, mas não têm intenções de acolher ninguém; os franceses, todos eles Charlie Hebdo, só entendem a solidariedade no sentido que lhes interessa; os alemães já avisaram os italianos que estão a ser demasiado complacentes na entrada dos migrantes do outro lado do mediterrâneo e que sendo assim, têm muita pena, mas Schengen está em risco. Que gente abominável!

Louvo a atitude fraterna, humana, solidária dos italianos que recolhem todos, mesmo sem grandes condições. Louvo-os porque dizem ao resto da europa que já não têm mais lugar para os clandestino que chegam às suas praias e não àqueles que chegam com a roupa do próprio corpo como único património. 

Esta gente foge porque há loucos como o Estado Islâmico; foge porque há mais gente no mundo com fome do que a comer o necessário para subsistir; foge porque a europa rica e hipócrita apoiou ou pactuou com regimes desumanos e assassinos como os de Bashar al-Assad, durante muito tempo.

Os refugiados precisam de muito mais do que um alto comissário das Nações Unidas, por muito que a ação de António Guterres tenha sido meritória e esforçada. Guterres fez alguma coisa, mas claramente foi insuficiente. Angelina Jolie foi mais mediática, mais dura com os mais poderosos, mais incisiva e, sobretudo, deu o exemplo, a nível pessoal. 

A questão dos refugiados não é só um problema daquela gente desesperada, mas de todos nós, que ainda presamos a nossa consciência e o nosso sentido de humanidade. Exige respostas rápidas, mas também ações de fundo, pensadas para uma década, para que aquele número assustador diminua drasticamente. 

Se não fizermos nada, também nós afundaremos no nosso mediterrâneo de egoísmo, hipocrisia e desumanidade.