terça-feira, 31 de março de 2015

À MINHA MANEIRA

REGINA SARDOEIRA
Vou ousar exprimir algumas reflexões acerca do “Acordo Ortográfico”, mesmo sabendo que a palavra “acordo” não será a mais oportuna, neste contexto. 

Conhecendo o latim e o grego, línguas mortas que estudei em tempos, percebo que o português deriva delas, essencialmente da primeira, sendo que, procurando a etimologia, as encontramos, invariavelmente. Mas também podemos descobrir outras origens tais como o árabe, o francês, o inglês e, em suma, uma prodigiosa “babel” de línguas a servir de estrutura às nossas caras palavras portuguesas. Agora mesmo, que falo em “babel”, não resisto a efabular um pouco.

Parece que no início dos tempos os homens falavam uma só língua e que, no auge da arrogância ou da temeridade, acharam por bem construir uma torre tão grandiosa que tivesse o poder de perfurar as nuvens, alcançar o céu e surpreender Deus no seu trono supremo. Porém, o criador não gostou desta ousadia (como antes não gostara das pretensões de Adão e Eva) e decidiu subverter o acordo entre os homens, confundindo-lhes o linguajar; de modo que, em breve deixaram de conseguir comunicar entre si, dispersando-se por toda a terra e deixando a Torre de Babel inacabada.

Interessante metáfora linguística, esta, visto que, da homogeneidade inicial resultaram todas as línguas e também a multiplicidade de regiões habitadas, cada uma delas detentora de usos e costumes peculiares – ou seja, de uma cultura! E no entanto, em todas as línguas, por mais arrevesadas que pareçam a quem delas não fez aprendizagem ou uso, existem signos ou termos em comum, signos ou termos muito próximos e há famílias linguísticas, grupos etimológicos ou o que quer que lhes queiram chamar os especialistas na matéria.

Não tendo possibilidade nenhuma de saber se a narrativa bíblica encontra fundamentos históricos ou se é simplesmente uma das numerosas metáforas que esse prodigioso livro encerra, mas tomando como certa a força da parábola, daqui retiro uma simples ilação: há um tronco semiológico comum, presente na marcação linguística através da qual os homens se entendem (desentendendo-se), sendo que as diferenças resultam de uma multiplicidade de fatores, muitos passíveis de serem equacionados, outros para sempre perdidos na bruma do tempo.

Retomando o tema que aqui me traz hoje, eu afirmo que, à partida, detestei a nova grafia das palavras que o dito acordo apresentava. Como iria escrever “cético”, em vez de “céptico”, “ato”, em vez de “acto”, “concetualizar”, em vez de “conceptualizar”? Como conseguir abolir o acento de “veem”, o hífen “de há de”, a acentuação, que distingue o presente, do pretérito perfeito, em “achamos”? Nunca iria fazê-lo, decidi, não desfiguraria desse modo a minha escrita!

Acontece que fui compelida a usar o Acordo em todos os textos oficiais, quer se tratasse do livro de ponto, quer fossem actas (atas) de reuniões e outros documentos, e mesmo nas aulas, já que os manuais passaram a ser impressos com as novas regras ortográficas! A princípio, acreditei na possibilidade de alternar modos de escrita: na escola, tenho que escrever “ata”, “letivo”, “ação”? Muito bem: mas nada me obrigará a fazê-lo noutros contextos! Sou obrigada a permitir que os alunos escrevam “cético”, “ótimo”, “efetivo”? Está certo: não lhes corrijo a grafia da palavra, mas reservo-me o direito de continuar a escrever céptico, óptimo e efectivo!

Cedo percebi que uma tal alternância não era, mental e psicologicamente, viável, prejudicando o natural fluir das palavras que normalmente preside à minha escrita. Tornar-me-ia, então, duas pessoas, uma que segue o Acordo, outra que o rejeita? Pactuaria oficialmente com uma certa norma ortográfica, para a recusar no plano da escrita privada?

Decidi analisar as mudanças e as críticas, ou seja: ver quais as palavras modificadas e depois prestar atenção àqueles que, com maior ou menor veemência, contestam o Acordo.

Acto por exemplo. É verdade que deriva do latim (actus, -us) e então, manter o “c” antes do “t “ confere à palavra outra substância, dá-lhe maior elevação, mais volume! “Ato”, deste modo grafado, é um pouco insignificante e, por outro lado, pode confundir-se com a 3ª pessoa do singular do presente do indicativo do verbo “atar”…mas depois lembrei-me de outros casos similares, já usuais na língua portuguesa.

“Tratar”, por exemplo, e “trato” são palavras cuja origem latina é o verbo tractare (o “c” caiu e, aparentemente, ninguém acha esquisito); “salto” pode ser, em simultâneo, uma componente de um sapato, o ato de saltar ou a 3ª pessoa do singular do presente do indicativo do verbo saltar. O que nos permite, na prática, discernir se estamos perante o ato de saltar ou o salto do sapato ou o verbo saltar? O contexto, como é evidente! E se acaso quisermos entender a raiz etimológica das palavras trato e tratar como procederemos? Consultando um dicionário etimológico ou especializando-nos em latim!

O que dizer, por outro lado, de palavras que, no trânsito do latim para o português, se foram alterando de tal modo que só alguns especialistas poderão descrever, exatamente, (se puderem) a história das sucessivas metamorfoses?

Lembrei-me naturalmente de Rainha, pois sei que o meu nome, Regina, é latino (mas também italiano moderno) e foi ele que lhe deu origem. Reina, Raina, Reinha, Reya (com til no y), assim se foi escrevendo “rainha” consoante os tempos até, aparentemente, se fixar na palavra que usamos hoje para aludir à esposa do rei. Então, porque me chamo eu, Regina e não Rainha, sendo que os italianos ainda usam o meu nome para significar rainha?

A diversidade linguística é um fenómeno complexo, tenha sido ou não oriundo das birras do homem com Deus, aquando da construção da Torre de Babel. Cada língua, individualmente considerada, dá imenso trabalho a dominar e a compreender se é que alguém consegue fazê-lo inteiramente. Há sempre momentos obscuros na história de certas palavras, origens pouco exatas quando seguimos o rasto de alguns termos, duplicidades alarmantes quanto ao modo mais correto de utilizar adequadamente muitos vocábulos.

No último livro que publiquei – O BESTA CÉLERE – deixei passar um erro, isso mesmo, um erro, e aparentemente, nenhum leitor o detetou ou, se acaso detetou, não achou necessário informar-me! Fiquei um pouco envergonhada, confesso, quando, numa das releituras que fiz, percebi que usara inadequadamente a palavra “eminente”. Eu pretendia significar “próximo”; mas ao escrever a palavra com um “e” e não com um “i, alterei – lhe o significado e em vez de “próximo” ou “prestes” passou a querer dizer “alto” ou “elevado”! E no entanto as palavras pronunciam-se exatamente do mesmo modo, assim como as suas congéneres “eminência” e “iminência”! Se aludo a este facto, agora, é na medida em que, por mais que nos julguemos aptos, quer na escrita, quer na fala, uma pequeníssima distração pode desencadear erro lamentáveis!

Vejamos Camões. Há uma espécie de falha ou vício linguístico chamado “cacofonia”, do grego κακός (=mau) e φωνία (som), no primeiro verso de um dos seus mais célebres sonetos.

“Alma minha gentil que te partiste (…)”, escreve o poeta; e contudo a junção das duas primeiras palavras cria uma outra (maminha) que não estava, cremos, na sua intenção poética e que talvez ele tivesse evitado se acaso nela houvesse reparado.

O facto de eu ter escrito “eminente” e não “iminente”, como desejava, significa ignorância, desleixo ou, à semelhança de Camões, não dei conta do erro, a princípio, mesmo sabendo o significado exato das duas palavras?

Multiplicar exemplos tornar-se-ia fastidioso, sem dúvida, e afastar-me-ia do tópico que escolhi para hoje. O Acordo Ortográfico. Essa norma linguística celebrada entre países lusófonos (se é que foi), fruto de estudos de eminentes linguistas (creio eu) e imposta (parece-me) aos portugueses, que a utilizam, um pouco por todo o lado, desde as legendas dos filmes, aos sinais de trânsito.

A verdade é que comecei a escrever, utilizando a nova grafia, primeiro no livro de ponto, nas atas, na sala de aula e depois, quase sem dar conta, na generalidade dos textos que produzo. E deixei de perceber o antagonismo que continuo a encontrar aqui ou ali, só porque agora se escreve ótimo e não óptimo, exato e não exacto, diretor e não director!

Ouvi falar da zanga de Teixeira de Pascoaes quando, em português, deixou de usar-se o y que foi substituído por i. Lamentava-se o poeta (mais ou menos): A palavra abysmo por exemplo é muito mais profunda com aquele y no meio: o i retira-lhe dimensão!

Compreendo-o perfeitamente. Ainda me custa escrever “cético” e não “céptico” e vejo bem o poder do y a marcar o abysmo! Mas serão estas, razões válidas para antagonizarmos um modo de escrita que marca a evolução linguística (não esquecendo que, evoluir não significa, necessariamente, melhorar)?

Creio que estar contra o acordo ortográfico é, no fundo, uma atitude fútil, uma birra! Esses mesmos que se recusam a escrever, usando a nova grafia, provavelmente incluem nos seus hábitos de escrita (se os têm) termos como post (para significar publicação), postar (para significar publicar), download, querendo exprimir o ato de descarregar (em português), password, em lugar de palavra-passe… e tantos, tantos outros estrangeirismos que, tal como futebol (football) ou ecrã (écran) ou marquise ou abajur (abat jour) ou sei lá que mais…se imiscuíram na nossa língua e lá permanecerão em coabitação pacífica com o vernáculo! Esses mesmos que proclamam, por onde podem, que o Acordo Ortográfico é uma “bandalheira” não se coibirão de cumprimentar o amigo dizendo “oi” e despedir-se dele, pronunciando “xau” e, entre os dois momentos, desafiá-lo para “bater um papo”!

Pode ser que o Acordo Ortográfico seja um Desacordo ou uma Imposição ou o resultado de convénios políticos, e não decorra, necessariamente, de uma dinâmica natural da língua que, aos poucos, transforma o fortuito em regra. Pode ser que sim. Mas também pode ser que não. 

Quanto a mim, comecei a utilizá-lo, primeiro, fruto de imposições profissionais – afinal, sou professora – depois, porque me parecia estranho escrever, ora de um modo ora de outro, ora das duas formas, em simultâneo; até que creio ter assimilado a nova grafia, tal como, há muitos anos atrás, aprendi a escrever “somente” e “sozinho” em vez de “sòmente” e “sòzinho” ou “admiravelmente” e “necessariamente” em lugar de “admiràvelmente” e “necessàriamente”. Estranhei, a princípio, e hoje estranho a presença dos acentos graves.

Em resumo: escreverei à nova maneira, com segurança e sem preconceitos, evitando (como já fazia antes) certas palavras que, mesmo sendo portuguesíssimas, me parecem destoar esteticamente de alguns dos meus contextos criativos. Quem quiser criticar-me, apresentando razões válidas para permanecermos fiéis ao “óptimo” e ao “céptico”, ao “acto” e ao “directo”, ao “vêem” e ao “há-de” que o faça pois, apesar de tudo, tenho receio de que me esteja a escapar qualquer pormenor, subtil ou arrevesado, nesta complexa teia em que se transformou o ato humano de comunicar.

domingo, 29 de março de 2015

MOMENTOS

MIGUEL GOMES


Havia muito pouco de tudo aquilo que a vida necessita, o pó a terra arada toda a falta de um candelabro que ilumina a noite e a ressuscita.
Entre muros a pedra e a ausência de uma face o nevoeiro que se enamora pela erva e o solo afoito de onde o que sou nasce. Paira no ar entre mim e a visão as aparas diluídas de uma madeira inquebrável, uma mão que quer afagar a entrada mais curta para o coração as turbulentas casualidades da amarrotada folha de papel.




Não poderei abraçar o Sol sem o aquecer, nem a Lua sem a fazer tremer. Um pouco como os caminhos que não posso percorrer por me estarem, sempre, a falhar os passos porque os meus pés ainda não chegaram ao local onde estou. Vou caminhando e recuando numa recursividade que me faz grafar por memórias nunca antes navegadas. Talvez seja isto a humanidade, o conhecer e desbravar, sinapsar e abrilhantar o dia com o sorriso possível, sem que se torne o sonho impossível. Uma das minhas memórias soltou-se, por aí, quando me sentei ao Sol e, inadvertidamente, fechei os olhos sem me lembrar que o Universo é tão fugaz e capaz de me surpreender, que se deixou habitar pela minusculidade do que sou. Choram-me palavras no colo, afio as letras e esgrimo-me na tentativa de embainhar-me no silêncio das frases nunca batalhadas.

A guerra é o profundo desconhecimento das palavras conjugadas com o olhar, imperceptíveis a quem se limita a ver, um pouco como o que sobra do horizonte depois de lhe termos gasto a cor na desenfreada corrida monocromática a que teimam designar como vida.

Tenho no abraço a mais longa viagem no tempo, da génese à pluralidade de uma calçada que se faz com as graníticas doses de labor. Obreiro, quem te faz a ti, que em mim quer primeiro?
Um dia, dois diasporalizados irão caber no peito não denso de quem se faz escorreito
Foi por entre as palavras que, numa tarde como esta, enquanto o vento atira os ciscos que o levarão a esfregar um olho, que vi surgir timidamente a ilusão de me desiludir. Daí para cá finquei-me e fiquei-me pelo que sou. Cada flor seu canteiro, cada bicho sua lura. O lugar de um deslocado é o momento em que a sua própria sombra se desprende, despede, e deixa pousar-se imiscuída entre sombras de raízes diferentes.
Conheço o caminho pelas curvas que traçou, as aparas, a grafite, os restos de suor de quem sangrou por uma estrada sem direcção. O sentido dá quem o quer, quem o sabe. A vida ilumina-se pendendo do tecto em forma de watts, what? A vida, do tecto, do céu, pouco interessa de onde chove, quando se vive é para todos.
Mais historias teve o dia, mas era apenas esta a que o ruído queria.
Vou guiando o silêncio, segurando-lhe os pulsos pequenos, içando e pousando o andar, longe de raízes falheiras e pedras à espera de serem falhadas, quando ele pára incito-o a continuar, não o deveria fazer, cortar assim a curiosidade sadia, mas tenho pressa, quero leva-lo rapidamente. Chego. Chegamos. O Sol ainda quente, eu ainda ente, sento-me no chão frio, encosto as costas à parede aquecida, sento-o no meu colo. O Sol. Eu. O silêncio.

Terra, eis o teu filho.
Filho, eis a tua Terra.
Vou ao encontro do ocaso,
 sem caminho,
 entre paz e guerra
acompanhado
de mim sozinho.

sábado, 28 de março de 2015

NÃO HÁ CORAÇÃO QUE AGUENTE

JORGE NUNO
Ainda de manhã, faço algo inusitado: sentar-me confortavelmente na sala, de comando na mão, em frente ao televisor. Há cerca de 17 horas que trago comigo o equipamento para fazer um exame, denominado M.A.P.A. – Medição Ambulatória da Pressão Arterial e, intimamente, procurei serenar, para eu próprio ver a diferença – medida ao minuto – face à situação durante o horário dos telejornais do dia anterior. Assim, procurei uns momentos de relaxe frente ao canal Pure Screens HD. A filmagem resultava de uma câmara estática, numa paisagem luxuriante junto a águas serenas, tendo como som de fundo, permanentemente, um ligeiro marulhar da água e o alegre canto de pássaros. Não sei quanto tempo estive assim… mas, se fossem cinco minutos, deu para ficar com uma sonolência pouco recomendada para quem tinha acordado há pouco mais de duas horas. 

Resolvo então mudar de canal. Em vez de fazer um zapping comum, prefiro uma escolha aleatória, utilizando, manualmente, dois ou três dígitos. Vai-me saindo na “rifa” o seguinte:

Cubavision – “El Campeonato Mundial de Ajedrez disputado entre Capablanca y Lasker”, velho documentário, a sépia, baseado em imagens paradas, com recortes de notícias de jornal, mostrando o “júbilo popular” pelo triunfo do cubano Capablanca, que havia desafiado e vencido o campeão em título, nos idos anos de 1921. Tudo demasiado parado e igualmente a vontade de dormir.

IHTEP+ [ucraniano] – Indícios de ser uma telenovela, com cena numa grande cozinha despida de móveis, legendado em cirílico e com diálogos calmos, como se calmo estivesse o país, em mais um dia de ataque dos separatistas pró-russos no sul e leste da Ucrânia.

BNT World [búlgaro] – Debate, com vários comentadores, tendo um ecrã de fundo com um velho documentário, a preto e branco, e movimentação de tropas no tempo do Estaline. Seria um “Prós e Contras”, relacionado com o desmembrar da União Soviética?

CCTV4 [chinês] – Desfile glorioso de equipamento bélico, em largas avenidas, duplamente legendado em mandarim e em inglês. Afirma-se a pretensão de transformar o país na terceira potência nuclear.

Playboy TV HP – Oops!... Fundo negro, contendo: “Conteúdo para adultos bloqueado” e, num canto, a coelhinha vermelha.

Globovision [venezuelana] – O presidente da República Bolivariana da Venezuela discursa numa grande avenida, perante milhares de camisas vermelhas, tendo um cartaz de destaque: “Unidade Nacional Contra La Agresión Imperialista”. Lembrei-me que na Roménia, no tempo de Nicolae Ceausescu, também todas as viaturas eram vermelhas! 

ARTV [português] – Programa gravado, aborda-se a Reunião Plenária na Assembleia da República, com declarações políticas. Não quis ouvir, baixei o som e fiquei um minuto a tentar saber o que dizia a senhora em linguagem gestual, no canto inferior direito do ecrã. Não sei por quê, mas parecia-me que ela fazia gestos feios. Lembrei-me que ela era apenas uma tradutora e sosseguei. 

Odisseia – Num dos episódios de “Teorias da Conspiração”, aponta-se uma infraestrutura governamental [dos EUA] que pode destruir o mundo, de nome H.A.A.R.P. – High Frequency Active Auroral Research Program. Ocupa 14 hectares, tem mais de 160 redes de antenas ligadas entre si e tem um transmissor de 3,6 milhões de watts que emite ELF ou ondas de frequência extremamente baixa para a ionosfera. Segundo meios governais é uma estação de investigação para estudar a ionosfera e os seus efeitos nas transmissões das ondas de rádio. Aponta-se uma patente, associada ao projeto, que denota ter fins militares, já que coloca uma quantidade sem precedentes de energia na ionosfera, o que pode ser considerado uma arma, por ser um modificador meteorológico, afetando o ambiente — prejudicialmente e de modo extremado — sendo mesmo possível abrir buracos na atmosfera, de forma a enviar radiações solares letais contra o inimigo, deixando-o, literalmente, frito! Fiquei a saber que havia uma estação semelhante na Rússia, o que deixa antever um possível descontrolo da situação, face ao potencial de destruição. Este canal televisivo prossegue com o caso dos “Chemtrails”, com os aviões militares norte-americanos a deixarem um rasto de nuvens entrelaçadas nos céus, uma forma de aspergir químicos para a atmosfera, confirmando os círculos governamentais dos EUA que estão a espalhar óxidos metálicos apenas para fins de investigação e que não estão a causar danos, deixando em polvorosa tanto cientistas como opositores ao projeto, que acham tratar-se de testes a mais uma nova arma… Já não quis ouvir mais! E mudo, diretamente, para canais noticiosos portugueses, que tenho memorizados.

Coincidência!… Um destes canais mostra um gráfico e o volume de negócios relacionados com o armamento convencional. 402.000 milhões de dólares [USD]! A larga fatia de 56% vai para os EUA, 11% para o Reino Unido, 8% para a Rússia (com a Rússia a ter um aumento de 20% entre 2012 e 2103), 6% para a França… Lembro-me que para vender armamento há que criar conflitos.

Outro canal aborda a “Lista VIP de Contribuintes” e as recentes demissões de responsáveis na área do fisco. Não fiquei admirado, pois: as longas listas de espera para cirurgias originaram demissões; as longas listas de espera nas urgências levaram, igualmente, a que vários diretores se demitissem; as listas relacionadas com os “Vistos Gold” levaram a detenções e afastamento do cargo; as listas de pedófilos, que podem ser consultadas pelos pais das vítimas, imagino a que conduzirão; e agora … nestas listas VIP, mais demissões!

Outro canal mostra o PM a mostrar-se admirado com a admiração da oposição pela afirmação que “temos os cofres cheios”.

Outro canal passa um anúncio promocional do Got Talent Portugal e lembrei-me que os portugueses votaram em massa para que dois mágicos com talento fossem à final.

Como sei que a dívida pública de Portugal, no final de 2013, era de cerca de 215.000 milhões de euros 2013, situando-se em 129,4% do PIB, o que dá, aproximadamente, 20.000 euros por habitante, e como tenho conhecimento que a dívida tem vindo a aumentar, lembrei-me que provavelmente foram os assessores do PM – influenciados pelos resultados surpreendentes da votação no Got Talent – que lhe recomendaram dar um ar de magia, dando a sensação de que os cofres do Estado estão mesmo cheios, na perspetiva que nas próximas eleições o voto (não tendo o custo de chamadas de valor acrescentado) possa render.

No entanto, tenho uma dúvida. Daqui por uma semana, quando o entregarem, não sei se vou conseguir ler o relatório do M.A.P.A., que neste momento estou a efetuar. É que não há coração que aguente!

PATRÍCIA MATOS EM ENTREVISTA

PATRÍCIA MATOS CONDUZ, ATUALMENTE, O DIÁRIO DA MANHÃ NA TVI

1) Ribatejana de gema?
Sim, sou ribatejana, natural de Santa Margarida da Coutada, a Sta. Margarida do Campo Militar. Vivi lá até aos meus 12 anos. Depois mudei para o concelho de Abrantes. Como já é Médio Tejo, já não é uma paisagem composta apenas de planícies. Crescer ali foi maravilhoso, das melhores coisas que tive na vida. Lembro-me de correr os cabeços com o meu pai à procura de um pinheiro que servisse como árvore de Natal, do cheiro da terra molhada e dos regressos a casa depois da escola. Éramos poucos miúdos e eu sou filha única, era sempre uma festa. 

2) Com que idade aprende a ler ? Lembra-se da sua professora primária. Como era ela?
Não recordo a idade mas sei que aprendi a ler muito cedo. Lia bem, não me enganava, fazia bem as pontuações, os meus primos achavam o máximo e a minha mãe não se cansava de me gabar. Tive duas professoras, na primária. Uma delas, a Dna. Justina, já tinha sido professora dos meus pais. Rigorosa! A prof. Glória era também muito exigente. Tinham ambas imenso trabalho comigo… era danada para a conversa!


3) Qual a história de encantar que marcou a sua infância, porquê?
Nunca me deixei levar por histórias de encantar, a sério. Lembro-me que gostava muito do Peter Pan, mas acho que não se pode chamar uma história de encantar…! Aquela fantasia da Terra do Nunca fascinava-me muito. Acho que todos queremos a ‘nossa’ terra do nunca. Não um sítio onde sejamos sempre crianças… mas o nosso mundo. E era isso que me entusiasmava- um mundo, uma ‘terra’ como eu queria! 

4) Com que idade se apercebe que gostaria de ser jornalista? Sempre o quis ser? ou nem sempre esse era o seu sonho?
Quando era miúda queria ser professora de inglês. Comecei cedo a estudar a língua e estava convencida que tinha futuro! Depois cresci, descobri outras coisas. A minha mãe tinha um amigo locutor de rádio que me disse que tinha uma boa voz. Nem fiz caso. Rádio? Que disparate! O ‘disparate’ virou caso sério. Comecei a fazer rádio por carolice aos 12 anos, numa rádio local. Depois, só depois, surge a paixão pelo jornalismo. Sempre na rádio, fiz programas de autor e noticiários… até entrar na faculdade. Depois o tempo escasseou… e apareceu a televisão! 

5) Quem eram os seus jornalistas de referência durante a sua adolescência? Porquê?
Lembro-me do José Rodrigues dos Santos, da Judite de Sousa, do Mário Crespo, a Luísa Fernandes, a Paula Magalhães, o Carlos fino. A imagem, o rigor, deixavam-me nervosa e entusiasmada ao mesmo tempo. Mas eu era mais rádio… o fascínio das vozes: o Sena Santos, o Adelino Gomes e, noutra vertente, dois Antónios: o Macedo e o Sala. 

6) Onde se forma como jornalista?
Estudei no Instituto Politécnico de Portalegre, formei-me em Jornalismo e comunicação. Eu e mais uns quantos colegas provámos que é possível vingar no mundo profissional. Sem falsas modéstias. Lembro-me de alguém me perguntar se era ‘o Portalegre do Alentejo?’. Era, pois era. O curso deixou-nos muito preparados mas claro que só a prática nos dá tudo. Sentimo-nos muito orgulhosos por ter chegado a uma redacção e saber escrever uma notícia. Não temos poderes mágicos mas sabemos que a realidade é bem diferente. Ainda durante o curso estagiei na Antena 1 e TVI e passei por 2 empresas de comunicação. 

7) Qual foram os seus primeiros trabalhos no jornalismo?
Na rádio foram vários, não me lembro. Depois de terminar o estágio trabalhei numa empresa de comunicação que tinha vários projectos de publicações: saúde, desporto, académica. Como estive no desporto, na Antena 1, estava mais confortável na área. Depois, passei por outra agência de comunicação onde escrevi sobre saúde. Essa foi uma área em que trabalhei bastante na TVI. Sei que no meu 2º dia de estágio em Queluz fui para o aeroporto com o repórter de imagem, esperar o corpo de uma português morto no Brasil. Dramático. Agosto. Horas a fio. Sol insuportável. Resistimos! 

8) Lembra-se ainda do seu primeiro directo em TV. Que peça apresentou. Lembra-se?
Lembro. O 1º directo aconteceu exactamente um ano depois de ter entrado para a TVI pela primeira vez, nessa altura ainda enquanto estagiária. Foi um directo de um incêndio no Belas Clube de Campo. Foi no Jornal Nacional, ainda não havia TVI 24. Acho que não correu mal… No estúdio, foi no dia 28 de Fevereiro de 2009, o TVI Jornal, às 14h. 

9) Pivô ou repórter? Porquê?
Jornalista! Sempre! Enquanto jornalista preciso muito procurar, escrever e contar. Não faz sentido ficar só à espera que as notícias venham ter connosco para as comunicarmos. Faz sentido sermos nós a contá-las. E, de resto, um bom pivot é aquele que conhece a historia e a História. Que já esteve nos locais e sabe do que fala. E para isso é preciso trabalhar todos os dias. Informar e ser informado. Nada cai no colo. Não há sucesso sem trabalho. O estúdio dá-nos a postura que precisamos ter na rua, ensina-nos a ser disciplinados e mais formais. Hoje os pivots já são jornalistas e não vamos ser hipócritas: toda a gente sonha com o lugar de pivot. Eu também sonhava mas mais nunca pensei que fosse uma realidade tão próxima!! Tenho um amigo que diz ‘hei-de estar a passar a rua, de bengala, e os meus olhos vão andar à roda à procura de uma história’. Nada mais certo! 

10) Como foi dar a conhecer aos telespectadores a residência oficial do Presidente da República?
Foi um trabalho muito engraçado. Um formato diferente, que apresentámos no Diário da Manhã. Pessoalmente, já conhecia o Palácio de Belém mas foi uma visita muito particular e muito agradável! Encontramos sempre coisas novas! 

11) Lembra-se de alguma situação caricata em TV, que quando se recorda da-lhe vontade de rir, pelo acontecimento em si?
Várias… os realizadores esperam pelo final do jornal ou pela meteorologia para ‘aliviar um bocadinho’ e essas alturas são complicadas de gerir!! Eu consigo mas nem sempre é fácil, há toda uma equipa a rir e nós temos de aguentar! São períodos muito longos, a concentração é máxima e há sempre qualquer coisa que falha. Lembro-me de ter um editor a cantar os parabéns no meu auricular, durante o jornal, um assistente debaixo da mesa porque houve uma falha técnica, de ter trocado de camisa no meio do estúdio. 

12) Para si, o que é ser jornalista?
É levantar pedras, mexer em papéis, acordar pessoas, fazer perguntas incómodas e não esperar as respostas. É respirar fundo, dormir nos intervalos do trabalho. É superar-se todos os dias, procurar mais, fazer melhor e ir mais além para contar aquilo que as pessoas ainda não sabem. Ensinaram há muito tempo que, independentemente do interesse que representam, todas as histórias são dignas e merecem, por isso, ser bem contadas.
Acredito que ser jornalista é quase como ser mãe: não ter horas, estar sempre disponível, sempre à procura do melhor momento e ter sempre uma palavra preparada. Na crónica do 2º aniversário do jornal ‘i’, Hugo Gonçalves dizia que «não é a mesma coisa ser jornalista e ser electricista. (…) Ninguém percebe de fusíveis e no entanto toda a gente comenta notícias. Ser jornalista é mais que um ofício, é uma tirania que se escolhe.” Ser jornalista é difícil mas não trocava esta vida por nada!

13) 4 de Setembro de 2009. Que horas eram quando soube que seria a Patrícia a apresentar o Jornal Nacional de 6.ª, que até então tinha Manuela Moura Guedes na sua condução?
Nunca falei sobre este assunto. Já passaram quase 2 anos, já há algum distanciamento. Mas esta vai a ser a única vez. Sem me alongar… temos de recuar um dia. Soube no final do dia 3 de Setembro. 

14) Por quem soube que seria pivô nesse dia?
Fui convidada pela Manuela Moura Guedes. Perguntou-me se apresentava o jornal. Disse que sim. Fui convidada, não obrigada. Ao contrário do que se disse na altura.

15) Que misto de sensações a rodearam nesse momento e mais tarde às 20 horas em ponto, quando sabia que muitos portugueses queriam saber o que iria acontecer?
Aconteceu tanta coisa nesses dias que nem sei o que senti. Foi uma tarde muito complicada. Nervosismo, obviamente, e grande responsabilidade. O país inteiro estaria a ver o jornal naquele dia e a razão não era, naturalmente, por ser eu a apresentar.

16) Teve a oportunidade de falar com Manuela Moura Guedes após a apresentação do jornal? Em caso afirmativo, o que ela lhe disse?
Sim, falámos. A equipa do JN 6ªfeira estava à minha espera à porta do estúdio. A Manuela agradeceu o meu trabalho e eu agradeci o voto de confiança. 

17) Como vê o TVI 24 no mundo do jornalismo?
Como uma potência emergente, assim como uma economia poderosa! Conheço bem o canal, ajudei ao nascimento. Está a dar passos pequenos mas sólidos e isso é o mais importante. Saímos em último lugar: lutamos contra o hábito, a História mas não desistimos, nunca! 2011 vai ser o ano do TVI 24.

sexta-feira, 27 de março de 2015

"A VIDA É UMA PEÇA DE TEATRO"

GABRIEL VILAS BOAS
Certo dia, Shakespeare escreveu que “a vida é uma peça de teatro que não permite ensaios, por isso, cante, dance, ria, antes que a cortina desça e a peça termine sem aplausos”.

Não precisamos de fazer das nossas vidas uma peça de teatro, mas a vida de cada um ficará muito mais rica se deixarmos que o teatro faça regularmente parte dela. Como já escrevi noutras ocasiões, o teatro é um espetáculo único, total, apaixonante. É um privilégio fazer parte desse mundo; para o espectador é um deleite.

No Dia Mundial do Teatro, desejo apenas transmitir-vos um pouco da minha paixão por esta arte maravilhosa. Podemos vivê-la sob várias perspetivas que de todos os ângulos sairemos satisfeitos e bem mais ricos. 

A mais arrebatadora forma de sentir o irresistível poder da arte de Molière é representar, embora também seja a mais exigente. A mais fácil é sentarmo-nos na plateia e assistir a uma peça de teatro. 

Devíamos ter o saudável hábito de ver, no mínimo, uma peça de teatro por mês. É um vício bom que enriquece a alma, o espírito e o corpo, que redescobre no teatro gestos esquecidos nas brumas da memória. 

Como todas as coisas extraordinárias, o teatro não é uma arte fácil. Nela apenas triunfa quem tem talento, persistência e personalidade. Uma professora de teatro que tive costumava dizer, frequentemente, que “no teatro não podemos ter medo do ridículo”.

Saber deixar a pessoa que somos e mergulhar na personagem que nos coube é o primeiro grande desafio que o teatro coloca ao candidato a ator. Quem vence este primeiro obstáculo, em cima do palco, frente a um público que conhece do contacto social, está apto para que o encenador trabalhe o seu talento, sob os auspícios das grandes obras dos dramaturgos. Entre estes, prefiro Sófocles, Shakespeare e Molière. 

Um ator de teatro não pode aspirar à glória social nem a uma conta bancária de relevo. Trabalhará sempre por paixão, sem contar as horas noturnas consumidas em ensaios nem reparar no magro salário ou no pouquíssimo público presente na plateia. Mas nada há a lamentar: as paixões são loucas, insensatas, arriscadas… maravilhosas!

O teatro também é exigente com o espectador. Em primeiro lugar, obriga-nos a vencer o sedentarismo que nos envenena o espírito. Depois necessitamos de gastar dinheiro no bilhete, nas viagens, no estacionamento. Por último, requer algum conhecimento sobre a peça a que vamos assistir. Para aqueles que estão habituados às coisas fáceis e sem sabor desta vida, estas são razões mais do que suficientes para desistir. Para aqueles que gostam de desafios, o teatro é uma sedução permanente.

O meu conselho é que deixe que o teatro enriqueça a sua vida. Vença a inércia, entre num teatro e assista a uma peça. E regresse na primeira oportunidade. São raros os casos de intolerância a este medicamento cultural. Hoje é um ótimo dia para começar. Há Teatro um pouco por todo o lado: no Porto, no Teatro Nacional São João temos a peça “Fim das Possibilidades”; em Lisboa, no Teatro Nacional D. Maria II, pode-se ver “Pirandello”. Em ambos os casos a entrada é livre. A minha sugestão para quem está próximo de Vila Real é a imortal peça de Molière “O Avarento”, levada à cena, no teatro local, pela companhia Ensemble – Sociedade de Actores, onde pontificam Jorge Pinto e Emília Silvestre.

Shakespeare tinha absoluta razão: a vida é uma peça que não admite ensaios, por isso deixe de ensaiar mais desculpas e vá ao Teatro!

quinta-feira, 26 de março de 2015

ABISMO (OU DE COMO CUMPRIMOS DESEJOS DENTRO DO ABISMO)

        Pieta (detalhe), de William Bouguereau. 
Dedico à Filomena Teixeira, mãe do Rui Pedro.


Era um desejo que eu trazia cá por dentro que quase me pareceu impossível de cumprir.
Era um desejo em forma de vontade, que nem chegava talvez a assemelhar-se a uma ambição. Era simples, pequenino, despretensioso, mas que, ainda assim, me pareceu quase impossível de concretizar.
Durou mais de um ano, essa vontade. Não se apagou. E mais duraria, outro e outro e outro ano, até conseguir concretizá-la. E mais duraria, parafraseando Camões, se não fora, para tão simples desejo, “tão curta a vida”.

Em janeiro de 2014, eu publicava a minha antologia de contos ATÉ SER PRIMAVERA. O desejo que eu trazia dentro de mim estava, portanto, guardado nesse livro. Estava conjugado, portanto, na forma de palavras. Não eram palavras que as levassem o vento. Não eram palavras que me tivessem saído ligeiras da ideia, não eram palavras sem peso. Eram palavras que, juntas, formavam um pequeno conto. Um conto que não ganhara um título fácil, não era um título sem peso: ABISMO.

ABISMO: eram palavras escritas, da primeira à última letra, a pensar numa pessoa em especial. Eram palavras que estavam guardadas dentro de mim e quiseram sair para a forma escrita e, mais do que isso, passaram a ser palavras publicadas. Era justo, então, na minha ideia, que a pessoa a quem dedicara cada gesto na escrita daquele conto, cada letra, cada pausa, cada cadência, cada respirar, cada sopro, tomasse conhecimento de que havia um conto que lhe era dedicado. Era para a Filomena, mãe do Rui Pedro. É assim que a senhora é conhecida: Filomena. Qual Filomena? A MÃE DO RUI PEDRO.

Comecei logo a tratar de arranjar forma de a contactar. O meu desejo era simples, tão simples e pequenino: eu queria, apenas e simplesmente, fazer-lhe chegar o livro, para que ela soubesse que o conto ABISMO lhe era dedicado, para que ela, se quisesse, pudesse lê-lo. Eu pretendia concretizar essa minha vontade – a de lhe fazer chegar o livro – da forma mais simples, da forma que causasse o mínimo de perturbação à sua vida, sem querer criar qualquer tipo de transtorno. Pensei então que a melhor forma seria fazer-lho chegar via correio. Não era também minha pretensão obter o endereço da senhora, bastava-me que alguém, de boa-vontade, que a conhecesse, se dispusesse a fornecer-me um endereço para onde eu pudesse enviar o livro e que essa pessoa de boa-vontade se comprometesse a entregar-lho. Para desejos simples, procedimentos simples. 

Há pessoas que não gostam de ajudar. Nunca tive dúvidas disso. Não estão vocacionadas para ajudar. Estou constantemente a deparar-me com essas pessoas e com o oposto dessas. E logo havia de me deparar com alguém que dizia ser seu familiar, que, na sua ânsia de não querer saber, de não querer ser parte no assunto – que me desculpem todos, mas foi essa a impressão que me ficou –, logo começou a entrar em contradições: que não, que não me arranjava uma morada, que a senhora estava sempre a ser incomodada por estranhos (nada que eu não soubesse ou de que não tivesse a mais clara consciência); que eu fosse lá, a Lousada, e procurasse por ela. Mas, então, o incómodo para a senhora não seria muito maior se (mais) uma pessoa estranha andasse por lá a perguntar por ela, a tentar falar com ela? Eu disse ao senhor: o senhor não tem vontade de ajudar, não tem. Pronto. Desejei-lhe sorte na vida. E despedi-me. Isto foi tudo por mensagem. Foi um contacto que eu tinha conseguido e que me parecia aquilo que vulgarmente designamos de “luz ao fundo do túnel”. Enganara-me. 

Posto isto, foram contactos e mais contactos, pesquisas na internet, redes sociais, buscas pelos canais de televisão, por instituições ligadas ao Rui Pedro e a crianças desaparecidas, só não contactei com as autoridades porque não quis chegar lá. Muitas mensagens enviadas. Nem uma resposta.

O tempo, essa heradeira que tudo cobre, foi passando, e eu sempre com o meu desejo aconchegado, mantido e bem hidratado cá dentro num cantinho.
De vez em quando, publico um excerto do conto ABISMO, no meu mural do Facebook. Tenho o hábito de partilhar muito do que publico. Gosto de ver reacções ao que escrevo. 

E foi então que apareceu aquela pessoa de boa-vontade que eu procurava. E tudo foi feito como eu tinha entendido, ou seja, via CTT, com o mínimo de perturbação possível.
Estou eternamente grata a essa pessoa e já tive a oportunidade de lho dizer. Fez o apanágio ao título metafórico do livro – não desistir: ATÉ SER PRIMAVERA.

O livro chegou às mãos da Filomena, a Filomena já leu o conto.

ABISMO
Diz a mãe:
«Desci a profundidades que julguei não me estarem destinadas.
Por vezes solta-se um tempo que atravessa tudo, atravessa espaço, e parece atravessar o próprio tempo, não deixando margem para mais nada que não a saudade profunda que se crava como um punhal no meu peito. É como se eu tivesse outra vida e volta e meia ando a vivê-la, sombras encarniçadas, sobre mim como fantasmas. Não têm nome as pedras que piso, ou sequer os dias. Assola-me o frio cada dia mais frio. Estremeço a cada instante, como assombrada por uma debandada de morcegos, varados por um tremor inesperado na noite escura, no negrume lúgubre da noite. De repente, um bafo morno como os que antecedem as tempestades.
Aprendo a viver a vida a metade, as cicatrizes crescem-me no corpo diminuído. Dizem que vivo para ser forte, mas só eu sei dos braços tenebrosos em que caí, só eu sei que não vejo o tempo, que vejo a demora incessante que leva a voltar-me a luz aos olhos.  
E a casa: há uma retentiva por toda a casa, da tua presença. A casa está cheia de memórias, são as memórias que suportam a casa.»*

Diz o filho:
«Fazes-te a juntar peças, a recolher evidências: provas, fotografias e amostras. Escreves tudo, apontas as horas. Sabes o que os outros pensam disso, que contribuis para o enorme arquivo que é o mundo do crime, do caos por resolver, dos horrores que nunca chegam a ser vingados. Sabes o que pensam, mas prossegues, silenciosa. Fazes o teu retiro nas solidões do deserto, alimentas-te da água da esperança e das raízes que te seguram pelos fios finos do tempo. Para os que andam em viagem pelos longos e inóspitos caminhos, não existe melhor visão do que uma fímbria de luz. Mas tu não vês a luz. Caminhas rente à escuridão.
Tu, que andas por aí perdida, entre a multidão, viajando por entre as trémulas aragens do vento, tu. És tão distante de tudo, que mais pareces irreal. Que guardas na memória? O que vês no abismo?»*



FILOMENA TEIXEIRA
A Filomena recebeu o livro e leu o conto. E a resposta não se fez esperar. A Filomena deixou um comentário no meu mural e comunicou comigo por mensagem, sensibilizada com o conto, agradecida.
Cara Filomena, não pode imaginar a honra que é para mim saber que tem o conto / livro nas mãos. Tenho por si o maior respeito e admiração. Não sei explicar a sua dor, mas sei que não há maior dor no mundo, isso eu sei.
Escrevi o conto a duas vozes, mãe e filho, como se me fosse soprado ao ouvido um acanhado entendimento, na minha imensa pequenez, do que é esse (não) viver.



ABISMO
Diz a mãe:
«O passado é planta trepadeira que me cobre o corpo e me suga o líquido. E já não me recordando como então chorei, choro de novo agora.
Porque esta vida é um veneno lento, porque consome lentamente o que sobra de mim.»*

*Excertos do conto ‘ABISMO (de um filho desaparecido sem deixar rasto)’, em ATÉ SER PRIMAVERA (anthologia de contos), de Anabela Borges, Pastelaria Studios Editora, 2013. Crónica de Anabela Borges.

terça-feira, 24 de março de 2015

NÃO VOS PEÇO LICENÇA

REGINA SARDOEIRA
Não gosto nada do mundo não posso gostar do mundo proíbo-me de gostar do mundo Entendo por mundo não a bola achatada nos pólos a que deram o nome de terra não o conjunto das galáxias ou o universo que ainda ninguém sabe muito bem o que é mas o outro mundo o mundozinho o mundículo calculo que esta palavra não exista mas pouco importa o conjunto nauseabundo dos seres humanos essas bestas doentes esses celerados esses bandidos todos e cada um convencidos da sua sublime condição de super animais e logo super bestas e contudo rasando constantemente a lama mais abjecta onde nenhum suíno aceitaria espojar-se Tenho-me esforçado muito por amar os homens mas confesso só amo quatro ou talvez cinco desses espécimens de quatro patas cedo erguidas em postura bípede e arrogante e não tenho a certeza se serei amada por algum Ah os tristes homúnculos habitantes do mundículo o deles o pequenino que podem meter no bolso traseiro das calças ou na algibeira do avental e dizerem que lhes pertence que o conquistaram que por ele trabalharam a vida inteira Ah pobres desgovernados parasitas de florestas e mares pobres e desgovernados usurpadores do ar puro do alto das montanhas pobres e misérrimos passeantes de caminhos serranos vós todos nada valeis nada sois nada tendes Sois uma refutação ambulante de vós mesmos estais condenados a um brusco mergulho nas crateras da extinção vejo-vos mesmo já completamente extintos pois o que de vós deambula pelas esquinas da triste escória a que chamais cidades e moradas não passa de um fantasma deformado e feio Como sois feios todos vós e eu convosco pois arrastastes-me e eu deixei-me arrastar não tive nunca outra escolha a não ser a crença ingénua na beleza de alguns súbitos clarões mas eis que tudo isso a que chamei de súbitos clarões não consegue fazer a diferença não consegue salvar-vos e a mim da podridão qual catástrofe arrepiante entranhada no que podia ser e não é Estais condenados e eu também porque pertenço à minoria e as minorias são lançadas aos pântanos e estiolam nos desertos e vós mesmo sendo a maioria acabareis numa degolação recíproca fratricida e contudo desejada pois sem saberdes como tendes a intuição da vossa monstruosidade Não não nem análise é preciso fazer nem jornais vale a pena folhear nem conversas precisamos de ter seja sobre o que for o pormenor é apenas o sinal inequívoco do todo o pormenor é a distracção absoluta da massa gigantesca que é tudo o resto e essa não tem a menor hipótese de resistir E vós que por acaso nem eu sei que força poderá ser a desse acaso estais neste momento a ler esta página desisti desde já do vosso pensamento inicial porque eu não sou uma desgraçada nem nada disso que vos passa pela cabeça ou por esse mundículo que transportais numa certa algibeira não sou embora o meu cepticismo seja radiccal absoluto supremo e todos os outros superlativos já inventados e ainda por vir e é por isso que ao contrário de me pôr a chorar pelas vossas tais esquinas aquelas de que já falei antes desato a rir a rir tanto que subitamente tudo se ilumina na explosão grandiosa do meu riso e eu vejo que sem vós principalmente sem vós sem o vosso pseudo-amor pegajoso e chorão sem a vossa pseudo-amizade comezinha e traiçoeira sem a vossa pseudo-admiração perlada de inveja e de escárneo raivoso sem vós homúnculos deformados do mundículo afunilado estou plenamente imbuída de mim e em mim adejam as asas de todos os outros que não vi que não sei mas que são a magnífica parcela ínfima dos iluminados E não há nenhuma pontuação neste texto que soltei agora mesmo livre e imaculado se imaculado pode ser este meio que usamos para dizer o sentimento e vertê-lo em ideias porque o sentimento é assim mesmo livre de prisões de todas elas mesmo as carcereiras por que suspirais na prisão dos vossos cérebros de homúnculos elas as vírgulas ou eles os pontos e mudai o género das palavras se quiserdes porque nem a isso me obriga o poder do génio que carrego.

segunda-feira, 23 de março de 2015

ARES DE PRIMAVERA

CLARA CORREIA
Ei-la que chegou! … a Primavera, pois! … quanto mais não seja a reboque da implacabilidade do calendário que dita ao Tempo que é chegado o tempo de nova estação e … assunto encerrado! … mau grado os eventuais caprichos de outro tempo, o meteorológico, a meter-nos na linha no que respeita à nossa modesta e legítima ambição de pôr os casacos, não pelas costas, mas para trás delas. Não obstante, o sol, quando não lhe é tirado o protagonismo pelas nuvens, prolonga a sua anterior, e invernosa, “visita de médico” … e agora até parece, e ainda bem, utente do SNS nas urgências e no auge da gripe.

Somos mediterrânicos, benza-nos Deus! … e quem nos tira o Sol, tira-nos tudo e mais alguma coisa, nomeadamente, a vontade de não nos encafuarmos nos centros comerciais onde, como no mar (e como escreveu Sophia de Mello Breyner), não há estações do ano, mas com a agravante de também não haver condições de vida para a chamada “luz natural”, nem condições acústicas para se propagar a melodia do vento, nem, tão pouco, as imprevisibilidades paisagísticas da serra ao longe, excepcionalmente bem delineada por ausência de neblina, ou de um hipnótico crepúsculo carmim-electrizante a encher-nos as medidas dos sentidos e da objectiva da máquina fotográfica.

Pois a verdade (e esta verdade, além de absoluta, merece ser celebrada por ser anual) é que, mais tarde ou mais cedo, e mais ou menos pela altura pascal, todos nós damos um ar da nossa graça primaveril (abafada pelo Inverno), seja no sumiço dado às golas altas e nos pedaços de pele exposta a flirtar os raios solares, seja nos comentários inevitáveis à meteorologia, que passam, finalmente, a barreira da monotonia e do pessimismo e, sendo Primavera, aumenta o risco de serem acompanhados por um largo sorriso … primaveril, claro está! Há, e haverá sempre (claro esta, também!) espíritos impermeáveis a estes preâmbulos de “silly season” e, sem qualquer presunção de julgamento, terão a sua própria razão e direito de opção. Apanhemos, enfim, a onda do renascimento sazonal da Natureza, por excelência, e renovemos a nossa alma, as intenções esquecidas, as relações esmorecidas e conceitos já com mofo, não só da humidade do Inverno mas também da mente, se esta resiste à mudança … e à esperança, a precisar, também ela (a nossa esperança) dos ares de Primavera!

domingo, 22 de março de 2015

QUIMERA

MIGUEL GOMES
Falaste na Primavera. 

Para mim bastou-me, foi como se a própria palavra te sobrasse pelos ramos e tu mesma florisses.

Aliás, sempre te vi em flor. 

Renascida a cada cinza atiçada, não como fénix, mas como uma companhia solitária há muito desejada.

A estrada caminhou ao meu lado, conta-me histórias de várias léguas, medidas distantes para chegar a quem nos quer hoje como antes. 

Eu não falo. 

Basta-me ouvir-me e desabafar com o vento, esse, de repente, sem se mostrar interessado, começa a soprar quando paro de falar, apenas como quem me diz, vá, continua, estava a ouvir. 

Tem uns trejeitos de adulto criança, fingindo ouvir quem de si se fala, mesmo quando aborrecido desata a brincar a meus pés, mesmo que isso represente levantar areia e pó para os olhos, trazer consigo gotículas de um mar que ribomba ali, ao fundo, embrulhado com a praia, ali, ao fundo, nas mãos petizes da menina que segura a sua saia.

Faltarão menos de quarenta passos, uns quantos sacrifícios agarrados aos braços, para se erguer no monte aquela que te fará ao nome, chamar-lhe-ião cruz, mas tu de baptismo nasceste apenas jesus e eu, de metáfora baptizado, primeiro e último nome da parábola, finjo que não te ouço quando sobre mim paira o fino fio do aço da espada. 

Sim, parece-me que sem nós somos mesmo nada.

Já o vento se espreguiça, adivinho-o entediado, ouviu-me falar dos passos e das passadas e conhecendo os meus passados, sabe que o primeiro movimento que farei será permanecer no mesmo local, imóvel, a aguardar que as estrelas se conjuguem, logo a seguir às vogais, da mesma forma que estavam quando olhei para cima e vi, claramente, outro eu que para mim olhava.

Não, parece-me que sem mim não sou mesmo nada.

Se o vento empurra para barlavento estradas que nunca percorrerei, sobejam-me todos os volumes que cubiquei, terra sobre mim que jorrei, para continuar no defeso da imaginação e ver surgir um confuso Alma Grande que traz Garrincha pela mão.

Saído do ventre que me pariu, aterro neste corpo que nunca minh'alma viu, excepto pelos desacordos e pelas peregrinações que faço entre versos ou, então, pelos universos, todos eles feito de olhos acessos que é como quem se vê pela primeira vez visto.

Ah, agora sim, eu sem mim sou isto!

Desajeitadamente arranjo o colarinho e dou uns passos a olhar os pés, enquanto o piso de madeira não me faltar sei que em ti está quem és, mas mesmo que me saiba de papel feito, não como avião ou barco, mas como textura e secura de palavras e vidas, as mesmas que mencionei não serem partidas, esta respiração arritmada que me escreve entre a parede e a espada.

Canso-me um pouco da procura, a miragem que a tua ausência tem está em cada olhar mais profundo que escavo, encontro um ou outro sonho escravo, sei que me dizem não ter eu cura, pouco me interessa tal agrura, se me encontram doente, que farão quando virem que é na ausência de tempo que tudo perdura?

Hoje não, que me cansa a noite e não sou de alterar discursos, mas um dia, lá para meados de mim, irei acordar o corpo a cada manhã e esquecido que sou dos sonhos que prometo, irei ver-me pelos meus olhos, segurando o espelho retrovisor entre os dedos, ah eu não sou cá de medos, tão pouco segredos, e alcançarei aquele pulsar longínquo que me faz alimentar o mundo porque as palavras têm pouso, mas quem escreve sonha voltar novamente vagabundo.

Distraio-me nas cores do poesia, ainda que em prosa, tu abres-me o vidro e entra por mim o cheiro de ti e de maresia, falas-me nas cores do arco-íris que viste numa rosa. Sem ti o que faria? 

Já tinha esquecido que tinhas-me falado da Primavera...

Sorris. Sorrio. Sem nós a nossa vida era uma quimera.

sábado, 21 de março de 2015

PRIMAVERA DA POESIA

CATARINA DINIS
Sem dúvida, este dia 21 de março só podia ser símbolo da primavera e também da poesia. 
Que simbiose perfeita, a alegria, as palavras, os sentimentos.

E mais do que nunca está nas nossas mãos viver, sonhar, criar, moldar o nosso destino.

A primavera é luz, a cor forte e intensa. 

O novo renascer, depois da escuridão do inverno, chega a esperança …eu encaro a poesia da mesma forma. Tão livre que esvoaça pelo céu azul e límpido em busca da felicidade.

Oficialmente, a primavera entrou ontem às 22h45min

sexta-feira, 20 de março de 2015

FARTOS DE SEREM HUMILHADOS

GABRIEL VILAS BOAS
Se há coisa que pessoas cansadas, desiludidas e desesperançadas precisam é de se sentirem humilhadas. Nesse particular, podemos estar descansados que aqueles que nos governam não têm deixados a humilhação por terras alheias.
A dose tem sido tão… cavalar que o Jean-Claude Juncker já pediu aquelas hipócritas desculpas, próprias dum qualquer engomadinho de Bruxelas, mas PPC logo declarou, todo indignado, “não tem nada que se sentir mal, nós andávamos precisados dumas palmadas assim, que esta coisa de andar com as costas direitas não é coisa lá muito portuguesa”. E nós lá engolimos em seco mais uma indignidade que nos fizeram passar.
Antes já o ministro dos Negócios Estrangeiros tinha pedido desculpa ao governo mais corrupto de África porque, em Portugal, alguns juízes teimavam em investigar suspeitas de corrupção de alguns dirigentes desse país rico em petróleo, diamantes e que fala português. O mesmo ministro que anda a sensibilizar os seus homólogos a europeus a favor da Guiné Bissau, cujo governo assaltou o poder e não foi reconhecido como legítimo. Mas entretanto, no Palácio das Necessidades já se esqueceram disso. Como se esqueceram de se opor à entrada, na CPLP, dum país que fala francês e vive em ditadura.
Entretanto em Timor alguns cidadãos portugueses que exerciam, com a coluna na vertical, a difícil missão de julgar foram expulsos do país que ajudámos ser livre e independente, sem que o nosso governo pedisse umas meras explicações às autoridades timorenses.
Entre portas, o ministro da saúde acha perfeitamente possível pagar milhões a instituições privadas de saúde ao mesmo tempo que um milhão de portugueses não tem médico de família. Mas ninguém bate o ministro da educação quando se fala de humilhar publicamente a sua gente. Ciente que não há maneira melhor de motivar os professores, Nuno Crato não achou interessante arranjar dinheiro para pagar aos professores do ensino artístico, não julgou pertinente dedicar umas semaninhas de julho e agosto a colocar cinco mil professores contratados a tempo e horas nas escolas, mas acha primordial para a educação nacional humilhar os professores em geral e os de inglês em particular.
Não podendo implodir o ministério como desejaria, resolveu metodicamente arruinar a dignidade daqueles que dia após dias tentam formar as gerações futuras. Há dois anos teve a genial ideia de comprar à universidade de Cambridge uns exames de Inglês que os alunos do 9.ºano fariam facultativamente e que serviriam para atestar o seu nível de proficiência, em inglês. Tudo anunciado com pompa e circunstância. Os professores portugueses não eram suficientemente competentes para atestar o que quer que fosse, tinha de ser Cambridge. Para provar a seriedade e solenidade da coisa, os testes foram feitos a lápis (imposição de Cambridge) e quem quis o certificado teve de pagar 25 euros, que em matéria de negócios e seriedade não há como os ingleses. Entretanto os resultados apareceram nas escolas um mês depois das notas de final de ano saírem. Foi comovedor!
No entanto, Crato ainda não estava satisfeito quanto ao nível de moralização das suas tropas e este ano foi mais longe. Como os ingleses, apesar de receberem bem do ministério e de quem lhes quis pagar pelo carimbo, não estavam para ter a canseira de corrigir testes dos portuguesinhos mandaram dizer que este ano não corrigiam testes nenhuns, mas também não admitiam que outros os corrigissem, porque eles acham que os professores de inglês, licenciados pelas universidades portuguesas, não têm competência técnica para corrigir um teste de inglês dum aluno do 9.ºano.
Perante isto, o que fez o governo de Passos Coelho? Mandou dizer aos ingleses que não havia problema nenhum, pois obrigaria os professores portugueses a corrigir gratuitamente o teste de inglês que Cambridge mandava pelo correio. E para que os ingleses notassem bem em quanta desconsideração tem os professores portugueses, o ministério de Nuno Crato anunciou que obrigará os professores de inglês a frequentar uma ação de formação para adquirir a competência de… corrigir uns testes de inglês do 9.º ano. Cambridge acha que os nossos professores de inglês são tão burrinhos, mas tão burrinhos que não sabem aplicar a correção da prova que eles nos vão enviar a troco duns valentes euros. Na verdade, recebem a dobrar para fazer duas coisas que uma criança de 10 anos era capaz de fazer: fotocopiar uma prova e ensinar a aplicar a correção da mesma prova enquanto os portugueses trabalham de graça e deixam de dar aulas aos seus alunos para satisfazer caprichos do ministro (onde é que estão as associações de pais tão diligentes quando há greves de professores? Onde estão os superiores interesses dos alunos que agora já podem ficar sem aulas?). Like a slave!

Como já escrevi noutras ocasiões, a humilhação é uma coisa que se estranha, mas rapidamente muitos entranham. Na última década, os sucessivos ministros da educação amoleceram a consciência ética e profissional de muitos docentes. Talvez por isso os professores de inglês estejam pouco acompanhados na sua luta, um pouco à imagem dos professores na sociedade portuguesa, mas é na sua coragem e determinação que eu deposito a esperança dum país bem melhor.

quinta-feira, 19 de março de 2015

O CONTEXTO DA TERESA COM TEXTO

HÉLDER BARROS
A Teresa tinha 16 anos e estava institucionalizada num lar de acolhimento de menores, pois que a sua família não reunia competências sociais e meios físicos, para realizar a sua educação com o mínimo de estabilidade e de salubridade mental.

Andava a frequentar um curso vocacional, numa escola pública, com equivalência ao 6.º ano de escolaridade, pois que a sua relação com a escola tinha sido até ao momento, muito complicada, com inúmeras retenções, problemas no âmbito disciplinar e de absentismo. Um verdadeiro caso perdido…

A sua vida até aqui passou por múltiplas fugas do lar de acolhimento e à escola, pois desde muito cedo procurou e foi tentada pelo lado mais aliciante e, concomitantemente, mais perigoso da vida, que passava por permanecer na companhia dos rapazes e das raparigas mais rebeldes, que preferiam ir fumar tabaco e outras substâncias mais perigosas e desafiantes da sua rebeldia em jardins, ou espaços abandonados e ermos da vila. Tudo menos ir às aulas, isso era uma seca para Teresa!

Gostava muito de beber até cair para o lado, experimentou de tudo um pouco, mas preferia os "shot's" que rapidamente a faziam perder a noção da realidade e que a faziam viajar por mundos loucos, até mais uma aterragem num banco traseiro de um carro qualquer, cujo dono, nem sempre conhecia, mas isso também pouco lhe importava.

Claro que à bebida se misturavam, não raras vezes, substâncias ilícitas, como fumar “charros” e tomar “speed’s”, produtos químicos que aceleravam o seu ritmo cardíaco e lhe provocavam sensações de euforia, de autoconfiança, de uma falsa sensação de liberdade, consubstanciada em viagens mentais alucinantes, de curta, mas de intensa duração… mormente, nas primeiras vezes em que são consumidas, depois é só dependência física e/ou psicológica. O remédio será sempre aumentar a dose ou mudar de substância, no sentido, de encontrar aquela droga mágica… a tal!

Muitas vezes, quando acordava num monte ermo ou numa valeta rodoviária, encontrava-se de tal forma desorientada e perdida, que se punha a apanhar boleia na margem de uma qualquer estrada. Teresa era uma menina muito linda, com um corpo e um rosto deslumbrantes e que, embora se encontrasse quase sempre desgrenhada e sem os cuidados de higiene mínimos, conseguia atrair a atenção dos automobilistas e dos camionistas que passavam e que, pelo menos, lhe rendiam sempre uma estrondosa buzinadela, ao que respondia mostrando o dedo do meio das duas mãos.

Nestes casos, viajava quase sempre de forma automobilizada e era abusada física e sexualmente, muitas vezes em estados de inconsciência, depois de ter sido alvo de agressões físicas, ou do abuso de álcool e do consumo de substâncias psicotrópicas.

Deste modo, os dias passavam e a Teresa enganava as aulas e o lar, com fugas recorrentes, revelando-se as duas instituições estatais impotentes para reverter este estado de coisas. Quando desaparecia da escola, comunicava-se ao lar, que avisava as autoridades policiais, o Tribunal de Menores, a Segurança Social, para mais uma fuga da Teresa. No lar era natural a polícia ser visita de final de tarde, para resolver mais um problema de violência entre pares, de utentes para com as instalações, de utentes para com os funcionários, ou tutores, e, devido a roubos e a outros pequenos delitos.

A sensação de impotência da Instituição de Acolhimento para com os problemas de insubordinação e de indisciplina dos utentes era, por demais, evidente. A recuperação da generalidade destes jovens tornava-se, em muitos casos, uma “Missão Impossível”, uma utopia social. É que colocar pessoas com muitos problemas pessoais e relacionais no mesmo espaço limitado, não pode correr lá muito bem. Aliás, na escola, passa-se o mesmo, qual laboratório social; quase sempre os casos mais complicados são agrupados em turmas “especiais” e depois é o caos, como não poderia deixar de ser…

A Diretora de Turma que era a docente de Português encontrou uma forma criativa de fazer a caraterização sóciofamiliar dos seus alunos. Numa das aulas do inicio do ano solicitou aos alunos que descrevessem a sua vida familiar, a relação com os seus pais e familiares mais próximos, e, os problemas que os alunos tivessem consciência de afetar a sua relação com a escola.

Pois, mas para a Teresa foi mais uma chatice, como ela costumava referir. Ela começou a interrogar-se, embora só em pensamentos dispersos, sobre o conceito de família. A ideia muito remota que guardava dos pais tinha apenas a ver com réstias de memória muito difusas de cenas de violência gratuita, que guardava das inúmeras discussões dos seus pais, ambos toxicodependentes e alcoólicos que viviam obcecados pelos vícios que os consumiam. A vida deles passava por conseguirem mais uma dose, mais uma bebedeira, tudo menos o horror da sobriedade, o choque com a realidade que os aterrorizava.

Será que poderia falar da sua experiência no lar de acolhimento, em que sentia que era mais um fardo existencial para todos, que as pessoas que lidavam com ela já não a suportavam, sentia-se sempre a mais, uma peça que emperrava o sistema montado, pelos problemas que ela, recorrentemente, tendia a criar.

Depois de alguns minutos de meditação atormentada, Teresa decidiu não escrever nada. Primeiro porque dá menos trabalho, depois, porque não há nada a dizer, ou a saber…  E, afinal, se a vida nos esvaziou, porque diabo teremos que falar disso, também será uma valente seca. O facto de nada termos a dizer, também tem a ver com o nosso contexto de vida e temos direito ao silêncio, por comodismo ou por protesto, quanto a essa realidade inexorável!


Irónico será constatar que, o último reduto de defesa da Teresa, foi sempre essa instituição que a Sociedade tanto despreza, a Escola Pública, que fez sempre um grande esforço de inclusão, nunca desistindo deste e de outros seres humanos. E embora o nosso mundo esteja prenhe de “Teresa’s”, qualquer semelhança da personagem desta crónica com a realidade, trata-se de pura coincidência…

quarta-feira, 18 de março de 2015

GODSPELL

PAULO SANTOS SILVA 
O tema da crónica de hoje, diz respeito a um musical da autoria de Stephen Schwartz e John-Micahel Tebelak, apresentado pela primeira vez na Brodway em 1971. A estrutura do musical é a de uma série de parábolas, retiradas principalmente do Evangelho Segundo São Mateus. Estas mesmas parábolas são, entretanto, intercaladas com uma variedade de músicas modernas inspiradas em antigos hinos cristãos. Também a Paixão de Cristo, é tratada no final do espetáculo. A ideia deste musical, surgiu de um projeto realizado por estudantes universitários da Carnegie Mellon University, que depois se tornou numa produção da Brodway, tendo alcançado um grande sucesso. A ideia deste musical foi, também, de servir como um contraponto ao musical Hair, pois a mensagem que pretende transmitir enfatiza o legado do cristianismo e principalmente da personagem de Jesus de Nazaré, como o filho de Deus e Salvador da humanidade. Um dos autores, Stephen Schwartz, embora possa parecer um ilustre desconhecido, é uma das figuras maiores do teatro musical sendo que é um dos três compositores a ter três espetáculos com mais de 1500 apresentações na Brodway. Na sua galeria de prémios, constam três Grammys, seis Tony’s e três Oscares da Academia (dois com a banda sonora original de Pocahontas e um com a canção When You Believe, do filme O Príncipe do Egipto).

Várias versões deste musical, têm sido produzidas em vários países do mundo, entre os quais Portugal. A última, esteve em cena por estes dias, no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa. No elenco, destacava-se à partida o nome de Mia Rose, sendo que os restantes seriam pouco conhecidos da generalidade do público. Visto o espetáculo, é de inteira justiça realçar a tremenda qualidade do mesmo. Excelentes atores (também cantores e bailarinos), músicos de grande qualidade e uma produção (onde se inclui o trabalho de encenação, cenografia e guarda-roupa) exemplar, transformam este espetáculo num dos melhores que vi recentemente e que recomendaria vivamente a qualquer pessoa. Não terá sido, aliás, por acaso que na estreia estiveram presentes o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente e o Núncio Apostólico do Vaticano em Portugal, D. Rino Passigato. 

Em conversa com o produtor do espetáculo, a pergunta sacramental:

- Para quando o Godspell no Porto?

A resposta foi célere. 

- Não vai ser possível porque não há nenhum teatro disponível. Vamos a Aveiro, em princípio Braga, talvez Guimarães, mas o Porto não vai ser possível porque a Casa da Música é muito cara, o Coliseu é uma sala demasiado grande e cara, o Teatro S. João é Teatro Nacional e o Rivoli e o Teatro do Campo Alegre, que são Municipais, estão fechados a qualquer tipo de produção externa.

Confesso que me encontro, desde domingo, num misto de revolta e estupefação. Que país é este em que alguns municípios fecham os seus equipamentos a quem deles pretende usufruir, colocando nos seus palcos espetáculos de elevada qualidade? Importa referir que a cedência destes teatros nunca foi gratuita, pelo que a argumentação de que os seus custos com pessoal e equipamento não eram cobertos pelos utilizadores cai por terra. Numa investigação rápida, descobrimos que o Teatro Municipal do Porto, dispõe de um Diretor de Programação escolhido em concurso público (polémico, diga-se em abono da verdade…). Na teoria, o Teatro Municipal do Porto funcionará através de dois polos - Rivoli e Campo Alegre - passando a apostar em coproduções e assumindo-se como "uma ferramenta de trabalho dos artistas e companhias", afirmou Tiago Guedes, o programador.

O Rivoli, equipamento central da cidade, estará mais voltado para a dança contemporânea e outras expressões artísticas como circo e marionetas, enquanto o Teatro do Campo Alegre será "um laboratório criativo e uma plataforma rotativa para as companhias da cidade". 

Na prática e conversando com vários agentes culturais, que regularmente levavam os seus espetáculos ao palco destes dois teatros, a verdade é nenhum destes dois espaços está disponível para outras produções que não sejam as próprias ou ligadas à programação própria. Lamentável para aquela que é a segunda cidade do país e que sempre foi uma cidade de cultura. Felizmente que outros municípios não lhe têm seguido o exemplo!